Monday, March 28, 2016

Gang of Four (memória sobre skate e tretas na virada dos anos 80 para os 90)

A primeira pista de skate da minha cidade não existe mais. Três de nós quatro também não.
Gostávamos de chegar lá de manhãzinha. Pois no meio da manhã já estava o maior crowd, como dizíamos à época. Ou seja, lotada. Não vejo ninguém mais novo ainda usar o termo. Antes que aqueles tempos chegassem a termo e a pista passasse a ficar vazia, era a hora em que usávamos para aprender a andar direito, para não fazermos feio na frente dos outros. Era só um half pipe e mais nada. A pista de street construída em volta só tomaria forma em meados dos anos noventa.
Isso foi no fim de 1989, provavelmente. Já andávamos na rua fazia tempo, mas a experiência de andar no vertical era (quase) nova. Já havíamos ido andar nas pistas de cidades vizinhas, São João da Boa Vista e Varginha, mas nossos pais sempre faziam com que fôssemos embora logo, eram apenas pequenas concessões que faziam durante viagens. Em Varginha havia um bowl e até hoje me lembro da sensação mágica de andar brevemente numa pista assim. Em SJVB andei pela primeira vez em um half pipe e me apaixonei pela primeira vez, acho. Tinha uma local chamada Beth que era uma menina linda. Ela era linda MESMO (anos depois um amigo que fiz lá me disse que ela ser tornara modelo), desbocada e simpática – ela me falava oi e eu quase caía do skate. Muito diferente das meninas bonitas que eu conhecia, quase todas umas idiotas (as que ainda encontro pela vida, aliás, continuam cretinas, mas não são mais gatas). Andava bem e era mais velha, já devia ter uns 18 anos. Ela era alta e chegava alto na pista. Inatingível.  
Depois de algum tempo aprendendo o valor de acordar cedo e nos dedicarmos a algo – mas algo que valia a pena – já andávamos bem o suficiente para ficarmos em meio a todo mundo. Mas mantivemos o hábito de ir cedo, para andarmos mais à vontade, sem trombarmos sem querer em ninguém. O que podia dar treta. No entanto, ficávamos na pista até tarde, quase todo dia. Era bom ficar conversando, de qualquer forma, quando estava tão cheio de gente que tínhamos que ficar negociando de quem era a vez. Sempre tinha algum fominha, mas nada que gerasse maiores atritos. Mas era gente demais e celeumas surgiram, meses depois.
Surgiram rumores de que um moleque que andava bem, o Purga, estava com o skate novo porque havia roubado-o de alguém. Eu sempre vi o skate como um esporte honrado – hoje diria ético –, sem a estupidez do futebol, com suas faltas e ceras, desonestidade, tiração de sarro e brigas que iam se tornando cada vez violentas conforme fomos deixando de sermos crianças. Bem diferente de nós no skate, que torcíamos um pelos outros e nos incentivávamos. Utopia adolescente, claro. Com o passar do tempo, havia umas quase brigas lá. Uma tensão muda, uma guerra não declarada de carrancas no lugar de sorrisos. Talvez isso já tenha sido em 1991, pois me lembro de uma tarde em que sarcasticamente chamei o Purga de Collor, insinuando que ele fosse ladrão; não tenho certeza se os malfeitos do então presidente já eram tão evidentes em 1990. Ele ficou quieto. Meus amigos riram. Acho que um cara um pouco mais velho, o Juba, deve ter tomado as dores. O Purga deve ter contado para ele depois. Eu sei que esse Juba, que até então era alguém que só me cumprimentava e com quem eu mal havia trocado algumas palavras, e somente sobre skate, passou a me encarar quando eu chegava na pista. Nunca mais falou comigo. Eu só ia para lá com meu irmão e meus amigos mais próximos, o Maurício, o Evandro, o Paulo e o Márcio. Não me sentia mais à vontade. Mas não queria parar de andar na pista.
O clima, no entanto, pesou muito. As conversas eram cada vez mais “ganguistas”, embora não houvesse nenhuma gangue de fato. Voltamos a fazer mais street e a ir menos à pista. Andávamos em outros bairros e nas ruas do nosso mesmo, como antes, onde estávamos seguros. Não me esqueço, no entanto, de uma tarde. Nunca me esquecerei. Todo mundo resolveu fazer alguma outra coisa, jogar War, videogame, algo assim. Eram férias, meio de semana. Eu e o Maurício decidimos passar a tarde andando de skate e fomos, skate de baixo do braço, andar no bairro ao lado, interessados em uma transição de uma nova garagem. Enquanto caminhávamos distraidamente pela rua Berilo, a rua mais abaixo do bairro, perto de uma casa que existe até hoje, com duas estátuas de cachorro no portão, demos de cara com o Purga e o Juba, que vinham também conversando animadamente e com os skates debaixo do braço, como nós. Eles, com certeza, também toparam inesperadamente conosco e ficaram tão atônitos e mudos como nós. Achei que teria que, pela primeira vez, usar o skate para acertar algo que não fosse uma manobra. Cruzamos olhares atentos. Antes éramos, senão grandes amigos, amigos, de certa forma. Nada foi dito. Nada aconteceu. Seguimos nossos caminhos, incólumes. Éramos, francamente, uns meros moleques, todos assustados e nada durões. Não olhamos para trás. Eles talvez sim; nunca saberei.
Hoje, se os encontrasse, perguntaria sobre o episódio, mas não tenho como saber. O Purga morreu de AIDS, segundo me disseram, em 1992 ou 1993. Um conhecido me disse que ia visitá-lo no hospital e me chamou para ir junto. Contei o que aconteceu, ele insistiu para eu ir, fazer as pazes, mas eu era muito imaturo, disse que não. Nem achei ele iria morrer, mas na semana seguinte esse conhecido, o Alisson, me disse que ele havia falecido. Em 1995, já na universidade, quando vim passar um feriado em casa, meu irmão questionou-me se eu me lembrava do Juba. “Sim, aquele babaca”, respondi, atrelado à imagem do passado, ao que meu irmão retorquiu: “Pô, eu o encontrei há um mês mais ou menos, ele perguntou como você estava. Ele morreu ontem na estrada, indo para uma festa em Andradas”. Fiquei sem palavras. O Maurício não tem como confirmar minha história. Ele morreu em 1997, fazendo rafting.
Em 1999, com meros 24 anos, tive minha primeira crise de meia-idade, mesmo sendo muito jovem. Numa tarde, sei lá o porquê disso, lembrei-me do episódio da rua Berilo e dei-me conta de que era única pessoa que o vivenciou e que ainda estava viva. Não há descrição para a sensação de melancolia e de estranhamento que me abateu.
Um quarto de século depois daquela tarde da qual só eu restei para contar a história, a vida segue. Há uma frase de Jay Adams, lenda do skate, também já falecido, muito famosa. “Você não para de andar de skate porque fica velho. Você fica velho porque para de andar de skate”. Como os três daquele entrevero que não aconteceu de fato e do qual sou único sobrevivente, jamais ficarei velho.

Monday, March 21, 2016

Violeta de Outono

Corremos de volta para casa. Depois da aula havia pressa de viver. Normalmente andávamos rápido – às vezes devagar, falando alto grandes bobagens que irritavam os adultos que passavam por perto, despertando-os da indiferença maquinal – para chegarmos logo e almoçarmos. Já estava ficando frio e a mata que margeava a avenida pela qual voltávamos bafejava seu hálito frio sobre nós.
Após o almoço quase ninguém havia tomado banho. Nem suamos muito.
Indecisão. O que fazer? Truco valendo grana. E se a polícia ou o comissariado de menores passasse na rua? – alguém aventa essa possibilidade, logo desprezada.
Ninguém sabia jogar pôquer. Então vai truco mesmo. O dinheiro apostado: notas amassadas de Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e principalmente Machado de Assis, que não valia quase nada nas nossas carteiras e mentes. Essas tinham carimbo de cruzado novo. As outras eram valiosas demais para nós, pirralhos que éramos. Mal sentamos na calçada e somos interrompidos.
 O síndico do prédio, burocrata desalinhado, saindo do almoço, indo para o trabalho, passa e olha com reprovação.
- Jogo de azar dá cadeia. Ou vocês somem daqui da frente ou chamo a polícia.
Rimos da cara dele. Então o Fred conjetura que se a polícia vier, talvez todos perdêssemos o dinheiro. Então meu irmão e eu convidamos todos para jogarmos em casa. Uma dupla espera, as outras duas jogam, vamos começar o jogo de novo; esse não valeu.
Eu e Fred estamos contra o meu xará Daniel e o Paulo. Tá meio que pau a pau, mas abrimos vantagem. Inventamos de fazer sinais falando alto nomes de personagens da Marvel, daí sabíamos as cartas que o outro tinha. Meu xará e o Paulo não eram de ler quadrinhos. Mas eles deram aperto e numa seizada caímos que nem Tio Patinhas, devido à ganância injustiçada. Afinal, havíamos decidido, antes de começar a jogar, já fora do perigo da rua, que o jogo não vale dinheiro. Não tem que ter sentido não, não tem essa. Desistimos de perdermos grana e boa, vai que dá briga.
Ficou 14 a 13. Eles podiam namorar as cartas um do outro. Eu e meu parceiro estamos inconformados com a virada. Eles decidem ir. O Fred só me diz Thanos. Ou seja, não tem nada. Eu balbucio um Homem-Aranha. Ou seja, só tinha um mísero ás.
- Já saquei o código deles, eles só têm um ás – sacaneia Paulo, rindo com desdém. Ele era esperto.
Fomos para o abatedouro. Conseguimos segurar até a terceira rodada, a primeira deram para nós de graça, forçando-me a matar o rei deles com meu ás.
- Falei! – zomba Paulo.
Então acontece o inacreditável. Meu xará solta um truco com gosto, grita e sobe na cadeira, triunfante, assim que ganham a segunda.
- Perdeu! – Fred não perdoa.
Meu irmão e o Márcio caem na gargalhada; olhavam a partida com certo desinteresse, até então. Eu e Paulo ficamos atônitos. O meu xará não. Até repete.
- Truco!
- Você não pode trucar! Tá com quatorze!
- Ai, esqueci! - murchando.
O Paulo levanta da mesa, abre a porta e vai embora, sem dizer uma palavra. Está furioso. Mas todos sabem como ele é avesso a brigas. Todos estamos gargalhando a ponto de faltar ar, menos meu xará, que, derrotado, também abre a porta e vai embora chorando.
Ninguém quis jogar mais, embora tivesse outra dupla. Depois dessa, pra quê?
Fomos pra casa do Evandro. Já tinha menos sol. O chamamos para jogar bola. Depois de fazer algum cu doce, como de costume, ele topa. Falta um. Já íamos à casa do Rodrigo, mas ele aparece espontaneamente na rua, justo quando estamos de volta.
Dois na linha e um no gol. Já basta.
- Mas você tem que dar chutão?
Jogamos na minha rua mesmo, que é uma DESCIDA. A bola sempre vai longe, na rua de baixo. Alguém sempre se fode pra buscar. O par ou ímpar para ficar com o gol do lado de cima é vida ou morte.
Mas é só vida mesmo. O tempo passa rápido quando nos divertimos, todos sabem. Mas a tarde está passando devagar. Tarde eterna, fundindo-se a outras tardes nas quais as regras não escritas foram apreendidas por todos nós, ali. Por isso não gostávamos quando alguém de fora vinha jogar, a menos que fosse algum amigo muito amigo de alguém, que logo pegasse todas as regras etéreas de cabeça. Às vezes isso acontecia. Ninguém aparece.
Dou outro chutão. A bola cai mais longe desta vez, dentro do jardim da casa da esquina. Cai justo no canteiro das flores. A senhora que morava lá, mal encarada, com uma voz rascante que intimidava-nos, na verdade era boazinha e sempre deixava que nós pegássemos as bolas que caiam lá dentro. Desta vez, pulo a cerca e pego a bola sem dizer nada. Uma pulada de cerca inocente. Matei todas as flores dela. Restou uma violeta. Que nem sei se é uma violeta. Até hoje.

Monday, March 14, 2016

The Smiths, uma minicrônica à guisa de poesia

Escrevi uma poesia chamada The Smiths.
Provavelmente não a publicarei.
Talvez algum dia a leia em algum sarau. Se isto acontecer, preste atenção. Será a única chance.

Monday, February 29, 2016

Mekons

Trabalhei a semana inteira. Ao menos ganhava horas extras, à época. Quem é que paga isso hoje? Se você não fica até mais tarde sem ganhar nada te consideram como alguém sem compromissos. E o grande problema é que os temos.
Jornalixo te obriga a cobrir milhões de questões irrelevantes em um curto intervalo de tempo, interessantes apenas para os políticos nelas interessadas. Quem mais pode se interessar por aquelas merdas? A questão é que naquele dia, naquela semana, há 14 anos, havia chegado do serviço às dez da noite. Havia acordado às sete da manhã e entrado às oito. Estava trabalhando alucinadamente por 14 horas, não havia nem almoçado. Sorte que havia parado numa coletiva na qual havia comida, lá pelas duas da tarde. Ao chegar em casa, não queria nem comer, nem tomar banho. Queria tanto ler, ouvir música, ver um filme, que são meus direitos humanos básicos, negados pelo empregador escroto de então. Apenas desabei no sofá e dormi.
- POR QUE VOCÊ NÃO TRANCOU A PORTA?
Nunca vou esquecer deste grito. Porque estou morto, porra, você me viu saindo cedo para trabalhar, olha a hora em que estou voltando. Que raiva, caralho, não dá para ter um mínimo de empatia e simplesmente trancar a porta ao notar que ela está destrancada, sem acordar ninguém?
Só agora, quase uma década e meia depois, ocorre-me a resposta à pergunta, embora a resposta que tenha dado à época tenha sido a correta para o momento. O problema é que eu não estava morto, de fato. Queria que alguém me fizesse este favor.

Monday, February 22, 2016

Killing Joke, uma crônica

No pátio da escola, por acaso, numa tarde do fim anos oitenta, enquanto matávamos tempo antes de ir embora, conversando, pois não havíamos matado aula e queríamos ficar lá marcando um pouco e socializando, fiz uma imitação do Escola de Verão, sei lá por quê. Devíamos estar conversando sobre provas ou estudar demais.
Era do personagem que tinha esquecido tudo, interpretado pelo ator que tem um olho de cada cor; o que esquecia até mesmo como que se comia, ou o que era um garfo, por ter estudado tão obsessivamente a ponto de surtar. Quando os pais dele fazem perguntas do tipo “Por que você não come?” ele responde “Eu não sei” e quando cai em si ele se desespera e começa a gritar “Eu não sei nada! Eu não sei nada!”. É um pesadelo do personagem e uma das cenas mais engraçadas do filme. Imitei perfeitamente, ou ao menos tenho a memória presunçosa de que o fiz. Meus amigos na rodinha choraram de rir, eu então mais ainda. Não estavam rindo da minha cara, estavam rindo junto comigo. Eu nunca havia sido tão popular.
Três dos meus amigos que estavam na roda chamavam-se, todos, Fábio, com uma exceção, o Cleiber, amigo desde a mais tenra infância. Perdi contato com todos, ao longo das décadas. Se os encontrasse e os perguntasse sobre esse fato em particular, será que se lembrariam disso? Provavelmente não. Eu passaria por mentiroso. Uma piada. Não a que contei.

Monday, February 15, 2016

The Chameleons

Vamos jogar bola?
Vamos.
Vamos andar de skate?
Vamos.
Vamos andar de bike?
Vamos.
Vamos jogar War?
Vamos.
Vamos fazer trilha?
Vamos.
Vamos brincar de esconde-esconde?
Vamos.
Vamos quebrar o pau, parar de olharmo-nos na cara e ficar de boa no dia seguinte?
Vamos.
Vamos jogar vídeo game?
Vamos.

Fomos.

Monday, February 08, 2016

Death, uma crônica protopunk

Foi uma viagem atribulada.
O anúncio do show do Death no Brasil foi surpreendente. Mais do que uma banda, é uma lenda. Não tem nada a ver com a banda de death metal dos anos oitenta/noventa, da qual gosto também e que ainda excursiona em homenagem ao fundador Chuck Schuldiner, já morto. O Death em questão foi formado por três irmãos negros em 1971, os Hackney, e lançaram apenas um compacto em 1974. Como as bandas mais importantes do protopunk (ou seja, que já tocavam punk rock antes do estilo existir), o Stooges e o MC 5, eles são de Detroit. Foram redescobertos já no século XXI e o disco com todas as gravações de 1974 foi lançado em 2009. Como no caso do Death do metal, o Death protopunk perdeu para o câncer o guitarrista e mentor, David Hackney, e excursiona em homenagem a ele, mas com um diferencial: como eles seguiram tocando rock cristão e depois reggae ao longo das décadas seguintes ao fim em 1977, chamaram o guitarrista Bobbie Duncan, da banda de reggae, o Lambsbread, e continuam fazendo músicas novas. Uma banda absolutamente fantástica; as gravações de 1974 lembram o que o Bad Brains, a banda fundamental para o surgimento do hardcore, também formada integralmente por negros, veio a fazer cinco anos depois. Já vi o Bad Brains ao vivo, não podia perder este show.
Meus problemas começaram aí: eles fariam três shows; um em Curitiba, de graça, mas longe demais e eu não teria onde ficar e dois em São Paulo, no Sesc Belenzinho. Ingresso barato, mas o duro é que esgotaram assim que começaram a ser vendidos na web. E eu só lembrei disso horas depois do início da venda, quando já estavam esgotados. Poderia pegar pessoalmente no dia seguinte, mas eu moro no sul de Minas Gerais. Solução: pedi para um amigo de Sampa, o Bruno Karnov, que também ia, para pegar o ingresso para mim.
A aventura começa aí: malandro velho, ele falou para eu relaxar e NÃO FOI PEGAR os ingressos. Tinha um jeito melhor. Era mesmo, mas meio desesperador para quem mora longe. Ele me pôs em contato com o Clodô Paiva, que conheci há um ano, num show de punk rock, que tinha um camarada que pegou uma cota boa de ingressos para quem precisasse. Na quinta, um dia antes do show, conversei com o Clodô, que me pôs em contato com o amigo dele, o Sandro, que trampa numa unidade do Sesc do litoral. Se não fosse o Bruno e o Clodô eu nem teria ido ao show e eles infelizmente não foram; o primeiro atarefado com a tríade tradicional do rock, mas sem o rock; o segundo foi trabalhar naquela noite.
Enrolado com o trampo e problemas de saúde do meu pai, não poderia ir na quinta. Matei serviço sexta à tarde, mas não me organizei bem para ir ao show: minha mãe passou mal sexta de manhã e a levei no hospital. Arrumei uma mochila mais ou menos, combinei mais ou menos para pegar o ingresso com o Sandro, minha mãe melhorou, minha irmã ficou com ela. Combinei de encontrar dois velhos amigos, a Aline e o Cardoso, e o Bruno falou para eu dormir na casa dele, mas resolvi voltar de madrugada mesmo, assim que acabasse o show. Peguei o busão às 14:00, atrasadaço. Queria chegar em Sampa bem antes do horário de pico. Todo mundo iria viajar devido ao carnaval, certeza que as marginais estariam entupidas.
Fui combinando com a Aline, o Cardoso e o Sandro ao longo da viagem usando o celular com parcimônia, pois eu não levei carregador. Ela já tinha chegado em SP e o meu ônibus indo devagariiiiiinho. Chegando em SP às 19:00, aproximadamente, surpresa: até que as marginais não estavam tão zuadas. Às 19:30, mais ou menos, eu pensei: é para eu ver esse show sim. Eu sempre compro bilhetes de metrô a mais para quando voltar já os ter no bolso. Valeu o show: a fila para comprar bilhetes ou encher o cartão único era quilométrica, nunca a vi tão grande. Pensei que só haveria gente saindo de São Paulo, mas tinha muita gente chegando também. Corri no metrô, satisfeito.
Quando desci na Sé, desespero. Sempre soube que a linha vermelha é emperrada, tem gente demais. Mas achei que neste horário, numa sexta de carnaval, estaria de boa. Ledo engano. Estava pior, horrivelmente pior, do que nunca. Os trens passavam lotadíssimos, quase ninguém entrava. Pacientemente aguardei até ser alegremente “ensardinhado” no destino Corinthians-Itaquera. Achei que ia perder o show. E para descer? Pedindo muito “por favor”, pois nunca tinha descido na estação Belém, para alcançar a porta esquerda em meio à turba. Foi fácil achar o Sesc Belenzinho. Tinha olhado um mapa antes, fui meio no rumo, e numa ruazinha segui dois caras negros e uma mina com camisetas de som, pois estava na cara que iam ao show. Iam mesmo, chegamos lá na hora certa, em meio a raios e trovões, bem quando começou a chover.
E agora não sabia bem onde era nada. O Sandro me disse que estaria de regata e bermuda vinho, vou em direção à bilheteria e voilá, vejo alguém trajado assim e pergunto: era ele mesmo, havia acabado de chegar também. Era para eu ver o show, pus na cabeça que ia ver. E vi.
Conheci uma galera na porta, o Bruno havia acabado de avisar que não ia. A Aline estava atrasada. Não tinha o telefone do Cardoso. Entrei e fui comprar um par de brejas e um sanduíche, pois não comia desde o almoço. A banda saiu por uma portinha atrás da lanchonete. Engoli o lanche e voltei para mesa onde a galera do Sandro estava. Quando ele e a namorada, Andréia, chegaram, eu corri para mais perto do palco. Estava perto do guitarrista Bobbie, daí decidi ir para o outro lado quando o baixista e vocalista Bobby começou a falar sobre a Motown e Marvin Gaye, como que era importante para eles, e tocaram algo que não reconheci, mas logo supus ser o Gaye. Queria ficar perto do Bobby, afinal ele canta aquelas músicas há mais de quarenta anos, e consegui ficar em frente, muito perto dele; pena que não dava para ver direito o batera tocando, o Dannys. Então sinto um toque no meu ombro, era a Aline, em quem dei um abraço e dois beijos, não um só, de felicidade. Dava muita vontade ir pogar no meio da roda quando tocavam músicas como You’re a Prisoner, mas eu tava cheio do lanche e com medo de passar mal. Preferi pogar por ali mesmo, de leve, com ela por perto.
O show foi lindo, não tem nem muito o que falar, senão estraga a sensação, indescritível para quem não vi(ve)u. Tocaram três músicas do “nuovo disco”, como o Bobby dizia ao microfone, uma melhor do que a outra, inclusive uma feita pelo guitarrista Bobbie, o único que não é da formação original – estão em forma, não é uma banda do passado, mas sim muito viva, sem mofo, vicejando deslumbrantemente. Não deixaram de mencionar o irmão David; Bobby apontou para o céu, disse que ele estava lá conosco. Houve mais comunhão até que no show do Bad Brains, uma banda em que a religião também desempenha papel central e que também enveredou pelo reggae. Tocaram Views, Keep on Knocking, Freakin Out, vários clássicos, e pensei, cabotino: essas músicas e eu, tudo o que de mais bacana que apareceu em 1974, estão se encontrando cara a cara agora, em 2016. Para fechar, antes do bis, minha favorita deles, a música quintessencial do que viria a ser o punk: Politicians in my Eyes. Um cara com camiseta da Alternative Tentacles que estava na minha frente foi pogar no meio, quase o segui, mas pensei: pogar, eu pogo sozinho mesmo, parte da graça é essa até.
Findo o show, após o bis, despedi-me de meus novos amigos e fui dar uma volta com a Aline para acharmos o Cardoso e o achamos. Enquanto conversávamos, do lado de fora, uma briga irrompeu atrás de nós e disse para afastarmo-nos. Um sujeito gordinho e outro com boina e suíças trocaram socos e ficaram se rodeando, punhos em riste e guarda baixa; uma cena muito semelhante com a do Gangues de Nova Iorque na qual os personagens McCloin e Amsterdã apostam um quebra-pau. Isso foi interrompido por dois amigos do gordinho, que chegaram chegando e socaram a fuça do cara de boina, que não caiu ao chão em momento algum junto (tanto ele, como a boina), auxiliando o gordinho. Um segurança, sozinho, separou. Não sei quem estava errado ou certo – pra mim, todos estavam errados – mas foi covardia os três socarem o cara. Separados o gordinho gritou “skinhead de merda” ao que o sujeito da boina, que tinha mais jeito de quem gosta de irish punk, respondeu: “skinhead é o caralho!”. Uma garota pôs o sujeito de boina para dentro e foi o fim daquilo.
Depois que o Cardoso se despediu, já íamos embora, quando lembrei que eu ainda tinha uma ficha para duas brejas, já pagas. Benditas cervejas; enquanto eu e a Aline púnhamos a conversa em dia – não conversávamos pessoalmente desde 2008, quando nos encontramos num show do Mudhoney – reparamos que havia uma banquinha na qual os caras do Death estavam dando autógrafos. Já havíamos procurado banquinha de material antes, mas não tínhamos encontrado. Ela me ajudou a escolher uma camiseta e comprei um pôster para autografar – o DVD com o doc sobre a banda já havia se esgotado. Após tirar uma foto com eles resolvi trocar algumas palavras, apesar da promotora que havia tirado a foto estar nos apressando para que a fila andasse logo, pois pensei “Porra, esses caras começaram a tocar quando viram os Beatles em 1965, que privilégio estar aqui na frente deles” e soltei um “I came from a small town so... so far away, thanks for the show!” ao que eles responderam com largos sorrisos e um sonoro “Thank you!” que me pareceu genuinamente empolgado com a minha breve história, a qual estendi aqui.
Uma das melhores fotos que consegui tirar do show. Death, Sesc Belenzinho, São Paulo, 05/02/2016.

Foi uma noite quase perfeita, então foi perfeita – se fosse perfeita, não seria punk. Despedi-me da Aline no metrô e decidi-me por dormir na casa do Bruno. Ao pegar o ônibus de volta para casa, no dia seguinte, comprei o Laranja Mecânica do Anthony Burgess, pois nunca havia lido-o, e voltei lendo-o sem ouvir música. Não precisava.

Monday, February 01, 2016

Mission of Burma


Há uns dez anos – tudo isso já... – o Mission of Burma tocou num festival enorme no interior de São Paulo. Numa chácara, fora engano, em Atibaia. Eu conhecia os clássicos dos anos oitenta, mas a banda tinha voltado e lançado disco novo. Não ouvi, mas pensei em ir ao show. Achei caro porque ganhava pouco no meu trampo à época; era um festival patrocinado por uma marca de bebidas, acho que outra banda boa que rolou foi o Melvins. Tinha também o Supergrass, que até então odiava (hoje gosto de algumas músicas, estou velho e pá). E era a época do ressurgimento do pós punk, devido a bandas como o LCD Soundsystem e o The Rapture, então se não estou confundindo tudo teve o Gang of Four também nesse festival. Mas tudo bem nesse caso, vi o show do GoF depois.
O detalhe é que falei sobre o festival com um velho amigo, o Carandina, que produzia comigo um programa de rock alternativo na universidade nos anos noventa, o Programa Pirata, na Unesp FM. E a sorte é que ele trabalhava na assessoria de imprensa no festival e eu nem fazia ideia. Ele arrumou uma credencial para que eu cobrisse o rolê por um fanzine online para o qual escrevia à época, o Choose Your Side. Mas sei lá o porquê eu não fui. Não consigo lembrar por que não fui para lá; apaguei isso da minha mente. Minha namorada de então não gostava que eu viajasse sozinho, mas não é possível... não foi por isso que não fui. Ou será que foi? Não, não posso por isso na conta dela. Por algum motivo, me acovardei. Nunca vi o Mission of Burma ao vivo, eles nunca mais voltaram para o Brasil, e só resta me arrepender. Ou não: sempre torço para que eles façam mais shows.

Monday, January 25, 2016

Devo

Devo contar a história tal como aconteceu? Devo.
Em 1989 um cara de Caldas, o Fabiano, veio estudar na minha sala. Ele era repetente e bem mais maduro do que nós. Politizado e bem informado. Era de esquerda e meu melhor amigo o imitava e o zoava impiedosamente na rua; se começava a chover, por exemplo, o Márcio dizia que “é culpa da Globo”, só para sacaneá-lo, pois era uma frase recorrente do nosso colega de Caldas. O apelido do nosso amigo caldense era Biá, hoje ele é referência em direitos humanos na área acadêmica. Um dia, numa conversa de hora de recreio, ele descobriu que eu andava de skate.
- Já viu o Thrashin’?
- O que?
- O filme sobre skate, como que você não conhece?
- Ah, eu já li sobre o filme nas revistas de skate. Nunca vi. Não tem para locar aqui. Onde você viu?
- Tem em Caldas.
- Não acredito.
Caldas era uma cidade muito menor.
- Eu pego na locadora lá e trago para você amanhã.
Ele trouxe mesmo. Mas não lembro por que cargas d’água ele não levou o filme para a escola. Combinou de se encontrar comigo à tarde na velha rodoviária de Poços de Caldas, já demolida, onde hoje há uma praça de concreto – na qual a guarda municipal não deixa os garotos andarem de skate ou bike, a despeito da falta de grama, árvores e frequentadores.
Quando rememoro esse encontro assalta-me uma sensação de estranheza. Subi por uma rampa lateral e esperei numa pequena banca, uma mera reentrância naquela rampa (talvez fosse uma escada), que nos meus sonhos é curva, sempre sonho com esse lugar. Eu acho que ela era curva, de fato. Quando caminho pela avenida João Pinheiro nos meus sonhos, a velha rodoviária ainda existe e ela se apresenta como mais real do que minhas lembranças dela. Nas minhas lembranças, quando me recordo do lugar, as cores são mais esmaecidas.
Comprei alguma das revistas de quadrinhos que colecionava: a Circo, o Geraldão, a Chiclete ou, mais provavelmente, a MAD. Comprei só uma, o dinheiro só dava para isso. Eu deixava de comer lanche na escola para comprar as revistas.
O Biá apareceu com o filme e lembro-me bem de conversarmos na parte de cima da rodoviária, num parapeito, pois olhávamos para a avenida enquanto conversávamos. Como conversávamos sobre Metallica e Guns n’ Roses no colégio, fiquei surpreso quando ele perguntou se eu conhecia Devo, pois é outro universo.
- Pô, adoro!
- Tem That’s Good no filme.
- Eu já li sobre essa música.
- Mas você nunca ouviu?
Ele ficou espantado e riu. Eu lia o nome das músicas e bandas em revistas de skate como a Overall e a Yeah! e os decorava. Além de ficar exultante quando tocou Devo no filme, houve outros dois momentos musicais no Thrashin’ do qual nunca me esqueci: o show do Red Hot Chilli Peppers, uma banda sobre a qual até então eu também só havia lido a respeito, e principalmente a clássica cena da perseguição de skates (melhor do que qualquer cena de perseguição policial com carros) na qual toca Wild in The Streets. Quando reconheci essas palavras no refrão logo lembrei de uma lista de músicas favoritas de skatistas que havia numa Overall ou Yeah! Eu sabia que era do Circle Jerks, tinha memorizado o nome! Não há palavras para descrever a emoção de descobrir um tesouro enterrado, ainda mais naquela época pré-internet, em que o acesso à cultura era tão difícil. Tomei contato com o hardcore em filmes; a primeira vez que ouvi Bad Brains foi no Depois de Horas, do Scorsese. Mas eu não sabia de quem era música, não tinha referências. Já o VI do Circle Jerks foi o terceiro disco que comprei na vida.
- Não. Mas eu adoro Satisfaction, já vi o vídeo.
Tinha visto o clipe na TV Cultura. Para mim Satisfaction era do Devo; a do Rolling Stones era uma cover ruim. Tempos depois descobri que a original era do Stones. Para mim, até hoje, continua sendo uma versão mais ou menos de uma música genial do Devo.

That's Good - Devo 

Monday, January 18, 2016

Rapeman

Atualiza o site com conteúdo antissemítico. Ele gosta de rir dessa palavra e tirar sarro de quem a usa. Costuma rebater em discussões virtuais escrevendo que “mítico é o Holocausto” e que “antisse” não existe. Usa essa piadinha na vida real também, sempre seguida de uma risadinha de mofa, tão forçada quanto sua saída de perto de quem ele escarnece, pois nunca confronta ninguém pessoalmente. Gosta de dizer que não fala mal pelas costas; prefere dar tapinhas nas costas.
Queria sair da internet, mas a discussão no whatsapp da banda, a qual deixou de acompanhar, ao desligar o celular, migrou para uma conversa inbox. Estavam-no chamando na chincha.  Ninguém quer usar a letra homofóbica que ele havia feito. “Vocês nunca se importaram com isso, por que não posso falar abertamente?”, ele questiona. “Você não é nenhum Neil Peart e esse não é um tema do death”, rebate, seco, o vocalista, pondo um ponto final a uma guerra de textão. “Então está bom, vocês não são true”, capitula. Pensa em sair da banda. Depois decide isso, afinal não o expulsaram. Mas talvez seja mais importante se dedicar a ajudar a difundir o Nazbol no país. Enfim, depois pensa direito a respeito. Está tudo sob controle.
Então finalmente sai da internet. Quer dormir. Mas o telefone toca. O fixo. Fazia tanto tempo que ninguém ligava no fixo que nem se lembrava que ainda mantinha um. Atende. É a menina de ontem, sua ex-aluna.
- Oi.
- Oi.
- Eu estava bêbada. Por que você fez isso?
- Você queria.
- Eu não lembro.
- Pois é, você não lembra. Vamos esquecer então.
- Eu lembro de acordar, eu lembro como acordei! Eu te disse que gostava da amarula? Você me embebedou. Por que você fez isso comigo?
- Você gostou.
- Não gostei nada. Nem lembro.
- Então nem sequer há algo para ser esquecido.
- Escuta aqui, eu não lemb...
- Boa noite, beijo.

Vai dormir tranquilo; todas as vezes em que fez isso nunca teve problema. Sonha com deus, o seu Deus, o que o encontrou no seminário e disse para largar tudo e aproveitar tudo. No entanto, não consegue lembrar muito bem do sonho, ao acordar. Nunca havia dormido tão bem.

Monday, January 11, 2016

Big Black

Tinha um CD do Big Black. A compilação dos EPs. Eu já era ansioso, pulava as faixas chatas. Foi assim ao longo de metade dos anos noventa, nos quais havia, num bar, a menina. Ela passou mal, breja demais, se é que não tinha algo mais na parada. Conheci a melhor amiga dela. Nós a amparamos. A melhor amiga logo a substituiu, para a alegria dos três. Numa noite em combustão a língua linda incendiou meu pau, no estacionamento da faculdade. Só assim descobri que Seth, faixa que começava com um longo discurso e que eu nunca havia escutado, era a melhor música do CD do Big Black. Gozei na música seguinte, Jump the Climb. Ela engoliu tudo. Pulamos fora do carro e ficamos conversando longe um do outro. A canícula era tão desumana que não suportávamos mais o calor de nossos corpos. Ainda assim, beijamo-nos, encostando apenas bocas, dentes, línguas e sorrisos. Perdi a garota depois de alguns meses. O CD, uns anos depois. 

Originalmente esse texto era uma prosa poética chamada Descoberta; a escrevi em 23 de novembro de 2014. Deixei-a de lado por não ficar satisfeito com o resultado, além de achar explícita demais, e reencontrá-la foi realmente uma descoberta. Hoje a retirei da estrutura de versos e a reescrevi levemente; ainda a acho um pouco pesada, mas não entendo por que não gostei imediatamente do texto.

Monday, January 04, 2016

Pop Group

O cheiro do feijão cozido impregnava o apartamento. Era uma leseira depois do almoço e da escola. Mas ninguém usava esse termo “leseira”, acho. Falávamos que estávamos morgados. Acho que ficávamos morgados o dia todo, por nossos relógios biológicos não estarem adaptados a acordar cedo. Só melhorávamos quando saímos pra rua para zoar, do meio da tarde em diante.
O rádio estava sempre ligado. Legião Urbana, Ira! e Titãs tocavam o tempo todo, eram tão populares quanto Roberto Carlos era para os nossos pais. Tinha banda chata e convencional como o Barão Vermelho também, isso lá tinha. O doido, no entanto, é que no meio da programação, às vezes, tocava Garotos Podres, Replicantes e Toy Dolls. A primeira vez que ouvi “Eu quero matá-lo/aquele porco capitalista” foi numa rádio FM normal, dessas que tocam, sei lá, Chris Brown. Tá, naquela época tocava Chris de Burgh, não era tão diferente assim também.
O interessante é que não consigo imaginar uma rádio convencional tocando O Satânico Doutor Mao e os Espiões Secretos em 2016. Até porque não é um clima otimista de redemocratização, mas sim uma vaibe sinistra em que a extrema-direita volta a pedir golpe militar na cara dura. Pior ainda, no fim dos anos oitenta não havia essa praga neopentecostal fundamentalista. À época, havia toda uma grita contra censura; hoje, se alguém tocar algo com o nome “satânico” no rádio, correrá o risco de perder o emprego. Bem, provavelmente naquela época também e talvez eu esteja edulcorando o passado, afinal a Igreja Católica conseguiu censurar o Je Vous Salue Marie já na época da besta do Sarney. Isso fez com que eu assistisse ao filme com uns quinze anos. Levou outros quinze anos para ter coragem de assistir um filme do Goddard de novo, pois assisti ao filme apenas porque ele foi proibido – e achei chato pra caralho.
Enfim, só quem viveu antes do advento da internet e não tinha grana pra comprar discos para saber como é emocionante quando se tocava uma banda da qual você gostava muito no rádio. Era a oportunidade de gravar a música, você tinha que ficar atento. E o mais importante: não ligar na rádio para pedir a música. Senão eles soltavam alguma maldita vinheta em cima da música. O importante era ligar a rádio e se ligar como um caçador de tesouros no fundo abissal. Eu não gravei Papai Noel, Velho Batuta. Tive que esperar anos para ouvir a música depois, após o começo dos anos noventa. Vocês acham que tocava só Nirvana no rádio? Mal tocava. As rádios preferiam 4 Non Blondes e outras bandas mais palatáveis, nem Pearl Jam rolava tanto assim. O poperô já tinha dominado tudo antes. Mas já sabia que seria assim, não confiava nos DJs. Eu ouvia Smiths desde os anos oitenta e lia algumas das letras.

Monday, December 28, 2015

Birthday Party

Era meu aniversário de sete anos. Estava na escola. Não via sentido nisso. Era meu aniversário! Devia estar em casa assistindo desenho animado na televisão ou jogando futebol de botão ou futebol de verdade com meu irmão.
A aula parou. Entraram com um bolo de aniversário e chamaram até o meu irmão para vir na minha sala! Não há nada mais encantador para uma criança, ao menos para a que eu era, que fazer uma sala de aula parar para uma festinha. Basta dizer que nunca mais vi isso acontecer.
Foi a minha última festa de aniversário nos anos oitenta. Minha mãe e meu pai só me davam presentes e boa. A próxima festa de aniversário que tive foi uns vinte anos depois. Mas aquela de 1981 me bastou esses anos todos.

Monday, December 21, 2015

Mercenárias

O disco só roda em 45 RPM. Por sorte meu aparelho de som tem esse recurso . Achei num sebo. É de 1987. Estamos em 1989. A banda não existia mais há um ano, descobriria numa revista Bizz, também comprada num sebo, uns dois ou três anos depois. Estava vivendo intensamente algo que já havia acabado. Os anos oitenta tinham muito disso, o apartamento onde vivia era uma caverna de Platão, nos quais as sombras dançando ao fundo não eram sombrias, mas sim tão fascinantes quanto um teatro de sombras é para uma criança – a qual eu ainda era ali, com 14/15 anos.

Uns dois anos depois mais ou menos, em 1991 ou 1992, minha irmã e suas amigas descobrem o disco, decoram umas letras, cantam junto. Elas adoraram, era uma banda só de mulheres, novidade para elas, com a qual se identificaram. Elas tinham 10 ou 11 anos. Eu fiquei enciumado. Era a MINHA banda. Eu devia ter incentivado-as a montarem uma banda influenciada pelas Mercenárias. Faltou empatia. A empatia que elas tiveram.

Monday, December 14, 2015

Wire


Invasão de propriedade. Nunca vimos como maldade ou crime. Criança não conhece essas fronteiras. Sabem que elas existem, mas se não estragamos nada, qual o problema? Nos anos oitenta, com o fim da ditadura, tudo tinha cheiro de liberdade.
Uma das melhores lembranças que tenho da época é pular dentro do pátio de uma loja de pneus e artigos automotivos que ficava fechada do sábado à tarde em diante e ficarmos andando de skate no cimento liso daquele lugar tranquilo, que até hoje permanece exatamente igual, pois, claro, nunca estragamos nada, não queríamos ser descobertos e repreendidos – ainda tenho vontade de pular lá dentro. No ano passado cheguei a andar no pátio aberto na frente, que também é grande e propicia bons rolês, mas não tem tanta graça quanto pular aquele muro.
No mesmo quarteirão dessa loja, o de baixo da minha casa, tinha uma fábrica de chocolates na qual ia, quando criança, com a minha mãe; lá, um funcionário sempre me dava bombons! Não bastasse essa boa memória, há outra. Uns dez anos depois, como ela faliu, eu, meu irmão e uns amigos resolvemos pular o muro. Que surpresa: tinha uma piscina vazia lá dentro! Com uma parede curva, que acompanhava a esquina, pois a piscina ficava num canto da fábrica. Não tinha transição, tínhamos que andar lá dando wall rides. Era divertido, mas fomos pouco lá, pois não éramos tão bons nisso. Foi o mais perto que já cheguei de andar de skate em uma piscina como as da Califórnia – é uma pena mesmo as daqui não ter transições.
Andar de bike e entrar em fazendas ou áreas de represa ou usinas de força (ou algo assim) era mato – literalmente também. O problema sempre foram os arames farpados, alguns enferrujados. Um de nós às vezes se enroscava. Bons tempos – sei que essa expressão é clichê, fazer o quê? – mas bons tempos mesmo em que as grandes enroscadas eram essas.  

Monday, December 07, 2015

Hüsker Dü

1988 ou 1989.

Na entrada do prédio, após virarmos o corredor à esquerda – seguindo em frente chegava-se ao quintal onde penduravam as roupas nos varais – jogávamos uma brincadeira de bolinha de plástico, dessas que quicam muito, que inventamos da nossa cabeça. Ficávamos sentados, não podíamos levantar, e batíamos na bolinha com a mão. Se passasse atrás dos jogares do outro time, era ponto. Fomos precursores de uma forma primitiva de goalball.
Os vizinhos não gostavam muito dessa ideia não, eles tinham que passar por ali. Mas era de tarde. Não dava nada.
Você se lembra?
Hoje sonhei que a Menina, a cachorra da minha irmã, estava no corredor e que ainda morávamos lá. Logo acordei, alertado pelo anacronismo da cachorrinha que ainda nasceria muitos anos depois de nos mudarmos de lá. Lembrei-me do jogo que inventamos, nunca pensamos nisso. Talvez só eu ainda me lembre.