Não tenho publicado mais neste blog porque quebrei o
pulso direito andando de skate e estava reeditando algumas crônicas no
Jornal da Cidade - todas com correções, alguns títulos aportuguesados e
acréscimos, em especial a crônica Cabine C, que foi totalmente reescrita
-, com exceção da crônica "Conta Comigo, Rullyan", que foi escrita
antes do acidente e foi mandada exclusivamente para o jornal. Desde o final de semana passado, agora que a fisioterapia já fez meu quadro
evoluir consideravelmente, comecei a mandar crônicas totalmente inéditas para o
jornal. Todas as crônicas que foram publicadas lá, focando em especial a
minha infância e adolescência (com uma única exceção, a Stiff Little
Fingers), podem ser encontradas neste link: http://www.jornaldacidade1.com.br/tag/daniel-souza-luz/
Tuesday, August 01, 2017
Monday, March 27, 2017
The Passage, uma brevíssima crônica.
Brincávamos de esconde-esconde.
Dentro de casa. Já estávamos até meio grandinhos para um espaço tão exíguo. A
ideia foi dela. Fui me esconder atrás de um armário. Ela resolveu se esconder
junto. Estava bem apertadinho.
Foi de caso pensado. Ela se
aconchegou a mim. Meu primeiro beijo de língua. Com um sabor de algo escondido.
Literalmente. Não me lembro se fomos flagrados na brincadeira. No que
interessava, não fomos.
Monday, March 13, 2017
Jesus and Mary Chain, uma crônica sobre como foi se apaixonar pela banda nos anos oitenta
Muitas bandas, mas muitas mesmo,
passei a gostar ao ler sobre elas, muito antes de ouvi-las. Anos antes. Isso
aconteceu comigo e vários amigos meus. Anos oitenta, baby.
Não me esqueço da primeira vez em
que li sobre o Jesus. Estava esperando meu pai no antigo escritório dele, eu
era criança ou adolescente. O problema é que agora a lembrança não é tão exata.
Mas do texto me lembro bem da frase que marcou. Não é a citação literal, mas o
crítico dizia “Este disco do Jesus and Mary Chain é um tiro do Magnum 45 na
cabeça de quem diz que o rock inglês está morto”. Estava em uma Folha de S.
Paulo, salvo engano, que estava dando bobeira ali na sala de espera. Será que
foi na época do Psychocandy, quando eu tinha 11 anos, ou do Darklands, quando
eu já tinha 13? De quem será o texto? Há muito tempo tenho para mim mesmo que,
pelo estilão, é o tão amado e odiado Pepe Escobar.
Guardei bem o nome da banda.
Depois disso, uma amiga de infância, a Cláudia Cândida, levou uma Bizz Letras
Traduzidas para casa. Ela a esqueceu lá e fiquei fascinado. Pedi para que ela
deixasse comigo mais um tempo para eu ler todas as letras; ela me deu a
revista, o que foi muito bacana da parte dela. E lá estava uma letra do Jesus
and Mary Chain, Darklands, faixa-título do disco de 1988.
Nunca tinha visto tanto niilismo
e desesperança. Ainda não conhecia as letras do Ian Curtis. Fiquei boquiaberto,
em especial com o final, que me pareceu mais irônico do que amargo. Foi paixão
à primeira leitura. Decorei a letra muito antes de realmente ouvir a música; na
verdade, antes mesmo de ouvir o que quer que fosse da banda.
Fiquei um tiquinho decepcionado a
primeira vez que consegui escutar. Amo Just Like Honey, mas pelo o que lia
deles, pensava que fosse mais barulhento, e foi justo a primeira música deles
que ouvi. Perto de Bauhaus, que escutava muito à época, achei muito contido. Só
tinha acesso via clipes que passavam no Som Pop na TV Cultura. Mas meu irmão
ganhou de uma menina que era apaixonada por ele, em 1990, uma coletânea em
vinil chamada Skate Surf Music; tinha uma música deles, Surfin’ USA, versão esporrenta
de um som do Beach Boys que eu já conhecia, aí sim gostei. Nem lembro mais onde
e quando que ouvi Darklands pela primeira vez. Mas a música fazia jus à letra,
felizmente.
Friday, March 10, 2017
The Slits, um miniconto.
As típicas garotas com quem
sonhei quando adolescente só as conheci quando era novo ou velho demais para
elas. Ainda bem que houve algumas poucas exceções aos vinte e poucos anos.
Thursday, March 02, 2017
Einstürzende Neubauten, crônica com um título literal.
Eram com estéticas iguais, mas
como disposições diferentes, de acordo com a topografia da rua. Ambos divididos
em dois blocos, um era perpendicular à rua, o outro era paralelo. O uso do verbo no passado não está correto.
Eram não, ainda são. Edifícios Alfa e Beta. Na minha memória, no entanto, eram.
Morei, quando criança, no Beta.
Na verdade, de recém-nascido até o fim da adolescência e começo da vida adulta.
De 1974 a 1993. Vi várias fases nele. De quando havia árvores na rua. Quando
foram arrancadas. Quando era pintado. Era branco com detalhes verdes. Mudaram
completamente a cor hoje, é bege. Não gostei. Talvez melhor do que quando a
pintura ia ficando descascada, antigamente. E as grades brancas enferrujadas.
Mas prefiro lembrar delas assim. Primeiro baixas, depois altas. Hoje há um
portão que impedindo a entrada de não moradores. Antes a entrada para a escada
que dá acesso aos apartamentos era livre, apenas um portão interno deveria ser
fechado à noite, por volta das 22:00 – lembro-me de meus pais fechando-o. Até
pouco tempo ainda podia-se entrar livremente lá, de dia. Fui até a porta do
apartamento onde passei a infância, o número 101, em 2013. Não bati nas portas
(são duas) para saber quem mora lá ou como ele está por dentro. Vivo sonhando com
ele, tal como era, ou surrealmente modificado. Prefiro assim, que o apê
permaneça como lembrança e como um ente onírico.
Monday, February 20, 2017
Minutemen, uma crônica sobre um vendedor punk.
Morei brevemente em São Paulo em
1995 para fazer uma faculdade que logo abandonei, pois passei na segunda chamada,
pouco depois, do curso de jornalismo da Unesp de Bauru. Morava na República,
perto da Galeria do Rock, onde costuma ir quase todos os dias. Eu tinha dois CDs
do Black Flag e queria mais. Vi o single de Nervous Breakdown numa loja. Pedi
para o balconista, um garoto negro, de óculos, bastante expansivo, pegar o CD
para mim, pois iria comprá-lo. Ele se recusa. Seguiu-se um diálogo mais ou
menos assim.
- Não cara, você conhece
Minutemen?
- Conheço de nome.
- Minutemen é muito melhor do que
Black Flag. É da mesma turma, da mesma gravadora, a SST.
- A gravadora do Greg Ginn, do
Black Flag.
- Sim, mas esquece Black Flag,
cara! Minutemen é muito mais criativo. Compra o disco deles. Você tá marcando.
É a mesma pegada, só que melhor, muito mais inteligente. Melhor banda dos anos oitenta.
- Legal, mas...
- Para de bobeira. Você vai fazer
o melhor negócio da sua vida. Leva o CD do Minutemen, você vai gostar muito
mais e...
Somos interrompidos antes de ele
pôr o CD para tocar e tentar me convencer. Uma assistente social entra na loja
e chama o balconista pelo nome, do qual não me recordo mais. Ela abre uma
pasta, diz que precisa conversar com ele sobre o cumprimento da medida; imagino
que de um ato infracional, embora ele não parecesse tão adolescente, mas sim
alguém com uns vinte anos. Aproveitei a deixa para cair fora. Achei o tão
almejado single de Nervous Breakdown em outro estabelecimento. Queria porque
queria. Só fui ouvir o Minutemen uns dois anos depois. Época de recursos
limitados e sem acesso à internet. É uma banda tão fascinante quanto o Black
Flag mesmo, embora não pareça tanto assim. O Black Flag me marcou mais, conheci
antes, mas gosto quase tanto quanto. Talvez Minutemen seja melhor mesmo e
aquele garoto estivesse certo, no entanto. Mas há muito espaço no meu coração
para ambas as bandas.
Wednesday, February 08, 2017
New Model Army, crônica de nossa batalha mirim.
Havia Atari e tinha brinquedos de
guerra. Tanques, armas e soldados de brinquedo hoje me parecem uma bizarria,
mas vá lá. Que eu gostava de brincar de guerrinha, gostava. Quase todas as
crianças gostavam. Quer dizer, ao menos os meninos (mau sinal, não é?). Teve
uma vez que foi fera demais. Armamos (opa) de fazer uma guerrinha diferente: em
vez de ser entre a molecada com pistolas de brinquedo – ou mãos fazendo as vezes de
revólveres – com nós mesmos bancando os
soldados, fizemos uma guerra entre os nossos brinquedos. Juntou um pessoalzinho
na casa do Coruja, amigo nosso de Santos, que costumava passar as férias em
Poços de Caldas na casa da avó dele, na rua de cima. Combinamos assim: as escaramuças
aconteceriam no gramado do quintal. No corredor ficava o nosso quartel-general.
Na edícula do fundo, onde era aberta a área da máquina de lavar, ficava o
quartel-general do inimigo, que no caso era nosso amigo Maurício, cujos pais
tinham grana, o que lhe proporcionava tantos brinquedos de guerra que era ele
sozinho contra a rapa. Assim seguiu-se a batalha, cheia de estratégias e
bombardeios com pedrinhas nas naves; se alguma era acertada tava fora. Os quartéis generais eram protegidos por campos de força. Mesmo invisíveis, respeitávamos
completamente o ente intangível que criamos. Assim se deu por horas. O mecanismo do campo de
força eram pedras que deviam ficar em cima de uma cadeira; punham-se elas no
chão e se entrava com os brinquedos que não podiam mais ser atacados. Não me
lembro mais quem gritou, acho que foi o Coruja.
- OLHA O CAMPO DE FORÇA DELE
DESLIGADO!
O Maurício estava atacando algum
flanco. Ele estava longe da casinha do fundo. Saímos correndo e entramos impetuosamente
dentro do quartel-general dele. Lembro que estávamos eu, meu irmão e o Coruja,
mas tinha mais moleques ainda. Eu tranquilamente bombardeei com pedrinhas os
bonequinhos de soldado dele, no começo. Quando vi, no entanto, o Coruja estava
dando bicudas nos jipes e tanques do Maurício. Aí todos os combatentes
decidiram que não haveria prisioneiros. Não conhecíamos a Convenção de Genebra
ainda, éramos muito jovens. Ele voltou para lá gritando para pararmos, mas
fomos derrubando e “explodindo” tudo. Conversando com meu irmão hoje, ele
lembrou que o Maurício levou para lá uma bela réplica de um F-14 Tomcat, desses que se
monta pacientemente com cola em casa. Voou pelos ares, no mau sentido, durante
aquela blitzkrieg bop mirim. O Maurício foi embora chorando, juntando os cacos
dos brinquedos dele. Se eu fosse ele, sairia chutando nossos brinquedos, afinal
ele saiu pelo corredor atravessando o nosso campo de força invisível, que
deixamos cuidadosamente ligado. Mas ele não foi à forra. Depois ficamos morrendo de medo dos pais dele bater
na porta de nossas casas e cobrarem-nos os brinquedos estragados. Não deu nada.
Ninguém se machucou mesmo. Essas guerras são as únicas que não são tão bestas.
Friday, February 03, 2017
Old Skull, uma crônica dedicada à memória de Toninho Mendes
Os shapes dos skates tinham
caveiras, geralmente. O que elas me lembram é vida e não morte. Da grande
aventura de ir para o centro da cidade sozinho, pela primeira vez, lá pelos
idos de 1988. Não sozinho, mas junto com uma galera. Sem meus pais, melhor
dizendo. Um domingo à tarde rolava fugir pra lá, numa boa.
Tinha um ponto de encontro do
pessoal da escola, uma cafeteria que não existe mais, com as menininhas
bonitinhas. Elas nem nos notavam ou olhavam-nos com desdém. “Ollie air não pega
mulher”; lembro da frase de um skatista da época, Celso Not Dead, em uma das
revistas de skate que colecionava, a Yeah! ou a Overall. Mas me sentia muito à
vontade em meio a elas, também não me importava. Sentamos encostados a um muro.
Não me lembro mais quem foi, mas alguém que estava na lanchonete levou uma
revista em quadrinhos que adorei, a do Geraldão. Era melhor ainda do que a Mad.
Ainda me lembro do cheiro daquele papel-jornal, tinha aroma de anarquia. Eu te odeio, Ronald Reagan. O Glauco, o Toninho Mendes, que editava a revista e
várias outras revistas que ajudaram a moldar minha visão de mundo (Chiclete com
Banana, Circo, Piratas do Tietê), os irmãos Toulon do Old Skull, que eram a cara do
que aspirávamos à época, ou ao menos o que eu aspirava entre 1988 e 1990,
nenhum deles está mais neste mundo. Mas ainda estão; tudo está; todos estamos.
Thursday, January 26, 2017
Talking Heads, uma crônica imersiva.
Uma das lembranças mais antigas e
marcantes que tenho é de quando a TV Tupi saiu do ar. Foi tão estranho... Há
pouco tempo me dei conta de que foi a primeira morte que testemunhei. Pesquisando
depois, já adulto, vi que isso foi em meados de 1980. Eu tinha cinco anos. Um
dia liguei a televisão e o canal havia desaparecido – época da ditadura, agora
isso me parece sinistro. Houve um aviso no dia anterior, tenho uma vaga
lembrança; não sei se isso é uma memória falsa que criei. Há outro fato
estranho: li que a Tupi tinha novelas. Não me lembro bem disso. Lembro que a
Globo tinha e que odiei o fato dela ser a única outra estação de televisão que
pegava bem, porque à noite gostava de ver faroestes e desenhos. Parece que me
lembro do Chaparral na Tupi, mas talvez tenha sido apenas na Record, nos anos
oitenta. Lembro de ver Bonanza também. Não me lembro das tramas, mas me recordo
de algo muito melhor.
Há até fotos datadas de 1979. Eu
andava com chapéu de cowboy e armas de brinquedo quando era criancinha. Meu
irmão também. Na verdade tenho lembranças até mais antigas, de quando tinha uns
quatro anos, de gostar de filme e seriados de faroeste. E tinha um hábito mais
solitário, não brincava só com meu irmão de mocinho e bandido. Eu gostava de
participar dos faroestes. Fazia assim: postava-me ao lado da TV. Prestava
atenção ao que os personagens diziam e participava dos diálogos. Como tinha
muito plano americano, agia como se estivessem falando comigo também. Se alguém
dizia “A emboscada será no desfiladeiro” eu tentava responder com algo que
fizesse sentido, como “Isso mesmo amigo, vamos pelo outro caminho!”. Como ficava feliz quando o diálogo calhava com o que eu dizia! Muitas vezes dava
certo. Só havia um senão: geralmente os personagens para os lados dos quais
me bandeava morriam ou se ferravam. Então começava tudo de novo, no meio do
filme ou episódio, como se nada houvesse acontecido. Fazer o quê? Mas eu estava
sempre presente na trama. Acho que fui um pioneiro da realidade virtual, isso
sim foi imersão.
Monday, January 16, 2017
Television, uma crônica de uma infância cheia de fascínio.
A televisão me deixou muito inteligente,
inteligente demais. Acordava cedinho no sábado só para ver desenho animado. Antes
das oito da manhã ainda dava tempo de assistir Urso do Cabelo Duro e Bionicão.
Tenho vagas recordações, mesmo agora já adulto, pois até isso foi há mais de
vinte anos, mas agora me parece irônico que o primeiro desenho retrate um bando
de hippies safos travestidos de ursos e o segundo um cão policial – acho que
era, já nem lembro tão bem. Como nunca havia pensado nisso? Às vezes rolavam
uns crossovers nos desenhos; poderiam ter posto o Bionicão para reprimir a turma
dos ursos para dar a real para as crianças.
O que era legal demais desses desenhos
é que eles eram psicodélicos. Os Incríveis era infinitamente mais legal do que
a banda de mesmo nome. Banana Split devia ter ácido nos ingredientes. Jackson
Five era tão legal quanto a banda. A Corrida Espacial fazia discotecas
parecerem good trips; apesar de já ser da era disco, o psicodelismo era muito
mais mesmerizante. Dias de aventura. Não
esqueço de jeito nenhum das pouquíssimas vezes em que passou o desenho do
Recruta Zero, que era um dos meus gibis favoritos. E de que tinha que explicar
que Danger Mouse era infinitamente mais legal do que Super Mouse. Aprendi a ler
graças a meu pai, que lia quadrinhos para mim e meu irmão; por isso antes mesmo
de entrar na escola queria saber como terminavam outras histórias que meu pai
não tinha tempo de ler. Saquei os rudimentos sozinho. Quando lia os créditos
nos desenhos animados, mesmo sem saber inglês, notei que havia quem escrevia
aquelas histórias. Como desejar ter um emprego normal então?
Wednesday, January 11, 2017
Love and Rockets, crônica sobre um sonho com livros fascinantes.
Adoro sonhos detalhistas. Estava
fazendo um TCC sobre sebos em São Paulo e no sonho hospedei-me no apartamento
do meu amigo Cleiton Corrêa, que na vida real mora em Poços de Caldas. Tinha
que achar um numa tal de rua Gurgel. Olhei num mapa na web e achei quatro ruas
com esse nome; fui na que era mais perto. Desci por uma escada – que não existe
na realidade – ao lado do metrô Vila Madalena e lá estava o sebo. Ao achar os
donos do lugar, uma loira de meia-idade e um rapaz de óculos e cabelo meio
beatle, marquei uma entrevista para fazer em outra ocasião. Disseram-me para eu
ficar à vontade.
Comecei a olhar os livros e em
meio a best-sellers desinteressantes achei vários volumes de “Locas – Poemas,”
com poesias de Jaime Hernandez e desenhos de seu irmão Gilbert. Custava 25
mangos e o que peguei em mãos estava ainda dentro do plástico, que estava
empoeirado. Dei uma olhada nos outros exemplares e eram uns poucos desenhos e
muitas poesias. Pensei “como não estou enxergando direito mesmo, é melhor do que
ler os quadrinhos no momento”. Aliás antes qualquer obra original dos criadores
do Love and Rockets, que citava o Black Flag nas HQs, do a banda que copiou o
nome, da qual gosto, mas é meio decepcionante, ainda mais que é o Bauhaus
inteirinho, com exceção do Peter Murphy. Enfim, voltando ao sonho, pedi para
reservarem que logo depois já pegaria com eles no balcão, como usualmente faço.
Continuei fuçando e achei um livro de bolso do Phillip K. Dick; era uma edição
original em inglês de um conto inédito chamado The Lake’s Placid Face e custava
meros sete reais. Espero que algum dia esse livro dos irmãos Hernandez chegue a
ser feito. E talvez o K. Dick tenha imaginado esse conto, não tenha tido tempo
de escrevê-lo e me deu um toque em uma brecha no continuum espaço-tempo.
![]() |
| A banda nunca será tão legal quanto a HQ, mas eu gosto. |
Monday, January 02, 2017
Black Flag, crônica sobre um sonho.
Amo Black Flag, é uma das minhas
bandas favoritas. Não sei se gostaria de ver um dos shows da volta, não
deve se equivaler à energia da época original deles, quando foram pioneiros do
punk hardcore, e nem do Flag, banda montada por ex-integrantes tretados com o
guitarrista Greg Ginn, fundador, o único membro remanescente da formação
original e a única pessoa presente em todas as inúmeras míticas formações do
Black Flag. Hoje sonhei que fui a um show deles. Sequer vi o show no sonho, mas
o que vi deve ser melhor do vê-los de verdade – e consta que o Flag é ótimo ao
vivo. De certa forma, vi o Flag no sonho, curiosamente com o único
ex-Black Flag que já vi de verdade, o Dez Cadena, numa apresentação
horrível do “Misfits”. Show que foi um dos mais divertidos aos quais já fui:
justamente porque não havia nada a ser visto, poguei o tempo todo, junto com vários
amigos das antigas que estiveram em inúmeros rolês de punk rock comigo. Usei
aspas porque nem era o Misfits de verdade, que para mim acabou em 1983; a volta
deles sempre foi ridícula. Enfim, vou é contar como foi o sonho com o Black
Flag.
Cheguei de
mochila ao local da apresentação; era uma casa noturna fechada, com palco até que baixo, na altura do
peito. Colei no palco do lado direito, mas atrás de dois
moleques. Um segurança os abordou e perguntou por que eles estavam usando
uniformes dos correios. Eles responderam que estavam matando serviço para poder
ver o show. O segurança retorquiu que eles nem poderiam estar ali, mas que
faria vista grossa, desde que eles fossem ao banheiro trocar de camisa.
Aproveitei para colar de fato no palco e a banda entrou sem o Greg Ginn para fazer a
passagem de som. Era o Dez Cadena na segunda guitarra, a Kira Roessler no baixo
e um baterista que não identifiquei. A guitarra transparente do Greg Ginn ficou
em cima de um amplificador. De repente entra o Keith Morris no palco e começa a
cantar Revenge. Ou seja, uma formação do Black Flag que nunca existiu, com músicos que jamais tocaram juntos, pois são de épocas diferentes. Como
aconteceu comigo na vida real, no show do Agent Orange, quando vi a passagem de som,
formou-se uma roda de pogo atrás de nós, mas preferi ficar grudado ao palco. A
passagem de som foi só com Revenge e o público dispersou-se. Fui ao banheiro,
depois tomei uma sopa no bar (não me perguntem o porquê) e voltei preocupado em
perder o lugar. Colei no outro lado do palco, onde ainda havia espaço, e fiquei
conversando com duas meninas. Dava para ver o setlist ao lado do baixo da Kira.
Falei que ia pedir para ela me dar o papel autografado, nisto a Kira, que
estava com cabelo grande e pintado de loiro, passou e nos cumprimentou. Vimos que os
panos se abriram e lá no fundo ela se encontrou com os outros músicos.
Não sei se o Greg Ginn estava junto, pois as meninas do lado falaram-me que
estavam enxergando-os borrados. Quando me esforcei para ver quem estava nos
bastidores, minha vista começou a ficar muito embaçada. Acordei, acabou.
Wednesday, December 28, 2016
Unknown Gender, crônica sobre meu primeiro beijo.
Lembro-me calorosamente do meu primeiro beijo. Foi
em 1985. Ela era bem mais velha; ainda adolescente e com apreço por usar uns decotes
que me fascinavam. À época havia uma novela global que tinha como protagonista
um estilista que durante a trama lançou um batom chamado Boka Loka. O tal do
batom tornaria irresistível quem o usasse, fazendo quem estava por perto querer
beijar a pessoa a qualquer custo. Talvez O Perfume, do Patrick Süskind, tenha
sido a gênese desta ideia, ocorre-me agora. Afinal o livro foi lançado naquele
ano. Enfim, eu tinha só dez anos, ia fazer onze. Ela tinha quinze ou dezesseis.
Ela passou o batom dela em mim e me beijou até tirá-lo. A língua tinha um gosto diferente e apetitoso. Ela deixou que eu
passasse a mão na bunda dela, em outra ocasião. Foi só isso e foi muito bom. O
batom foi lançado de verdade, anos depois, mas tenho certeza de que não teria o
mesmo gosto.
Tuesday, December 27, 2016
Au Pairs, crônica sobre uma infância feliz.
Primeiro, quando meus pais faziam
faculdade, era uma moça ainda adolescente. Era eles saírem e ela pegava o
telefone para passar trote em algum felizardo. Tinha uma linha de disk amizade,
algo assim, na qual se podia falar com qualquer um que estivesse “online”. Acho
que deu sujeira, vinha uma conta cara, não lembro mais direito. Daí ela começou
a ligar a esmo e passar cantadas vagabundas em qualquer trouxa que acreditasse.
A cara de pau marcava encontros nos quais não ia e nem pretendia. O dia mais
massa foi quando ela conseguiu convencer um fulano de que ela era rica. Ela
pediu para eu e meus irmãos pegarmos um balde e o enchermos d’água. Feito isso,
ela espalmava a mão n’água e falava que estava mergulhando na piscina.
Morríamos de rir. Essa aí não durou muito, era muito desajuizada. Consta que
casou com um fazendeiro rico, quando perguntei dela, muitos anos atrás. Deve
ter uma piscina de verdade agora.
Depois foi uma moça muito gente
fina e mais inteligente. Creio que posso citar o nome dela: Fátima. Dela
infelizmente não sei mais nada. Ela esperava um pouco para meus pais saírem
para a aula. Telefone nos anos oitenta era algo muito sério, do qual ela
mantinha distância. Assim que estava limpo, íamos todos para a rua. Ela sentava
na porta do prédio e ficava trocando ideia com as minhas vizinhas que já eram
adolescentes. Suponho que sobre garotos, nunca prestei atenção às conversas.
Minha rua virava uma bagunça danada. Das sete e pouco da noite até as dez era
lotada de criança zoando no talo. Não sei como nenhum vizinho não nos dedurou a
nossos pais. Acho que ali, na rua Platina da minha infância, todo mundo mais
velho era como sou agora com relação à molecada do meu bairro: se há crianças
implodindo a rua à noite de tanto brincar, é porque posso dormir sossegado,
pois estou num lugar muito seguro.
Monday, December 19, 2016
Agent Orange, uma breve crônica.
Nunca me esqueci de uma música de
um vídeo de skate chamada 2+2=5, do Agent Orange, uma das bandas que mais amo.
Até aprendi com uma amiga, nos anos oitenta mesmo, como se pronunciava dois
mais dois igual a cinco em inglês. O problema é que já há alguns anos, com o
acesso fácil à informação na internet, descobri que essa música definitivamente
não existe. Era um vídeo de um programa de TV lendário, o Grito da Rua, e o
amigo que o gravou, Maurício, morreu há vinte anos. Dificilmente verei isso de
novo algum dia. Ou legendaram erroneamente o vídeo e trocaram o nome da banda,
ou sonhei com essa cena quando era adolescente e a memória solidificou o que
era onírico. Era uma música tão legal, ela precisava existir.
![]() |
| Foto que tirei de Mike Palm, do Agent Orange, em junho de 2014, num dos shows mais emocionantes da minha vida. |
Tuesday, December 13, 2016
Peter Hook and the Light, crônica sobre o show
Joy Division é a minha banda
favorita. Amo New Order desde criança, quando era uma banda mega popular que
tocava no rádio o tempo todo, no auge de um termo que me parece esquecido hoje,
o tecnopop. O primeiro disco do New Order que ouvi foi a coletânea Substance,
em 1988, embora lançada em 1987. Minha música predileta era Ceremony, mas a
achava estranhamente diferente das demais e muito melhor. Só dois anos depois
fui saber que foi composta um pouco antes do suicídio de Ian Curtis em 1980 e
reaproveitada pelos sobreviventes do Joy Division no novo grupo, o New Order.
Ou seja, Joy Division já era minha banda favorita e eu nem sabia. Naquele ano
vi um vídeo de skate, creio que do Vibração, gravado no campeonato no prédio da
Cásper Líbero. Nele pela primeira vez ouvi Love Will Tear Us Apart; não sabia
de quem era a música e nem o seu nome, o que me marcou é que um arrepio subiu
pela minha espinha. Nunca havia ouvido nada tão lindo e até hoje não conheço
algo comparável. Pouco tempo depois ouvi uma radialista conterrânea chamada
Flávia tocar Love Will Tear Us Apart, dizer que era do Joy Division e a emendar
com Ceremony, dizendo que não era uma coincidência. Desconfiei que havia uma
ligação entre as bandas e em 1990, ao ler um artigo do já falecido jornalista
Celso Pucci (guitarrista da banda de alt-country 3 Hombres) na lendária revista
de HQ underground Animal, descobri que estava certo e me inteirei sobre a morte
de Ian Curtis e a transmutação do JD no New Order, um nome apropriado. A
percepção que tive era de que o NO era uma banda alegre para compensar a dor e
o tom soturno do JD, algo que vejo até hoje os integrantes confirmarem em
entrevistas. Enfim, ao longo dos anos fui completando a discografia do Joy
Division, a maioria gravada em fita cassete. Algo que me impressiona
profundamente é que o disco perfeito para mim, o segundo álbum deles, o Closer,
só o seja no Brasil; só a versão brasileira saiu com Love Will Tear Us Apart de
bônus. De qualquer forma, curiosamente, o disco deles que mais ouvi –
justamente porque foi o único vinil que consegui à época – foi a coletânea que
tem o mesmo nome da do New Order, Substance, que possuía a indicação 1977-1980,
algo que sempre me fascinou por ser um período da música pelo qual sempre me
encantei. Meu irmão Eurico percebeu nos vídeos de skate que tinham músicas do
Joy Division e em especial no Substance, principalmente quando tem início a
segunda música, Leaders of Men, que o que se destaca na banda é o baixo. Nós
nunca conseguíamos ouvir o baixo em banda nenhuma, a não ser no New Order, no
PIL, no Sisters of Mercy, na Legião e principalmente no Joy Division, em que o
grave é simplesmente animal. Animal, não tem outra palavra pra descrever. Notamos
que essa marca da banda, junto ao vocal grave, parece ter influenciado
infinitas bandas.
Corta para 2016, vinte e oito
anos depois. O New Order esfacelou-se e o responsável por aquele baixo, Peter
Hook, está brigado com a banda e tocará na íntegra os dois Substances numa
turnê, a qual passará para o Brasil. Tenho que ir, claro. Queria ter 18 anos em
1977, mas não tem jeito, o modo mais próximo de chegar perto do Joy Division é
este. Então peguei o busão com meu amigo Bruno Karnov e cheguei ao show do
Peter Hook and the Light em São Paulo, na Liberdade, às 22:00 em ponto, depois
de correr muito pela rua e pela estação de metrô Tietê, devido a contratempos
que me impediram de ir mais cedo. A divulgação dizia que o show começaria
pontualmente. Até eu entrar e achar um lugar legal para ver era 22:02. Às 22:03
o show começou, como se Hooky tivesse me esperado. Muito obrigado. Do fundo,
esbaforido, vi uma gentileza: ele começou com o Substance do New Order, mas com
três músicas bônus do segundo CD. A primeira foi In a Lonely Place, sombria,
combinando com o fato de que foi a última letra (salvo engano) escrita por Ian Curtis, pouco antes de se
matar. Procession foi linda ao vivo, o sintetizador emulou bem a sonoridade
original. Preocupado em encontrar um lugar melhor no meio das pessoas, nem
prestei muita atenção na terceira música, acho que foi Cries and Whispers
mesmo. Aí veio Ceremony. Aí sim. Que linha de baixo. Que textura e timbre
absolutamente pessoais. Que coisa linda finalmente vê-la ao vivo. De Everything’s
Gone Green em diante o show dedicado ao New Order degringolou um pouco. Muitos
samplers, não eram sintetizadores sendo tocados na hora, mas sim bases
pré-gravadas idênticas ao disco; soava como mero playback para que Peter Hook e
seu filho se revezarem no baixo, notadamente enquanto Hooky cantava. Num tom
mais grave, Hook engana, mas foi sábio quando ele deixou para o guitarrista
David Potts cantar músicas como Confusion, pois seu tom lembra bastante o de
Bernard Sumner. Houve bons momentos, como Perfect Kiss, mas quando a parte
dedicada ao New Order chegou ao fim, com todo o Substance executado mecanicamente
na ordem e com 1963 de bônus, entrou o som mecânico rolando Kraftwerk e o
próprio New Order. Fiquei com a sensação de que fazia pouca diferença; era só o
baixo que se destacava ao vivo mesmo. Muita gente foi para trás, neste momento,
para comprar cerveja e tomar um ar. Que sorte! Cheguei mais perto do palco e,
como se não bastasse, ali chegava o ar condicionado. Antes da apresentação recomeçar,
ouvi uma garota perto dizendo para o namorado, empolgada: “Ele vai tocar o
Substance do Joy Division também? Não acredito, que incrível!”. Pensei:
gostaria de ser feliz na ignorância também. E não é que meu desejo se realizou?
Hook e a banda voltaram e também começaram por músicas bônus do Substance do
JD, como No Love Lost e These Days. Mas, ao contrário da seção dedicada ao New
Order, não se circunscreveram ao Substance. Para minha completa incredulidade,
tocaram a minha música favorita de todos os tempos: Disorder. Faltou peso no
baixo, tocado pelo filho dele, mas era Disorder. Cantei a todos pulmões, até
agora não acredito, parecia um sonho. Foi um sonho. De quebra, ainda tocaram
Shadowplay. Baque à parte, lá veio: 3,5,0,1,2,5, go! Finalmente o Substance na
ordem original do LP. Só havia quatro pessoas pogando: eu, um cara grandão e
negro (achei legal demais, o público não era tão branco para uma banda que no
passado era cultuada por um público “dark” metido a elitista), uma moça e um headbanger.
Quando um sujeito subiu no palco para um stage dive, ninguém quis segurar e ele
desceu sem pular; o Hook chegou a rir da situação. Warsaw veio com um intermezzo
desacelerando-a e depois dá-lhe porrada de novo; Leaders of Men teve o baixo um tiquinho mais pesado; Digital
manteve o ritmo; em Autosuggestion, durante a qual filmei alguns trechos,
aceleraram bastante o andamento no refrão; em Transmission a maioria dos
presentes cantou junto; em She’s Lost Control faltou a bateria acústica junto
com a eletrônica, mas o duelo de baixos robóticos valeu a pena; em Incubation
foi estranho ver a banda sem Hooky no palco; Dead Souls foi outro sonho, pois
sempre achei que ficaria boa com dois baixos e nela Hook e seu filho
complementaram-se tocando juntos o tempo todo. Deu-se uma pausa e foi
engraçado: um cara que parecia um cosplay do Mark E. Smith do The Fall subiu ao
palco e disse que a próxima música era dedicada à Chapecoense, cujo time morreu
quase todo no acidente aéreo que ocupou a mídia por boa parte naqueles dias. O
público ovacionou, fiquei na minha. Não achei totalmente inadequado, ingleses
amam futebol, mas me pareceu algo piegas. O banger que estava perto gritou
“Foda-se a Chapecoense!” e foi embora desgostoso. Iluminaram o palco de verde e
lá veio Atmosphere. Achei que seria uma breguice medonha, é a música do disco
que menos gosto, mas não é que deu certo? A música ganhou vida ao vivo, aliás
isso me chamou demais a atenção: por mais que eu ame o New Order, não dá para
comparar mesmo com o Joy Division, cujas músicas, ironicamente ou não, pulsam
vida no show. Por fim, um dos grandes momentos da minha vida aconteceu neste
show. Não esperava nada do final. Love Will Tear Us Apart é uma música que ouvi
ad nauseam. Eu tenho o espírito, mas perdi o sentimento. Quando ela teve
início, destacando mais o baixo do que teclado, aquele arrepio que senti na
espinha há vinte e oito anos subiu de novo. Acabou sendo meio rock de arena do
meio para frente, mas não tem importância, aproveitei para pensar em todas as
mulheres que me marcaram. Ainda tenho o espírito e o sentimento, apesar de ter
achado que perdi o último há anos. Nunca imaginei que teria a mesma sensação de
encantamento com Love Will Tear Us Apart de quase três décadas atrás. Ian
Curtis cometeu o único erro. Por mais que o mundo seja frio e áspero, a vida é
a única coisa que vale a pena ser vivida, como dizia Will Shatter.
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| Peter Hook and the Light no Cine Joia, seis de dezembro de 2016. Tirei a foto com celular. |
Monday, November 28, 2016
Cocteau Twins, uma crônica.
Etéreo e onírico são adjetivos já
muito desgastados para descrever o som do Cocteau Twins. Para mim, a primeira
vez que ouvi, parecia mais do que isso até. Era magia, algo impossível de ser
feito com instrumentos musicais, pois soou uma cornucópia de todas as belezas
do mundo aos meus ouvidos. Um feito inumano feito por humanos que tiveram uma epifania,
ou, melhor ainda, uma teofania.
Como vários bons sons que
marcaram minha vida, conheci através do programa Som Pop, apresentado por Kid
Vinil, na TV Cultura. Em 1990 ele passou dois clipes do Cocteau Twins. Recordo-me,
mesmerizado, do deleite proporcionado pelas músicas e também pelas imagens. Um
foi Carolyn’s Fingers e o outro foi Iceblink Luck. Não tenho nem mais o que
falar; são obras de arte tão belíssimas que falam por si mesmas.
![]() |
| Foto de Teakood: https://www.flickr.com/photos/teakwood/ (Creative Commons). Link da postagem original da foto: https://www.flickr.com/photos/teakwood/8944771412/ |
Tuesday, November 22, 2016
PIL, uma crônica.
Sex Pistols era uma das minhas
bandas favoritas no fim dos anos oitenta, talvez então fosse “A” favorita. Às
vezes lia sobre o Public Image Limited, o PIL, o grupo que John Lydon montou
logo depois da dissolução dos Pistols em 1978, abandonando o nome Johnny
Rotten, mas só podia imaginar como era o som. Quando ouvi pela primeira vez,
logo percebi a diferença fundamental do pós punk para o punk: eu ouvia
nitidamente o baixo de Jah Wobble, era outra pegada, embora próxima. Na
verdade, já conhecia a banda de um vídeo, gravado pelo meu amigo Maurício, do
programa Vibração, que falava surf e às vezes de skate. Era uma reportagem
mostrando como foram as demos de Tony Hawk e Lance Mountain nas pistas de skate
do Brasil; uma das músicas do vídeo era Fodderstompf. Eu e meu irmão adorávamos
o “rap” que mandavam em cima de uma base eletrofunk, uma falação no qual
distinguíamos apenas que estavam ironizando, em meio ao pouco que sabíamos de
inglês, o “amor estúpido”. No entanto, não fazíamos ideia de que banda era, não
havia identificação das músicas e só conhecíamos o Sisters of Mercy na trilha
sonora.
A primeira vez que me dei conta
de que estava ouvindo o PIL foi emocionante: no programa Matéria Prima,
apresentado por Serginho Groisman na TV Cultura na virada dos anos oitenta para
os noventa. Durante o encerramento, tocou uma música na qual logo reconheci o
vocal de Lydon, mas o timbre da guitarra era muito diferente da de Steve Jones
e tão brilhante quanto. Em especial, consegui ouvir o baixo, algo que tentava
fazer nas músicas dos Pistols e não conhecia reconhecer nada debaixo daquelas
camadas superpostas de guitarras – só depois de começar a fazer aula de baixo
que distingui o pálido som de base feito, reza a lenda, pelo próprio Jones,
pois Sid Vicious não conseguia gravar adequadamente. A música do PIL que rolou
no Matéria Prima era Public Image, descobri ao conseguir gravar o disco ao
pegar emprestado com um amigo, creio que no final daquele ano ou em 1991;
antes, como não tinha acesso, aproveite-me de uma particularidade da minha
cidade natal. Assistia ao Matéria Prima na TV Cultura; ao final de todo
programa tocava uma música diferente. Como outra emissora “educativa” iria se
instalar no município em 1990, começaram a transmitir o sinal carioca da TVE.
Sei lá porque cargas d’água, sempre que acabava o programa a TVE cortava o
sinal ao vivo e passavam o final daquele Matéria Prima em que tocava Public
Image quase na íntegra. Era o único jeito, para mim, de ouvir PIL à época. Toda
tarde, sem exceção, assistia ao programa na TV Cultura e depois trocava de
canal para escutar minha amada música no final “alternativo” inventado pela TVE.
![]() |
| Minha velha e querida fitinha cassete do PIL, já com mais de um quarto de século e ainda funcionando. |
Friday, November 18, 2016
Magazine, uma crônica
Magazine era a banda de Howard
Devoto, ex-Buzzcocks. Uma lenda pós punk do fim dos anos setenta e começo da
década de oitenta. Mas só fui ouvir no século 21 e não me marcou muito. O que eu ouvia mesmo nos anos oitenta era
outro Magazine, o brasileiro. A banda de Kid Vinil, figura popular e simpática,
que depois influenciaria muito do meu gosto musical à frente do Som Pop, na TV Cultura,
no fim daquela década, um assunto do qual sempre gosto de falar. Mas quando eu
era criança gostava mesmo era da banda new wave dele. Geral na escola também
adorava os sucessos Eu Sou Boy e Tic Tic Nervoso. Meio que caiu no
esquecimento; nunca mais ouvi, até lembrar hoje da existência da banda e de
como achava divertido.
Manjam aquelas apresentações que
as crianças fazem para os pais no fim do ano escolar? Em 1984 ou 1985 eu e meu
irmão fizemos uma dessas apresentações no teatro da escola na qual estudávamos,
o Pelicano, e foram apresentações musicais da qual ainda temos as fotos. A do
meu irmão foi mais complicada: eles dançaram break ao som de uma música do
Michael Jackson, vestidos a caráter, com roupas de b-boys. Não tenho certeza de
qual música foi, só sei que era um dos hits então onipresentes dele, provavelmente
Beat It. Era uma coreografia toda complicada, ou ao menos me pareceu. Um
detalhe paralelo curioso: à época, quando passávamos em frente ao cemitério,
minha irmã, que é mais nova, tinha medo de que tocasse Thriller no toca-fitas e
até o pôster gigante do Michael Jackson que havia em casa foi tirado da parede
quando começou a parecer meio sinistrão. Voltando à apresentação escolar de fim
de ano, para mim foi mais fácil e combinava comigo: dançamos Tic Tic Nervoso,
também devidamente vestidos para a ocasião; hoje seria chamado de cosplay new
wave: com camisas sociais de manga curta e gravata. Foi divertido. Mesmo tendo
vergonha de subir ao palco, não precisava fazer algo tão bem coreografado. Os
meus amigos e colegas de sala até que dançaram mais direitinho, eu fiz tudo
descoordenado e achei ótimo. Até hoje acho que mandei bem, era o espírito da
música. O mais legal é olhar para as fotos e ver que eu pareço uma versão mirim
do próprio Kid Vinil ou do Herbert Vianna – eu uso óculos.
Monday, November 07, 2016
XTC, uma croniqueta
Até hoje não ouvi muito. Sim,
pouco manjo de XTC. No entanto, tenho uma ótima lembrança deles; só não sei se
é real.
Em um domingo ensolarado e
tranquilo da pré-adolescência, assim que caiu a noite, como de costume, fui
assistir ao Som Pom, na TV Cultura. Lembro que passou um clipe deles e logo
decorei o nome da banda, bem fácil de lembrar. Uma música tão solar quanto foi
aquele domingo perdido lá nos estertores dos anos oitenta, com um vídeo muito
colorido, que refletia a felicidade daquele dia. O problema é que só guardei o
nome do XTC, não da música. Sempre procurei esse videoclipe. Nunca o vi em
outros canais de TV ou online, justo hoje em que (quase) tudo se encontra na
internet. Os clipes que encontro não tem eles tocando em estúdio, nem todo um
clima leve em volta. Às vezes acho que esse vídeo que supostamente vi foi um
sonho que tive inadvertidamente e a recordação dele se tornou real demais.
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