Monday, July 04, 2016

Virgin Prunes (conto inspirado em memórias da pré-adolescência)

Os garotos reúnem-se na esquina. A conversa não tem sentido. Discutem se o U2 é da Austrália, dos Estados Unidos ou do Canadá. Todos estão errados, mas têm certeza de que estão certos. Daniel e Marcão, que não eram exatamente chegados, mas meros conhecidos que orbitam em volta de amigos em comum da rua, exaltam-se e chamam-se de burros, ignorantes e por aí vai. Diante das risadas dos outros moleques, decidem-se calar-se, numa trégua tácita.

A conversa toma o rumo das garotas. Elas não ficam mais no bairro. Já têm 14 anos, ficam com outros moleques, todos mais velhos, preferem ir ao centro. A verdadeira preocupação dos que se reúnem na esquina, com idade média de 13 anos, era fazer piadas com Adriano, que era flamenguista, porque o time dele jogava “cu Zico”, além de várias outras infâmias. Todos ali, no entanto, sem exceção, contam histórias de meninas com quem já haviam ficado. Tudo mentira. Daniel é o único que ficou quieto. Somente ele já havia beijado uma menina.

Lá pelas duas da tarde, já com o sol menos assassino, vão jogar bola na rua. Má ideia, pois o sol ainda é inclemente. Aguerridos, suados, jogam a sério, querendo vencer, algo que nunca faziam. Marcão erra a bola e chuta a canela de Daniel, que desaba no chão, gritando exageradamente. Não era pra tanto. Mas já havia uma tensão. Daniel levanta chamando o desafeto de cavalo. Marcão o chama de bichinha. Daniel não deixa por menos.

- Como posso ser, se eu já fiquei com a sua irmã?

Era verdade. Marcão logo intui isto, pois não entendia por que Daniel sempre ficava brincando com os moleques mais novos, de uns dez anos, na porta da sua casa, e ainda assim sempre conversava com sua irmã mais velha.  Num final de tarde, chegando na esquina, viu Daniel saindo de sua casa e ficou intrigado com aquilo. Agora está explicado.

Atracam-se. Esmurram-se na cara sem pena. Não acertam em cheio, sempre pega meio de lado, pois se mexem demais e seguram-se pelas golas das camisas. Forma-se uma rodinha em volta, estimulando-os a saírem mais na pancada ainda. Mal rolam no chão, no entanto, e são separados.

Atônitos, encaram Júnior, que mora em frente e saiu na porta de casa para entender a algazarra. Lutador de kung fu, já maior de idade, grandão, sacana e famoso por meter-se em brigas na escola. Estão suspensos pelas camisas. Júnior ri e o joga-os cada um para um canto. Intimamente, ambos têm certeza que apanharão de Júnior; sabe-se lá o porquê da intervenção.

- Vão embora vocês dois daqui. Vocês não têm idade para sair na porrada não – ordena Júnior, gargalhando.
 
Os olhares curiosos aguçam-se.

Marcão sai sem conseguir conter o choro. Daniel apressa-se a sumir dali, mas não sem antes gritar um “chora mesmo, mariquinha”. Corre e ri. Ao chegar em casa, mete-se logo no banheiro, para a mãe não ver o estado em que está, e toma banho. Os ralados nas pernas e nos braços ardem e as lágrimas confundem-se com a água do chuveiro. Convence-se de que não está chorando.
O nome do conto, embora o conteúdo não fale a respeito, é uma referência ao grupo gótico/pós punk irlandês Virgin Prunes. Na foto, a capa do disco ...If I Die, I Die (1982), aqui reproduzida via licença Creative Commons.

Monday, June 27, 2016

Napalm Death

Tem duas bandas sobre as quais li nos anos oitenta, em revistas de skate como a Yeah! e a Overall, e virei fã antes mesmo de ouvir, só por causa dos nomes: Sex Pistols e Napalm Death. Eu era garoto, estava começando a aprender inglês e ficava embasbacado. Como alguém tinha coragem de batizar grupos com nomes tão fortes? A primeira vez que ouvi o Never Mind the Bollocks foi inesquecível, porque cultivava expectativas enormes, e sempre me decepcionei ao ter grandes expectativas com algo, menos com o Sex Pistols. Já o Napalm Death atendeu perfeitamente ao que esperava, até porque já tinha uma ideia melhor de como era a música, pois posteriormente li mais um artigo sobre eles, na minha revista de HQ favorita, a Animal, escrito pelo João Gordo. Ele descrevia o som deles e de outras bandas da Earache, a gravadora independente que lançou o Napalm Death, como algo muito mais barulhento do que era conhecido à época, o hoje bem estabelecido grindcore, e ao final do texto afirmava “só sei que liquidificador com gelo também é música”. Quando finalmente consegui ouvir o From Enslavement to Obliteration, já no começo dos anos noventa, era exatamente isso.

Por inúmeras razões, ao longo dos anos e das várias vindas do Napalm ao Brasil, nunca havia visto um show deles. Agora, em 2016, com mais de quarenta anos, finalmente pude reencontrar-me com minhas perspectivas de adolescente e as satisfazê-las completamente. Foi um dos melhores shows que já vi. Como disse meu amigo Daniel Ikuma, foi o equivalente a termos visto o Fugazi nos anos noventa.

Fui de última hora, no próprio domingo do show, para São Paulo, devido a compromissos pessoais. Cheguei no Clash Club exatamente dez minutos antes do show de abertura. Logo encontrei meu amigo Otávio Mazza, o Tatá, que estudou jornalismo comigo na Unesp, no campus de Bauru. Fomos para perto do palco e, depois de várias tentativas frustradas, vi o Test pela primeira vez ao vivo. O duo de grind costuma tocar na rua e já passei perto de shows deles um par de vezes, mas não havia conseguido parar para assistir, mesmo já tento visto várias outras bandas no famigerado palco Test, montado nas ruas de São Paulo durante as Viradas Culturais. Em cima de um palco deu para sacar como ao vivo é uma pancadaria mais impiedosa do que no estúdio, prescindindo mesmo do baixo, com a interação guitarra/bateria exalando ferocidade, mas isto só me fez ter mais vontade vê-los tocando numa calçada, de perto, pois a frieza do público, que só observava, e o palco não correspondiam ao calor arruaceiro da apresentação.

O próximo show foi do Genocídio, tradicional banda de death metal, existente desde 1986. Como nunca acompanhamos a carreira deles com interesse fomos para trás para comprarmos algo para beber, conversarmos e comprarmos discos do Napalm e do Test na banquinha. Deu para sacar que é uma boa banda ao vivo, mas queríamos botar a conversa em dia e foi bom, porque também encontramos meu velho amigo Fernando Punk perto da banquinha, junto com mais dois amigos de Bauru. Essa característica das amizades duradouras e reencontros felizes é um dos maiores prazeres de frequentar shows underground ao longo de décadas.

Findo o show do Genocídio, rumamos para perto do palco. Ia ficar mais para o lado, como no primeiro show, mas o Fernando e a galera de Bauru foram mais para o fundo. O Tatá teve a feliz ideia de irmos ficar exatamente em frente à banda, um pouco atrás das pessoas que estavam grudadas ao palco. Achei que não daria conta, mas não gosto de ficar atrás, por ser mais baixinho. Quando o show começou abriu a roda e como sempre acabamos sendo empurrados mais para frente. Dali não saí mais. Mesmo meio prensado, me diverti demais e consegui pogar um pouco. Não entrei na roda um pouco atrás para não parar lá no fundão e ficar mais difícil de assistir o show com muita gente na frente e optei, por isso mesmo, em não subir no palco desta vez para um stage dive – certeza que pararia longe também. Claro que por isso virava e mexia tinha que segurar alguém que pulava.

Não cultivei expectativa nenhuma sobre o show. Sabia que mudavam o setlist a cada apresentação. O que é ótimo, bem diferente das bandas preguiçosas que pululam por aí. Simplesmente deixei fluir e não me preocupei se iam tocar ou não minhas favoritas. Mas várias delas vieram. Unchallenged Hate, Scum e You Suffer, por exemplo. Essa última tocada de surpresa, sem anúncio. Um segundo só. Quem olhou para trás perdeu. Eu vi. Emocionante. Em Greed Killing o vocalista Barney Greenway apontou o microfone para algumas pessoas que estavam na frente berrar o “When?” do refrão e tive a felicidade de ser uma delas! E eu, que estava gripado, tomando muito remédios para dor de garganta, consegui gritar ao microfone num show do Napalm Death. Nunca nem sonhei com isso e ao mesmo tempo é a realização de um sonho adolescente. Barney é muito simpático e conversava muito com o público e mais ao fim do show vi uma cena muito legal: um cara se aproximou e gritou, em inglês, que um amigo havia perdido o tênis ao subir no palco. Barney pediu para o cara aparecer e mostrar o pé descalço; o sujeito veio lá de trás e o mostrou que estava só de meia, então Barney achou o tênis e o devolveu. Era um clima muito amigável, a despeito da agressividade desmedida do som. Num dos intervalos, gritei para tocarem Nazi Punks Fuck Off, do Dead Kennedys. Barney ouviu e respondeu que era daqui a pouco, só aguardar. Um sujeito ao lado pediu para tocarem Love of my Life, do Queen, de brincadeira, o que provocou risadas em muita gente por perto, inclusive da banda. Nazi Punks Fuck Off veio, eu estava pertinho, foi um atropelo, logo depois de Low  Life, outra versão; a original é do Cryptic Slaughter. Quando o show acabou, curto e grosso, sem bis, eu estava mais disposto do que quando cheguei.
Uma das poucas fotos que tirei do show, pois como estava perto demais do palco fiquei com medo de perder o celular em meio à agitação.
        

Monday, June 20, 2016

U2

Lembro do primeiro CD que ouvi na vida. Talvez o primeiro que vi pessoalmente, mas não tenho muito certeza disso. Meu tio Helinho tinha acabado de voltar dos Estados Unidos, no fim dos anos oitenta, e trouxe na bagagem o War, do U2.  Na minha cabeça de moleque, ali em Botelhos, interior de Minas Gerais, era o contato com o futuro inexorável da música – mas como não sou besta, nunca me desfiz de nenhum vinil meu, sem notar algo à época que hoje me incomoda muito, a falta de graves no som digital, hoje decadente, por assim dizer.
A audição marcou-me mais pelo contato com o objeto CD. Fetichismo da mercadoria, diria Marx, mas fodam-se essas bobagens retóricas, o maravilhamento provocado pelo primeiro contato com novas tecnologias é um dos traços humanos do qual mais gosto. Fora as músicas marcantes que eu já conhecia do rádio – Sunday Bloody Sunday e New Year’s Day – eu achei as outras meio... franzinas. Sem graça. Estou ouvindo-as neste momento e não me lembrava delas. Outro fato que gostei do CD: voltar só nas músicas que gostava era mais fácil do que nas fitas cassetes e nos vinis. Com o passar dos anos, notei como esse era um vício ruim. Tanto que não me lembro das demais músicas de War, que poderiam me encantar se eu tivesse ouvido sem afobamento. Sem falar que notei que eu e alguns amigos referíamos às músicas de vários artistas como a “faixa número tal do CD” ao falarmos de bandas favoritas até meados dos anos noventa, ou seja, não sabíamos o nome de várias músicas das quais gostávamos.
Semana passada queria escrever sobre tudo isso, mas minha avó Arminda, mãe da minha mãe e do meu tio Helinho, faleceu no domingo, 12 de junho de 2016. Quando encontrei meu tio no velório falei para ele de como me lembrava bem de ouvir o CD do U2 na casa dele. Foi a primeira vez que chorei naquele dia.
P.S. Recordo-me que nos anos noventa o U2 processou o Negativland, banda experimental, e a SST Records, gravadora independente, porque a banda batizou um single de U2, ironicamente, usando samples não autorizados. Por isso mantenho somente o nome U2 nesta crônica, sem subtítulo.

Monday, June 06, 2016

Swans

Era a nossa rua. Resolvemos que seria o nosso bairro.
As primeiras exibições de Warriors, os Selvagens da Noite na TV aberta foram um marco histórico para a minha geração. A maioria dos moleques, invocados ou não, queria provar aquele gosto de aventura fora-da-lei do filme. Sem armas, com senso de lealdade e resolvendo desavenças na porrada. As eventuais reprises iam amealhando mais adeptos do “ganguismo” de araque, com o passar dos anos oitenta. Quem não tem senso de aventura não vai entender que isso nada tem a ver com violência gratuita, perda de valores da civilização ocidental e outras asneiras de missivista de jornal provinciano – para citar um ser verdadeiramente pernicioso d’antanho, hoje transmutado nas fileiras de um exército virtual sem peias.
Então montamos a nossa gangue. Fajuta, claro. Nem lembro o nome, se é que tinha. Não tinha um Cisne, o líder do Warriors; nós todos éramos, numa estrutura horizontalizada, por assim dizer. E fomos tocar o terror, a nossa maneira. Ou seja, não fazendo nada, só ficando sentados na esquina, jogando conversa fora e tomando conta do nosso “território”, um conceito tão caro às gangues do filme. Nunca li o livro de Sol Yurick no qual foi baseado o antológico filme de Walter Hill, então não sei se é algo tão importante na trama original, mas imagino que sim. Para nosso bairrismo briguento sem brigas, era importante. Nosso território era aquela rua.
Finalmente, um dia, nossas vítimas vieram ao nosso encontro. Uns molequinhos menores do que nós que moravam na avenida que margeia o bairro, a João Pinheiro. Eles vieram jogar bola justo no nosso “território”. Nós os cercamos. Perguntamos se eles tinham pedido licença para jogar bola lá. Claro que não. Então os mandamos ir embora, pois aquele era nosso território. Fomos ameaçadores o suficiente para eles irem embora mesmo.
No dia seguinte, depois da escola e do almoço, nos sentamos sob a sombra da arvore da esquina. Então o molequinho mais falante apareceu. Sozinho. Desafiador. Com camisa de botão, penteado certinho e uma cara ingênua cheia de verdades. Alguém perguntou o que ele queria. Acho que fui eu.
- Eu conversei com meu pai e ele disse que não existe esse negócio de território!
Nós rimos e o mandamos embora. Ele se foi, obediente. Afinal, era menor que nós e estava sozinho. Assim que ele se afastou, um de nós, creio que o Paulo Augusto, adiantou-se e precaveu-nos.
- Sujou, galera. Acho melhor não ficarmos na rua um tempo, para não dar rolo.
Abandonamos nosso “território” umas semanas e não tocamos mais no assunto quando o reocupamos, sem discutirmos com mais ninguém. O menino não voltou lá com o pai dele. Não teve problema nenhum. Nós éramos mais bundas-moles do que Os Órfãos, a pior gangue do filme.

Monday, May 30, 2016

Conto para ser esquecido: Flipper

Conto para ser esquecido: Flipper

Flipper

Eu me lembro do primeiro fliperama em que fui. Meu pai me levou num que ficava na rua Assis Figueiredo, a principal rua central da minha cidade natal, no fim dos anos setenta ou no começo dos anos oitenta. Não me lembro bem das máquinas, a não ser uma, que tinha uma bazuca. Foi essa que meu pai me ensinou a jogar. Era um jogo de tiro, obviamente; você apertava o gatilho da bazuca e destruí os inimigos no campo de batalha. Não me lembro mais bem se eram tanques, jipes, mas acho que era algo assim. O que me lembro melhor é dos enfermeiros, pois não podia acertá-los, pois senão perdia pontos ou vidas. Forço a memória e não sei se estou viajando, mas acho que eram dois enfermeiros carregando um soldado numa padiola. Eram apenas riscos de luz, acho que verdes, na tela, projetando figuras simples sob um fundo estático. Fascinantes.
Eu lembro-me de quando vi o primeiro videogame, aquele do jogo de tênis, na casa de um vizinho (acho que era do irmão mais velho dele, que jogava na seleção brasileira de basquete; o Oscar chegou a visitar meu prédio), e de como achei tosco comparado com o Atari lá de casa. A mesma sensação deve ser experimentada por um garoto acostumado às caixas xis aí ao se deparar com um Atari ou esse jogo da bazuca que tanto me fascinava aos sábados de manhã. Pelo o que me lembro meu pai ia cortar o cabelo aos sábado de manhã e aproveitava para passar rapidinho no fliperama comigo. Esse lugar depois virou uma banca de revistas, onde comprei vários dos meus primeiros quadrinhos e hoje é uma loja qualquer, sem alma. Não que esse lugar tivesse alma antes, mas tinha para um garoto.
Mais velho, meus pais ficavam cabreiros quando eu e meu irmão fôssemos a fliperamas. Era algo “de marginal”. É claro que isso tornava ir aos fliperamas uma aventura irresistível. Óbvio, evidente, elementar, não tem como. Isso já era quando tínhamos uns doze, treze anos. Havia três fliperamas na cidade, que me lembre. O do Palace Hotel, cheio de raridades, como jogos dos anos quarenta – o primeiro importador de fliperamas do Brasil era da cidade, sei disso porque digitei o texto do filho dele contando essa história, pois ele os manuscrevia e não sabia datilografar/digitar – e o meu amado jogo de bazuca; o da Rua Rio de Janeiro, com duas máquinas de jogos de videogame que eram muito melhores nas máquinas (Ghosts and Goblins e Moon Patrol) e o da praça. Esse achava sinistro. Tinha um num antigo cinema que era muito, mas muito mais sinistro. Tinha não, ainda tem, mas acho que abriu depois. Sei lá por que é o único que ainda existe – se é que existe, eu nem passo muito por lá – e continuo-o achando meio sinistro.
De qualquer forma, duas das histórias que mais gosto de fliperama aconteceram neste da praça. Tínhamos medo de ir ao fliper, como dizíamos, por ficarmos encucados com as conversas de nossos progenitores de que lá só havia marginais e tal. Portanto, ir era irresistível, como já expliquei. Quando tomamos coragem, nosso amigo Márcio resolveu apelar numa máquina de pinball. A bola passou e ia inevitavelmente embora. Ainda batendo debaixo dos pinos, o Márcio levantou a máquina e a pôs de volta no jogo. Foi curioso, pois ele era magrelo e teve força para levantar aquilo. Era uma manha que ele tinha aprendido com os freqüentadores. Achou que ficaria impune. O dono ou empregado de confiança do dono só faltou pular por cima do balcão como num filme de faroeste. O Márcio levou um esporro que nos foi hilário e nem se abalou.
Na outra não estava presente, foi antes e foi hilária para mim ao descobri-la, quase me urinei de rir ao saber. Nosso amigo Evandro que me contou: o Márcio o chamou e a outro amigo, acho que o Paulo Augusto, para jogarem lá. Eles foram com os dois cus nas mãos, pois sabiam que o lugar era mal afamado. O Márcio, safo, já trampava de office boy e tinha as manhas das ruas. O que não mudava o fato de que ele era engraçadamente sem noção. Segundo o Evandro, eles entraram no fliperama fazendo de tudo para ser o mais discretos quanto possível. Eles, no caso, eram o Paulo e o Evandro. Ao entrar, o Márcio virou-se e falou para eles: “VIU, NÃO FALEI PARA VOCÊS QUE TODO MUNDO AQUI É GENTE BOA?” num volume de voz de fazer virar todos olhares de ódio do local para eles. Para mim foi como se ele tivesse cavado um buraco no chão e vindo direto contar o caso para mim. É claro que nada aconteceu. Eu nunca vi ou ouvi falar de treta de verdade no fliperama. Flipper para mim foi tudo isso de bom: seriado de televisão da infância, aventura da pré-adolescência e banda amada da adolescência em diante.

Monday, May 23, 2016

Young Gods, crônica de um show que perdi

Disse tanto que ia ao show do Young Gods na Virada Cultura de 2016 e não fui. O show deles seria junto com a Nação Zumbi.  Mistura insólita, uma banda industrial suíça dos anos oitenta com uma banda mangue beat pernambucana. Quando mencionava o show para quem conhece ambas as bandas as reações eram de completa surpresa. Surpreendente é, mas não fiquei atônito. Franz Treichler, do Young Gods, morava no Brasil no fim dos anos noventa (talvez ainda more, não sei). Lembro-me bem de uma entrevista dele para o Fábio Massari à época, no Lado B da MTV, na qual ele falava sobre isso – em bom português. Uma banda lendária, que queria demais ver.
A Virada Cultural de 2016, para mim, foi principalmente barulho – mas diferente do dos Young Gods. Começou com um show de grindcore num evento independente, pago, numa casa de shows (literalmente, no caso do palco) underground chamada Morfeus. Lá vi bandas com nomes sugestivos como Xico Picadinho e principalmente o Facada, banda cearense de grindcore, possivelmente a melhor no estilo no país. Assisti de pertinho e poguei muito, ou seja, diversão total para mim. Não bastassem as músicas deles, tocaram uma versão de uma das minhas músicas favoritas do Bad Brains, Sailin’ On. No dia seguinte, devido a isso, fiquei rouco – felizmente rouco.
Eu só havia visto uns poucos shows no famoso palco Test, em 2013 (quando ele era um evento de rua paralelo à Virada, totalmente independente) e mais alguns em 2015, quando uma banda de hardcore de um amigo, o Birão, chamada Sociopata, tocou na hora do almoço. Agora finalmente pude ver muitas bandas de grind/noise/HC de uma vez só – um segundo show do Facada na mesma noite, Rakta (já havia visto dois shows delas no passado, gosto muito; foi sem guitarra e com um cara na bateria), RG Noise City, Miazzo, uma banda engraçada chamada Os Capial – de Araraquara, vestidos como caipiras estereotipados, mas deixando claro que não era por desprezo à cultura caipira – e vários pedaços de shows.   
Um dos melhores fatos da noite foi que o palco Test mudou de lugar e voltou a ser perto do palco Rio Branco. Não queria andar para longe e correr o risco de ser assaltado. Então finalmente pude ver um show de uma de minhas bandas brasileiras favoritas, o Violeta de Outono. É uma clássica banda pós punk dos anos oitenta, única, com influências de psicodelismo e progressivo – elementos estranhos às bandas do estilo. Não tocaram músicas da época, só uma de uma fase intermediária. As músicas novas são muito voltadas ao rock progressivo. Tudo bem, não pararam no tempo. Mas quase dormi em pé – e isso não é figura de linguagem. O que não deixou de ser uma experiência interessante, pois comecei a sonhar de pé e vi uma mulher subir no palco e correr em direção à banda. Não havia mulher alguma, despertei em segundos, assustado por ter quase dormido, e fiquei olhando extático para o palco. Só os músicos estavam tocando, óbvio, sem incidentes. Não é todo mundo que tem direito a ter uma experiência psicodélica sem usar drogas – e eu tive!
Depois de vagar algum tempo vendo mais bandas de barulho e barulho, já estava quase dormindo de novo. Então, já de dia, começou o show do D.E.R., uma banda da qual gosto. Como nada estava me tirando muito do estado meio zumbi, não esperava muita coisa do show deles. Ledo engano. Foi só o show deles começar que eu despertei. Uma injeção de adrenalina! Ao vivo, na minha cara. Uma pancadaria impressionante – e se digo que é impressionante, podem ter certeza que foi, pois tinha visto inúmeras ao longo da noite e não era para estar impressionado.
Antes do show do D.E.R. terminar meus amigos que estavam comigo pediram arrego e olha que quem ama mesmo grindcore são eles – eu só gosto muito e estava empolgadíssimo, apesar de ter mais do que o dobro da idade deles. Eles são muito jovens, não sabiam andar em São Paulo, nem andar de metrô. Tive que levá-los à rodoviária. Chegando lá, achei que resistiria e voltaria para a Virada. Dei uma de ateu e deixei de acreditar nos Jovens Deuses. Deixei-me vencer pelo cansaço, comprei a passagem de volta e dormi. Satisfeito.

Monday, May 16, 2016

Titãs, crônica de um show perdido e de dois reencontros

Eu quase vi um show do Titãs, ainda com todos eles. Foi no fim dos anos oitenta, em 1989 ou 1990.
Deve ter sido em 1990. Eu já tinha perdido um show do Legião Urbana naquele ano. Precisava de autorização dos meus pais para entrar, meus eles não havia permitido. Falaram que era coisa de drogado. E o show deu rolo, o Renato Russo passou mal, correram boatos que seriam porque ele estava chapado demais – pelo o que me lembro da matéria da afiliada local da Globo na época, no entanto, foi uma mera intoxicação alimentar. Ainda havia muito histerismo por parte de professores e pais em relação ao rock nacional, por mais ridículo que hoje isso pareça. Anos antes, quando o RPM fez show na minha cidade, a professora de Ciências, de quem eu gostava, havia falado em sala de aula que não éramos para irmos ao show, porque Paulo Ricardo e companhia seriam todos uns drogados. Não me lembro com muita certeza de outro detalhe, mas acho que ela teria passado uma lista sobre isso para levarmos para nossos pais. A única certeza que tenho é esse discurso dela para nós, pobres alunos inocentes, que iríamos danar nossas vidas indo ao show do RPM. Eu meio que queria ir, mas nem fiz muita força, eu era novo demais, isso aí deve ter sido em 1987 – ainda bem que não fui, imagina que tristeza se o primeiro show da minha vida fosse do RPM?
O show do Legião Urbana na minha cidade, Poços de Caldas, foi em 1990, tenho certeza. Mas parece que o do Titãs foi antes, em 1989... Não lembro bem. O que eu lembro foi de uma ideia que parecia genial. Nós poderíamos ir ao show, meus pais haviam deixado, íamos comprar os ingressos na porta do ginásio onde ele ocorreria. Antes, durante a semana, nosso amigo Evandro, mais conhecido como Bugu, havia dado a ideia de fazermos as Olímpiadas da rua. Nós compramos medalhinhas numa loja de esportes e combinamos de fazermos as Olímpiadas no sábado, durante todo o dia.
De manhãzinha, fomos para o Parque Municipal. Havíamos comprados bastante medalhas. Fizemos todas as corridas possíveis: cem, duzentos, quatrocentos e oitocentos metros. Na pista de corrida do parque até hoje tem a marcação da metragem. Lembro que ganhei as corridas curtas, de cem e duzentos metros, disparado. Nas outras eu já não tinha fôlego.
Ao longo do dia, fomos “inventando” as modalidades possíveis. Lançamento de dardos (galhos de árvores), de peso (pedras), futebol, handebol (com bola de futebol mesmo, ou de meia, não lembro bem) e outros esportes olímpicos. Não valia skate e bike; natação não tinha jeito; apesar da piscina do Country Club ao lado, não éramos sócios. Havia gente suficiente para esportes coletivos, mas não lembro mais toda a galera do bairro que participou. Lembro dos amigos mais próximos, com quem voltei a pé para casa: Evandro, Márcio, Paulo Augusto e meu irmão Eurico. Lembro muito bem, porque foi um evento trágico para mim.
Voltávamos quando já era de noitinha, de tantas competições que inventamos – tínhamos muitas medalhinhas para distribuir, como já havia dito. Lembro que no caminho encontramos a irmã do Paula, a Ana Karla, também uma grande amiga. Ela estava com algumas amigas e elas nos disseram que estavam indo para o show do Titãs a pé – não era tão longe assim. Quer dizer, longe era, era um pertinho de mineiro, mas era no fim da avenida, uns dois quilômetros adiante. Eu achei estranho, era cedo demais para ir ao show. Chegando em  casa, tomei uma chuveirada. Encostei um pouco na minha cama para ler um Chiclete com Banana e... dormi. Dormi desmaiado. Exaurido. Acordei no dia seguinte, sem show. Não éramos os titãs que julgávamos que fôssemos. Fiquei tão puto que joguei todas as minhas medalhinhas fora. Quando encontrei o Evandro depois o xinguei pra caramba, coitado.
Eu vi os Titãs em 2015, finalmente. Desprezei-os completamente ao longo dos anos noventa e na primeira década dos anos 2000. Mas era ruim mesmo, pseudo-grunge e depois populistas populares, não era por causa do “trauma” do show perdido. Não me arrependo. Quando os reencontrei, já pela metade, num show da Virada Cultural no Largo da Estação em São João da Boa Vista, eu estava inteiro, apesar dos anos. Fui com minha amiga Danília, gente finíssima, que havia reencontrado depois de quase um par de anos nos quais ela estava morando na Nova Zelândia e para onde ela retornou pouco depois. Tanto o show perdido quanto o que vi são memórias boas, para acalentar. Melhor assim.

Monday, May 09, 2016

Chrome

Hora do recreio tinha uma peleja clássica. Bater figurinha. Perder uma figurinha difícil, nos anos oitenta, era o equivalente infantil a perder fortunas no pôquer ou no cassino. Até hoje deve ser assim.
Colecionei figurinha de álbum de carros, motos e aviões. Não me ligava nas de jogadores de futebol, populares até mesmo na Copa de 2014. Tenho vaga lembrança de colecionar da Copa de 1986, mas deve ser falsa memória. Ou dei o álbum de presente para alguém. Portanto, memória inventada. Devo mesmo é ter acompanhado as brigas por esse álbum. Porque figurinhas também já foram questão de sair na porrada para mim, por mais franzino e suscetível a apanhar que eu fosse.
Toda hora aparecia álbum novo. O que eu mais admirava era um álbum de “rock”. Não vou lembrar o nome nunca. Tinha logos de bandas de heavy metal, caveiras e tudo que moleque gosta. Era obrigatório gostar, assim como também era ler O Escaravelho do Diabo. Quem não fazia isso era carola mariquinha. Sei que é bobagem, mas quem ia explicar isso para nós? Ninguém explicou. Ah, também gostava das figurinhas do Guerra nas Estrelas, mas acho que nunca vi o álbum, só as figurinhas.
Na minha sala na escola tinha um amigo, o Alexandre, cujo pai era dono de bancas de jornal. Às vezes ele nos dava pacotinhos promocionais de figurinhas. As que eu mais gostava eram as cromadas, que tinham nesse álbum de rock/metal. Aquilo era lindo demais pra mim. Quando vejo livros gringos de ficção científica em sebos, especialmente os mais próximos do cyberpunk, observo como essa estética era forte à época, característica demais, e algo que não enferrujou; o que é cromado teoricamente é resistente à ferrugem mesmo.
Mas falava em sair na porrada por causa de figurinha. Na verdade, não fiz isso, mas sim uma apelação vergonhosa. Uma vez perdi uma figurinha da qual gostava, creio que uma de moto, e fiquei bravo com meu amigo que ganhou de mim na disputa. Ele se chama Emerson, era menor e eu colei chiclete no cabelo dele na mesma hora. Ele começou a chorar e fui embora. Impressionante como criança é cruel. De longe, vi um cara mega babaca, maior do que eu, da quarta série e repetente, que gostava de zoar os moleques menores, ajudando-o e cortando o cabelo dele com uma tesoura para tirar o chiclete. Naquele dia fui pior do que ele. Pior ainda: nunca completei nenhum álbum de figurinhas.
P.S. Sempre que vejo o Emerson na rua, procuro dar carona para ele. É, sinto-me culpado por aquilo.

Monday, May 02, 2016

Swervedriver, uma crônica para ler enquanto se fita os pés

Conheci o Swervedriver em 1991. Aliás, ouvi pela primeira vez em 91; em 1990, acho, já havia lido sobre a banda em alguma revista, suponho que na Bizz. A banda havia começado em 1989 e é conhecida como um dos maiores nomes da geração shoegaze. Mas não os vi sendo associados a isso à época, mas sim ao lurch: a primeira vez em que os ouvi, como estava dizendo, foi numa matéria de TV apresentado por um jornalista da Bizz, o Fernando Naporano, também vocalista do Maria Angélica Não Mora Mais Aqui. Por incrível que pareça, na Globo, e não numa rede de TV que prestava atenção no underground, como a TV Cultura, na qual descobria bandas maravilhosas. À época a Globo havia estreado um programa chamado Dóris para Maiores. Era estrelado pela Dóris Giesse, que havia sido apresentadora do Fantástico. A maior atração era um quadro de humor no qual ela interpretava um andróide, chamado Dorfe, contracenando com o Diogo Vilela. Era uma porcaria. Ela até tinha o physique du rôle para um papel, digamos, “cyberpunk”: loira de cabelo curtinho, andrógina, mas os anos oitenta já haviam passado e a TV Pirata já era. O principal é ela não tinha o zeitgeist e, de qualquer forma, este já estava em transmutação. O programa dela, no entanto, trouxe dois marcos dos anos noventa que estourariam de vez no ano seguinte, justamente os únicos quadros que prestavam: o Casseta e Planeta, no humor, e o quadro do Naporano, na música. Ele falou numa de suas reportagens sobre o lurch, o som barulhento ora em voga na Grã-Bretanha, mencionando bandas como o Silverfish e o Swervedriver, e mostrou a contraparte dos EUA, o então desconhecido Nirvana. Adorei todas as bandas e não imaginava escutar um disco de alguma tão cedo. Outros tempos estavam anunciados e o Nirvana já tava chegando ali na esquina.
Já o Swervedriver só fui ouvir de novo no primeiro jogo de videogame que tinha, com todo o respeito aos compositores de 8-bit, músicas de verdade, acho: por volta de 1994 ia, junto com meu irmão, jogar Road Rash, do 3DO, numa loja do centro que alugava o uso do console por algumas horas. O jogo tinha músicas muito legais do Swervedriver (Duel e Last Train do Satansville), Therapy?, Monster Magnet e mais uma cujo nome não tenho certeza, mas acho que era o Paw. Um ano depois vi clipes da banda no Lado B da MTV, mas disco mesmo só achei na era do MP3. Se tudo era mais difícil, por outro lado a dificuldade de acesso tornava as experiências de ouvir um som pela primeira vez em algo mais emocionante. Se estou romantizando o passado, desculpem-me, mas é a sensação que tenho, porque foram experiências tão marcantes que ainda tenho a memória delas.
E eis que um quarto de século depois de ouvir o Swervedriver pela primeira vez é anunciado um show deles no Brasil. Ontem, primeiro de maio de 2016, vinte e cinco anos depois daquela reportagem do Naporano, fiquei cara a cara com a banda. E mais perto que imaginava que conseguiria, em frente ao palco mesmo.

Comprei o ingresso meio em cima da hora, devido a algumas contingências, mas por um preço um pouquinho melhor ainda. Devido a problemas de saúde da minha avó, para ajudar minha irmã, não pude ir para São Paulo, onde rolou o show, durante todo o final de semana. Fui no domingo de manhã mesmo, depois de dormir tarde, para fazer um bate e volta. Estava pensando em ir mais tarde, mas peguei o ônibus no horário certinho, de manhãzinha, para encontrar meu velho amigo Daniel Ikuma, que também foi ao show, pois botei pilha nele. Conheço o Daniel desde 1999, quando fomos num festival chamado 48 Horas, no campus da Unesp de Marília, no qual vimos shows do Autoboneco, Biggs e Garage Fuzz. Companheirão de grandes rolês, como o show do Shellac que vimos em 2008. Chegamos ambos às 13:00 e já fomos direto para Liberdade, bairro onde fica o Cine Joia, a casa de shows onde seria realizado o Balaclava Fest 3, o festival que teve a feliz ideia de trazer o Swervedriver ao Brasil.
Na Liberdade, meu xará fez o check-in no hotel e fomos almoçar. O engraçado foi que eu já conhecia o bairro – ao menos a parte nos arredores do metrô – e ele, de ascendência japonesa, não. Botamos as conversas sobre punk rock em dia e ele me contou uma história muito bacana enquanto passeávamos pelo bairro: o bisavô dele ia lá comprar LPs de música japonesa, os famosos vinis de 78 RPM, nos anos setenta. Nos anos cinquenta eles já tinham vitrola em casa.
Depois de umas brejas, entramos no Cine Joia. Arrependemo-nos de ficarmos marcando muito tempo na porta, trocando ideia, e ainda gastarmos partes do tempo do primeiro show para comprarmos o vinil do disco mais recente do Swervedriver, pois havia poucas cópias; poderíamos ter feito isso assim que as portas se abriram e teríamos visto todo o show do Medialunas. Das bandas de abertura, achei a melhor. Um duo composto por um casal, guitarra e bateria. A baterista contou, antes de iniciar a música de que mais gostei, que ela foi ensaiada em meio aos cuidados do bebê deles. O som, enérgico, foi bacana demais e refletiu esse amor – ao menos para mim.
A segunda banda era mais para apreciar as dissonâncias psicodélicas. Também não tem baixista e se chama Quarto Negro. Lembrou-me velhas ilustrações de anúncios, acho que de cursos por correspondências, que via em revistas de quadrinhos infantis, nos anos setenta, quando eu era criancinha: estes anúncios tinham o desenho de uma banda com um cara bem ripongo tocando teclado. O tecladista da banda não tem o visu tão hippie assim, mas para mim ficou impossível não associar. Pouco depois veio a terceira banda, o Supercordas, a única das bandas nacionais do festival da qual já tinha ouvido falar; no entanto, nunca tinha ouvido. Optei por não ouvir nenhuma previamente, quis conhecer ao vivo – pois era assim que conheci muitas bandas nas antigas. A princípio não gostei, tinha algo de rock rural – estou sendo impreciso, não é bem isso – que não me agradou. O Daniel já tinha ouvido e não gostava. O público, começando a ficar mais numeroso, ou ao menos a se aproximar mais do palco, parecia curtir. De onde eu estava, num canto mais atrás, não distinguia o que estava sendo cantado. Resolvi chegar perto do palco e consegui discernir as letras. Aí comecei a gostar, pareceram-me boas narrativas. O som, entre o minimalismo em algumas músicas e mais sofisticado em outras, conseguiu me pegar. Deixaram para destacar politicamente no final o que já haviam mostrado no começo: o vocalista, também guitarrista, levantou um cartaz escrito “Vai ter luta”, em referência à reação ao (provável) impeachment da presidente Rousseff.
Por fim, depois de alguma espera, entra o Swervedriver. E começaram com Autodidact, do disco novo, como o Daniel previu, baseado nos setlists que viu. As bandas podiam variar mais, não é? Hoje tá tudo um pouco previsível demais. Mas já compensou de cara: a execução foi sutilmente diferente da versão de estúdio e, das músicas novas, é das mais bonitas, ao lado de Winter Dephts, que não está no disco e não fez parte da apresentação. Para mim foi curioso notar que quem estava no baixo era Mickey Quinn, do Supergrass, banda da qual nem sou muito fã – aliás, odiava, até ganhar o primeiro disco e descobrir que apenas Alright é que era ruim mesmo. Os clássicos finalmente vieram. Em Never Lose That Feeling aquela barragem de guitarra distorcida no talo, lembrando My Bloody Valentine, providenciada por Jimmy Hartridge, só veio no primeiro riff, depois ela não se destacava. Para mim fez falta; não sei se foi opção ou falha do som. Rave Down foi de emocionar. Em Son of Mustang Ford a batera do Medialunas subiu na beira do palco. Como pouco antes um cara tinha saído daquele canto e havia entrado uns malucos mais altos na minha frente, havia posto meu vinil recém-comprado em cima da beirada do palco e encostado no canto direito, perto das caixas de som. Foi a conta de tirar correndo o disco, ela quase pisou em cima. Ela dançou em frente à banda e pediu para o público segurá-la, já tinha segurança indo atrás dela. O público era quieto, não era de mosh ou pogo, só havia alguns cabeludos batendo cabeça – um com camisa do Pixies, lembro-me bem. Enfim, ela conseguiu que uma galera das bandas de abertura a segurasse para ela pular. Foi a única pessoa a fazer stage dive no show. Não é à toa que foi chamada de musa por uma mina, durante o show do Medialunas. Quando veio bis, resolvi ir mais para o meio, pois o retorno do vocal estava começando a incomodar o ouvido, no canto onde estava. O bis foi perfeito para mim, minhas duas músicas favoritas deles: Last Train to Satansville, muito foda, e Duel. Aí uma menina que estava colada no palco resolveu sair e fui para o lugar dela. Vi Duel a uns dois metros de Adam Franklin. Que noite! Ao me despedir do Daniel, em frente ao metrô Liberdade, fiz questão de abraçá-lo e dizer que foi uma honra ter visto esse show com ele.

Adam Franklin. Foto que tirei com celular no bis, durante o início de Duel, quando encostei no palco.