Sunday, February 22, 2009

Melhor assim

Sempre confuso, ele também parecia precisar da aprovação de amigos que ele julgava melhor conhecedores de algo que em que ele se metia. E isto era um problema para todo mundo, pois ao mesmo tempo em que todos tinham o seu ego inflado por serem considerados bons em alguma coisa, nós éramos pessoas normais com aptidões comuns. E ele levava muito a sério as nossas opiniões. Todos nós sempre nos arrependíamos de termos lhe dado trela. Uma vez ele mandou-me um e-mail assim:

“JANO

Talvez seja, ela não gostava de mim. Eu nunca pensei que pudesse olhar para um canto escuro e nada vir a minha cabeça. Se eu fosse o personagem de Dan Akroid no primeiro Caça-Fantasmas, aquele homem de marshmellow gigante não teria aparecido. Eu queria ligar esta porra de televisão, mas não posso, ela é uma amiga de certa forma. Meu corpo se manifesta de várias maneiras, mas esse negócio de escrita automática não é tão legal no computador.

Foi o máximo que consegui escrever dessa forma. Sempre quis fazer escrita automática, mas deveria ter escrito a caneta mesmo. Teria dado mais certo. Que porra era aquele título, Jano? De onde tirei isto? De algum livro de história que li quando era pequeno, provavelmente. Até o meu subconsciente gosta de dar uma de besta. Só sei que nunca mais animei em dar uma de dadaísta. Eu não digito tão rápido, e isto me tirou o tesão do negócio.

O que você achou? Ficou muito ruim? Sinceramente? Você sabe que eu sempre quis fazer isto. Escrevi isto há muito tempo. Eu queria ser bom nisso, mas sabe, desanimei mesmo. Sabe onde está escrito “Eu queria ligar esta porra de televisão...”? Bem, eu queria ter escrito “Eu queria desligar esta porra de televisão...”, mas digitei errado. Não faz sentido, não é mesmo? Eu queria desligar, mas não podia, porque a TV era uma boa amiga naquela época, em que estava muito sozinho, você sabe. Se bem que de repente até que ficou legal, né? Por ter ficado esquisito, sabe como é que é?”

Eu só respondi isso:

“Você escreve bem, é um dom, mas acho que qualquer um o pode fazê-lo treinando.”

Nunca mais ele olhou na minha cara.


Escrevi este miniconto em 2003 ou 2004, revisei hoje.

Sunday, February 15, 2009

Balada Errada 2

A luz negra realça o seu vestido branco. Ela joga os cabelos para os lados, os braços para cima, ensaia uns passinhos de samba. Drum n'bass brasileiro. Como todo mundo que que havia descoberto isso ontem, tinha os quadris duros. A lábio e o requebrado ainda hão de funcionar. Aproximo-me, deixo solto meu lado Dudu Nobre, ela sorri.

- Na minha quebrada, você não enganaria ninguém.

Berro isto três vezes. Vale a pena. Ela começa a rir, a cara enfiada no meu ombro, as mãos apoiadas em meu peito enquanto mexe aqueles tênis brilhantes. Começa o poperô. Eu não quero ficar no meio daquela tenda cheia de barro. Ela quer. Ainda agüento três “músicas”. Tsi, tum, tsi, tum, tsi, tum.

Desisto, não estou com paciência pra ficar mimando madame criada por FMs. Olho para a casa perdida no meio do mato, faço menção com a cabeça de que vou pra lá, e saio abrindo caminho em meio ao povinho fashion. Chegando perto da janela, me viro e só vejo os clubbers de sempre. Hora de vazar. Ao encostar-me na parede para descansar um pouco, vejo uma ruiva empurrando uns agroboys. Ela me seguiu.

A porta da frente está trancada. O único jeito de entrar é pelo buraco do cachorro da porta de trás. Quando ela engatinha pela portinhola, eu penso na minha adolescência, no banheiro de azulejo rosa, e me pergunto por que nunca fantasiei isto antes.

Só havia luzes vermelhas bem fraquinhas no corredor. Os cômodos são insondáveis. Não consigo ver nenhum dos famosos sofás para amasso que tanto havia ouvido falar. Ela ri do meu desconforto, e, tropeçando nas próprias pernas, arranca uma lanterna da bolsa. Gargalha ao apontar o facho para um quarto. Têm quatro, cinco pessoas por sofá. Todos homens, acho. Subindo correndo as escadas, ela gargalha ainda mais.

Tomo a lanterna de sua mão. Mas ela tem uma idéia pior. Acende a luz de um dos quartos. Ninguém acredita. Vários casais seminus naqueles sofás e... Tony em cima de um magricela com a cara enfiada em almofadas. Ambos com as calças arriadas. Pô, Tony.

- Apaga a luz agora, o que você está olhando?! – Estou olhando ele fechar o zíper, e agora me sinto duplamente otário.

- Porra Negão, justo você, me fazer este papelão - Tony arfava indignado.

E ela ri alto, mais ainda enquanto Tony nos puxa pelos braços através do corredor. Ele nos joga com toda força em um banheiro. Tem um sofá! E nele caímos. Ela me pergunta quem era meu amigo. “Segurança da rave”. Seus risos ficam ainda mais histéricos.

Acendo a luz. Boca borrada de batom, maquiagem pesada escorrendo junto ao suor, faróis acesos. Senhorita roubada, o que vamos fazer?

- Quer tomar essa pílula azulzinha? Um sorriso sacana é esboçado.

- Não preciso disso.

- Nem eu - e ela engole aquilo. Portanto, apago a luz. Era a deixa.

Tony e outro segurança entram com os fachos das lanternas em nossas caras. Vingança. É justo. Somos arrastados pra fora da casa. Saio atrás dela, e não acredito no que ouço:

- Amor, onde você estava?

Mesma roupa, mesmo cabelo. É o rapazinho magrela do Tony. Com a minha mina. Abraçando-a. Dois pombinhos. Saem de mãos dadas. Nenhum deles olha pra trás. Tony, ao meu lado, parece mais resignado.

- A vida é assim. Negão... escuta, a galera do bairro, eles não precisam saber...

- Saber do quê? Não sei de nada.

A casa treme. São os graves do som estourado, ou... Esquece. Não volto lá para descobrir.



Pensando bem, acho que esta é a versão deste conto publicado na revista Ops! e a versão que publiquei aqui no ano passado é a versão original, mais longa, que pensei que havia perdido. Depois preciso achar a revista para confirmar isso, mas é 99,99% de certeza.


Sunday, February 08, 2009

O Recomeço

É como se fosse uma licença tácita para a putaria e isso não faz sentido para ele. Meio que está intrigado pensando o quanto se importava em ficar sabendo de tudo que rolava entre todos os de outrora. Desarticulado, não quer saber de perguntar como eles vão quando os encontra, ainda que todos perguntem o que ele anda fazendo para ouvir respostas acanhadas e vagas. Mas no carnaval é diferente. Ele quer saber de tudo o que os vizinhos fazem, olhando-os por binóculos, é muito bom morar em um prédio em frente a outros nesta época. Voyeurismo sem culpas, não sabe quem são e não fala nada sobre eles para ninguém. Até porque fica embaraçado demais com isso. O que não imaginava, na única licenciosidade que se permitia, era flagrar a vizinha de baixo do apartamento frente ao seu dando para um japonês cujo pau de fato parecia ser bem pequeno. Ela não tirou a camisa do Che Guevara em momento algum, como alguém pode dar uma trepadinha olhando para um cara feio como aquele? Ela devia mesmo ter os peitos pequenos, sempre teve essa impressão. Pelo menos ela tirou a boininha e seus cabelos negros feitos na chapinha refletiam o abajur rosa de forma ritmada e linda. Pela primeira vez em dezessete anos saiu para curtir um Carnaval com c maiúsculo, ao contrário do que recomenda a moral cristã da ortografia.

23/12/2008-08/02/2009

Sunday, February 01, 2009

J.

Foi tentando explicar-se que se arrependeu, tal como acontecia quando era criança. Andando devagar até a beirada da varanda da casa nova, o alpendre ainda sem grades e a queda de uns belos sete metros, pois a lateral direita dava para um precipício, foi surpreendido pela mãe que lhe deu o mesmo tipo de repreensão de trinta anos atrás. Ian Curtis ainda estava vivo naquela época. Por que você está chegando tão perto daí? foi a pergunta precedida do “Falta juízo!” que tanto o irritava e o humilhava; que fodeu a sua auto-estima e até mesmo a cognição na adolescência. O que você está pensando, sai daí?, o que era para ser uma ordem saiu como se fosse um apelo, pois ela intuiu que aquilo não seria bom. Ele nem estava pensando em nada, voltaria após olhar para baixo, não contava em ser surpreendido pela mãe até naquela hora e, pela primeira vez na vida, pensou realmente em se matar. Retrocedeu, no entanto.
18/12/2008

Sunday, January 25, 2009

Réquiem

A mãe tinha orgulho da filha e de si mesma por ter parido alguém tão querida e motivo de tantos comentários laudatórios, alguns piegas até, porém bonitos. O namorado da filha tem uma parte boa nisso, por pior que tenha sido sua atitude: ele segurava a mão de ambas durante a missa, e elogiava a comida da sogrona, e gostava de ficar conversando depois de comer, e ia para casa cedo, e não levava a filha para lugares ruins, e podia falar bem dele o dia todo, e não se cansaria de elogiá-lo. Ele a levou embora, mas levaram-no daqui quando ele estava na prisão. Agora a filha é a santa do Orkut. A mãe tentou apagar o perfil dela, mas não conseguia descobrir a senha. Tentou tudo: o nome da iguana de estimação, do namorado, do falecido pai, placa do carro. Enquanto isso, pessoas até mesmo desconhecidas, comovidas com o que leram nos jornais (que citavam todos os detalhes da vida da filha disponíveis no tal Orkut), iam escrevendo desejando uma ótima pós-vida para a filha. A mãe decidiu criar então o seu perfil, aprendeu a mexer com aquele Orkut, aquela internet que ela não gostava e que a fazia sentir-se desconfortável, ela uma professora que sempre soube que as modernidades não iam ajudar seus alunos a serem inteligentes e bem colocados, pois só os livros faziam isso, então apreender novidades tecnológicas era perder tempo com bobagem. Quando a mãe ia pedir para o administrador daquele site de relacionamentos tão fútil apagar o perfil da filha, ela leu-o uma última vez e deitou lágrimas com os depoimentos dos amigos da filha, tão íntimos, bem-humorados e contando coisas que a mãe não sabia, que ela jamais saberia. Isso fora os tais scraps, que eram escritos tanto por amigos como por desconhecidos, vizinhos antigos, artistas, gente que morava em outros países e muitos tipos de pessoas que ela nem imaginava existir. Em todos os aniversários da filha e em Dia de Finados a mãe visitava aquela página com a cor de céu, centro de peregrinação virtual, onde sempre havia quem pedia uma oração que ela tinha certeza que seria atendida até pelos engraçadinhos que entravam eventualmente para pichar aquele mural de evocações.

06/01/2006-09/01/2006

P.S.: Quando penso no caso Eloá e nas matérias dizendo que ela tinha orkut e que a página dela (que nunca visitei) passou a ser muito visitada após seu sequestro e morte, sinto-me meio estranho por ter escrito isso há três anos, mas gostei desse miniconto ao achá-lo e relê-lo.

Sunday, January 18, 2009

Chuva de ouro

Não é o que você está pensando, entendeu? Você tem uma visão preconceituosa de mim. Estou falando de algo real, que permanece. Não, não é nada disso também. Presta atenção: você acha que sabe das coisas. Só que você não sabe nada sobre aquele cofre. Interessado agora?

Ele ficou extremamente ligado a cada detalhe da conversa. Em como eles entrariam na casa. Como tacariam as barras pela janela, para a caçamba alcochoada do caminhão, durante a noite, sem barulho. Que a família era negligente e estaria viajando. O alarme era fácil de ser desativado e o cofre era acessível por meras picaretadas. O antigo comparsa o construiu e mentiu sobre a sua segurança. Para manter sua reputação, enganava apenas clientes selecionados, com muita penetração social. Entregava todo o ouro, literalmente, para o velho parceiro. Até tomar um tirambaço de escopeta da PM.

Aproveitando o fascínio e a momentânea distração do novo parceiro, tascou-lhe um beijo na boca. Porque parceiro tem ser parceiro.

Sunday, January 11, 2009

Muito doce na escola não dá certo

A luz negra partiu ao meio o mapa do Brasil, e foi então que tive a revelação: o berço da civilização fica aqui. A nave está enterrada aqui. Enquanto eu encarava a fumaça arco-íris que escapava pelas frestas da fenda no meio do mapa, invadindo a sala e anestesiando a todos para que não percebessem nada, notei que a bruma multicor torna-se ígnea ao aproximar-se de mim, recuando um pouco antes de tocar-me.

Sunday, January 04, 2009

Cabrón

Foi para lá sem pensar, mas ao se aproximar da casa, começou a encanar. Ficou rodeando-a, dando voltas pelo quarteirão com a moto, mas vencido pela falta de coragem procurou na casa do velho amigo que não via há quase um ano e que ele sabia que havia se mudado para perto dela. Celular na mão, parado na sarjeta cheia de água barrenta da chuva incessante que caíra pela manhãzinha, ele vê Beto abrindo a janela do apartamento por puro acaso, bem à sua frente. Beto não o havia visto, mas quando ouviu Davi chamando-o fechou a janela abruptamente para depois abri-la às gargalhadas cinco segundos depois. Pediu para que Davi subisse e ele o fez com uma agilidade jovial que não era sua em uma manhã de domingo. Papo vai e cerveja vem goela abaixo, recordando-se da adolescência às risadas e lamentando-se com desdém com a falta de propósito da vida profissional, ambos confessam que levaram chifres e prejuízos com as ex-namoradas recentemente.

Bêbado o suficiente e com a feliz certeza de que estava fazendo besteira, foi até a casa dela e bateu na porta. O pai dela atendeu e ele ficou sem ação e voz. Relutantemente, disse que era um amigo de Eliane, mas como o tiozinho nunca o havia visto, fechou a porta na sua cara sem dizer nada. Já tinha se virado e estava abrindo o portão quando ela abriu a porta e perguntou aonde ele ia. Ver um filme no cinema. Ela não estranhou nada e foi falante como nunca foi. Só que até chegar lá o efeito do álcool passou e ele não conseguiu dizer nada a ela e se contentou com um breve roçar no braço dela.

Não sabia o que dizer na volta e falou sobre o Woody Allen até cansar a ambos. Ela que teve que agarrá-lo no portão. O pai, vendo da janela, fez com que ambos entrassem, afinal era muito perigoso ficar até tarde na rua, e foi dormir sem aparentar qualquer preocupação. Ela tentou Davi para que eles dormissem juntos, mas não, os pais dela estão na casa. Não teve perdão, no sábado ela se arrumou e já era. Não é à toa que seu pai não estava preocupado.

Sunday, December 28, 2008

Puto e com sono

Vando estava redigindo um longo romance baseado misturando o imaginário batido de mundos fantásticos de um passado idealizado da humanidade, semelhante a todos estes subprodutos que outros jogadores de RPG e viciados em Tolkien escrevem, com uma forte influência de policial noir, em especial Raymond Chandler. Não tem pé nem cabeça, mas ele está crente que está para revolucionar a história da indústria editorial.
Gordo, branquelo e com a voz pastosa de mocorongo, ele investe horas e sono nisto, crente na força de vontade que vai tirá-lo do cartório de notas e ofícios. Tem sorte de ser grandão e por isso mesmo não é tão zoado. Está demorando demais. O computador trava e é desligado com um chute na torre.
De manhã, levanta uma hora mais cedo do que cotidianamente acorda, reconecta os cabos na torre e liga o computador. O arquivo recuperado não tinha um trechinho fundamental, o último que foi digitado. Foi quando desistiu do livro e sua vida e a dos seus semelhantes melhoraram muito.

Sunday, December 21, 2008

Heroína

Safo. Ele acha que essa palavra se aplica a ele, lhe define bem, pelo o que entendeu da aula de literatura. O dicionário está na estante, à sua frente, mas não o pegou para confirmar o significado; nem sequer teve coragem de abrir as apostilas do cursinho na escrivaninha, ao seu lado. Sentado na cama, sem forças nem vontade para fazer nada além de ouvir Dead Fish e Millencollin, pensa como é sortudo e deita-se de novo, só de cueca e pedalando uma bicicleta imaginária. Agora que se afastou da marijuana tudo o que quer é emagrecer e fazer algo por Maria Joana. A coincidência de nomes desagradável pra caralho joga na cara a sua pusilanimidade durante todo o tempo de vigília e em alguns sonhos, ainda que estes sejam bons. Havia e há pouco que ele pode fazer, mas ele não faz bosta nenhuma. Na verdade, tem feito demais, ele que nunca fez nada na vida lava a louça, varre a casa, limpa os banheiros, passa a roupa, os pais admirados por ele ser tão prestativo em um momento em que eles não podem mais ter uma empregada. No entanto, preocupados por estarem gastando tanto com colégio particular e ele não estar particularmente estudioso. Procrastinação. A única outra coisa que aprendeu este ano foi esta palavra e dessa ele tinha certeza do significado. Era a exata definição do que fazia há algumas semanas, embora jamais a tenha escutado sentia-a pesar sobre a consciência. Quem ainda injetava em 2008? Só ela mesmo. Paralisado pela culpa de não ajudá-la, nem se ajudar, nem ajudar de verdade seus pais, ficou na cama esperando todas as duas discografias em MP3 se esgotarem até as duas da tarde, quando se levantou para ir à cadeia visitar pela primeira vez a menina que o salvou da virgindade e do desejo de morrer.

Sunday, October 26, 2008

Não foi dessa vez

Não consegui processar a informação na hora e ainda não absorvi bem o que aconteceu. Foi mais ou menos assim. Ela fumou um e saiu elétrica. O legal é que ela ficou ligadaça e não largada, naquele esquema de ficar rindo de tudo. Como ela nunca havia fumado antes encanou que a polícia a seguia e que a enquadraria – uma menininha daquele tamanho. Correu então para casa e achou melhor escrever o livro com o qual sempre sonhou antes que ela morresse. Porque ela ficou com a certeza de que morreria na viagem que a mãe a obrigou a fazer. No dia seguinte teria que visitar a avó no Paraná, afinal não aparecia por lá há dois anos. E elas iriam de fusquinha. Então ela escreveu o livro durante toda a noite e varou a madrugada. Eu o recebi por e-mail – ela estava preocupada de ter todo aquele trabalho e nunca ser lida. Infelizmente era uma porcaria e não tive coragem de dizer isso para ela. Quando ela chegou sã e salva – teve que ir dirigindo sem dormir, mas disse que ainda foi dirigindo bem – cheguei junto e mesmo assim, mais uma vez, ouvi um não.

Sunday, October 19, 2008

A nova estrela da MPB

O site não tinha nenhuma menção sequer a ele e dois dias já haviam se passado. Manuel apertava o botão de atualização do navegador insistentemente, sem conseguir estudar, ouvindo o início das músicas do seu próprio CD por alguns segundos enquanto aflitamente comia batatas fritas trazidas por “Nanata, a empregada mulata”. Assim ele a chamava de brincadeira quando ela lhe fazia algum agrado. Correu no banheiro, lavou as mãos, pegou o livro de geografia e tentou decorar como seria o relevo da Ásia, seus desertos, pradarias e as cordilheiras irrompendo à força de movimentos tectônicos ao sul e leste. Dois minutos depois atualizou mais uma vez a página e lá estava a foto na seção de notícias. Seu sobrenome estava errado. Putaço, pediu para o seu pai ligar para o dono do site. Além de corrigir o erro, que também mandasse embora o jornalista responsável, de preferência.
Trilha sonora sugerida para a leitura deste conto: Porque Não, Replicantes.

Sunday, October 12, 2008

Hoje à tarde

Escuto meu nome, como se uma velhinha que estivesse sendo estrangulada gritasse por mim desesperadamente, com o que resta de suas forças. Apesar da chuva e do vento frio que empurra as gotas contra minha cara e meu quarto, abro a janela e me deparo com ela, segurando uma bicicleta na mão e ainda insistindo em tocar o interfone quebrado, ao mesmo tempo em que me chama mais uma vez, sem notar que abri a janela logo à sua frente. Peço que espere, desço as escadas correndo e abro a porta e corro até o portão. A chuva fina incomodava relativamente pouco, mas a ventania gelada lembrou-me do sentimento irracional que nutria por aquela menina, afinal se fosse qualquer outra pessoa teria pegado uma blusa antes. É, normalmente sou egoísta, todos adoram jogar isso na minha cara. Mas ela não sabe disso.

Sunday, October 05, 2008

É...

O monitor engordurado e empoeirado lhe inspirava asco e torpor, o teclado em estado semelhante não o ajudava a se concentrar, tampouco. Foi assim que, dominado pela modorra, Jairo viu-se dispensado em favor de um garoto com menos demandas salariais e trabalhistas.

Sunday, September 28, 2008

Não foi por querer

Era deliberado. Não tinha graça, mas ele ria e tentava contaminar todos com as gargalhadas forçadas, só que ninguém o levava a sério (mesmo que isso pareça paradoxal). Ele achava que o pessoal me protegia, pois eu não participava das brincadeiras do escritório, no entanto acho que era por isso mesmo que me respeitavam: eu não zoava ninguém.
Isso só aumentava o despeito do sujeito. Ninguém tinha que ser intocável, na visão dele. Óbvio que ele estava certo, mas não dou a mínima para isso, principalmente quando eu sou o alvo em potencial. Como ele era o saco de pancadas, era como se o grande trunfo que ele poderia alcançar seria justamente deixar de ser o foco das atenções negativas empurrando-me para o picadeiro corporativo que ele ocupava.
A voz dos “ataques preventivos” era muito engraçada. Ele falava com voz de choro, sempre; um velhinho moribundo gemendo enquanto pedia compaixão. A insegurança era patente. No entanto, em situações em que procurava encaixar alguém em algum estereótipo, sua emissão vocal era forte como a de um barítono. Com o passar do tempo, notaram o que eu havia percebido há meses. Mantive-me quieto este tempo todo, mas quando o fato tornou-se notório, passaram o dia inteiro fingido que estavam zoando um aos outros com aquela voz sem noção – e às vezes até tripudiavam uns aos outros mesmo. Ele, no entanto, foi particularmente detonado. Dizem que pegou o ônibus chorando.

Sunday, September 21, 2008

Quarta-feira, cinco e meia da manhã

- Estanque o sangramento.
- Por que você não a leva ao hospital?
- A culpa é sua. Você é o doutor aqui, e eu não quero mais sujeira para o meu lado. Era só não se meter no nosso lance.
- Mas...
- Faça um curativo nela. Você já pegou nos peitos dela antes, vamos lá. Não ouse me dizer que você não tem nada a ver com isso. Anda logo, porque hoje estou a fim de socar quem me encher o saco.
É o mesmo modo ameaçador de sempre. Desde nossa adolescência é assim. O mesmo tom de voz, a mesma frase, o mesmo fedor de álcool, e ainda mais corpulento. Sua pretensão de me fazer seu eterno serviçal vem sendo minada pela minha dedicação ao muay thai, mas resolvo obedecer. Ela me importa, sempre desejei domar aquela insensatez sexual. Quando deslizo a mão em seu pescoço, pressionando a jugular, a pele macia morna, percebo que minhas chances de ser um homem realizado foram extirpadas.
- Deixe-a como está, ela está morta, pode sangrar à vontade.
É curioso notar, machões não passam de crianças mimadas. Logo se desmancham em choro convulsivo e sussurros negatórios. Não há bom senso que explique por que ela o admirava. Ligo para o 190 e saio para dar comida ao gatinho dela, Laerte, que, espero, me ficará de companhia.

28/04/2005 – 21/05/2005

Sunday, September 14, 2008

Suicídio Passional

Traído pelo inconsciente, fiz com que ela percebesse que ainda estava preso ao passado que renegava. Na noite em que finalmente começou a rolar, após muito insistir até que ela se ligasse em mim, entrei na rua errada. Mania idiota de pegar atalhos. Era a rua da Camila. Ela perguntou por que virei no rumo oposto da rua dela. Disse que me distraí, que a conversa estava tão boa e que estava tão feliz que nem estava prestando atenção no que fazia. Acho que até colou. Meia volta e três quarteirões depois, a força do hábito fode tudo de novo. Entrei na rua da Mariana, que era vizinha na rua de cima. Ela sabia sobre nós com certeza, foi mais recente. Desta vez ela não disse nada a não ser um tchau ao descer. O beijo foi na testa. Não atendeu o celular no dia seguinte. Uma semana depois me tratou com frieza, depois voltou a me tratar bem, o que foi irritante. Nunca mais falamos sobre nós ou sobre isso. Parei de olhar na cara dela e foi o fim daquilo.

Sunday, September 07, 2008

Zine

Há três anos, recebi a última carta de um fanzineiro, pedindo para trocar zines e tal. Escrevi um e-mail, falando para ela (era uma fanzineira, na verdade) mandasse um exemplar do zine dela. Recebi, esqueci onde o coloquei e acabei lendo apenas uma entrevista. Sequer lembro quem era o entrevistado. Não devia ser nada importante. Aquela cara que mandei foi a última pois não mandei um Descanse em Paz – este era o nome do meu zine – para a menina.
Eu me mudei para outra cidade e minha família comprou uma casa, conseguindo enfim zerar o aluguel. Mesmo assim, não consigo entender como essa menina descobriu meu endereço novo. Seu nome é Valéria e só me lembrei dela devido ao zine que ela mandou e que eu desprezei. Achei que ela ia me cobrar exemplares, mas o pior foi o que li depois. Era uma carta de suicídio. Na hora desacreditei. Passaram-se alguns dias e não conseguia mais pensar no trabalho, estava assombrado por aquela folha, preenchida frente e verso com mágoas, decepções e rejeições. Era sobre pessoas que não conhecia, mas não conhecia entender como elas os conhecera, se eram namorados, amigos, irmãos, sei lá. Com aquilo na cabeça, viajei até o endereço constante na carta. Verifiquei nos meus arquivos que ela era de Goiás, mas aquela carta era de Porto Velho. Pedi uma semana de folga que estavam me devendo e fui para lá. Ao chegar, a mãe me disse que ela havia morrido fazia dois anos. Foi suicídio, mas a mãe queimou a carta original. A que eu recebi era psicografada e me foi enviada por Júlia, uma amiga de Valéria, que a enviou em seu nome e com o endereço da sua mãe. Para quê isso eu não sei, mas a viagem foi legal e ao voltar acabei o zine que havia deixado parado e enviei uma cópia para a mãe dela.
06/05/2005

Sunday, August 31, 2008

Estagnação

Emprego novo e colegas das antigas. Não dá para acreditar; é 2008 e mais uma vez retrocedeu nesse esquema arcaico. O escritório é pior do que o outro, fedendo a cigarro. A empresa mudou de nome, mas o modus operandi é o mesmo. Todos são os mesmos. E o ranço é o pior possível. Até os nomes são do tempo do onça: Praxedes, Antenor e Guilhermina. Quem na faixa dos 25 anos se chama assim? Todos trabalhando juntos. Muito bizarro.
É nojento, mas antes fazer isso com alguém do que um escroto aprontar uma dessas com ele, tenta justificar-se sem convicção. Ligam para o caboclo, como eles gostam de dizer ali, e fazem um recrutamento para uma indústria da região. Detalhe: o pessoal tem que pagar adiantado pela entrevista de emprego. Ele e seus colegas ficam uns dois meses por ali e somem. Todos eles são de cidades longínquas.
O engraçado é quem trabalha nisso, com asco de si mesmo, faz de tudo para cair fora. Mas os três viajam pelo Brasil, como empregados do boçal do Antunes (outro nome embolorado) ainda por cima, só fazendo isso. Sem criar raízes. Sem família. A Guilhermina é a pior, ô mulher sem coração. Todos eles tentaram comê-la e não conseguiram, ele não sabia deste detalhe. Eles se odeiam e saem juntos sempre, porque são tão detestáveis que ninguém mais os suporta. Solteiros encaminhando-se para tornarem-se solteirões e solteirona. Talvez ele seja pior dentre todos, não consegue evitar de pensar: foi o único que voltou a se juntar a trupe. E a fila dos otários que entregam seus parcos trocos não pára, não pára.

Sunday, August 24, 2008

Ensaio Utópico

A civilização, tal como a conhecemos, deveria ser extinta. O tráfico – seja de influência, drogas, armas ou imigrantes ilegais – seria extirpado pela raiz. Toda e qualquer autoridade seria ignorada. A propriedade seria abolida e, ato contínuo, os males decorrentes desta instituição cairiam em desuso. Esta idealização da anarquia, no entanto, depende da tomada de consciência de que é necessário que não nos reproduzíssemos. Havendo menos gente, a necessidade de competição cai por terra. Porém, isso não pode ser imposto pela traição da manipulação, ou pelo fio da espada, ou pela rajada da metralhadora. A tomada de consciência deve ser voluntária. A natureza, desgastada pela estupidez humana, não é mais uma cornucópia que nos abastecerá indefinidamente, poupando-nos da labuta, mas sem o estímulo ao consumismo basta reciclar as quinquilharias supérfluas do capitalismo em bens essenciais. Se houver menos gente, elas sobrarão, de qualquer forma. Pena que o trabalho persistirá. Preciso me ocupar com modo de destruí-lo, pois, segundo a máxima do Barão de Itararé, “quem inventou o trabalho não tinha mais o que fazer”.

Outro texto que achei perdido no meio das minhas coisas. Foi feito para uma oficina literária ministrada pela escritora Ana Miranda em maio de 2004. Pelo o que me lembro ela não gostou do texto, pois o devolveu sem fazer nenhum comentário, após elogiar um conto que produzi nesta oficina: Calor Humano, que foi publicado no jornal PapoArte. Tem um link para esse conto neste blog (na verdade o reproduzi em outro blog, o Humano Obsoleto). Já este Ensaio Utópico teve como base a proposta de se produzir um texto tendo como base um ensaio clássico – só que não me lembro qual, pois não estou achando todas as minhas anotações da oficina. Segui o conselho da Ana Miranda e cortei alguns trechos do texto, de qualquer forma. Em parte o texto é nonsense bem-humorado, mas o sentimento pessoal no qual ele é alicerçado é verdadeiro.