Monday, October 24, 2016

The Clash, uma crônica dedicada com muito amor para a Renata Rodrigues e o Maurício Rodrigues.

A primeira vez que ouvi The Clash foi num vídeo de skate. Era um programa da TV Manchete levado ao ar entre meados e fim dos anos oitenta. Chamava-se Vibração e foi gravado numa fita de videocassete por um amigo, já falecido, Maurício Rodrigues. O programa mostrava a visita de John Gibson, um skatista texano, ao Brasil. Depois da entrevista, ele andava enquanto rolava algumas músicas no BG; não me recordo de todas, mas creio que era Janie Jones, White Riot, I Fought the Law e, por fim, Guns of Brixton. Eu e meu irmão, respectivamente com 13 e 12 anos, ao ouvir, ficamos empolgadíssimos. Um de nós, acho que eu, disse “Ramones é demais!”, e o outro concordou. Só um tempo depois, ao ouvir fitinhas do Clash, que descobri que aquelas músicas não eram do Ramones. Quase sempre rio ao me lembrar dessa ingenuidade e por um bom tempo isso fez com que eu não gostasse muito de Clash. Lembro até de ter lido uns dois anos depois, já em 1990 ou talvez em 1991, a biografia de Sid Vicious escrita por Hugo Santos e publicada pela editora Brasiliense. O livro destacava que Vicious achava o Clash uma cópia do Ramones. Concordei com isso por muitos anos, mas hoje, ao ouvir novamente as músicas, não acho tão parecido. O Rancid é que se parece com o Clash, isso sim. Outro ponto engraçado dessa primeira experiência ao ouvir The Clash é que na minha ingenuidade pueril achei que Guns of Brixton fosse do Bob Marley e, por causa disso, demorou muito para eu gostar de qualquer outro som dele também, pois não achava nenhum reggae tão legal quanto aquele.
Tenho muitas saudades do Maurício e da irmã dele, que também morreu muito precocemente, a Renata. De andar de skate com ele, meu irmão e o pessoal do bairro; de ir às festinhas com eles, ela e as meninas da rua; de ler Mad e Chiclete com Banana e jogar Atari. É do que muitas vezes me lembro ao ouvir o The Clash e mais do que nostalgia, as músicas evocam-me um sentimento bom, de ainda ter alguma esperança no futuro. O que é sincrônico: consta que o Joe Strummer não gostava muito do mote No Future do Sex Pistols.

Monday, October 17, 2016

Legião Urbana XXX anos, crônica do show

Fui com o pé atrás. Mas num sábado à noite, em Poços de Caldas (a cidade epítome de Tédio com um T bem grande para você), fazer mais o quê? Comprei o ingresso de última hora, desgostoso de estar escrito Legião Urbana e não “Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá tocam Legião Urbana XXX anos”. Não consigo engolir que se chame Legião após a morte do Renato Russo. Mas bora lá, meu amigo Juliano Zappia também quis ir em cima da hora e comprou o ingresso lá mesmo no ginásio poliesportivo, habitual palco de shows na cidade, nos quais nunca fui, porque sempre ouvi falar da acústica horrível. De qualquer forma geralmente eram bandas pop que não interessavam e quando era algo bom eu já tinha visto em outras cidades. Ficamos na arquibancada e, apesar de certa distância, fiquei surpreso: não só o som estava razoável como a abertura, com Será, a primeira música do lado A do primeiro vinil, foi boa, com ela sendo bem executada. Conforme anunciado, as músicas vieram na sequência: A Dança ficou horrível sem o arranjo funky feito por Renato Rocha; Petróleo do Futuro foi fiel; em Ainda é Cedo faltou o baixo pós punk destacado do original (Renato Rocha é um cara subestimado, mas ao menos foi citado posteriormente por André Frateschi, vocalista que fez as vezes de Renato Russo), o andamento acelerou no refrão e um solo “rock é rock mesmo” do segundo guitarrista no fim cobriu a sutileza da guitarra de Dado; Perdidos no Espaço ficou muito boa, com 'efeitos espaciais” no vocal; Geração Coca-Coça para mim é ponto fraco do disco, mas mandaram bem ao vivo; O Reggae foi excelente, com efeitos lembrando dub e Dado cantando um trecho de Guns of Brixton, do The Clash, uma grande sacada; Baader-Meinhof Blues foi emocionante, fizeram uma versão pancadaria que a princípio ficou quase irreconhecível, mas manteve o espírito original; Soldados começou bem, apesar de terem atravessado após o segundo refrão ainda teve punch (nesse ponto a péssima acústica foi se impondo, o timbre do teclado ficou agudo demais); Teorema foi enérgica e correta; por fim, Por Enquanto fechou muito bem como também fecha melancolicamente bem o disco, ao vivo Bonfá foi maquinal como uma bateria eletrônica e fizeram um arranjo com certo peso, mas concentrado na eletrônica, lembrando o New Order, tal como a original.
Por mim o show podia até ter acabado ali, mas teve mais para a alegria do público, que me surpreendeu negativamente: achei a maior parte bem poser, só sabiam cantar junto os sucessos e, claro, Por Enquanto, tornada famosa por Cássia Eller numa versão, sinto muito, chinfrim. Sei que ela era legal, mas não engulo aquilo. A música seguinte às do primeiro disco foi Tempo Perdido, e aí paguei a língua: ainda bem que o show se estendeu, porque para mim o disco perfeito do Legião é o primeiro acrescido dessa belíssima música do Dois, outro discaço. A banda ainda tocou músicas menos óbvias do Dois; Daniel na Cova dos Leões e, numa boa jogada, Fábrica com outro vocalista, bem andrógino. Dezesseis também foi cantada por uma vocalista, numa outra tentativa de fugir ao lugar comum, mas achei algo meio jovem guarda o vocal dela, ou, melhor ainda, parecia a Rita Lee dando gritinho nos Mutantes. Dado e Bonfá também se revezavam no vocal, num esquema meio The Great Rock n’Roll Swindle. Foi uma sequência de hits, fora essas três, que poucas bandas podem se orgulhar de ter: Índios, Angra dos Reis, Pais e Filhos, Meninos e Meninas, Há Tempos e por aí vai. Quando saíram do palco, eu e Juliano adivinhamos o bis, pois faltaram justamente três grandes sucessos, e eles vieram conforme imaginamos corretamente (se bem que agora estou lembrando que não tocaram Eduardo e Mônica), pois não ficamos olhando o playlist da banda em outras cidades: Faroeste Caboclo, Perfeição e Que País é Esse?. Neste bis, embora Frateschi tenha falado que 2016 tem sido um ano terrível, senti uma certa dubiedade: se ele mandasse um “Fora Temer!” na lata, poderia tomar uma vaia, pois boa parte do público de meia idade provavelmente votou no futuro prefeito de Poços de Caldas. Prudentemente, deixou no ar o que queria dizer, pois a postura poderia produzir reações parecidas com as que o Pearl Jam enfrentou na década passada, ao se deparar com um público que não tinha a vibe da banda. Quando essa parte do público cantava junto Que País é Esse?, ainda mais com aquela resposta “é a porra do Brasil”, eu inevitavelmente não conseguia dissociar: parece energia, mas é só distorção.
Palco logo antes da entrada da banda. Tirei a foto com celular, 15/10/2016.

Monday, October 10, 2016

Agnostic Front, crônica sobre o show.

Não estou enxergando muito bem, devido a um problema de saúde, mas a convite do meu amigo Tatá (Otávio Mazza), topei ir a um show do Agnostic Front em São Paulo, já que vacilei demais ao longo de anos e perdi várias apresentações deles. Sempre gostei, mas sabia da postura de direita do hardcore de Nova Iorque que atraia fãs skinheads de extrema-direita. Vá lá, o clássico deles Fascist Attitudes, uma música da qual gosto muito, critica os nazis e as letras recentes são muito boas, antibélicas e pró-direitos humanos. Mesmo assim, temia que fosse algo meio zoado e violento num momento ruim para mim, mas que nada. Só me fez bem e o público estava na vibe certa do show, da tão propalada união e “família hardcore” que o Agnostic prega.
Chegamos cedo e vimos os dois shows de abertura, do Last Warning (cujo nome já deixa patente a admiração pela banda nova-iorquina) e do One True Reason. Estava muito vazio e deve ser foda para bandas que tocam hardcore apresentarem-se para um público estático (já que show com pouco público para uma banda de punk/hardcore não é demérito, mas geralmente são agitados), no entanto foram aplaudidos polidamente e fizeram seu papel com energia. Estava tão vazio que ficamos na frente do palco com facilidade quando começou o Agnostic Front, mas repentinamente brotou gente de tudo que é lugar. Não estava lotado, só que a galera colou em frente ao palco e assim que começou o show, com Eliminator (do disco Cause For Alarm, um disco de crossover bem próximo ao thrash metal) começaram os stage dives e fiquei por lá somente umas duas ou três músicas, pois desta vez, ao contrário de quando vi o Napalm Death no mesmo Clash Club, eu estava de óculos. Fomos para trás e quando o Tatá foi comprar cerveja tocaram Police Violence, uma das melhores músicas do disco mais recente deles, The American Dream Died, que tem a mesma pegada de hardcore à velocidade da luz que eles tinham no começo dos anos oitenta. Fiquei esperando, devolvi a garrafa d´água dele e não resisti quando começou o clássico Victim in Pain, música que para mim descreve minha vida no momento: fui pro circle pit sozinho para pogar e cantar junto o refrão com o público. Sobrevivi à roda de pogo sozinho e quando voltei para trás não achei mais o Tatá. Fui para um canto na frente, fiquei prensado e não consegui subir no palco quando muita, mas muita gente mesmo, subiu para cantar junto Crucified, do Iron Cross. Era aquela cena clássica, nem dava para ver a banda. Fui para o outro canto e consegui subir em outra música, não me lembro agora qual, acho que era For My Family, mas logo desci para evitar ser empurrado pelos seguranças. O show ia mesclando clássicos da adrenalina como Your Mistake, Friend or Foe, United Blood e Blind Justice com músicas mais recentes que são arrastadas; destas, ao menos A Mi Manera, em espanhol, para mim foi legal. Quando outra música recente que é uma pancadaria, I Can’t Relate, também foi executada até entrei na roda de novo. No fim eles inacreditavelmente (pois eu não conhecia a versão) tocaram Blitzkrieg Bop, do Ramones. Vou contar isso para meus netinhos, se os tiver, e para todo mundo para o resto da vida: subi no palco de um show do Agnostic Front, abracei o Roger Miret, e cantei Ramones junto com dezenas de pessoas. A adolescência nunca acaba, nem se você estiver velho e doente, pois vale o que diz a música do Seven Seconds tocada pelo DJ que mandava os sons entre as apresentações: Young Till I Die.
Foto que tirei (com celular) de Craig Silverman e Vinnie Stigma no início do show. Agnostic Front, São Paulo, 08/10/2016.

Monday, October 03, 2016

Siouxie and the Banshees, uma crônica

Sons soturnos para dias alegres. Acho que a primeira vez que ouvi Siouxie and the Banshees foi quando vi o clipe de Peek-a-Boo no Som Pop, apresentado pelo Kid Vinil na TV Cultura. Não gostei muito, até hoje não sou grande fã da música. Lembro bem da figura marcante da Siouxie no clipe, mas um dia o som realmente me encantou. No mesmo programa foi exibido o clipe de Hong Kong Garden. Aí sim. A guitarra aguda, com tons orientais, o baixo destacado, a batida final num gongo, o vídeo feito com cores em tons negativos, tudo aspirava a um mistério inalcançável para mim, enquanto que a energia era um convite a me perder num abismo etéreo. Não dá para descrever, essa descrição não basta.
Cacei os vinis o máximo que pude. O que eu podia encontrar, no fim dos anos oitenta, no interior de Minas Gerais, era nada. Achei uma coletânea chamada New Wave Times em um sebo somente em 1991. Era fascinante, uma paródia do New York Times, feita no Brasil no fim dos anos setenta pelo... Kid Vinil! Tinha muitas bandas chatas e outras absurdas de legais, como o The Jam, o Sham 69 e a Siouxie and the Banshees fazendo uma versão de Helter Skelter. Li nos créditos que a música era dos Beatles, pois não conhecia, mas até hoje minha versão favorita é a da Siouxie. Começa devagar, baixo de uma nota só secundado por um guincho de guitarra que vai sendo acelerado pela bateria, soando como um trem ganhando velocidade aos poucos até descarrilar violentamente, no final abrupto. Apesar de nessa época já ter escutado também Cities in Dust no rádio e ter achado a melodia fascinante, qual não foi a minha decepção ao finalmente achar um disco da Siouxie num sebo, já em 1992. Era o Hyaena, com uma sonoridade bem mais sutil. Não bastasse isso, tinha um colante da Fluminense FM na capa e uma amiga, a Ana Karla, quando viu, achou curioso e tirou um sarro, aumentando o meu desgosto. Tinha um colante também destacando outra cover dos Beatles, Dear Prudence, que não me desceu a princípio. Demorou mais de ano para eu realmente gostar do disco, mas felizmente não desisti dele. Aos poucos as músicas foram ganhando minha afeição e por muito tempo foi o único disco dela que conheci.

Monday, September 26, 2016

Dead Kennedys, uma crônica.

O vinil branco. O famoso vinil branco do Fresh Fruit for Rotting Vegetables, que lembra meus primeiros discos de infância, embora meus primeiros compactos com histórias infantis fossem vermelhos e verdes. Demorou um tanto bom para consegui-lo. Usado e sem o famoso encarte enorme, que nunca vi pessoalmente.
A primeira vez que li sobre o Dead Kennedys foi, obviamente, em revistas de skate, no fim dos anos oitenta. Claro que gostei do nome. Fui ouvir só em 1989 ou 1990, quando o Kid Vinil passou um trecho de um show deles na TV Cultura. Foi mesmerizante, pela primeira vez estava vendo como era um show de hardcore, sem separação entre banda e público; parecia – e é – algo mágico, um estado de graça, de congraçamento, ainda que sem conteúdo religioso. Eu me lembro até dos gestos teatrais de Jello Biafra no vídeo deste show – revendo-o, já em meados dos anos noventa, notei que a música que havia sido exibida era Bleed for Me. Salvo engano, neste mesmo dia o Kid Vinil passou Holiday in Cambodia, que depois foi exibida novamente, sozinha. Aí queria porque queria o disco. Só fui conseguir em 1991, usado. Comprei de um amigo, o Leandro, que na verdade o vendeu para ajudar um primo, o dono original, que meteu a faca no preço. O primo dele, não bastasse ser ganancioso, era, na real, um usurpador dos amigos; o disco era de uma galera em São Paulo, tinha o nome de todos os que fizeram a vaquinha para ter o vinil e mais um monte de inscrições a canetinha na capa e verso, como “Piração Total” e “Punk’s not Dead”. Tudo bem, o importante é que o vinil não tinha risco e provavelmente os donos originais jamais recuperariam o disco, pois o primo do Leandro havia se mudado para uma cidadezinha do interior de Minas Gerais, chamada Campestre. Detalhe: na contracapa havia também a inscrição “Carecas do Subúrbio”. Eu a risquei e escrevi embaixo “Nazi Punks Fuck Off!”, mesmo que ainda não tendo ouvido a música à época. Mas sabia do título e já havia pegado o espírito.

Monday, September 19, 2016

Stiff Little Fingers, uma crônica.

Quando ouço Stiff Little Fingers a sensação que tenho é que as músicas são conhecidas desde sempre, não só por ser uma típica banda punk 77 cujo som eu gosto tanto, como também pelo fato de que o timbre da guitarra lembra os primórdios do Toy Dolls, essa sim uma banda que me acompanha desde a infância. Ou, melhor dizendo, o timbre da guitarra do Olga do Toy Dolls é que parece o do Stiff Little Fingers, que surgiu antes. Mas só fui conhecê-los, de qualquer forma, em 1999, com o advento do Napster e do MP3. Foi o segundo grupo que aproveitei para conhecer com a novidade; o primeiro foi o Half Japanese, porque àquela época o Ratos de Porão havia lançado um EP`com uma versão de uma música deles, Fire to Burn. Voltando ao Stiff Little Fingers, como ao longo dos anos sempre lia sobre eles, mas nunca tinha escutado de fato, estava na hora de tirar o atraso. Só baixei algumas músicas mais conhecidas, como Alternative Ulster e Suspect Device, domingo de manhã, quando havia velocidade de banda o suficiente para isso. A internet era discada e aos domingos e de madrugada era cobrado um só pulso. A linha ficava ocupada a manhã toda, mas não havia outro jeito para conseguir o som. De madrugada às vezes deixava o computador ligado ao telefone e não conseguia sequer baixar uma música do SSD que tinha meros trinta segundos.
Outra lembrança marcante que o Stiff Little Fingers me evoca é uma noite em que estava na sala dos fundos de um bar chamado Let’s Rock, em Poços de Caldas, em 2011, ficando com uma menina de quem gostava muito então. Do outro lado havia outro casal, também se pegando. Estava tocando nas caixinhas de som alguma típica banda que sempre rolava lá, AC/DC, ZZ Top, Thin Lizzy, sei lá, gosto de todas, mas nem eu e nem ninguém estava interessado. Suspect Device irrompeu nas caixas de som e larguei a mina na hora e falei para ela “Gosto demais desse som!”, mas demorou um pouco para lembrar o que era; há anos não escutava. Reparei que o cara que estava com a outra menina do outro lado da salinha também a havia largado e parecia escutar o som extasiado. Perguntei, meio que afirmando, empolgado: “Stiff Little Fingers?”, ao que de pronto ele respondeu entusiasmado que sim. Ficamos quietos ouvindo a música e elas ficaram esperando, quando acabou quando um voltou para a sua garota e não nos vimos nunca mais, mas foi uma boa amizade.

Monday, September 12, 2016

Vírus 27

Lembro-me bem de quais foram os cinco primeiros vinis que tive. O Nevermind the Bollocks do Sex Pistols, o Wackey Wackey do Toy Dolls, o Brasil do Ratos de Porão, o Cadê as Armas? das Mercenárias e o VI do Circle Jerks. O primeiro em 1989 e os demais em 1990. Um dia, ao entrar numa loja, achei um disco do Vírus 27, o Brasil Oi!; fiquei tentado, pelo menos para conhecer, pois não havia mais nenhum disco de punk/hardcore na cidade, mas tinha lido uma entrevista deles para o Glauco Mattoso na Chiclete com Banana no qual eles se declaravam nacionalistas de direita. Sabia que o título não era ironia. Logo desisti do disco e tenho muito orgulho de saber exatamente o que estava fazendo com apenas 15 anos. Meu sexto disco acabou sendo um de psychobilly, do S.A.R., o qual achei na mesma loja, que depois passou a vender artigos religiosos para umbanda e candomblé.

Monday, September 05, 2016

Legião Urbana, uma crônica

É das primeiras músicas das quais me lembro de gostar. Ouvi pela primeira vez numa propaganda de TV; será que era para anunciar a participação em algum programa de auditório? Era o vídeo de Tempo Perdido, tenho certeza. Depois ouvi no rádio. Fiquei encantado. Foi a primeira vez na vida que prestei atenção espontaneamente à letra de uma música. Isso foi por volta de 1986/1987, tinha uns doze anos. Quer dizer, eu sabia a letra de algumas músicas, principalmente porque meus colegas de escola falavam das do RPM, mas Tempo Perdido foi a primeira que me interessou mesmo, mas não havia com quem a conversar a respeito. Ninguém se importava muito e acho que nem eu.
À época respondi um daqueles cadernos de perguntas que as meninas faziam e davam para você levar para casa – sim, já se stalkeava naquela época, mas era mais explícito – e respondi que minha música favorita era Tempo Perdido, sem titubear. Ela perguntou depois o porquê e eu disse que a letra refletia a vida; não sei por que disse isso. Hoje ela é atriz, às vezes a vejo no teatro. Eu devia estar afetando profundidade, ela deve ter percebido, pois pareceu incrédula. Para mim, a resposta foi sincera. Tempo perdido.

Monday, August 29, 2016

Cabine C, uma crônica sobre uma das maiores aventuras da infância

Não bastava o Atari. Era 1986, eu ainda não havia feito 12 anos. Éramos crianças demais para um tumulto adolescente. Em vez disso, construímos uma nave espacial, eu e meu irmão. Pegamos as cadeiras, fizemos uma armação empilhando-as, as cobrimos com lençóis sustentados por vassouras sobre elas e o armário e armamos outras duas cadeiras em frente à televisão. Tínhamos nossa cabine e nosso foguete era o jogo Beamrider.
Foi a melhor viagem ao espaço que fiz, melhor que as dos livros infantojuvenis de FC que havia lido. No jogo combatíamos alienígenas cujas naves despontavam no horizonte, atacando-nos com disparos de lasers. Éramos bons o bastante e atravessamos várias fases. Um amigo dizia-nos que no final do jogo chegava-se à Terra. Acho que não havia final, mas se houvesse, não chegamos a tempo, pois nossos pais chegariam antes e desmontamos nossas naves antes de sermos abatidos pela eventual fúria terrestre deles.

Monday, August 22, 2016

Front 242, uma crônica

Estive afastado de computadores por pouco mais de um mês. Hoje voltei a escrever contos e crônicas.

O futuro, nos estertores dos anos 1980, era o som do Front 242. Nada soava mais cyberpunk e eu nem sabia a existência dessa palavra. Era uma banda belga que se tornou referência do que parecia-nos vanguarda europeia da época, embora nem seja tão vanguardista quanto as bandas realmente industriais que existiam antes. O barulho que fecha uma das suas músicas relativamente populares à época, Masterhit, indicava o que Ministry e Nine Inch Nails fariam depois, mas de forma mais sintetizada, não soando vagamente analógico. Aquele barulho disforme sugeria que o futuro seria desolador, perigoso e sombrio; em especial, se não se preparássemos a mente para lidar com alta tecnologia e o corpo para fugir de ameaças sutis. Um vídeo em especial, em que um anãozinho pilotava um mini-helicóptero que invadia um galpão onde estavam os integrantes, parecia um prenúncio sinistro.
Em meados dos anos noventa estava assistindo o Lado B da MTV com meu irmão e revimos esse vídeo. Ficamos tão decepcionados... Era farsesco, cordas eram visíveis levantando os integrantes, que pareciam tão desesperados quando vimos pela primeira vez, o helicóptero parecia um brinquedo malfeito. Era cômico, mas não era engraçado. Front 242, então, já soava como passado embolorado. Estranho recordar disso tudo em 2016. Vinil voltou a ser algo que caracteriza essa época. Drones genocidas na Ásia talvez prenunciem mini-helicópteros nos quais uma pessoa pode entrar na sua casa e te liquidar. Front 242 foi usado como base musical até pelo Bonde do Tigrão, na popularização do funk carioca. Era o som do futuro sim e ele já chegou; é desolador e perigoso, mas ensolarado.

Monday, July 11, 2016

Fellini, uma crônica

É curioso quando penso hoje a respeito porque os nomes nem se parecem muito. No fim dos anos oitenta, quando eu tinha entre 13 a 15 anos – ou seja, entre 1988 e 1990 –, comecei a gostar de dois grupos que tocavam muito de vez em quando no rádio: Fellini e Defalla. Eram tempos de informações escassas e nada sabia sobre as bandas, a não ser que eram brasileiras, porque cantavam em português. Mas confundia uma com a outra e na minha ingenuidade ainda meio infantil achava que a que tinha uma música chamada Teu Inglês era o Defalla. Só fui desfazer a confusão quando comprei o 3 Lugares Diferentes, vinil do Fellini, em um sebo. Só consegui encontrá-lo em 1991 ou mais provavelmente em 1992, quando comprei muitos discos num sebo da minha cidade, pois muita gente se desfazia de vinis na era do CD, para a minha felicidade. Vinil era algo tão barato e acessível... Justamente o contrário de hoje.
Mais curioso ainda é quando reflito porque Teu Inglês é uma música que me fascinava tanto. Talvez gostasse do sentimento de saudade que a letra passava, mas eu era novo demais para ter tantas saudades. Mais do que isso, noto que somos produtos do nosso tempo. Gosto tanto da sonoridade pós punk porque vários discos do fim dos anos setenta e começo dos anos oitenta estavam saindo no Brasil naquela época, com atraso: Joy Division, PIL, os primeiros do New Order. Não sabia de nada disso, mas escutava no rádio e principalmente em programas de skate na TV, além de bandas como Legião Urbana, U2 e o próprio New Order serem muito populares, preparando meus ouvidos para as sonoridades mais experimentais do gênero. Se não deixo de ser um produto da minha época porque o Fellini que mais me importa é a banda, ressaltando que também amo os filmes do Fellini, devido às memórias da época, não deixo de ter certa satisfação por também não ser exatamente um produto e me encaixar nos padrões de qualquer indústria cultural, mesmo que alternativa: Teu Inglês é única, muito diferente de Rock Europeu, outra música do Fellini que fez certo sucesso à época e tinha forte influência pós punk, mas que só conheci depois. Se algo que não se encaixa nem nos padrões que procuram fugir de padronizações me fascinava quando garoto, é porque estava na senda certa. Minha irmã reparou ontem, quando eu ouvia o vinil, que Teu Inglês tem até alguma brasilidade escondida no ritmo. Alquimia que só me interessaria de verdade muitos e muitos anos depois. Ou seja, a música também preparou meu ouvido, mas para outros experimentos.

Monday, July 04, 2016

Virgin Prunes (conto inspirado em memórias da pré-adolescência)

Os garotos reúnem-se na esquina. A conversa não tem sentido. Discutem se o U2 é da Austrália, dos Estados Unidos ou do Canadá. Todos estão errados, mas têm certeza de que estão certos. Daniel e Marcão, que não eram exatamente chegados, mas meros conhecidos que orbitam em volta de amigos em comum da rua, exaltam-se e chamam-se de burros, ignorantes e por aí vai. Diante das risadas dos outros moleques, decidem-se calar-se, numa trégua tácita.

A conversa toma o rumo das garotas. Elas não ficam mais no bairro. Já têm 14 anos, ficam com outros moleques, todos mais velhos, preferem ir ao centro. A verdadeira preocupação dos que se reúnem na esquina, com idade média de 13 anos, era fazer piadas com Adriano, que era flamenguista, porque o time dele jogava “cu Zico”, além de várias outras infâmias. Todos ali, no entanto, sem exceção, contam histórias de meninas com quem já haviam ficado. Tudo mentira. Daniel é o único que ficou quieto. Somente ele já havia beijado uma menina.

Lá pelas duas da tarde, já com o sol menos assassino, vão jogar bola na rua. Má ideia, pois o sol ainda é inclemente. Aguerridos, suados, jogam a sério, querendo vencer, algo que nunca faziam. Marcão erra a bola e chuta a canela de Daniel, que desaba no chão, gritando exageradamente. Não era pra tanto. Mas já havia uma tensão. Daniel levanta chamando o desafeto de cavalo. Marcão o chama de bichinha. Daniel não deixa por menos.

- Como posso ser, se eu já fiquei com a sua irmã?

Era verdade. Marcão logo intui isto, pois não entendia por que Daniel sempre ficava brincando com os moleques mais novos, de uns dez anos, na porta da sua casa, e ainda assim sempre conversava com sua irmã mais velha.  Num final de tarde, chegando na esquina, viu Daniel saindo de sua casa e ficou intrigado com aquilo. Agora está explicado.

Atracam-se. Esmurram-se na cara sem pena. Não acertam em cheio, sempre pega meio de lado, pois se mexem demais e seguram-se pelas golas das camisas. Forma-se uma rodinha em volta, estimulando-os a saírem mais na pancada ainda. Mal rolam no chão, no entanto, e são separados.

Atônitos, encaram Júnior, que mora em frente e saiu na porta de casa para entender a algazarra. Lutador de kung fu, já maior de idade, grandão, sacana e famoso por meter-se em brigas na escola. Estão suspensos pelas camisas. Júnior ri e o joga-os cada um para um canto. Intimamente, ambos têm certeza que apanharão de Júnior; sabe-se lá o porquê da intervenção.

- Vão embora vocês dois daqui. Vocês não têm idade para sair na porrada não – ordena Júnior, gargalhando.
 
Os olhares curiosos aguçam-se.

Marcão sai sem conseguir conter o choro. Daniel apressa-se a sumir dali, mas não sem antes gritar um “chora mesmo, mariquinha”. Corre e ri. Ao chegar em casa, mete-se logo no banheiro, para a mãe não ver o estado em que está, e toma banho. Os ralados nas pernas e nos braços ardem e as lágrimas confundem-se com a água do chuveiro. Convence-se de que não está chorando.
O nome do conto, embora o conteúdo não fale a respeito, é uma referência ao grupo gótico/pós punk irlandês Virgin Prunes. Na foto, a capa do disco ...If I Die, I Die (1982), aqui reproduzida via licença Creative Commons.

Monday, June 27, 2016

Napalm Death

Tem duas bandas sobre as quais li nos anos oitenta, em revistas de skate como a Yeah! e a Overall, e virei fã antes mesmo de ouvir, só por causa dos nomes: Sex Pistols e Napalm Death. Eu era garoto, estava começando a aprender inglês e ficava embasbacado. Como alguém tinha coragem de batizar grupos com nomes tão fortes? A primeira vez que ouvi o Never Mind the Bollocks foi inesquecível, porque cultivava expectativas enormes, e sempre me decepcionei ao ter grandes expectativas com algo, menos com o Sex Pistols. Já o Napalm Death atendeu perfeitamente ao que esperava, até porque já tinha uma ideia melhor de como era a música, pois posteriormente li mais um artigo sobre eles, na minha revista de HQ favorita, a Animal, escrito pelo João Gordo. Ele descrevia o som deles e de outras bandas da Earache, a gravadora independente que lançou o Napalm Death, como algo muito mais barulhento do que era conhecido à época, o hoje bem estabelecido grindcore, e ao final do texto afirmava “só sei que liquidificador com gelo também é música”. Quando finalmente consegui ouvir o From Enslavement to Obliteration, já no começo dos anos noventa, era exatamente isso.

Por inúmeras razões, ao longo dos anos e das várias vindas do Napalm ao Brasil, nunca havia visto um show deles. Agora, em 2016, com mais de quarenta anos, finalmente pude reencontrar-me com minhas perspectivas de adolescente e as satisfazê-las completamente. Foi um dos melhores shows que já vi. Como disse meu amigo Daniel Ikuma, foi o equivalente a termos visto o Fugazi nos anos noventa.

Fui de última hora, no próprio domingo do show, para São Paulo, devido a compromissos pessoais. Cheguei no Clash Club exatamente dez minutos antes do show de abertura. Logo encontrei meu amigo Otávio Mazza, o Tatá, que estudou jornalismo comigo na Unesp, no campus de Bauru. Fomos para perto do palco e, depois de várias tentativas frustradas, vi o Test pela primeira vez ao vivo. O duo de grind costuma tocar na rua e já passei perto de shows deles um par de vezes, mas não havia conseguido parar para assistir, mesmo já tento visto várias outras bandas no famigerado palco Test, montado nas ruas de São Paulo durante as Viradas Culturais. Em cima de um palco deu para sacar como ao vivo é uma pancadaria mais impiedosa do que no estúdio, prescindindo mesmo do baixo, com a interação guitarra/bateria exalando ferocidade, mas isto só me fez ter mais vontade vê-los tocando numa calçada, de perto, pois a frieza do público, que só observava, e o palco não correspondiam ao calor arruaceiro da apresentação.

O próximo show foi do Genocídio, tradicional banda de death metal, existente desde 1986. Como nunca acompanhamos a carreira deles com interesse fomos para trás para comprarmos algo para beber, conversarmos e comprarmos discos do Napalm e do Test na banquinha. Deu para sacar que é uma boa banda ao vivo, mas queríamos botar a conversa em dia e foi bom, porque também encontramos meu velho amigo Fernando Punk perto da banquinha, junto com mais dois amigos de Bauru. Essa característica das amizades duradouras e reencontros felizes é um dos maiores prazeres de frequentar shows underground ao longo de décadas.

Findo o show do Genocídio, rumamos para perto do palco. Ia ficar mais para o lado, como no primeiro show, mas o Fernando e a galera de Bauru foram mais para o fundo. O Tatá teve a feliz ideia de irmos ficar exatamente em frente à banda, um pouco atrás das pessoas que estavam grudadas ao palco. Achei que não daria conta, mas não gosto de ficar atrás, por ser mais baixinho. Quando o show começou abriu a roda e como sempre acabamos sendo empurrados mais para frente. Dali não saí mais. Mesmo meio prensado, me diverti demais e consegui pogar um pouco. Não entrei na roda um pouco atrás para não parar lá no fundão e ficar mais difícil de assistir o show com muita gente na frente e optei, por isso mesmo, em não subir no palco desta vez para um stage dive – certeza que pararia longe também. Claro que por isso virava e mexia tinha que segurar alguém que pulava.

Não cultivei expectativa nenhuma sobre o show. Sabia que mudavam o setlist a cada apresentação. O que é ótimo, bem diferente das bandas preguiçosas que pululam por aí. Simplesmente deixei fluir e não me preocupei se iam tocar ou não minhas favoritas. Mas várias delas vieram. Unchallenged Hate, Scum e You Suffer, por exemplo. Essa última tocada de surpresa, sem anúncio. Um segundo só. Quem olhou para trás perdeu. Eu vi. Emocionante. Em Greed Killing o vocalista Barney Greenway apontou o microfone para algumas pessoas que estavam na frente berrar o “When?” do refrão e tive a felicidade de ser uma delas! E eu, que estava gripado, tomando muito remédios para dor de garganta, consegui gritar ao microfone num show do Napalm Death. Nunca nem sonhei com isso e ao mesmo tempo é a realização de um sonho adolescente. Barney é muito simpático e conversava muito com o público e mais ao fim do show vi uma cena muito legal: um cara se aproximou e gritou, em inglês, que um amigo havia perdido o tênis ao subir no palco. Barney pediu para o cara aparecer e mostrar o pé descalço; o sujeito veio lá de trás e o mostrou que estava só de meia, então Barney achou o tênis e o devolveu. Era um clima muito amigável, a despeito da agressividade desmedida do som. Num dos intervalos, gritei para tocarem Nazi Punks Fuck Off, do Dead Kennedys. Barney ouviu e respondeu que era daqui a pouco, só aguardar. Um sujeito ao lado pediu para tocarem Love of my Life, do Queen, de brincadeira, o que provocou risadas em muita gente por perto, inclusive da banda. Nazi Punks Fuck Off veio, eu estava pertinho, foi um atropelo, logo depois de Low  Life, outra versão; a original é do Cryptic Slaughter. Quando o show acabou, curto e grosso, sem bis, eu estava mais disposto do que quando cheguei.
Uma das poucas fotos que tirei do show, pois como estava perto demais do palco fiquei com medo de perder o celular em meio à agitação.
        

Monday, June 20, 2016

U2

Lembro do primeiro CD que ouvi na vida. Talvez o primeiro que vi pessoalmente, mas não tenho muito certeza disso. Meu tio Helinho tinha acabado de voltar dos Estados Unidos, no fim dos anos oitenta, e trouxe na bagagem o War, do U2.  Na minha cabeça de moleque, ali em Botelhos, interior de Minas Gerais, era o contato com o futuro inexorável da música – mas como não sou besta, nunca me desfiz de nenhum vinil meu, sem notar algo à época que hoje me incomoda muito, a falta de graves no som digital, hoje decadente, por assim dizer.
A audição marcou-me mais pelo contato com o objeto CD. Fetichismo da mercadoria, diria Marx, mas fodam-se essas bobagens retóricas, o maravilhamento provocado pelo primeiro contato com novas tecnologias é um dos traços humanos do qual mais gosto. Fora as músicas marcantes que eu já conhecia do rádio – Sunday Bloody Sunday e New Year’s Day – eu achei as outras meio... franzinas. Sem graça. Estou ouvindo-as neste momento e não me lembrava delas. Outro fato que gostei do CD: voltar só nas músicas que gostava era mais fácil do que nas fitas cassetes e nos vinis. Com o passar dos anos, notei como esse era um vício ruim. Tanto que não me lembro das demais músicas de War, que poderiam me encantar se eu tivesse ouvido sem afobamento. Sem falar que notei que eu e alguns amigos referíamos às músicas de vários artistas como a “faixa número tal do CD” ao falarmos de bandas favoritas até meados dos anos noventa, ou seja, não sabíamos o nome de várias músicas das quais gostávamos.
Semana passada queria escrever sobre tudo isso, mas minha avó Arminda, mãe da minha mãe e do meu tio Helinho, faleceu no domingo, 12 de junho de 2016. Quando encontrei meu tio no velório falei para ele de como me lembrava bem de ouvir o CD do U2 na casa dele. Foi a primeira vez que chorei naquele dia.
P.S. Recordo-me que nos anos noventa o U2 processou o Negativland, banda experimental, e a SST Records, gravadora independente, porque a banda batizou um single de U2, ironicamente, usando samples não autorizados. Por isso mantenho somente o nome U2 nesta crônica, sem subtítulo.