Friday, April 27, 2007

Queria falar a verdade o tempo todo

Depois de muito envelhecimento precoce devido à inércia somada ao sedentarismo que mesmo a mais frenética atividade na frente do maldito computador provocaria, é só pensar friamente para começar a melhorar. Basta mentir. Preencher o controle de horas com informações falsas. Ninguém nota que não se está fazendo nada. Impressionante. Quando não dá para ficar conversando em qualquer um dos cinco comunicadores instantâneos instalados, por ter alguém olhando, é só escrever longos e-mails no meio dos relatórios mais enfadonhos. Pode-se retomar contato com quem não se conversa há anos e fica por isso mesmo.

Punição

Imagens de culpa que nunca fizeram parte do meu imaginário, mesmo tendo uma criação cristã, andam me perseguindo. O que fiz para ativar isso? Parecem hologramas, muito tênues, é fato, se materializam de repente e evaporam mais rapidamente ainda. Deve ser sugestão subliminar da gritaria evangélica próxima de casa.

Tuesday, April 17, 2007

Banana de dinamite

O pessoal do escritório vai viajar junto. Queria tanto ir à praia, mas ela está cheia de bosta e de gente que me odeia. As velhas de classe média alta estão assistindo TV agora de manhã, reclamando da vida e anotando receitas. Depois elas vão à academia, após tomar uma vitamina reforçada, e buzinarão no ouvido dos pobres funcionários que elas não têm tempo para nada.

Friday, April 13, 2007

Introdução

Não é nada que faça sentido. Ainda que qualquer um possa compreender. Dolorosamente. Portanto, sua lógica desvanece ao romper a barreira do Id. Resta um pensamento disforme. Descarga elétrica etérea, ainda cognoscível, porém massivamente escorraçada, soterrada e finalmente obliterada. Raros são os que fazem submergir tal incômodo. Há quem tente faturar com isso, e não se pode acusá-los de deturparem a idéia, porque não se trata de algo palpável o suficiente para ser tomado como um conceito bem definido. Corrói o mais insensível dos trogloditas todos os dias, contudo. Quem faz desenhos animados diverte-se tanto quanto as crianças que os assistem e ainda sente-se realizado? Um loop dos momentos felizes, drone incidental de tudo que queremos ouvir em moto perpétuo para preencher toda morte diária fora dos instantes que valem à pena, os quais deveriam ser acrescentados à programação seletiva do autismo consciente a que aspiramos.

Thursday, April 12, 2007

Massa de Manobra

Calor na cozinha e pouca compreensão. Basta. Repentinamente contorceu-se violentamente. Tacou a panela no chão. O molho espalhado pelas paredes, chão e em tudo quanto que é eletrodoméstico evocava uma cena de assassinato em massa.

Ela pôs veneno no tempero do macarrão, para dar cabo dos seus tormentos, ou seja, marido e filhos. Contrita, flagelou-se com queimaduras de primeiro e segundo graus. Não podendo explicar-se, parentes e vizinhos enxergaram possessão no ato; possessa, ela antes se convenceu disso. Serena, do hospital seguiu direto ao culto, dando a mão aos filhos e o dízimo para reconfortar-se.

Thursday, April 05, 2007

Saquei tudo

Filhos justificam tudo. É por causa deles que fulano deixou de fazer algo, que o sujeito esqueceu do seu sonho, que a garota justifica sua submissão, que o tiozinho acomodado critica quem quer mudar qualquer mínima condição que seja alegando que o jovemzinho não tem preocupações de fato. Por que pôr uma criança neste mundo cruel? Esta velha pergunta clichê é geralmente respondida por quem a faz (seja a questão, seja a criança), mas apenas nos recônditos da inconsciência. É para não tentar nada. Para justificar toda covardia e as agressões psicológicas a quem tentar sustentar um princípio ou arriscar ficar sem o prato de comida por contrariar o chefe, anunciante, assessor, cão de guarda moral, titular do departamento financeiro/comercial, pretenso superior ou qualquer tiranete contemporâneo. E quanto aos pirralhos, pelos quais se urdiram tantos sacrifícios, que aturem as cobranças (inclusive as em espécie) depois.

Wednesday, April 04, 2007

Típico

As idéias de presunção da felicidade que sugerem a mentira de improviso e os condicionamentos que forçam uma hospitalidade constrita digladiam-se odiosamente. Um hipotético meteorologista cerebral estaria encolhido no refúgio mais fétido para não encarar o colosso de tempestades elétricas que calcina a fronteira entre os hemisférios nestas ocasiões. Uma carona e um convite feito apenas por educação resultaram na súbita aparição. É como se houvesse convidado um vampiro para entrar em casa, e com ele assim instalado não poderia reclamar, pois dei anuência ao mal. Simpático, sorridente, cobra a cerveja que prometi. O paco de garrafas escorregadias desce sobre a pequena mesa no meio da sala milagrosamente sem nenhum pouso forçado. Justo quando a bonança havia começado. Quer dar argumento para uma mulher adora sustentar que o casamento está desgastado? Esqueça a data do dito cujo. E não interessa, nem fodendo, sua defesa de que está trabalhando demais justamente para dar base ao casamento. Quase ao fim do impossível processo de reversão deste tipo de acusação que qualquer homem consegue efetuar quase todo dia, o Ogro me aparece. Fico sem reação. A mulher, um minuto antes de recuperar o pleno bom humor, já quer escorraçá-lo com o olhar, mas esse tipo de sutileza não funciona com alguém plano. O pior: ele se senta, não sei o que dizer, ele não diz nada após elogiar a arrumação da casa. Convido para conhecer o quintal, como se isso fosse interessante, mas ele está totalmente a fim. Mostro o quarto das crianças, ele se detém ainda mais por lá, perguntando detalhes, contando que gostaria de ter filhos, como se estivesse interessado. Ao voltar para a sala, pergunta sobre o sistema democrático da Grécia Clássica, geopolítica, aviões e outros assuntos sobre os quais havíamos conversado no serviço. Demora para sumir com uns livros emprestados debaixo do braço, feliz. No desespero de tentar escapar daquela situação, cheguei a convidá-lo para passear conosco no parque. Ele declinou do convite, disse que logo ia embora, mas ainda ficou uma hora lá, fazendo perguntas. Tava até legal dar uma de professor, porém sentia cada punhalada que os olhos dela desferiam nas minhas costas. Depois da hostilidade inicial, ela foi bacana com o Ogro. Esperava que ela fosse comigo depois, mas sabia que era auto-engano. Bastou ela certificar que ele já ia longe para estressar ao máximo. Até explicar que sim, tinha convidado ele para aparecer, mas não, não naquele dia especial, todo o tempo de comemorações se foi. A noite ascendeu com uma aura de mal-estar.

Tuesday, April 03, 2007

Olvido

Esquecemos. A galáxia de pensamentos que não se concretizarão a respeito de assuntos mesquinhos que não merecem nenhuma reflexão ou tempo despendido exige isso. E as lembranças que realmente importam, parte delas se esvai sem reclamar o seu devido lugar. Basta uma hora de rotina para a extinção completa de uma inspiração genial, ou sobre a qual se tem a vaga intuição de que era algo brilhante. Se a idéia não é imediatamente registrada em um suporte qualquer, um pedaço de papel higiênico que seja, a sensação que fica do mote perdido deve assemelhar-se a de um amputado que sofre coceiras intoleráveis no membro inexistente. Restrinjo-me, no entanto, ao campo das idéias. Há paralelos piores. Como, por exemplo, após meses de desgaste profissional, esquecer do aniversário de casamento.

Reminiscência materializada

De repente ele aparece na porta de casa. Um pesadelo que remete a adolescência, quando odiava que “amigos” aparecessem lá só para encher o saco. Não tinha a manha de expulsá-los de casa, ninguém faria isso, eu não sabia fazer, depois eu soube como dar um jeito nisso, sempre soube, mas esqueci. Não consigo mais. Fudeu e o tempo livre acabou.

Conversa circunstancial

Apesar de ser tosco, o Ogro é outro fita que, com a passagem do tempo, torna-se mais palatável. Apesar dos gestos e troças estúpidas, ele parece legitimamente interessado em se aproximar das suas vítimas para que elas não fiquem tão intimidadas. Foda é o tamanho, a voz de death metal mesmo ao sussurrar e a cara de poucos amigos. É como se ele quisesse dizer “Podem revidar!”, mas quase ninguém fala nada, pois o vozeirão é o avesso dessa mensagem. Como nunca dei moral e já apelei no que me pareceu a primeira ínfima tentativa de forçar um poder psicológico do tipo “cheguei antes aqui e você que é novo baixa a bola”, ele nem brinca comigo. Ficou me tratando friamente perto dos outros, mas paradoxalmente como deve ter sacado que eu não dava a mínima pra qualquer tipo de c, passou a querer puxar conversa sobre assuntos sérios. Mesmo fazendo cara que não estava entendendo, sempre prestava atenção em tudo que falava e ficava fazendo perguntas, aparentemente fascinado com assuntos batidos para qualquer estudante de ensino médio, mas que eram novidades assombrosas para ele. Depois de um tempo, apesar de não ser umas prosas excelentes, porque na verdade eram questionários, a curiosidade dele foi se aguçando e as conversas com ele permitiam falar de assuntos filosóficos e religiosos sobre os quais provavelmente nunca falaria no trampo. E tinha um bom ouvinte para isso.

Friday, March 30, 2007

Circunstâncias

Com o tempo, notei que há quem resvale na canastrice para não ser, apesar disso, um mau caráter. O Caroço é assim. Não tem muita personalidade, mas tem. Com o tempo você percebe que não é um cara que você convidaria para dar um chego em casa, por não ter tanto assim o que conversar e também não ser a pessoa mais confiável do mundo, mas ao menos possui um mínimo de decência. É o tipo de pessoa que poderia ter sido um grande sujeito, se tivesse se feito em uma atmosfera menos devassa. Quando está todo mundo rindo da cara de alguém, ele até dá aquelas risadas de mofa, exageradas, mas é o primeiro, se não é o único, a estender a mão para quem se estatela no chão ou algo assim. Depois que ri de uma piada dele, a primeira de uma longa série de tiradas infames que não era uma estultice, parece que ele passou a ser mais legal. Depois, as piadas dele ficaram ainda piores, mas é aquele lance, qualquer um é menos intolerante se vai com a cara de alguém.

Monday, March 26, 2007

Juiz e executor

Relaxei um pouco. Não no sentido que almejava. O de realmente descansar. Apenas relaxei repentinamente no sentido de ser um pouco mais tolerante com a estupidez alheia, ou com o quê parece estúpido apenas para mim. O que talvez ajude a relaxar de fato. O fato mesmo é que sou muito influenciado por uma atmosfera de negativismo. Além de ver que algumas pessoas não são os monstros idiotas que pensava que eram, notei que tinha desdém até por quem é gente boa. Sem razão. Tratava como mero colega de trabalho quem me considerava amigo, apesar de sermos companheiros sob a chibata e de termos afinidades de fato. Boris e Ariel são 100%, pequenas rusgas e mau gosto musical à parte. Basta iniciar uma conversa de saída, algo que sugira um escape do horror cotidiano, que eles se animam e conversa fica boa como era na andar na rua, dentro de fliperamas nos quais somente via pó daquele normal, que nada no ar para assentar-se no sobre o vidro malcuidado das máquinas de pinball.

Friday, March 23, 2007

Rubro-negro

Ele sempre quis ser negão. Corava por qualquer coisa. Agradecia quando alguém não lhe dizia nada. Quando era criança, nunca sabia quando estava vermelho de vergonha, a menos que lhe dissessem. Talvez, justamente por ser pirralho, não se sentisse tão constrangido por qualquer coisa. São outros tempos agora. Ele sabe quando acontece, pois sente o rosto e as orelhas queimarem. Quando alguém abre a boca para aquele típico “Até ficou vermelho!” a brasão aumentava tanto que ele suava. Não há tortura psicológica pior para um branquelo. Temos certeza que muita gente aqui já percebeu.

Dor Ocupacional

Ele marca algo rapidamente na tela, antes que o vejam gazeteando. Tão logo saem na sala, na qual por impaciente coincidência entraram apenas para olhar um mapa que também está fixado na sala da chefia administrativa, desmarca o que tinha marcado, pressiona o Alt Tab e volta ler o site sobre L.E.R. no qual estava concentrado antes. Contorce-se para a direita, range a cadeira ao fazer um giro esquisito para a esquerda, massageia as costas com sofreguidão. De soslaio, por ter a mesa oblíqua a sua, posso ver tudo. Acho melhor, claro, não dizer nada para ninguém, e nem para ele.

Monday, March 19, 2007

OKTV

Olhe para o alto e jogue-se para baixo. A imobilidade vertiginosa do trabalho, seja qual for o sistema pelo qual fundamentalistas do intelecto fazem proselitismo, rebaixa enquanto te faz mirar ilusões idílicas, mantendo-o na média, medíocre, dando-lhe ilusão de movimento. Mera teorização de quem não faz nada, fracassado. Em casa, é o eletrodoméstico que você tanto diz odiar que te acalenta.

Uma mão lava a outra em vão

Gordo, suando torrencialmente e com um desodorante fortíssimo que só piorava tudo, ofendia a intimidade olfativa de todos, menos a dele mesmo, claro. Devia ser muito eficiente, pois há anos era assim, cochicha-se pelos corredores. Por acaso, descubro não era só eu que o apelidara mentalmente de Carcaça. Era como o chamavam pelas costas há algum tempo. E ele era pútrido em todos os sentidos, contamina tudo com seu Toque de Midas inverso. Minha sorte é que minha área é distinta o suficiente da dele para manter-me muito distante, pelo menos psicologicamente, portanto não tinha que passar o fim de semana com sua imagem nauseabunda ardendo em minha mente, assim como acontece com tantos colegas que reclamam sem parar.

Thursday, March 08, 2007

Passado

Lembrei-me em tempo. Era hoje. Não era possível fazer mais nada, no entanto. Estava no meio de um relatório. Não dava para ir em casa, reunir documentação, fotos e coragem. Podia sair no meio do serviço, claro, correndo, correndo, correndo, para não ter uma vida medíocre, viajar, conhecer muita gente e incomodar quem não presta, tal qual um Joe Strummer da vida que eu sempre quis. Fico calado, com medo do futuro e imóvel.

Wednesday, March 07, 2007

Coma

Pouco mais de um mês depois, levanto-me e me dou conta que não conversei com nenhum amigo a não ser por meios virtuais e não registrei nenhuma linha no diário. Não me lembro bem dos filmes que assisti e das conversas que tive. Não estive em nenhum lugar além dos habituais e o caminho entre eles. Nada aconteceu e todo o tempo foi preenchido por sonhos, que fazem sentido até certo ponto. Trabalhe por várias horas a mais e faça cursos que não interessam para tornar o currículo mais atraente para quem não interessa, pregam dissimuladamente os manuais corporativos impregnados até nos malditos nicks de tudo quanto que é tipo de comunicador instantâneo de gente lutadora, que faz nada de bom e acontece para os basbaques notarem. Ela me manda tomar café da manhã, para que eu não ficasse mais cinco minutos sem entender nada.

Sunday, February 04, 2007

Aranhas no texto

Várias pequenas aranhas saíram de dentro daqueles furos que todo monitor velho possui na parte de trás. Ele ficou muito tempo inutilizado, todos usavam monitores de cristal líquido há uns dois anos e meio. Repentinamente, pequeninos aracnídeos começaram a fazer uma espécie de pequena dança ritual mal coreografada em cima de números e palavras sem importância. Tive tempo de admirar a cena por um minuto. Nem isso. Pensando com calma, foram uns 15, 20 segundos. Depois, as meninas que passavam por trás de mim começaram a gritar. O supervisor matou todas as aranhas que pode e me pediu desculpas por aquela situação. Um novo monitor chegou para mim na mesma tarde. Sei que na cozinha ficaram falando mal de mim, por ser muito devagar e não ter reagido quando apareceram os bichos. Ora, estava admirando-as, foram os únicos seres legais que passaram pelo meu dia e muitas morreram à toa.

Tuesday, January 30, 2007

Interesses

É estranho. Não sei para quê isso. Falar tanto dos filhos, contar que o marido realiza, é um herói, botou o vizinho folgado contra a parede, não sabe administrar o dinheiro (mas é boa pessoa), peitou o cliente inadimplente, é rígido com as filhas porque quer o bem delas, vive se metendo em novos projetos, que pretende e arrebenta. Tudo isso para carcar o chifre nele em pleno horário de trabalho, nos cantos. Pior, se eu percebi sem ninguém nunca ter me contado nada, os amigos do Caroço devem saber de tudo.
Ela chora por tudo. Quando o Mullet chama a atenção, quando alguém faz algum comentário maldoso, quando a emoção das histórias que ela mesma conta sobe-lhe aos olhos. Manteiga, por isso. Ela não me pareceu tão frágil assim quando a flagrei na sala de manutenção com o Caroço. Entretidos que estavam, não me perceberam e pude dar meia-volta, incógnito.