Quinta leitura do ano: este livro de poesias de José Darcy de Carvalho, poeta de Caldas. O prefácio, assinado por Reynaldo Pimenta, diz que ele e o autor são conservadores, mas sempre leio textos assim como posfácios e já havia notado isso ao longo da leitura: são sonetos petrarquianos e nos cinco textos finais, quando Carvalho deixa o formato de lado para compor poemas mais longos, com versos divididos em quartetos ou sextetos, ele jamais usa o verso livre e adota esquemas rimáticos derivados do soneto: AABCCB, por exemplo, no início de Eu, cujo título eu pensava que fosse Tu, devido à curiosa fonte adotada, mas depois da leitura do índice descobri qual era o verdadeiro título. Gosto bastante destes acidentes de leitura, por assim dizer. Fazer algo tão esquemático fora dos sonetos resultou em poesias medíocres, com exceção de Moreninha, na qual a técnica serviu à musicalidade. Eu achei bastante curioso que um livro com 72 anos de um autor conservador ao mesmo tempo teça loas a Deus e, mesmo que o termo não existisse à época, às “9nhas”. É um pouco sintomático que as coisas sempre tenham sido assim. De qualquer forma, essa é uma parte pequena do conjunto e uma reflexão contemporânea – ou extemporânea, melhor dizendo. A maior parte dos sonetos são bucólicos, exaltando paisagens rurais e alvoradas, e alguns são muito bonitos, caso de A Borboleta, Amanhecer, Sobe a Manhã e Manhãs de Caldas.
Sunday, February 08, 2026
Monday, January 26, 2026
Crônicas de um acumulador: The Dark Side Of The Moon, Pink Floyd, 1973
Ontem, numa mega faxina, caiu-me uma ficha: sou acumulador.
Nada tão doentio assim também.
Posso doar ou vender na boa. O que me incomoda é o desperdício ou o apagamento da história. De qualquer forma, tenho coisas demais. Por exemplo: este cassete do Pink Floyd.
Foi presente de uma ex. Quando terminamos, ela pegou de volta o vinil azul do Division Bell que me deu. Tudo bem por mim. Da fita ela não quis saber: quando pusemos para tocar, ela rodou normal, mas a música saía baixinha e parece-me que ao inverso. Foi um experiência curiosa, fantasmagórica. Já era uma fita antiquíssima há 14 anos, quando a ganhei, imagina agora.
Eu devolveria-a tranquilamente; hoje em dia não tenho nada contra essa ex-namorada. Só que não a vejo mais e a última vez que a vi tive a impressão de que ela tornou-se evangélica; um amigo também teve a mesma percepção. Ou seja, um cassete original dos anos 1970 iria pro lixo. Isto sim seria um pecado.
O mais doido dessa história é que mantive a fita, porém jamais gostei deste disco. E justo agora passei a apreciá-lo, ao menos um pouco; mas como disse, já tenho objetos demais.
A fita seria mais um objeto decorativo ou adereço para obra de época. Vendo-a, portanto.
No entanto, se você chegou ao final deste texto, se já somos amigos e se já sei que você é muito fã de Pink Floyd (não daria esta fita para qualquer um), eu te dou esta fita de presente. Eu não gastaria nada com correio; só entrego em mãos.
Friday, January 02, 2026
Uaicais
Saudades à tarde Chuva à noite Mofo em Mariana D.S.L., 18/01/2026
Uaicai 15-2026
É tanto morro Que o exercício tá pago E não morro D.S.L., 20/01/2026
Uaicai 16-2026
Ladeira em Poços Pirambeira em Ouro Preto Força acima ou abaixo D.S.L., 22/01/2026Thursday, January 01, 2026
MELHORES FILMES DO SÉCULO 21
Sunday, April 06, 2025
Subnotas 91
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| Apesar de citar o Bukowski e o Oliver Sacks, a grande influência para que eu escrevesse esta coluna foi o mestre Luis Fernando Verissimo. Foto de Fernanda Peruzzo/Creative Commons. |
BUK
Charles Bukowski é um dos meus escritores favoritos, ainda que tenha sido um ser humano deplorável e que seja canceladaço para as sensibilidades dessa década de 20. Se eu o tivesse conhecido, creio que não gostaria de ficar perto dele por mais de dois minutos. Entre um dos seus contos geniais, há um em que o sujeito, ao sair de casa, de tempos em tempos, depara-se com uma briga interminável na qual os protagonistas trocam inexplicavelmente de lado e quem tentava separar estava brigando com ambos.
METÁFORA
Embora não tenha intenções políticas, o relato assemelha-se muito à volatilidade da política partidária/institucional. Os protagonistas dos contos de Bukowski quase sempre eram o alter ego dele, que não se importava com nada e não queria saber o que estava acontecendo. No entanto, um exercício literário interessante seria transportar a situação para outra, só que arquetípica: a do sujeito que acorda de um coma anos depois.
2005
Imaginem alguém que acompanhava atentamente política e estava em coma há vinte anos, como num livro do Oliver Sacks. Milagrosamente, acorda e logo quer se inteirar de tudo. Ligam a TV e Lula é o presidente. Estranha e pergunta se ficou só uns dias apagado. Esclarecem sua situação mais uma vez. “Mas ele está há vinte anos no poder?”. “Não, aqui não é Venezuela, embora os inimigos dele adorem dizer que é a mesma coisa”.
CHOQUE
Até aí, tudo bem. Antes que tenham tempo de explicar algo, nosso paciente quase tem uma síncope. “Como assim o Alckmin é o vice?”, indigna-se o paciente impaciente ao vê-lo discursando em seguida na TV. Rindo, médicos e enfermeiros contam que até mesmo chamam o vice, de brincadeira, de “Camarada Alckmin”. O paciente recém-desperto esboça um sorriso.
INTERLÚDIO
Nosso amigo paciente pergunta então do grande nome da oposição: José Serra. Em meio às gargalhadas estrepitosas, comentam que acham que ele morreu. Alguém pesquisa no celular. “Não, está vivo, a bolinha de papel não o matou”.
SOSSEGA LEÃO
Os profissionais de saúde ficam preocupados. O paciente é tarado por política, quer saber mais sobre assunto do que sobre sua família e sua condição. “Mas o que aconteceu? Como que o Alckmin virou vice do Lula?”. Tentando resumir, um dos médicos, contrariando seus colegas, explica que após dois mandatos de Lula, Dilma foi eleita a presidente. “A ministra de Minas e Energia?”. “Não era mais, longa história. Aí ela foi reeleita e e sofreu um impeachment”. “Ahn?”. “É, pois é. Assumiu o Temer, que era vice”. “Tá estranho, mas isso é mais normal do que o Alckmin”, tranquiliza-se o paciente.
GRAN FINALE
Ignorando os sinais para que parasse, o imprudente médico prossegue. “Depois do Temer, o Bolsonaro foi eleito presidente, por isso o Alckmin…”. “Ah não!”, o paciente grita e puxa todos os fios. Entra novamente em coma, para nunca mais acordar.
Esta coluna foi publicada na página 10 da edição 8433 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 28 de março de 2025.
Friday, February 21, 2025
Haikais 2025
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| Além dos haicais que publiquei ao longo de 2025 no Bluesky e reuni aqui, também publiquei neste ano esta plaquete com haicais inéditos. |
Haicai 2025-1
Grilo atrás da cortina Chão transparente de céu Céu de tecido branco D.S.L., 10/03/2025
Haicai 2025-19 Madrugada insone Sonhos lindos Gravitam nos vaga-lumes D.S.L., 11/03/2025
Haicai 2025-20 O trem etéreo ecoa Os trilhos ocres rangem As flores fogem céleres D.S.L., 12/03/2025
Haicai 2025-21
Haicai 2025-73 Dois lutos Lutam entre si Quem perde sou eu D.S.L., 07/08/2025
Haicai 2025-75 Portões abertos Feras rugem O jacu gargalha e alça voo D.S.L., 13/08/2025
Haicai 2025-76 Um tiktoker e um youtuber Inimigos mortais Não se reconhecem na rua D.S.L., 14/08/2025
Haicai 2025-77 Uma fitinha do The Clash Desenrolada e caída na rua Toca infielmente ainda D.S.L., 26/08/2025
Haicai 2025-78 O desespero num sonho O despertar na vigília Embaralha pesadelo e medo D.S.L., 27/08/2025
Haicai 2025-79 Um neurônio viaja Dois milênios se passam A ideia de infinitude D.S.L., 28/08/2025
Haicai 2025-80 Coito para ser esquecido Conto para ser lembrado Falo enquanto falácia D.S.L., 02/09/2025
Haicai 2025-81 Aurora sombria Obscurece a exuberância Forma a forma estéril D.S.L., 11/09/2025
Haicai 2025-82 Preguiça e desorganização Pelo caos do quarto Formigas organizam-se D.S.L., 22/09/2025
Haicai 2025-83 A miniatura mal me atura Pura e dura Minas malogra a viatura D.S.L., 25/09/2025
Haicai 2025-84 Dissipou-se a fumaça Disfarçou-se a alma Desvaneceu incógnita D.S.L., 27/09/2025
Haicai 2025-85 A cachorrinha pula em mim Há anos não nos vemos Rosna para o fim do sonho D.S.L., 15/10/2025
Haicai 2025-86 Escrita improdutiva Latifúndio imaginativo Clama por ocupação D.S.L., 15/11/2025
Haicai 2025-87
Haicai 2025-88 O pesadelo revela-se Rasteja o desejo Esmagado com o olhar D.S.L., 13/12/2025
Haicai 2025-89 A memória terna Demanda carinho Para não definhar D.S.L., 14/12/2025
Haicai 2025-90 (A irresponsável) A maconha some Foi comida pela cachorrinha A larica foi carvão ativado D.S.L., 16/12/2025
Haicai 2025-91 O outrora sofistacado Tão caro e desejado Rejeitado pela reciclagem D.S.L., 17/12/2025
Haicai 2025-92 Tanto esforço Resultados medíocres O desprezo da anomia D.S.L., 21/12/2025
Haicai 2025-93 Atraso o atraso O tempo não volta É devidamente aproveitado D.S.L., 22/12/2025
Haicai 2025-94 Humilde e descalço Pisam-nos os pés Plantando a vingança D.S.L., 23/12/2025
Haicai 2025-95 O absurdo ronda A casa desprotegida O presente anula o passado D.S.L., 24/12/2025
Haicai 2025-96 O rumor das abelhas Celebra o pólen O orvalho já secou D.S.L., 25/12/2025
Haicai 2025-97 A inspiração escorre Pelo ralo da camiseta Corre e escreve D.S.L., 26/12/2025
Haicai 2025-98 Vejo-a dublada A voz de outrora Incorporada à nicotina D.S.L., 27/12/2025
Haicai 2025-99 Impressão indelével Sei do que se trata O segredo às claras D.S.L., 29/12/202
Haicai 2025-100 O desânimo abala A fundação inabalável Balada dos surdos D.S.L., 30/12/2025






