Monday, June 06, 2016

Swans

Era a nossa rua. Resolvemos que seria o nosso bairro.
As primeiras exibições de Warriors, os Selvagens da Noite na TV aberta foram um marco histórico para a minha geração. A maioria dos moleques, invocados ou não, queria provar aquele gosto de aventura fora-da-lei do filme. Sem armas, com senso de lealdade e resolvendo desavenças na porrada. As eventuais reprises iam amealhando mais adeptos do “ganguismo” de araque, com o passar dos anos oitenta. Quem não tem senso de aventura não vai entender que isso nada tem a ver com violência gratuita, perda de valores da civilização ocidental e outras asneiras de missivista de jornal provinciano – para citar um ser verdadeiramente pernicioso d’antanho, hoje transmutado nas fileiras de um exército virtual sem peias.
Então montamos a nossa gangue. Fajuta, claro. Nem lembro o nome, se é que tinha. Não tinha um Cisne, o líder do Warriors; nós todos éramos, numa estrutura horizontalizada, por assim dizer. E fomos tocar o terror, a nossa maneira. Ou seja, não fazendo nada, só ficando sentados na esquina, jogando conversa fora e tomando conta do nosso “território”, um conceito tão caro às gangues do filme. Nunca li o livro de Sol Yurick no qual foi baseado o antológico filme de Walter Hill, então não sei se é algo tão importante na trama original, mas imagino que sim. Para nosso bairrismo briguento sem brigas, era importante. Nosso território era aquela rua.
Finalmente, um dia, nossas vítimas vieram ao nosso encontro. Uns molequinhos menores do que nós que moravam na avenida que margeia o bairro, a João Pinheiro. Eles vieram jogar bola justo no nosso “território”. Nós os cercamos. Perguntamos se eles tinham pedido licença para jogar bola lá. Claro que não. Então os mandamos ir embora, pois aquele era nosso território. Fomos ameaçadores o suficiente para eles irem embora mesmo.
No dia seguinte, depois da escola e do almoço, nos sentamos sob a sombra da arvore da esquina. Então o molequinho mais falante apareceu. Sozinho. Desafiador. Com camisa de botão, penteado certinho e uma cara ingênua cheia de verdades. Alguém perguntou o que ele queria. Acho que fui eu.
- Eu conversei com meu pai e ele disse que não existe esse negócio de território!
Nós rimos e o mandamos embora. Ele se foi, obediente. Afinal, era menor que nós e estava sozinho. Assim que ele se afastou, um de nós, creio que o Paulo Augusto, adiantou-se e precaveu-nos.
- Sujou, galera. Acho melhor não ficarmos na rua um tempo, para não dar rolo.
Abandonamos nosso “território” umas semanas e não tocamos mais no assunto quando o reocupamos, sem discutirmos com mais ninguém. O menino não voltou lá com o pai dele. Não teve problema nenhum. Nós éramos mais bundas-moles do que Os Órfãos, a pior gangue do filme.

Monday, May 30, 2016

Conto para ser esquecido: Flipper

Conto para ser esquecido: Flipper

Flipper

Eu me lembro do primeiro fliperama em que fui. Meu pai me levou num que ficava na rua Assis Figueiredo, a principal rua central da minha cidade natal, no fim dos anos setenta ou no começo dos anos oitenta. Não me lembro bem das máquinas, a não ser uma, que tinha uma bazuca. Foi essa que meu pai me ensinou a jogar. Era um jogo de tiro, obviamente; você apertava o gatilho da bazuca e destruí os inimigos no campo de batalha. Não me lembro mais bem se eram tanques, jipes, mas acho que era algo assim. O que me lembro melhor é dos enfermeiros, pois não podia acertá-los, pois senão perdia pontos ou vidas. Forço a memória e não sei se estou viajando, mas acho que eram dois enfermeiros carregando um soldado numa padiola. Eram apenas riscos de luz, acho que verdes, na tela, projetando figuras simples sob um fundo estático. Fascinantes.
Eu lembro-me de quando vi o primeiro videogame, aquele do jogo de tênis, na casa de um vizinho (acho que era do irmão mais velho dele, que jogava na seleção brasileira de basquete; o Oscar chegou a visitar meu prédio), e de como achei tosco comparado com o Atari lá de casa. A mesma sensação deve ser experimentada por um garoto acostumado às caixas xis aí ao se deparar com um Atari ou esse jogo da bazuca que tanto me fascinava aos sábados de manhã. Pelo o que me lembro meu pai ia cortar o cabelo aos sábado de manhã e aproveitava para passar rapidinho no fliperama comigo. Esse lugar depois virou uma banca de revistas, onde comprei vários dos meus primeiros quadrinhos e hoje é uma loja qualquer, sem alma. Não que esse lugar tivesse alma antes, mas tinha para um garoto.
Mais velho, meus pais ficavam cabreiros quando eu e meu irmão fôssemos a fliperamas. Era algo “de marginal”. É claro que isso tornava ir aos fliperamas uma aventura irresistível. Óbvio, evidente, elementar, não tem como. Isso já era quando tínhamos uns doze, treze anos. Havia três fliperamas na cidade, que me lembre. O do Palace Hotel, cheio de raridades, como jogos dos anos quarenta – o primeiro importador de fliperamas do Brasil era da cidade, sei disso porque digitei o texto do filho dele contando essa história, pois ele os manuscrevia e não sabia datilografar/digitar – e o meu amado jogo de bazuca; o da Rua Rio de Janeiro, com duas máquinas de jogos de videogame que eram muito melhores nas máquinas (Ghosts and Goblins e Moon Patrol) e o da praça. Esse achava sinistro. Tinha um num antigo cinema que era muito, mas muito mais sinistro. Tinha não, ainda tem, mas acho que abriu depois. Sei lá por que é o único que ainda existe – se é que existe, eu nem passo muito por lá – e continuo-o achando meio sinistro.
De qualquer forma, duas das histórias que mais gosto de fliperama aconteceram neste da praça. Tínhamos medo de ir ao fliper, como dizíamos, por ficarmos encucados com as conversas de nossos progenitores de que lá só havia marginais e tal. Portanto, ir era irresistível, como já expliquei. Quando tomamos coragem, nosso amigo Márcio resolveu apelar numa máquina de pinball. A bola passou e ia inevitavelmente embora. Ainda batendo debaixo dos pinos, o Márcio levantou a máquina e a pôs de volta no jogo. Foi curioso, pois ele era magrelo e teve força para levantar aquilo. Era uma manha que ele tinha aprendido com os freqüentadores. Achou que ficaria impune. O dono ou empregado de confiança do dono só faltou pular por cima do balcão como num filme de faroeste. O Márcio levou um esporro que nos foi hilário e nem se abalou.
Na outra não estava presente, foi antes e foi hilária para mim ao descobri-la, quase me urinei de rir ao saber. Nosso amigo Evandro que me contou: o Márcio o chamou e a outro amigo, acho que o Paulo Augusto, para jogarem lá. Eles foram com os dois cus nas mãos, pois sabiam que o lugar era mal afamado. O Márcio, safo, já trampava de office boy e tinha as manhas das ruas. O que não mudava o fato de que ele era engraçadamente sem noção. Segundo o Evandro, eles entraram no fliperama fazendo de tudo para ser o mais discretos quanto possível. Eles, no caso, eram o Paulo e o Evandro. Ao entrar, o Márcio virou-se e falou para eles: “VIU, NÃO FALEI PARA VOCÊS QUE TODO MUNDO AQUI É GENTE BOA?” num volume de voz de fazer virar todos olhares de ódio do local para eles. Para mim foi como se ele tivesse cavado um buraco no chão e vindo direto contar o caso para mim. É claro que nada aconteceu. Eu nunca vi ou ouvi falar de treta de verdade no fliperama. Flipper para mim foi tudo isso de bom: seriado de televisão da infância, aventura da pré-adolescência e banda amada da adolescência em diante.

Monday, May 23, 2016

Young Gods, crônica de um show que perdi

Disse tanto que ia ao show do Young Gods na Virada Cultura de 2016 e não fui. O show deles seria junto com a Nação Zumbi.  Mistura insólita, uma banda industrial suíça dos anos oitenta com uma banda mangue beat pernambucana. Quando mencionava o show para quem conhece ambas as bandas as reações eram de completa surpresa. Surpreendente é, mas não fiquei atônito. Franz Treichler, do Young Gods, morava no Brasil no fim dos anos noventa (talvez ainda more, não sei). Lembro-me bem de uma entrevista dele para o Fábio Massari à época, no Lado B da MTV, na qual ele falava sobre isso – em bom português. Uma banda lendária, que queria demais ver.
A Virada Cultural de 2016, para mim, foi principalmente barulho – mas diferente do dos Young Gods. Começou com um show de grindcore num evento independente, pago, numa casa de shows (literalmente, no caso do palco) underground chamada Morfeus. Lá vi bandas com nomes sugestivos como Xico Picadinho e principalmente o Facada, banda cearense de grindcore, possivelmente a melhor no estilo no país. Assisti de pertinho e poguei muito, ou seja, diversão total para mim. Não bastassem as músicas deles, tocaram uma versão de uma das minhas músicas favoritas do Bad Brains, Sailin’ On. No dia seguinte, devido a isso, fiquei rouco – felizmente rouco.
Eu só havia visto uns poucos shows no famoso palco Test, em 2013 (quando ele era um evento de rua paralelo à Virada, totalmente independente) e mais alguns em 2015, quando uma banda de hardcore de um amigo, o Birão, chamada Sociopata, tocou na hora do almoço. Agora finalmente pude ver muitas bandas de grind/noise/HC de uma vez só – um segundo show do Facada na mesma noite, Rakta (já havia visto dois shows delas no passado, gosto muito; foi sem guitarra e com um cara na bateria), RG Noise City, Miazzo, uma banda engraçada chamada Os Capial – de Araraquara, vestidos como caipiras estereotipados, mas deixando claro que não era por desprezo à cultura caipira – e vários pedaços de shows.   
Um dos melhores fatos da noite foi que o palco Test mudou de lugar e voltou a ser perto do palco Rio Branco. Não queria andar para longe e correr o risco de ser assaltado. Então finalmente pude ver um show de uma de minhas bandas brasileiras favoritas, o Violeta de Outono. É uma clássica banda pós punk dos anos oitenta, única, com influências de psicodelismo e progressivo – elementos estranhos às bandas do estilo. Não tocaram músicas da época, só uma de uma fase intermediária. As músicas novas são muito voltadas ao rock progressivo. Tudo bem, não pararam no tempo. Mas quase dormi em pé – e isso não é figura de linguagem. O que não deixou de ser uma experiência interessante, pois comecei a sonhar de pé e vi uma mulher subir no palco e correr em direção à banda. Não havia mulher alguma, despertei em segundos, assustado por ter quase dormido, e fiquei olhando extático para o palco. Só os músicos estavam tocando, óbvio, sem incidentes. Não é todo mundo que tem direito a ter uma experiência psicodélica sem usar drogas – e eu tive!
Depois de vagar algum tempo vendo mais bandas de barulho e barulho, já estava quase dormindo de novo. Então, já de dia, começou o show do D.E.R., uma banda da qual gosto. Como nada estava me tirando muito do estado meio zumbi, não esperava muita coisa do show deles. Ledo engano. Foi só o show deles começar que eu despertei. Uma injeção de adrenalina! Ao vivo, na minha cara. Uma pancadaria impressionante – e se digo que é impressionante, podem ter certeza que foi, pois tinha visto inúmeras ao longo da noite e não era para estar impressionado.
Antes do show do D.E.R. terminar meus amigos que estavam comigo pediram arrego e olha que quem ama mesmo grindcore são eles – eu só gosto muito e estava empolgadíssimo, apesar de ter mais do que o dobro da idade deles. Eles são muito jovens, não sabiam andar em São Paulo, nem andar de metrô. Tive que levá-los à rodoviária. Chegando lá, achei que resistiria e voltaria para a Virada. Dei uma de ateu e deixei de acreditar nos Jovens Deuses. Deixei-me vencer pelo cansaço, comprei a passagem de volta e dormi. Satisfeito.

Monday, May 16, 2016

Titãs, crônica de um show perdido e de dois reencontros

Eu quase vi um show do Titãs, ainda com todos eles. Foi no fim dos anos oitenta, em 1989 ou 1990.
Deve ter sido em 1990. Eu já tinha perdido um show do Legião Urbana naquele ano. Precisava de autorização dos meus pais para entrar, meus eles não havia permitido. Falaram que era coisa de drogado. E o show deu rolo, o Renato Russo passou mal, correram boatos que seriam porque ele estava chapado demais – pelo o que me lembro da matéria da afiliada local da Globo na época, no entanto, foi uma mera intoxicação alimentar. Ainda havia muito histerismo por parte de professores e pais em relação ao rock nacional, por mais ridículo que hoje isso pareça. Anos antes, quando o RPM fez show na minha cidade, a professora de Ciências, de quem eu gostava, havia falado em sala de aula que não éramos para irmos ao show, porque Paulo Ricardo e companhia seriam todos uns drogados. Não me lembro com muita certeza de outro detalhe, mas acho que ela teria passado uma lista sobre isso para levarmos para nossos pais. A única certeza que tenho é esse discurso dela para nós, pobres alunos inocentes, que iríamos danar nossas vidas indo ao show do RPM. Eu meio que queria ir, mas nem fiz muita força, eu era novo demais, isso aí deve ter sido em 1987 – ainda bem que não fui, imagina que tristeza se o primeiro show da minha vida fosse do RPM?
O show do Legião Urbana na minha cidade, Poços de Caldas, foi em 1990, tenho certeza. Mas parece que o do Titãs foi antes, em 1989... Não lembro bem. O que eu lembro foi de uma ideia que parecia genial. Nós poderíamos ir ao show, meus pais haviam deixado, íamos comprar os ingressos na porta do ginásio onde ele ocorreria. Antes, durante a semana, nosso amigo Evandro, mais conhecido como Bugu, havia dado a ideia de fazermos as Olímpiadas da rua. Nós compramos medalhinhas numa loja de esportes e combinamos de fazermos as Olímpiadas no sábado, durante todo o dia.
De manhãzinha, fomos para o Parque Municipal. Havíamos comprados bastante medalhas. Fizemos todas as corridas possíveis: cem, duzentos, quatrocentos e oitocentos metros. Na pista de corrida do parque até hoje tem a marcação da metragem. Lembro que ganhei as corridas curtas, de cem e duzentos metros, disparado. Nas outras eu já não tinha fôlego.
Ao longo do dia, fomos “inventando” as modalidades possíveis. Lançamento de dardos (galhos de árvores), de peso (pedras), futebol, handebol (com bola de futebol mesmo, ou de meia, não lembro bem) e outros esportes olímpicos. Não valia skate e bike; natação não tinha jeito; apesar da piscina do Country Club ao lado, não éramos sócios. Havia gente suficiente para esportes coletivos, mas não lembro mais toda a galera do bairro que participou. Lembro dos amigos mais próximos, com quem voltei a pé para casa: Evandro, Márcio, Paulo Augusto e meu irmão Eurico. Lembro muito bem, porque foi um evento trágico para mim.
Voltávamos quando já era de noitinha, de tantas competições que inventamos – tínhamos muitas medalhinhas para distribuir, como já havia dito. Lembro que no caminho encontramos a irmã do Paula, a Ana Karla, também uma grande amiga. Ela estava com algumas amigas e elas nos disseram que estavam indo para o show do Titãs a pé – não era tão longe assim. Quer dizer, longe era, era um pertinho de mineiro, mas era no fim da avenida, uns dois quilômetros adiante. Eu achei estranho, era cedo demais para ir ao show. Chegando em  casa, tomei uma chuveirada. Encostei um pouco na minha cama para ler um Chiclete com Banana e... dormi. Dormi desmaiado. Exaurido. Acordei no dia seguinte, sem show. Não éramos os titãs que julgávamos que fôssemos. Fiquei tão puto que joguei todas as minhas medalhinhas fora. Quando encontrei o Evandro depois o xinguei pra caramba, coitado.
Eu vi os Titãs em 2015, finalmente. Desprezei-os completamente ao longo dos anos noventa e na primeira década dos anos 2000. Mas era ruim mesmo, pseudo-grunge e depois populistas populares, não era por causa do “trauma” do show perdido. Não me arrependo. Quando os reencontrei, já pela metade, num show da Virada Cultural no Largo da Estação em São João da Boa Vista, eu estava inteiro, apesar dos anos. Fui com minha amiga Danília, gente finíssima, que havia reencontrado depois de quase um par de anos nos quais ela estava morando na Nova Zelândia e para onde ela retornou pouco depois. Tanto o show perdido quanto o que vi são memórias boas, para acalentar. Melhor assim.

Monday, May 09, 2016

Chrome

Hora do recreio tinha uma peleja clássica. Bater figurinha. Perder uma figurinha difícil, nos anos oitenta, era o equivalente infantil a perder fortunas no pôquer ou no cassino. Até hoje deve ser assim.
Colecionei figurinha de álbum de carros, motos e aviões. Não me ligava nas de jogadores de futebol, populares até mesmo na Copa de 2014. Tenho vaga lembrança de colecionar da Copa de 1986, mas deve ser falsa memória. Ou dei o álbum de presente para alguém. Portanto, memória inventada. Devo mesmo é ter acompanhado as brigas por esse álbum. Porque figurinhas também já foram questão de sair na porrada para mim, por mais franzino e suscetível a apanhar que eu fosse.
Toda hora aparecia álbum novo. O que eu mais admirava era um álbum de “rock”. Não vou lembrar o nome nunca. Tinha logos de bandas de heavy metal, caveiras e tudo que moleque gosta. Era obrigatório gostar, assim como também era ler O Escaravelho do Diabo. Quem não fazia isso era carola mariquinha. Sei que é bobagem, mas quem ia explicar isso para nós? Ninguém explicou. Ah, também gostava das figurinhas do Guerra nas Estrelas, mas acho que nunca vi o álbum, só as figurinhas.
Na minha sala na escola tinha um amigo, o Alexandre, cujo pai era dono de bancas de jornal. Às vezes ele nos dava pacotinhos promocionais de figurinhas. As que eu mais gostava eram as cromadas, que tinham nesse álbum de rock/metal. Aquilo era lindo demais pra mim. Quando vejo livros gringos de ficção científica em sebos, especialmente os mais próximos do cyberpunk, observo como essa estética era forte à época, característica demais, e algo que não enferrujou; o que é cromado teoricamente é resistente à ferrugem mesmo.
Mas falava em sair na porrada por causa de figurinha. Na verdade, não fiz isso, mas sim uma apelação vergonhosa. Uma vez perdi uma figurinha da qual gostava, creio que uma de moto, e fiquei bravo com meu amigo que ganhou de mim na disputa. Ele se chama Emerson, era menor e eu colei chiclete no cabelo dele na mesma hora. Ele começou a chorar e fui embora. Impressionante como criança é cruel. De longe, vi um cara mega babaca, maior do que eu, da quarta série e repetente, que gostava de zoar os moleques menores, ajudando-o e cortando o cabelo dele com uma tesoura para tirar o chiclete. Naquele dia fui pior do que ele. Pior ainda: nunca completei nenhum álbum de figurinhas.
P.S. Sempre que vejo o Emerson na rua, procuro dar carona para ele. É, sinto-me culpado por aquilo.

Monday, May 02, 2016

Swervedriver, uma crônica para ler enquanto se fita os pés

Conheci o Swervedriver em 1991. Aliás, ouvi pela primeira vez em 91; em 1990, acho, já havia lido sobre a banda em alguma revista, suponho que na Bizz. A banda havia começado em 1989 e é conhecida como um dos maiores nomes da geração shoegaze. Mas não os vi sendo associados a isso à época, mas sim ao lurch: a primeira vez em que os ouvi, como estava dizendo, foi numa matéria de TV apresentado por um jornalista da Bizz, o Fernando Naporano, também vocalista do Maria Angélica Não Mora Mais Aqui. Por incrível que pareça, na Globo, e não numa rede de TV que prestava atenção no underground, como a TV Cultura, na qual descobria bandas maravilhosas. À época a Globo havia estreado um programa chamado Dóris para Maiores. Era estrelado pela Dóris Giesse, que havia sido apresentadora do Fantástico. A maior atração era um quadro de humor no qual ela interpretava um andróide, chamado Dorfe, contracenando com o Diogo Vilela. Era uma porcaria. Ela até tinha o physique du rôle para um papel, digamos, “cyberpunk”: loira de cabelo curtinho, andrógina, mas os anos oitenta já haviam passado e a TV Pirata já era. O principal é ela não tinha o zeitgeist e, de qualquer forma, este já estava em transmutação. O programa dela, no entanto, trouxe dois marcos dos anos noventa que estourariam de vez no ano seguinte, justamente os únicos quadros que prestavam: o Casseta e Planeta, no humor, e o quadro do Naporano, na música. Ele falou numa de suas reportagens sobre o lurch, o som barulhento ora em voga na Grã-Bretanha, mencionando bandas como o Silverfish e o Swervedriver, e mostrou a contraparte dos EUA, o então desconhecido Nirvana. Adorei todas as bandas e não imaginava escutar um disco de alguma tão cedo. Outros tempos estavam anunciados e o Nirvana já tava chegando ali na esquina.
Já o Swervedriver só fui ouvir de novo no primeiro jogo de videogame que tinha, com todo o respeito aos compositores de 8-bit, músicas de verdade, acho: por volta de 1994 ia, junto com meu irmão, jogar Road Rash, do 3DO, numa loja do centro que alugava o uso do console por algumas horas. O jogo tinha músicas muito legais do Swervedriver (Duel e Last Train do Satansville), Therapy?, Monster Magnet e mais uma cujo nome não tenho certeza, mas acho que era o Paw. Um ano depois vi clipes da banda no Lado B da MTV, mas disco mesmo só achei na era do MP3. Se tudo era mais difícil, por outro lado a dificuldade de acesso tornava as experiências de ouvir um som pela primeira vez em algo mais emocionante. Se estou romantizando o passado, desculpem-me, mas é a sensação que tenho, porque foram experiências tão marcantes que ainda tenho a memória delas.
E eis que um quarto de século depois de ouvir o Swervedriver pela primeira vez é anunciado um show deles no Brasil. Ontem, primeiro de maio de 2016, vinte e cinco anos depois daquela reportagem do Naporano, fiquei cara a cara com a banda. E mais perto que imaginava que conseguiria, em frente ao palco mesmo.

Comprei o ingresso meio em cima da hora, devido a algumas contingências, mas por um preço um pouquinho melhor ainda. Devido a problemas de saúde da minha avó, para ajudar minha irmã, não pude ir para São Paulo, onde rolou o show, durante todo o final de semana. Fui no domingo de manhã mesmo, depois de dormir tarde, para fazer um bate e volta. Estava pensando em ir mais tarde, mas peguei o ônibus no horário certinho, de manhãzinha, para encontrar meu velho amigo Daniel Ikuma, que também foi ao show, pois botei pilha nele. Conheço o Daniel desde 1999, quando fomos num festival chamado 48 Horas, no campus da Unesp de Marília, no qual vimos shows do Autoboneco, Biggs e Garage Fuzz. Companheirão de grandes rolês, como o show do Shellac que vimos em 2008. Chegamos ambos às 13:00 e já fomos direto para Liberdade, bairro onde fica o Cine Joia, a casa de shows onde seria realizado o Balaclava Fest 3, o festival que teve a feliz ideia de trazer o Swervedriver ao Brasil.
Na Liberdade, meu xará fez o check-in no hotel e fomos almoçar. O engraçado foi que eu já conhecia o bairro – ao menos a parte nos arredores do metrô – e ele, de ascendência japonesa, não. Botamos as conversas sobre punk rock em dia e ele me contou uma história muito bacana enquanto passeávamos pelo bairro: o bisavô dele ia lá comprar LPs de música japonesa, os famosos vinis de 78 RPM, nos anos setenta. Nos anos cinquenta eles já tinham vitrola em casa.
Depois de umas brejas, entramos no Cine Joia. Arrependemo-nos de ficarmos marcando muito tempo na porta, trocando ideia, e ainda gastarmos partes do tempo do primeiro show para comprarmos o vinil do disco mais recente do Swervedriver, pois havia poucas cópias; poderíamos ter feito isso assim que as portas se abriram e teríamos visto todo o show do Medialunas. Das bandas de abertura, achei a melhor. Um duo composto por um casal, guitarra e bateria. A baterista contou, antes de iniciar a música de que mais gostei, que ela foi ensaiada em meio aos cuidados do bebê deles. O som, enérgico, foi bacana demais e refletiu esse amor – ao menos para mim.
A segunda banda era mais para apreciar as dissonâncias psicodélicas. Também não tem baixista e se chama Quarto Negro. Lembrou-me velhas ilustrações de anúncios, acho que de cursos por correspondências, que via em revistas de quadrinhos infantis, nos anos setenta, quando eu era criancinha: estes anúncios tinham o desenho de uma banda com um cara bem ripongo tocando teclado. O tecladista da banda não tem o visu tão hippie assim, mas para mim ficou impossível não associar. Pouco depois veio a terceira banda, o Supercordas, a única das bandas nacionais do festival da qual já tinha ouvido falar; no entanto, nunca tinha ouvido. Optei por não ouvir nenhuma previamente, quis conhecer ao vivo – pois era assim que conheci muitas bandas nas antigas. A princípio não gostei, tinha algo de rock rural – estou sendo impreciso, não é bem isso – que não me agradou. O Daniel já tinha ouvido e não gostava. O público, começando a ficar mais numeroso, ou ao menos a se aproximar mais do palco, parecia curtir. De onde eu estava, num canto mais atrás, não distinguia o que estava sendo cantado. Resolvi chegar perto do palco e consegui discernir as letras. Aí comecei a gostar, pareceram-me boas narrativas. O som, entre o minimalismo em algumas músicas e mais sofisticado em outras, conseguiu me pegar. Deixaram para destacar politicamente no final o que já haviam mostrado no começo: o vocalista, também guitarrista, levantou um cartaz escrito “Vai ter luta”, em referência à reação ao (provável) impeachment da presidente Rousseff.
Por fim, depois de alguma espera, entra o Swervedriver. E começaram com Autodidact, do disco novo, como o Daniel previu, baseado nos setlists que viu. As bandas podiam variar mais, não é? Hoje tá tudo um pouco previsível demais. Mas já compensou de cara: a execução foi sutilmente diferente da versão de estúdio e, das músicas novas, é das mais bonitas, ao lado de Winter Dephts, que não está no disco e não fez parte da apresentação. Para mim foi curioso notar que quem estava no baixo era Mickey Quinn, do Supergrass, banda da qual nem sou muito fã – aliás, odiava, até ganhar o primeiro disco e descobrir que apenas Alright é que era ruim mesmo. Os clássicos finalmente vieram. Em Never Lose That Feeling aquela barragem de guitarra distorcida no talo, lembrando My Bloody Valentine, providenciada por Jimmy Hartridge, só veio no primeiro riff, depois ela não se destacava. Para mim fez falta; não sei se foi opção ou falha do som. Rave Down foi de emocionar. Em Son of Mustang Ford a batera do Medialunas subiu na beira do palco. Como pouco antes um cara tinha saído daquele canto e havia entrado uns malucos mais altos na minha frente, havia posto meu vinil recém-comprado em cima da beirada do palco e encostado no canto direito, perto das caixas de som. Foi a conta de tirar correndo o disco, ela quase pisou em cima. Ela dançou em frente à banda e pediu para o público segurá-la, já tinha segurança indo atrás dela. O público era quieto, não era de mosh ou pogo, só havia alguns cabeludos batendo cabeça – um com camisa do Pixies, lembro-me bem. Enfim, ela conseguiu que uma galera das bandas de abertura a segurasse para ela pular. Foi a única pessoa a fazer stage dive no show. Não é à toa que foi chamada de musa por uma mina, durante o show do Medialunas. Quando veio bis, resolvi ir mais para o meio, pois o retorno do vocal estava começando a incomodar o ouvido, no canto onde estava. O bis foi perfeito para mim, minhas duas músicas favoritas deles: Last Train to Satansville, muito foda, e Duel. Aí uma menina que estava colada no palco resolveu sair e fui para o lugar dela. Vi Duel a uns dois metros de Adam Franklin. Que noite! Ao me despedir do Daniel, em frente ao metrô Liberdade, fiz questão de abraçá-lo e dizer que foi uma honra ter visto esse show com ele.

Adam Franklin. Foto que tirei com celular no bis, durante o início de Duel, quando encostei no palco.
 

Monday, April 25, 2016

Bauhaus, uma crônica dedicada à memória de Fernando Faro

No fim dos anos oitenta era difícil demais ter acesso às bandas sobre as quais líamos em revistas especializadas ou nas de skate. Só mesmo mandando gravar fitas em lojas, no escuro, sem saber se o som era mesmo bom ou não, economizando dinheiro da mesada ou não comendo o lanche na cantina da escola. Outras alternativas eram vídeos de skate ou o Som Pop e o Vitória, ambos programas da TV Cultura. Se não tivesse disco da banda cujo clipe passou na TV, a única oportunidade de ouvir era aquela na TV.
Quando passou o clipe de Bela Lugosi’s Dead pela primeira vez eu fiquei hipnotizado. Já tinha ouvido falar de Bauhaus, imaginava que era incrível, mas aquilo estava além das minhas expectativas. Era mesmerizante. Só o Sex Pistols tinha me proporcionado isso antes: criei expectativas demais sobre a música e quando ouvi, não só não me decepcionei, como também fiquei fascinado com algo que foi além do que esperava.
O duro é que o videocassete de casa estava quebrado. Não havia previsão de conserto, ao menos tão cedo. Não havia como gravar o vídeo, portanto. E eu queria me lembrar da música. Sabia que o programa reprisava no domingo seguinte, à meia-noite. Eu e meu irmão resolvemos ficar acordados até tarde, só para vermos de novo o vídeo. Vimos e eu decorei mentalmente a batida, os acordes, os trejeitos de Peter Murphy no palco. Mas não era o suficiente. Descobri que o programa ainda reprisava na quinta de madrugada, lá pela uma da manhã. Nesse dia fingi que dormi e assisti mais uma vez essa última reprise do programa, sozinho, com o som bem baixinho. Lembrei-me com carinho disso em 1996, quando já estudava na Unesp, no campus de Bauru, e fiquei acordado até às quatro da madrugada para gravar um clipe no Lado B, nos bons tempos da MTV: Pinch, do Acetone, uma banda também soturna, mas com o som voltado para o indie rock. Nessa época eu tinha um videocassete que funcionava. É outro clipe do qual não me esqueço: além de me lembrar até hoje do Fábio Massari, jornalista e a apresentador do Lado B, brincar com a crítica gringa, que rotulou a banda de “rock descafeinado”, gravei uma versão do vídeo diferente da que foi disponibilizada pelo guitarrista da banda na web. Nunca mais vi a versão que registrei. A fita que gravei, infelizmente, oxidou.
A crônica parava no parágrafo anterior. No entanto, enquanto a arquitetava, li que Fernando Faro morreu hoje, aos 88 anos. Coincidentemente, conheci seu trabalho por causa do Bauhaus e justamente do que mencionei aqui. Enquanto esperava a reprise para rever Bela Lugosi’s Dead, eu e meu irmão assistimos o Ensaio, programa que Faro criou, pela primeira vez. Eu achava que tinha conhecido o Bauhaus em 1989, mas então foi em 1990, quando o Ensaio foi criado, pelo que acabei de ler num obituário de Faro. O curioso é que estávamos vendo só por ver, porque o convidado do programa era Caetano Veloso, que nós detestávamos – como os típicos moleques roqueiros da época e tal. Hoje eu também gosto do trabalho de Caetano, mas não foi por causa daquele Ensaio que foi ao ar, nós gostamos mesmo é do programa. O formato de somente o artista ouvir a pergunta, mas o telespectador não, foi o que nos chamou a atenção. Faro era genial em registrar as impressões do artista enquanto a pergunta, que só podia ser imaginada por nós, era feita. E verdade seja dita, o Caetano é ótimo contador de histórias. Nós dois adoramos u, causo que ele contou do Tom Zé: o colega ficou com medo de voar, arrependeu-se quando era tarde e pediu para sair do avião, dizendo, segundo Caetano, “para essa caravela, por favor!”. Rimos à beça disso, nunca esqueci. Continuei detestando a música do Caetano Veloso e 97,9% da MPB por um bom tempo, mas essa passagem e a exibição do clipe de Um Oh! e um Ah! no Som Pop, apresentado por Kid Vinil, me fizeram ver o Ensaio com o Tom Zé (naquele mesmo ano, pelo o que descobri recentemente num DVD da Trama).
Naquela época também, creio que em 1991, li uma entrevista de Daniel Ash, guitarrista do Bauhaus, na Bizz. Ele declarou que estranhou num primeiro momento que gostassem tanto da banda em um país tão ensolarado como o Brasil, mas que pensou bem e entendeu que as pessoas se deliciam com o que os transporta para outros lugares e culturas; sendo o Bauhaus tão inglês, rescendendo a chuva e frio, nada mais natural. Também acho. Agora também percebo que, ao começar um texto falando de Bauhaus e terminar celebrando o talento de Fernando Faro, acabo remetendo a uma das melhores características do Brasil, sem nenhuma novidade aí: esse caos que liga culturas díspares.

Monday, April 18, 2016

The Ex

Estávamos no show do Toy Dolls no Projeto SP. Pogando. Uma amiga já tinha me dado um toque e fiquei de olho na roda de pogo. Pelas características consegui localizá-la: cabelo curtinho e um decote bonito. A melhor amiga dela, com quem eu saia antes, queria se livrar de mim e conseguiu. Há uma famosa história de que um skinhead bateu no Olga, vocalista e guitarrista da banda, neste show. Não vi, já havia chegado junto e puxado papo. Foi uma aventura, pois havia duas meninas com as características que me foram passadas e duas estavam sozinhas. Fui na base do instinto e acertei. Estávamos nos beijando num canto quando aconteceu a confusão, se é que aconteceu. Eu estava relativamente bêbado e pus a mão dentro do decote, nem importei com quem estava por perto. Nem ela. Na mesma noite fomos para casa e transamos. No carro, na verdade, pois não tivemos paciência de esperar chegar. Essa é para casar, pensei, ao contrário do que rezava o ditado da época. A química não era da que se aprendia na escola.
No ano seguinte, 1989, voltamos ao Projeto SP. Show do Devo. Já morávamos juntos. A amiga dela fez bem de se livrar de mim, pois também me livrei dela, e ela estava certa: tínhamos muita afinidade. Éramos de uma intimidade mediúnica. Nem conversávamos tanto, pois estávamos sempre estudando juntos, e nos entendíamos sem desconcentrarmo-nos. Não era um show para pogar, mas pogamos juntos, abraçados, diante de amigos que riram da nossa cara ou ficaram atônitos. A banda que mais gostávamos de ouvir juntos à época era o Lärm, estávamos querendo pôr isso pra fora.
No último ano juntos fomos a um show do Okotô. Antes do show, enquanto esperávamos, fomos apresentados à guitarrista e vocalista, que fez uma observação sagaz: nós parecíamos irmãos. Estávamos ficando parecidos até fisicamente. Falávamos num tom de voz parecido e até o cabelo, já que o de ambos crescia, estava ficando semelhante. Seguimos com nosso "incesto" sem complicações até o fim da década. Formamos. Os empregos chamaram-nos para outras cidades. Trabalhávamos para pagar contas de telefone e não nos vermos. Só nos encontramos uma vez na década seguinte. Doeu quando a internet apareceu, muito depois.

*Miniconto livremente baseado em fatos. Fiz ao contrário do Kerouac. Os nomes das bandas é que foram alterados, assim como houve uma transposição temporal.

Monday, April 11, 2016

Throbbing Gristle, uma crônica

Ainda éramos crianças, pensando bem.
Ela me emprestava as Bizz Letras Traduzidas. Era nelas que descobria o que significava as letras das bandas que eu gostava por ter ouvido no rádio da cidade, ou na 89 FM nas raras vezes em que passava por São Paulo ou no Som Pop, na TV Cultura. Músicas do U2, The Cure, Sugarcubes, Jesus and Mary Chain e até das Mercenárias. Impressionava-me especialmente as letras do Ian Curtis. A primeira vez em que ouvi Joy Division, em uma reportagem sobre skate vertical no Realce ou no Vitória, que eram programas de esportes radicais que passavam na TV aberta, fiquei arrepiado. Era Love Will Tear Us Apart e saberia o nome da banda e da música tempos depois. Não me esqueço de quando lia uma HQ do Ranxerox na Animal uns anos depois, em 1990 provavelmente, e vi a música citada numa história, que também mencionava o Throbbing Gristle. Sabia que era uma banda a ser descoberta. Tudo se encaixava e ainda havia muito a desvendar.
O primeiro beijo foi quando ficamos sozinhos; brincávamos de esconde-esconde. Desajeitado. Pulsante, línguas duras e os dentes batendo-se. Foi só um e bastou por um bom tempo. Outro grande descobrimento.

Monday, April 04, 2016

R.E.M. - relato de um sonho lúcido.


Estávamos num restaurante na rua Paraíba. Conversava com meu amigo João Vinicius, mas não me lembro mais o que conversávamos e se já havíamos almoçado ou não. Do terraço vejo um disco voador pousar no centro da cidade. Disco por assim dizer, era um objeto afunilado e cinza, como um míssil; no entanto, pousou sem causar estragos aparentes. O céu estava muito azul e a cidade bem iluminada, o cenário devia refletir o meio-dia.

 Levanto-me para ver se havia mais algo de diferente. No local onde o OVNI pousou levanta-se outro objeto. Ele voa na nossa direção. Sobe para bem próximo de nós. É um caminhão verde. Vejo-o passar, como se estivesse transitando numa rua que sobe o morro à nossa direita, a rua Goiás, fazendo barulho de trocar marcha e com os pneus rodando. Penso num instante na falta de lógica daquilo e chego a uma conclusão: é um sonho. Estou sonhando. Como é bom ter sonhos lúcidos.

O restaurante não existe no mundo real. No lugar dele há um consultório médico. Volto para a mesa e digo para o João que ele não é de verdade. Ele ri.

- É claro que eu sou de verdade.

- Não é. Você existe, mas não é aqui, isso é só um sonho.

- Claro que não.

Diante da incredulidade dele, dirijo-me à mesa ao lado. Havia um sujeito moreno sentado nela, almoçando sozinho. Nunca havia o visto, mas o reconheceria quando voltasse à realidade, caso não fosse um construto. Abordo-o. Como estou no controle, quero ver até onde consigo bagunçar aquele cenário, antes de acordar.

- Cara, desculpe-me dizer, mas você é apenas projeção do meu ego.

Por que será que disse essa frase? Agora percebo que isso denota que eu não estava totalmente no controle.

- Como assim?

- Você não existe de verdade. Isso é um sonho. Você é uma projeção do meu ego.

Essa frase, de novo.

- É claro que eu existo.

Desisto de tentar convencer aqueles fantasmas que logo eles irão desvanecer. Se alguém dissesse isso para mim no mundo real, por que eu levaria a sério? Resolvo ir para a rua. Desço e encontro uma senhora muito simpática, de cabelos grisalhos pendendo mais para o branco. Lembro-me melhor de suas cãs do que do seu rosto, mas não era vincado, havia poucas rugas. Ela me cumprimenta e eu retribuo. Ela está decidida a conversar comigo.

- Sabe a Renata?

- Qual?

- A que fez faculdade aqui.

- Sei sim.

Não sabia. A Renata em quem pensei fez faculdade fora. Queria encerrar a conversa.

- Ela é reencarnação de uma oligarca da cidade.

Reparo em como essa senhora está elegantemente vestida, com um colar dourando e vestido laranja – o que talvez seja démodé no mundo real, mas sei lá, isso não me interessa.

- É mesmo?

- A família dela é muito boa gente.

Uma moça de uns quarenta e poucos anos passa pela rua. Ela tem os cabelos muito negros, mais rugas do que a senhora que conversava comigo em frente à porta, um belo sorriso. Ela me dá um tchauzinho com a mão pela porta e aceno de volta.

- A senhora me dá licença – atalho e saio para a rua. Não vou atrás da moça que acenou para mim e nem espero pela resposta da senhora que conversava comigo. É o meu sonho, pô! Eu deveria estar controlando-o, pois estou consciente de que é um sonho! Mas não me irrito. Estou muito fascinado, assim que saio pela porta deparo-me com uma locadora de vídeos, onde pegava filmes para assistir no videocassete – uma locadora dos tempos do VHS. A locadora chamava-se Loc Luc e fechou ainda nos anos oitenta, no mais tardar nos primórdios dos anos noventa.

Livre de empecilhos, vejo que há um número razoável de pessoas caminhando pela rua. Grito com vontade:

- Isso é um sonho! Vocês não existem!

Mal abro o berreiro, aparece uma viatura da PM na esquina. Ressabiado, nem reparo na reação dos transeuntes. Por via das dúvidas, acho melhor parar de gritar. Porra, esses caras têm que reprimir até sonhos lúcidos?

Curioso: em vários sonhos lúcidos, desde criança, eu controlo tudo, até mesmo a construção da paisagem, conscientemente. Neste não está rolando. Mas, por outro lado, ele está durando mais do que os outros. Talvez sejam mesmo projeções do meu ego todos esses elementos que me impedem de circular livremente e modificar os cenários.

Quietamente, viro a esquina, pensando no tempo em que já estou acordado dentro do sonho e ainda não despertei. Uns dois minutos? Talvez três. Acho que nunca durou tanto. Quando penso em gritar novamente para as pessoas que elas não existem, vejo que a rua Goiás está vazia. Então ela desvanece. Foi só isso e foi tudo isso.

Monday, March 28, 2016

Gang of Four (memória sobre skate e tretas na virada dos anos 80 para os 90)

A primeira pista de skate da minha cidade não existe mais. Três de nós quatro também não.
Gostávamos de chegar lá de manhãzinha. Pois no meio da manhã já estava o maior crowd, como dizíamos à época. Ou seja, lotada. Não vejo ninguém mais novo ainda usar o termo. Antes que aqueles tempos chegassem a termo e a pista passasse a ficar vazia, era a hora em que usávamos para aprender a andar direito, para não fazermos feio na frente dos outros. Era só um half pipe e mais nada. A pista de street construída em volta só tomaria forma em meados dos anos noventa.
Isso foi no fim de 1989, provavelmente. Já andávamos na rua fazia tempo, mas a experiência de andar no vertical era (quase) nova. Já havíamos ido andar nas pistas de cidades vizinhas, São João da Boa Vista e Varginha, mas nossos pais sempre faziam com que fôssemos embora logo, eram apenas pequenas concessões que faziam durante viagens. Em Varginha havia um bowl e até hoje me lembro da sensação mágica de andar brevemente numa pista assim. Em SJVB andei pela primeira vez em um half pipe e me apaixonei pela primeira vez, acho. Tinha uma local chamada Beth que era uma menina linda. Ela era linda MESMO (anos depois um amigo que fiz lá me disse que ela ser tornara modelo), desbocada e simpática – ela me falava oi e eu quase caía do skate. Muito diferente das meninas bonitas que eu conhecia, quase todas umas idiotas (as que ainda encontro pela vida, aliás, continuam cretinas, mas não são mais gatas). Andava bem e era mais velha, já devia ter uns 18 anos. Ela era alta e chegava alto na pista. Inatingível.  
Depois de algum tempo aprendendo o valor de acordar cedo e nos dedicarmos a algo – mas algo que valia a pena – já andávamos bem o suficiente para ficarmos em meio a todo mundo. Mas mantivemos o hábito de ir cedo, para andarmos mais à vontade, sem trombarmos sem querer em ninguém. O que podia dar treta. No entanto, ficávamos na pista até tarde, quase todo dia. Era bom ficar conversando, de qualquer forma, quando estava tão cheio de gente que tínhamos que ficar negociando de quem era a vez. Sempre tinha algum fominha, mas nada que gerasse maiores atritos. Mas era gente demais e celeumas surgiram, meses depois.
Surgiram rumores de que um moleque que andava bem, o Purga, estava com o skate novo porque havia roubado-o de alguém. Eu sempre vi o skate como um esporte honrado – hoje diria ético –, sem a estupidez do futebol, com suas faltas e ceras, desonestidade, tiração de sarro e brigas que iam se tornando cada vez violentas conforme fomos deixando de sermos crianças. Bem diferente de nós no skate, que torcíamos um pelos outros e nos incentivávamos. Utopia adolescente, claro. Com o passar do tempo, havia umas quase brigas lá. Uma tensão muda, uma guerra não declarada de carrancas no lugar de sorrisos. Talvez isso já tenha sido em 1991, pois me lembro de uma tarde em que sarcasticamente chamei o Purga de Collor, insinuando que ele fosse ladrão; não tenho certeza se os malfeitos do então presidente já eram tão evidentes em 1990. Ele ficou quieto. Meus amigos riram. Acho que um cara um pouco mais velho, o Juba, deve ter tomado as dores. O Purga deve ter contado para ele depois. Eu sei que esse Juba, que até então era alguém que só me cumprimentava e com quem eu mal havia trocado algumas palavras, e somente sobre skate, passou a me encarar quando eu chegava na pista. Nunca mais falou comigo. Eu só ia para lá com meu irmão e meus amigos mais próximos, o Maurício, o Evandro, o Paulo e o Márcio. Não me sentia mais à vontade. Mas não queria parar de andar na pista.
O clima, no entanto, pesou muito. As conversas eram cada vez mais “ganguistas”, embora não houvesse nenhuma gangue de fato. Voltamos a fazer mais street e a ir menos à pista. Andávamos em outros bairros e nas ruas do nosso mesmo, como antes, onde estávamos seguros. Não me esqueço, no entanto, de uma tarde. Nunca me esquecerei. Todo mundo resolveu fazer alguma outra coisa, jogar War, videogame, algo assim. Eram férias, meio de semana. Eu e o Maurício decidimos passar a tarde andando de skate e fomos, skate de baixo do braço, andar no bairro ao lado, interessados em uma transição de uma nova garagem. Enquanto caminhávamos distraidamente pela rua Berilo, a rua mais abaixo do bairro, perto de uma casa que existe até hoje, com duas estátuas de cachorro no portão, demos de cara com o Purga e o Juba, que vinham também conversando animadamente e com os skates debaixo do braço, como nós. Eles, com certeza, também toparam inesperadamente conosco e ficaram tão atônitos e mudos como nós. Achei que teria que, pela primeira vez, usar o skate para acertar algo que não fosse uma manobra. Cruzamos olhares atentos. Antes éramos, senão grandes amigos, amigos, de certa forma. Nada foi dito. Nada aconteceu. Seguimos nossos caminhos, incólumes. Éramos, francamente, uns meros moleques, todos assustados e nada durões. Não olhamos para trás. Eles talvez sim; nunca saberei.
Hoje, se os encontrasse, perguntaria sobre o episódio, mas não tenho como saber. O Purga morreu de AIDS, segundo me disseram, em 1992 ou 1993. Um conhecido me disse que ia visitá-lo no hospital e me chamou para ir junto. Contei o que aconteceu, ele insistiu para eu ir, fazer as pazes, mas eu era muito imaturo, disse que não. Nem achei ele iria morrer, mas na semana seguinte esse conhecido, o Alisson, me disse que ele havia falecido. Em 1995, já na universidade, quando vim passar um feriado em casa, meu irmão questionou-me se eu me lembrava do Juba. “Sim, aquele babaca”, respondi, atrelado à imagem do passado, ao que meu irmão retorquiu: “Pô, eu o encontrei há um mês mais ou menos, ele perguntou como você estava. Ele morreu ontem na estrada, indo para uma festa em Andradas”. Fiquei sem palavras. O Maurício não tem como confirmar minha história. Ele morreu em 1997, fazendo rafting.
Em 1999, com meros 24 anos, tive minha primeira crise de meia-idade, mesmo sendo muito jovem. Numa tarde, sei lá o porquê disso, lembrei-me do episódio da rua Berilo e dei-me conta de que era única pessoa que o vivenciou e que ainda estava viva. Não há descrição para a sensação de melancolia e de estranhamento que me abateu.
Um quarto de século depois daquela tarde da qual só eu restei para contar a história, a vida segue. Há uma frase de Jay Adams, lenda do skate, também já falecido, muito famosa. “Você não para de andar de skate porque fica velho. Você fica velho porque para de andar de skate”. Como os três daquele entrevero que não aconteceu de fato e do qual sou único sobrevivente, jamais ficarei velho.

Monday, March 21, 2016

Violeta de Outono

Corremos de volta para casa. Depois da aula havia pressa de viver. Normalmente andávamos rápido – às vezes devagar, falando alto grandes bobagens que irritavam os adultos que passavam por perto, despertando-os da indiferença maquinal – para chegarmos logo e almoçarmos. Já estava ficando frio e a mata que margeava a avenida pela qual voltávamos bafejava seu hálito frio sobre nós.
Após o almoço quase ninguém havia tomado banho. Nem suamos muito.
Indecisão. O que fazer? Truco valendo grana. E se a polícia ou o comissariado de menores passasse na rua? – alguém aventa essa possibilidade, logo desprezada.
Ninguém sabia jogar pôquer. Então vai truco mesmo. O dinheiro apostado: notas amassadas de Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e principalmente Machado de Assis, que não valia quase nada nas nossas carteiras e mentes. Essas tinham carimbo de cruzado novo. As outras eram valiosas demais para nós, pirralhos que éramos. Mal sentamos na calçada e somos interrompidos.
 O síndico do prédio, burocrata desalinhado, saindo do almoço, indo para o trabalho, passa e olha com reprovação.
- Jogo de azar dá cadeia. Ou vocês somem daqui da frente ou chamo a polícia.
Rimos da cara dele. Então o Fred conjetura que se a polícia vier, talvez todos perdêssemos o dinheiro. Então meu irmão e eu convidamos todos para jogarmos em casa. Uma dupla espera, as outras duas jogam, vamos começar o jogo de novo; esse não valeu.
Eu e Fred estamos contra o meu xará Daniel e o Paulo. Tá meio que pau a pau, mas abrimos vantagem. Inventamos de fazer sinais falando alto nomes de personagens da Marvel, daí sabíamos as cartas que o outro tinha. Meu xará e o Paulo não eram de ler quadrinhos. Mas eles deram aperto e numa seizada caímos que nem Tio Patinhas, devido à ganância injustiçada. Afinal, havíamos decidido, antes de começar a jogar, já fora do perigo da rua, que o jogo não vale dinheiro. Não tem que ter sentido não, não tem essa. Desistimos de perdermos grana e boa, vai que dá briga.
Ficou 14 a 13. Eles podiam namorar as cartas um do outro. Eu e meu parceiro estamos inconformados com a virada. Eles decidem ir. O Fred só me diz Thanos. Ou seja, não tem nada. Eu balbucio um Homem-Aranha. Ou seja, só tinha um mísero ás.
- Já saquei o código deles, eles só têm um ás – sacaneia Paulo, rindo com desdém. Ele era esperto.
Fomos para o abatedouro. Conseguimos segurar até a terceira rodada, a primeira deram para nós de graça, forçando-me a matar o rei deles com meu ás.
- Falei! – zomba Paulo.
Então acontece o inacreditável. Meu xará solta um truco com gosto, grita e sobe na cadeira, triunfante, assim que ganham a segunda.
- Perdeu! – Fred não perdoa.
Meu irmão e o Márcio caem na gargalhada; olhavam a partida com certo desinteresse, até então. Eu e Paulo ficamos atônitos. O meu xará não. Até repete.
- Truco!
- Você não pode trucar! Tá com quatorze!
- Ai, esqueci! - murchando.
O Paulo levanta da mesa, abre a porta e vai embora, sem dizer uma palavra. Está furioso. Mas todos sabem como ele é avesso a brigas. Todos estamos gargalhando a ponto de faltar ar, menos meu xará, que, derrotado, também abre a porta e vai embora chorando.
Ninguém quis jogar mais, embora tivesse outra dupla. Depois dessa, pra quê?
Fomos pra casa do Evandro. Já tinha menos sol. O chamamos para jogar bola. Depois de fazer algum cu doce, como de costume, ele topa. Falta um. Já íamos à casa do Rodrigo, mas ele aparece espontaneamente na rua, justo quando estamos de volta.
Dois na linha e um no gol. Já basta.
- Mas você tem que dar chutão?
Jogamos na minha rua mesmo, que é uma DESCIDA. A bola sempre vai longe, na rua de baixo. Alguém sempre se fode pra buscar. O par ou ímpar para ficar com o gol do lado de cima é vida ou morte.
Mas é só vida mesmo. O tempo passa rápido quando nos divertimos, todos sabem. Mas a tarde está passando devagar. Tarde eterna, fundindo-se a outras tardes nas quais as regras não escritas foram apreendidas por todos nós, ali. Por isso não gostávamos quando alguém de fora vinha jogar, a menos que fosse algum amigo muito amigo de alguém, que logo pegasse todas as regras etéreas de cabeça. Às vezes isso acontecia. Ninguém aparece.
Dou outro chutão. A bola cai mais longe desta vez, dentro do jardim da casa da esquina. Cai justo no canteiro das flores. A senhora que morava lá, mal encarada, com uma voz rascante que intimidava-nos, na verdade era boazinha e sempre deixava que nós pegássemos as bolas que caiam lá dentro. Desta vez, pulo a cerca e pego a bola sem dizer nada. Uma pulada de cerca inocente. Matei todas as flores dela. Restou uma violeta. Que nem sei se é uma violeta. Até hoje.

Monday, March 14, 2016

The Smiths, uma minicrônica à guisa de poesia

Escrevi uma poesia chamada The Smiths.
Provavelmente não a publicarei.
Talvez algum dia a leia em algum sarau. Se isto acontecer, preste atenção. Será a única chance.

Monday, February 29, 2016

Mekons

Trabalhei a semana inteira. Ao menos ganhava horas extras, à época. Quem é que paga isso hoje? Se você não fica até mais tarde sem ganhar nada te consideram como alguém sem compromissos. E o grande problema é que os temos.
Jornalixo te obriga a cobrir milhões de questões irrelevantes em um curto intervalo de tempo, interessantes apenas para os políticos nelas interessadas. Quem mais pode se interessar por aquelas merdas? A questão é que naquele dia, naquela semana, há 14 anos, havia chegado do serviço às dez da noite. Havia acordado às sete da manhã e entrado às oito. Estava trabalhando alucinadamente por 14 horas, não havia nem almoçado. Sorte que havia parado numa coletiva na qual havia comida, lá pelas duas da tarde. Ao chegar em casa, não queria nem comer, nem tomar banho. Queria tanto ler, ouvir música, ver um filme, que são meus direitos humanos básicos, negados pelo empregador escroto de então. Apenas desabei no sofá e dormi.
- POR QUE VOCÊ NÃO TRANCOU A PORTA?
Nunca vou esquecer deste grito. Porque estou morto, porra, você me viu saindo cedo para trabalhar, olha a hora em que estou voltando. Que raiva, caralho, não dá para ter um mínimo de empatia e simplesmente trancar a porta ao notar que ela está destrancada, sem acordar ninguém?
Só agora, quase uma década e meia depois, ocorre-me a resposta à pergunta, embora a resposta que tenha dado à época tenha sido a correta para o momento. O problema é que eu não estava morto, de fato. Queria que alguém me fizesse este favor.

Monday, February 22, 2016

Killing Joke, uma crônica

No pátio da escola, por acaso, numa tarde do fim anos oitenta, enquanto matávamos tempo antes de ir embora, conversando, pois não havíamos matado aula e queríamos ficar lá marcando um pouco e socializando, fiz uma imitação do Escola de Verão, sei lá por quê. Devíamos estar conversando sobre provas ou estudar demais.
Era do personagem que tinha esquecido tudo, interpretado pelo ator que tem um olho de cada cor; o que esquecia até mesmo como que se comia, ou o que era um garfo, por ter estudado tão obsessivamente a ponto de surtar. Quando os pais dele fazem perguntas do tipo “Por que você não come?” ele responde “Eu não sei” e quando cai em si ele se desespera e começa a gritar “Eu não sei nada! Eu não sei nada!”. É um pesadelo do personagem e uma das cenas mais engraçadas do filme. Imitei perfeitamente, ou ao menos tenho a memória presunçosa de que o fiz. Meus amigos na rodinha choraram de rir, eu então mais ainda. Não estavam rindo da minha cara, estavam rindo junto comigo. Eu nunca havia sido tão popular.
Três dos meus amigos que estavam na roda chamavam-se, todos, Fábio, com uma exceção, o Cleiber, amigo desde a mais tenra infância. Perdi contato com todos, ao longo das décadas. Se os encontrasse e os perguntasse sobre esse fato em particular, será que se lembrariam disso? Provavelmente não. Eu passaria por mentiroso. Uma piada. Não a que contei.

Monday, February 15, 2016

The Chameleons

Vamos jogar bola?
Vamos.
Vamos andar de skate?
Vamos.
Vamos andar de bike?
Vamos.
Vamos jogar War?
Vamos.
Vamos fazer trilha?
Vamos.
Vamos brincar de esconde-esconde?
Vamos.
Vamos quebrar o pau, parar de olharmo-nos na cara e ficar de boa no dia seguinte?
Vamos.
Vamos jogar vídeo game?
Vamos.

Fomos.

Monday, February 08, 2016

Death, uma crônica protopunk

Foi uma viagem atribulada.
O anúncio do show do Death no Brasil foi surpreendente. Mais do que uma banda, é uma lenda. Não tem nada a ver com a banda de death metal dos anos oitenta/noventa, da qual gosto também e que ainda excursiona em homenagem ao fundador Chuck Schuldiner, já morto. O Death em questão foi formado por três irmãos negros em 1971, os Hackney, e lançaram apenas um compacto em 1974. Como as bandas mais importantes do protopunk (ou seja, que já tocavam punk rock antes do estilo existir), o Stooges e o MC 5, eles são de Detroit. Foram redescobertos já no século XXI e o disco com todas as gravações de 1974 foi lançado em 2009. Como no caso do Death do metal, o Death protopunk perdeu para o câncer o guitarrista e mentor, David Hackney, e excursiona em homenagem a ele, mas com um diferencial: como eles seguiram tocando rock cristão e depois reggae ao longo das décadas seguintes ao fim em 1977, chamaram o guitarrista Bobbie Duncan, da banda de reggae, o Lambsbread, e continuam fazendo músicas novas. Uma banda absolutamente fantástica; as gravações de 1974 lembram o que o Bad Brains, a banda fundamental para o surgimento do hardcore, também formada integralmente por negros, veio a fazer cinco anos depois. Já vi o Bad Brains ao vivo, não podia perder este show.
Meus problemas começaram aí: eles fariam três shows; um em Curitiba, de graça, mas longe demais e eu não teria onde ficar e dois em São Paulo, no Sesc Belenzinho. Ingresso barato, mas o duro é que esgotaram assim que começaram a ser vendidos na web. E eu só lembrei disso horas depois do início da venda, quando já estavam esgotados. Poderia pegar pessoalmente no dia seguinte, mas eu moro no sul de Minas Gerais. Solução: pedi para um amigo de Sampa, o Bruno Karnov, que também ia, para pegar o ingresso para mim.
A aventura começa aí: malandro velho, ele falou para eu relaxar e NÃO FOI PEGAR os ingressos. Tinha um jeito melhor. Era mesmo, mas meio desesperador para quem mora longe. Ele me pôs em contato com o Clodô Paiva, que conheci há um ano, num show de punk rock, que tinha um camarada que pegou uma cota boa de ingressos para quem precisasse. Na quinta, um dia antes do show, conversei com o Clodô, que me pôs em contato com o amigo dele, o Sandro, que trampa numa unidade do Sesc do litoral. Se não fosse o Bruno e o Clodô eu nem teria ido ao show e eles infelizmente não foram; o primeiro atarefado com a tríade tradicional do rock, mas sem o rock; o segundo foi trabalhar naquela noite.
Enrolado com o trampo e problemas de saúde do meu pai, não poderia ir na quinta. Matei serviço sexta à tarde, mas não me organizei bem para ir ao show: minha mãe passou mal sexta de manhã e a levei no hospital. Arrumei uma mochila mais ou menos, combinei mais ou menos para pegar o ingresso com o Sandro, minha mãe melhorou, minha irmã ficou com ela. Combinei de encontrar dois velhos amigos, a Aline e o Cardoso, e o Bruno falou para eu dormir na casa dele, mas resolvi voltar de madrugada mesmo, assim que acabasse o show. Peguei o busão às 14:00, atrasadaço. Queria chegar em Sampa bem antes do horário de pico. Todo mundo iria viajar devido ao carnaval, certeza que as marginais estariam entupidas.
Fui combinando com a Aline, o Cardoso e o Sandro ao longo da viagem usando o celular com parcimônia, pois eu não levei carregador. Ela já tinha chegado em SP e o meu ônibus indo devagariiiiiinho. Chegando em SP às 19:00, aproximadamente, surpresa: até que as marginais não estavam tão zuadas. Às 19:30, mais ou menos, eu pensei: é para eu ver esse show sim. Eu sempre compro bilhetes de metrô a mais para quando voltar já os ter no bolso. Valeu o show: a fila para comprar bilhetes ou encher o cartão único era quilométrica, nunca a vi tão grande. Pensei que só haveria gente saindo de São Paulo, mas tinha muita gente chegando também. Corri no metrô, satisfeito.
Quando desci na Sé, desespero. Sempre soube que a linha vermelha é emperrada, tem gente demais. Mas achei que neste horário, numa sexta de carnaval, estaria de boa. Ledo engano. Estava pior, horrivelmente pior, do que nunca. Os trens passavam lotadíssimos, quase ninguém entrava. Pacientemente aguardei até ser alegremente “ensardinhado” no destino Corinthians-Itaquera. Achei que ia perder o show. E para descer? Pedindo muito “por favor”, pois nunca tinha descido na estação Belém, para alcançar a porta esquerda em meio à turba. Foi fácil achar o Sesc Belenzinho. Tinha olhado um mapa antes, fui meio no rumo, e numa ruazinha segui dois caras negros e uma mina com camisetas de som, pois estava na cara que iam ao show. Iam mesmo, chegamos lá na hora certa, em meio a raios e trovões, bem quando começou a chover.
E agora não sabia bem onde era nada. O Sandro me disse que estaria de regata e bermuda vinho, vou em direção à bilheteria e voilá, vejo alguém trajado assim e pergunto: era ele mesmo, havia acabado de chegar também. Era para eu ver o show, pus na cabeça que ia ver. E vi.
Conheci uma galera na porta, o Bruno havia acabado de avisar que não ia. A Aline estava atrasada. Não tinha o telefone do Cardoso. Entrei e fui comprar um par de brejas e um sanduíche, pois não comia desde o almoço. A banda saiu por uma portinha atrás da lanchonete. Engoli o lanche e voltei para mesa onde a galera do Sandro estava. Quando ele e a namorada, Andréia, chegaram, eu corri para mais perto do palco. Estava perto do guitarrista Bobbie, daí decidi ir para o outro lado quando o baixista e vocalista Bobby começou a falar sobre a Motown e Marvin Gaye, como que era importante para eles, e tocaram algo que não reconheci, mas logo supus ser o Gaye. Queria ficar perto do Bobby, afinal ele canta aquelas músicas há mais de quarenta anos, e consegui ficar em frente, muito perto dele; pena que não dava para ver direito o batera tocando, o Dannys. Então sinto um toque no meu ombro, era a Aline, em quem dei um abraço e dois beijos, não um só, de felicidade. Dava muita vontade ir pogar no meio da roda quando tocavam músicas como You’re a Prisoner, mas eu tava cheio do lanche e com medo de passar mal. Preferi pogar por ali mesmo, de leve, com ela por perto.
O show foi lindo, não tem nem muito o que falar, senão estraga a sensação, indescritível para quem não vi(ve)u. Tocaram três músicas do “nuovo disco”, como o Bobby dizia ao microfone, uma melhor do que a outra, inclusive uma feita pelo guitarrista Bobbie, o único que não é da formação original – estão em forma, não é uma banda do passado, mas sim muito viva, sem mofo, vicejando deslumbrantemente. Não deixaram de mencionar o irmão David; Bobby apontou para o céu, disse que ele estava lá conosco. Houve mais comunhão até que no show do Bad Brains, uma banda em que a religião também desempenha papel central e que também enveredou pelo reggae. Tocaram Views, Keep on Knocking, Freakin Out, vários clássicos, e pensei, cabotino: essas músicas e eu, tudo o que de mais bacana que apareceu em 1974, estão se encontrando cara a cara agora, em 2016. Para fechar, antes do bis, minha favorita deles, a música quintessencial do que viria a ser o punk: Politicians in my Eyes. Um cara com camiseta da Alternative Tentacles que estava na minha frente foi pogar no meio, quase o segui, mas pensei: pogar, eu pogo sozinho mesmo, parte da graça é essa até.
Findo o show, após o bis, despedi-me de meus novos amigos e fui dar uma volta com a Aline para acharmos o Cardoso e o achamos. Enquanto conversávamos, do lado de fora, uma briga irrompeu atrás de nós e disse para afastarmo-nos. Um sujeito gordinho e outro com boina e suíças trocaram socos e ficaram se rodeando, punhos em riste e guarda baixa; uma cena muito semelhante com a do Gangues de Nova Iorque na qual os personagens McCloin e Amsterdã apostam um quebra-pau. Isso foi interrompido por dois amigos do gordinho, que chegaram chegando e socaram a fuça do cara de boina, que não caiu ao chão em momento algum junto (tanto ele, como a boina), auxiliando o gordinho. Um segurança, sozinho, separou. Não sei quem estava errado ou certo – pra mim, todos estavam errados – mas foi covardia os três socarem o cara. Separados o gordinho gritou “skinhead de merda” ao que o sujeito da boina, que tinha mais jeito de quem gosta de irish punk, respondeu: “skinhead é o caralho!”. Uma garota pôs o sujeito de boina para dentro e foi o fim daquilo.
Depois que o Cardoso se despediu, já íamos embora, quando lembrei que eu ainda tinha uma ficha para duas brejas, já pagas. Benditas cervejas; enquanto eu e a Aline púnhamos a conversa em dia – não conversávamos pessoalmente desde 2008, quando nos encontramos num show do Mudhoney – reparamos que havia uma banquinha na qual os caras do Death estavam dando autógrafos. Já havíamos procurado banquinha de material antes, mas não tínhamos encontrado. Ela me ajudou a escolher uma camiseta e comprei um pôster para autografar – o DVD com o doc sobre a banda já havia se esgotado. Após tirar uma foto com eles resolvi trocar algumas palavras, apesar da promotora que havia tirado a foto estar nos apressando para que a fila andasse logo, pois pensei “Porra, esses caras começaram a tocar quando viram os Beatles em 1965, que privilégio estar aqui na frente deles” e soltei um “I came from a small town so... so far away, thanks for the show!” ao que eles responderam com largos sorrisos e um sonoro “Thank you!” que me pareceu genuinamente empolgado com a minha breve história, a qual estendi aqui.
Uma das melhores fotos que consegui tirar do show. Death, Sesc Belenzinho, São Paulo, 05/02/2016.

Foi uma noite quase perfeita, então foi perfeita – se fosse perfeita, não seria punk. Despedi-me da Aline no metrô e decidi-me por dormir na casa do Bruno. Ao pegar o ônibus de volta para casa, no dia seguinte, comprei o Laranja Mecânica do Anthony Burgess, pois nunca havia lido-o, e voltei lendo-o sem ouvir música. Não precisava.

Monday, February 01, 2016

Mission of Burma


Há uns dez anos – tudo isso já... – o Mission of Burma tocou num festival enorme no interior de São Paulo. Numa chácara, fora engano, em Atibaia. Eu conhecia os clássicos dos anos oitenta, mas a banda tinha voltado e lançado disco novo. Não ouvi, mas pensei em ir ao show. Achei caro porque ganhava pouco no meu trampo à época; era um festival patrocinado por uma marca de bebidas, acho que outra banda boa que rolou foi o Melvins. Tinha também o Supergrass, que até então odiava (hoje gosto de algumas músicas, estou velho e pá). E era a época do ressurgimento do pós punk, devido a bandas como o LCD Soundsystem e o The Rapture, então se não estou confundindo tudo teve o Gang of Four também nesse festival. Mas tudo bem nesse caso, vi o show do GoF depois.
O detalhe é que falei sobre o festival com um velho amigo, o Carandina, que produzia comigo um programa de rock alternativo na universidade nos anos noventa, o Programa Pirata, na Unesp FM. E a sorte é que ele trabalhava na assessoria de imprensa no festival e eu nem fazia ideia. Ele arrumou uma credencial para que eu cobrisse o rolê por um fanzine online para o qual escrevia à época, o Choose Your Side. Mas sei lá o porquê eu não fui. Não consigo lembrar por que não fui para lá; apaguei isso da minha mente. Minha namorada de então não gostava que eu viajasse sozinho, mas não é possível... não foi por isso que não fui. Ou será que foi? Não, não posso por isso na conta dela. Por algum motivo, me acovardei. Nunca vi o Mission of Burma ao vivo, eles nunca mais voltaram para o Brasil, e só resta me arrepender. Ou não: sempre torço para que eles façam mais shows.

Monday, January 25, 2016

Devo

Devo contar a história tal como aconteceu? Devo.
Em 1989 um cara de Caldas, o Fabiano, veio estudar na minha sala. Ele era repetente e bem mais maduro do que nós. Politizado e bem informado. Era de esquerda e meu melhor amigo o imitava e o zoava impiedosamente na rua; se começava a chover, por exemplo, o Márcio dizia que “é culpa da Globo”, só para sacaneá-lo, pois era uma frase recorrente do nosso colega de Caldas. O apelido do nosso amigo caldense era Biá, hoje ele é referência em direitos humanos na área acadêmica. Um dia, numa conversa de hora de recreio, ele descobriu que eu andava de skate.
- Já viu o Thrashin’?
- O que?
- O filme sobre skate, como que você não conhece?
- Ah, eu já li sobre o filme nas revistas de skate. Nunca vi. Não tem para locar aqui. Onde você viu?
- Tem em Caldas.
- Não acredito.
Caldas era uma cidade muito menor.
- Eu pego na locadora lá e trago para você amanhã.
Ele trouxe mesmo. Mas não lembro por que cargas d’água ele não levou o filme para a escola. Combinou de se encontrar comigo à tarde na velha rodoviária de Poços de Caldas, já demolida, onde hoje há uma praça de concreto – na qual a guarda municipal não deixa os garotos andarem de skate ou bike, a despeito da falta de grama, árvores e frequentadores.
Quando rememoro esse encontro assalta-me uma sensação de estranheza. Subi por uma rampa lateral e esperei numa pequena banca, uma mera reentrância naquela rampa (talvez fosse uma escada), que nos meus sonhos é curva, sempre sonho com esse lugar. Eu acho que ela era curva, de fato. Quando caminho pela avenida João Pinheiro nos meus sonhos, a velha rodoviária ainda existe e ela se apresenta como mais real do que minhas lembranças dela. Nas minhas lembranças, quando me recordo do lugar, as cores são mais esmaecidas.
Comprei alguma das revistas de quadrinhos que colecionava: a Circo, o Geraldão, a Chiclete ou, mais provavelmente, a MAD. Comprei só uma, o dinheiro só dava para isso. Eu deixava de comer lanche na escola para comprar as revistas.
O Biá apareceu com o filme e lembro-me bem de conversarmos na parte de cima da rodoviária, num parapeito, pois olhávamos para a avenida enquanto conversávamos. Como conversávamos sobre Metallica e Guns n’ Roses no colégio, fiquei surpreso quando ele perguntou se eu conhecia Devo, pois é outro universo.
- Pô, adoro!
- Tem That’s Good no filme.
- Eu já li sobre essa música.
- Mas você nunca ouviu?
Ele ficou espantado e riu. Eu lia o nome das músicas e bandas em revistas de skate como a Overall e a Yeah! e os decorava. Além de ficar exultante quando tocou Devo no filme, houve outros dois momentos musicais no Thrashin’ do qual nunca me esqueci: o show do Red Hot Chilli Peppers, uma banda sobre a qual até então eu também só havia lido a respeito, e principalmente a clássica cena da perseguição de skates (melhor do que qualquer cena de perseguição policial com carros) na qual toca Wild in The Streets. Quando reconheci essas palavras no refrão logo lembrei de uma lista de músicas favoritas de skatistas que havia numa Overall ou Yeah! Eu sabia que era do Circle Jerks, tinha memorizado o nome! Não há palavras para descrever a emoção de descobrir um tesouro enterrado, ainda mais naquela época pré-internet, em que o acesso à cultura era tão difícil. Tomei contato com o hardcore em filmes; a primeira vez que ouvi Bad Brains foi no Depois de Horas, do Scorsese. Mas eu não sabia de quem era música, não tinha referências. Já o VI do Circle Jerks foi o terceiro disco que comprei na vida.
- Não. Mas eu adoro Satisfaction, já vi o vídeo.
Tinha visto o clipe na TV Cultura. Para mim Satisfaction era do Devo; a do Rolling Stones era uma cover ruim. Tempos depois descobri que a original era do Stones. Para mim, até hoje, continua sendo uma versão mais ou menos de uma música genial do Devo.

That's Good - Devo