Monday, August 29, 2016

Cabine C, uma crônica sobre uma das maiores aventuras da infância

Não bastava o Atari. Era 1986, eu ainda não havia feito 12 anos. Éramos crianças demais para um tumulto adolescente. Em vez disso, construímos uma nave espacial, eu e meu irmão. Pegamos as cadeiras, fizemos uma armação empilhando-as, as cobrimos com lençóis sustentados por vassouras sobre elas e o armário e armamos outras duas cadeiras em frente à televisão. Tínhamos nossa cabine e nosso foguete era o jogo Beamrider.
Foi a melhor viagem ao espaço que fiz, melhor que as dos livros infantojuvenis de FC que havia lido. No jogo combatíamos alienígenas cujas naves despontavam no horizonte, atacando-nos com disparos de lasers. Éramos bons o bastante e atravessamos várias fases. Um amigo dizia-nos que no final do jogo chegava-se à Terra. Acho que não havia final, mas se houvesse, não chegamos a tempo, pois nossos pais chegariam antes e desmontamos nossas naves antes de sermos abatidos pela eventual fúria terrestre deles.

Monday, August 22, 2016

Front 242, uma crônica

Estive afastado de computadores por pouco mais de um mês. Hoje voltei a escrever contos e crônicas.

O futuro, nos estertores dos anos 1980, era o som do Front 242. Nada soava mais cyberpunk e eu nem sabia a existência dessa palavra. Era uma banda belga que se tornou referência do que parecia-nos vanguarda europeia da época, embora nem seja tão vanguardista quanto as bandas realmente industriais que existiam antes. O barulho que fecha uma das suas músicas relativamente populares à época, Masterhit, indicava o que Ministry e Nine Inch Nails fariam depois, mas de forma mais sintetizada, não soando vagamente analógico. Aquele barulho disforme sugeria que o futuro seria desolador, perigoso e sombrio; em especial, se não se preparássemos a mente para lidar com alta tecnologia e o corpo para fugir de ameaças sutis. Um vídeo em especial, em que um anãozinho pilotava um mini-helicóptero que invadia um galpão onde estavam os integrantes, parecia um prenúncio sinistro.
Em meados dos anos noventa estava assistindo o Lado B da MTV com meu irmão e revimos esse vídeo. Ficamos tão decepcionados... Era farsesco, cordas eram visíveis levantando os integrantes, que pareciam tão desesperados quando vimos pela primeira vez, o helicóptero parecia um brinquedo malfeito. Era cômico, mas não era engraçado. Front 242, então, já soava como passado embolorado. Estranho recordar disso tudo em 2016. Vinil voltou a ser algo que caracteriza essa época. Drones genocidas na Ásia talvez prenunciem mini-helicópteros nos quais uma pessoa pode entrar na sua casa e te liquidar. Front 242 foi usado como base musical até pelo Bonde do Tigrão, na popularização do funk carioca. Era o som do futuro sim e ele já chegou; é desolador e perigoso, mas ensolarado.

Monday, July 11, 2016

Fellini, uma crônica

É curioso quando penso hoje a respeito porque os nomes nem se parecem muito. No fim dos anos oitenta, quando eu tinha entre 13 a 15 anos – ou seja, entre 1988 e 1990 –, comecei a gostar de dois grupos que tocavam muito de vez em quando no rádio: Fellini e Defalla. Eram tempos de informações escassas e nada sabia sobre as bandas, a não ser que eram brasileiras, porque cantavam em português. Mas confundia uma com a outra e na minha ingenuidade ainda meio infantil achava que a que tinha uma música chamada Teu Inglês era o Defalla. Só fui desfazer a confusão quando comprei o 3 Lugares Diferentes, vinil do Fellini, em um sebo. Só consegui encontrá-lo em 1991 ou mais provavelmente em 1992, quando comprei muitos discos num sebo da minha cidade, pois muita gente se desfazia de vinis na era do CD, para a minha felicidade. Vinil era algo tão barato e acessível... Justamente o contrário de hoje.
Mais curioso ainda é quando reflito porque Teu Inglês é uma música que me fascinava tanto. Talvez gostasse do sentimento de saudade que a letra passava, mas eu era novo demais para ter tantas saudades. Mais do que isso, noto que somos produtos do nosso tempo. Gosto tanto da sonoridade pós punk porque vários discos do fim dos anos setenta e começo dos anos oitenta estavam saindo no Brasil naquela época, com atraso: Joy Division, PIL, os primeiros do New Order. Não sabia de nada disso, mas escutava no rádio e principalmente em programas de skate na TV, além de bandas como Legião Urbana, U2 e o próprio New Order serem muito populares, preparando meus ouvidos para as sonoridades mais experimentais do gênero. Se não deixo de ser um produto da minha época porque o Fellini que mais me importa é a banda, ressaltando que também amo os filmes do Fellini, devido às memórias da época, não deixo de ter certa satisfação por também não ser exatamente um produto e me encaixar nos padrões de qualquer indústria cultural, mesmo que alternativa: Teu Inglês é única, muito diferente de Rock Europeu, outra música do Fellini que fez certo sucesso à época e tinha forte influência pós punk, mas que só conheci depois. Se algo que não se encaixa nem nos padrões que procuram fugir de padronizações me fascinava quando garoto, é porque estava na senda certa. Minha irmã reparou ontem, quando eu ouvia o vinil, que Teu Inglês tem até alguma brasilidade escondida no ritmo. Alquimia que só me interessaria de verdade muitos e muitos anos depois. Ou seja, a música também preparou meu ouvido, mas para outros experimentos.

Monday, July 04, 2016

Virgin Prunes (conto inspirado em memórias da pré-adolescência)

Os garotos reúnem-se na esquina. A conversa não tem sentido. Discutem se o U2 é da Austrália, dos Estados Unidos ou do Canadá. Todos estão errados, mas têm certeza de que estão certos. Daniel e Marcão, que não eram exatamente chegados, mas meros conhecidos que orbitam em volta de amigos em comum da rua, exaltam-se e chamam-se de burros, ignorantes e por aí vai. Diante das risadas dos outros moleques, decidem-se calar-se, numa trégua tácita.

A conversa toma o rumo das garotas. Elas não ficam mais no bairro. Já têm 14 anos, ficam com outros moleques, todos mais velhos, preferem ir ao centro. A verdadeira preocupação dos que se reúnem na esquina, com idade média de 13 anos, era fazer piadas com Adriano, que era flamenguista, porque o time dele jogava “cu Zico”, além de várias outras infâmias. Todos ali, no entanto, sem exceção, contam histórias de meninas com quem já haviam ficado. Tudo mentira. Daniel é o único que ficou quieto. Somente ele já havia beijado uma menina.

Lá pelas duas da tarde, já com o sol menos assassino, vão jogar bola na rua. Má ideia, pois o sol ainda é inclemente. Aguerridos, suados, jogam a sério, querendo vencer, algo que nunca faziam. Marcão erra a bola e chuta a canela de Daniel, que desaba no chão, gritando exageradamente. Não era pra tanto. Mas já havia uma tensão. Daniel levanta chamando o desafeto de cavalo. Marcão o chama de bichinha. Daniel não deixa por menos.

- Como posso ser, se eu já fiquei com a sua irmã?

Era verdade. Marcão logo intui isto, pois não entendia por que Daniel sempre ficava brincando com os moleques mais novos, de uns dez anos, na porta da sua casa, e ainda assim sempre conversava com sua irmã mais velha.  Num final de tarde, chegando na esquina, viu Daniel saindo de sua casa e ficou intrigado com aquilo. Agora está explicado.

Atracam-se. Esmurram-se na cara sem pena. Não acertam em cheio, sempre pega meio de lado, pois se mexem demais e seguram-se pelas golas das camisas. Forma-se uma rodinha em volta, estimulando-os a saírem mais na pancada ainda. Mal rolam no chão, no entanto, e são separados.

Atônitos, encaram Júnior, que mora em frente e saiu na porta de casa para entender a algazarra. Lutador de kung fu, já maior de idade, grandão, sacana e famoso por meter-se em brigas na escola. Estão suspensos pelas camisas. Júnior ri e o joga-os cada um para um canto. Intimamente, ambos têm certeza que apanharão de Júnior; sabe-se lá o porquê da intervenção.

- Vão embora vocês dois daqui. Vocês não têm idade para sair na porrada não – ordena Júnior, gargalhando.
 
Os olhares curiosos aguçam-se.

Marcão sai sem conseguir conter o choro. Daniel apressa-se a sumir dali, mas não sem antes gritar um “chora mesmo, mariquinha”. Corre e ri. Ao chegar em casa, mete-se logo no banheiro, para a mãe não ver o estado em que está, e toma banho. Os ralados nas pernas e nos braços ardem e as lágrimas confundem-se com a água do chuveiro. Convence-se de que não está chorando.
O nome do conto, embora o conteúdo não fale a respeito, é uma referência ao grupo gótico/pós punk irlandês Virgin Prunes. Na foto, a capa do disco ...If I Die, I Die (1982), aqui reproduzida via licença Creative Commons.

Monday, June 27, 2016

Napalm Death

Tem duas bandas sobre as quais li nos anos oitenta, em revistas de skate como a Yeah! e a Overall, e virei fã antes mesmo de ouvir, só por causa dos nomes: Sex Pistols e Napalm Death. Eu era garoto, estava começando a aprender inglês e ficava embasbacado. Como alguém tinha coragem de batizar grupos com nomes tão fortes? A primeira vez que ouvi o Never Mind the Bollocks foi inesquecível, porque cultivava expectativas enormes, e sempre me decepcionei ao ter grandes expectativas com algo, menos com o Sex Pistols. Já o Napalm Death atendeu perfeitamente ao que esperava, até porque já tinha uma ideia melhor de como era a música, pois posteriormente li mais um artigo sobre eles, na minha revista de HQ favorita, a Animal, escrito pelo João Gordo. Ele descrevia o som deles e de outras bandas da Earache, a gravadora independente que lançou o Napalm Death, como algo muito mais barulhento do que era conhecido à época, o hoje bem estabelecido grindcore, e ao final do texto afirmava “só sei que liquidificador com gelo também é música”. Quando finalmente consegui ouvir o From Enslavement to Obliteration, já no começo dos anos noventa, era exatamente isso.

Por inúmeras razões, ao longo dos anos e das várias vindas do Napalm ao Brasil, nunca havia visto um show deles. Agora, em 2016, com mais de quarenta anos, finalmente pude reencontrar-me com minhas perspectivas de adolescente e as satisfazê-las completamente. Foi um dos melhores shows que já vi. Como disse meu amigo Daniel Ikuma, foi o equivalente a termos visto o Fugazi nos anos noventa.

Fui de última hora, no próprio domingo do show, para São Paulo, devido a compromissos pessoais. Cheguei no Clash Club exatamente dez minutos antes do show de abertura. Logo encontrei meu amigo Otávio Mazza, o Tatá, que estudou jornalismo comigo na Unesp, no campus de Bauru. Fomos para perto do palco e, depois de várias tentativas frustradas, vi o Test pela primeira vez ao vivo. O duo de grind costuma tocar na rua e já passei perto de shows deles um par de vezes, mas não havia conseguido parar para assistir, mesmo já tento visto várias outras bandas no famigerado palco Test, montado nas ruas de São Paulo durante as Viradas Culturais. Em cima de um palco deu para sacar como ao vivo é uma pancadaria mais impiedosa do que no estúdio, prescindindo mesmo do baixo, com a interação guitarra/bateria exalando ferocidade, mas isto só me fez ter mais vontade vê-los tocando numa calçada, de perto, pois a frieza do público, que só observava, e o palco não correspondiam ao calor arruaceiro da apresentação.

O próximo show foi do Genocídio, tradicional banda de death metal, existente desde 1986. Como nunca acompanhamos a carreira deles com interesse fomos para trás para comprarmos algo para beber, conversarmos e comprarmos discos do Napalm e do Test na banquinha. Deu para sacar que é uma boa banda ao vivo, mas queríamos botar a conversa em dia e foi bom, porque também encontramos meu velho amigo Fernando Punk perto da banquinha, junto com mais dois amigos de Bauru. Essa característica das amizades duradouras e reencontros felizes é um dos maiores prazeres de frequentar shows underground ao longo de décadas.

Findo o show do Genocídio, rumamos para perto do palco. Ia ficar mais para o lado, como no primeiro show, mas o Fernando e a galera de Bauru foram mais para o fundo. O Tatá teve a feliz ideia de irmos ficar exatamente em frente à banda, um pouco atrás das pessoas que estavam grudadas ao palco. Achei que não daria conta, mas não gosto de ficar atrás, por ser mais baixinho. Quando o show começou abriu a roda e como sempre acabamos sendo empurrados mais para frente. Dali não saí mais. Mesmo meio prensado, me diverti demais e consegui pogar um pouco. Não entrei na roda um pouco atrás para não parar lá no fundão e ficar mais difícil de assistir o show com muita gente na frente e optei, por isso mesmo, em não subir no palco desta vez para um stage dive – certeza que pararia longe também. Claro que por isso virava e mexia tinha que segurar alguém que pulava.

Não cultivei expectativa nenhuma sobre o show. Sabia que mudavam o setlist a cada apresentação. O que é ótimo, bem diferente das bandas preguiçosas que pululam por aí. Simplesmente deixei fluir e não me preocupei se iam tocar ou não minhas favoritas. Mas várias delas vieram. Unchallenged Hate, Scum e You Suffer, por exemplo. Essa última tocada de surpresa, sem anúncio. Um segundo só. Quem olhou para trás perdeu. Eu vi. Emocionante. Em Greed Killing o vocalista Barney Greenway apontou o microfone para algumas pessoas que estavam na frente berrar o “When?” do refrão e tive a felicidade de ser uma delas! E eu, que estava gripado, tomando muito remédios para dor de garganta, consegui gritar ao microfone num show do Napalm Death. Nunca nem sonhei com isso e ao mesmo tempo é a realização de um sonho adolescente. Barney é muito simpático e conversava muito com o público e mais ao fim do show vi uma cena muito legal: um cara se aproximou e gritou, em inglês, que um amigo havia perdido o tênis ao subir no palco. Barney pediu para o cara aparecer e mostrar o pé descalço; o sujeito veio lá de trás e o mostrou que estava só de meia, então Barney achou o tênis e o devolveu. Era um clima muito amigável, a despeito da agressividade desmedida do som. Num dos intervalos, gritei para tocarem Nazi Punks Fuck Off, do Dead Kennedys. Barney ouviu e respondeu que era daqui a pouco, só aguardar. Um sujeito ao lado pediu para tocarem Love of my Life, do Queen, de brincadeira, o que provocou risadas em muita gente por perto, inclusive da banda. Nazi Punks Fuck Off veio, eu estava pertinho, foi um atropelo, logo depois de Low  Life, outra versão; a original é do Cryptic Slaughter. Quando o show acabou, curto e grosso, sem bis, eu estava mais disposto do que quando cheguei.
Uma das poucas fotos que tirei do show, pois como estava perto demais do palco fiquei com medo de perder o celular em meio à agitação.
        

Monday, June 20, 2016

U2

Lembro do primeiro CD que ouvi na vida. Talvez o primeiro que vi pessoalmente, mas não tenho muito certeza disso. Meu tio Helinho tinha acabado de voltar dos Estados Unidos, no fim dos anos oitenta, e trouxe na bagagem o War, do U2.  Na minha cabeça de moleque, ali em Botelhos, interior de Minas Gerais, era o contato com o futuro inexorável da música – mas como não sou besta, nunca me desfiz de nenhum vinil meu, sem notar algo à época que hoje me incomoda muito, a falta de graves no som digital, hoje decadente, por assim dizer.
A audição marcou-me mais pelo contato com o objeto CD. Fetichismo da mercadoria, diria Marx, mas fodam-se essas bobagens retóricas, o maravilhamento provocado pelo primeiro contato com novas tecnologias é um dos traços humanos do qual mais gosto. Fora as músicas marcantes que eu já conhecia do rádio – Sunday Bloody Sunday e New Year’s Day – eu achei as outras meio... franzinas. Sem graça. Estou ouvindo-as neste momento e não me lembrava delas. Outro fato que gostei do CD: voltar só nas músicas que gostava era mais fácil do que nas fitas cassetes e nos vinis. Com o passar dos anos, notei como esse era um vício ruim. Tanto que não me lembro das demais músicas de War, que poderiam me encantar se eu tivesse ouvido sem afobamento. Sem falar que notei que eu e alguns amigos referíamos às músicas de vários artistas como a “faixa número tal do CD” ao falarmos de bandas favoritas até meados dos anos noventa, ou seja, não sabíamos o nome de várias músicas das quais gostávamos.
Semana passada queria escrever sobre tudo isso, mas minha avó Arminda, mãe da minha mãe e do meu tio Helinho, faleceu no domingo, 12 de junho de 2016. Quando encontrei meu tio no velório falei para ele de como me lembrava bem de ouvir o CD do U2 na casa dele. Foi a primeira vez que chorei naquele dia.
P.S. Recordo-me que nos anos noventa o U2 processou o Negativland, banda experimental, e a SST Records, gravadora independente, porque a banda batizou um single de U2, ironicamente, usando samples não autorizados. Por isso mantenho somente o nome U2 nesta crônica, sem subtítulo.

Monday, June 06, 2016

Swans

Era a nossa rua. Resolvemos que seria o nosso bairro.
As primeiras exibições de Warriors, os Selvagens da Noite na TV aberta foram um marco histórico para a minha geração. A maioria dos moleques, invocados ou não, queria provar aquele gosto de aventura fora-da-lei do filme. Sem armas, com senso de lealdade e resolvendo desavenças na porrada. As eventuais reprises iam amealhando mais adeptos do “ganguismo” de araque, com o passar dos anos oitenta. Quem não tem senso de aventura não vai entender que isso nada tem a ver com violência gratuita, perda de valores da civilização ocidental e outras asneiras de missivista de jornal provinciano – para citar um ser verdadeiramente pernicioso d’antanho, hoje transmutado nas fileiras de um exército virtual sem peias.
Então montamos a nossa gangue. Fajuta, claro. Nem lembro o nome, se é que tinha. Não tinha um Cisne, o líder do Warriors; nós todos éramos, numa estrutura horizontalizada, por assim dizer. E fomos tocar o terror, a nossa maneira. Ou seja, não fazendo nada, só ficando sentados na esquina, jogando conversa fora e tomando conta do nosso “território”, um conceito tão caro às gangues do filme. Nunca li o livro de Sol Yurick no qual foi baseado o antológico filme de Walter Hill, então não sei se é algo tão importante na trama original, mas imagino que sim. Para nosso bairrismo briguento sem brigas, era importante. Nosso território era aquela rua.
Finalmente, um dia, nossas vítimas vieram ao nosso encontro. Uns molequinhos menores do que nós que moravam na avenida que margeia o bairro, a João Pinheiro. Eles vieram jogar bola justo no nosso “território”. Nós os cercamos. Perguntamos se eles tinham pedido licença para jogar bola lá. Claro que não. Então os mandamos ir embora, pois aquele era nosso território. Fomos ameaçadores o suficiente para eles irem embora mesmo.
No dia seguinte, depois da escola e do almoço, nos sentamos sob a sombra da arvore da esquina. Então o molequinho mais falante apareceu. Sozinho. Desafiador. Com camisa de botão, penteado certinho e uma cara ingênua cheia de verdades. Alguém perguntou o que ele queria. Acho que fui eu.
- Eu conversei com meu pai e ele disse que não existe esse negócio de território!
Nós rimos e o mandamos embora. Ele se foi, obediente. Afinal, era menor que nós e estava sozinho. Assim que ele se afastou, um de nós, creio que o Paulo Augusto, adiantou-se e precaveu-nos.
- Sujou, galera. Acho melhor não ficarmos na rua um tempo, para não dar rolo.
Abandonamos nosso “território” umas semanas e não tocamos mais no assunto quando o reocupamos, sem discutirmos com mais ninguém. O menino não voltou lá com o pai dele. Não teve problema nenhum. Nós éramos mais bundas-moles do que Os Órfãos, a pior gangue do filme.

Monday, May 30, 2016

Conto para ser esquecido: Flipper

Conto para ser esquecido: Flipper

Flipper

Eu me lembro do primeiro fliperama em que fui. Meu pai me levou num que ficava na rua Assis Figueiredo, a principal rua central da minha cidade natal, no fim dos anos setenta ou no começo dos anos oitenta. Não me lembro bem das máquinas, a não ser uma, que tinha uma bazuca. Foi essa que meu pai me ensinou a jogar. Era um jogo de tiro, obviamente; você apertava o gatilho da bazuca e destruí os inimigos no campo de batalha. Não me lembro mais bem se eram tanques, jipes, mas acho que era algo assim. O que me lembro melhor é dos enfermeiros, pois não podia acertá-los, pois senão perdia pontos ou vidas. Forço a memória e não sei se estou viajando, mas acho que eram dois enfermeiros carregando um soldado numa padiola. Eram apenas riscos de luz, acho que verdes, na tela, projetando figuras simples sob um fundo estático. Fascinantes.
Eu lembro-me de quando vi o primeiro videogame, aquele do jogo de tênis, na casa de um vizinho (acho que era do irmão mais velho dele, que jogava na seleção brasileira de basquete; o Oscar chegou a visitar meu prédio), e de como achei tosco comparado com o Atari lá de casa. A mesma sensação deve ser experimentada por um garoto acostumado às caixas xis aí ao se deparar com um Atari ou esse jogo da bazuca que tanto me fascinava aos sábados de manhã. Pelo o que me lembro meu pai ia cortar o cabelo aos sábado de manhã e aproveitava para passar rapidinho no fliperama comigo. Esse lugar depois virou uma banca de revistas, onde comprei vários dos meus primeiros quadrinhos e hoje é uma loja qualquer, sem alma. Não que esse lugar tivesse alma antes, mas tinha para um garoto.
Mais velho, meus pais ficavam cabreiros quando eu e meu irmão fôssemos a fliperamas. Era algo “de marginal”. É claro que isso tornava ir aos fliperamas uma aventura irresistível. Óbvio, evidente, elementar, não tem como. Isso já era quando tínhamos uns doze, treze anos. Havia três fliperamas na cidade, que me lembre. O do Palace Hotel, cheio de raridades, como jogos dos anos quarenta – o primeiro importador de fliperamas do Brasil era da cidade, sei disso porque digitei o texto do filho dele contando essa história, pois ele os manuscrevia e não sabia datilografar/digitar – e o meu amado jogo de bazuca; o da Rua Rio de Janeiro, com duas máquinas de jogos de videogame que eram muito melhores nas máquinas (Ghosts and Goblins e Moon Patrol) e o da praça. Esse achava sinistro. Tinha um num antigo cinema que era muito, mas muito mais sinistro. Tinha não, ainda tem, mas acho que abriu depois. Sei lá por que é o único que ainda existe – se é que existe, eu nem passo muito por lá – e continuo-o achando meio sinistro.
De qualquer forma, duas das histórias que mais gosto de fliperama aconteceram neste da praça. Tínhamos medo de ir ao fliper, como dizíamos, por ficarmos encucados com as conversas de nossos progenitores de que lá só havia marginais e tal. Portanto, ir era irresistível, como já expliquei. Quando tomamos coragem, nosso amigo Márcio resolveu apelar numa máquina de pinball. A bola passou e ia inevitavelmente embora. Ainda batendo debaixo dos pinos, o Márcio levantou a máquina e a pôs de volta no jogo. Foi curioso, pois ele era magrelo e teve força para levantar aquilo. Era uma manha que ele tinha aprendido com os freqüentadores. Achou que ficaria impune. O dono ou empregado de confiança do dono só faltou pular por cima do balcão como num filme de faroeste. O Márcio levou um esporro que nos foi hilário e nem se abalou.
Na outra não estava presente, foi antes e foi hilária para mim ao descobri-la, quase me urinei de rir ao saber. Nosso amigo Evandro que me contou: o Márcio o chamou e a outro amigo, acho que o Paulo Augusto, para jogarem lá. Eles foram com os dois cus nas mãos, pois sabiam que o lugar era mal afamado. O Márcio, safo, já trampava de office boy e tinha as manhas das ruas. O que não mudava o fato de que ele era engraçadamente sem noção. Segundo o Evandro, eles entraram no fliperama fazendo de tudo para ser o mais discretos quanto possível. Eles, no caso, eram o Paulo e o Evandro. Ao entrar, o Márcio virou-se e falou para eles: “VIU, NÃO FALEI PARA VOCÊS QUE TODO MUNDO AQUI É GENTE BOA?” num volume de voz de fazer virar todos olhares de ódio do local para eles. Para mim foi como se ele tivesse cavado um buraco no chão e vindo direto contar o caso para mim. É claro que nada aconteceu. Eu nunca vi ou ouvi falar de treta de verdade no fliperama. Flipper para mim foi tudo isso de bom: seriado de televisão da infância, aventura da pré-adolescência e banda amada da adolescência em diante.