Monday, February 27, 2023

Eu estava errado

Lembro quando comecei a achar carnaval algo idiota. A explosão do ônibus espacial Challenger foi em 1986 e no carnaval daquele ano meus pais me levaram em uma matinê no Palace Casino, no centro de Poços, junto com meus irmãos. Pode até ter sido o de 1987, mas como o acidente foi em janeiro provavelmente foi em 1986 mesmo. Lembro-me de andar na praça para chegar ao local, de estar um clima legal, de ver crianças soltando bolhas de sabão. Então entramos no salão: um monte de criancinhas chatas correndo de um lado pro outro, aquelas músicas de sempre (“Maria Sapatão, Sapatão, Sapatão...”). Não entendi por que se pagava para entrar lá. Afinal, na rua também tinha folia. Achei tedioso, mas não estava horrível. Talvez meus irmãos tenham se divertido, não me lembro mais. Não seria nada marcante, a não ser por um detalhe: uma das pinturas na parede retratava a explosão da Challenger. Mesmo aos 11 anos, achei o cúmulo da idiotice; o que tem a ver a morte de sete astronautas com uma festa teoricamente alegre? Eu fiquei muito incomodado, pois adorava ler sobre astronomia e exploração espacial. Comecei a ter antipatia por carnaval naquele instante e também por Poços de Caldas, que passei a ver como uma cidadezinha besta. Ainda não tinha palavras para isso, mas instintivamente notei uma mentalidade provinciana na cidade, que cultuava tudo que era arcaico. “Os tabaréus comemoram mesmo a explosão de qualquer um que possa significar conhecimento para a humanidade”, escrevi posteriormente. Para mim carnaval, na real, era isso: um bando de idiotas se divertindo às custas dos outros. Bem naquele estilo Jorge Perdigoto, a paródia de carnavalescos cafajestes feita pelo grupo humorístico Hermes e Renato. Mas eu era bem pretensioso para alguém tão jovem, hein? No fim da adolescência, capitulei e até enchi a cara em alguns carnavais. Foi bacana, mas, no geral, os que mais me diverti foram os que passei isolado, lendo livros, longe de quem eu considerava imbecil. Pois bem, hoje noto como eu estava errado. Só compreendi isso de vez no carnaval de 2010. Foi quando entendi a função libertadora da festa. Meio por acaso, curei-me de vários males. Eu me diverti à beça, como poucas vezes na vida. Cheguei até ver desfile das escolas de samba no sambódromo do Rio de Janeiro dois anos depois. Qualquer carnaval é bom, claro: seja caindo na folia ou isolado lendo, vendo filmes e ouvindo música; lembro de um ótimo inclusive, creio que em 1999, no qual não fiz muita coisa além de ouvir discos do Kraftwerk e do Wipers. Hoje penso que quem pintou aquele painel da explosão da Challenger no Palace Casino talvez quisesse apenas registrar fatos históricos recentes; salvo engano, puxando do fundo da memória, tinha até uma pintura do Tancredo Neves lá, falecido um ano antes. Isso poderia ser considerado, talvez, de mau gosto também, quem sabe? Ou entendido como simples homenagem. No caso do ônibus espacial, teria sido melhor pintar retratos dos astronautas do que que a explosão. Vai ver isso nem passou pela cabeça do(s) artista(s), pois daria mais trabalho. De qualquer forma, não me senti ofendido pela pintura do recém-falecido Tancredo. Se a Challenger não tivesse explodido, se a professora a bordo tivesse ido ao espaço, talvez a exploração espacial agora estivesse num patamar ainda mais avançado e eu teria aproveitado melhor mais carnavais.

Daniel Souza Luz é revisor, jornalista e escritor

Esta crônica foi publicada na página 9 da edição 7948 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 25 de fevereiro de 2023. Em relação à versão publicada no jornal corrigi apenas um erro de digitação e alterei um pequeno trecho para melhorar o entendimento. 

O ônibus espacial Challenger em 26 de janeiro de 1983, três anos antes do acidente. Foto de domínio público publicada pela NASA. 


Monday, February 20, 2023

Anarquia em qualquer lugar (versão editada)

Este artigo/crônica/memórias foi publicado originalmente no fanzine Discos que F... Muitas Vidas em meados de 2022. Escrevi-o em 2021 a pedido do editor do zine, Renato Lauris Jr. Esta é uma versão resumida daquele artigo (ainda pretendo republicá-lo na íntegra), mas aqui faço uma correção importante: no original atribuí erroneamente o vocal de C´Mon Everybody ao Steve Jones. Editei esta versão para que coubesse na paginação do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG), no qual foi publicada na página 9 da edição 7946 em 18 de fevereiro de 2023.   

Fui criança, pré-adolescente e adolescente na década de 1980. Como todo mundo àquela época, geralmente conhecia uma banda ao ler a respeito e só ouvia depois – eventualmente, décadas depois. Nunca me canso de contar esta história: pouco depois do lançamento de Sid and Nancy, li sobre o filme e fiquei fascinado. O que nunca falei a respeito, no entanto, foi a circunstância engraçada: foi numa revista Veja no consultório do pediatra e eu, num ato de delinquência juvenil, arranquei a página da revista. Tenho guardada até hoje! Sei que Sid Vicious era um junkie violento – na verdade a revista já dizia isso – mas isso não me interessava ou interessa. O que me deixou tão maravilhado foi: o cara não sabia tocar baixo e foi ser baixista do Sex Pistols. Deu errado, mas podia ter dado certo. O que me maravilha foi exatamente o “não sabia que era impossível e fez” – só que fez errado, pois dane-se, inclusive foda-se esse maldito ditado. Um exemplo de vida. E o grupo chamava Pistolas Sexuais, eu estava aprendendo inglês e consegui entender – mas também é fácil de deduzir. Cara, como que podiam existir coisas assim? Acho que por isso eu, que era tão tímido e estudioso, resolvi roubar aquela página. O Sex Pistols já começou comigo do jeito certo: como uma má influência.

Era uma das minhas bandas favoritas. Sempre falava a respeito com alguns amigos. Só que eu nunca tinha ouvido, nem esses amigos. Isso foi nos idos de 1988. Nessa época, conheci através de programas de skate, fitinhas cassetes de amigos e até mesmo rádio os Ramones, Toy Dolls, Replicantes e Garotos Podres (só Papai Noel Velho Batuta no caso desses, que ouvia em rádio FM – incrível, não?). Já estava escolado no punk rock, creio. Formado no jardim da infância e pré-escolar. Mas os Sex Pistols continuaram inacessíveis até que ouvi C’Mon Everybody no Grito da Rua, um extinto programa da TV Gazeta sobre skate. Foi maravilhoso, mas não sabia que era uma cover do Eddie Cochran, pioneiro do rock, e muito menos que era o Sid Vicious que a cantava – curiosamente, me lembrava do nome dele e do guitarrista Steve Jones, mas não me recordava do nome do Johnny Rotten, então foi apropriado para aquele momento. Mas o grande dia chegou: minha avó Arminda me deu dinheiro no meu aniversário de 15 anos para eu fazer o que quisesse. Dava para eu comprar um disco de vinil, o meu primeiro.

Fui numa loja, já extinta, no centro de Poços. Foi em dezembro, um mês depois do meu aniversário, pois meus avôs moravam numa cidade vizinha, Botelhos, e só quando fomos visitá-los que ela me deu o dinheiro em vez de um presente, o que foi uma grande sacada dela e do meu avô Eurico. Na lojinha de discos tinha um cara olhando uns vinis e me chamou a atenção o Paul’s Boutique, do Beastie Boys. Ele tinha uns dreadlocks, mas era branco. Achei que ele manjava de rap e o abordei: “Beastie Boys é bom, né?”. Eu tinha lido sobre eles, mas creio que ainda não os tinha escutado naquela altura da vida. Ele me ignorou, como se eu fosse um fedelho petulante. Fiquei com raiva daquele escroto e fucei mais um pouco. Lá estava: Never Mind The Bollocks, Here’s the Sex Pistols. Perfeito para a ocasião, hein? O título já dizia tudo.

Não tenho muito o que dizer do disco em si. Naquela seção Discoteca Básica, da revista Bizz, tem um texto de um gringo chamado Peter Price, um percussionista que tocou com as Mercenárias e o Arnaldo Antunes, que é primoroso e diz tudo. Pesquisem nos sebos da vida, se pá tem na internet. Mas, em suma, o que ele destaca é o artificialismo do som: são guitarras e guitarras gravadas uma em cima da outra, “puxando o ouvinte pelo pescoço”, nas palavras do Price, que aqui cito de memória, reduzindo tudo a pó. Inclusive o baixo, que só consegui escutar depois de fazer aulas do instrumento. E foi Jones que gravou quase todas as linhas de baixo, Vicious não conseguia. Da minha parte, a produção, inspirada no conceito de wall of sound, do Phil Spector, realmente me impressionou muito, mas não foi só isso: a música era raivosa, parecia me chamar para a briga, não era divertida como os Ramones, os Toy Dolls, os Replicantes, o Papai Noel do Garotos e os próprios Pistols com Vicious no vocal. E o que puxava isso era o vocal de Johnny Rotten, que eu não conhecia e que me deixou de queixo caído. Exalava ódio. Era algo inaudito para mim.

Foi a abertura da porta para o hardcore, o thrash metal, o grindcore e outras formas de música mais extremas para mim. Claro que os Pistols soam inofensivos perto de sons assim. Hoje John Lydon não passa de um conservador patético que nada lembra o jovem Johnny Rotten ou ele mesmo, com seu nome verdadeiro, no começo do PIL – que me fascinou tanto quanto os Sex Pistols, até porque dava para escutar o baixo. Eu já estava preparado para o pós punk também. Só que isso é outra história.

Daniel Souza Luz é revisor, jornalista, escritor e professor.


A icônica capa de James Reid consertada à mão. A foto é de Tony McNeill, reproduzo aqui via licença Creative Commons e recomendo que se clique no link para se ler a fascinante história do vinil, o conflito familiar do qual ele foi centro e o conserto à canetinha pelo qual a capa passou. 


Monday, February 13, 2023

Entropia

Bilhões de mortes depois de você

Todo o Mistério d’antanho

Mergulhou no olvido

O pranto ignora o vácuo

Podia ser ouvido a 10 parsecs

Afastei-me ainda mais

Orbito o buraco negro massivo de Andrômeda

No horizonte de eventos encaro

O último titã no firmamento

Horrorizado por ter uma testemunha

Do sofrimento indizível

Pelo qual se penitenciava

Sem a almejada paz

Do instante final

Antes de ser despedaçado

O nirvana é que é ilusório

 

Daniel Souza Luz é revisor, escritor, professor e jornalista 

Este poema foi publicado na página 9 da edição 7941 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 11 de fevereiro de 2023. Originalmente chamava-se Experiência 6 e publiquei apenas no stories do Instagram para meus melhores amigos em 7 de agosto de 2020. Era, de fato, um experimento, portanto o reescrevi para publicá-lo no jornal. 

Galáxia de Andrômeda (M-31). Foto tirada em 18/09/2010 por Adam Evans e compartilhada aqui via licença Creative Commons. 


Monday, February 06, 2023

O grande poeta e sua gloríola

Esta crônica foi publicada na página 8 da edição 7936 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 04/02/2023. Eu mesmo revisei o texto.   

Ontem vi o livro de um poeta ser vendido num sebo. Fiquei surpreso: quem será que o comprou? Alguém que o conheceu? Um pesquisador? Mais provavelmente trata-se do segundo caso. Se é alguém que o conheceu, foi quando ele já estava em idade provecta. Foi o meu caso: sim, eu conheci o elogiado poeta. Só que não foi a literatura que nos pôs em contato.

Declino de revelar a identidade do grande poeta. O leitor há de entender. Conheci-o quando eu tinha uns 17 anos, ele já era idoso. Parecia mais ser o avô do filho, que era (é) um pouco mais velho do que eu. O filho era muito inteligente, mas gostava de bancar o bully. Tenho a impressão de que fingia ser estúpido para não ser zoado pelos amigos idiotas dele. Ele gostava de humilhar um amigo meu que estudava em outra sala. Felizmente nunca presenciei esses episódios cruéis, mas contavam-me a respeito. Ensino médio era um inferno e eu procurava ficar esperto. Certa feita, deixei as chaves de casa debaixo da minha carteira. Um colega do filho do poeta, que ainda viria a ser meu amigo, pegou-as e escondeu-as na hora do intervalo. Vieram me sacanear, dizendo que eu dormiria fora de casa. Eu disse que não, pois chamaria a polícia e não apenas o diretor. No fim da aula, o fulano deu a volta na minha carteira, rindo, e pôs as chaves, separadas, sem o chaveiro, em cima do meu caderno. Ele deve ter considerado uma grande tirada com a minha cara, mas eu também considerei uma vitória sobre ele. E ficou por isso mesmo.

Voltando ao tema, mas tudo está relacionado: o filho do poeta também era babaca, mas um pouco diferente da sua turminha. Viu, por acaso, que desenhei o logo do PIL (Public Image Ltd) no meu caderno. Resolveu puxar papo e nos tornamos amigos. Isso deve ter me poupado de muitos aborrecimentos. Ele odiava grunge, então em ascensão, e ficava inconformado de eu gostar de Soundgarden, Nirvana, Hole. Só que ele decidiu ser gente boa comigo, acho que era porque eu era alguém com quem ele podia conversar sobre as bandas pós punk de que gostava. Também já éramos leitores do Orwell, outra afinidade. Graças a isso pude escutar álbuns do The Cure, Joy Division e New Order que eu ainda não conhecia. Já gostava das bandas, mas ainda não conhecia todos os discos; afinal, naqueles tempos era difícil ter acesso a tudo. Ele gravava fitinhas para mim desses vinis e um dia, enquanto as gravava, me convidou para ir a sua casa.

Foi quando conheci o grande poeta. Nem sabia que ele era escritor. Foi cortês comigo. Quando o filho terminou de gravar as fitinhas, enquanto batíamos papo e ouvíamos os discos, ele me ofereceu carona até ao centro. Naquele horário o pai costumava ir numa padaria. Aceitei e, no caminho, o grande poeta fez alguns comentários sobre as moças que passavam na rua. Basicamente, ninfetas um pouco mais velhas do que eu e o filho dele – se muito. “Olha só que gostosa, ó só essa bundinha”. E ria, ria a valer.

Muito depois que ele morreu descobri que o velho tarado era poeta. Quando saiu um livro póstumo reconheci o nome do filho – de quem já não era mais próximo. Não reconheci o do poeta em si; não sabia o nome dele até então, aliás. Comentei com meu vizinho, que havia sido vizinho deles do outro lado da cidade. O livro estava sendo muito elogiado, o velho poeta era tido como um grande erudito. Meu vizinho, um velho amigo, retorquiu – lembro bem da conversa:

- É que você não o conheceu de verdade. Que homem mais estúpido! Ele era fazendeiro, tinha jeito de coronel. Ele tratava muito mal os empregados, você precisava ver. Vivia gritando.

Aí me lembrei do episódio da carona e que meu grande amigo do passado, na verdade, era um bully. Ele, com certeza, nunca me sacaneou porque ele se identificou com (parte) do meu gosto musical e, consequentemente, comigo. Hoje percebo que herdou a arrogância paterna.

Decidi nunca ler o grande poeta. Isso já tem mais de vinte anos, não existia ainda o termo cancelamento. Acho que não estou perdendo grande coisa. Se estiver, foda-se. É por essas e outras que gosto do Bukowski. Pelo menos ele deixou claro para seus leitores quem ele realmente era.

Daniel Souza Luz é escritor, jornalista, professor e revisor

Foto de Bob que reproduzo aqui via licença Creative Commons.


Monday, January 30, 2023

Os anos grunge

Numa ocupação de secundaristas em 2016, na Escola Estadual David Campista, um moleque que gostava de tocar violão estava ensinando os acordes de Come As You Are para um colega dele. Mostrei Eighties, do Killing Joke, no celular. Ele ficou impressionado com a semelhança e lhe expliquei que era uma referência explícita mesmo que o Nirvana havia feito, pois Come As You Are é de 1991 e Eighties, bem, está no nome, é dos anos 1980. Não me lembro mais o nome dele, nunca mais tive contato e se o encontrar hoje talvez sequer o reconheça, mas após me perguntar um pouco sobre músicas dos anos 1980 e 1990, ele me disse algo importante, para o qual dou mais ouvidos agora, depois de questionar minha idade: “Então você foi adolescente mesmo nos anos noventa. Devia dar mais valor àquela época”. Ele está certíssimo, embora eu seja mais apegado às memórias de quando tinha de 13 a 15 anos, de 1987 a 1989, na pré-adolescência. Era sobre isso que estava falando antes dele me interromper e soltar essa verdade na minha fuça. Lembro com muito carinho da turma de amigos daquela época, do New Order, da descoberta do punk rock, skate, das revistas MAD e Chiclete com Banana, que foi minha introdução à HQ underground e o que há de mais interessante na literatura. Esqueço que a época do grunge também foi boa, mas com mais percalços. Minha adolescência ter sido confusa é bem o reflexo do zeitgeist daquele começo de década, que parecia saudável e não foi. Uma das melhores tiradas sobre aqueles tempos é uma entrevista de Buzz Osbourne, do Melvins, pioneiros das bandas de Seattle: um repórter da revista de skate Thrasher perguntou para ele no final daquela década quem era o maior fã do Melvins e ele respondeu: “Kurt Cobain. E veja só como ele terminou. Morto”. Recordo-me também com exatidão de um texto da jornalista Gabriela Dias no excelente fanzine Panacea, que virou uma revista que se destacava em meio às publicações sobre cultura alternativa que pipocaram à época, pois eles faziam uma cobertura mais aprofundada. Ela afirmava no texto que a ascensão do grunge era o início de uma era mais inteligente no rock, sem sexismo e racismo. Foi ingenuidade, é só ver o burríssimo e reacionário público do rock mais estereotipado de hoje, mas era o que aqueles tempos pareciam inspirar. No plano pessoal, nem falo nada da maioria das amizades daquela época – “nem falo nada” é força de expressão. Quase todos hoje são rematados fascistas. É impressionante como não liam os encartes, não viam a imagem da sede do Partido Republicano queimada no In Utero do Nirvana (aquela foto não estava lá por acaso), não se atentavam às letras, mesmo os que sabiam algo de inglês. Tudo bem, quase todas eram crípticas, mas custava ler as entrevistas e tentar entender sobre o que falavam? Só depois que mudei de Poços de Caldas me livrei do que hoje percebo que era um ambiente improfícuo e ignaro, ainda pior do que o da escola no ensino médio – felizmente, não demorou tanto para me afastar. Só fui sentir uma lufada de ar fresco, de cotidianamente descobrir boas músicas, ver bons shows e participar de discussões inteligentes, quando fui cursar a universidade de Jornalismo em Bauru. Serve The Servents dá a letra: “a angústia adolescente valeu a pena”. O instinto estava correto: idiotas devem ser escrupulosamente evitados, sempre, em qualquer época, em qualquer lugar.

Daniel Souza Luz é revisor, jornalista, escritor e professor 

Esta crônica foi publicada na página 8 da edição 7931 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG). Eu mesmo revisei o texto.

Capa do CD The Grunge Years, lançado em 1991 pela Sub Pop, que à época era uma gravadora independente. É uma imagem que ironizava o interesse de gravadoras multinacionais pelo grunge, que estava se tornando popular. Acabou sendo uma imagem profética. Reproduzo aqui na base do uso justo, sem intenção comercial e sem intenção de ferir copyrights.  



Monday, January 23, 2023

100 crônicas de Mario Prata (resenha)

Este texto, misto de crônica e resenha, foi publicado na página 8 da edição 7926 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 21/01/2023. Eu mesmo revisei o texto, o que significa que a detecção de erros é dificultada.  

Na semana passada escrevi sobre um sonho que me instigou a achar um livro do Mario Prata no meio da bagunça do meu quarto. Isso foi em 2018 e a obra me deixou dividido. A coletânea, chamada 100 Crônicas, foi lançada em 1997 e compila os textos que ele escreveu para o Estadão entre 1992 e aquele ano. Há uma versão atualizada, com a adição de mais de vinte novos artigos, mas essa nunca vi por aí. Inicialmente fiquei meio com o pé atrás, pois li algumas crônicas dele justamente n’O Estado de S. Paulo, na década de 1990, e as achei horríveis. A percepção que tinha é que ele era um engraçadinho sem graça e metido a sabichão. Deixei o ranço de lado e li uma crônica por dia dessa compilação. A maioria é boa, algumas são ótimas. Deliciei-me com a leitura de várias. No entanto, eu não estava de todo errado: algumas são horrorosas mesmo, estava certo à época também. É um cronista irregular e calhou de só ler a pior produção dele no jornal. Além das características que já tinha notado, o cabotinismo dele em contar proezas sexuais num tom debochado, e, pior ainda, numa crônica em particular, “Você Já Assediou Alguém Hoje?”, é de um machismo nauseabundo. Não é questão de se falar em bobagens como politicamente correto ou politicamente incorreto, sexismo já era escroto à época, era antes, continua a ser, sempre será. No entanto, não deixa de ser curioso que esta idiotice de bradar ser politicamente incorreto seja hoje um ativo da direita: Prata, apesar de uma crônica muito dúbia sobre ideologia neste volume, é (ou era) nitidamente de esquerda. Fica horrorizado com a aproximação entre FHC e Maluf e conta uma boa história sobre Antônio Benetazzo, um dos 434 mortos e desaparecidos, reconhecidos oficialmente, vitimados pela repressão iniciada no golpe de 1964, além de relatar seu próprio envolvimento no combate à ditadura empresarial-militar. Outro fascínio que suas crônicas traz são as memórias de escritores já falecidos, como Caio Fernando Abreu e Ana Cristina César. Além disso, ele incentiva seus leitores a conhecer outros autores, como o cabo-verdiano (do país africano, não da vizinha cidade de Cabo Verde) Germano Almeida e o surrealista brasileiro Campos de Carvalho, ainda vivo naquela década e idoso. Deste último, ele conseguiu numa visita um pequeno conto inédito, o primeiro texto dele em mais de duas décadas, e o publicou. Proporcionou-me uma pontinha de orgulho notar certa semelhança com minhas crônicas oníricas. Mario Prata é um bom escritor, mas um textinho do Campos de Carvalho que ele inseriu numa crônica é melhor do que todo o livro. Fica meu agradecimento eterno ao Prata por ter me apresentado a um escritor tão magnífico.

Daniel Souza Luz é revisor, jornalista, escritor e professor







Monday, January 16, 2023

Dica errada, mas funcionou

Esta crônica foi publicada na página 9 da edição 7921 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 14/01/2023. O texto não passou por revisão e foi baseada na minha Micrônica 2328, publicada originalmente em 22/09/2018.    

Em 2018 resolvi ler um livro de crônicas do Mario Prata, uma por dia, mas o perdi em meio à bagunça do meu quarto e temi perder o pique, até porque não sou o maior fã do mundo do cara. Porém, valeu a pena dar uma chance e descobri qualidades insuspeitas. Na noite em que não o encontrei, ao adormecer, sonhei que estava no apartamento onde morei durante a infância. Eu comia bolachas cream cracker e uma delas caiu no chão. Como estava comendo enquanto andava pelos corredores sem querer a chutei para o quarto do fundo. Fui pegá-la debaixo da cama e acabei encontrando o livro. Peguei-o e vi no meu celular, por coincidência, uma mensagem inbox do Mario Prata perguntando como eu estava. Respondi que estava bem e que havia lido um livro do James Lins. Ele, o Prata, havia se mudado para Florianópolis e perguntei como estavam as coisas na cidade. O detalhe é que realmente li isso (que ele havia se mudado para Florianópolis) na orelha de um livro que compila as histórias do pseudônimo James Lins, semanas antes desse diálogo onírico. Ao acordar, imediatamente procurei o livro de crônicas no meu quarto. Encontrei-o, mas não estava embaixo da cama, o primeiro lugar que vasculhei, mas sim numa pilha de impressos, uma bagunça de jornais velhos, revistas novas e livros.

Daniel Souza Luz é revisor, jornalista, escritor e professor


Mario Prata numa roda de conversa em Votuporanga/SP, 02/05/2012. Foto tirada por André Luiz D. Takahashi e reproduzida via licença Creative Commons. 


Monday, January 09, 2023

O 180

Este miniconto foi publicado na página 9 da edição 7916 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG). 

- Sabe o filho do Jader?

- Sei... aquele filho dele que tem uma lojinha no centro?

- Ele mesmo.

- Sei sim.

- Foi preso.

- Mas por quê?

- Estava filmando um cadáver pro canal dele de true crime e a PM o prendeu.

- Mas como assim?

- Ele descobriu o corpo, tinha um saco em cima, e descaracterizou a cena do crime.

- Uai, mas como assim?

- Pois é.

- Mas não é ele que é puxa-saco da polícia?

- Pois é, pois é.

- E agora? O Jader foi lá na delegacia para soltar ele?

-  Ah, já soltaram.

- Já?

- Já, acho que pagou fiança, sei lá.

- Entendi. Achei que a PM gostava dele.

- Cê acha? De jeito nenhum. Vive dando problema. E ainda é lambe-botas.

- É... Esse povo não tem jeito. Mas não gostam dele por quê? O que ele fez exatamente?

- Ah, receptação.

- Jura?

- Juro.

- Rapaz...

- Pois é.

- Isso não sai no canal dele. Não é um crime tão true assim. Depois fala da Globo. 

Daniel Souza Luz é escritor, jornalista, professor e revisor


Foto de Mike (https://www.flickr.com/photos/txspiked/) reproduzida aqui via licença Creative Commons. 


Monday, January 02, 2023

Lellis, buldogue de rua

Esta crônica foi publicada na página 7 da edição 7911 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 31/12/2022. Depois da publicação no jornal o texto foi revisado pela Juliana Gandra e aqui está publicado com pequenas correções. O artigo foi baseado na minha Micrônica 2381, escrita em 14/11/2018.    

Quando morrer a última pessoa que nos conheceu pessoalmente e tinha saudade de nós, o que fica além das fotos? Ainda mais se alguém não teve uma prole, não escreveu um livro, não plantou uma árvore e não se pode dizer que deixou, portanto, um legado. Lembro-me bem de um ouvinte do programa de rádio, o Programa Pirata, que fazia na rádio universitária, a Unesp FM, nos anos 1990. Ele se chamava Fernando Lellis e mandava cartas para o programa. Eram pedidos muito bacanas de ótimas músicas. Depois ele veio conversar comigo num show, reconheceu-me pela voz. Muito gente boa, ele se parecia com o Thom Yorke e dançava como o Ian Curtis. Era uma figura única, apesar dessas referências. Não o vi neste século, mas li alguns dos fanzines virtuais dele e as colunas que escrevia para o site do Street Bulldogs, uma banda de hardcore da qual eu também gostava; aliás, fomos num show deles em 1999. Muitos anos depois descobri, chocado, que Lellis morreu jovem, de uma doença tropical. Leishmaniose, a úlcera de Bauru, a cidade na qual morávamos. Até hoje lembro-me da carta em que ele pedia para levarmos bandas ao vivo para os estúdios da Rádio Unesp. Achei impraticável; uma amiga que fazia o programa comigo, a Débora Souza, aluna de Rádio e TV, queria levar esse projeto em frente, não me recordo se estimulada ou não pela carta dele. Hoje penso que ele estava certo, devia ter colaborado neste esforço. Será que guardei as cartas? Parece que lembro que sim, mas não tenho certeza. Talvez tenham ficado no arquivo da rádio. Guardei na memória e, de certa forma, aqui neste texto. Ao menos isso. E sabem o que é triste demais no caso do Lellis? A trajetória interrompida precocemente poderia ter gerado bons livros. No e-zine dele, o Jornal Bacanal, que era enviado por e-mail, há textos fascinantes. Quando perguntei sobre o Lellis para amigos em comum e recebi a notícia desestabilizadora de que ele havia falecido há muitos anos, fucei esses e-mails e recuperei um miniconto dele. É um texto enfurecido, adolescente, chamado Baco Doesn’t Rule Anymore (heresia contra Baco). Copidesquei, precisava de revisão. Lellis era muito jovem, havia muitos erros – não muito diferentes dos que eu cometia, que fique claro. Aí o publiquei no meu blog e procurei divulgar onde poderia gerar interesse. E foi só isso, mal repercutiu, mesmo no mundinho underground que frequentávamos. Até onde sei, é o único traço que ainda existe do Lellis no mundo digital. O site do Street Bulldogs com os textos dele está fora do ar há uns quinze anos. Numa busca na web, achei uma carta da mãe dele no Jornal da Cidade (o de Bauru, não este em que escrevo) desabafando, indignada, que ele não teve o tratamento de saúde que merecia, acusando a prefeitura bauruense de omissão. Este texto também já não está mais no ar. Consternada, ela lembrava que ele era um menino sensível e talentoso. Era mesmo. Queria demais editar um livro com os textos dele, quem sabe contatá-la, mas a verdade é que sequer me recordo do nome dela e mal consigo editar meus livros. Se ganhasse na Mega-Sena – e eu mereço, tem muito babaca por aí com dinheiro cujo único objetivo na vida é explorar os outros e perpetuar essa exploração – batizaria o livro com o título dessa crônica.

Daniel Souza Luz é revisor, escritor, professor e jornalista

Fernando Lellis no detalhe de uma foto que registra uma roda de pogo durante show do Autoboneco/Bonequinho no festival Octoberfezes, em Bauru/SP, em 2001. A foto foi tirada por Nô Benini e gentilmente cedida por Ana Paula Benini. 




Monday, December 26, 2022

O caso das bicicletas

Esta crônica foi publicada na página 7 da edição 7906 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 24 de dezembro de 2022. Eu mesmo revisei o texto, portanto alguns errinhos podem ter passado. Em relação à versão publicada ao jornal, corrigi uma palavra que digitei de forma errada (correligionário, que lá saiu como "correlegioniários"). 

No início dos anos 1980 meu pai costumava levar a mim e meus irmãos para andarmos de bicicleta no aeroporto de Poços. No calçamento de pedras entre os jardins era tolerado que nós andássemos nas nossas bicicletinhas com rodinhas. Meu irmão aprendeu a andar sem o apoio das rodas laterais antes de mim; eu aprendi semanas depois, irritado com as provocações dos adultos sem noção que também iam passear por ali. Essas bicicletinhas ficaram pequenas demais para nós uns anos depois. O BMX já era um esporte mais popular, víamos em filmes como ET: O Extraterrestre, pegávamos emprestadas as Caloi Light de alguns amigos para darmos umas voltinhas e queríamos nossas bikes no mesmo estilo para darmos nossos pulos por aí também. Ah, antes que me esqueça: naquelas idas ao aeroporto uma vez meu pai deu carona a um velhinho que desembarcou lá. Eu lembro que ele era simpático e careca. Anos depois meu pai disse que era o Tancredo Neves e que ele ficou com pena do Tancredo chegar lá e não haver nenhum correligionário para recebê-lo. Minha mãe não se lembra disso, nunca conversei a respeito com meu irmão, acho que minha irmã não era nascida e eu era criancinha demais para saber quem ele era ou guardar a fisionomia. Isso deve ter sido em 1980 ou 1981. Depois dessa breve digressão, vamos ao que interessa: pedimos nossas bicicletas de BMX para o Papai Noel. Há fotos de nós andando nessas bikes, Monarks de pneus amarelos, aliás muito pesadas quando comparadas com às Caloi Light, em 1985. Isso significa que foram presenteadas no Natal de 1984. Eu e meu irmão estávamos muito ansiosos para ganhá-las. Não queríamos dormir no horário que minha mãe e meu pai estipularam. Meu pai tentou nos despistar. Imagino que as bicicletas estivessem no quintal do predinho onde morávamos ou algo assim. Ou seja, havia o risco de serem furtadas, provavelmente por isso ele se apressou. Não vimos ele entrando com as bicicletas, mas ouvimos o barulho da porta e de movimentação da sala. Não bastasse isso, o vimos vindo pelo corredor. Foi aí que percebemos, eu e meu irmão, que Papai Noel não existia. Comentamos sobre isso na manhã seguinte. Fiquei me achando muito adulto. Tinha 10 anos. As crianças de hoje não devem ser tão ingênuas.

Daniel Souza Luz é jornalista, professor, escritor e revisor

Esta é a minha bicicleta atual. Tenho há uns quinze anos e não pedalo nela há muito tempo. 


Monday, December 19, 2022

Um mineiro em Copacabana

Este artigo, um híbrido de crônica e resenha, foi publicado na página 7 da edição 7901 do Jornal da Cidade (de Minas Gerais/MG) em 17 de dezembro de 2022. Trata-se de mais uma tentativa de recuperar a memória da obra de Mattioli, para que não caia num limbo. Eu mesmo revisei o texto, ou seja, o olhar já cansado pode ter deixado passar uns errinhos. 

Nestas semanas tenho escrito sobre a obra do advogado Marcos Mattioli e sua turma, pois completaram-se dois anos de seu falecimento no fim de novembro. O que me assombra é que muita gente aqui lança livros, a imprensa divulga os lançamentos, mas quem os lê depois? Mais do que isso: quem reflete sobre o que leu e registra isso? Poucos traços da existência dos autores permanecem acessíveis. Em uma busca detalhada na internet não encontrei nenhuma referência ao livro Um Mineiro em Copacabana, do Mattioli. Meu pai tinha um exemplar deste livro, com uma dedicatória datada de 29 de maio de 2016. Seria a provável data de lançamento? O prefácio, da lavra de Antônio Luiz Fontela, é de dois de julho de 2002. Depois pergunto para Fontela se o lançamento do livro demorou mais de uma década, se é uma reedição ou se Mattioli presentou meu pai com o livro muitos anos depois. Devia ter começado por esse, teria uma melhor impressão de Mattioli como escritor – embora ele dissesse que não o era. Talvez tenha sido uma defesa, consciente, para a escrita desleixada, apressada (há uma profusão de conectivos, sem pontuação) e desorganizada. Não é por isso que ele deixava de ser escritor. Já salta aos olhos a capa, belamente ilustrada por Cida Costa Laier, também já falecida. É um prenúncio de um opúsculo, como bem define Fontela, mais refinado. Este livro não é tão problemático quanto Causos e Contos, não há tantos erros de português/digitação, mas também, como sempre, falta revisão e sobra incorreção política. A narrativa é mais caprichada, portanto é uma leitura mais prazerosa. Fui injusto ao dizer que Mattioli não era um narrador habilidoso ao comentar o livro anterior. Aqui ele narra suas memórias com muito mais eficácia, até porque não divide as histórias em vários pedacinhos. Não é um primor, pois os tempos verbais causam confusão ao misturar presente e passado. De qualquer forma, é possível entender perfeitamente seu começo de vida profissional e amorosa em Poços, sua ida para o Rio de Janeiro, as aventuras na capital carioca e arredores, suas motivações e seu retorno. Especialmente pungente é o relato do falecimento de sua mãe, Ophélia, em 2001. E há muitas outras passagens nas quais ele soube contar uma boa história, como a saborosa desventura da Kombi quebrada e dos caroneiros. Em contrapartida, há também um mal que acomete muitas obras de escritores poços-caldenses: a mania de fazer listas. Não se desenvolve a história dessas pessoas, não sabemos como elas foram em carne e osso. É um mero registro histórico que se caracteriza pela incompletude, ao qual é preciso recorrer à memória alheia de quem ainda está vivo ou fazer inferências. Por exemplo, meu pai é citado numa dessas listas de nomes, então agora sei que a casa na qual se reunia a “turma do Bortolan” da qual ele fazia parte chama-se ou chamava-se Recanto das Jaboticabeiras. Como muitas obras de autores interioranos lançadas apenas localmente, há logos de patrocinadores ao fim e informações dispensáveis que parecem tiradas de guias turísticos. O diferencial é que o final conta com uma espécie de coda na qual letras de músicas puxam lembranças de encontros com amigos ou o testemunho apresentações ao vivo de músicos do quilate de Tom Jobim. E que pena que o livro que Mattioli ganhou de JK, com um autógrafo, tenha sido surrupiado.

Daniel Souza Luz é jornalista, professor, escritor e revisor








Monday, December 12, 2022

A turma do Bortolan na Cascatinha

Esta crônica foi publicada na página 7 da edição 7896 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 10 de dezembro de 2022. O texto não passou por revisão, portanto, pode ter alguns erros. 

Na semana passada escrevi sobre um dos livros do advogado Marcos Mattioli. Chamado Causos e Contos, nele descobri que meu pai fazia parte da “turma do Bortolan”, assim denominada porque os amigos de Mattioli costumavam reunir-se para churrascos numa casa dele naquele bairro. Nunca soube disso, deve ter sido quando meu pai tinha boa saúde e ele mesmo ia nessas festas. Depois que ele adoeceu no final de 2009 era eu quem o levava e geralmente buscava, mas todas as vezes na casa do Mattioli na rua Corrêa Netto. Como expliquei na crônica anterior, sempre me recusei a participar dessas festas quando fui convidado. Não sou chegado em bebedeiras. Um dia, no entanto, fui parar em uma reunião da turma, bem mais velha do que eu. Meu pai estava ficando turrão e teimava em beber. Teve dois AVCs; o primeiro sem sequelas, o segundo prejudicando consideravelmente sua visão. Ele não podia com álcool, os médicos avisavam constantemente. Mas tudo bem, estou ficando velho e provavelmente teimoso também. Nem devo perceber. Enfim, no finzinho de setembro de 2013, num sábado à tarde, meu pai iria numa das festinhas da turma, mas na Cascatinha. Minha mãe, preocupada, pediu que o acompanhasse, para que ficasse de olho nele para que não bebesse. Eu planejava ficar em casa, tranquilo, naquele dia, lendo um romance – salvo engano, da Anaïs Nin. Fui, mas fui contrariado. Chegando lá, numa residência com uma escadaria considerável, próxima ao bairro Santa Rita, não me recordo mais de quem, fui apresentado ao pessoal. Lendo o livro de Mattioli, recordo-me de alguns nomes: Colobardini (um ex-promotor público, conhecido como Colô), o dentista Norberto Danza, o ex-prefeito Sebastião Pinheiro Chagas, Bob e Rebite. Havia muitos outros presentes, cujos nomes não guardei. Procuraram me deixar à vontade, mas eu estava preocupado. Não conseguia relaxar: não podia dar bobeira, pois meu pai daria alguma desculpa para beber. Pinheiro Chagas veio conversar comigo; disse que eu era muito sério e que eu lembrava muito o Carlos Drummond de Andrade, que ele conheceu pessoalmente. Não fisicamente, mas no jeito de ser. Achei que era elogio, tomo até hoje como se fosse, mas não era: ele me disse que eu era sério demais, como Drummond era, mas que isso não vale a pena. “O que realmente importa na vida é rir”, asseverou, sério. Perguntou se eu gostava de literatura, pois falei um pouco sobre o Drummond quando ele tocou no seu nome, e recitou para mim um de seus sonetos quando confirmei. Voltou a insistir para que eu risse da vida e foi sentar-se à mesa para falar bobagem e dar risadas. Até parece que eu ficaria de bom humor: no livro de Mattioli, Pinheiro Chagas escreveu que gostava de pagar cerveja para várias pessoas, uma delas meu pai. Eu não sabia disso, mas dava para intuir e mantive a vigília. Creio que notaram minha encanação e um dos amigos do meu pai, de quem me lembro bem, mas de cujo nome não me recordo, assegurou que não deixariam que ele bebesse. Fui chamado à cozinha para pegar um pouco de arroz, vinagrete e pão para comer a carne que estava ficando pronta. Lá conversei por alguns minutos com uma moça, creio que a anfitriã. Também não me lembro mais do nome dela, peço perdão. Ela me perguntou se eu conheci o “gordinho da Cibel”, o que sempre andava de moto. Sim, o conheci. E, também, esqueci-me do nome. Ela me contou que era a mãe dele. Ele morreu num acidente. Eu tinha medo dele na escola, parecia ser um bully. Nunca me fez nada, no entanto, e, curiosamente, conversei brevemente e amigavelmente com ele num churrasco poucos meses antes do acidente. Acho que disse isso para ela. É curioso como inimigos imaginários da infância vão deixando de sê-lo. De volta à mesa, flagrei uma cena curiosa: Norberto Danza estava dormindo sentado. Contaram uma piada ou causo que fez os presentes darem gargalhadas. Ele acordou com a risadaria e caiu na risada também, sem fazer ideia do que foi dito. De pronto, pediram pra ele fazer um truque – ele também era mágico, além de escritor. Inadvertidamente, já senil, atrapalhou-se e revelou como era feita a mágica. Foi aplaudido, riu mais ainda. Então relaxei e aproveitei a festa. Quanto ao livro da Anaïs Nin, comecei a lê-lo de novo anos depois e até hoje não o concluí. Não era pra ser.

Daniel Souza Luz é jornalista, professor, escritor e revisor


Tirei esta foto em 20/05/2017, no aniversário do dentista Norberto Danza. Portanto, não foi bem um encontro da turma do Bortolan, mas sim um evento mais família. Não foi na Cascatinha e nem no Bortolan, mas sim na Fungotac, no centro de Poços de Caldas. Esta foto estava inédita até ser publicada junto com esta crônica no Jornal da Cidade. Da esquerda para direita: Daniel da Luz (meu pai), Maria José (enfermeira e cuidadora do ex-prefeito Pinheiro Chagas), Sebastião Pinheiro Chagas e, ao fundo, de vermelho, Marcos Mattioli. Não sei quem são as duas moças conversando ao fundo. 


Monday, December 05, 2022

Um causo sobre um livro de causos

Este artigo (uma mistura de resenha, memórias, crônica e causo) foi publicado na página 11 da edição 7891 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG). Depois da publicação soube, por intermédio de Luiz Carmo, que Armando Mattioli, irmão de Marcos Mattioli, faleceu no dia primeiro de dezembro de 2022. Foi justo quando li Causos e Contos, pois fazia exatamente três anos que meu pai havia falecido. Luiz é primo dos Mattiolis, meus sentimentos à família. Em relação ao texto publicado no jornal, fiz quatro pequenas correções aqui para eliminar repetição de palavras. 

Nesta semana, no dia 28 de novembro, fez dois anos do falecimento do advogado Marcos Mattioli. Ele era muito amigo do meu pai, falecido pouco menos de um ano antes, em dezembro de 2019. Lembro-me de Mattioli no velório dele, bastante compungido. Meu pai tinha a liberdade de imitar o jeito peculiar como Mattioli falava na cara dele, sem constrangimentos, às risadas; eram grandes camaradas mesmo. 

Da minha parte, achava curioso ele ser chamado pelo sobrenome, o mesmo pelo qual é conhecido um de meus quadrinistas favoritos, o italiano Massimo Mattioli, autor de provocativas HQs gore que, paradoxalmente, são hilárias. O Mattioli poços-caldense também era escritor, mas as semelhanças param por aí. Meu pai me contou que o homônimo local de um dos meus heróis da adolescência era reacionário. Também era notório que o Mattioli era um boêmio, portanto dado a bebedeiras. Ou seja, alguém com quem eu não tinha absolutamente nenhuma identificação. Meu pai e o próprio Mattioli me convidaram em algumas ocasiões para ir à casa dele em reuniões de amigos, mas me recusei todas as vezes. O anfitrião era muito urbano comigo, para usar um termo caro aos meios jurídicos, então evitava conversar com ele, pois não queria entrar em conflito, algo inevitável, com um amigo de meu pai que sempre procurou ser gentil. 

Neste primeiro de dezembro, quando que se completou três anos que meu pai se foi, em homenagem a ambos, peguei para ler um livro do Mattioli chamado Causos e Contos. É encadernado como uma apostila, nitidamente feito em impressora comum de computador, com os versos das páginas em branco. O conteúdo, é preciso dizer, é tão tosco quanto a apresentação. Nunca havia lido porque havia julgado pela capa, e, bem, eu estava até que certo. 

Não há nenhum conto, na verdade. Não é uma obra com valor literário; inclusive não houve revisão e, consequentemente, há uma profusão de erros crassos. São muitos causos, mas Mattioli não era um narrador habilidoso e o conteúdo é anedótico. Aliás, há literalmente anedotas copiadas de internet, texto antipetista de corrente de e-mail, supostamente do jurista Saulo Ramos, e além do prefácio, surgem sem aviso, no meio dos textos do autor, poesias e discursos do ex-prefeito Sebastião Pinheiro Chagas. É uma bagunça tão absurda que foram inseridos textos que simplesmente não fazem sentido depois de alguns parágrafos, como o que Mattioli conta que foi presidente do diretório do PAN, o Partido dos Aposentados da Nação, em Poços de Caldas. E, a despeito de tudo isso, foi uma leitura maravilhosa. 

Explico. Primeiro, alguns causos são naturalmente engraçados, ainda que muitas vezes anticlimáticos. Segundo, há o valor histórico. É o registro, ainda que simplório, das memórias e da oralidade de uma geração – e não só do autor, que ajuda muito a tornar a leitura mais palatável por não ser pudico, lançando mão de palavrões com naturalidade. E, claro, passou a ter valor afetivo para mim, e, imagino, para alguns dos citados e seus parentes. 

Num dos textos de Pinheiro Chagas, ele conta que em 2009, “sem a presença de incômodos abstêmios” (ainda bem mesmo que não ia a esses encontros, eu era straight edge à época), cada um da turma do Bortolan, como denominava-a Mattioli, devia fazer um brinde. Em meio a saudações pomposas, “em seguida Daniel da Luz: ‘Um brinde às mulheres do mundo inteiro que não queiram nosso dinheiro’”. É machista, mas como conhecemos bem as infâmias do meu pai, isso levou a mim e ao meu irmão às risadas e a minha irmã simultaneamente às gargalhadas e ao choro. Até procurei na web para ver se era um dito popular esquecido, mas parece ser uma frase dele mesmo – e bem típica. Não sabíamos disso e, graças ao livrinho que desprezei, conheci um pouquinho mais de meu pai. Isso é uma enormidade quando eles já não estão aqui para contar essas histórias. E eu não saberia contá-las melhor.

Daniel Souza Luz é jornalista, professor, escritor e revisor


O exemplar de Causos e Contos, de Marcos Mattioli, que pertenceu a meu pai e ficou de legado para minha família. Nas outras fotos registrei a dedicatória feita pelo autor a meu pai, os trechos que ele é mencionado e uma anotação a caneta que determina a autoria de uma poesia a Sebastião Pinheiro Chagas.







Monday, November 28, 2022

Passageira, de Lua Ferreira (resenha)

Este artigo foi publicado na página 8 da edição 7866 no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 26 de novembro de 2022. Eu mesmo revisei o texto, portanto posso ter deixado passar alguns erros.

Recentemente Lua Ferreira passou por Poços de Caldas e não tive o prazer de conhecê-la. Ainda bem para ela e outros convidados de uma festa de halloween a qual acabei não indo, pois, poucos dias depois, pela primeira vez, tive Covid-19, atingido por essa maldita nova onda que ora se avulta. De qualquer forma, descolei um exemplar de seu livro de estreia, Passageira, lançado pela Crivo Editorial em agosto deste 2022 que se finda. Ela é uma poeta de Além Paraíba (MG) e tem um perfil muito popular de poesia no Instagram (@soul_de_lua), com quase 180 mil seguidores. A contemporaneidade é a marca da sua poesia, portanto: é concisa, adequada para a publicação naquela plataforma/aplicativo, algo reforçado já na epígrafe que abre o livro, uma citação da poeta Marceli Andresa Becker (que encurta seu nome artístico para Mar Becker, tal como Luanna Ferreira, a Lua), outra potência da poesia brasileira contemporânea, a qual conheci lendo-a, claro, nas redes sociais. Passageira divide-se em duas partes. A primeira é denominada Ponto Morto e o tema preponderante, numa primeira leitura, é a ruptura, impressão já dada no primeiro poema. Poucos têm título, alguns possuem apenas uma frase, avizinhando-se, portanto, dos aforismos. “O que não vivemos é tudo que nos falta.” é a totalidade de um, outro resume-se a “encontrar uma sombra na espera”. É o que basta, a autora é uma mestra na concisão. Tanto que alguns poemas mais longos perdem o impacto ao ganhar narratividade. Numa releitura, essa primeira parte não parece tão melancólica. Há poesias espirituosas, como a que faz alusão ao mito de Ícaro: “minhas asas/sua beleza/sol e cera”. Há brincadeiras jogando com as palavras e paradoxos: “Tem gente que se acha/Eu me perco”. Uma das poucas poesias que foram tituladas, Bloco de notas, embaralha os sentidos: “segurar a onda e evitar/desnecessárias ressacas”. O alívio lúdico dá equilíbrio a essa primeira parte. A segunda chama-se Cinesia, que vem ser a capacidade de movimentar-se (tive que consultar um dicionário, desconhecia a expressão). Faz sentido: aqui o mote é a paixão e as descobertas oriundas da convivência. Vem como um bálsamo, mas não é tão impactante quanto a primeira parte – ou, melhor dizendo, impactou-me menos. A subjetividade de cada leitor que pesará isto, mas são dois movimentos complementares. O tom muda, algo que a poesia que abre essa parte também prenuncia. A singeleza de alguns poemas resvala na obviedade, infelizmente, mas também há pérolas: “você na multidão/é a multidão”, “Teus desertos/Me dizem/Oásis”, “pintei meu abismo de céu e subi”. Bastava cortar algumas páginas na edição e haveria um todo muito robusto.    

Daniel Souza Luz é jornalista, professor, escritor e revisor




Monday, November 21, 2022

Jacques, a Lenda

Esta crônica foi publicada na página 7 da edição 7881 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG). O texto foi revisado pela Juliana Gandra antes da publicação.

Jacques Rodrigues de Carvalho morreu aos 92 anos em 17 de novembro de 2022. Era uma pessoa boníssima, uma figura popular, conhecido como principal nome da filantropia na cidade, além de ser protético. Isso todo mundo em Poços de Caldas sabe. Quando eu era criança, no entanto, não sabia nada sobre ele e morava muito perto do Pronto-Socorro de Assistência Social Jacques. Cresci no bairro Marçal Santos, colado no Jardim do Ginásio, onde fica a rua Comandante Ary Lopes Buono, endereço da famosa instituição filantrópica mantida lá por décadas pelo Jacques. Bem, conforme fui crescendo, como toda criança, comecei a me aventurar cada vez mais longe de casa para brincar. “Longe” às vezes era uma rua abaixo, fora da vista dos meus pais. Nos anos 1980 (não sei se o hábito permanece), noto agora que havia um método de pais em geral, não só os meus, de tentar assustar crianças com histórias de loucos violentos pelas ruas, com o intuito de evitar que fôssemos longe. Lembro disso, de forma mais pronunciada, na vizinha Botelhos, cidade de meus avós maternos, onde havia o “Joaquim Louco”, um sujeito que vagava a esmo pelas ruas. Diziam sempre que ele ia nos pegar – para fazer o que, eu não sei. Sei que a PM uma vez bateu no pobre Joaquim na porta da casa dos meus avós; não esqueço da poça de sangue, do cheiro forte de ferro e de ver dois dentes caídos na calçada. Quando contei isso para meu tio Helinho, recordo-me bem dele dizer “Infelizmente tem gente que nasce apenas para sofrer”. Por que narro isso? Porque o Jacques, como é de conhecimento geral, tinha para si a missão de ao menos dirimir um pouco o sofrimento dessas pessoas. E muitas delas, ao procurá-lo, passavam na rua Berilo, a rua abaixo da minha, que sai em frente ao Pronto-Socorro Jacques. Nos politicamente incorretíssimos anos oitenta, claro, pais do meu bairro tentavam dissuadir seus rebentos de brincar na rua com essas histórias de malucos que iam nos atacar. De fato, uma vez uma pessoa em andrajos nos xingou gratuitamente quando jogávamos bola lá e depois rumou em direção ao Jacques. Foi só isso, inofensivo. Sempre via gente muito humilde, pessoas em situação de rua, às vezes descalços, caminhando na rua Berilo e depois os via na porta do Jacques. Isso me atiçou a curiosidade, perguntei sobre ele para meu pai, que me disse que Jacques era um protético espírita que ajudava muita gente. Na minha imaginação infantil, achava que ele era francês, por causa do nome. E que era alguém muito alto, forte, que carregava desvalidos nos braços. Passei a jogar futebol até mesmo na rua Nico Duarte, quase ao lado do Jacques, e nada de vê-lo. Vai ver o vi, mas como ele não se encaixava na minha imaginação, passou batido. Veio a adolescência, fui morar fora, voltei adulto. Tinha quase 30 anos e um dia me toquei que não fazia a menor ideia de como era o Jacques. Dei um jeito de inventar uma pauta só para marcar uma entrevista com ele. E que surpresa! Era um senhorzinho franzino, vestido todo de branco, simpático e que parecia sempre estar com pressa. Ressalto que não era estressado ou ríspido. Precisava fazer algo ou ajudar alguém, justificou. Então aquele era o lendário Jacques. Um dos raros casos que a realidade era melhor do que a lenda.

Daniel Souza Luz é jornalista, professor, escritor e revisor

Jacques Rodrigues de Carvalho em dezembro de 2021. A foto foi tirada por Tokinho Carvalho, sobrinho dele, que me autorizou a reproduzir a foto aqui. 


Monday, November 14, 2022

O Menino do São Benedito e outras crônicas, de Luis Nassif (resenha)

Esta resenha foi publicada na página 7 da edição 7878 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 12 de novembro de 2022. A base do artigo foi um texto que escrevi para o Good Reads sobre o livro; aproveitei o gancho da censura determinada pelo prefeito Sérgio Azevedo para atualizá-lo e ampliá-lo. 

No aniversário de 150 anos de Poços de Caldas veio à tona um rumoroso caso de censura, imposta pelo prefeito, da qual foram vítimas os realizadores de um documentário sobre a cidade e o jornalista poços-caldense Luis Nassif, que ressaltou ser autor de dois livros sobre a história de Poços. Pergunto-me, entretanto, quem os leria na medíocre bolha dos gabinetes onde se tomam decisões estultas. Por acaso, resolvi ler um deles em meados deste ano: O Menino do São Benedito e outras crônicas, um calhamaço de 456 páginas que, na verdade, não se aprofunda tanto assim na história do município. Foi uma boa leitura, mas tenho alguns senões. O grosso da obra é composto de crônicas sobre música, especificamente MPB, estilo sobre o qual não tenho conhecimentos profundos. Procurei para ouvir na web várias das canções que Nassif cita, uma facilidade que tenho agora, mais de vinte anos após o lançamento do livro. Deu o que fazer para achar algumas músicas, pois os nomes estão errados nos textos. Há muitas imprecisões, mas, ao menos, em boa parte das vezes há o uso de marcadores como "acho que", "se não me engano" e por aí vai. Isso, no entanto, não se aplica aos nomes das canções: parece que ele nunca conferia os títulos. De qualquer forma, descobri várias pérolas graças à leitura das dezenas de crônicas sobre artistas tanto famosos quanto obscuros. Há muito ufanismo nos textos que refletem mais sobre a realidade socioeconômica do Brasil, um exagero completo mesmo, e a crença dele num país que progrediria civilizadamente esbarra no tecnicismo econômico tucanoide - o mesmo que ele tanto critica e o que nos jogou e continua nos jogando na barbárie, agora agravada pela extrema-direita abraçada pelos censores de plantão. As leituras mais prazerosas são das crônicas sobre música, esporte e a respeito de Poços de Caldas. A mania dele de estabelecer um panteão pessoal de grandes personalidades, porém, me encheu o saco, pois é contraditória - tem uns três melhores discos da MPB de todos os tempos, muito acima dos outros, dependendo da crônica. E, sendo poços-caldense, não engulo muito esse culto a lideranças locais; tenho claro para mim que, em grande parte, não eram nada além de coronéis extremamente autoritários. A leitura dos textos, aliás, confirma que eu sempre estive certo sobre a empáfia e o mandonismo desses sujeitos. Essa tradição deplorável acabou resultando no que mesmo para o autor, aliás? E eu não quero saber quem comeu quem, outra aparente obsessão ao tratar desses fulanos e de outros poderosos, que aliás eram uns talaricos escrotos, a se julgar pelos relatos que Nassif faz candidamente. O que gostei mesmo é da crônica que dá título ao livro, a respeito da infância de Nassif. Sempre estou ali por perto da praça da igreja do São Benedito e, mesmo tendo conhecido uma paisagem muito alterada, consigo visualizar todas as cenas descritas. Por fim, os textos sobre Walther Moreira Salles são um primor. Mesmo não tendo grande curiosidade sobre a trajetória de um banqueiro, atiçaram minha vontade de ler a biografia que Nassif recentemente lançou sobre Moreira Salles – o outro livro dele que aborda a história de Poços de Caldas, a qual a vida do fundador do Unibanco está intrinsicamente ligada.

Daniel Souza Luz é escritor, jornalista, professor e revisor






Saturday, October 29, 2022

Fascista faz factoide

Senta-se à mesa. Olha o relógio de pulso – sim, ainda usa, com pulseira de couro –, abre o notebook. Liga-o. A inspiração foge pela janela. Contempla seu carro encerado, reluzente ao sol. Precisa trocá-lo por um modelo 2023. Fica para a semana que vem. É o momento de se concentrar para escrever. Abre um Red Label. Serve-se sem gelo. Agora sim. Arregaça as mangas. Literalmente. Ainda não está confortável.  Tira os suspensórios. Pronto. Senta os dedos no teclado. Não consegue pensar em nenhum trocadilho. Pena. Gosta deles, dão sabor à leitura. O texto está pronto. Não consegue encaixar nenhum no contexto. Bem, de qualquer forma, a gravidade do momento não permitiria. Apesar de desprezar a adjetivação, tão condenada nos manuais de redação, o fato é que a conjuntura a exige. É necessário conclamar outros trabalhadores a dar mais uma nota de confiança ao presidente. Sabia que assim que o postasse, o texto seria compartilhado pelos amigos. Um dos jornais locais sempre publica suas postagens como artigos de opinião. Esse, no entanto, tem que atingir mais gente. A eleição é amanhã. É fundamental ser claro. Frases curtas. Só que falta algo. Lembrou-se da história sobre igrejas que o melhor amigo, entre tragadas de cigarro sem filtro e talagadas de café, contou-lhe na padaria da praça. Tascou no fim. Belo arremate. A dúvida sobre a clareza ainda o aflige. Grita a empregada. Esbaforida, ela chega num átimo, ainda que a cozinha fosse longe. Achou que levaria mais uma descompostura imotivada. Ele pede que ela leia o texto. Ela lê, curvada sobre a tela, sentindo-se julgada e sabendo-se subjugada. “E então, entendeu?”. Ela assente. “Gostou?”. Ela perde o ar. Como quando a mãe faleceu de Covid-19. Lembrou-se do presidente tirando sarro de quem morreu assim, imitando quem puxava o ar em vão. Respira fundo. Esbofeteia o patrão. “Agora você tem algo emocionante para escrever a respeito”. Ambos estão atônitos. Ela retira-se, sem saber o amanhã, mas quem sabe?   

Daniel Souza Luz é professor, jornalista, escritor e revisor

Este é conto que enviei para o Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) ontem. Desta vez posto na data da publicação, por motivos óbvios. 

Não sei de quem é esta ilustração, tão compartilhada na internet, mas é fantástica.