Friday, March 30, 2007

Circunstâncias

Com o tempo, notei que há quem resvale na canastrice para não ser, apesar disso, um mau caráter. O Caroço é assim. Não tem muita personalidade, mas tem. Com o tempo você percebe que não é um cara que você convidaria para dar um chego em casa, por não ter tanto assim o que conversar e também não ser a pessoa mais confiável do mundo, mas ao menos possui um mínimo de decência. É o tipo de pessoa que poderia ter sido um grande sujeito, se tivesse se feito em uma atmosfera menos devassa. Quando está todo mundo rindo da cara de alguém, ele até dá aquelas risadas de mofa, exageradas, mas é o primeiro, se não é o único, a estender a mão para quem se estatela no chão ou algo assim. Depois que ri de uma piada dele, a primeira de uma longa série de tiradas infames que não era uma estultice, parece que ele passou a ser mais legal. Depois, as piadas dele ficaram ainda piores, mas é aquele lance, qualquer um é menos intolerante se vai com a cara de alguém.

Monday, March 26, 2007

Juiz e executor

Relaxei um pouco. Não no sentido que almejava. O de realmente descansar. Apenas relaxei repentinamente no sentido de ser um pouco mais tolerante com a estupidez alheia, ou com o quê parece estúpido apenas para mim. O que talvez ajude a relaxar de fato. O fato mesmo é que sou muito influenciado por uma atmosfera de negativismo. Além de ver que algumas pessoas não são os monstros idiotas que pensava que eram, notei que tinha desdém até por quem é gente boa. Sem razão. Tratava como mero colega de trabalho quem me considerava amigo, apesar de sermos companheiros sob a chibata e de termos afinidades de fato. Boris e Ariel são 100%, pequenas rusgas e mau gosto musical à parte. Basta iniciar uma conversa de saída, algo que sugira um escape do horror cotidiano, que eles se animam e conversa fica boa como era na andar na rua, dentro de fliperamas nos quais somente via pó daquele normal, que nada no ar para assentar-se no sobre o vidro malcuidado das máquinas de pinball.

Friday, March 23, 2007

Rubro-negro

Ele sempre quis ser negão. Corava por qualquer coisa. Agradecia quando alguém não lhe dizia nada. Quando era criança, nunca sabia quando estava vermelho de vergonha, a menos que lhe dissessem. Talvez, justamente por ser pirralho, não se sentisse tão constrangido por qualquer coisa. São outros tempos agora. Ele sabe quando acontece, pois sente o rosto e as orelhas queimarem. Quando alguém abre a boca para aquele típico “Até ficou vermelho!” a brasão aumentava tanto que ele suava. Não há tortura psicológica pior para um branquelo. Temos certeza que muita gente aqui já percebeu.

Dor Ocupacional

Ele marca algo rapidamente na tela, antes que o vejam gazeteando. Tão logo saem na sala, na qual por impaciente coincidência entraram apenas para olhar um mapa que também está fixado na sala da chefia administrativa, desmarca o que tinha marcado, pressiona o Alt Tab e volta ler o site sobre L.E.R. no qual estava concentrado antes. Contorce-se para a direita, range a cadeira ao fazer um giro esquisito para a esquerda, massageia as costas com sofreguidão. De soslaio, por ter a mesa oblíqua a sua, posso ver tudo. Acho melhor, claro, não dizer nada para ninguém, e nem para ele.

Monday, March 19, 2007

OKTV

Olhe para o alto e jogue-se para baixo. A imobilidade vertiginosa do trabalho, seja qual for o sistema pelo qual fundamentalistas do intelecto fazem proselitismo, rebaixa enquanto te faz mirar ilusões idílicas, mantendo-o na média, medíocre, dando-lhe ilusão de movimento. Mera teorização de quem não faz nada, fracassado. Em casa, é o eletrodoméstico que você tanto diz odiar que te acalenta.

Uma mão lava a outra em vão

Gordo, suando torrencialmente e com um desodorante fortíssimo que só piorava tudo, ofendia a intimidade olfativa de todos, menos a dele mesmo, claro. Devia ser muito eficiente, pois há anos era assim, cochicha-se pelos corredores. Por acaso, descubro não era só eu que o apelidara mentalmente de Carcaça. Era como o chamavam pelas costas há algum tempo. E ele era pútrido em todos os sentidos, contamina tudo com seu Toque de Midas inverso. Minha sorte é que minha área é distinta o suficiente da dele para manter-me muito distante, pelo menos psicologicamente, portanto não tinha que passar o fim de semana com sua imagem nauseabunda ardendo em minha mente, assim como acontece com tantos colegas que reclamam sem parar.

Thursday, March 08, 2007

Passado

Lembrei-me em tempo. Era hoje. Não era possível fazer mais nada, no entanto. Estava no meio de um relatório. Não dava para ir em casa, reunir documentação, fotos e coragem. Podia sair no meio do serviço, claro, correndo, correndo, correndo, para não ter uma vida medíocre, viajar, conhecer muita gente e incomodar quem não presta, tal qual um Joe Strummer da vida que eu sempre quis. Fico calado, com medo do futuro e imóvel.

Wednesday, March 07, 2007

Coma

Pouco mais de um mês depois, levanto-me e me dou conta que não conversei com nenhum amigo a não ser por meios virtuais e não registrei nenhuma linha no diário. Não me lembro bem dos filmes que assisti e das conversas que tive. Não estive em nenhum lugar além dos habituais e o caminho entre eles. Nada aconteceu e todo o tempo foi preenchido por sonhos, que fazem sentido até certo ponto. Trabalhe por várias horas a mais e faça cursos que não interessam para tornar o currículo mais atraente para quem não interessa, pregam dissimuladamente os manuais corporativos impregnados até nos malditos nicks de tudo quanto que é tipo de comunicador instantâneo de gente lutadora, que faz nada de bom e acontece para os basbaques notarem. Ela me manda tomar café da manhã, para que eu não ficasse mais cinco minutos sem entender nada.

Sunday, February 04, 2007

Aranhas no texto

Várias pequenas aranhas saíram de dentro daqueles furos que todo monitor velho possui na parte de trás. Ele ficou muito tempo inutilizado, todos usavam monitores de cristal líquido há uns dois anos e meio. Repentinamente, pequeninos aracnídeos começaram a fazer uma espécie de pequena dança ritual mal coreografada em cima de números e palavras sem importância. Tive tempo de admirar a cena por um minuto. Nem isso. Pensando com calma, foram uns 15, 20 segundos. Depois, as meninas que passavam por trás de mim começaram a gritar. O supervisor matou todas as aranhas que pode e me pediu desculpas por aquela situação. Um novo monitor chegou para mim na mesma tarde. Sei que na cozinha ficaram falando mal de mim, por ser muito devagar e não ter reagido quando apareceram os bichos. Ora, estava admirando-as, foram os únicos seres legais que passaram pelo meu dia e muitas morreram à toa.

Tuesday, January 30, 2007

Interesses

É estranho. Não sei para quê isso. Falar tanto dos filhos, contar que o marido realiza, é um herói, botou o vizinho folgado contra a parede, não sabe administrar o dinheiro (mas é boa pessoa), peitou o cliente inadimplente, é rígido com as filhas porque quer o bem delas, vive se metendo em novos projetos, que pretende e arrebenta. Tudo isso para carcar o chifre nele em pleno horário de trabalho, nos cantos. Pior, se eu percebi sem ninguém nunca ter me contado nada, os amigos do Caroço devem saber de tudo.
Ela chora por tudo. Quando o Mullet chama a atenção, quando alguém faz algum comentário maldoso, quando a emoção das histórias que ela mesma conta sobe-lhe aos olhos. Manteiga, por isso. Ela não me pareceu tão frágil assim quando a flagrei na sala de manutenção com o Caroço. Entretidos que estavam, não me perceberam e pude dar meia-volta, incógnito.

As voltas que a vida dá


O chefão é muito engraçado. É daqueles caras que ainda querem dar a aparência de serem joviais e liberais. É daqueles que andam com aqueles rabos-de-cavalo minúsculos, com o cabelo sempre penteado para traz, com gel. Tenho que imaginá-lo sempre como era com o cabelo solto, não tem jeito. Tenho certeza que antes ele ostentava um mullet; no entanto , pelo jeito atual, o corte não é a mais assim.
Tiro e queda. Sabia. Enquanto ele procurava um documento durante uma conversa comigo, detive o olhar em uma foto sem moldura nem nada, jogada em meio a outros papéis. Ocupado e preocupado que estava olhando em outra gaveta, creio que ele nem reparou no que realmente me interessava. A mulher do lado dele é a esposa, bem mais novinha. A foto é dos anos 80, com certeza. O cara, além do mullet, tinha um bigodão. Achava esses caras muito bundões quando era pivete, era um jeitão de ser de gente que queria se integrar totalmente à sociedade, mas manter um visu "rebelde". Na verdade, esses sujeitos tinham um jeitão cafajeste, tipo como se fossem atores pornôs, mas ao mesmo tempo ostentavam esse disfarce de bom moço. Uma parada muito "vou ganhar dinheiro", classe média domesticada e cínica. É, agora um deles é meu patrão.

Monday, January 29, 2007

Pressa

"...queria dizer que me arrependo muito do que disse, mas acho que seria a única reação que poderia ter tido naquela hora. Vc é muito difícil. Admito que ñ sou uma pessoa fácil de lidar, mas nquela hora tudo que eu poderia fazer era aqulio mesmo. Naum sou uma máquina, vc me pressionou contra a parede e talvze eu até pudesse ser mais legal se fosse em outro dia, mas, naquela hra...".
Fui corrigir apressado os erros de digitação, encostei em algumas teclas que nem tenho idéia quais são, e apaguei todo o texto, que se fosse impresso daria umas cinco páginas. O campo de texto do e-mail não salva nada, não há um comando para voltar. Desisti definitivamente de me explicar e isso foi o fim.

Wednesday, January 24, 2007

Manhã

As nuvens desvanecem-se repentinamente e o sol nasce quadrado no monitor do computador, situado em frente a uma velha janela quadriculada, que ainda não foi trocada, um aspecto do prédio que insiste em sobreviver e que evidencia sua verdadeira função.
Quando era adolescente, odiava aquela tirinha Dilbert. Por puro acaso, procurando informações sobre computadores, topo com uma em que um ex-fotógrafo diz que havia provado o “doce néctar da liberdade”, mas agora confinado no escritório, começa a surtar. É estranho ver seu currículo resumido em poucos segundos, tempo suficiente para tornar-me um fã definitivo também. Agora eu entendo.

Tuesday, January 23, 2007

Cidadãos de bem

A chefia sempre gosta deste tipo de pessoa. Carcaça, Orca, Lesma e Escarro. Os caras são repugnantes e subservientes, mas só os percebo assim porque convivo com eles. Se não fosse o caso, esqueceria completamente deles, assim como me esqueci até dos nomes de outros cuzões com quem convivi. Todo ignorante faz questão de dizer em alto e bom som sua opinião sobre tudo. Estes caras entendem de tudo, é impressionante. Eles sabem exatamente o que fazer se estivessem no lugar dos engenheiros, médicos, jogadores de futebol e políticos sobre os quais falam o tempo todo, e também entendem de física nuclear, nutrição, jornalismo, política externa, tudo, tudo, eles são a encarnação do ideal iluminista. É tanta erudição que o resto da humanidade tomaria um choque se os conhecessem, então isto os paralisa e eles passam o tempo cumprindo rotinas burocráticas, pois eles têm que ter paciência para esperar o aperfeiçoamento mental de nós, meros pós-macacos, para então guiar a próxima evolução de espécie. Temo que eles morram esquecidos.
É muito alto astral, todos eles brincam o tempo todo, mal conhecem alguém e já começam a sacanear numa boa, é tudo de boa, porque temos que ter um bom clima de trabalho, sabe? E é um clima maravilhoso, todo mundo pode dizer o que pensa, e dizem mesmo. O lugar-comum compartilhado é a fonte de toda a felicidade. Brigar para quê? Melhor ficar com fama de quietão esquisito, porque é estranho demais ter a sensação que estou ensaiando um diálogo escrito para o capítulo da novela que vai ao ar hoje à noite. Todas as tréplicas estão decoradas: E se fosse com sua família?, A gente tem que dar graças a Deus por trabalhar e ter saúde, Eu fiz a faculdade da vida. Todos muito trabalhadores e decentes. Sei supostos detalhes da vida sexual de várias meninas que encontro na rua, e com as quais nunca troquei um simples oi.

Monday, January 22, 2007

Vivaz semelhança

Sentei no meu trono do banheiro do fundo, abri o jornal e me senti um rei. Consegui ficar esquecido um bom tempo, quando voltei ao meu posto aparentemente não tinham sequer notado minha ausência e nem notaram minha presença, de qualquer forma. Foi tempo suficiente para descobrir que o "CEO" não gosta do Lerdo dedurando o tempo todo os deslizes dos outros funcionários no horário de expediente. O chefão conta para seu advogado que sempre calculou na relação custo/benefício esse tempo desperdiçado pelos funcionários, o que ele não suporta é ter o próprio tempo perdido ao saber detalhes de bobagens que não lhe interessam. Ouvindo a conversa, fecho o jornal o mais lentamente possível, para não fazer nenhum barulho, e descubro que o Lerdo só permanece na empresa por ser sobrinho de um vereador. Eles acabam de tomar um cafezinho, bem mais rapidamente que os funcionários. Enquanto escuto a discussão sobre a churrasqueira do Clube Náutico desvanecer entre passos no corredor, vou me arrumando devagar para sair do banheiro, dando tempo suficiente para ninguém imaginar que eu estava no banheiro.
Prestes a abrir a porta, escuto o Torto e o Babuíno trotando aos risos. Estavam falando mal do chefinho, se referindo jocosamente ao modo cheio de dedos como ele tratava seu "adevogado" e fazendo conjeturas a respeito de quão fracassada seria a filha dele, de tão mimada que a garota era. Justo eles, que tanto adulam o cara, buscam ela na escola quando o CEO estava ocupado, repetem suas expressões e até copiam suas roupas. Dois completos filhos da puta, ao menos pensava que eles tinham escolhido o seu lado, mas eles só miravam seus respectivos umbigos. Posteriormente ouvi detonarem-se mutuamente entre os colegas, separados apenas por uma divisória, sussurrando. Por motivos que já esqueci, porque eram decididamente irrelevantes. Eles se estenderam tanto no papo furado sobre as finanças da empresa que fiquei com saudade da minha mesa.
O Lerdo, esse sim era puro. Dedicado. Transparente. Só ligava para casa usando o celular, nunca o telefone do trampo. Sempre escancarando sua intimidade. Todos se sentiam à vontade para falar com ele. Fui hábil o suficiente para simular uma abertura ao descobrir o sobrenome dele. Era Fagundes. A princípio só eu o chamava pelo sobrenome, do qual parecia gostar muito, e satisfazia-se com as respostas genéricas com que retrucava suas perguntas. Boris era o único ali que também gostava de quadrinhos. Nunca comentou nada, mas definitivamente percebeu o que se passava. Tratou de popularizar o uso do Fagundes. Não podia mais zoar o Boris que ele apelava e dizia que sempre esquecia de trazer as Piratas do Tietê para eu relaxar um pouco no serviço. Fico imaginando o que se passava pela cabeça do povo quando eles escutavam isso. Com certeza percebiam que era piada interna, mas deviam achar que era referência a travecos, putas ou a algo com conteúdo sexual constrangedor. Um dia o Ogro criou coragem e perguntou o que diabos eram as Piratas do Tietê que um dia deveriam aparecer. Surpreendido comigo mesmo, respondi que era o modo como nos referíamos aos canhões de Sampa que tentavam nos atacar quando moramos em uma república lá, eu e Boris. Se era canhão, então associávamos a mina a pirata, e se era de São Paulo, tinha saído do esgoto do Tietê. Nunca tinha visto a fuça de Boris em Sampa. Disse tudo com tanta naturalidade que a história foi absorvida sem questionamentos. Boris, fascinado, disse que deveria tentar escrever. Até parece.

Sunday, January 21, 2007

My War

Usar uma camiseta do Minor Threat não significa mais nada. Antigamente, e quando digo antigamente nem quero dizer tanto tempo assim, avistar alguém com uma camiseta de banda com a qual você se identificasse já atraía a atenção e normalmente se entabulava uma conversa. Dois dos meus melhores amigos conheci deste modo. Não os vejo pessoalmente há uns bons anos. Pelo menos desde o fim dos anos noventa. Antes éramos muito poucos. Hoje, quem sabe o que é, não dá a mínima. Quem não sabe, deve achar que são estampas de grifes que fazem roupas caras para promovê-las em novelas. Ainda bem que nunca tive o desprazer de ver uma global vestindo um agasalho do Bad Brains, ou algo do gênero.
Rendido à tecnologia que disseminou toda essa informação e indiferença, escondo-me em um posto da PM escutando Polícia – das Mercenárias, que fique bem claro – no MP3 Player. A chuva de verão me encharcou a poucos metros do ponto de ônibus. Reconheço um dos PMs que está lá, amigo de infância. Cumprimento sem graça, nem me lembro o nome dele. Na verdade, éramos apenas colegas na escola. Uma menininha entra de repente, já bem mais molhada. É a filha de Luque. Ela sorri imediatamente para mim. Após alguns segundos em que ambos olham para as colunas de águas trazidas pelo vento para fustigar em intervalos regulares as lonas de barraquinhas e lojas, molhando quem se amontoa embaixo delas, ela se vira e fixa a atenção no meu peito. Aponta para ele e diz algo, mas não escuto porque estou com o fone. Surpreendentemente, quando libero os ouvidos, ouço-a chamar pelo nome e perguntar se eu gosto mesmo de Seven Seconds. Tinha me esquecido que a vó costurou este patch para mim no bolso da camisa. Todo mundo achava que era a marca da roupa. Descubro que o nome dela é Rê. Só isso, pelo menos é o que ela diz. Não sei se é invenção dela ou maluquice do Luque, que não a apresentou apropriadamente para mim, no entanto sei que ele era fã do Angeli. Bem, de qualquer forma, ela é bem legal, fala-me sobre novas bandas das quais nunca ouvi falar e pergunta-me sobre shows em que fui, discos que ainda tenho e sobre como era o pai dela. De relance percebo que os policiais, que estavam afastados, olham disfarçadamente para nós e dão risadinhas; pelo jeito estão fazendo comentários sacanas. Por isso que meu colega de infância não é amigo; é um deles, e eles são o que são.

Saturday, January 20, 2007

Contradição salutar

A natureza humana estraga quase toda tentativa de superá-la. É raro notar que não somos muito diferentes de quem odiamos ou apenas desprezamos. Vimos, eu e Ariel, um taxista escorregar na calçada cheia de limo. Tentamos ajudar o figura, que, de óculos escuros, levantou-se apressado tentando manter uma expressão imperturbável. Como se fosse possível que um lapso temporal houvesse bloqueado a visão daquele tombaço. Apesar de tentarmos nos ignorar, uma mera gargalhada inconveniente bastou para selar as pazes na entrada da firma. Ficamos nos justificando, criando chicanas para explicar que não fazemos o que condenamos em boçais. Conter a espontaneidade é papo furado de história de espionagem, foi mais ou menos essa a linha de argumentação. Foi tão espontânea essa desculpa que até hoje acredito que ela é convincente.

Friday, January 19, 2007

220 horas por mês

Morte em vida. Não é o tempo todo. Há uma tendência a exagerar isso. Há um ou outro momento bom. Quando chega o fim do dia, esses momentos, no entanto, não compensam o que ficou apodrecendo nas gavetas e armários que começam a ficar malcheirosos, nas caixas de mudanças que permanecem há anos fechadas na casa nova, à espera do tempo desperdiçado em frente à TV para não remoer todas as perdas materiais, morais, sentimentais e financeiras. Vontades e sonhos para um futuro senão melhor, pelo menos diferente, para contar com um mínimo de estímulo, são desperdiçados na busca do arquetípico dinheiro que não nasce em árvore e que mesmo assim não deixa de ser uma perda monetária, pois não fossem escolhas desastradas do passado, tenho certeza que ganharia mais. Pensar em tudo isso é inútil, todo mundo deve pensar nisso todo dia, mesmo que não seja algo tão elaborado em suas mentes. E principalmente não tem valia nenhuma porque quanto mais ganharia menos tempo teria para mim mesmo, embora me torture constantemente pensando em mais dinheiro e em mais tempo. Acabei em contradição, pois passei a vida dizendo para meus pais que grana não é importante e o principal era não aceitar fazer qualquer trampo sacana para ter um bom salário. Por isso dispensei trabalhos horríveis e caí em um trampo também horrível, com o qual me identifico menos ainda que os outros, mas pelo menos sou obrigado a sacanear menos gente. Morte em vida de qualquer forma, tudo isso é obviedade, ninguém agüenta mais me ouvir repetir isso.
Ninguém em casa e entre meus amigos. No trampo não abro o bico sobre esses assuntos, exceto uma ou outra menção para colegas em que tenho confiança. Curioso que quando criança, pelo menos pré-adolescente, é difícil lembrar, mas pelo menos desde quando tinha uma compreensão melhor de como seria a vida adulta, ficava me perguntando se teria um emprego que me desse seguro de vida, plano de saúde e um ambiente que pareceria daquelas firmas que via em revistas, com balcões e chão reluzentes que levavam a ambientes com cores harmônicas, mesas arrumadas e equipamentos de última geração. Tenho tudo isso. Devia me sentir um fodão. Tudo é imaculadamente limpo e mortiço. Todo mundo é engraçado, mas todos os risos são forçados. Nada a se conversar, a não ser sobre futebol, TV, que o governo é uma merda, que precisamos de mais incentivos fiscais e que a polícia devia mandar todos esses marginais para o paredão. E tem as piadas e as brincadeiras, a maioria se chama por diminutivos carinhosos pela frente e pelos apelidos de fato pelas costas. Portanto, nada digo para não arrumar mais confusão além das que travei quando entrei aqui, chamo todos pelos nomes e todos eles têm outros nomes na minha cabeça. Eles me devem chamar de outras coisas pelas costas mesmo. Carcaça, Orca, Ogro, Lesma e Escarro. Há Babuíno, Lerdo e Torto, uma panelinha de puxa-sacos. O Caroço não é tão ambicioso, ele só se ocupa em comer a Manteiga, que é casada. O Mullet é o chefe. Ariel e Boris são os únicos amigos, mais para colegas, na verdade. Toda vez que saio com eles ou me vejo naquelas malditas situações de encontro sociais com o pessoal da empresa só escuto conversas sobre o serviço e a vida de quem trabalha lá. E eles só têm uns aos outros em seus círculos sociais, pelo jeito, ou seja, não têm amigos. Prefiro ter meus amigos de sempre, ainda que raramente os veja. A faxineira é o único ser que me parece um humano, mas nunca lembro o nome dela. Ela nunca diz nada, não finge que está viva. Gente boa.

Thursday, January 18, 2007

Teorizando em cima de tretas

Se tem algo que odeio tanto quanto neguinho metido a politicamente correto é o tipo que defende o politicamente incorreto. Todos burros. O primeiro renega uma das mais preciosas qualidades inerentes do ser humano, que é o dom de ser contraditório. Veja bem, contraditório, e não hipócrita. Viver paradoxos pode ser uma experiência fascinante, desde que a situação não redunde em angústia. Embora exista angústia fascinante; aquela que tanto atrai biógrafos, roteiristas de cinema e bilheterias. O segundo é metido a espertinho e para justificar a falta de escrúpulos e seus preconceitos dá uma de rebelde - enquanto na verdade querem que tudo seja a mesma merda que sempre foi - promovendo um tipo de maniqueísmo tão cretino quanto o formulado pelos dogmatistas do politicamente correto. Se o primeiro tenta algo, o arremedo de raciocínio do segundo é "faço o contrário". Estes falsos antagonismos cujos apóstolos que gostam de enfiar-nos goela abaixo, como se tivéssemos algo com isso, como se não existissem alternativas aos manuais de etiqueta disfarçados de idéias, o que inclui direita e esquerda, ateísmo e credo, enfim, todos estas cláusulas pétreas religiosas.
Pessoas que são estes estereótipos ambulantes existem, é fato. Esses são os que acham que pensam, enquanto bombardeiam constantemente o livre pensar. No dia-a-dia mesquinho e banal, é diferente. Não tem preconceito culpado ou preconceito disfarçado de irreverência subversiva. O que existe é preconceito desbragado mesmo. Ou o disfarçado, mas nunca culpado, apenas cauteloso quanto às conseqüências da discriminação . Tanta chuva, preso no semáforo, máquina estúpida, não percebe que os carros e ônibus não podem se mexer esteja verde, vermelho, amarelo, apagado, e fico remoendo essas idéias por um simples "viado" que disse com a mesma inocência de sempre, embora não tenha justificativa para isso, apenas explicação. O que devia bastar. Quando era criança, não fazia idéia do que fosse homossexualismo (Freud diria que sim, mas ele está morto e não me importo). Quando ouvi alguém xingar alguém de viado, achei que era a mesma coisa que babaca, idiota, folgado. Na verdade, para mim está bem claro que o sentido é esse, mas isso é idiossincrasia. Só sei que hoje perdi um amigo por causa de um xingamento dito em tom de brincadeira. O engraçado é que se sempre fui amigo, então não vejo problema nenhum em ele ser viado - no sentido real da palavra, não no sentido pejorativo. Pois é, sei que é uma contradição empregar estes sentidos, mas não vou pedir desculpas.

Wednesday, January 17, 2007

Cinza

Segunda-feira fria como se fosse inverno, em pleno verão. O congelador da geladeira de São Pedro está vazando para gelar nossos rabos nas ruas. Deus deve estar querendo que realmente sejamos gratos por nossos trabalhos, tal qual pedem as correntes que irrompem aos borbotões as nossas caixas de e-mail, pois pelo menos estamos enfurnados em um escritório quente, longe da rua. Enquanto tenho esses pensamentos cretinos, que fariam meus avós sentirem-se tristes por eu ser tão desrespeitoso com que eles tanto valorizam, resolvo me rebelar e descer para tomar um café na padaria que fica uma boa chuva de molhar bobo adiante. E assim vou fingindo que me rebelo contra algo.
Rua abaixo, topo com a filha do Luck Luque, que me diz um simpático "oi!", para minha total surpresa. Quando retribuo o cumprimento, ela já passou por mim. Ela deve ter escutado, mas definitivamente devo parecer gagá. Pena que certamente não o sou de fato, pois senão estaria agora em casa recebendo papinha de colherzinha na boca. É, acho que estou merecendo levar um chute, só fico pensando essas merdas. Pelo menos está tocando Cretin Family na minha cabeça. Oi! Oi! Oi!
A dona da padaria insiste que eu não preciso pagar o café. Tudo bem para ela, eles iam acabar me voltando troco a mais, lesados do jeito que são. Este logro de que temos alguns privilégios é tão pequeno quanto eficiente para nos fazer acreditar que ganhamos o dia, ou que somos de alguma forma especiais, mas não caio nessa.