Monday, April 28, 2008

Ficção científica a curto prazo

É gente demais se espremendo. Sam estranha a expressão, “papagaio de pirata”, a qual nunca tinha ouvido, apesar de já ter adentrado na casa dos 20 anos e de já ter visto outras recepções a candidatos. Assim que o avião com Magalhães desponta por cima dos morros, alguém que estava com seu assessor direto ao celular dispara a metralhadora verbal e todos focalizam o alvo. Assim que ele, o mais bem cotado nestas eleições, desce as escadas, começa o beija-mão que notabilizou as aparições locais do seu pai. Os repórteres atropelam os petistas, novos aliados de Magalhães, que mal chegam perto, para alívio da diretoria da Associação Comercial – todos estão constrangidos com aquele disparate. A imprensa transmite ao vivo e grava declarações de vitória que não respondem a nenhuma pergunta, sejam as sobre o escândalo das contas no Saara Ocidental, sejam as totalmente inócuas.

A estratégia tramada pelo chefe de gabinete logo se revela eficaz: o forte cheiro de bioquerosene faz todos suporem que há um vazamento de combustível. Tão logo se livra dos microfones e câmeras, beneficiado pelo empurra-empurra, Magalhães se deixa levar pela onda humana, sorriso em punho, desbragado mas em guarda. Sobe na 4x4 improvisada em trio elétrico de Tio Tião, o novo-rico da ranicultura orgânica. Sam é carregada para o carro de seu tio, que pretendia partir à frente, mas sai relativamente atrás do cortejo. Os tios gritam, se esgoelam, cortando todos e entrando na contramão perto de curvas apenas para se emparelhar ao lado do carro de Magalhães, que acena irresponsavelmente para eles sem entender nada. Quando quase batem em um velho Tucson que buzina a todos pulmões, Sam definitivamente zanga-se e diz que não adiantará nada morrer antes da hora.

Ao chegarem ao teatro, têm que esperar mais puxação de saco e uma longa palestra entremeada pelos trechos do novo documentário sobre a modernização da gerência do Estado implementada por Magalhães, que permanece estóico, apesar das piadinhas de efeito que solta para deleite da platéia, que tem a frente uma claque bem treinada na arte de forçar o riso com espontaneidade. No camarim, depois de conceder uma entrevista prazerosa para o dono – que tem seu próprio programa – de uma provedora aliada de audiovisual para celulares, Magalhães enfim ouve falar de Sam, e pede para o rapaz entrar. Para sua surpresa, a cadeira de rodas traz uma garota, Samanta. Ela começa a chorar com mais essa confusão. Carismático, ele a acalma, abre a carteira, paga a primeira parcela da sua viagem de tratamento, despede-se com um abraço caloroso e desejando o melhor para ela.

Assim que Sam embarca, seu pai começa o trabalho de convencimento nos sindicatos, uma campanha efetiva e relativamente barata para Magalhães, que definitivamente mantém petistas incômodos à margem. Sam só tem que esperar quatro meses para o pleito, com morfina à vontade. Seus tios a levaram ao consulado em Amsterdã para ela votar, mas ao contrário de toda a família, ela não votou em Magalhães. O que ele pode fazer, matá-la? Finalmente, no dia seguinte, logo após ser anunciada a vitória de Magalhães, a eutanásia é feita às pressas para evitar qualquer contra-ordem e assim ela morre longe do SUS, pelo menos isso.
18/06/2007

Saturday, April 19, 2008

História para matar o tempo

Descendo a rua abaixado para melhorar o coeficiente aerodinâmico, ele não percebeu o ônibus virando a esquina da Aníbal Machado. Morreu por nada, ele não era nenhum ciclista que entraria em competição nem tinha pressa de chegar em casa, estava apenas fazendo graça; infelizmente ninguém estava olhando. Seu primo contou a história no bairro do outro lado do rio. Ser enterrado em caixão fechado é o que deixou a molecada abismada. Ninguém nunca havia imaginado que isso acontecia. A história se tornou lendária mesmo nas gerações seguintes; vinte anos depois era usada pelos pais para tentar controlar as peraltices sobre rodas da molecada. Naquele bairro, ele era alguém, mas não batizou nenhum nome de rua.

Friday, April 18, 2008

1983

Ela me deu apenas o endereço do prédio, sem o número do apartamento. Foi de propósito, com certeza, conhecendo o pendor que ela tem para dificultar tudo. Pensava que ela morava em uma casa até chegar à porta do edifício. Disse para eu passar às duas da tarde, hora em que certamente estaria acordada. Dentro do prédio, Leave me Alone tromba comigo vindo pelo corredor. Subo a escada atravessando a muralha sonora, que vai se tornando mais densa até identificar a fonte: apartamento 7, modificado a canivete para FACT 75, com as ranhuras de “FACT ...5” cheia de lasquinhas secundando o 7 de metal. Bato na porta, mas ela só atende depois que ouço a agulha se levantado e dou uns toquinhos de leve na madeira, como se estivesse fazendo figa para espantar o azar. Nunca a tinha visto de vestido e jamais a imaginaria com uma bata florida. Ela me convida para entrar com um sorriso e um aceno de cabeça, nada mais. “Desculpe-me, acabei de acordar, vou no banheiro. Instantinho”. Olho por um tempo os desenhos em sulfites colados com fitas adesivas na parede, as poesias cabecinhas assinadas por gente que desconheço totalmente e uma história em quadrinhos obscena de ruim desenhada pelo Miltão, o que me desanima de examinar os demais rabiscos que subiam até o teto, às vezes. A varanda da república, famosa, estava ali na minha frente para finalmente conhecê-la. Não tinha nada além de uma rede e umas plantinhas. Observo as pessoas abaixo, correndo pela rua de trás, e uma faxineira limpando o fundo do prédio. Todos correndo, testas enrugadas (aposto), com a exceção de uns velhinhos barrigudos e de chinelo, na porta do bar, desinteressados de tudo e por isso mesmo desinteressantes. Estes são os bons tempos da juventude aos quais me referirei como meus, contemporâneos dos tempos azafamados, acelerando para a morte, de todo mundo ali embaixo? Se este tédio será saudoso, não quero imaginar o que se avizinha com o fim da faculdade, daqui a dois meses. A universidade já é quase uma terra estrangeira, hostil com quem sonha em ficar naquela complacência estagnante e convidativa. Claro, muito neguinho engajado no movimento estudantil acha o que procura, mas eu passo por boa-praça ao dar guarida para eles quando a arara ameaça chalrar. “Voltei”. De shortinho, camiseta e All Star sem meia, cada um de uma cor, melhor assim. Os óculos não estragam nada. Ela deve ter pegado a bata de uma das meninas como pijama. “Achei o livro na biblioteca do centro, acho que salvei o nosso trabalho”. “Que bom”, ela suspira. Não escrevemos nem 15 minutos, chá gelado à mesa. Celly estava faltando no meu currículo escolar. Marijuana na rede e Chico na vitrola, mas ela não relaxou. As meninas devem chegar mais cedo hoje. Daí para o quarto que ela divide com Regina, mas no beliche a cama dela é a de cima. Com pavor de altura, não desempenhei bem até convencê-la que a fazer de pé, no chão, novidade para ambos. O último dia bom dos bons tempos ou o primeiro do resto de nossas vidas, veremos. Em dezembro prometeram uma vaga para mim no escritório do doutor Nogueira e 1984 começou como o pesadelo previsto, duplipensando juízos de valores negativos e petições favoráveis.

Thursday, April 17, 2008

É disso que o povo gosta

O capacete rachado ao meio dava idéia da violência do impacto. Quando o levantaram, a massa encefálica fugiu para o asfalto, finalmente dissipando a fissura. O pó talvez o matasse de qualquer forma. Os demais mototaxistas que meio que fizeram um piquete no local não queriam saber disso, mesmo os que sabiam. O linchamento do caminhoneiro só não foi mais cruel porque a polícia passava por perto justamente para pegar o cafezinho na boca-de-fumo. O obeso senhor foi levado às pressas ao hospital, mas não resistiu. O cinegrafista de um dos programas policiais locais, cujo apresentador garante não ter um pingo de sensacionalismo, registrou tudo isto e também os mototaxistas cercando sua moto para tomar-lhe a câmera, quando finalmente o reforço chegou. O Supermercado do Tio César e o Açougue Coliseu gostaram das inúmeras chamadas para matéria em meio aos seus reclames.

Wednesday, April 16, 2008

Maturidade

Faz tudo para não se queixar. O único modo de conter a agressão verbal é não falar. Passou a manter-se tão calado quanto no serviço ao mesmo tempo em que evita parecer taciturno. Tem funcionado bem. Agora ele passou a ser aquele bom companheiro que também ouve, aliás, que ouve muito. Nunca houve um como ele, ao menos para ela.

É um benefício que ela colheu da experiência dele. Relacionamentos, ele aprendeu, são exatamente iguais a temporadas no presídio. Resignação e bico calado são as senhas para a sobrevivência. Claro que nem tudo é fácil assim. Esses livros de auto-ajuda para casais não funcionam a contento exatamente porque também não existem manuais de auto-ajuda para presos. Às vezes o único modo de não virar mulézinha é socar a fuça de quem está por perto, mas aí as conseqüências são imprevisíveis.

De certo, apenas que o nível de agressão tem que ser zero a maior parte do tempo. Internalizado, passa batido. Boxe e musculação mantêm a harmonia até que elas passam a ter ciúmes de luvas e aparelhos e passam a demandar mais tempo, o que fode tudo. Por enquanto não tem sido assim.

Tuesday, April 15, 2008

Tudo saiu errado

Semanas de estagnação se passaram desde que ele recebeu a boa notícia pelo telefone. E nada do que estava previsto aconteceu. A firma faliu por capricho de um dos sócios, que discutiu com o chefe da Vigilância Sanitária local devido a uma banalidade, como se não houvesse nenhum podre fedendo há quilômetros de distância.

Hostilidade bate, volta e ricocheteia em quem tem uma relação apenas transversal com o fato. Desempregado, mas com mais contas a pagar, devido à precipitação de contar como certo com o que se revelou impraticável, ele teve que apelar.

Com certeza há humilhações piores do que ligar para ela. Não era o que ele sentia no momento. A voz saia abafada e chorosa, lotada de tristeza e entregando toda a insegurança há muito arraigada no que restou da sua personalidade outrora forte. Ser rejeitado por ela também nisso seria mais insuportável, dadas às circunstâncias. No entanto, ela emprestou o dinheiro, não antes sem um incômodo “Eu te avisei”. Perguntou se ela já tinha alguém novo. Não. Não podia aparecer também. O novo apartamento dela foi benzido.

Friday, March 28, 2008

Começo do fim

Ele se achava impulsionado por tudo aquilo enquanto ela achava que ele era limitado por tantos afazeres. As saudades estavam azedando e isto não estava cheirando bem para ninguém, a não ser para ele, alheio a tudo.

Na quarta-feira, antes do café da manhã, ela abriu a janela logo que ele acordou. Mandou que ele se levantasse e olhasse. “Está vendo todas estas casas nestes bairros que sobem morro acima?”. Ele fez que sim com a cabeça. “Por mais que você consiga mudar o mundo, e pode ter certeza que você vai mudá-lo muito pouco, alguém sempre estará padecendo de ignorância, dor e humilhação dentro de alguma dessas casas. Você não vai alcançar todos”.

Tomaram café calados até que ela começasse a falar sobre sua mãe e irmãs, sobre a briga que elas tiveram entre si, para desanuviar o ambiente. Olhando pela janela, ele não se vê sem ela, mas de repente não a sente junto a si no ano que vem.

Thursday, March 27, 2008

Pior sempre fica

Tentando fixar o olhar na árvore que balançava ao vento frente à janela enquanto tinha a impressão que estava vesgueando de sono, ouviu abaixo a porta se abrir, embora não tenha escutado barulho algum no portão. Surpreso, mas compreendendo que as madrugadas passadas em claro estavam saqueando sua concentração, desceu com a garrafa vazia de cerveja na mão, precavendo-se contra o pior. Não era nada demais, apenas o Pai que estava chegando mais cedo, mas um algo pior se descortinou. Bebendo à tarde, está ficando louco?, teve que ouvir. Só estou relaxando um pouco, estou muito ansioso. O Pai saiu da oficina mais cedo para aproveitar o último fim de tarde ensolarado no horário de verão. Encalorado e bem humorado, capitulou e convidou o Filho para mais uma cerveja no quintal. Pai deitou-se na rede e Filho na espreguiçadeira, ambos apenas de bermuda. A conversa preguiçosa sobre virabrequins, carburadores do tempo do onça e clientes sobre os quais nunca ouvira falar e que não o interessavam fizeram o Filho cochilar. Um último gole sozinho e o Pai ligou o rádio. Enquanto pensava se devia abaixar para não acordar o Filho, este despertou com o anúncio dos números da Megasena. Eram exatamente os que ele sempre jogava; levantou entusiasmado. Você fez o jogo para mim, né pai? A cara esbugalhada de espanto alcoólico do Pai entregou na lata que não. Puta que pariu, não jogou? Não jogou, como não? Usei o troquinho para comprar pão. Estou trabalhando demais, demais. Custava fazer a fezinha? Você tá zoando, né? Chegou perto e gritou no ouvido do Pai. Tá zoando, né? Como que fico agora? Pior não fica. A garrafa de cerveja espatifou-se na têmpora do Pai. Chutes no peito, barriga, costas e perna. Ainda buscou a outra garrafa na mesa, dentro da sala, e tacou nele. Errou. Ele mesmo chamou a polícia e entregou-se, arrependido. O Pai não quis dar queixa. Ambos continuam trabalhando como sempre, não tocam no assunto e remoem as frustrações em bares diferentes, quase sempre discutindo futebol.

Wednesday, January 30, 2008

Don Juan de araque

O aplique sugeria que era ela vaidosa. Também era vulgar, depreendia-se pelas altas botas de camurça deixadas à mostra por uma minissaia jeans e também pelo modo de mascar chicletes com a boca aberta. A blusa jeans por cima da camisa listrada que esconde os diminutos peitos fedia aos cigarros que ela fumava compulsivamente. A voz estridente e o olhar cheio de escárnio me fazem ter certeza de que ela é solteirona, mas se acha esperta o suficiente para sentir-se poderosa ao rebolar a bunda desprovida de carnes em um show da Ivete Sangalo.

A risada estrídula é pior do que a voz. Ela fazia questão de escancará-la às gargalhadas. O cabelo tingido do vermelho típico das quarentonas era a senha para a brancura que os dominava. O rosto trigueiro e magro, com os ossos protuberantes, era cheio de manchas senis. Tinha todos os dentes, mas eram amarelos e alguns decididamente estavam em bizarros ângulos, quase obtusos. Parece-me um bom desafio: fubanga, mas com auto-estima. Talvez fosse fácil, talvez fosse procurar chifre em cabeça de cavalo, como diriam meu pai e tios.

Má idéia. Ela gosta de conversar – de falar pra caralho, na verdade. Pior: tem alguns valores com que me identifico e os quais nunca encontrei nas mulheres que tive. É membro da Sociedade Protetora dos Animais. Não dá dinheiro para igreja nenhuma. Faz questão de dar esmolas. Pior ainda: na verdade, é maldosa e fala mal de várias pessoas que não conheço, mas que ela cita sem apresentação prévia, como se também fossem da minha convivência. Para cortar a conversar descarrilada, meto-lhe um beijo. Rolou, mas não rolou o que interessava. O resto da noite foi desperdiçado com mais aluguel sobre desconhecidos e uma longa viagem para uma quebrada que eu não conhecia e na qual me perdi ao voltar para casa, só encontrando o caminho quando começava a amanhecer.

Thursday, January 17, 2008

Carpe Diem

Corria bêbado, certo de que estava livre, quando tropeçou na raiz exposta de uma das árvores que margeiam o parque. Demorou a reagir ao tombo. Conseguiu jogar os dois braços à frente, para sua própria surpresa. O que não impediu de que ainda assim batesse a cabeça no chão, dado a velocidade em que estava. Ralou os braços e ainda ganhou um galo na testa, que doía ainda mais porque havia um corte no meio.

Tuesday, October 16, 2007

Microconto em inglês

The snake in the grass

A snake charmer fell in love with her. Now he’s trapped in a box.

Monday, September 10, 2007

Gatinha

Paula lambia-se como se fosse um gato. Sabia que não tinha lógica, mas é um hábito de criança do qual não consegue se livrar. Finalmente em casa, depois de um banho e do almoço, morrendo de sono em frente à TV, sol a pino e sabendo-se privilegiada por estar naquele quarto fresco, todo bege e bem-ventilado, Paula lambe-se e arrepia-se consigo mesma, sua melhor companhia, ainda que não considere dispensáveis as demais. Contorce-se na medida do possível, estendo a língua onde aprendeu que era bom pô-la, até que se aconchega no edredon e, antes de apagar, pensa brevemente como em ser contorcionista de verdade. Quando acorda, ao fim da tarde, o sol já amigável, ela espreguiça-se pacientemente e sai para caçar.

Tuesday, August 14, 2007

Judas, Caim e Abel

Um dia, percebeu que um plano simples bastava: não precisava brigar para ser o macho alfa ou se contentar em ser subalterno. Fez concurso para oficial de justiça sem contar para ninguém e ficou contente por ter conseguido uma colocação ruim. Justamente por isso, devia ser chamado para trabalhar em uma cidade distante, em alguma comarca para onde ninguém queria ir. Teve sangue frio, agüentou as provocações dos irmãos e dos pais sem anunciar para ninguém que havia garantido uma vaga e esperou o momento de ser chamado enquanto trabalhava no supermercado, em meio à remarcação de mercadorias vencidas, clamores para que fosse menos lerdo e clientes mal-educados. Chamado ao fórum, confirmou seu interesse na vaga e quietamente embalou seus poucos pertences, sacou dinheiro da poupança para passar o primeiro mês e esperou a noite da véspera chegar para comunicar a mudança a todos. Antes, ao fim da tarde, seus pais notaram que seus livros, apostilas, roupas e carrinhos de brinquedo tinham sumido. Quando chegou, foi chamado de mal-agradecido e teve sua mala jogada no regato ao lado. Sorte que foi amparada pelo bambuzal. Ambos, mala e mala, foram diretamente para rodoviária. Anos depois, em meio a muita falação antes de fazer uma citação, viu a foto de seus irmãos no jornal em cima do balcão da lanchonete. O mais velho matou o caçula em meio a uma discussão sobre quem deveria administrar o negócio. Um templo evangélico funciona no prédio onde ficava o supermercado. Poucos na vizinhança ainda se lembram do estabelecimento e daquela família ao passar com pressa pelas mulheres do bairro que fica do outro lado do córrego, com suas grandes saias e proles.

Friday, June 22, 2007

Cromo

Ela esqueceu de tomar o remédio, mas na verdade esqueceu que havia tomado-o. Dormiu dois dias seguidos, com a porta aberta. Os cachorros que sempre vagabundeavam pela redondeza entraram, comeram toda a comida sobre a mesa, rasgaram o saco com as fotos talvez por achar que também fosse comida, talvez por diversão, e destruíram recordações que iam de 1977 a 1991. A sorte que foi que o gatinho, Mimado era o nome, chegou e pôs os curiosos para fora com patadas nas fuças dos pobres bichos, todos com costelas à mostra. Muitas fotos ainda foram salvas assim, mas não foram mais vistas. Quando suas sobrinhas apareceram para visitá-la, vendo-a estendida no sofá, o gato a seus pés e toda aquela confusão na cozinha e sala, imaginaram o pior, mas não conseguiam se decidir: ou ladrões entraram lá, ou ela estava morta há dias e o gato detonou tudo. Finalmente perceberam que ela apenas dormia, e acordaram-na para o pesadelo de levá-la para o asilo, onde ela não podia cuidar de suas coisinhas. Bem de saúde até então, rapidamente adoeceu e se foi. Todos estavam contentes por ter tomado a decisão certa, não a abandonando para morrer sozinha em casa.

Monday, June 11, 2007

O que cair na mão

Lia de tudo, compulsivamente. Lima Barreto, Oscar Wilde, Dan Brown, Paulo Coelho ou auto-ajuda, tanto faz. Não fazia quase nada e quase ninguém passava por ali. Pressionada a ser funcionária pública pela família e pela falta de perspectivas, fez concurso, passou raspando e fica só quase o tempo todo. Disso ela gostava, podia ler sussa. Os turnos de 12 horas, nos quais ela passa madrugadas adentro vigiando escolas periféricas, bagunçaram seu relógio biológico. Ela quase não dorme em casa, nunca dorme em serviço porque morre de medo de ser demitida e ser ainda mais achincalhada em casa. Seus cabelos estão caindo, seu rosto de menina, apesar dos 20 anos nas costas, está se enchendo de manchas senis. Ela não sabe fazer nada a não ser atirar, porém o porte de armas foi cassado à guarda metropolitana. Em dois anos, a única ocorrência que lhe emocionou fora das leituras foi quando dois ladrões entraram em uma creche para roubar a TV e o DVD da brinquedoteca. Ao flagrá-los, surrou-os com a tranca da porta e encerrou-os no banheiro, para que não danificassem nenhum brinquedo. Esse cuidado, a valentia e a presteza garantiram-lhe respeito na corporação e na PM. O processo por cárcere privado foi rapidamente arquivado e a alegação de legítima defesa aceita de antemão na sindicância. Depois disso, a falta de adrenalina tirou graça da leitura. Disseram-lhe tanto que a TV aliena e que ler faz diferença, mas tantos livros depois, ela não se sentia uma pessoa melhor. Estava tão alheia a tudo como sempre foi. Aqueles dois ladrõezinhos fizeram mais pela auto-estima dela do que qualquer Augusto Cury da vida. Ela, que fora sempre tão travada, passou a assistir desenhos e a divertir-se na brinquedoteca toda noite, vivendo finalmente a infância que lhe foi negada na lida doméstica.

Friday, June 08, 2007

Gêmeas

Um ato muito específico para quem a conheceu. Sua mãe fazia exatamente igual. Cruzava os braços e alisava ambos simultaneamente, como estivesse desejando alguém que a acalentasse, mas mantinha-se fechada e afastava a todos. A garota faz exatamente o mesmo. Mais carrancuda, menos amigável. É como se fosse a mãe há quinze anos, mas com um piercing.

Wednesday, June 06, 2007

Bloqueio

Era um grupo de 15 donas-de-casa ajoelhadas, rezando, na escada de mármore branco. Em meio a elas, apenas um homem, desempregado e suando em bicas no sol da uma e meia da tarde. Há duas horas estavam murmurando ininterruptamente cânticos e rezas. No começo dos anos 90 não era moda aparições de imagens de Virgem Maria em vidros embaçados. Matando aula, as duas alças da mochila pesando no ombro esquerdo, o garoto segue indiferente, até que se vê interditado por uma senhora com cara bondosa, implorando para que ele fosse rezar junto. Diante da negativa, ela diz que tem muita pena dele, pois o fim está próximo e o julgamento será minucioso. O garoto observa a cena e pensa por uns dois minutos se tanta reza mudaria algo. Ele se dirige à bilheteria, tapando o ouvido para não ouvir as beatas, e compra o ingresso para o filme pornô cuja sessão está para começar. Dentro, não consegue o que queria, pensando no mau agouro lançado sobre seu desejo. Nunca mais teve uma ereção.

Monday, May 28, 2007

Trilha odorífera

Caminhando cabisbaixo, pensava na ameaça de hipoteca com o odor da bosta de cavalo invadindo-lhe as narinas e providenciando um acompanhamento ideal para o que se passava em sua cabeça.

Wednesday, May 23, 2007

Recado particular

Contra minha vontade, aprendi a atirar antes de espremer espinhas. Papai era obcecado por armas, entendia que era a única defesa confiável, ou isso ou estaríamos nas mãos de meganhas ausentes e incompetentes. Não acreditava nisso, nunca aconteceu nada, estamos nas mãos de Deus e só. Arma nenhuma pode fazer frente à surpresa, ao inconcebível. Fui obrigado a fingir entusiasmo em caçadas a pobres capivaras que nunca fizeram mal a ninguém, a atirar em troncos fingindo ódio por eles serem imaginários invasores de terra. Talvez por não gostar, talvez por querer impressionar a todos e largar logo daquilo, descobri o único dom que os céus me deram: uma mão firme nos coices e uma mira nanométrica. Uma maldição, na verdade. O que iria fazer com aquilo? Não gosto de caserna, polícia (uma boa influência paterna), de caça. Ainda entristeço-me por ter estourado a cabeça de todos aqueles bichos. Depois de, ingenuamente, na verdade ter considerada minha presença indispensável nas excursões, passei a errar de propósito. Tive minha masculinidade questionada pelos tios e compadres, mais do que minha firmeza, mas permanecia tão frio quanto na época em que acertava todas as ranhuras de madeira que afirmava que acertaria. Pedras que voavam longe, galhos partidos, folhas esburacadas, detalhes de troncos chamuscados. Sabia exatamente onde mirava e acertava, sempre.


Tuesday, May 22, 2007

Falta de gosto

Ela nada mais pode fazer que seja do seu desejo. É mimada escada acima, escada abaixo, recebe afagos, atenção e comida na boca, mas não sente nada, em nenhum sentido. Não queria nada disso. Lembra-se que pôde dormir anos e anos com um homem, o tato caloroso. O rosto e o nome dele, ela sonha que dorme abraçada com ele, não consegue chamá-lo nem virar-se para vê-lo. Às vezes uns velhos vêm visitá-la, apresentam-se como filhos. Ela fica agradecida à direção por trazer esses voluntários para fazê-la sentir-se bem. Não diz nada, para não soar mal-agradecido. Os dois filhos, cabelinhos encaracolados, eram dois anjinhos. Eles ascenderam ao céu em um monomotor. As crianças que eles trazem e dizem ser seus bisnetos (ou netos?) parecem-se um pouco com eles.