Friday, March 30, 2007
Circunstâncias
Monday, March 26, 2007
Juiz e executor
Friday, March 23, 2007
Rubro-negro
Ele sempre quis ser negão. Corava por qualquer coisa. Agradecia quando alguém não lhe dizia nada. Quando era criança, nunca sabia quando estava vermelho de vergonha, a menos que lhe dissessem. Talvez, justamente por ser pirralho, não se sentisse tão constrangido por qualquer coisa. São outros tempos agora. Ele sabe quando acontece, pois sente o rosto e as orelhas queimarem. Quando alguém abre a boca para aquele típico “Até ficou vermelho!” a brasão aumentava tanto que ele suava. Não há tortura psicológica pior para um branquelo. Temos certeza que muita gente aqui já percebeu.
Dor Ocupacional
Ele marca algo rapidamente na tela, antes que o vejam gazeteando. Tão logo saem na sala, na qual por impaciente coincidência entraram apenas para olhar um mapa que também está fixado na sala da chefia administrativa, desmarca o que tinha marcado, pressiona o Alt Tab e volta ler o site sobre L.E.R. no qual estava concentrado antes. Contorce-se para a direita, range a cadeira ao fazer um giro esquisito para a esquerda, massageia as costas com sofreguidão. De soslaio, por ter a mesa oblíqua a sua, posso ver tudo. Acho melhor, claro, não dizer nada para ninguém, e nem para ele.
Monday, March 19, 2007
OKTV
Olhe para o alto e jogue-se para baixo. A imobilidade vertiginosa do trabalho, seja qual for o sistema pelo qual fundamentalistas do intelecto fazem proselitismo, rebaixa enquanto te faz mirar ilusões idílicas, mantendo-o na média, medíocre, dando-lhe ilusão de movimento. Mera teorização de quem não faz nada, fracassado. Em casa, é o eletrodoméstico que você tanto diz odiar que te acalenta.
Uma mão lava a outra em vão
Gordo, suando torrencialmente e com um desodorante fortíssimo que só piorava tudo, ofendia a intimidade olfativa de todos, menos a dele mesmo, claro. Devia ser muito eficiente, pois há anos era assim, cochicha-se pelos corredores. Por acaso, descubro não era só eu que o apelidara mentalmente de Carcaça. Era como o chamavam pelas costas há algum tempo. E ele era pútrido em todos os sentidos, contamina tudo com seu Toque de Midas inverso. Minha sorte é que minha área é distinta o suficiente da dele para manter-me muito distante, pelo menos psicologicamente, portanto não tinha que passar o fim de semana com sua imagem nauseabunda ardendo em minha mente, assim como acontece com tantos colegas que reclamam sem parar.
Thursday, March 08, 2007
Passado
Wednesday, March 07, 2007
Coma
Sunday, February 04, 2007
Aranhas no texto
Tuesday, January 30, 2007
Interesses
As voltas que a vida dá
O chefão é muito engraçado. É daqueles caras que ainda querem dar a aparência de serem joviais e liberais. É daqueles que andam com aqueles rabos-de-cavalo minúsculos, com o cabelo sempre penteado para traz, com gel. Tenho que imaginá-lo sempre como era com o cabelo solto, não tem jeito. Tenho certeza que antes ele ostentava um mullet; no entanto , pelo jeito atual, o corte não é a mais assim.
Tiro e queda. Sabia. Enquanto ele procurava um documento durante uma conversa comigo, detive o olhar em uma foto sem moldura nem nada, jogada em meio a outros papéis. Ocupado e preocupado que estava olhando em outra gaveta, creio que ele nem reparou no que realmente me interessava. A mulher do lado dele é a esposa, bem mais novinha. A foto é dos anos 80, com certeza. O cara, além do mullet, tinha um bigodão. Achava esses caras muito bundões quando era pivete, era um jeitão de ser de gente que queria se integrar totalmente à sociedade, mas manter um visu "rebelde". Na verdade, esses sujeitos tinham um jeitão cafajeste, tipo como se fossem atores pornôs, mas ao mesmo tempo ostentavam esse disfarce de bom moço. Uma parada muito "vou ganhar dinheiro", classe média domesticada e cínica. É, agora um deles é meu patrão.
Monday, January 29, 2007
Pressa
Wednesday, January 24, 2007
Manhã
Quando era adolescente, odiava aquela tirinha Dilbert. Por puro acaso, procurando informações sobre computadores, topo com uma em que um ex-fotógrafo diz que havia provado o “doce néctar da liberdade”, mas agora confinado no escritório, começa a surtar. É estranho ver seu currículo resumido em poucos segundos, tempo suficiente para tornar-me um fã definitivo também. Agora eu entendo.
Tuesday, January 23, 2007
Cidadãos de bem
É muito alto astral, todos eles brincam o tempo todo, mal conhecem alguém e já começam a sacanear numa boa, é tudo de boa, porque temos que ter um bom clima de trabalho, sabe? E é um clima maravilhoso, todo mundo pode dizer o que pensa, e dizem mesmo. O lugar-comum compartilhado é a fonte de toda a felicidade. Brigar para quê? Melhor ficar com fama de quietão esquisito, porque é estranho demais ter a sensação que estou ensaiando um diálogo escrito para o capítulo da novela que vai ao ar hoje à noite. Todas as tréplicas estão decoradas: E se fosse com sua família?, A gente tem que dar graças a Deus por trabalhar e ter saúde, Eu fiz a faculdade da vida. Todos muito trabalhadores e decentes. Sei supostos detalhes da vida sexual de várias meninas que encontro na rua, e com as quais nunca troquei um simples oi.
Monday, January 22, 2007
Vivaz semelhança
Prestes a abrir a porta, escuto o Torto e o Babuíno trotando aos risos. Estavam falando mal do chefinho, se referindo jocosamente ao modo cheio de dedos como ele tratava seu "adevogado" e fazendo conjeturas a respeito de quão fracassada seria a filha dele, de tão mimada que a garota era. Justo eles, que tanto adulam o cara, buscam ela na escola quando o CEO estava ocupado, repetem suas expressões e até copiam suas roupas. Dois completos filhos da puta, ao menos pensava que eles tinham escolhido o seu lado, mas eles só miravam seus respectivos umbigos. Posteriormente ouvi detonarem-se mutuamente entre os colegas, separados apenas por uma divisória, sussurrando. Por motivos que já esqueci, porque eram decididamente irrelevantes. Eles se estenderam tanto no papo furado sobre as finanças da empresa que fiquei com saudade da minha mesa.
O Lerdo, esse sim era puro. Dedicado. Transparente. Só ligava para casa usando o celular, nunca o telefone do trampo. Sempre escancarando sua intimidade. Todos se sentiam à vontade para falar com ele. Fui hábil o suficiente para simular uma abertura ao descobrir o sobrenome dele. Era Fagundes. A princípio só eu o chamava pelo sobrenome, do qual parecia gostar muito, e satisfazia-se com as respostas genéricas com que retrucava suas perguntas. Boris era o único ali que também gostava de quadrinhos. Nunca comentou nada, mas definitivamente percebeu o que se passava. Tratou de popularizar o uso do Fagundes. Não podia mais zoar o Boris que ele apelava e dizia que sempre esquecia de trazer as Piratas do Tietê para eu relaxar um pouco no serviço. Fico imaginando o que se passava pela cabeça do povo quando eles escutavam isso. Com certeza percebiam que era piada interna, mas deviam achar que era referência a travecos, putas ou a algo com conteúdo sexual constrangedor. Um dia o Ogro criou coragem e perguntou o que diabos eram as Piratas do Tietê que um dia deveriam aparecer. Surpreendido comigo mesmo, respondi que era o modo como nos referíamos aos canhões de Sampa que tentavam nos atacar quando moramos em uma república lá, eu e Boris. Se era canhão, então associávamos a mina a pirata, e se era de São Paulo, tinha saído do esgoto do Tietê. Nunca tinha visto a fuça de Boris em Sampa. Disse tudo com tanta naturalidade que a história foi absorvida sem questionamentos. Boris, fascinado, disse que deveria tentar escrever. Até parece.
Sunday, January 21, 2007
My War
Rendido à tecnologia que disseminou toda essa informação e indiferença, escondo-me em um posto da PM escutando Polícia – das Mercenárias, que fique bem claro – no MP3 Player. A chuva de verão me encharcou a poucos metros do ponto de ônibus. Reconheço um dos PMs que está lá, amigo de infância. Cumprimento sem graça, nem me lembro o nome dele. Na verdade, éramos apenas colegas na escola. Uma menininha entra de repente, já bem mais molhada. É a filha de Luque. Ela sorri imediatamente para mim. Após alguns segundos em que ambos olham para as colunas de águas trazidas pelo vento para fustigar em intervalos regulares as lonas de barraquinhas e lojas, molhando quem se amontoa embaixo delas, ela se vira e fixa a atenção no meu peito. Aponta para ele e diz algo, mas não escuto porque estou com o fone. Surpreendentemente, quando libero os ouvidos, ouço-a chamar pelo nome e perguntar se eu gosto mesmo de Seven Seconds. Tinha me esquecido que a vó costurou este patch para mim no bolso da camisa. Todo mundo achava que era a marca da roupa. Descubro que o nome dela é Rê. Só isso, pelo menos é o que ela diz. Não sei se é invenção dela ou maluquice do Luque, que não a apresentou apropriadamente para mim, no entanto sei que ele era fã do Angeli. Bem, de qualquer forma, ela é bem legal, fala-me sobre novas bandas das quais nunca ouvi falar e pergunta-me sobre shows em que fui, discos que ainda tenho e sobre como era o pai dela. De relance percebo que os policiais, que estavam afastados, olham disfarçadamente para nós e dão risadinhas; pelo jeito estão fazendo comentários sacanas. Por isso que meu colega de infância não é amigo; é um deles, e eles são o que são.
Saturday, January 20, 2007
Contradição salutar
Friday, January 19, 2007
220 horas por mês
Ninguém em casa e entre meus amigos. No trampo não abro o bico sobre esses assuntos, exceto uma ou outra menção para colegas em que tenho confiança. Curioso que quando criança, pelo menos pré-adolescente, é difícil lembrar, mas pelo menos desde quando tinha uma compreensão melhor de como seria a vida adulta, ficava me perguntando se teria um emprego que me desse seguro de vida, plano de saúde e um ambiente que pareceria daquelas firmas que via em revistas, com balcões e chão reluzentes que levavam a ambientes com cores harmônicas, mesas arrumadas e equipamentos de última geração. Tenho tudo isso. Devia me sentir um fodão. Tudo é imaculadamente limpo e mortiço. Todo mundo é engraçado, mas todos os risos são forçados. Nada a se conversar, a não ser sobre futebol, TV, que o governo é uma merda, que precisamos de mais incentivos fiscais e que a polícia devia mandar todos esses marginais para o paredão. E tem as piadas e as brincadeiras, a maioria se chama por diminutivos carinhosos pela frente e pelos apelidos de fato pelas costas. Portanto, nada digo para não arrumar mais confusão além das que travei quando entrei aqui, chamo todos pelos nomes e todos eles têm outros nomes na minha cabeça. Eles me devem chamar de outras coisas pelas costas mesmo. Carcaça, Orca, Ogro, Lesma e Escarro. Há Babuíno, Lerdo e Torto, uma panelinha de puxa-sacos. O Caroço não é tão ambicioso, ele só se ocupa em comer a Manteiga, que é casada. O Mullet é o chefe. Ariel e Boris são os únicos amigos, mais para colegas, na verdade. Toda vez que saio com eles ou me vejo naquelas malditas situações de encontro sociais com o pessoal da empresa só escuto conversas sobre o serviço e a vida de quem trabalha lá. E eles só têm uns aos outros em seus círculos sociais, pelo jeito, ou seja, não têm amigos. Prefiro ter meus amigos de sempre, ainda que raramente os veja. A faxineira é o único ser que me parece um humano, mas nunca lembro o nome dela. Ela nunca diz nada, não finge que está viva. Gente boa.
Thursday, January 18, 2007
Teorizando em cima de tretas
Pessoas que são estes estereótipos ambulantes existem, é fato. Esses são os que acham que pensam, enquanto bombardeiam constantemente o livre pensar. No dia-a-dia mesquinho e banal, é diferente. Não tem preconceito culpado ou preconceito disfarçado de irreverência subversiva. O que existe é preconceito desbragado mesmo. Ou o disfarçado, mas nunca culpado, apenas cauteloso quanto às conseqüências da discriminação . Tanta chuva, preso no semáforo, máquina estúpida, não percebe que os carros e ônibus não podem se mexer esteja verde, vermelho, amarelo, apagado, e fico remoendo essas idéias por um simples "viado" que disse com a mesma inocência de sempre, embora não tenha justificativa para isso, apenas explicação. O que devia bastar. Quando era criança, não fazia idéia do que fosse homossexualismo (Freud diria que sim, mas ele está morto e não me importo). Quando ouvi alguém xingar alguém de viado, achei que era a mesma coisa que babaca, idiota, folgado. Na verdade, para mim está bem claro que o sentido é esse, mas isso é idiossincrasia. Só sei que hoje perdi um amigo por causa de um xingamento dito em tom de brincadeira. O engraçado é que se sempre fui amigo, então não vejo problema nenhum em ele ser viado - no sentido real da palavra, não no sentido pejorativo. Pois é, sei que é uma contradição empregar estes sentidos, mas não vou pedir desculpas.
Wednesday, January 17, 2007
Cinza
Rua abaixo, topo com a filha do Luck Luque, que me diz um simpático "oi!", para minha total surpresa. Quando retribuo o cumprimento, ela já passou por mim. Ela deve ter escutado, mas definitivamente devo parecer gagá. Pena que certamente não o sou de fato, pois senão estaria agora em casa recebendo papinha de colherzinha na boca. É, acho que estou merecendo levar um chute, só fico pensando essas merdas. Pelo menos está tocando Cretin Family na minha cabeça. Oi! Oi! Oi!
A dona da padaria insiste que eu não preciso pagar o café. Tudo bem para ela, eles iam acabar me voltando troco a mais, lesados do jeito que são. Este logro de que temos alguns privilégios é tão pequeno quanto eficiente para nos fazer acreditar que ganhamos o dia, ou que somos de alguma forma especiais, mas não caio nessa.