Tuesday, July 31, 2018

Seção 25

Era uma daquelas típicas frias manhãs poços-caldenses que parecem deslocadas, sob o sol alto no céu alijado de nuvens proporcionando um calor ínfimo; aquela sensação de que morava em Ganimedes ou em Io, longe demais, longe demais. Viver insulado em um grande satélite nos anos oitenta fazia com que me apegasse muito a qualquer artefato de civilizações distantes. Naquela manhã encontrei um numa calçada da rua Berilo, na parte baixa do Marçal Santos, o bairro da minha infância. Era uma fita cassete ordinária, sem a caixa, sem nome do dono ou qualquer indicação do conteúdo, mas nitidamente usada.
Peguei-a e esperei. Ninguém apareceu para reclamá-la. Era paciente, tinha tempo, estava com apenas 14 ou 15 anos. Subi a rua onde morava, a Platina, postei-me estrategicamente numa sombra e observei por muito tempo se alguém passava procurando algo no chão perto de onde estava na Berilo. Nada. Era minha, era justo. Estava curioso, coloquei-a no toca-fitas assim que pude. Tinha muita musiquinha sem graça da acid house então em voga. Era dance music bem genérica mesmo; só reconheci o Konkan, uma banda de tecnopop que lembrava um New Order anêmico.
No meio de tanta batida dançante que não dava vontade de se mexer, no entanto, reluziu um tesouro. Era um som com camadas hipnotizantes de sintetizadores, bateria eletrônica e então surgia aquele baixo gordo, potente, destacado. O vocal, distante, contido, deixa mais dúvidas ainda; tudo parece muito também o New Order, a banda que dominava o rádio à época, mas com a audição entrei no Vale da Estranheza: algo estava fora do lugar, aqueles belos backing vocals femininos não se encaixavam, a energia e a criatividade futurista se assemelhavam, mas estava diante de outro ente. Não era uma cópia, parecia um clone robótico que havia assimilado os maneirismos do original e criado personalidade própria.
Perdi a fita numa mudança, mas nunca me esqueci da longa odisseia daquela música. A batida e os acordes foram entranhados no meu DNA. Não havia informação nenhuma que pudesse recuperar ou acessar que não fosse essa memória. Haveria de ser paciente.
Em 1996, seis ou sete anos depois, o mistério começou a se desvanecer. Quando meu amigo Daniel Ferreira, que cursava Arquitetura na Unesp, pediu para morar na mesma república em que eu e meu irmão morávamos, ele me emprestou várias fitinhas. Finalmente pude ouvir Misfits, músicas da Siouxsie and the Banshees que ainda não conhecia e numa delas uma que fez meu coração bater forte e compassadamente, como um marca-passo remoto: Inspiration, do Section 25, era o nome daquela joia cibernética que havia encontrado numa calçada por onde minha infância havia caminhado antes.
Tudo fez sentido, maravilhosamente. Ainda me lembrava de uma resenha do jornalista e escritor Alex Antunes na extinta revista Bizz, na qual ele explicava que a imprensa oitentista acusava o Section 25 de ser uma mera cópia do Joy Division e do New Order, mas que não era bem assim: nas suas palavras, era antes uma banda-irmã dos dois grupos de Manchester, assumidamente influenciado. O mais incrível de tudo, para mim, é que tiveram o primeiro compacto produzido por Ian Curtis, o vocalista do Joy Division, minha banda favorita, meses antes de seu suicídio. A relação era tão umbilical que me recordo que ao ler a biografia Touching From a Distance, de Deborah Curtis, ri ao descobrir que o poeta e mito Ian Curtis ficou com um olho roxo ao se meter numa briga num show do Section 25, sendo, enfim, um humano como qualquer outro.
A fita que o Daniel gravou deixava clara a ligação: as músicas no começo soam como o Joy Division, lúgubres, etéreas, intocáveis, e vão paulatinamente tornando-se mais tecnopop e dançantes, como o New Order. O advento da internet, no entanto, fez-me descobrir que isso foi outro mito que carreguei comigo por muitos anos. Ainda que o single e as primeiras músicas do Section 25 atravessem sendas pouco iluminadas, as músicas que mais se assemelham ao Joy Division, como Beneath the Blade, estão no disco mais pop. Meu xará gravou tudo fora de ordem numa coletânea muito pessoal naquela fita; gostaria de retomar o contato com ele, possivelmente este era o intuito dele, ouvir com a sensação de uma evolução sonora que na prática não ocorreu, pois o grupo é muito confuso. Aliás, existe até hoje, com a filha dos vocalistas, já falecidos, à frente dos músicos, quase como um Demônios da Garoa do Velho Mundo, mal comparando. E Looking from a Hilltop é que foi o grande hit deles; no Youtube, descobri que Inspiration foi um sucesso nas casas noturnas góticas da noite paulistana nos anos 1980 e só lá. Algum DJ deve ter gostado dela mais do que outras e por algum motivo foi parar naquela fitinha esquecida na rua e que me inspira ternas recordações há anos.  
Daniel Souza Luz é jornalista e revisor

Seção 25 foi publicada em 28 de julho de 2018 no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG). Escrevi a crônica no dia anterior e o título, evidentemente, alude ao grupo Section 25.
 
Capa do single Charnel Ground/Haunted, lançado na Bélgica, em 1980, pela Factory Benelux. Foto de Jim Barker, via licença Creative Commons.



Wednesday, July 04, 2018

Grandes Garotos

Lembro ternamente de um caminhãozinho que ganhei quando era criança, azul metálico com a caçamba laranja. Não existem caminhões assim, por isso gostava tanto dele, creio. A caçamba era funcional, gostava de carregar pequenos objetos nela e descarregá-la.
Quando minha mãe passou a permitir que brincássemos na rua, tive a ideia de fazer uma fazendinha. Eu e meu irmão pegamos uma casinha de brinquedo, pegamos pedacinhos de grama, palitos, fósforos e fizemos uma plantação diversa em torno da sede. Já havia aprendido na escola que monoculturas fazem mal para o solo. Colhíamos a safra e embarcávamos no caminhão até um depósito imaginário. Tudo isso na parte de terra de um gramado, hoje cimentado, no predinho em que morávamos na rua Platina.
Não era o quintal do prédio. Estávamos expostos. Não demorou tanto e chegou um moleque da rua de cima querendo intimar. À toa, só porque era maior e riquinho mal-educado. Parou sua bicicleta ao nosso lado e passou a tirar a sarro. “Estão brincando de casinha igual menininha”, ficou repetindo, com sorrisinho de mofa.  Expliquei que não era de casinha, era de fazendinha. “É a mesma coisa, brincadeira de menina”, continuou com a babaquice, nos desestimulando. Obviamente era uma brincadeira diferente; hoje não me ofenderia, pena que não brinco mais, para poder bater o pé.
Os papéis de gênero são bem cristalizados nas cabeças das crianças pelos pais. Mesmo se fosse de casinha, e daí? Não afeta em nada a masculinidade, como poderia? Mas o pentelho estava lá, há mais de trinta anos, nos aporrinhando gratuitamente. Do outro da rua, para nossa sorte, morava um moleque ainda mais velho, o Neto, que já devia ter uns treze, quatorze, quinze anos. Foi um Deus Ex Machina naquele dia para nós. Enquanto outros moleques se aglomeravam para tomar parte do escárnio e já estávamos a ponto de recolher nossos brinquedos, ele atravessou a rua para ver o que estava pegando. Quando ele tomou conhecimento do que acontecia, se virou para o riquinho e fulminou: “Do que você está falando, seu idiota? É maior fera a fazendinha deles, não é brincadeira de casinha”. Nunca me esqueci disto. E fez o riquinho descer da bicicleta e brincar conosco. Não gostei muito dele participar da brincadeira, mas gostei demais dele calar a boca, humilhado. Foi genial. Vai ver que é por isso, também, que hoje em dia ele é uma pessoa melhor. O Neto se mudou pouco depois, nunca soube o nome dele para agradecê-lo.
Daniel Souza Luz é jornalista e revisor

Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 30 de junho de 2018. A escrevi de supetão no dia anterior e já a enviei. Traz muitas reminiscências queridas da infância e uma reflexão à luz do atual debate dos papéis de gêneros na infância, inspirado numa palestra da minha amiga Andréa Benetti a respeito da Judith Butler. O título é uma homenagem ao Big Boys, uma estupenda e inclassificável banda de skate rock, que transitava com desenvoltura e extrema criatividade pelo punk, funk, hardcore e pós punk. Não bastasse isto, surgiram no ultraconservador Texas, no fim dos anos setenta, tendo como vocalista uma drag queen skatista e gordo, Randy "Biscuits" Turner, que sofreu homofobia na cena machona do hardcore dos anos oitenta. Um grupo sui generis, predecessor do Red Hot Chilli Peppers e do Suicidal Tendencies, que tiveram muito mais sucesso.

Um dos símbolos dos Big Boys. Muita informação sobre a banda pode ser encontrada no site http://www.soundonsound.org/ - no qual peguei esta imagem. 

Tuesday, June 26, 2018

Juventude Sônica

Uma rixa adolescente das mais típicas é por causa de música. Deveria ser ao menos, melhor do que futebol. “Silver Rocket é mais hardcore do que qualquer música do Bad Religion”, “Inocentes nunca será tão bom quanto Cólera”, “Credo, vocês só ouvem barulho, música de verdade é Stravinsky” e por aí vai. A possibilidade de alguém sair na pancada por causa disso é muito menor também, convenhamos.
Da juventude, guardo o encanto de amar sons que me fascinavam, mas que não fazia a menor ideia do que seriam. Por exemplo, quando vi um anúncio de uma marca de skate dos anos oitenta, já extinta, salvo engano a Momento Angular, fiquei fascinado pelas belas melodias das guitarras da trilha sonora. Só quando pude gravar um CD do Sonic Youth, Daydream Nation, quatro anos ou cinco anos depois, é que descobri, por acaso e exultante, que aquela música inspiradora chamava-se The Sprawl. Ainda que já conhecesse o grupo, não desconfiei que fosse deles; mesmo no início da música não reconheci o timbre, mas quando finalmente aquelas guitarradas densas afloraram nas caixas de som fiquei extasiado ao reconhecê-las.
Atravessar a brisa, como se diz hoje, daquelas discussões e sair incólume era um pouco difícil. Era um lixo total, ainda é, aturar algum músico metido a besta dizendo que tal som é simplório, que qualquer um faz e tal, que bom mesmo é, sei lá, Rush. Aliás, quem dizia isso eram os caras que nunca compuseram nada de bom na vida e cuja utilidade, ainda nos dias de hoje, é reproduzir as músicas de outrem, quando muito, em algum barzinho em que ninguém lhes presta atenção. Eventualmente têm fazer isso com o que desprezavam antes como muito simples; músicas dos Beatles, por exemplo. Bem feito.
“Ei, Joni Mitchell é muito bom, conhece?”, “Tá viajando, Eric. Você não era radical, não gostava só de death metal? Como pode falar que Guns n’Roses é ruim se gosta desse troço hippie? Poser!”. Testemunhei diálogos mais ou menos assim, amigos patrulhando o gosto musical dos outros. O certo era tomar a providência de botar panos quentes, mas adolescente gosta mesmo é de carregar vela pra pôr fogo na lona do circo, né? E aí não havia rei da chuva para apagar as chamas da treta. Acho até engraçado ver quem é mais novo chamar os outros de posers hoje em dia, antes esse xingamento era restritos a adolescentes dos anos noventa que gostavam de hard rock dos anos oitenta.
Conforme se ganha a habilidade de se dar uns beijos, brigas musicais se tornam menos intensas, talvez. Não há verdades absolutas. A paixão, no entanto, nunca diminui. Mas é melhor ficar em casa lendo trilogias e pondo bons LPs na vitrola do que perder tempo discutindo com cabeças de bagre que não entendem que Green Day nunca será melhor do que Ramones, o que é uma verdade científica insofismável.
Daniel Souza Luz é jornalista e revisor
Detalhe de um show do Sonic Youth em Paredes de Coura, Portugal, 2007. Foto de Catarina Limão, via licença Creative Commons. A postagem original da fotografia pode ser vista aqui.

Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 23 de junho de 2018. Era inédita até então. A escrevi no dia 21 de junho e a revisei no dia 22, acrescentando a frase "Não há verdades absolutas" e a piada da última frase (espero que entendam a ironia). O título é uma homenagem ao Sonic Youth, cujo nome já havia dado a um conto que publiquei aqui no blog em 25 de janeiro de 2015. A maior inspiração para esta crônica foi o disco Daydream Nation, de 1988; cito os nomes de todas as músicas, disfarçadamente ou não, ao longo do texto - menos os nomes específicos das partes de Trilogy; não soube como fazê-lo.  

Wednesday, June 06, 2018

Sussurros Japoneses

Há crianças que amam gatos. Que lamentam banhos. Que fazem birra para não comer salada. Cada uma com sua mania. Eu tinha medo de monstros japoneses.
Meu irmão é mais novo do que eu e adorava Ultra Seven e Spectreman, que me despertavam pavor. Não só seus inimigos, mas também os protagonistas, que para mim nada tinham de heróicos. Não sei explicar por que algo tão farsesco como esses seriados japoneses inspiravam-me medo. Achava que seria esmagado, tenho essa vaga sensação quando penso a respeito. Um desses dois heróis aí se agigantava para combater os monstros que vinham arrasar Tóquio. Talvez ambos. Só via trechos disso e saía da sala, pra mim qualquer um deles poderia pisar no prédio onde morava. Procurava não externar esse medo; deveria tê-lo feito, alguém poderia me explicar que isso só acontecia no Japão e eu poderia tranquilizar-me, igual a um amigo da pré-adolescência que não tinha medo de demônios porque os filmes mostravam que eles só possuíam pessoas nos Estados Unidos. Ele acreditava piamente nisso.
Lá pelos oitos anos esse medo passou. De bobeira, um dia, liguei a TV e estava passando Robô Gigante. Era uma família de robôs espaciais, tinha o pai, a mãe e o filho que combatiam invasores da Terra. Ah bom, de família não tenho medo. Já dos defensores dela... Bem, isso é outra história. O fato é que, ao que parece, o seriado não era assim como o descrevo, na realidade. Seria um garoto que controlaria o Robô; então tenho a memória falsa de que era uma família de robôs, ou havia um seriado concorrente de robôs gigantes, ou me induzi a acreditar que havia uma família, inclusive me lembro da Robô Gigante, maior do que filho e menor do que o marido. Prodígios da mente infantil.
Até o medo do Spectreman e do Ultra Seven acabou. Nem sei bem qual é um e qual o outro até hoje, são clássicos da TV, mas não prestava atenção. Já de Robô Gigante gostava tanto que não teve como não gostar de Círculo de Fogo, filme do Guilherme del Toro, inclusive me identificando com o medo que a personagem Mako sente ao se confrontar com suas memórias de criança. Fizeram uma continuação, mas sem o del Toro dirigindo não me animo tanto assim, por mais que adore robôs gigantes. O melhor de todos eles, aliás, é o Robert Smith, do The Cure, transmutado em um robô-borboleta num episódio do infame desenho South Park para combater uma monstruosa Barbra Streisand, transformada num robô maligno que arrasa a cidade onde se passa a história.
Todos estes seriados japoneses eram dos anos sessenta e setenta. Em meados dos anos oitenta estrearam no Brasil outras produções nipônicas, mais contemporâneas, mas tão toscas quanto suas predecessoras. Aí já não falavam mais a minha linguagem, mas o pessoal um pouco mais novo ainda gostava e a geração da minha irmã Fernanda, principalmente, adorou. Jaspion e Changeman foram grandes sucessos seguidos, salvo engano, pelo Jiraya. Na real, era Esquadrão Relâmpago Changeman; no seu quarto e no quarto acima do nosso apartamento, no apê da nossa vizinha Paulinha, Nanda e sua turminha, nossos também vizinhos Giovani Molinari e Juliana Mariano, imitavam a formação e os movimentos do esquadrão. Tinha até gente da minha idade caindo nessa. Eu já era velho demais para aquilo, achava uma bobeira. Queria mais era um beijo das meninas da minha idade, só um beijo que fosse, não tinha mais a mentalidade para aquelas criancices; afinal já era rapazinho e gostava é de videogames, filmes de terror e outras infantilidades de adultos.
Numa tarde de um sábado perdido no fim dos anos oitenta fui dar uma caminhada no centro da cidade com meu amigo Cleiber Pomárico Filho, hoje cirurgião plástico em São Paulo. Fiquei muito feliz, pois não era de andar a pé pela cidade à toa. Vimos uma movimentação em frente à locadora Click Vídeo, que há muito não existe mais, na rua Prefeito Chagas, a qual havia sido fechada para a circulação de veículos. Paramos para ver o que era e descobrimos que se tratava de uma exibição com atores representando os Changeman. Da esquina, meio de longe, vimos minha irmã e meu pai na calçada, esperando pela apresentação; eles também nos viram e deram tchau de lá. Conversando sobre garotas, absortos, fomos surpreendidos por atores vestidos como os inimigos da trupe do Changeman, uns alienígenas todos azuis, desengonçados, que sussurravam uns barulhinhos ininteligíveis. Caímos na gargalhada por nos vermos bem no meio do show.
Tempos depois ainda lembrávamo-nos do episódio aos risos. Comentando a respeito com minha irmã, há poucos anos, também me recordei que achei as vestimentas dos atores, todas, muito realistas, tendo em vista o quão irreal originalmente eram. Estavam perfeitas, era convincente. Então a Nanda me contou que, como ela era muito gurizinha, com uns seis aninhos, ela achou que era de verdade, que era mesmo os integrantes do Esquadrão Relâmpago Changeman! Achou que a luta foi real. Que bom que ela gostava; com a mesma idade, se eu tivesse visto o Spectreman na rua, eu teria saído correndo e me acabaria de chorar. Naquele dia, o que foi apenas um caso folclórico para mim quando fui para a cama, para ela foi um sonho. O sonho. Aliás, esta crônica é dedicada para a Fernanda, espero que tenha uma surpresa ao revisá-la, como usualmente faz. Minhas crônicas que saem com erros são as que não mando para ela revisar.
Daniel Souza Luz é jornalista e revisor

Sussurros Japoneses é uma crônica inspirada numa conversa com a minha irmã, meses atrás. Ao revisar a crônica, ela me disse que se emocionou e que ficou com a voz embargada ao ler o último parágrafo para o meu irmão. Tirei o título de uma coletânea de compactos do The Cure, cito todos os nomes das músicas da compilação em meio ao texto, o que me motivou muito. Enquanto escrevia, me lembrei do episódio do South Park em que o Robert Smith vira um mecha (robô gigante), veio a calhar! Foi a primeira crônica totalmente inédita que fiz para o jornal desde o início de março, quando escrevi Dispositivo da Moda; nos três meses seguintes somente reescrevi e ampliei crônicas que havia publicado anteriormente no blog. Sussurros Japoneses saiu no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) no feriado de 31 de maio de 2018. Em relação à original, apenas fiz uma alteração de estilo numa frase e também corrigi o nome do Spectreman. Na versão publicada pelo jornal grafei erroneamente como "Spectremen", que na verdade soa melhor aos meus ouvidos - o certo para mim deveria ser "Changemen" e não Changeman, então um herói com nome no plural faz um bom contraste ao Esquadrão Relâmpago.   


Print do PDF da edição do jornal no qual a crônica foi originalmente publicada; o jornal ilustrou o texto com uma foto do Spectreman.

Wednesday, March 21, 2018

Morrissey, uma poesia

Escrevi uma poesia chamada The Smiths
Um dia a lerei num sarau
Mas não será nesse
Um dia a moça para quem a escrevi
Estará por perto

Daniel Souza Luz
20 de março de 2016
Morrissey ao vivo em 2014, em Nashville. Foto de Kathryn Parson (Creative Commons).


Escrevi esta poesia, de improviso, no Sarau de Ninguém e a publiquei no dia seguinte no Instagram. O sarau é organizado pelo músico poços-caldense Tokinho Carvalho e neste dia a poeta convidada era a brasiliense Tatiana Nascimento, que estava lançando seu livro lundu, (o título é assim mesmo, com inicial minúscula e vírgula no fim) e até o autografou para mim citando a leitura da minha poesia poesia no recital. Escolhi homenagear o Morrisey no título pois, além da poesia original chamar-se The Smiths, esta aqui é muito melodramática.

Friday, March 02, 2018

The Fall

Mark E. Smith, o vocalista do The Fall, faleceu dias atrás, mais precisamente no dia 24 de janeiro de 2018, aos 60 anos. Tinha fama de ser uma pessoa difícil; era o único membro constante da banda, pela qual passaram mais de sessenta músicos. Para mim, é uma daquelas lendas sobre as quais lia na imprensa quando garoto, mas cujo contato com a obra em si demorou um pouco.
O Fall era a típica banda pós punk da mítica Manchester, cidade industrial inglesa então decadente, refletida na sonoridade sombria e nas letras de E. Smith abordando aspectos menos felizes do cotidiano, o que o tornou uma figura cultuada pelo seu texto e vocal inconfundível, aliás, como muitos outros letristas de sua época, tidos como poetas de primeira linha.  Mesmo tendo início nos anos setenta, imediatamente após a explosão do punk em 1977, é uma banda fortemente associada aos anos oitenta, pelas suas características e pela relevância da discografia daquele decênio.
Embora lesse a respeito na Bizz, extinta revista musical, no finzinho da década de oitenta, só fui ouvir em 1992, quando estava no chamado secundário (hoje ensino médio) e um colega viu o desenho que fiz do logo do PIL no meu caderno, puxando conversa. Esse colega de sala, o João Louco, ao saber que o Joy Division era minha banda favorita, gravou para mim o Bend Sinister, disco do Fall que ele tinha na edição em vinil. Não me decepcionou, pelas ótimas referências que tinha poderia ter cultivado expectativas excessivas. Só estranhei alguns teclados new wave em músicas animadinhas que contrastavam muito com o tom sóbrio, mas há muito tempo saquei que aquilo era cinismo, o típico sarcasmo oitentista, por parte deles.
Com o passar dos anos noventa, achei em sebos tanto o Bend Sinister, de 1986, quanto o The Frenz Experiment, de 1988, os únicos discos que saíram no Brasil, ao menos que eu saiba, ambos em vinil. Sou especialmente afeiçoado ao primeiro, que foi o disco pelo qual os conheci. Embora encontrando CDs importados, baratos quando o dólar estava em paridade com o real, antes de 1998, e ouvindo outros discos pela internet, neste século, não conheço nem metade da discografia do The Fall e olha que sou bem fã; no entanto, logo explicarei meu parcial desencanto com o grupo. Mark E. Smith era extremamente prolífico e lançou 78 (setenta e oito!) LPs, contando os inúmeros ao vivo, entre 1979 e 2017. Isso sem mencionar os compactos e EPs.
Ouvi por cima o penúltimo disco de estúdio, Sub-Lingual Tablet de 2015, e até apreciei, mas o último disco deles que realmente gostei foi o Extricate, de 1990, o qual procurei apenas em 2016. É brilhante, começa como citação aos Stooges, e musicalmente é uma continuidade um pouco mais polida dos discos anteriores, com alguns músicos remanescentes. Mas a verdade é que quando conheci o disco de 1993, que fez até certo sucesso no exterior, The Infotainment Scan, meu interesse pelo grupo arrefeceu, pois dos anos noventa em diante me parece que E. Smith passou apenas a se repetir, mas usando outra banda, aliás, qualquer banda.
Um amigo, Aran Carriel, me contou de uma frase famosa de E. Smith, “Se sou eu acompanhado por sua vovó nos bongos, então é o The Fall”, citada no obituário publicado pelo jornal The Guardian, e me mostrou um vídeo relativamente recente de um show do grupo, no qual E. Smith deixa o palco e diz para os fãs terminarem o show, assumindo o microfone, o que realmente fazem. Talvez o The Fall se torne uma banda infinita por isso, como os Demônios da Garoa, até hoje tocando com descendentes de seus músicos originais; talvez não, espero que não, pois a música já está imortalizada. Já para Mark E. Smith, infelizmente, a queda que espera por todos nós chegou.
Daniel Souza Luz é jornalista e revisor
Mark E. Smith ao vivo com o The Fall, em Berlim. Foto de Stefan Müller, via licença Creative Commons. A original pode ser vista aqui: https://www.flickr.com/photos/stefan-mueller-net/30937763673/

Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 27 de janeiro de 2018 e no site em 29 de janeiro seguinte. Era então inédita e e a escrevi tocado pela morte do Mark E. Smith. Mantive-a como está, não tenho reparos a fazer no texto. O nome da banda já havia inspirado outra crônica minha, The Fall, uma croniqueta, publicada aqui no blog em 31 de outubro de 2016 e reformulada para o Jornal da Cidade, com o título A Queda, que a publicou em primeiro de julho de 2017 e no site em três de julho de 2017. A Queda, inclusive, como já mencionei numa micrônica, é um uma crônica que ainda quero reescreve mais uma vez, pois há mais detalhes a ser contados sobre o episódio.

Thursday, February 22, 2018

O Grupo Pop

O cheiro do feijão cozido impregnava o apartamento. Era uma leseira depois do almoço e da escola. Mas ninguém usava esse termo “leseira”, acho. Falávamos que estávamos “morgados”. Acho que ficávamos morgados o dia todo, por nossos relógios biológicos não estarem adaptados a acordar cedo, recém-adolescentes que éramos, obrigados a ir ao colégio de manhã, após termos sempre estudado à tarde. Só melhorávamos quando saímos pra rua para zoar, do meio da tarde em diante.
O rádio estava sempre ligado. Legião Urbana, Ira!, Plebe Rude, Capital Inicial e Titãs tocavam o tempo todo, eram tão populares quanto Roberto Carlos era para os nossos pais. Tinha banda chata e convencional como o Barão Vermelho também, que até hoje não me desce, isso lá tinha. O doido, no entanto, é que no meio da programação, às vezes, tocava Garotos Podres, Replicantes e Toy Dolls. A primeira vez que ouvi “Eu quero matá-lo/aquele porco capitalista” foi numa rádio FM normal, dessas que hoje tocam, sei lá, Chris Brown. Tá, naquela época também tocava Chris de Burgh, que é tão ruim quanto ou pior, não era tão diferente assim também. Dizem que naqueles tempos havia uma rádio muito boa em Poços de Caldas chamada Cidade FM, que estaria ligada nas novidades do rock dos anos oitenta, mas não guardei o nome da rádio e nem dos locutores, só das músicas e grupos mesmo, quando consegui guardar.
O interessante é que não consigo imaginar uma rádio convencional tocando O Satânico Doutor Mao e os Espiões Secretos, banda do vocalista do Garotos Podres, em 2018. Até porque não é um clima otimista de redemocratização, mas sim uma atmosfera sinistra em que a extrema-direita volta a pedir golpe militar na cara dura. Pior ainda, no fim dos anos oitenta não havia essa praga fundamentalista religiosa. À época, havia toda uma grita contra censura; hoje, se alguém tocar algo com o nome “satânico” no rádio, correrá o risco de perder o emprego. Bem, provavelmente naquela década também e talvez eu esteja edulcorando o passado, afinal a Igreja Católica conseguiu censurar o Je Vous Salue Marie durante a presidência do besta do Sarney. Isso fez com que eu assistisse ao filme com uns quinze anos. Levou outros quinze anos para ter coragem de assistir um filme do Jean-Luc Godard de novo, que hoje considero um gênio, pois assisti ao filme apenas porque ele foi proibido, sem ter maturidade alguma para isto – e achei um porre.
Àquela época rolava também toda uma discussão bizantina na imprensa musical sobre qual seria o grupo pop perfeito. Bobagem, enquanto se digladiavam com isso havia toda uma geração de músicos e inovadores da eletrônica renovando tudo e nada disso de pop perfeito existe, nada é perfeito. Até porque todo mundo sabe que a música pop perfeita foi feita em 1967 e é Femme Fatale, do Velvet Underground.
Enfim, só quem viveu antes do advento da internet e não tinha grana pra comprar discos para saber como é emocionante quando se tocava uma banda da qual você gostava muito no rádio. Era a oportunidade de gravar a música, você tinha que ficar atento. E o mais importante: não ligar na emissora para pedir a música. Senão eles soltavam alguma maldita vinheta em cima. O importante era ligar o rádio e se ligar como um caçador de tesouros no fundo abissal. Eu não gravei Papai Noel, Velho Batuta. Tive que esperar anos para ouvir a música depois, após o começo dos anos noventa. Vocês acham que tocava só Nirvana quando chegou a era grunge? Mal tocava. As rádios preferiam 4 Non Blondes e outras bandas mais palatáveis, nem Pearl Jam rolava tanto assim. O poperô já tinha dominado tudo antes. E nem era ruim no começo, bandas como o Bomb the Bass eram muito criativas; hoje suas enérgicas colagens sonoras só não soam como a música pop eletrônica do futuro porque o futuro já chegou e ele é mais distópico. Mas já sabia que seria assim, não confiava nos DJs. Eu ouvia Smiths desde os anos oitenta e lia algumas das letras, sabia que os DJs de rádio não mereciam crédito. Com exceção do DJ Banana (achava antes que era o DJ Iraí Campos), que inventou a esquecida e engraçadíssima paródia de rap chamada Sbrebow, outro hit dos estertores dos anos oitenta.
Daniel Souza Luz é jornalista e revisor
Foto que tirei com celular em 22/02/2018.
Esta é a terceira versão da crônica Pop Group, publicada aqui no blog em quatro de janeiro de 2016. A segunda versão saiu no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em três de fevereiro de 2018, já consideravelmente ampliada. Nesta versão a revisei, eliminando expressões repetidas e alguns trechos quase pleonásticos, além de corrigir um erro no fim; provavelmente fica esta versão como a definitiva. Principalmente, queria corrigir o título de Grupo Pop e para O Grupo Pop, em homenagem à banda pós punk inglesa The Pop Group, que, diga-se de passagem, era radicalmente experimental e dissonante, não tendo nada a ver com as minhas lembranças radiofônicas.
 

Wednesday, February 21, 2018

Imagem Pública Limitada

Estava distraído. Parado no semáforo, conversando sobre política, um assunto deprimente nesta cidade em fevereiro de 2018, em que somos obrigados a saber que há um vereador obtuso falando abertamente que tem saudades da ditadura na mesma Câmara na qual, nos anos setenta, o então vereador oposicionista Dgeney Diniz de Melo foi perseguido por um mero pronunciamento sobre a PM, a ponto de o episódio figurar no notório livro Brasil Nunca Mais, com denúncias dos abusos cometidos pela ditadura militar. 
Enfim, enquanto ainda há liberdade de expressão, eventualmente usada cinicamente nos seus limites por essas figuras toscas que exultam regimes que a tolhem (pior ainda: um vereador filiado ao partido fundado por Miguel Arraes, cassado pelo regime militar), voltemos para o garoto, mais um, mas parecido demais com os demais: de barbicha, roupas que aludem ao circo, muito jovem, malvisto na família (provavelmente). Fazendo malabarismo com bolinhas. Ou malabares, como dizem.
Notei-o quando errou: uma bolinha escapou e foi parar embaixo do carro ao lado. Sorri – na verdade, ri da cara dele. Ele foi safo o suficiente para levar na esportiva: não se deixou abater, pegou uma das bolas que restaram, vermelha, e a pôs em frente ao nariz, emulando um palhaço que não meteria medo nem na mais traumatizada criança que teme essa figura.
Procurei desesperadamente por umas moedas, mas, como não estava prestando atenção antes, não as encontrei. Quando ele se aproximou, entreguei uma bala. A desculpa que dei é que ela poderia lhe dar energia. O semáforo, que não estava para brincadeiras, deixou de ser vermelho.
Foto de René Mayorga, intitulada Malabares. Disponível via licença Creative Commons no Flickr: https://www.flickr.com/photos/elchurro/158478618/
Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas) no dia 17 de fevereiro de 2018. É uma versão ampliada e principalmente atualizada da minha crônica Public Image Limited (uma homenagem à banda, obviamente), publicada aqui no blog em 12 de julho de 2015. Aproveitei a reflexão do texto original para fazer referência ao triste episódio que menciono, no qual um vereador da bancada da bala local elogiou a ditadura em sessão da câmara municipal, pois não me lembrava mais sobre qual episódio político estava conversando naquele semáforo, na avenida Santo Antônio, em 2015. Queria fazer uma crônica política, analisando o recente fato, e veio a calhar o texto antigo, assim como seu título, para dar um pouco mais de leveza.  
Daniel Souza Luz é jornalista e revisor

Monday, January 29, 2018

Missão cumprida: li 52 livros em 2017

Um ano tem 52 semanas; no fim de 2016 estabeleci como meta para mim mesmo ler um livro por semana em 2017. Consegui, dentro do que estipulei para mim: contei na lista não só livros tradicionais como também livros infantojuvenis e livretos que hoje são tidos como fanzines, mas que são impressos em gráfica e editados como obra literária com unidade. Não contei o que entendo como fanzines de fato, xerocados e anárquicos (foram dois) e revistas catalogadas ou tidas como livros  - uma da Superinteressante sobre a Grécia Antiga e uma antologia chamada Alcateia, editada pela Daniela Pace Devisate em formato artesanal, da qual participei com meu conto Síncope.

1- Devaneios Noturnos,  H.S. Gabell
2 - Devaneios Noturnos II, H.S. Gabell
3 – Sem Vergonha, Paula Tatelbaum
4 – A Invenção de Morel, Adolfo Bioy Casares
5 – O Sangue da Terra, José Carlos Mendes Brandão
6 – O Mundo Inteiro, Liz Garton Scanlon e Marla Frazee
7 – Sensibilidade, Osmar Nonato dos Santos
8 – Pergunte ao Pó, John Fante
9 – O Livro dos Cinco Aneis,  Miyamonto Musashi
10 – Uma História para Érica, Jô Moraes
11 – O Pequeno Príncipe, Antoine de Saint-Exupéry
12 – Sejamos Todos Feministas, Chimamanda Ngozi Adichie
13 – Da Tranquilidade da Alma e outros ensaios, Sêneca
14 – Contos, Machado de Assis
15 – A Anarquia, Errico Malatesta
16 – Coração Indomável, Daniela Pace
17 – Anticâncer, David Serban-Schreiber
18 – Partilhando a Vida, Andreia Zafariz
19 – Poetize a Liberdade, Letícia Pereira
20 – Bestiário, Julio Cortázar
21 – No País das Fadas, H.G. Wells
22 – O Fabricante de Paisagens, de Fábio Oliveira e Mary Hellen Andrade
23 – Bilhetes Poéticos 3, de Gabriel Souza
24 – Quem Manda na Selva, Dany Wambire e João Timane
25 – As Andorinhas, Paulina Chiziane
26 – O Cão na Margem, Luis Carlos Patraquim
27 – Fogo Preso, Andes Chivangue
28 – Outras Coisas, Clemente Bata
29 – Lavoura Arcaica, Raduan Nassar
30 – O Menino no Espelho, Fernando Sabino
31 – As Aventuras de Ngunga, Pepetela
32 – Cidadela Ardente, Thelma Guedes
33 – Vozes do Retrato, Dalton Trevisan
34 - O Menino do Pijama Listrado, John Boyne
35 – O Poço & Outras Histórias, Mário de Andrade
36 – Ganga Zumba, João Felício dos Santos
37 – Festa no Salão, Sérgio Biscaldi
38 – A Arte da Guerra, Sun Tzu
39 – Os Melhores Contos de Fernando Sabino
40 – O Doente Imaginário, Molière adaptado por Marília Toledo e ilustrado pela Laerte
41 – 80 Graus, Latitude Norte, Júlio Verne
42 – Escrever Sem Doer, Ronald Claver
43 – As Tranças de Bintou, de Syviane A. Diouf e Shane W. Evans
44 – Guia Prático da Nova Ortografia, de Paulo Flávio Ledur
45 – Crônicas, volume 3 do Para Gostar de Ler, com crônicas de Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Fernando Sabino e Carlos Drummond de Andrade (releitura; já havia lido quando criança).
46 – Descanse em Paz, Meu Amor, de Pedro Bandeira
47 – Sessão, Roy David Frankel
48 – Para Brisa, Ni Brisant
49 – Frankestein, Mary Shelley
50 – Legados, Naide Cazali
51 – Uma Experiência de Fé e Política, João Mauro Bernardo
52 – Os Rebeldes: Geração Beat e Anarquismo Místico, Cláudio Willer

Tuesday, January 09, 2018

A Cura

Certa feita caí doente a ponto de preocupar muito minha mãe e meu pai, já calejados com crianças enfermas, o que é bem normal. Tive uma infecção das vias aéreas superiores que os obrigou comprar um aparelho para inalação. Tomados os remédios receitados pelo pediatra, fiquei ótimo, mas houve um efeito colateral inesquecível. Tive alucinações muito vívidas.
Foi talvez a experiência mais psicodélica da minha vida e curiosamente aconteceu com drogas legais e quando eu era criança. Após a inalação, deitei-me na cama dos meus pais. Fiquei de boa por um tempinho, até que vi um clone meu emergir da minha barriga. Foi um nascimento sem sangue, simplesmente um gêmeo originou-se de mim e ergueu-se sobre meu corpo. Só que não parou aí. Outro clone saiu da barriga dele, simplesmente emergiu também. Antes que me desse conta de dizer algo, cópias exatas de mim apareceram por todo o quarto, simplesmente brotaram no ar. Estavam todos com a mesma roupa que eu estava usando, um shorts e uma camiseta cinza do Mickey. Senti que todo o oxigênio estava sendo sugado do cômodo e levantei-me desesperadamente, empurrando meus outros eus. Eles sumiram assim que me movi; enquanto recuperava o fôlego achei que tinha sonhado.
Aquietei-me e deitei-me novamente. Estava muito mole para chamar por alguém de casa. Não deu um minuto e apareceu mais um clone. Mas dessa vez era uma miniatura do tamanho de um boneco do Falcon, popular nos anos oitenta, andando por cima da cômoda. Mas era eu mesmo, com a mesma roupa, numa versão liliputiana. Este pequeno clone era agressivo. Ficou me xingando, o que estava de bom tamanho, perdoem-me o trocadilho infame, pois ao menos era um só. Mas ele foi me irritando tanto me chamando de babaca e berrando outros impropérios gratuitamente que quis dar um jeito nele. Fui pegá-lo e bati a testa na quina da móvel. Ele me encarou um pouco e sumiu. Nessa hora tive certeza que nada daquilo era sonho e que foi tudo alucinação.
Creio que se isso acontecesse hoje em dia ficaria encanado. Mas como era criança, achei tudo ultra divertido. Tirando o susto da falta de ar e a dor momentânea de ter batido a cabeça, findas as duas alucinações, não foi nada muito aterrorizante. Na verdade, visualmente foi fascinante. Virei pro lado e dormi. Nunca mais tive algo assim. Nem comentei nada para meus pais no dia seguinte, já que não me preocupei nem um pouco. Já contei essa história para alguns amigos e agora me dou conta de que deveria ter contado para os adultos o que se passou comigo, afinal há nas bulas os efeitos adversos que advém desses relatos. Mas nem me lembro o nome dos remédios mais, não faço a menor ideia. Deve ser um efeito colateral raríssimo. Tudo bem, boa viagem.
Daniel Souza Luz é jornalista e revisor
Capa do disco The Top, lançado em 1984 pelo The Cure.
Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em seis de janeiro de 2018; era inédita e esta versão é idêntica, não a reescrevi ou precisei corrigi-la ao revisá-la. Embora não mencione e não seja inspirada na banda, o título é uma homenagem ao The Cure.

Friday, December 29, 2017

Prazeres Desconhecidos

Foi num vídeo do Grito da Rua. Era um programa sobre skate, dos anos oitenta. Às vezes amigos iam para São Paulo e o gravavam da TV Gazeta. Mas também havia um home vídeo nas locadoras. Fiquei tão fascinado com as reportagens e trilha sonora que o loquei novamente e com um gravador registrei uma fitinha com o som ambiente vindo da caixa da TV. Isso foi em 1988 ou mais provavelmente em 1989 - muito mais provavelmente em 1989. Foi meu primeiro contato com Pixies, Sex Pistols, Meteors, T.S.O.L. e com o rap nacional, pois também havia MC Jack e Código 13. 
O Sex Pistols já era uma das minhas bandas favoritas, mas só conhecia de ler a respeito, não de ouvir. O legal é que a música deles, que servia de trilha para uma reportagem sobre skate numa piscina de uma casa abandonada - mas sem as paredes curvas das piscinas gringas -, era C'Mon Everybody, versão divertida de uma canção, também ótima, do Eddie Cochran. Essa cover era cantada pelo guitarrista Steve Jones e quando finalmente ouvi o Never Mind the Bollocks, pouco depois, o impacto fulminante dele estava integralmente preservado, porque a sonoridade era outra, muito mais agressiva.
A primeira música, após a abertura com Ceremony, era Disorder, do Joy Division. Minha música favorita do New Order era Ceremony, ou seja, eu já era fã do Joy Division um ano ou dois antes, sem saber. A cena era impactante: uma reportagem sobre o skate de rua no centro de Sampa. Um dos skatistas, Neguinho, subia em transições de esculturas modernas, que inclusive tinham uma parte móvel. Ao fundo, alguém passava fazendo um g-turn. Ao fim, desciam um calçadão lotado de passantes que pareciam até um pouco indiferentes àquela algazarra, como se fosse algo usual, enquanto Ian Curtis cantava solenemente: "I've got the spirit, but I´m losing the feeling". Toda a música era ficção científica, convidando para um futuro desafiador, com ruas hostis, no qual é preciso ser safo e estar preparado. E foi isso mesmo que aconteceu, nos 28 anos seguintes.
Capa feita por Peter Saville para o disco Unknown Pleasures, do Joy Division (1979).
Esta é minha última crônica do ano. É uma versão ampliada da minha Micrônica 1979, que publiquei no Instagram em oito de dezembro de 2017, cujo título alude ao ano de lançamento de Unknown Pleasures, o primeiro LP do Joy Division. Como algumas das minhas micrônicas escritas à mão são relativamente extensas, não se restringindo mais ao limite de caracteres do twitter, pensei em aproveitá-las como crônicas mesmo, expandindo-as.

Tuesday, December 26, 2017

Papai Noel, Velho Batuta

Quando criança, acreditava em Papai Noel mesmo e continuei acreditando por muito tempo, até os onze anos. Isto é uma hora extra da ingenuidade, duvido que outras crianças dos anos oitenta continuassem acreditando até uma idade tão avançada para a puerilidade, quanto mais as de agora, com mais acesso ainda à informação. Foi quando ganhamos bicicletas. Eu, meu irmão Eurico e minha irmã Fernanda não conseguíamos dormir cedo, ansiosos para ganharmos nossas magrelas. Minha mãe até que tentou nos distrair, mas não teve jeito, meu pai vacilou na hora de sair e sacamos que foi ele quem trouxe as bikes. A Nanda não sei, mas eu e o Eurico percebemos na hora. Papai Noel morto à parte, o importante é que papai é quem estava vivo e no dia seguinte já estávamos de rolê sobre duas rodas.
Aquele ano de 1985, coincidentemente, foi o ano de lançamento de Mais Podres Do Que Nunca, o primeiro disco do Garotos Podres, punks do ABC paulista. O vinil tem o clássico Papai Noel Velho Batuta, cuja letra logo me chamou a atenção, dois anos depois, ao, milagrosamente, ouvi-la no rádio: “Papai Noel/O velho batuta/Rejeita os miseráveis/Eu quero matá-lo/Aquele porco capitalista/Presenteia os ricos/Cospe nos pobres!”. Se Papai Noel não existe, então tudo é permitido. Na verdade, a original tinha um palavrão no título, mas a censura, na redemocratização ainda capengando, os obrigou a mudar o título e a letra. A real é que, por mais que goste de palavrões, prefiro versão com “batuta”, soa muito mais irônico. Virou um hino natalino, gosto de cantá-la em natais em família e na web é possível até encontrá-la numa versão com coral, com o devido palavrão no lugar. Toma essa, censores.
Talvez o melhor natal de todos tenha sido justo por aí, 1987 ou 1988. Meu pai tinha uma picape, salvo engano uma Fiorino, e como vivíamos uma era de irresponsabilidades no trânsito, não só toleradas, como incentivadas, ele levou eu, meus irmãos e nossos amigos para darmos uma volta na caçamba, no centro da cidade. Uma cena bastante comum, à época. Mas à noite, nas ruas centrais, foi inédito para nós. O encantamento das luzes e enfeites vistos com vento na cara é uma sensação de liberdade que permanece comigo. Melhor presente.
Capa e contracapa de Mais Podres do Que Nunca (1985), primeiro LP dos Garotos Podres.


Esta crônica natalina foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 23 de dezembro de 2017. Outro texto inédito, escrito especialmente para o jornal, republico-o aqui levemente revisado - corrigi apenas um erro à luz da nova ortografia e alterei uma frase do último parágrafo apenas para que ficasse mais clara, não mudando em nada o seu sentido.