Tuesday, August 28, 2012
Só dói quando sonho
Wednesday, March 28, 2012
Luta amada
Este texto faz parte da 5ª Blogagem Coletiva #DesarquivandoBR
Monday, April 11, 2011
Garotas têm ritmo
Uma visão embaçada: sua mão envelhece junto à de alguém em um baile de debutantes. Determinada a encontrar um único amor que a acompanhe por toda a vida, ela recorre aos conselhos de uma autodenominada cigana – uma hippie suja rodeada por cabeludos imundos. Envolvente, a mulher convence a garota, imbuída de ideais românticos, a organizar um baile de debutantes temporão – ela iria fazer 16 anos. Sem problemas; o dinheiro dos pais bancou tudo, da festa na qual deveria aparecer o predestinado à alegria da “cigana”, que também tem o dom de desaparecer sem deixar rastas.
O baile começa pontualmente no dia marcado. A banda contratada para tocar Evanescence e Paramore tem até uma vocalista que lembrava simultaneamente ambas as homenageadas e também a “debutante”. Todos os bicões são bem-vindos; a escola em peso comparece. Um deles havia de ser. Tudo corre bem, mas só o galã de novela contratado especialmente para a valsa de abertura dança com ela. Fora isso, nem sequer o pai. Ninguém chega junto. Então ela sai à caça do amor eterno.
Todos pulando, alguns se beijando, ela observa, nada. Até que ele a encara e ela vislumbra o inferno, em flashes de câmera lenta, uma alucinação bem acurada: primeira vez bruta e dolorosa, ciúmes doentios, traída mesmo no dia do casamento, espancada na frente dos filhos, entedia-se dentro de casa e agoniza sozinha. Ela se vira horrorizada e topa com uma ruiva sorridente. Dançam juntas. Não é o que esperava e não vê futuro algum. Melhor assim.
Wednesday, June 09, 2010
O monstro em cima da cama
O beijo assusta. Desejava-o, mas não tem sentido. Após todos esses anos querendo-a em silêncio sofrido tinha certeza que ela havia percebido seus olhares platônicos e os desprezado olimpicamente. O retribui por instinto.
Ela então pergunta se ele trouxe o DVD do Joy Division que ficou de gravar. Isso aconteceu em um sonho. Que ele não contou para ninguém. Nem sequer tem CDs do Joy Division. “Não, esqueci”. Sorri desconcertado. “Você está tão pálido”. Sonha com ela há três dias. Teve poluções noturnas, o que não acontecia desde a adolescência. Parecia real. É real, agora, mas não parece.
Ao longo do dia procura amigos com quem sonhou. Seus sonhos têm se passado somente à noite e neles tem a autoconfiança que sempre lhe faltou. Todos se lembram das conversas e riem de novo das piadas que contou.
À noite corre para casa. Agacha-se e olha embaixo da cama. Seu duplo o encara, arrasta-se para o meio do quarto, levanta-se e sai sorrindo com desdém. É mais alto, bronzeado, forte. Faz sentido. Ele encolhe-se debaixo da cama para de lá nunca mais sair. Agora tem a vida com a qual sempre sonhou.
Miniconto que fiz para um concurso literário do site Estronho e Esquésito. O tema era "O Monstro Debaixo da Cama". Não fiquei nem entra os trinta primeiros. Mas gostei do que escrevi. Depois pretendo reescrever e expandir esse continho.
Sunday, September 06, 2009
Adendo pós-parada forçada por D.O.R.T.
http://writinginahurry.blogspot.com/
Sunday, August 30, 2009
Diário de um condenado
Sunday, August 23, 2009
Enfim o fim
Em uma comunidade de extrema-direita, deram conta do sumiço inexplicável do velho, que tinha até um perfil no orkut, quem diria. Mas eles especulavam se não teriam sido membros do governo que teriam dado cabo dele. Velhos gagás. Queriam sair por aí batendo nesses caras em comícios, tal qual o velho clamava em seu perfil no orkut. Mas não relacionavam seu desaparecimento ao aparecimento da ossada. Isso foi o fim de tudo. Quando mostrei isso ao meu irmão, ele perdeu todas as esperanças. As tentativas governamentais de localização das ossadas, com ajuda do exército, eram patéticas, claro. Toda a investigação, tudo que ele havia investido, em nada sossegou seu desejo de enterrar meu pai em solo apropriado, católico. Para mim, no entanto, é como se o tivesse enterrado no dia em que acabamos com o velho. Está bom assim.
Sunday, August 16, 2009
Enfim parte 20
Mas resolvi fazer uma busca na internet. Não achei nada. Aí procurei no sistema de busca do orkut. Alguém tinha se dado conta do sumiço dele.
Continua.
Sunday, August 09, 2009
Enfim parte 19
Não chegariam mesmo a nós. Feito o teste de DNA, descobrimos que aquele esqueleto não era de papai. O velho canalha tinha o poder de ser traiçoeiro mesmo além-túmulo. Jogamos a ossada no quintal do presidente da comissão de desaparecidos, na capital. No bilhete, expliquei que provavelmente era de um guerrilheiro. Era mesmo. Estava estampado na manchete dos jornais, duas semanas depois. Um trotskista sem ligação com o grupo de meu pai.
Continua...
Sunday, August 02, 2009
Enfim parte 18
Depois de um bom tempo revolvendo a terra, Júnior o acha. Ele vai guardando os ossos dentro de um saco preto. Com suas luvas amarelas, mira o crânio por uns instantes antes de guardá-lo com um certo carinho, por mais estranho que isto possa ser. Observo tudo sentado contra a parede, com a tremedeira das mãos já controlada. As pernas, entretanto, permanecem trêmulas ao me levantar para ajudá-lo a pôr o corpo do velho na cova reaberta. O rosto está quase irreconhecível, amassado, o nariz torto. Enquanto ele começa a jogar a terra de volta, diz calmamente:
- Não se preocupe, o silenciador funcionou bem. Ninguém vai nos pegar. Moramos a milhares de quilômetros da família dele, pegamos ele sozinho na praia, estamos a centenas de quilômetros de lá. Não chegariam a nós, mesmo que achem o corpo.
Continua...
Sunday, July 26, 2009
Enfim parte 17
Refeito, Júnior me tira de cima dele. Deito do assoalho, todas as cores que enxergo balançam. Não controlo a tremedeira das mãos, só consigo virar a cabeça para ver Júnior esmurrando sem parar a face do velho. Um pouco mais calmo, ele vem até a mim.
- Obrigado, sempre soube que podia contar com você se houvesse um imprevisto. Deixe tudo por minha conta de agora em diante.
Continua.
Sunday, July 19, 2009
Enfim parte 16
Golpeio a mão que estava segurando a coxa. Tentei por força suficiente no golpe para decepá-la, mas só fiz um corte fundo. Ele se vira, segura o jorro de sangue com a outra mão, mas meto o falcão nela também. Ele mal protesta ou geme, logo volta a se deitar de costas, parece conformado em se esvair
Ajoelhado sobre ele, tenho que fazê-lo. Tomo impulso, seguro o cabo com ambas as mãos, sobe ao peito meu estômago, que se revira. Amargando nojo enterro o facão em sua garganta. Seus olhos saltados antes fixados nos meus escondem-se atrás das pálpebras.
Continua...
Sunday, July 12, 2009
Enfim parte 15
- Não pensei que um bostinha como você tivesse coragem de atirar.
Isto que é empáfia. Estancando o sangue que flui da coxa com a mão esquerda toda ralada, completamente detonado, o velho torturador ainda mantém do desprezo de quem domina a situação.
Ponho Júnior sentado, ele respira com dificuldade. Volto ao velho.
- Nunca me achei capaz também. O Júnior planejou tudo, ele é quem sempre teve em mente acabar com você. Apenas o segui. Mas você vai se foder é na minha mão.
- Um dia me encontrarão, vocês não podem encobrir todos os rastros, eles vão te pegar... vão descobrir tudo.
Continua..
Sunday, July 05, 2009
Enfim parte 14
- Você cava - ordena Júnior, liberando os braços do velho. O facão e o 38 que só agora trouxe ficam em minha posse. O velho começa o trabalho vagarosamente.
- Porra, isto não é uma escavação arqueológica, nós não vamos limpar artefatos e esqueletos com uma escovinha, anda com isso.
Subestimamos o preparo do velho. Ele se vira e acerta em cheio o peito de Júnior com a pá. Estupefato, vejo ele avançar sobre mim com os olhos saltados. Disparo três vezes, dois projéteis enterram-se no chão, o terceiro aloja-se na coxa do velho, que tomba na terra do buraco que fizemos. Chuto a pá assim que posso.
Sunday, June 28, 2009
Enfim parte 13
- Aqui está. Debaixo destes assoalhos. Se você tiver palavra, deixe meu neto em paz, pelo amor de Deus.
- Ah, pode ter certeza que ele vai concluir a academia e chegar a sua patente, como você sonha. – Júnior rebate friamente.
Arrancamos as tábuas aos golpes de facão, amassando-as com o pé, atirando-as longe. Júnior pede para que esperemos um pouco. Encaro o velho, que não abaixa o olhar momento algum. Não trocamos uma palavra. Júnior foi célere, logo volta com a pá que havíamos esquecido, porém, senti muito mais que todo o tempo da minha vida passar por aquele breve instante.
Continua...
Sunday, June 21, 2009
Enfim parte 12
- Você acha que sou comunista? Viu o jipe em que nós te trouxemos aqui? Deixa eu te dizer uma coisa então: obrigado por manter o país livre do comunismo, pois pude enriquecer. E você, como é o único animal aqui, e admito que você é um animal de certa estirpe, então vai nos levar onde papai está, pois é isto que os animais da sua espécie fazem: obedecem e rastreiam.
Mal se mantendo em pé, trôpego, pela primeira vez o velho me parece frágil. O tom de voz é quase suplicante, mas sua expressão se mantém feroz, mesmo quando ele cospe, ou vomita, não sei, uma considerável quantia de saliva tingida de vermelho.
Continua...
Sunday, June 14, 2009
Enfim parte 11
Para um senhor com idade relativamente avançada, o velho ainda era muito corpulento, manteve sua postura ereta, indicativa de força. Mesmo assim, Júnior o levantou de uma vez só, passando o facão em seu braço. O corte é nítido, mas sangue só começa a descer quando o discurso de meu irmão se encerra.
Sunday, June 07, 2009
Enfim parte 10
Meto uma bica nas costas do desgraçado. Quando ia repetir o gesto, meu irmão pede para me conter. Nem assim, o velho se cala.
- Ah, você! Os caçulas sempre são mais nervosinhos. Sabia que o irmãozinho daquela vagabunda amiga do seu pai quase conseguiu me chutar quando viu a gente comendo ela?
O mano recobrou a calma. Ele pisa calmamente no pescoço do velho.
- Se o que você disse a respeito da minha mãe é verdade, isto só demonstra a grandeza do caráter do meu pai...
- Comunista não tem caráter, são uns animais. Comunista sujo, seu pai era um comunista sujo, um porco. Foi destripado como todo porco, como o animal que era. Aposto que vocês são uns comunistas de merda também. Filho da puta.
Uma risada nervosa precede o derradeiro ato paciente do meu irmão para com aquele escroto.
Continua...
Sunday, May 31, 2009
Enfim parte 9
Finalmente, o silver tape é retirado da boca do traste, que não se faz de rogado.
- Filho da puta, filho da puta. Você é mesmo um, literalmente, seu filho da puta. FI - LHO DA PU - TA. Nós descobrimos, enquanto investigávamos seu pai, que sua mãe se envolveu com ele já grávida de um caixeiro viajante que desapareceu. Por que você acha que a data do casamento deles só precede em seis meses o seu nascimento?
Meto uma bica nas costas do desgraçado. Quando ia repetir o gesto, meu irmão pede para me conter. Nem assim, o velho se cala.
Sunday, May 24, 2009
Enfim parte 8
Sunday, May 17, 2009
Enfim parte 7
Lá está o saco de estopa no porta malas. Fico olhando para os lados, o tampo traseiro aberto. Fomos precipitados. Júnior dá uma volta, faz o reconhecimento da área, verifica que o local está realmente abandonado.
Não tenho coragem de carregar o saco. Júnior o arrasta como se fosse um cobertorzinho sujo, sem qualquer consideração, se preocupando mais com o facão na outra mão, admirando o seu corte. Quase sinto pena. A casinha ainda tem a placa da mineradora, entretanto submergiu na vegetação, crescente entre os assoalhos.
Sunday, May 10, 2009
Enfim parte 6
- É melhor que não chegue intacta, pense bem.
Não discuto. Só espero que conservemos sua utilidade.
Sunday, May 03, 2009
Enfim parte 5
A mesma cena se repete desde que tínhamos uns dez e onze anos, respectivamente. Uma orca sobe o chão e me puxa para o fundo antes que esta presa fácil possa esboçar uma reação. Uns socos na banha acabam por ter efeito de cócegas. Damos risadas batendo os queixos.
- Se movimente na água, não pare de nadar.
Obedeço por uns minutos, até quando deixa de ser divertido.
- O que foi?
- Estava pensando em todos os momentos que podiam ser como este, e que nos foram roubados.
Hora de prosseguir. Ele enfia bruscamente as toalhas encharcadas de volta na mochila. Sinal de que devo pôr de volta, e o mais rápido possível, as roupas suadas.
Continua...
Sunday, April 26, 2009
Enfim parte 4
Os filetes de suor que escaldavam meu rosto são subitamente envolvidos pela água do gélido filete que cai ao lado da cachoeira, e no qual me enfiei ainda de roupa. Que burrada. Meu irmão já está nadando só de cueca nas águas translúcidas do regato que segue diante da pequena queda d’água. Recolho-me assim que enfio o pé descalço n’água.
- Entra de uma vez, será que você nunca vai aprender?
Continua...
Sunday, April 19, 2009
Enfim parte 3
Deixo o motor morrer ao tentar transpor um cupinzeiro inconveniente, crescido bem no lado esquerdo em um trecho estreito da estrada. Pensei que seria recriminado, mas meu irmão abre um sorriso. Em alta rotação constante naquele pedaço difícil, não havíamos percebido o arrulhar manso das águas. Argumentei que estávamos um pouco atrasados devido ao terreno acidentado. Entretanto, ele já abria a porta. “Já prevíamos isto, não é mesmo?”, rebateu desnecessariamente, pois já rumava para a cachoeira, mochila nas costas. Desço atrás, me segurando em galhos que se partem com facilidade, mas me apóio aqui e ali.
Continua...
Sunday, April 12, 2009
Enfim parte 2
Os arbustos vão se quebrando no mata-burro. Em meio aos solavancos, os troncos partidos guincham ao raspar no assoalho. A trilha logo aparece. Está quase coberta pelo mato, mas é nítido o caminho em meio às árvores. A estrada para a antiga mineradora.
Iniciantes não percorreriam
Sunday, April 05, 2009
Enfim - parte I
A rua de terra batida morre em uma borracharia quase inacessível devido à lama frente ao portão de madeira. Sobre a pintura azul descascada das tábuas mal ajambradas está rascunhado porcamente com tinta preta: “Nao fazemos fiado”. Não há sinal de atividade. Batemos palmas. Ninguém aparece. Empurro o portão rangente. De dentro, sai um senhor calvo. Olhos vermelhos, barba rala branca, botinas cheias de barro, a roupa toda esgarçada. Não precisava chegar perto, mas ao se aproximar tivemos certeza que estava alcoolizado.
- Pois não? - é o sentido que parece ter o bafo de cachaça aspergido pelo ar que ressoa aos ouvidos e se insinua desagradavelmente narinas adentro. Gotículas de saliva pousam na minha bochecha.
Explicamos que ouvimos dizer que há uma antiga estrada que prossegue atrás da borracharia, e que gostaríamos de conhecê-la. Ele franze a testa e balança, parecendo se perguntar o que está fazendo ali. Depois levanta os olhos, mantendo a mesma expressão apalermada, dirigindo-os ao meu irmão. Por que estávamos querendo saber de uma estrada abandonada? Para fazer reconhecimento para um rali. E por que faríamos isso domingo de manhãzinha? É nosso hobby, um grande prazer, somos da federação de automobilismo off-road.
Contorno o galpão com o jipe. O espelho esquerdo raspa no muro; o espaço é muito estreito. Vagarosamente, evitando pedras pontiagudas enterradas na terra, dirijo paralelamente às árvores do fundo até um pequeno declive, onde há uma vegetação rasteira. O tiozinho explica que ali a estrada fazia uma curva, e que era só descer um pouco até uma trilha que eventualmente é usada por alguns moleques que nadam em uma cachoeira no meio da mata. Dou um dinheirinho para ele; abre-se um sorriso de dentes amarelados.
- Então vamos? – quase suplica meu irmão, ansioso.
O velhinho se espanta, mesmo ciente de nossas intenções desde que chegamos. “Vocês vão descer mesmo?”. Claro, é uma quatro por quatro, estamos acostumados. Nos despedimos, e ele, estranhamente, bate continência. Olho para meu irmão, que ignorou o gesto, mantendo o olhar fixo na descida. Ótimo, precisamos de foco.
Comecei esse conto mais longo em meados de 2004 e, apesar de a trama ainda avançar muito, deixei-o pela metade. Espero conseguir terminá-lo agora.
Sunday, March 29, 2009
Devaneio
Queria dormir e acordar no dia em que você nasceu. Ciente do retorno, lobotomizado quanto ao sofrimento inútil que passei, que passamos, e, mais importante, que te fiz passar. Com dez anos, não podia sair de casa. Com malícia, mais tarde, sairia correndo da escola, no meio do recreio, fugiria e iria ao berçário te ver. Você é careca, vermelha, feia, todo neném é feio, chorona, mas eu já te amo, te amo tanto que estou aqui, agora, com a alegria de viver intacta, olhando pelo vidro riscado, e me perguntam se vim ver meu irmãozinho e digo que sim, e meu pai está lá embaixo e vou lá chamar ele. Quando disse malícia, me entenda bem, não é a malícia que meu amigo Evandro, que nem conheci ainda, falava que queria ter se pudesse voltar no tempo e pudesse pensar como um adolescente sendo criança, não, eu não ia ficar folgando nas menininhas, fazendo elas de bobas. Não, só vou ser mais esperto, vou fingir que sou criança e vou a todos os lugares que queria ir e não podia, porque tinha medo, punham medo em mim, não sei, nem me ensinaram a andar de ônibus, bicicleta ou skate, aprendi a fazer isto quando era muito mais velho, nunca saía de perto de casa, a menos se fosse junto aos meus pais, mas agora não, não vou ter medo de andar na rua, de jogar no fliperama barra-pesada que eu sempre quis jogar. O que quero mesmo dizer é que vou ser puro, vou esperar você crescer, te vendo de longe, e um dia vou pegar na sua mão e te pedir em namoro, e a gente vai ficar junto desde bem novinhos, e tudo será melhor. Desço a rua do hospital direto para o fliperama, mas um desgraçado pega o meu braço e diz “acorda!”, ele parece ser um comissário de menores, um daquela época, só podia ser. Você não está do meu lado, e as fotos daquele tempo bom, que até tinham o cheiro gostoso das manhãs de 1986, aquele cheiro das bolachas de chocolate redondinhas que não existem mais, estão rasgadas ao lado da cama, picadinhos esmaecidos e malcheirosos.
27/05/2005
Sunday, March 15, 2009
O primeiro amor
Sábado à noite. Na cadeia, em um corró reservado para a garotada, para que eles não fossem currados pelos demais presos, ele pensa nela. Ela caiu da ponte que não ligava as duas margens, deixada pela metade, sem dizer uma palavra, ou demonstrar qualquer reação, chapada pra caralho. Seu nome era Paula, ao menos foi o que ela disse dez minutos antes de morrer depois de lhe fazer uma chupeta, a primeira da vida dele, por uma pedra. WJQ, as iniciais dele, estilizadas como sempre, estavam escritas à caneta no pescoço dela. Os policiais já sabiam, já as tinham visto pichadas e eles o odiavam. Ele começou a chorar, quinze anos, abandonado pela família, imaginando o encontro no motel, agora mesmo. Ela poderia ter sido sua namorada.
15/03/2009 – escrito originalmente em inglês e ampliado.