Lembro-me bem de quais foram os cinco primeiros vinis que tive. O Nevermind the Bollocks do Sex Pistols, o Wackey Wackey do Toy Dolls, o Brasil do Ratos de Porão, o Cadê as Armas? das Mercenárias e o VI do Circle Jerks. O primeiro em 1989 e os demais em 1990. Um dia, ao entrar numa loja, achei um disco do Vírus 27, o Brasil Oi!; fiquei tentado, pelo menos para conhecer, pois não havia mais nenhum disco de punk/hardcore na cidade, mas tinha lido uma entrevista deles para o Glauco Mattoso na Chiclete com Banana no qual eles se declaravam nacionalistas de direita. Sabia que o título não era ironia. Logo desisti do disco e tenho muito orgulho de saber exatamente o que estava fazendo com apenas 15 anos. Meu sexto disco acabou sendo um de psychobilly, do S.A.R., o qual achei na mesma loja, que depois passou a vender artigos religiosos para umbanda e candomblé.
Monday, September 12, 2016
Monday, September 05, 2016
Legião Urbana, uma crônica
É das primeiras músicas das quais
me lembro de gostar. Ouvi pela primeira vez numa propaganda de TV; será que era
para anunciar a participação em algum programa de auditório? Era o vídeo de
Tempo Perdido, tenho certeza. Depois ouvi no rádio. Fiquei encantado. Foi a
primeira vez na vida que prestei atenção espontaneamente à letra de uma música.
Isso foi por volta de 1986/1987, tinha uns doze anos. Quer dizer, eu sabia a
letra de algumas músicas, principalmente porque meus colegas de escola falavam
das do RPM, mas Tempo Perdido foi a primeira que me interessou mesmo, mas não
havia com quem a conversar a respeito. Ninguém se importava muito e acho que
nem eu.
À época respondi um daqueles
cadernos de perguntas que as meninas faziam e davam para você levar para casa –
sim, já se stalkeava naquela época, mas era mais explícito – e respondi que
minha música favorita era Tempo Perdido, sem titubear. Ela perguntou depois o
porquê e eu disse que a letra refletia a vida; não sei por que disse isso. Hoje
ela é atriz, às vezes a vejo no teatro. Eu devia estar afetando profundidade,
ela deve ter percebido, pois pareceu incrédula. Para mim, a resposta foi
sincera. Tempo perdido.
Monday, August 29, 2016
Cabine C, uma crônica sobre uma das maiores aventuras da infância
Não bastava o Atari. Era 1986, eu ainda não havia feito
12 anos. Éramos
crianças demais para um tumulto adolescente. Em vez disso, construímos uma nave espacial, eu e meu irmão. Pegamos as cadeiras,
fizemos uma armação empilhando-as, as cobrimos com lençóis sustentados por
vassouras sobre elas e o armário e armamos outras duas cadeiras em frente à
televisão. Tínhamos nossa cabine e nosso foguete era o jogo Beamrider.
Foi a melhor viagem ao espaço que
fiz, melhor que as dos livros infantojuvenis de FC que havia lido. No jogo
combatíamos alienígenas cujas naves despontavam no horizonte, atacando-nos com
disparos de lasers. Éramos bons o bastante e atravessamos várias fases. Um
amigo dizia-nos que no final do jogo chegava-se à Terra. Acho que não havia
final, mas se houvesse, não chegamos a tempo, pois nossos pais chegariam antes
e desmontamos nossas naves antes de sermos abatidos pela eventual fúria
terrestre deles.
Monday, August 22, 2016
Front 242, uma crônica
Estive afastado de computadores por pouco mais de um mês. Hoje voltei a escrever contos e crônicas.
O futuro, nos estertores dos anos
1980, era o som do Front 242. Nada soava mais cyberpunk e eu nem sabia a
existência dessa palavra. Era uma banda belga que se tornou referência do que
parecia-nos vanguarda europeia da época, embora nem seja tão vanguardista
quanto as bandas realmente industriais que existiam antes. O barulho que fecha
uma das suas músicas relativamente populares à época, Masterhit,
indicava o que Ministry e Nine Inch Nails fariam depois, mas de forma mais
sintetizada, não soando vagamente analógico. Aquele barulho disforme sugeria
que o futuro seria desolador, perigoso e sombrio; em especial, se não se
preparássemos a mente para lidar com alta tecnologia e o corpo para fugir de
ameaças sutis. Um vídeo em especial, em que um anãozinho pilotava um mini-helicóptero
que invadia um galpão onde estavam os integrantes, parecia um prenúncio
sinistro.
Em meados dos anos noventa estava
assistindo o Lado B da MTV com meu irmão e revimos esse vídeo. Ficamos tão
decepcionados... Era farsesco, cordas eram visíveis levantando os integrantes,
que pareciam tão desesperados quando vimos pela primeira vez, o helicóptero
parecia um brinquedo malfeito. Era cômico, mas não era engraçado. Front 242, então,
já soava como passado embolorado. Estranho recordar disso tudo em 2016. Vinil
voltou a ser algo que caracteriza essa época. Drones genocidas na Ásia talvez
prenunciem mini-helicópteros nos quais uma pessoa pode entrar na sua casa e te
liquidar. Front 242 foi usado como base musical até pelo Bonde do Tigrão, na popularização
do funk carioca. Era o som do futuro sim e ele já chegou; é desolador e
perigoso, mas ensolarado.
Monday, July 11, 2016
Fellini, uma crônica
É curioso quando penso hoje a
respeito porque os nomes nem se parecem muito. No fim dos anos oitenta, quando
eu tinha entre 13 a 15 anos – ou seja, entre 1988 e 1990 –, comecei a gostar de dois grupos que tocavam muito de vez em quando no rádio: Fellini e Defalla.
Eram tempos de informações escassas e nada sabia sobre as bandas, a não ser que
eram brasileiras, porque cantavam em português. Mas confundia uma com a outra e
na minha ingenuidade ainda meio infantil achava que a que tinha uma música
chamada Teu Inglês era o Defalla. Só fui desfazer a confusão quando comprei o 3
Lugares Diferentes, vinil do Fellini, em um sebo. Só consegui encontrá-lo em
1991 ou mais provavelmente em 1992, quando comprei muitos discos num sebo da
minha cidade, pois muita gente se desfazia de vinis na era do CD, para a minha
felicidade. Vinil era algo tão barato e acessível... Justamente o contrário de
hoje.
Mais curioso ainda é quando
reflito porque Teu Inglês é uma música que me fascinava tanto. Talvez gostasse
do sentimento de saudade que a letra passava, mas eu era novo demais para ter
tantas saudades. Mais do que isso, noto que somos produtos do nosso tempo.
Gosto tanto da sonoridade pós punk porque vários discos do fim dos anos setenta
e começo dos anos oitenta estavam saindo no Brasil naquela época, com atraso: Joy
Division, PIL, os primeiros do New Order. Não sabia de nada disso, mas escutava
no rádio e principalmente em programas de skate na TV, além de bandas como
Legião Urbana, U2 e o próprio New Order serem muito populares, preparando meus
ouvidos para as sonoridades mais experimentais do gênero. Se não deixo de ser
um produto da minha época porque o Fellini que mais me importa é a banda, ressaltando que também amo os filmes do Fellini, devido às memórias da época,
não deixo de ter certa satisfação por também não ser exatamente um produto e me
encaixar nos padrões de qualquer indústria cultural, mesmo que alternativa: Teu
Inglês é única, muito diferente de Rock Europeu, outra música do Fellini que
fez certo sucesso à época e tinha forte influência pós punk, mas que só conheci
depois. Se algo que não se encaixa nem nos padrões que procuram fugir de padronizações
me fascinava quando garoto, é porque estava na senda certa. Minha irmã reparou
ontem, quando eu ouvia o vinil, que Teu Inglês tem até alguma brasilidade escondida no ritmo. Alquimia
que só me interessaria de verdade muitos e muitos anos depois. Ou seja, a
música também preparou meu ouvido, mas para outros experimentos.
Monday, July 04, 2016
Virgin Prunes (conto inspirado em memórias da pré-adolescência)
Os garotos reúnem-se na esquina.
A conversa não tem sentido. Discutem se o U2 é da Austrália, dos Estados Unidos
ou do Canadá. Todos estão errados, mas têm certeza de que estão certos. Daniel
e Marcão, que não eram exatamente chegados, mas meros conhecidos que orbitam em
volta de amigos em comum da rua, exaltam-se e chamam-se de burros, ignorantes e
por aí vai. Diante das risadas dos outros moleques, decidem-se calar-se, numa
trégua tácita.
A conversa toma o rumo das garotas. Elas não
ficam mais no bairro. Já têm 14 anos, ficam com outros moleques, todos mais
velhos, preferem ir ao centro. A verdadeira preocupação dos que se reúnem na
esquina, com idade média de 13 anos, era fazer piadas com Adriano, que era flamenguista,
porque o time dele jogava “cu Zico”, além de várias outras infâmias. Todos ali,
no entanto, sem exceção, contam histórias de meninas com quem já haviam ficado.
Tudo mentira. Daniel é o único que ficou quieto. Somente ele já havia beijado
uma menina.
Lá pelas duas da tarde, já com o
sol menos assassino, vão jogar bola na rua. Má ideia, pois o sol ainda é
inclemente. Aguerridos, suados, jogam a sério, querendo vencer, algo que nunca
faziam. Marcão erra a bola e chuta a canela de Daniel, que desaba no chão,
gritando exageradamente. Não era pra tanto. Mas já havia uma tensão. Daniel
levanta chamando o desafeto de cavalo. Marcão o chama de bichinha. Daniel não
deixa por menos.
- Como posso ser, se eu já fiquei
com a sua irmã?
Era verdade. Marcão logo intui
isto, pois não entendia por que Daniel sempre ficava brincando com os moleques
mais novos, de uns dez anos, na porta da sua casa, e ainda assim sempre
conversava com sua irmã mais velha. Num
final de tarde, chegando na esquina, viu Daniel saindo de sua casa e ficou
intrigado com aquilo. Agora está explicado.
Atracam-se. Esmurram-se na cara
sem pena. Não acertam em cheio, sempre pega meio de lado, pois se mexem demais
e seguram-se pelas golas das camisas. Forma-se uma rodinha em volta,
estimulando-os a saírem mais na pancada ainda. Mal rolam no chão, no entanto, e
são separados.
Atônitos, encaram Júnior, que
mora em frente e saiu na porta de casa para entender a algazarra. Lutador de
kung fu, já maior de idade, grandão, sacana e famoso por meter-se em brigas na
escola. Estão suspensos pelas camisas. Júnior ri e o joga-os cada um para um
canto. Intimamente, ambos têm certeza que apanharão de Júnior; sabe-se lá o
porquê da intervenção.
- Vão embora vocês dois daqui.
Vocês não têm idade para sair na porrada não – ordena Júnior, gargalhando.
Os olhares curiosos aguçam-se.
Marcão sai sem conseguir conter o choro. Daniel apressa-se a sumir dali, mas não sem antes gritar um “chora mesmo, mariquinha”. Corre e ri. Ao chegar em casa, mete-se logo no banheiro, para a mãe não ver o estado em que está, e toma banho. Os ralados nas pernas e nos braços ardem e as lágrimas confundem-se com a água do chuveiro. Convence-se de que não está chorando.
![]() |
| O nome do conto, embora o conteúdo não fale a respeito, é uma referência ao grupo gótico/pós punk irlandês Virgin Prunes. Na foto, a capa do disco ...If I Die, I Die (1982), aqui reproduzida via licença Creative Commons. |
Monday, June 27, 2016
Napalm Death
Tem duas bandas sobre as quais li
nos anos oitenta, em revistas de skate como a Yeah! e a Overall, e virei fã
antes mesmo de ouvir, só por causa dos nomes: Sex Pistols e Napalm Death. Eu
era garoto, estava começando a aprender inglês e ficava embasbacado. Como alguém
tinha coragem de batizar grupos com nomes tão fortes? A primeira vez que ouvi o
Never Mind the Bollocks foi inesquecível, porque cultivava expectativas
enormes, e sempre me decepcionei ao ter grandes expectativas com algo, menos
com o Sex Pistols. Já o Napalm Death atendeu perfeitamente ao que esperava, até
porque já tinha uma ideia melhor de como era a música, pois posteriormente li
mais um artigo sobre eles, na minha revista de HQ favorita, a Animal, escrito
pelo João Gordo. Ele descrevia o som deles e de outras bandas da Earache, a
gravadora independente que lançou o Napalm Death, como algo muito mais
barulhento do que era conhecido à época, o hoje bem estabelecido grindcore, e ao
final do texto afirmava “só sei que liquidificador com gelo também é música”.
Quando finalmente consegui ouvir o From Enslavement to Obliteration, já no
começo dos anos noventa, era exatamente isso.
Por inúmeras razões, ao longo dos
anos e das várias vindas do Napalm ao Brasil, nunca havia visto um show deles.
Agora, em 2016, com mais de quarenta anos, finalmente pude reencontrar-me com
minhas perspectivas de adolescente e as satisfazê-las completamente. Foi um dos
melhores shows que já vi. Como disse meu amigo Daniel Ikuma, foi o equivalente
a termos visto o Fugazi nos anos noventa.
Fui de última hora, no próprio
domingo do show, para São Paulo, devido a compromissos pessoais. Cheguei no Clash
Club exatamente dez minutos antes do show de abertura. Logo encontrei meu amigo
Otávio Mazza, o Tatá, que estudou jornalismo comigo na Unesp, no campus de
Bauru. Fomos para perto do palco e, depois de várias tentativas frustradas, vi
o Test pela primeira vez ao vivo. O duo de grind costuma tocar na rua e já
passei perto de shows deles um par de vezes, mas não havia conseguido parar
para assistir, mesmo já tento visto várias outras bandas no famigerado palco
Test, montado nas ruas de São Paulo durante as Viradas Culturais. Em cima de um
palco deu para sacar como ao vivo é uma pancadaria mais impiedosa do que no
estúdio, prescindindo mesmo do baixo, com a interação guitarra/bateria exalando
ferocidade, mas isto só me fez ter mais vontade vê-los tocando numa calçada, de
perto, pois a frieza do público, que só observava, e o palco não correspondiam
ao calor arruaceiro da apresentação.
O próximo show foi do Genocídio,
tradicional banda de death metal, existente desde 1986. Como nunca acompanhamos
a carreira deles com interesse fomos para trás para comprarmos algo para beber,
conversarmos e comprarmos discos do Napalm e do Test na banquinha. Deu para
sacar que é uma boa banda ao vivo, mas queríamos botar a conversa em dia e foi
bom, porque também encontramos meu velho amigo Fernando Punk perto da banquinha, junto
com mais dois amigos de Bauru. Essa característica das amizades duradouras e
reencontros felizes é um dos maiores prazeres de frequentar shows underground
ao longo de décadas.
Findo o show do Genocídio,
rumamos para perto do palco. Ia ficar mais para o lado, como no primeiro show,
mas o Fernando e a galera de Bauru foram mais para o fundo. O Tatá teve a feliz ideia de irmos ficar exatamente em frente à banda, um pouco
atrás das pessoas que estavam grudadas ao palco. Achei que não daria conta, mas não
gosto de ficar atrás, por ser mais baixinho. Quando o show começou abriu a roda
e como sempre acabamos sendo empurrados mais para frente. Dali não saí mais. Mesmo
meio prensado, me diverti demais e consegui pogar um pouco. Não entrei na roda
um pouco atrás para não parar lá no fundão e ficar mais difícil de assistir o show
com muita gente na frente e optei, por isso mesmo, em não subir no palco desta
vez para um stage dive – certeza que pararia longe também. Claro que por isso
virava e mexia tinha que segurar alguém que pulava.
Não cultivei expectativa nenhuma sobre o show.
Sabia que mudavam o setlist a cada apresentação. O que é ótimo, bem diferente
das bandas preguiçosas que pululam por aí. Simplesmente deixei fluir e não me
preocupei se iam tocar ou não minhas favoritas. Mas várias delas vieram.
Unchallenged Hate, Scum e You Suffer, por exemplo. Essa última tocada de
surpresa, sem anúncio. Um segundo só. Quem olhou para trás perdeu. Eu vi. Emocionante.
Em Greed Killing o vocalista Barney Greenway apontou o microfone para algumas
pessoas que estavam na frente berrar o “When?” do refrão e tive a felicidade de
ser uma delas! E eu, que estava gripado, tomando muito remédios para dor de
garganta, consegui gritar ao microfone num show do Napalm Death. Nunca nem
sonhei com isso e ao mesmo tempo é a realização de um sonho adolescente. Barney
é muito simpático e conversava muito com o público e mais ao fim do show vi uma
cena muito legal: um cara se aproximou e gritou, em inglês, que um
amigo havia perdido o tênis ao subir no palco. Barney pediu para o cara
aparecer e mostrar o pé descalço; o sujeito veio lá de trás e o mostrou que
estava só de meia, então Barney achou o tênis e o devolveu. Era um clima
muito amigável, a despeito da agressividade desmedida do som. Num dos
intervalos, gritei para tocarem Nazi Punks Fuck Off, do Dead Kennedys. Barney
ouviu e respondeu que era daqui a pouco, só aguardar. Um sujeito ao lado pediu
para tocarem Love of my Life, do Queen, de brincadeira, o que provocou risadas
em muita gente por perto, inclusive da banda. Nazi Punks Fuck Off veio, eu
estava pertinho, foi um atropelo, logo depois de Low Life, outra versão; a original é do Cryptic
Slaughter. Quando o show acabou, curto e grosso, sem bis, eu estava mais
disposto do que quando cheguei.
![]() |
| Uma das poucas fotos que tirei do show, pois como estava perto demais do palco fiquei com medo de perder o celular em meio à agitação. |
Monday, June 20, 2016
U2
Lembro do primeiro CD que ouvi na
vida. Talvez o primeiro que vi pessoalmente, mas não tenho muito certeza disso.
Meu tio Helinho tinha acabado de voltar dos Estados Unidos, no fim dos anos
oitenta, e trouxe na bagagem o War, do U2. Na minha cabeça de moleque, ali em Botelhos,
interior de Minas Gerais, era o contato com o futuro inexorável da música – mas
como não sou besta, nunca me desfiz de nenhum vinil meu, sem notar algo à época
que hoje me incomoda muito, a falta de graves no som digital, hoje decadente,
por assim dizer.
A audição marcou-me mais pelo
contato com o objeto CD. Fetichismo da mercadoria, diria Marx, mas fodam-se
essas bobagens retóricas, o maravilhamento provocado pelo primeiro contato com
novas tecnologias é um dos traços humanos do qual mais gosto. Fora as músicas
marcantes que eu já conhecia do rádio – Sunday Bloody Sunday e New Year’s Day –
eu achei as outras meio... franzinas. Sem graça. Estou ouvindo-as neste momento
e não me lembrava delas. Outro fato que gostei do CD: voltar só nas músicas que
gostava era mais fácil do que nas fitas cassetes e nos vinis. Com o passar dos
anos, notei como esse era um vício ruim. Tanto que não me lembro das demais
músicas de War, que poderiam me encantar se eu tivesse ouvido sem afobamento.
Sem falar que notei que eu e alguns amigos referíamos às músicas de vários
artistas como a “faixa número tal do CD” ao falarmos de bandas favoritas até
meados dos anos noventa, ou seja, não sabíamos o nome de várias músicas das
quais gostávamos.
Semana passada queria escrever
sobre tudo isso, mas minha avó Arminda, mãe da minha mãe e do meu tio Helinho,
faleceu no domingo, 12 de junho de 2016. Quando encontrei meu tio no velório
falei para ele de como me lembrava bem de ouvir o CD do U2 na casa dele. Foi a
primeira vez que chorei naquele dia.
P.S. Recordo-me que nos anos
noventa o U2 processou o Negativland, banda experimental, e a SST Records,
gravadora independente, porque a banda batizou um single de U2, ironicamente,
usando samples não autorizados. Por isso mantenho somente o nome U2 nesta
crônica, sem subtítulo.
Monday, June 06, 2016
Swans
Era a nossa rua. Resolvemos que
seria o nosso bairro.
As primeiras exibições de Warriors, os Selvagens da Noite na TV
aberta foram um marco histórico para a minha geração. A maioria dos moleques,
invocados ou não, queria provar aquele gosto de aventura fora-da-lei do filme. Sem
armas, com senso de lealdade e resolvendo desavenças na porrada. As eventuais
reprises iam amealhando mais adeptos do “ganguismo” de araque, com o passar dos
anos oitenta. Quem não tem senso de aventura não vai entender que isso nada tem
a ver com violência gratuita, perda de valores da civilização ocidental e
outras asneiras de missivista de jornal provinciano – para citar um ser
verdadeiramente pernicioso d’antanho, hoje transmutado nas fileiras de um
exército virtual sem peias.
Então montamos a nossa gangue.
Fajuta, claro. Nem lembro o nome, se é que tinha. Não tinha um Cisne, o líder
do Warriors; nós todos éramos, numa estrutura horizontalizada, por assim dizer.
E fomos tocar o terror, a nossa maneira. Ou seja, não fazendo nada, só ficando
sentados na esquina, jogando conversa fora e tomando conta do nosso “território”,
um conceito tão caro às gangues do filme. Nunca li o livro de Sol Yurick no
qual foi baseado o antológico filme de Walter Hill, então não sei se é algo tão
importante na trama original, mas imagino que sim. Para nosso bairrismo
briguento sem brigas, era importante. Nosso território era aquela rua.
Finalmente, um dia, nossas
vítimas vieram ao nosso encontro. Uns molequinhos menores do que nós que
moravam na avenida que margeia o bairro, a João Pinheiro. Eles vieram jogar
bola justo no nosso “território”. Nós os cercamos. Perguntamos se eles tinham
pedido licença para jogar bola lá. Claro que não. Então os mandamos ir embora,
pois aquele era nosso território. Fomos ameaçadores o suficiente para eles irem
embora mesmo.
No dia seguinte, depois da escola
e do almoço, nos sentamos sob a sombra da arvore da esquina. Então o molequinho
mais falante apareceu. Sozinho. Desafiador. Com camisa de botão, penteado
certinho e uma cara ingênua cheia de verdades. Alguém perguntou o que ele
queria. Acho que fui eu.
- Eu conversei com meu pai e ele
disse que não existe esse negócio de território!
Nós rimos e o mandamos embora.
Ele se foi, obediente. Afinal, era menor que nós e estava sozinho. Assim que
ele se afastou, um de nós, creio que o Paulo Augusto, adiantou-se e
precaveu-nos.
- Sujou, galera. Acho melhor não ficarmos
na rua um tempo, para não dar rolo.
Abandonamos nosso “território” umas
semanas e não tocamos mais no assunto quando o reocupamos, sem discutirmos com
mais ninguém. O menino não voltou lá com o pai dele. Não teve problema nenhum.
Nós éramos mais bundas-moles do que Os Órfãos, a pior gangue do filme.
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