Friday, August 29, 2014

Súcubo

Não curto escrever poesia; não é a minha praia. Gosto de apenas de ler. Entretanto, no dia 26 de agosto de 2014, rolou um sarau organizado pelo coletivo Esquina no bar Pasquim, em Poços de Caldas. Arrisquei e fiz duas para a ocasião; as pessoas, me parece, realmente gostaram de ambas quando as li. Publico uma aqui.

Súcubo
Você jamais será Tina Modotti
No máximo é uma commodity
Personifique quem for
Seu vazio é impessoal

Não devolva o livro do Zuenir Ventura
Fique também com o do Conrad
Dê tudo de presente para o lixo
No qual despejou as pessoas de outrora

Daniel Souza Luz
26/08/2014
Não sei quem é o autor da foto. É um dos três: Jéssica Balbino, Rafael Lopez ou Marília Freitas Rossi.
















Tuesday, August 28, 2012

Só dói quando sonho


Em ambientes fechados, sempre olho por uma janela ou porta procurando por uma árvore. Adoro ver o sol batendo forte nelas, verde fecundado pelo amarelo. Uma sensação de liberdade pela qual ninguém pode me recriminar, nunca houve quem percebesse, por mais poder que tivesse sobre mim.
Na escola, nos empregos, em casa, quaisquer desses cativeiros, sempre permaneci obediente. Ansiando pelo sol; obrigações, tarefas e cobranças me fazendo sombra sempre, para sempre.
Até que Ela apareceu. Puxando-me para o sol que saneou o musgo que recobria meus sonhos. Um desses sonhos, enfim, nasceu.
Sonho sorridente, que dobrava chefes, a própria mãe, sogros rigorosos, conseguindo fugir para o sol, junto às árvores, às vezes.
Assim passaram-se sete anos, apertados financeiramente, sem que pretendêssemos parir outros sonhos. Ainda assim, sacrifícios sondando. Cansaço, brincadeiras, brigas sem sentido, risadas e os três dormindo juntos, a pequena Sonho metendo-se entre Ela e eu, alta madrugada, com medo da escuridão.
Medo que ela encarou antes de nós. Nosso Sonho desvaneceu-se, tal como todo sonho, de repente, em meio ao rugido do dia, sobre o capô de um garoto de 18 anos, 51 pontos na carteira, muito mais do que isso na carteira que interessa, a do pai dele.
A pequena Sonho, que queria ser enfermeira, era a própria Ela, só via Ela nela. Esperança de nós. Procurei o assassino, ele riu, fez-se de compadecido, disse que se sentia mal, mas riu. Insistiu que não era justo que fosse julgado por isso, que não aceitava ser julgado pelas pessoas, pela Justiça tudo bem, mas pelas pessoas e por mim não, porque “sou muito mais do que isso”. Riu impune. Disseram-me para não procurá-lo porque ele ainda iria rir do que fez, certeza.
Não consegui. Não podia mais ver ela n’Ela. Fico no sol, numa praça cheia de árvores, mãos estendidas para a esmola suficiente, longe, mas perto, muito perto.

Para minha avó Arminda, meu avô Eurico, minha mãe Olívia e para a querida Renata Laili. Ao som de Control Machete. Botelhos/MG, 3 de julho de 2012.

Wednesday, March 28, 2012

Luta amada

Um retrato na cômoda emoldura uma presença incorpórea. Há quem sinta-se ofendido ao entrar na sala. Tantas décadas depois, ainda insistindo nisso. O pai morreu desgostoso, sem concordar com a ideologia do filho até o fim, sem concordar com a sua ausência espontânea e sobretudo sem concordar com sua ausência forçada. Jamais admitida por quem a provocou. Todos sabem quem foi, às vezes o responsável aparece no noticiário, com a cara de quem dormiu gostoso ao roubar as horas de sono alheias. Hoje foi a vez da mãe também se ir, sem nunca saber o que aconteceu com aquele filho idealista do qual ela se orgulhava, mesmo sem compreender o que exatamente todos aqueles discursos inflamados diziam. Até o último dia pressionou para que a verdade viesse à tona. O retrato será enterrado com ela.

Este texto faz parte da 5ª Blogagem Coletiva #DesarquivandoBR

Mais informações:

Monday, April 11, 2011

Garotas têm ritmo

Uma visão embaçada: sua mão envelhece junto à de alguém em um baile de debutantes. Determinada a encontrar um único amor que a acompanhe por toda a vida, ela recorre aos conselhos de uma autodenominada cigana – uma hippie suja rodeada por cabeludos imundos. Envolvente, a mulher convence a garota, imbuída de ideais românticos, a organizar um baile de debutantes temporão – ela iria fazer 16 anos. Sem problemas; o dinheiro dos pais bancou tudo, da festa na qual deveria aparecer o predestinado à alegria da “cigana”, que também tem o dom de desaparecer sem deixar rastas.

O baile começa pontualmente no dia marcado. A banda contratada para tocar Evanescence e Paramore tem até uma vocalista que lembrava simultaneamente ambas as homenageadas e também a “debutante”. Todos os bicões são bem-vindos; a escola em peso comparece. Um deles havia de ser. Tudo corre bem, mas só o galã de novela contratado especialmente para a valsa de abertura dança com ela. Fora isso, nem sequer o pai. Ninguém chega junto. Então ela sai à caça do amor eterno.

Todos pulando, alguns se beijando, ela observa, nada. Até que ele a encara e ela vislumbra o inferno, em flashes de câmera lenta, uma alucinação bem acurada: primeira vez bruta e dolorosa, ciúmes doentios, traída mesmo no dia do casamento, espancada na frente dos filhos, entedia-se dentro de casa e agoniza sozinha. Ela se vira horrorizada e topa com uma ruiva sorridente. Dançam juntas. Não é o que esperava e não vê futuro algum. Melhor assim.

Wednesday, June 09, 2010

O monstro em cima da cama

O beijo assusta. Desejava-o, mas não tem sentido. Após todos esses anos querendo-a em silêncio sofrido tinha certeza que ela havia percebido seus olhares platônicos e os desprezado olimpicamente. O retribui por instinto.

Ela então pergunta se ele trouxe o DVD do Joy Division que ficou de gravar. Isso aconteceu em um sonho. Que ele não contou para ninguém. Nem sequer tem CDs do Joy Division. “Não, esqueci”. Sorri desconcertado. “Você está tão pálido”. Sonha com ela há três dias. Teve poluções noturnas, o que não acontecia desde a adolescência. Parecia real. É real, agora, mas não parece.

Ao longo do dia procura amigos com quem sonhou. Seus sonhos têm se passado somente à noite e neles tem a autoconfiança que sempre lhe faltou. Todos se lembram das conversas e riem de novo das piadas que contou.

À noite corre para casa. Agacha-se e olha embaixo da cama. Seu duplo o encara, arrasta-se para o meio do quarto, levanta-se e sai sorrindo com desdém. É mais alto, bronzeado, forte. Faz sentido. Ele encolhe-se debaixo da cama para de lá nunca mais sair. Agora tem a vida com a qual sempre sonhou.


Miniconto que fiz para um concurso literário do site Estronho e Esquésito. O tema era "O Monstro Debaixo da Cama". Não fiquei nem entra os trinta primeiros. Mas gostei do que escrevi. Depois pretendo reescrever e expandir esse continho.

Sunday, September 06, 2009

Adendo pós-parada forçada por D.O.R.T.

Também escrevo contos e minicontos em inglês. Por ora dá para continuar com estes últimos:
http://writinginahurry.blogspot.com/

Sunday, August 30, 2009

Diário de um condenado

Estou com uma D.O.R.T. (Doença Ocupacional Relacionada ao Trabalho) , ou seja, lesão por esforço repetitivo nos dois antebraços. Não dá para ficar escrevendo muito. Vou parar com este blog e só o retomarei quando o melhorar de vez. Poucos notarão, se é que alguém notará. Então o twitter é o ideal para mim agora, estou escrevendo nanocontos (ou microcontos) diários. Minha idéia é que estes microcontos componham um painel ou diário, um pequeno romance cujos pedacinhos vão sendo escritos diariamente. Não era minha idéia no começo, mas se alguém ler na sequência vai perceber quando começa a história. Bem, aqui está: twitter.com/danielsouzaluz


Sunday, August 23, 2009

Enfim o fim

Em uma comunidade de extrema-direita, deram conta do sumiço inexplicável do velho, que tinha até um perfil no orkut, quem diria. Mas eles especulavam se não teriam sido membros do governo que teriam dado cabo dele. Velhos gagás. Queriam sair por aí batendo nesses caras em comícios, tal qual o velho clamava em seu perfil no orkut. Mas não relacionavam seu desaparecimento ao aparecimento da ossada. Isso foi o fim de tudo. Quando mostrei isso ao meu irmão, ele perdeu todas as esperanças. As tentativas governamentais de localização das ossadas, com ajuda do exército, eram patéticas, claro. Toda a investigação, tudo que ele havia investido, em nada sossegou seu desejo de enterrar meu pai em solo apropriado, católico. Para mim, no entanto, é como se o tivesse enterrado no dia em que acabamos com o velho. Está bom assim.

Sunday, August 16, 2009

Enfim parte 20

Fizemos o que tínhamos que fazer. No entanto, sabíamos que isso traria demasiada atenção. As manchetes nos jornais a respeito da primeira ossada identificada há muitos anos ressaltavam o seu aparecimento misterioso. O velho mendaz talvez tivesse se confundido, pensando bem. Mas se quis nos sacanear, impondo-nos uma vitória além-túmulo, ao menos fez a alegria de uma família que há muito queria enterrar o seu morto. Eu compartilhava da alegria deles. Meu irmão não. Cabisbaixo, dizia-me pelos cantos que temia que alguém fizesse a conexão do desaparecimento do velho e a súbita aparição da ossada. Ao menos na imprensa escrita não foi feita nenhuma menção. Nós havíamos escolhido bem, eu lhe repetia, mas não havia necessidade de reforçar isso. Ele mesmo tinha me convencido de que seria um empreendimento seguro ao fazer a investigação dele: o velho sabia muito, estava só, isolado, ninguém se importava com ele.
Mas resolvi fazer uma busca na internet. Não achei nada. Aí procurei no sistema de busca do orkut. Alguém tinha se dado conta do sumiço dele.
Continua.

Sunday, August 09, 2009

Enfim parte 19

Meses após

Não chegariam mesmo a nós. Feito o teste de DNA, descobrimos que aquele esqueleto não era de papai. O velho canalha tinha o poder de ser traiçoeiro mesmo além-túmulo. Jogamos a ossada no quintal do presidente da comissão de desaparecidos, na capital. No bilhete, expliquei que provavelmente era de um guerrilheiro. Era mesmo. Estava estampado na manchete dos jornais, duas semanas depois. Um trotskista sem ligação com o grupo de meu pai.

Continua...


Sunday, August 02, 2009

Enfim parte 18

Depois de um bom tempo revolvendo a terra, Júnior o acha. Ele vai guardando os ossos dentro de um saco preto. Com suas luvas amarelas, mira o crânio por uns instantes antes de guardá-lo com um certo carinho, por mais estranho que isto possa ser. Observo tudo sentado contra a parede, com a tremedeira das mãos já controlada. As pernas, entretanto, permanecem trêmulas ao me levantar para ajudá-lo a pôr o corpo do velho na cova reaberta. O rosto está quase irreconhecível, amassado, o nariz torto. Enquanto ele começa a jogar a terra de volta, diz calmamente:

- Não se preocupe, o silenciador funcionou bem. Ninguém vai nos pegar. Moramos a milhares de quilômetros da família dele, pegamos ele sozinho na praia, estamos a centenas de quilômetros de lá. Não chegariam a nós, mesmo que achem o corpo.

Continua...

Sunday, July 26, 2009

Enfim parte 17

Refeito, Júnior me tira de cima dele. Deito do assoalho, todas as cores que enxergo balançam. Não controlo a tremedeira das mãos, só consigo virar a cabeça para ver Júnior esmurrando sem parar a face do velho. Um pouco mais calmo, ele vem até a mim.

- Obrigado, sempre soube que podia contar com você se houvesse um imprevisto. Deixe tudo por minha conta de agora em diante.

Continua.

Sunday, July 19, 2009

Enfim parte 16

Golpeio a mão que estava segurando a coxa. Tentei por força suficiente no golpe para decepá-la, mas só fiz um corte fundo. Ele se vira, segura o jorro de sangue com a outra mão, mas meto o falcão nela também. Ele mal protesta ou geme, logo volta a se deitar de costas, parece conformado em se esvair em sangue. Como se fosse um privilegiado por só sofrer isto.

Ajoelhado sobre ele, tenho que fazê-lo. Tomo impulso, seguro o cabo com ambas as mãos, sobe ao peito meu estômago, que se revira. Amargando nojo enterro o facão em sua garganta. Seus olhos saltados antes fixados nos meus escondem-se atrás das pálpebras.

Continua...

Sunday, July 12, 2009

Enfim parte 15

- Não pensei que um bostinha como você tivesse coragem de atirar.

Isto que é empáfia. Estancando o sangue que flui da coxa com a mão esquerda toda ralada, completamente detonado, o velho torturador ainda mantém do desprezo de quem domina a situação.

Ponho Júnior sentado, ele respira com dificuldade. Volto ao velho.

- Nunca me achei capaz também. O Júnior planejou tudo, ele é quem sempre teve em mente acabar com você. Apenas o segui. Mas você vai se foder é na minha mão.

- Um dia me encontrarão, vocês não podem encobrir todos os rastros, eles vão te pegar... vão descobrir tudo.

Continua..

Sunday, July 05, 2009

Enfim parte 14

- Você cava - ordena Júnior, liberando os braços do velho. O facão e o 38 que só agora trouxe ficam em minha posse. O velho começa o trabalho vagarosamente.

- Porra, isto não é uma escavação arqueológica, nós não vamos limpar artefatos e esqueletos com uma escovinha, anda com isso.

Subestimamos o preparo do velho. Ele se vira e acerta em cheio o peito de Júnior com a pá. Estupefato, vejo ele avançar sobre mim com os olhos saltados. Disparo três vezes, dois projéteis enterram-se no chão, o terceiro aloja-se na coxa do velho, que tomba na terra do buraco que fizemos. Chuto a pá assim que posso.

Continua...

Sunday, June 28, 2009

Enfim parte 13

- Aqui está. Debaixo destes assoalhos. Se você tiver palavra, deixe meu neto em paz, pelo amor de Deus.

- Ah, pode ter certeza que ele vai concluir a academia e chegar a sua patente, como você sonha. – Júnior rebate friamente.

Arrancamos as tábuas aos golpes de facão, amassando-as com o pé, atirando-as longe. Júnior pede para que esperemos um pouco. Encaro o velho, que não abaixa o olhar momento algum. Não trocamos uma palavra. Júnior foi célere, logo volta com a pá que havíamos esquecido, porém, senti muito mais que todo o tempo da minha vida passar por aquele breve instante.

Continua...

Sunday, June 21, 2009

Enfim parte 12

- Você acha que sou comunista? Viu o jipe em que nós te trouxemos aqui? Deixa eu te dizer uma coisa então: obrigado por manter o país livre do comunismo, pois pude enriquecer. E você, como é o único animal aqui, e admito que você é um animal de certa estirpe, então vai nos levar onde papai está, pois é isto que os animais da sua espécie fazem: obedecem e rastreiam.

Mal se mantendo em pé, trôpego, pela primeira vez o velho me parece frágil. O tom de voz é quase suplicante, mas sua expressão se mantém feroz, mesmo quando ele cospe, ou vomita, não sei, uma considerável quantia de saliva tingida de vermelho.

Continua...

Sunday, June 14, 2009

Enfim parte 11

- Você não tem moral para falar nada sobre minha mãe, ela é um ser humano, pode errar, como qualquer ser humano. O único animal aqui é você, que não acha errado as selvagerias que praticou. Olha para mim. Olha para mim!
Para um senhor com idade relativamente avançada, o velho ainda era muito corpulento, manteve sua postura ereta, indicativa de força. Mesmo assim, Júnior o levantou de uma vez só, passando o facão em seu braço. O corte é nítido, mas sangue só começa a descer quando o discurso de meu irmão se encerra.
Ainda continua...

Sunday, June 07, 2009

Enfim parte 10

Meto uma bica nas costas do desgraçado. Quando ia repetir o gesto, meu irmão pede para me conter. Nem assim, o velho se cala.

- Ah, você! Os caçulas sempre são mais nervosinhos. Sabia que o irmãozinho daquela vagabunda amiga do seu pai quase conseguiu me chutar quando viu a gente comendo ela?

O mano recobrou a calma. Ele pisa calmamente no pescoço do velho.

- Se o que você disse a respeito da minha mãe é verdade, isto só demonstra a grandeza do caráter do meu pai...

- Comunista não tem caráter, são uns animais. Comunista sujo, seu pai era um comunista sujo, um porco. Foi destripado como todo porco, como o animal que era. Aposto que vocês são uns comunistas de merda também. Filho da puta.

Uma risada nervosa precede o derradeiro ato paciente do meu irmão para com aquele escroto.

Continua...

Sunday, May 31, 2009

Enfim parte 9

- O que foi? Tá bravinho por quê? Tinha furos suficientes no saco para você respirar bem até tiramos as caixas de som do tampo para você ficar em um ambiente bem ventilado você não fazia o mesmo por seus cativos... tudo isto ainda é POUCO – berra meu irmão com um fôlego só, caracteristicamente jorrando palavras e titubeando ao fim.
Finalmente, o silver tape é retirado da boca do traste, que não se faz de rogado.
- Filho da puta, filho da puta. Você é mesmo um, literalmente, seu filho da puta. FI - LHO DA PU - TA. Nós descobrimos, enquanto investigávamos seu pai, que sua mãe se envolveu com ele já grávida de um caixeiro viajante que desapareceu. Por que você acha que a data do casamento deles só precede em seis meses o seu nascimento?
Meto uma bica nas costas do desgraçado. Quando ia repetir o gesto, meu irmão pede para me conter. Nem assim, o velho se cala.
Continua...