Friday, August 28, 2015

Durutti Column

A meninada se posta diante dos dois maiores, que vão escolher os times.
Escolhem da forma mais equânime possível, mais ou menos medindo as forças de cada um, de acordo com o tamanho e as habilidades de cada moleque. Formados os times, vai-se para a pelada no campinho demarcado na rua, meio apagado devido à chuva repentina de verão do começo da tarde. As meninas jogavam também, tinham duas; ninguém se importava.
Eu lembro-me de quando meu xará tomou uma entrada mais dura. Expulsamos o forasteiro. Sim, nós mesmos éramos nossos juízes. Com um a menos, passei para o time deles. Ficou mais ou menos equilibrado; era o menos habilidoso, mas chutava forte umas bombas difíceis pros goleiros, que também jogavam na linha, segurar.
Terminada a partida, eu que estava perdendo num time acabei ganhando no outro. E montamos outros times, uma das minas não tava mais a fim, deu certo. Deu empate, acho. Se os anos oitenta ficaram conhecidos como a década perdida, nós só ganhávamos, independente dos resultados.

Monday, August 24, 2015

Theatre of Hate

O sorriso desvanece conforme viravam as costas e transmuta-se num esgar de desprezo. Tantos anos estudando artes cênicas renderam-lhe habilidades sociais imprescindíveis, pelas quais sempre ansiou. Adentra ao recinto segura de si, algo que logrou após anos de treino em dissimulação. As vestes hippies conferem-lhe uma simpatia que não denunciam seu artificialismo aos convivas.
Abrem-se as cortinas. A melhor atuação, no entanto, já havia ocorrido no átrio, antes do início da peça.
O final da peça é abrupto. O público, a princípio atônito, só passa a aplaudir quando as cortinas fecham-se sem aviso, segundos depois. Quando o elenco logo volta, aplaudem de pé, mas nota-se certo constrangimento, raras as exceções. Ela é uma destas.
Na saída, passa a falar o mais alto possível, para atrair todas as atenções. Agora sim começa o verdadeiro espetáculo, no qual reputações inocentes serão destruídas de forma sórdida, causando deleite ao público remanescente.
Por favor, desliguem os celulares.

Monday, August 03, 2015

Crispy Ambulance

Por favor.
- Samu, boa noite.
- Por favor, manda uma ambulância.
- Peraí, o que foi que aconteceu?
- A menina aqui, ela tomou todos os remédios.
- Ela está inconsciente?
-Não.
- Está falando?
- Sim.
- Você tem carro?
- Tenho.
- Ela tem plano de saúde?
- Tem.
- Então leva ela você mesmo para lá. É melhor. Vai demorar menos.
Durante o caminho, só ouvi nonsense vindo dela. Mas, pensando bem, sempre foi assim.

Sunday, July 26, 2015

Section 25

As janelas todas abertas. Ao menos a brisa nos confortava de quando em quando. Nos estertores do século passado, essa frase era literal.
Passou Here We Go na MTV.
- Olha que legal! Você conhece?
- Nossa, você não conhece? Shelter tocava no rádio o tempo todo. Eu nem notei que não fazia mais sucesso.
- Você já é velho.
Aos 25 anos. Here we go again.
Liguei o ventilador. Mesmo assim, suávamos. À noite. A inspiração que bastava. Tiramos as roupas. O tecido do sofá era incômodo, grudava na pele. 
O chão da cozinha ficou empapado de suor.

Sunday, July 19, 2015

Dream Syndicate

O jornal é de ontem, mas o texto não é mais o mesmo. Havia sido alterado. Como? Não havia jeito, é papel, não há como aparecer um “atualizado às 18:48”, por exemplo. No entanto, o acróstico desabonador não consta mais na matéria.
É que as letras na verdade são pessoas. Elas haviam sido substituídas por jornalistas mais novos, contratados como PJs, pois todos os sindicalizados foram mandados embora. Entretanto, os jornalistas demitidos entram no texto, diante dos meus olhos, e empurram para fora seus substitutos. Não obstante, o acróstico ainda está falho. Resta uma letra trocada. Eu a localizo. É uma menininha de vestido verde, não um adulto.
Rumo ao encontro dela, dentro da página. Ao contrário dos jornalistas mais novos, que saíram de seus postos, ela permanece no lugar. O início do parágrafo é um pequeno morro; ao me aproximar, noto que ela é translúcida. Fantasma. Entro dentro dela. Uma voz doce ecoa na minha mente:

- Foi você que me possuiu. Você é o fantasma.

Sunday, July 12, 2015

Public Image Limited

Distraído. Parado no semáforo, conversando sobre política. 
Um garoto, mais um, mas parecido demais com os demais: de barbicha, roupas que aludem ao circo, muito jovem, malvisto na família (provavelmente). Fazendo malabarismo com bolinhas.
Notei-o porque errou: uma bolinha escapou e foi parar embaixo do carro ao lado. Sorri - na verdade, ri. Ele foi safo o suficiente para levar na esportiva: não se deixou abater, pegou uma das bolas que restaram, vermelha, e a pôs em frente ao nariz, emulando um palhaço que não meteria medo nem na mais traumatizada criança que teme essa figura.
Procurei desesperadamente por umas moedas, mas, como não estava prestando atenção antes, não as encontrei. Quando ele se aproximou, entreguei uma bala. A desculpa que dei é que ela poderia lhe dar energia.
O semáforo, que não estava para brincadeiras, deixou de ser vermelho.

Sunday, July 05, 2015

Sex Pistol

Acordei exausto. 
Logo cedo havia pegado estrada. Ao chegar no sítio, perguntei o que estava acontecendo. Ela disse que o problema era o que não havia acontecido. Nos beijamos. 
De volta à estrada, fui para a cidadezinha. Encontrei a noiva d'antanho lá. Não resisti e perguntei na lata:
- É verdade que você e seu marido têm relacionamento aberto?
- Sim, mas para você eu sou casada.
 Nunca tomei um toco tão forte. Fui pra casa. Então a mocinha que a abandonou lá estava, esperando-me dormindo na cama, como usualmente fazia quando eu chegava de São Paulo no sábado à noite. Beijou-me sonolenta, como fazia naquela época. Deitei-me abraçando-a. Ela ainda virou-se para mim e disse uma única frase antes de cerrar os olhos.
- Seu pau se encaixa direitinho no vão da minha bunda. 
Dormimos abraçados uma última vez por um milissegundo. 
Além de exausto, acordei sozinho.

Sunday, June 28, 2015

Joy Division

Episódio novo de Anjos da Lei na TV. Pronto, o domingo já foi bom. Está frio, de volta pras cobertas. 
Então a galera chega, me arranca da cama, me arrasta pra rua pra zoar o dia todo. Não sei se a frase é mesmo do Stephen King, mas se for, ele acertou na veia ao final de Conta Comigo, numa sessão da tarde de videocassete, não da TV, àquela época: não há mais amigos como os que se tem por volta dos 14 anos, mesmo que você nunca mais os veja ou que se tornem meros conhecidos.

Saturday, June 20, 2015

Atari Teenage Riot

São quatro e meia da tarde. Choveu muito no dia anterior. O céu está limpo de toda a fumaça, como se velhas lentes de contato tivessem sido trocadas por um novo par. O caminho ensolarado lembra cenário de videogame – parece que todo cena de games tem o sol desse horário, quando a ação se passa durante dia. A falta de criatividade dos programadores me irrita. Eu adoro o sol desta hora no inverno – me lembra o sol das cinco e meia no verão, quando eu saía da escola e ficava na rua brincando até de noitinha. Essa hora sempre foi a hora da felicidade. Embora videogames tenham me trazido muitas alegrias à época e mesmo hoje, eles não combinam com esse horário, ao menos no meu registro pessoal.
A realidade, que os games desta década tanto tentam emular, é tão subjetiva em 2015 que eles são muito mais simulacros de uma idealização de hiper-realismo e muito menos verdadeiros do que jogos simplórios dos anos oitenta, cujos gráficos deixavam muito mais espaço para a imaginação preencher lacunas. Fan fiction era criação instantânea nos anos oitenta. Talvez deixe rastros até hoje, em livros de ficção científica daquela geração – a minha.
No lugar de um miniconto no domingo, neste final de semana resolvi publicar uma pequena crônica no sábado, pois o caos é legal.

Sunday, June 14, 2015

Descartesiana

A morte vem chegando.

Por que não desacelerar? Mas aceleramos, na perspectiva de sermos mais rápidos, sem notarmos que a colisão que se avizinha é frontal.

Sunday, June 07, 2015

Descartesiano

Entreolhamo-nos. Torto. Ambos.
Seguimos nossas vidas. Como se não houvéssemos existido. Não existimos. No entanto, pensamos.

O café estava gostoso.

Sunday, May 31, 2015

A morte do Poeta

“O Fescenino fenece fecundo de fé”.
Ficou bem mais ou menos esta aliteração, mas serve como epitáfio.

A nota suicida foi posteriormente incorporada às obras completas. 

Tuesday, May 26, 2015

A giant anteater lies dead at the side of the road

A cada documento carimbado, conferido, visto e assinado, a vista se vai. A cada segundo perdido, o cérebro se esvai. A cada bobagem ouvida, a audição se perde. A cada café muito quente queimando a garganta, o paladar some. A cada ida ao banheiro fedendo a cigarro, o olfato cancela-se. A cada palavra desinteressante digitada, a tendinite vem e o tato vai-se.
- Oi amor, como foi o dia hoje?
- Vá à merda!
A porta fecha-se.

Sunday, May 17, 2015

Eterno Despertar Finito

Após uns três anos, finalmente tive um sonho lúcido novamente. Não dormi bem, acordei algumas vezes ao longo da noite, ainda que estivesse frio – geralmente durmo sem interrupções se a noite é fria e silenciosa. Na penúltima delas, acho, pouco antes de acordar, estava andando no quintal do prédio onde morei na infância. Quando comecei a descer a escada que leva a um patamar inferior do quintal – uma escada estreita, íngreme e de cimento mal-acabado, muito bem representada no meu sonho – eu me toquei que estava na verdade sonhando.
Aí pensei comigo mesmo: nossa, estava falando sobre voar em sonhos tempos atrás com a Renata – uma grande amiga. Como disse para ela, quase sempre quando sonho, começo a bater os braços, como um pássaro bate as asas, para voar. Geralmente, depois que levanto voo, não preciso continuar batendo os braços, basta continuar voando, com os braços estendidos ou não. No sonho, conscientemente, decidi sair voando sem esforço. Deu certo! Sobrevoei o quintal da minha infância por alguns segundos. Não preciso sequer ir lá fazer uma visita algum dia, nada se compara a emoção de voar.
Acordei e pensei: preciso contar esse sonho para ela. O quarto estava na penumbra. Alguém começou a puxar o lençol e eu fui indo junto, para debaixo do cobertor, lentamente. Fiquei imaginando se não poderia ser a Yasmin, minha cachorrona. Mas ela não seria forte o suficiente... Então acordei de fato! Fiquei assustado, como sempre acontece nessas ocasiões. Pela primeira vez na vida, tive os dois tipos de sonhos lúcidos juntos: no primeiro, eu controlo o sonho. No segundo, como no primeiro número do Sandman de Neil Gaiman, eu desperto, acho que estou acordado, tudo é bem real, mas não estou acordado e desperto de verdade, completamente desacorçoado! Como pela primeira vez tive os dois tipos de sonhos na mesma noite, e na sequência, meu coração disparou tão fortemente que não conseguia voltar a dormir por um bom tempo, embora não tenha sido exatamente um pesadelo, pois a sensação de ser puxado junto com o lençol não me aterrorizou durante o sonho, pelo contrário, pareceu-me uma brincadeira e a sensação tátil de ser arrastada pelo lençol era até mesmo gostosa, como se ajudasse a me cobrir para me esquentar e dormir melhor. Estava me deixando levar.
Aproximadamente uma hora depois, consegui voltar a dormir, lá pelas seis da manhã. Desejando ter outro sonho lúcido. Não tive.

Sandman sentenciando quem lhe mantinha cativo ao Eterno Despertar. Arte de Sam Kieth, Mike Drigenberg e Robbie Busch.

Sunday, May 10, 2015

A noite em que fui um Lanterna Verde

Estou voando. É fácil, mais fácil do que andar de bicicleta. Sobrevoo o bairro onde cresci; é mais ou menos como imaginava que seria quando visto do alto.
Telepaticamente, sou alertado pelos Guardiões do Universo, diretamente de Oa, que alienígenas invadiram a terra e sequestraram algumas garotas em Batatais, interior de São Paulo. Não me perguntem o porquê de aliens se interessarem por Batatais. Não vejo os Guardiões, apenas os ouço na minha mente e sei que estão em Oa. Logo parte da Tropa dos Lanternas Verdes aparece ao meu lado e voamos acelerado; rapidamente saímos de Poços de Caldas e logo chegamos em Batatais.
No caminho, os Guardiões nos avisaram que os alienígenas se pareciam com baratas. Sobrevoamos o bairro, devagar e baixinho. Parecia mais um subúrbio dos Estados Unidos do que uma cidade brasileira. Perto de uma esquina de onde saía uma estrada de terra, paro para recarregar meu anel numa bateria verde que foi deixada em frente a um sobrado. Então levantamos voo de novo e usando o anel como sensor descubro onde os alienígenas estão. A nave deles está enterrada embaixo de uma grande casa.
Entramos na casa, mas voando. Abrimos a porta usando a luz verde do anel e ficamos levitando na sala, ninguém anda. Ouvimos gritos, gritos desesperados de garotas. Temos certeza de que elas estão sendo torturadas. A sala tem uma porta de onde parecem vir os gritos, a abrimos e acendemos as luzes, sempre voando. Há um imenso porão.
O porão está vazio, elas não estão lá. Os gritos parecem vir de baixo de nós. Mas não vemos nada. De entradas laterais, aparecem vários gatos. Eles se parecem com felinos normais, mas são um pouco maiores e olham-nos fixamente e SORRIEM. Um sorriso maldoso, satânico. Então começam a pular muito alto e quase nos alcançam. Comprimimo-nos contra o teto. Antes que contra-ataquemos, acordo.
Está meio frio no quarto, é inverno. Tudo escuro. Pouco depois volto a dormir.
Quando passo a sonhar novamente, EU VOLTO A SER UM LANTERNA VERDE. Isso foi realmente legal. Este sonho seguinte, ao contrário do anterior, dessa vez era remanescente de leituras de HQs, mais especificamente do Cavaleiro das Trevas. Era de noite, eu voava e o vento frio castigava meu rosto. Estava beirando a costa, e em meio a nuvens um pouco cinzas, sobre as quais pontuava a lua, cujo reflexo no oceano era bonito, eu via o Super-Homem destruindo MIGs soviéticos. Estava bravo com o Super-Homem, não porque fiquei do lado dos russos, mas porque ele estava matando outros seres humanos, quebrando seu juramento. Eu voava em direção aos aviões e procurava salvar os pilotos, mas o Super-Homem estava possesso e matando geral. O Super-Homem era rápido demais, era apenas um risco azul que logo desaparecia de vista. Como um elétron, não o via de fato; só de observá-lo, ele mudava de direção imediatamente. Esse sonho não foi tão bom, porque estava frio – eu realmente sentia frio durante o voo, assim como sinto gosto de comida durante os sonhos! – mas não foi propriamente um pesadelo. No entanto, estava frustrado até mesmo ao acordar. Não havia conseguido salvar ninguém.


Daniel Souza Luz, 10 de maio de 2015.

Arte de Gil Kane para o mais notório Lanterna Verde, Hal Jordan. Foi uma honra ser colega de Jordan por uma noite.

Sunday, May 03, 2015

Poliódio

Maria caminha cabisbaixa, rente às paredes das velhas casinhas, todas com as frentes coladas à calçada. Eventualmente tem que se abaixar, devido a alguma janela aberta, sempre essas de madeira, mas não desvia do seu caminho, longe da rua. Para para pensar por um instante: será que tem medo atávico de ser atropelada ou teme sair da casa dos pais? Não consegue ver sentido em nenhuma das duas coisas ou ver algum sentido no jeito como caminha, mas deve haver algum. Desiste de se auto-analisar e segue seu caminho. Prefere seguir no fluxo. O instinto, sem pensar muito, é poesia. Foi a poesia que a ensinou isso.
A faina foi extenuante. No momento, tudo o que quer é tomar um banho quente e não pensar em nada. Mas não consegue. Bola um novo poema pouco antes de chegar e já corre para o computador. Atualiza sua página, mas ninguém dá atenção por mais de meia hora. Enquanto espera por alguém curtir a publicação, arruma uma treta com um moleque, amigo de uma velha amiga, mas uns cinco anos mais novo, o qual escreveu um comentário estúpido: “mulher deveria agradecer por ser chamada de gostosa, mesmo não sendo”. Dá-lhe uma lição sobre feminismo, mas o fedelho responde cinicamente a todos os argumentos. Vermelha de raiva, fecha a tampa do notebook com força e começa a se despir para se banhar. A mãe, passando pelo corredor, atenta à cena, pergunta o que foi aquilo. Maria não responde objetivamente, apenas murmura um “Não foi nada não” e vai pro chuveiro.
Refeita, vai jantar. Dona Zulmira a observa, preocupada. Até mesmo Maria chama a mãe de “Dona Zulmira”, como se Dona fosse o primeiro nome de Zu, como ela realmente gosta de ser chamada. Apenas o pai de Maria, falecido há pouco, chamava Zulmira de Zu.
- Filha, o que você tem?
- Nada Dona Zulmira, tô bem!
- Agora você até está. Mas você não está bem. Mãe não se engana.
Maria continua a comer, quieta. Não quer se irritar mais. Desde que abandonou a igreja evangélica que frequentava com os pais, sentindo-se desobrigada com a morte de Zé, seu velho pai, ela vem sendo mais questionada pela mãe.
- Filha, você está ficando velha. Precisa se casar, como seus irmãos.
- Mãe! Eu por acaso preciso ter filhos, me casar, ser como os outros? Isso é normatização.
- Fico feliz por você me chamar de mãe. Eu sou sua mãe, sim.
Maria fica desconcertada. Depois de um silêncio desconfortável, a mãe resolve quebrar o gelo jogando lenha na fogueira para o circo incendiar-se sem chance das chamas serem debeladas.
- Maria... Por que você não volta com o André? Um menino tão bom...
- Mas que heteronormatividade, mãe! Eu não sou mais como era; ele é religioso, machista. Aceita que eu sou ateia agora. Aceita, mãe.
Dona Zulmira sabe que tem mais dois fatos incômodos que ela tem que aceitar. Aceitar, ela aceita. Mas queria um netinho.
- Maria, se você quer ter vários namorados...
- Não são namorados. Não quero ter. Não tenho ninguém e ninguém me tem, não sou propriedade de ninguém. E não são só, como você chama, namorados...
- Eu sei, eu sei.
- Então tá bom assim.
- Se está bom assim, por que você não é feliz? Você está sempre infeliz. De cara amarrada. Brigando com todo mundo.
- Eu sou feliz.
- Eu sei que você não é. Você fica nesse computador o dia todo, brigando com os outros.
- Eu não faço só isso. Eu saio com minhas amigas. Eu administro a minha página. Eu escrevo. Eu gosto disso. Eu tava brigando com um menino machista. Eu não aceito mais esse mundo patriarcal.
As frases saem num jorro. No que a mãe rebate de bate pronto.
- Mas você não é feliz.
- Eu sou feminista. O mundo é cruel e me estresso mesmo. Eu tenho que exercer a sororidade, minhas irmãs precisam de mim. Já te expliquei o que é isso.
Zulmira se irrita.
- Você fica falando de amor livre... A Augustina é minha amiga.
- Isso é passado. Põe uma pedra nisso.
- Você foi lá fofocar sobre o filho dela pra namorada dele que tava na Bélgica. Eles se separaram por sua causa. Você sabe. O menino tá com depressão até hoje.
- Eu era outra pessoa na época.
- Mas a sua amiga Alice pode chifrar a Carol que você não fala nada? Cadê sua sororidade com a Carol?
Maria fica muda. Atônita.
- Como você sabe disso, mãe?
- Não interessa. E o assunto não é da minha conta. Não é da sua conta também, mas você passa pano para tudo que a Alice faz, só que você deveria era cuidar da sua vida. Tá na sua cara que você não é feliz. Na sua cara.
- Para de fingir que é jovem, mãe. Passar pano. Passar pano – ironiza Maria, imitando a voz de Zulmira.
- Quem finge ser algo que não é, é você. Eu só falei algo que você me ensinou. Mas você entendeu o recado. Para de viver em função dos outros. Você é que finge ser algo que não é.
- Olha aqui...
- Não vou olhar nada. Sou sua mãe. Não sou patriarcal. Você pare de fingir algo que não é. Você sempre quis ter filhos, se casar. Todo mundo muda, mas ninguém muda tanto assim. Para de fingir ser quem você não é para bancar a grande feminista. Você pode ser, sem ser essa farsa infeliz. Para de odiar o mundo. O mundo é o mundo. Você não odeia a Alice que faz do mundo um lugar ainda pior. Você não acha que a Carol não vai sofrer por culpa dela? Então para de odiar os outros. Você era uma menina boa. Não tô falando pra você voltar a ser uma menina. Tô pedindo para você voltar a ser uma pessoa boa.

Maria engole em seco as lágrimas que se recusa a derrubar em frente à mãe. Tranca-se no quarto. Abre o notebook. Duzentos e setenta e sete pessoas curtiram o poema que postou no início da noite. Sente-se enternecida. Sendo assim, consegue dormir.

Sunday, April 26, 2015

Os verdadeiros guerreiros da verdade do verdadeiro metal

Jairo e Juliano chegam juntos à casa de shows, a mais conhecida a abrigar shows do forró na cidade interiorana, cujo calor derrete quem está à beira da piscina e ainda mais os dois e todos os que estão na porta do lugar, um deserto de asfalto e concreto. Ambos vestem preto e logo identificam seus pares.
- Aqui que é o Tijuana Bar? Não tem placa...
- Opa! Vamô quebra tudo com uns déti metal com nóis.
Apresentações feitas, simpatia imediata.
- Então, nós somos da banda de fora.
- Qual banda? Eu sou um dos organizadores. Não lembro de banda de fora...
- Do Virgin's Immolation.
- Ah é! Mal aí, já virei um tubão. Cadê os equipos d’ôces?
- Vamô lá pegar.
Tucano não perde as piadas no caminho. Sugere que Jairo e Juliano seria um bom nome para uma boa dupla caipira e que não era para eles tocar viola no show não. Os dois riem, mas ficam putos por dentro.
- Ô Ricardo, abre o portão aí pros meninos do Virge Immolation montar o palco, brinca Tucano. É o jeito dele, pensam.
A cena parece um hospital de campanha. Vários desfalecidos deitados no chão, vomitados. E o show nem havia começado.
- Falaí, seus poser!
Era Zé, o único contato de Jairo e Juliano na cidade.
- Cê que é um comedor de sucrilhos!; vociferam de volta, em uníssono.
Sentindo-se mais à vontade, os dois enchem-se de expectativa. A bateria eletrônica é plugada e devidamente programada. Eles não têm mais paciência com baterista; está todo mundo velho, os amigos não dão mais conta de tocarem rápido.
Sobem ao palco. Serão os primeiros a tocar, para poderem pegar estrada e voltar cedo. Todo mundo trabalha na segunda de manhãzinha. Antes do primeiro acorde, chega a polícia.
Tá cheio de “di menor” bêbado e o comissariado não perdoou. Venderam uma demo em fita, como antigamente. Coisa do demo. Voltam felizes apesar de tudo; missão cumprida.

Monday, April 20, 2015

Carta de Despedida

Lillehammer, 1994
Estava ouvindo uma música do Sport, uma banda francesa de emocore. Quando prestei atenção à letra, fiquei arrepiado. Foda-se se você acha clichê por ser o tipo de som que é. Foi por acaso, já gostava da música. Deu vontade de postar a música e a letra, mas quem vai entender que é algo tão especial em meio às montanhas de futilidades alheias? Algo intenso que jamais será sentido por outrem. Fiquei emocionado porque me lembrei de você. Não só de você, pois a letra me trouxe uma lembrança muito terna de uma menina que foi (ainda é) muito bacana; me lembrou mais a minha vida no último ano e de muita gente que passou por ela do que especificamente você; mas fomos namorados, então também me lembrei de você avassaladoramente, porque você irremediavelmente fez parte do tornado contemporâneo.
Não te odeio mais. Te odiava porque te amava, mas o amor é mais forte do que o ódio – e o esquecimento é mais forte do que tudo; não ter nada a ver com perdão, note bem. O ódio foi embora, junto com tudo que não é lembrança. O amor acabou sem aviso, num “puft!”, sem razão; começa irracionalmente e acaba do mesmo jeito. Acabou quando notei que não me importava mais se você estava bem ou não; por mais detestável que você fosse, ainda me preocupava com seu bem-estar. Foi bom dormir com você aqueles dias, eu tinha te matado dentro de mim. Você está viva agora, uma lembrança no meu coração. Espero que não entupa alguma artéria.

Thursday, April 16, 2015

Hakai 6

Politicamente correto
É o meu pau
No seu cu

Sunday, April 12, 2015

108

O seu cachorrinho acompanha-a, quietinho. Empurrando uma bicicleta. Ele nunca ouviu I Wanna Be Your Dog. Podia cantarolar sempre, no entanto.
Vegano, bonzinho. O passado de playba enterrado com visual hippie e muita aula de yoga. Espancava um moleque na escola que gostava de Shelter. Fazia bullying com quem ele teoricamente pensaria de forma semelhante anos depois. O garoto humilhado sequer reconheceu o seu antigo antagonista, que caminhava de cabeça baixa atrás da companheira. Sorte do garoto. O fascista zen, como diria Jello Biafra, sorriu cinicamente, encarando onde pisava com saudades de pisar em alguém.
Chegaram em casa e puseram um vinil da Janis Joplin. Fumaram um banza, brisaram por uma meia hora e treparam. Logo depois ele vestiu uma camisa da seleção e correu para a manifestação com um cartaz, belamente desenhado, pedindo golpe militar. Sua companheira ficou estupefata. Lembrou-se do velho ditado que tanto ouvia do pai, um velho punk – never trust a hippie.