Devo contar a história tal como aconteceu? Devo.
Em 1989 um cara de Caldas, o
Fabiano, veio estudar na minha sala. Ele era repetente e bem mais maduro do que
nós. Politizado e bem informado. Era de esquerda e meu melhor amigo o imitava e
o zoava impiedosamente na rua; se começava a chover, por exemplo, o Márcio dizia que “é culpa
da Globo”, só para sacaneá-lo, pois era uma frase recorrente do nosso colega de
Caldas. O apelido do nosso amigo caldense era Biá, hoje ele é referência em direitos
humanos na área acadêmica. Um dia, numa conversa de hora de recreio, ele descobriu
que eu andava de skate.
- Já viu o Thrashin’?
- O que?
- O filme sobre skate, como que
você não conhece?
- Ah, eu já li sobre o filme nas
revistas de skate. Nunca vi. Não tem para locar aqui. Onde você viu?
- Tem em Caldas.
- Não acredito.
Caldas era uma cidade muito
menor.
- Eu pego na locadora lá e trago
para você amanhã.
Ele trouxe mesmo. Mas não lembro
por que cargas d’água ele não levou o filme para a escola. Combinou de se encontrar
comigo à tarde na velha rodoviária de Poços de Caldas, já demolida, onde hoje
há uma praça de concreto – na qual a guarda municipal não deixa os garotos
andarem de skate ou bike, a despeito da falta de grama, árvores e
frequentadores.
Quando rememoro esse encontro
assalta-me uma sensação de estranheza. Subi por uma rampa lateral e esperei
numa pequena banca, uma mera reentrância naquela rampa (talvez fosse uma
escada), que nos meus sonhos é curva, sempre sonho com esse lugar. Eu acho que
ela era curva, de fato. Quando caminho pela avenida João Pinheiro nos meus
sonhos, a velha rodoviária ainda existe e ela se apresenta como mais real do
que minhas lembranças dela. Nas minhas lembranças, quando me recordo do lugar,
as cores são mais esmaecidas.
Comprei alguma das revistas de
quadrinhos que colecionava: a Circo, o Geraldão, a Chiclete ou, mais
provavelmente, a MAD. Comprei só uma, o dinheiro só dava para isso. Eu deixava
de comer lanche na escola para comprar as revistas.
O Biá apareceu com o filme e
lembro-me bem de conversarmos na parte de cima da rodoviária, num
parapeito, pois olhávamos para a avenida enquanto conversávamos. Como conversávamos
sobre Metallica e Guns n’ Roses no colégio, fiquei surpreso quando ele
perguntou se eu conhecia Devo, pois é outro universo.
- Pô, adoro!
- Tem That’s Good no filme.
- Eu já li sobre essa música.
- Mas você nunca ouviu?
Ele ficou espantado e riu. Eu lia
o nome das músicas e bandas em revistas de skate como a Overall e a Yeah! e os
decorava. Além de ficar exultante quando tocou Devo no filme, houve outros dois
momentos musicais no Thrashin’ do qual nunca me esqueci: o show do Red Hot
Chilli Peppers, uma banda sobre a qual até então eu também só havia lido a respeito, e
principalmente a clássica cena da perseguição de skates (melhor do que qualquer
cena de perseguição policial com carros) na qual toca Wild in The Streets.
Quando reconheci essas palavras no refrão logo lembrei de uma lista de músicas
favoritas de skatistas que havia numa Overall ou Yeah! Eu sabia que era do
Circle Jerks, tinha memorizado o nome! Não há palavras para descrever a emoção
de descobrir um tesouro enterrado, ainda mais naquela época pré-internet, em
que o acesso à cultura era tão difícil. Tomei contato com o hardcore em filmes;
a primeira vez que ouvi Bad Brains foi no Depois de Horas, do Scorsese. Mas eu
não sabia de quem era música, não tinha referências. Já o VI do Circle Jerks
foi o terceiro disco que comprei na vida.
- Não. Mas eu adoro Satisfaction,
já vi o vídeo.
Tinha visto o clipe na TV
Cultura. Para mim Satisfaction era do Devo; a do Rolling Stones era uma cover
ruim. Tempos depois descobri que a original era do Stones. Para mim, até hoje,
continua sendo uma versão mais ou menos de uma música genial do Devo.
That's Good - Devo
That's Good - Devo
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