Sunday, May 03, 2015

Poliódio

Maria caminha cabisbaixa, rente às paredes das velhas casinhas, todas com as frentes coladas à calçada. Eventualmente tem que se abaixar, devido a alguma janela aberta, sempre essas de madeira, mas não desvia do seu caminho, longe da rua. Para para pensar por um instante: será que tem medo atávico de ser atropelada ou teme sair da casa dos pais? Não consegue ver sentido em nenhuma das duas coisas ou ver algum sentido no jeito como caminha, mas deve haver algum. Desiste de se auto-analisar e segue seu caminho. Prefere seguir no fluxo. O instinto, sem pensar muito, é poesia. Foi a poesia que a ensinou isso.
A faina foi extenuante. No momento, tudo o que quer é tomar um banho quente e não pensar em nada. Mas não consegue. Bola um novo poema pouco antes de chegar e já corre para o computador. Atualiza sua página, mas ninguém dá atenção por mais de meia hora. Enquanto espera por alguém curtir a publicação, arruma uma treta com um moleque, amigo de uma velha amiga, mas uns cinco anos mais novo, o qual escreveu um comentário estúpido: “mulher deveria agradecer por ser chamada de gostosa, mesmo não sendo”. Dá-lhe uma lição sobre feminismo, mas o fedelho responde cinicamente a todos os argumentos. Vermelha de raiva, fecha a tampa do notebook com força e começa a se despir para se banhar. A mãe, passando pelo corredor, atenta à cena, pergunta o que foi aquilo. Maria não responde objetivamente, apenas murmura um “Não foi nada não” e vai pro chuveiro.
Refeita, vai jantar. Dona Zulmira a observa, preocupada. Até mesmo Maria chama a mãe de “Dona Zulmira”, como se Dona fosse o primeiro nome de Zu, como ela realmente gosta de ser chamada. Apenas o pai de Maria, falecido há pouco, chamava Zulmira de Zu.
- Filha, o que você tem?
- Nada Dona Zulmira, tô bem!
- Agora você até está. Mas você não está bem. Mãe não se engana.
Maria continua a comer, quieta. Não quer se irritar mais. Desde que abandonou a igreja evangélica que frequentava com os pais, sentindo-se desobrigada com a morte de Zé, seu velho pai, ela vem sendo mais questionada pela mãe.
- Filha, você está ficando velha. Precisa se casar, como seus irmãos.
- Mãe! Eu por acaso preciso ter filhos, me casar, ser como os outros? Isso é normatização.
- Fico feliz por você me chamar de mãe. Eu sou sua mãe, sim.
Maria fica desconcertada. Depois de um silêncio desconfortável, a mãe resolve quebrar o gelo jogando lenha na fogueira para o circo incendiar-se sem chance das chamas serem debeladas.
- Maria... Por que você não volta com o André? Um menino tão bom...
- Mas que heteronormatividade, mãe! Eu não sou mais como era; ele é religioso, machista. Aceita que eu sou ateia agora. Aceita, mãe.
Dona Zulmira sabe que tem mais dois fatos incômodos que ela tem que aceitar. Aceitar, ela aceita. Mas queria um netinho.
- Maria, se você quer ter vários namorados...
- Não são namorados. Não quero ter. Não tenho ninguém e ninguém me tem, não sou propriedade de ninguém. E não são só, como você chama, namorados...
- Eu sei, eu sei.
- Então tá bom assim.
- Se está bom assim, por que você não é feliz? Você está sempre infeliz. De cara amarrada. Brigando com todo mundo.
- Eu sou feliz.
- Eu sei que você não é. Você fica nesse computador o dia todo, brigando com os outros.
- Eu não faço só isso. Eu saio com minhas amigas. Eu administro a minha página. Eu escrevo. Eu gosto disso. Eu tava brigando com um menino machista. Eu não aceito mais esse mundo patriarcal.
As frases saem num jorro. No que a mãe rebate de bate pronto.
- Mas você não é feliz.
- Eu sou feminista. O mundo é cruel e me estresso mesmo. Eu tenho que exercer a sororidade, minhas irmãs precisam de mim. Já te expliquei o que é isso.
Zulmira se irrita.
- Você fica falando de amor livre... A Augustina é minha amiga.
- Isso é passado. Põe uma pedra nisso.
- Você foi lá fofocar sobre o filho dela pra namorada dele que tava na Bélgica. Eles se separaram por sua causa. Você sabe. O menino tá com depressão até hoje.
- Eu era outra pessoa na época.
- Mas a sua amiga Alice pode chifrar a Carol que você não fala nada? Cadê sua sororidade com a Carol?
Maria fica muda. Atônita.
- Como você sabe disso, mãe?
- Não interessa. E o assunto não é da minha conta. Não é da sua conta também, mas você passa pano para tudo que a Alice faz, só que você deveria era cuidar da sua vida. Tá na sua cara que você não é feliz. Na sua cara.
- Para de fingir que é jovem, mãe. Passar pano. Passar pano – ironiza Maria, imitando a voz de Zulmira.
- Quem finge ser algo que não é, é você. Eu só falei algo que você me ensinou. Mas você entendeu o recado. Para de viver em função dos outros. Você é que finge ser algo que não é.
- Olha aqui...
- Não vou olhar nada. Sou sua mãe. Não sou patriarcal. Você pare de fingir algo que não é. Você sempre quis ter filhos, se casar. Todo mundo muda, mas ninguém muda tanto assim. Para de fingir ser quem você não é para bancar a grande feminista. Você pode ser, sem ser essa farsa infeliz. Para de odiar o mundo. O mundo é o mundo. Você não odeia a Alice que faz do mundo um lugar ainda pior. Você não acha que a Carol não vai sofrer por culpa dela? Então para de odiar os outros. Você era uma menina boa. Não tô falando pra você voltar a ser uma menina. Tô pedindo para você voltar a ser uma pessoa boa.

Maria engole em seco as lágrimas que se recusa a derrubar em frente à mãe. Tranca-se no quarto. Abre o notebook. Duzentos e setenta e sete pessoas curtiram o poema que postou no início da noite. Sente-se enternecida. Sendo assim, consegue dormir.

Sunday, April 26, 2015

Os verdadeiros guerreiros da verdade do verdadeiro metal

Jairo e Juliano chegam juntos à casa de shows, a mais conhecida a abrigar shows do forró na cidade interiorana, cujo calor derrete quem está à beira da piscina e ainda mais os dois e todos os que estão na porta do lugar, um deserto de asfalto e concreto. Ambos vestem preto e logo identificam seus pares.
- Aqui que é o Tijuana Bar? Não tem placa...
- Opa! Vamô quebra tudo com uns déti metal com nóis.
Apresentações feitas, simpatia imediata.
- Então, nós somos da banda de fora.
- Qual banda? Eu sou um dos organizadores. Não lembro de banda de fora...
- Do Virgin's Immolation.
- Ah é! Mal aí, já virei um tubão. Cadê os equipos d’ôces?
- Vamô lá pegar.
Tucano não perde as piadas no caminho. Sugere que Jairo e Juliano seria um bom nome para uma boa dupla caipira e que não era para eles tocar viola no show não. Os dois riem, mas ficam putos por dentro.
- Ô Ricardo, abre o portão aí pros meninos do Virge Immolation montar o palco, brinca Tucano. É o jeito dele, pensam.
A cena parece um hospital de campanha. Vários desfalecidos deitados no chão, vomitados. E o show nem havia começado.
- Falaí, seus poser!
Era Zé, o único contato de Jairo e Juliano na cidade.
- Cê que é um comedor de sucrilhos!; vociferam de volta, em uníssono.
Sentindo-se mais à vontade, os dois enchem-se de expectativa. A bateria eletrônica é plugada e devidamente programada. Eles não têm mais paciência com baterista; está todo mundo velho, os amigos não dão mais conta de tocarem rápido.
Sobem ao palco. Serão os primeiros a tocar, para poderem pegar estrada e voltar cedo. Todo mundo trabalha na segunda de manhãzinha. Antes do primeiro acorde, chega a polícia.
Tá cheio de “di menor” bêbado e o comissariado não perdoou. Venderam uma demo em fita, como antigamente. Coisa do demo. Voltam felizes apesar de tudo; missão cumprida.

Monday, April 20, 2015

Carta de Despedida

Lillehammer, 1994
Estava ouvindo uma música do Sport, uma banda francesa de emocore. Quando prestei atenção à letra, fiquei arrepiado. Foda-se se você acha clichê por ser o tipo de som que é. Foi por acaso, já gostava da música. Deu vontade de postar a música e a letra, mas quem vai entender que é algo tão especial em meio às montanhas de futilidades alheias? Algo intenso que jamais será sentido por outrem. Fiquei emocionado porque me lembrei de você. Não só de você, pois a letra me trouxe uma lembrança muito terna de uma menina que foi (ainda é) muito bacana; me lembrou mais a minha vida no último ano e de muita gente que passou por ela do que especificamente você; mas fomos namorados, então também me lembrei de você avassaladoramente, porque você irremediavelmente fez parte do tornado contemporâneo.
Não te odeio mais. Te odiava porque te amava, mas o amor é mais forte do que o ódio – e o esquecimento é mais forte do que tudo; não ter nada a ver com perdão, note bem. O ódio foi embora, junto com tudo que não é lembrança. O amor acabou sem aviso, num “puft!”, sem razão; começa irracionalmente e acaba do mesmo jeito. Acabou quando notei que não me importava mais se você estava bem ou não; por mais detestável que você fosse, ainda me preocupava com seu bem-estar. Foi bom dormir com você aqueles dias, eu tinha te matado dentro de mim. Você está viva agora, uma lembrança no meu coração. Espero que não entupa alguma artéria.

Thursday, April 16, 2015

Hakai 6

Politicamente correto
É o meu pau
No seu cu

Sunday, April 12, 2015

108

O seu cachorrinho acompanha-a, quietinho. Empurrando uma bicicleta. Ele nunca ouviu I Wanna Be Your Dog. Podia cantarolar sempre, no entanto.
Vegano, bonzinho. O passado de playba enterrado com visual hippie e muita aula de yoga. Espancava um moleque na escola que gostava de Shelter. Fazia bullying com quem ele teoricamente pensaria de forma semelhante anos depois. O garoto humilhado sequer reconheceu o seu antigo antagonista, que caminhava de cabeça baixa atrás da companheira. Sorte do garoto. O fascista zen, como diria Jello Biafra, sorriu cinicamente, encarando onde pisava com saudades de pisar em alguém.
Chegaram em casa e puseram um vinil da Janis Joplin. Fumaram um banza, brisaram por uma meia hora e treparam. Logo depois ele vestiu uma camisa da seleção e correu para a manifestação com um cartaz, belamente desenhado, pedindo golpe militar. Sua companheira ficou estupefata. Lembrou-se do velho ditado que tanto ouvia do pai, um velho punk – never trust a hippie.

Sunday, April 05, 2015

A tristeza insinua-se no dia ensolarado

Os cabelos bem penteados, os óculos escuros e a camisa social contrastam com as mangas puídas dobradas, a bermuda, as meias esgarçadas e as sandálias com as tiras de trás estouradas. Aquele homem pouco envelhecera na última década – já estava alquebrado e com as linhas de expressão acentuadas há pouco mais de dez anos. À época, concedia entrevistas, um pouco mais bem vestido, à frente de um projeto social, já naufragado. Agora, nitidamente, depende de assistência social.
O repórter aposentado sempre o via caminhando desalentado pela rua. Naquela manhã, o extenuado jornalista acordara desanimado com o tempo chuvoso; a depressão lhe invadia e, por mais esforços que envidasse, era difícil superá-la. O súbito aparecimento do sol e o céu azulando-se incutiram-lhe ânimo e resolveu abordar aquele homem, a quem já entrevistara para uma rádio hoje tão extinta quanto ambos.
- Bom dia!                            
- Bom dia... – respondeu desconfiado o homem que já não parecia ter como envelhecer mais ainda.
- Eu já entrevistei o senhor algumas vezes, lembra-se? Desculpe-me, não lembro seu nome.
Não houve resposta. O homem desgastado permaneceu com o olhar receoso. O velho jornalista, por força do hábito, insistiu:
 - Você tinha um projeto social, como que se chamava mesmo...?
- Ora, vá se meter com a sua vida! – retorquiu aquele sujeito que algum dia foi midiático, mas agora parecia querer evanescer. A frase escapuliu com desespero, mas sem muita agressividade, como que também quisesse pedir desculpas, impressão reforçada pelo olhar implorando piedade.

Seguiram em sentidos opostos, sem olhar para trás, assim como a vida fez com eles.

Sunday, March 29, 2015

Baco Doesn't Rule Anymore (heresia contra Baco), um miniconto de Fernando Lellis

Deus Baco desgraçado, não vou mais te adorar, maldito!!! Só porque você é um deus do balaco-baco que promove intensos bacanais, bebedeiras e sessões de espancamentos, não necessariamente nessa mesma ordem, isso não significa que eu tenho que te achar foda e te adorar. Você é um filho da puta de proporções gigantescas, um baita machista, egoísta, presunçoso, que desperdiça seu poder divino com prazeres carnais, vazios e doentios. Você ainda vai se afundar na sua própria lama, seu lazarento: tomara que Zeus te lance no inferno e Hades solte o cão Cérbero pra comer seu pingolim com uma de suas cabeças e seu cérebro com a outra, miserável filho de uma fêmea de unicórnio!!!

Fernando Lellis, Jornal Bacanal 2.3, seis de junho de 2001

Publico pela primeira vez um texto que não é meu aqui. Fernando Lellis era um ouvinte do Programa Pirata, que eu produzi junto com amigos nos meus tempos de universitário na Rádio Unesp FM de Bauru, na segunda metade dos anos 1990; ele mandava cartas para o programa pedindo músicas (entre as que me lembro, do Dominatrix e Pin Ups) e fazendo sugestões. Um dia ele abordou a mim e a minha namorada à época num show do Autoboneco/Bonequinho em um fliperama abandonado na Avenida Rodrigues Alves. Gostamos muito dele e da conversa. Ele se parecia um pouco com o Thom Yorke, era tímido, solitário e muito inteligente. Apesar da timidez, nos shows ele era uma figuraça: participava das rodas de pogo e imitava ataques epiléticos, mas não era uma imitação literal do Ian Curtis, ele tinha o próprio estilo. Na coluna que ele mantinha no site do Street Bulldogs (banda da cena punk hardcore dos anos noventa) e em especial nesse fanzine dele, o Jornal Bacanal, ele falava abertamente sobre sua solidão. Troquei alguns emails com ele depois que me mudei de Bauru, mas o último e-mail que enviei, em 2003, não teve resposta. Apenas recentemente descobri que ele morreu de leishmaniose (úlcera de Bauru) em meados da década passada. Fiquei chocado. É injusto demais. Fica aqui minha homenagem a alguém tão legal, espero que a família não se importe em reproduzir o texto dele, pois não tenho nenhuma intenção comercial; revisei este texto, uma espécie de miniconto/desabafo, e espero que seja lido por muito mais gente, nesta época de redes sociais, do que na época dos fanzines e zines online (e o site do Street Bulldogs nem existe mais...). Agradeço muito à minha amiga Tico (Ana Paula Benini), que me cedeu uma foto do seu acervo pessoal para enriquecer esse pequeno texto de memória.
Daniel Souza Luz, 29 de março de 2015.

Roda de pogo no show do Bonequinho no festival Octoberfezes 2001. Fernando Lellis é o de óculos. Foto: Nô Benini.

Sunday, March 22, 2015

Velhas tardes de domingo

André lustrava o carro, passando uma segunda mão de cera, no capricho, como sempre gostou. Vermelho Ferrari - ao menos na cabeça dele. Não bebia nessa hora, jamais. Estava com uma camisa pólo, começou a passar calor ao conversar com Carlos, seu vizinho de muitos anos. Carlos sempre foi cheio dos xavecos e convenceu André a participar da manifestação contra a corrupção. Disse que era contra a ditadura, mas a favor do impeachment. André pois-se a pensar; nunca acompanhara política, só achava que era corrupção demais, nunca ouviu falar tanto nisso, mas sempre ouviu falar.
Tá bom, tá bom. Topou. Foi em casa e trocou de roupa; pôs uma camisa da Ferrari, com o cavalinho discretamente empinado no peito. Se não era a favor da ditadura, que mal teria?
- Falaí, Carlinhos! - foram recepcionados com umas brejas que estavam em isopores na parte de trás de uma Hilux; estava muito quente.
André aproveitou pra encher o caneco. Notou que estava cheio das gatinhas e rolando bastante som. Parecia uma rave, quando amanhece, e no dia seguinte de um jogo do Brasil. Perfeito, se deu bem demais.
Perdeu-se de Carlos e, já bem alto, tanto quanto o som, começou a jogar ideia numa loirinha. Ela foi até que educada, ele insistiu, logo um sujeito ligeiramente maior que ele chegou intimando. Era o namorado dela.
- Olha aqui um comunista no meio da gente, o cara tá infiltrado, provocador!
Não houve tempo de explicar que a camisa era vermelha porque era da Ferrari. O sangue, de um vermelho conspurcante, corria pela rua.

Sunday, March 15, 2015

Sobre o que falávamos mesmo?

Bolinha de gude.
Ele ainda se apegava a essa lembrança, o seu Rosebud. Ela, alheia ao desconhecido ao lado, lia mensagens no celular e ria de memes. Lembrou-se de quando leu uma matéria sobre memética, sobre como era um assunto sério e lhe pareceu tão interessante e cheio de possibilidades. Agora era só uma piada, como a vida dela, obsoleta.
No ponto de ônibus havia mais seis ou sete pessoas, exprimidas, aguardando enquanto a chuva apertava. A garganta dele apertou também, lembrando-se do futuro que acalentava como se fosse um bebê sorridente, que lhe balbuciava promessas em palavras ainda mal articuladas, mas plenamente reconhecíveis.
Quando o ônibus chegou, esbarraram-se. Ele ofereceu-lhe o caminho com a mão; ela agradeceu com um leve aceno de cabeça, desacompanhado de qualquer esboço de sorriso. A meia dúzia esperando atrás e o motorista jamais saberão que eles namoraram por um ano e meio. A história já os apagou e portanto não abarca mais a estória deles, essa palavra arcaica, da qual ela jamais gostou e na qual ele ainda se segura como um destroço à beira do redemoinho do presente, esperando ser tragado para o passado abissal como um anacronismo do qual alguém ainda se lembre com algum saudosismo.

Wednesday, March 11, 2015

Nova Bizâncio

Açudes tremendos na cidade fazem os cidadãos tremerem. O frêmito espalha-se com a notícia de que as barragens se romperam com os atentados terroristas. Por quê? Quem?
Pura maldade. Enquanto buscam por sentido e não pelas saídas, morrem discutindo, afogados pelas águas, medos, especulações e dúvidas.
Nas poucas saídas, morrem pisoteados, esmagados, comprimidos.
Os poucos sobreviventes não olham para trás, temerosos de antigos mitos.

Sunday, March 01, 2015

Tão longe e muito perto

Lembrou-se com carinho dela, mesmo a odiando e vice-versa. Embora não saiba o porquê dela ter manifestado tanto ódio, a simples manifestação odiosa dela bastou para acender uma chama de raiva que não há tempo que debele. Há lufadas de ar que a extinguem por alguns minutos, para o ódio renascer com tanta força que queima quem está nas cercanias.
Há os pertences jamais devolvidos. Esquecidos. Há anos. Para devolvê-los quando fosse conveniente. Uma desculpa para puxar um papo furado para se acertar em cheio numa roleta russa.
No dia seguinte o ódio queimou todo seu combustível e eclipsou-se sobre si mesmo. Obliterando todas as lembranças, boas e ruins.

Foi um sonho. É só literatura. Não é assim, nunca é assim.

Sunday, February 22, 2015

Oi Anarquia, Oi.

O sol cálido na medida certa reluz nos tacos do assoalho dispostos como era no apartamento no qual passou a infância e adolescência, nos anos setenta e oitenta, e traz a lembrança das tardes em que não precisava ficar restrito a um ambiente interno no escritório.
Especificamente, de quando teve calos nas mãos pela primeira vez. Carregava uma enxada sob o olhar espantado do pai – “Não imaginei que sairia da roça para ver filho meu pegar na enxada”. Mas a frase foi acompanhada de um sorriso aprovador, sendo o estranhamento fruto apenas do inusitado. Moravam num bairro bem arborizado, mas totalmente urbanoide. Explicou-lhe calmamente: é que estavam fazendo uma pista de bicicross num terreno vago.
Quem teve a iniciativa? Ele estava presente à rodinha de conversa morgada, logo após o almoço, quando chegavam de escolas diferentes loucos para poder trocar ideia, quando alguém surgiu com essa. Mas décadas depois, o autor se esvaiu da lembrança; é como se tivesse sido um desígnio divino do qual se incumbiram de bom grado.
Em uma semana ou menos fizeram uma pista com rampas e fossos. Terminava numa ladeira do terreno que era íngreme a ponto de assustá-lo hoje. No entanto, não a temia. Era uma subida aos céus da adrenalina.
O primeiro a descer foi Palmito. O único que já tinha entrado em competições de bicicross. Caiu no fim da picada – literalmente – e foi parar no meio do mato. Ficou lá rindo. Anos depois contaria que estava chorando e que conseguiu disfarçar bem. Era o mais velho, pegaria mal – homens não choram, sabe qualé, acreditavam piamente nessas merdas.
A união de quem gostava de sair na pancada pelos motivos mais cretinos é a melhor. Moleques que se odiavam trabalhando lado a lado, sem tretas. A conversa da qual mais se lembra era sobre a prisão – ou detenção, nem queria se lembrar bem – de Paulo Ricardo, por porte de cocaína. Seria boato? Nunca quis conferir. Já não gostava de RPM naquela época. O detalhe sarcástico: quem mais condenava o cantor naquela época são justamente os que mais cheiram hoje em dia – isso ele sabe que não é boato. Será que eles se lembram dessas conversas e sentem que traíram a si mesmos? Enfim, não estava no horizonte de eventos à época. O buraco era menos embaixo.
Marcaram um campeonato da rua. No final de semana. Já tinham treinado a semana inteira. A pista tomada por eles todo dia. Todos ganharam.
                                                               *********
Na segunda, depois da escola, a pista estava destruída. O terreno tinha dono, claro. Óbvio. Propriedade privada, não era segredo. Ver tudo revirado, à toa, foi o desalento que fez cada um partir para seu lado e eventualmente partir a cara um do outro nas velhas brigas idiotas que voltaram a rolar, mas ninguém se machucava muito e se pá às vezes seguia a amizade. Agora, pela primeira vez, ao se lembrar da pista que não deixou traços da existência e deu lugar a três casas, se dá conta de que a construção coletiva, além do convívio nela, foi a primeira TAZ da qual tomou parte.

Wednesday, February 18, 2015

A tempestade ainda é a bonança

Sunday, February 08, 2015

Travesseiros são boias

O navio aproximava-se vagarosamente. Escurecia. O vento lépido fustigava a plataforma e uivava pelos cantos. Era petróleo que se extraía ali? 
Belas fotos. O foco preciso. Queria tirar melhores ainda. Apoia-se numa grade.
A queda não foi sentida. Não percebe o escorregão. Viu-se no mar gélido, mas era como se não tivesse caído.
Acordou. O leito vazio é mais frio. Continuou afogando-se.

Sunday, February 01, 2015

Sempre há uma última vez

A casa estava aparentemente arrumada. A sala estava brilhando.
Bastou abrir a porta da cozinha e ver as toneladas de louça acumulada na pia para notar que era mero jogo de cena. Mas ele logo fechou. Ela não percebeu. No quarto, na estante antes arrumada, havia muito pó. Fez vista grossa para bancar o fino. Os sinais de depressão nela e no ambiente eram explícitos. Preferiu olhar pela janela. As montanhas ao longe, eclipsadas pela poluição, sussurravam a lembrança de casa, em Minas. Perguntou-se o que fazia ali de novo, depois de tantos fins conflitados, tantos adeuses. Ela estava com calor, de calcinha e sutiã. “Imagina que isso aqui é a praia, nem esquenta, porque já tá quente demais”, ela galhofou, às gargalhadas. Desde que estivesse bem-humorada, o humor dela era irretocável. Ele pensou em dizer que ela poderia ganhar muita grana fazendo stand-up. Optou por apenas rir, contemplá-la brevemente e continuar a olhar pela janela. Qualquer palavra em falso que a ofendesse, sabe-se lá por que razão esdrúxula, poderia resultar numa treta titânica.
Ele sentiu a mão afagando-lhe o peito, depois de muito papo furado. Ela não deixou que ele pagasse o jantar, nem o café da manhã, nem o almoço. Fez ovos mexidos de manhãzinha.
Despediram-se. Esqueceu uma camisa, de propósito, para poder buscá-la. Ela mandou um amigo, que até então nunca tinha visto, entregá-la. O amigo não era nada amistoso. Ela nunca mais atendeu os telefonemas e bloqueou todas as formas de contato. No bolso da camisa, um bilhete com um beijo de batom e um adeus foi lavado e o fim, incógnito, converteu-se em reticências fantasmagóricas.

Sunday, January 25, 2015

Sonic Youth

Uma loira e uma de cabelo vermelho. Engraçadas, piadas jorrando uma torrente de gargalhadas que refrescavam o dia árido. Elas falavam de novelas, ironizavam os maneirismos dos personagens.
Sem chance. Bonitas.
- Oi. Você gosta de Babes in Toyland?? - a loira, para mim. Estava com uma camisa da banda.
- Gosto! Você também?
- Gosto, mas nunca ouvi. Só que eu sei que eu gosto. Você gosta de Hole, né? Eu amo a Courtney, ela não tem culpa do que aconteceu.
Estávamos em 1995. Sabíamos do que gostávamos, antes de ouvir. Sabíamos também de quem gostávamos. Há vinte anos, ela gostou de mim.
As duas brigaram, semanas depois. Ou parava de falar com ela, ou sentiria a cólera rubra. Fiz a minha escolha, não parar de falar com ninguém. Só ela continuou a falar comigo. Cada dia mais ternamente, ainda que a tristeza a consumisse.
Na foto de uma noite feliz, sorrimos e cantamos Somebody to Shove para nós mesmos, cada um com sua cópia, há milhares de anos e quilômetros de distância.

https://www.youtube.com/watch?v=xvDuATZCY8I

Gif que o Flickr criou com fotos que tirei do show solo do Lee Ranaldo, do Sonic Youth, em show no Mês da Cultura Independente, em São Paulo/SP, em 2015.





Sunday, January 11, 2015

Farsa

O livro repousa na estante.
Na verdade, jaz na estante. Está autografado por Augusto de Campos. Em nome do casal, não apenas dela.
Ele sempre se lembra das acusações de que ele não lia de fato, de que apenas frequentava redes sociais. Então ocorreu-lhe que havia o livro, uma preciosidade, o qual ela jamais mencionava.
Encontram-se, no bate-papo, pois estavam online. Só assim mesmo.
Ele lembra-a sobre o livro. De fato, jamais havia lido-o. Confundiu Haroldo com Augusto - por mais que tivesse veleidades literárias, ela continuava a embaralhar nomes e conceitos, pois havia apenas lido a respeito da maioria dos autores que citava, mas não havia lido-os de fato. De certa forma, os dois se assemelhavam quanto à parca leitura de livros. Ela sequer se lembra que o tinha.
O uso do verbo ter, no passado, é correto neste caso.
O livro, novo, jamais lido, está criando poeira em um sebo.

Sunday, January 04, 2015

A escola da vida não tem formatura

O bedel nos olha com ódio. Um dia o entenderei, mas no momento, ele é apenas um inimigo. Estávamos rindo. Ele tinha razão. Talvez fosse da cara dele – mas não era. Ele parece um presidiário, controlando a ansiedade, no pátio da escola; talvez não tão diferente da cadeia na qual foi trancafiado. Dele, lembro-me com a consideração de um colega de cela tem para com o outro. Ou seja, com consideração alguma, apenas com um ínfimo companheirismo, uma vaga felicidade de saber que agora ele está livre e que, um dia, talvez, também estarei.

Sunday, December 21, 2014

Eu vi você brilhar

A câmera de segurança flagrou o primeiro encontro. Ela estava de chapéu, esfuziante, conversando em todas as rodinhas, alegrando-as. Ele estava com uma tipoia, cabisbaixo, mirando macambúzio o braço quebrado. Os amigos traziam cerveja e ele recusava. Não podia beber, devido aos remédios.
Eles encaminham-se para a porta, mas vindos de diagonais diferentes. Enquanto ela para e conversa com o amigo que o tirou de casa para que não ficasse deprimido, ele admira-a, hipnotizado. Ela parece ignorar a presença dele.
Quatro meses depois, outro bar. A câmera de segurança, que nunca registra os furtos, registrou o segundo encontro. Ele já estava melhor e bebendo. Ela estava bêbada. Ela olhou para ele dessa vez, porque a melhor amiga dela aproximou-se dele numa conversa ébria na área dos fumantes. Ele aproveita para falar-lhe ao pé do ouvido, com insistência. Ela parece corresponder bem e ri.
A câmera registrou também quando a performance começou. Era daquelas em que os atores interagem com o público. A atriz principal olha para ele e sapeca-lhe um beijo. De língua. Ele cede. Todos vão embora, sem se falar mais. Na filmagem da festa da semana seguinte, isto é patente.
Nenhum deles nunca mais se encarou. Mas o dono das casas noturnas, voyeur inveterado, montou um curta para satisfazer seu schadenfreude.

Friday, December 12, 2014

Haikai 5

O trovão vaga
Pela memória
Como um raio