Wednesday, September 15, 2021

O dia em que eu tretaria com o Brizola

 Esta crônica foi publicada na página 9 da edição 7549 do Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 11 de setembro de 2021. Eu a escrevi à queima roupa pouco antes do horário do fechamento do jornal e não passou por revisão, a não ser por mim mesmo agora, para publicação no blog. Fiz pequeníssimas modificações; a principal foi desmembrar a última frase. 

Já escrevi uma crônica sobre as eleições de 1989: para mim foram divertidíssimas. Eu sei que teve baixaria até que parecida com as de hoje, como a vergonhosa edição que a Globo fez do debate entre Lula e Collor, abordada no documentário Além do Cidadão Kane. Outra história famosa é a do sequestro do empresário Abílio Diniz por um grupo de extrema-esquerda do Chile, o MIR: quando a polícia encontrou o cativeiro e prendeu os sequestradores, os apresentou com camisetas do PT, as quais teriam sido plantadas. Enfim, era jogo sujo sem meios virtuais. Mas tudo isso estava fora do meu radar, eu era novo demais. Mesmo assim, acompanhei as eleições com relativa atenção. Apesar de ainda existir a União Soviética, esses papinhos furados de fantasma do comunismo me pareciam bem insignificantes. O ambiente era muito mais de alegria, devido à redemocratização; não era algo tão conflagrado quanto agora. Eram muitos candidatos à presidência e os debates eram muito engraçados. Eu levei na galhofa, apesar de saber da seriedade e da importância. No meu anarquismo pueril, eu queria mais era zoar todos os candidatos. O que efetivamente fiz, mas isso já contei na crônica que mencionei na primeira frase, chamada República Selvagem, publicada neste Jornal da Cidade anos atrás. Nela, conto que Brizola almoçaria na minha casa durante a campanha. Meu pai era filiado ao PDT e brizolista roxo. No entanto, minha mãe vetou a ideia, pois o apartamento em que morávamos era muito acanhado. Era num predinho do BNH, o Minha Casa, Minha Vida dos tempos da ditadura. Ela achou que não ia dar certo um monte de correligionários dele e mais equipes de TV lá. E ela estava certa, não caberia. Como já disse, achei uma pena, pois seria divertido vê-lo xingar o Collor dentro da minha casa. Mas, pensando bem, acho que acabaríamos discutindo. Sei que o Brizola foi um sujeito muito corajoso, teve vários méritos, impediu um golpe de estado em 1961. Posso até admirar isso, mas eu já o achava um populista. O jeito dele falar me irritava e os seus imitadores daqui mais ainda – meu pai não imitava o jeito dele falar, ao menos ele tinha personalidade própria. Imagina se ele entra no meu quarto e vê pôster de skate e videogame. É certeza que iríamos bater boca. Consigo visualizar ele criticando tudo, dizendo que são coisas da “juventude americana” ou algo assim. E eu retorquiria dizendo que ele era um velho gagá. E se ele visse alguma Playboy lá? Acho que teria uma síncope. Consta que ele quis ou conseguiu impedir uma parente (Neusinha Brizola, salvo engano) de posar para a revista. Acho não tínhamos mais armas de brinquedo àquela altura, mas não tenho certeza. Era capaz dele pegar e jogar no lixo. Hoje eu acho que ele está certíssimo, mas é óbvio que eu não ia engolir isso. Não, estou exagerando; ele ia criticar tudo, mas não ia dar uma dessas. Mas deveria, no final das contas seria uma ótima memória. Pena que não aconteceu essa nossa briga. Grande Brizola.

Daniel Souza Luz é jornalista, revisor, professor e escritor


Leonel Brizola pula fogueira de armas de brinquedo, que foram trocadas por livros, em 1982, no Rio de Janeiro. A foto é de Aguinaldo Ramos e não está em domínio público, mas pela leitura desse texto no blog dele suponho que ele não se importa pelo uso não comercial dela. Recomendo muito a leitura deste texto dele contando os bastidores da ocasião em que ele tirou a famosa foto. 


Wednesday, September 01, 2021

Dominatrix no pogo

Esta crônica foi publicada em 28 de agosto de 2021 na página nove do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG). É uma versão ampliada e reescrita da minha Micrônica 1998, de 27 de outubro de 2017, sobre meus bons tempos dos anos noventa, a qual eu mesmo revisei mais uma vez agora, pois encontrei vários errinhos após a publicação no jornal. 

Adorava os shows no Pau-Brasil, bar de Bauru que era na verdade um sobradinho adaptado, na última década do século passado. Embaixo ficava o balcão e subindo as escadas ficava um pequeno “palco” num cômodo. Na verdade, não havia palco algum, era só o espaço ao lado da escada que fazia as vezes de um palquinho. Tinha gente que se equilibrava entre a parede e aquela espécie de mezzanino, então pra começar às vezes passava por baixo daquele bando de homens e mulheres-aranhas ao chegar para os shows. Bauru é quente como um fogão em funcionamento e aquele salãozinho era uma panela de pressão. Durante o mosh, com umas oitenta ou mais pessoas onde deveriam caber umas cinquenta, as paredes literalmente suavam. Bem, talvez eu esteja exagerando quanto ao número de presentes, afinal eram shows underground; vai ver eram apenas quarenta pessoas onde cabiam apenas vinte. Mas não estou exagerando quanto ao suor. Formavam-se gotículas no teto e quando elas caiam o chão enlameava-se com os tênis e coturnos sujos. Ficava super escorregadio para o pogo. Com certeza algum espírito de porco também derrubava cerveja, o que não ajudava em nada. De qualquer forma, punk rock sempre foi uma aventura solidária. Se você caía, alguém logo te ajudava a levantar. Mas nada de edulcorar o passado. A briga mais sanguinária que já testemunhei em show foi lá, em 1997, quando o Autoboneco, heróis locais e até hoje na ativa, estava tocando. Mas um ano depois era meio diferente e esta história de 97 já contei numa outra crônica chamada Como Sobreviver a uma Briga num Show de Punk Rock. Em 1998 vi o cara, na verdade um gorila, que provocou a treta de um ano antes, o Boy, tentar encoxar uma amiga, a Marília, durante o mosh. Ela, muito menor, deu um soco na fuça do babaca que ele até perdeu o rumo. Era o tempo das riot grrrls. No meio do hardcore se discutia muito sobre as letras do Dominatrix, banda que fazia do feminismo sua bandeira. Felizmente, isso não é mais restrito ao meio underground ou acadêmico. Pena que ainda haja muitos trogloditas por aí, talvez até mais. De qualquer forma, conversando recentemente com a Marília, rememorando esses episódios, ela me disse que se compadece do Boy, que provavelmente ele era um rejeitado até mesmo num meio inclusivo. De fato, ele não reagiu, assim como resolveu apanhar quieto um ano antes, depois de começar a briga. Alguém imagina um “cidadão de bem” tendo essa dignidade, ainda que meio torta, em 2021? Eu não.

Daniel Souza Luz é jornalista, revisor, professor e escritor


Foto que tirei do Dominatrix na Virada Cultural de São Paulo/SP, 18/05/2014. Infelizmente não fotografei o show delas que vi nos anos noventa.  


Monday, August 23, 2021

Indignação, de Philip Roth (resenha)

Esta resenha foi publicada no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 21 de agosto de 2021. Já havia publicado uma versão preliminar no Good Reads cinco dias antes, a qual reescrevi para adaptá-la ao jornal, também ampliando-a. 

Conforme prometi na minha mais recente crônica para o Jornal da Cidade, aqui está a resenha de um livro do Philip Roth. Era para ser outro, mais recente, mas não faz mal. Haverá outra oportunidade. Indignação é uma obra excepcional. Roth é mesmo um mestre da narrativa. Em certos momentos ele ilude o leitor, parece que incorre na literatura fantástica, mas nada disso; Roth era um cético, com os dois pés firmes no chão, e tudo fica muito bem explicado e amarrado. E estava tudo na cara, mas ele habilmente me deixou perplexo, imaginando experimentalismos e implicações cósmicas. Já deveria saber de antemão que não era nada disso. E esse é só um dos inúmeros pontos fortes do livro. Se você não gosta de spoilers e ainda não leu esse obra-prima, pare de ler por aqui. O narrador, Marcus Messner, é um jovem ateu de origem judaica (o que me faz supor que o romance seja em parte autobiográfico, como boa parte da obra dele) que desiste de estudar na faculdade local para escapar à opressão paterna, que até um pouco antes de sua entrada na universidade não existia ou era muito tênue. Messner, aliás, é de Newark, cidade natal de Roth em Nova Jérsei. Ele então parte para outra, muito conservadora e numa cidade interiorana do reacionário Meio-Oeste dos EUA. É claro que nada de bom virá daí e suas relações com um colega de quarto homossexual e libertino, com outro obtuso e provinciano, com uma "peguete" chamada Olivia Hutton, com colegas das famosas fraternidades daquele país e principalmente com uma espécie de bedel moral da faculdade serão permeadas de tensão. Fascina-me em especial a discussão com este último, chamado Cauldwell, no qual Marcus cita o ensaio Por Que Não Sou Cristão, de Bertrand Russell, esgrimindo argumentos impecáveis e sendo retorquido por uma retórica medíocre, eivada de macartismo. Roth mostra brilhantemente como um jovem inexperiente pode ser inteligentíssimo, mas também pode ser tolhido pela inexperiência e pelo uso abusivo de micropoderes por parte de adultos tóxicos e invasivos. Chama a atenção, comparativamente, a crescente paranoia do pai de Marcus, que em parte lembra as neuroses de Portnoy, que não tinha uma relação sadia com os pais em O Complexo de Portnoy, outra das obras-primas do Roth. Marcus, pelo contrário, tinha uma boa relação e é trabalhador, estudioso e principalmente compenetrado, tendo em mente que precisava se destacar nos estudos para não ser alistado e mandado para a morte certa na cruenta Guerra da Coreia. O encadeamento de escolhas impensadas, imaturidade, reacionarismo e eventos fortuitos resultam em tragédia e na perda irreparável de cérebros - não só de Marcus, como o de Olivia, provavelmente. A final nota amarga é que Roth não deixa de observar que isso deve-se muito ao zeitgeist: a trama se passa nos anos 1950 e na libertária década seguinte espíritos arrojados e brilhantes como os de Marcus e Olivia não serão destruídos por sujeitos obtusos como Cauldwell, que perdem a importância e o poder mesmo numa instituição ultraconservadora, mas sim se destacarão na geração flower power que demoliria tabus sexuais e comportamentais.

Daniel Souza Luz é revisor, professor, escritor e jornalista



Monday, August 16, 2021

Para Philip Roth

Esta crônica foi publicada em 14 de julho de 2021 no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG). É uma versão retrabalhada da minha micrônica 2207, publicada em 24 de maio de 2018, dois dias após a morte de Philip Roth - soube do falecimento dele no dia anterior. Mantive a dedicatória, como se fosse um título, por pura preguiça. 

Em 1995, quando cursava o primeiro ano de Jornalismo na Unesp, no campus de Bauru, saí para um rolê no intervalo das aulas e fui parar na Banca do Itamar, que na verdade era uma livraria que ficava entre os blocos das salas de aula. Uma galera da minha turma notou que havia livros em promoção por valores irrisórios. Se bem me lembro, foi um amigo chamado William Cardoso, hoje repórter do jornal Agora, que pôs fogo em nós para que colássemos lá. Em meio à pilha de livros, não tão substanciosa assim, com preços promocionais, encontrei lá uma edição de O Complexo de Portnoy, lançada no Brasil, salvo engano, nos anos 1980. Já havia lido sobre o Philip Roth e me interessei. O livro custou apenas um real. Sempre disse que foi o melhor negócio da minha vida. Paguei com aquelas notas de real que nem existem mais. Ao contrário do que faço hoje, devorei o livro pouco depois de comprá-lo. Adorei-o. Até ler O Rei de Havana, de Pedro Juan Gutiérrez, era o melhor final que já havia saboreado na literatura. É curioso: ser um homem branco (ao menos aqui no Brasil; na gringa eu seria tido como latino) e heterossexual como Roth fez com que, até emprestar o livro para uma ex, não me desse conta do quão machista é o narrador. Embarquei na psique distorcida do protagonista e apenas me diverti ou fiquei embasbacado, mas nunca de fato chocado. O que também é fruto da minha imaturidade à época, com certeza. É uma obra-prima tão bem escrita que não li nenhum outro livro de Roth nos próximos 25 anos. Achava que nenhum estaria à altura. Ledo engano, no ano passado li Indignação e o próximo livro que encararei será o canto do cisne dele – Roth morreu em 2018. Sempre pode haver mudanças de percurso, no entanto. Mas provavelmente será. Aguardem uma resenha. Ou não.

Daniel Souza Luz é revisor, professor, jornalista e escritor


Philip Roth em 1973. Foto de Nancy Crampton, já em domínio público.




Monday, August 09, 2021

Juventude Sônica Estourando Alto-Falantes

Esta crônica é uma ampliação da minha micrônica 1992, de 2017. Foi publicada no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG), em 07/08/2021, revisada por mim mesmo. Para a publicação aqui, foi revisada pela Juliana Gandra.

Depois de algum tempo comprando discos em sebos, li uma crítica do já falecido jornalista Celso Pucci na revista Bizz e resolvi comprar o então recém-lançado Dirty, do Sonic Youth, em 1992. Dias atrás li que no mês passado fez 29 anos do lançamento. Lembro até hoje de voltar feliz para casa, com o vinil duplo, novinho, debaixo do braço, e encontrar uma colega de escola, a Maria Fernanda (que nunca mais vi), na praça. Eu estava caminhando também para o fim do ensino médio. Mostrei o disco, ela não conhecia, mas todo mundo sabia já quem era o Nirvana, então bastou explicar que era um grupo que os tinha influenciado. Conheci o Sonic Youth de ler a respeito no fim dos anos 1980 e os ouvi pela primeira vez em 1990, quando o Kid Vinil passou o clipe de Silver Rocket na TV Cultura. Era uma pancada como nunca havia ouvido antes; parecia hardcore, mas era muito mais barulhento e sujo do que bandas do estilo à época, que estavam muito próximas do thrash metal. Por isso, me decepcionei quando peguei a fitinha do disco Goo, que era daquele ano, com um amigo, o Jorge Nunes – cujo pai foi o primeiro dono da Agência Playboy, banca já extinta onde comprei muitas HQs e livros. Foi quando percebi que eles não eram uma banda de hardcore punk, como o clipe sugeria. Mas havia adorado o clipe de Dirty Boots, o som que abre Goo, que o Kid Vinil também exibira dois anos antes. O disco de 1992, que parecia fazer referência à música de 1990, me desceu muito melhor. O vinil tinha uma música a mais do que o CD, informação que constava na resenha do Celso Pucci, e por isso optei por comprá-lo. Ouvi o disco, maravilhado. Eles não tinham se “nirvanizado”, como apontou Pucci. Eram músicas bucólicas, ou barulhentas, ou caóticas, ou bem engendradas. Stalker, a música-bônus, tem um fim com uma frequência de som tão alta que estourou a caixa de som do aparelho da sala logo na primeira vez que a ouvi. Fiquei quieto a respeito, para não tomar bronca dos meus pais. E por 26 anos esse aparelho funcionou com apenas uma caixa, até pifar de vez. Já o vinil duplo de Dirty tenho até hoje e ainda o escuto. Mas, calejado, tomo o cuidado de abaixar o som no final fatídico de Stalker.

Daniel Souza Luz é revisor, jornalista, professor e escritor


Foto que tirei em 21 de outubro de 2017, data em que publiquei a micrônica 1992 nas minhas redes sociais. 


Monday, August 02, 2021

A Filha, A Flor, O Cais, de Ana Luíza Drummond (resenha)

Esta resenha foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 31 de julho de 2021 - ou seja, apenas onze dias após o lançamento do livro e um dia depois de recebê-lo pelo correio. Por isso o "neste mês" no texto, agora já mês passado. Portanto, é um livro que merece uma releitura. Muitos pontos que chamaram a atenção nos poemas, como os hábitos que cultivamos nas redes sociais, não estão presentes na resenha, por questões de espaço e de ter sido escrita à queima-roupa. Mais uma vez citando o posfácio de Ricardo Pinto de Souza: este texto também é um guia para uma leitura inicial. O texto foi revisado pela Juliana Gandra para a publicação no jornal e o revisei novamente para publicá-lo aqui; basicamente, só eliminei uma vírgula que ela inseriu, inclui uma crase que estava faltando, consertei uma frase para não haver repetição exagerada do termo "aqui" e pus o nome completo do Jorge (também conhecido como Jorgeras).  

Conheci a poeta Ana Luíza Drummond há dez anos, numa viagem para Ouro Preto, quando visitei sua casa em Mariana. Ela é companheira de Jorge Benedito Freitas, meu ex-aluno, hoje já com doutorado em Letras, em que estudou o grande poeta judeu Paul Celan. Lembro-me de Jorge lendo seus poemas em saraus espontâneos, sem divulgação prévia ou incentivos culturais, num barzinho na rua Rio Grande do Sul, em meados da primeira década deste século. Ana Luíza, que eu não sabia que escrevia, é quem lança um livro de poesias neste mês. Ela já morou em Poços de Caldas também, por um breve período de tempo, quando foi minha colega no núcleo local do curso pré-vestibular Educafro, no qual lecionou Português. Seu primeiro livro foi lançado em 20 de julho deste ano pelo selo Leme, da editora Impressões de Minas. Ao lê-lo e fazer anotações mentais para esta resenha, acabei tendo uma impressão muito parecida com a registrada no posfácio, escrito por Ricardo Pinto de Souza: a de que a obra se divide em três partes, ainda que a autora não tenha estabelecido essa divisão formalmente. Na primeira, ela relembra e, o mais importante, revive sua infância, ressignificando as relações com a família. É especialmente pungente o poema no qual aborda a relação paterna: “Esta é minha cena-carta-poema do perdão: livro-me/Nela me escrevo para assombrar-te: existo/Nela iludo lei e pai” é um dos trechos mais fortes. Ao contrário de Pinto de Souza, no entanto, entendo que não é o belo poema Mito, que abre o livro e é dedicado à mãe de Ana Luíza, que dá a chave de compreensão dessa primeira parte. Isso já está posto na dedicatória à avó Almerinda. É o ser e crescer mulher que permeia o livro até a segunda parte, que também identifiquei ter o mesmo tema destacado por Pinto de Souza no “percurso interpretativo” que ele estabelece e que percorri na mesma senda até aqui, inconsciente de sua proposição: a da descoberta de si e de ser mulher num mundo hostil e misógino. Nela se (re)afirma o corpo e a sexualidade numa linguagem sem pejo, na qual termos como “buceta” e “meu cio” são usados não para chocar moralistas conservadores (que ficariam desgostosos de qualquer forma), mas para refletir sobre sua condição – e de todas as mulheres, num viés feminista. Curiosamente, é aqui que Ferros, cidade mineira na qual Ana Luíza nasceu e chegou a ser secretária municipal de Educação, é mencionada e evocada mais diretamente. As lembranças de uma idade mais tenra na cidade natal aparecem quando a autora se vê numa rotina no Rio de Janeiro que pouco lembra o estereótipo do carioca “sangue bom”. Esse encontro com si mesma, como bem observado no posfácio, deve-se muito ao nascimento de Flora, quando ela e Jorge moravam em Alfenas (agora estão em Timóteo; ao menos foi de lá que Ana Luíza me enviou o livro), pois “modifica e problematiza tanto a memória do passado quanto o sentido do presente”. Este “memória do passado” algo pleonástico de Pinto de Souza, não está errado; a terceira parte me fez lembrar de “Memories of Tomorrow”, do grupo de hardcore Suicidal Tendencies. Mas não estamos num mundo devastado por uma guerra nuclear e sim num país em processo de destruição por um presidente ignorante e neonazista (agora com laços assumidos com o partido neonazi alemão). A terceira parte do livro é menos sobre o espanto com o mundo atual, como entende Pinto de Souza, e mais de indignação política e alguma esperança, no meu entender. Nesse caso, há um feliz acidente, ao menos no exemplar que recebi: as páginas 53 e 54 se repetem três vezes; é justo no poema 14 de março de 2018. Esta é a data do assassinato de Marielle Franco. Provavelmente não é proposital, mas acabou vindo a calhar ler os mesmos versos repetidamente, pois é uma data que ecoa até hoje, sem parar, sem parar, sem parar.   

 

Daniel Souza Luz é revisor, jornalista, professor e escritor



Monday, July 26, 2021

Niponírico

Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 24 de julho de 2021. A Juliana Gandra fez a revisão.

Foto de Pablo Fernández. Reproduzo aqui via Creative Commons.

Tóquio 2020 em 2021. Esta edição das Olimpíadas um tanto quanto distópica me faz lembrar de que fiz a melhor viagem possível ao Japão num sonho. Cheguei em uma Tóquio que parecia ser feita de casas bixas, mas o hotel era uma torre enorme, isolada. Ficava em frente a uma pequena praça desolada, sem árvores, parecida com a da igreja Matriz (!?!) de Bauru, que é (ou era) muito concretada, mas muito miniaturizada. A entrada era de portas de vidro enormes, com paredes de mármore preto. Após deixar as malas no quarto, desci para a casa de chá, no lobby do hotel. Na real, parecia um bar com paredes escurecidas e um grande balcão. Enquanto esperava, pois o chá demoraria um pouco para ficar pronto, cansei de ver as casas mirradas da esquina da rua em frente, pois estava num andar muito baixo e a paisagem era monótona; fui dar uma olhada na loja de CDs em frente. Chegado lá, fiquei impressionado pela enorme quantidade de CDs de MPB: Toquinho, Taunay, Taiguara muitos outros. Numa prateleira em frente, vários DVDs de desenhos da Turma da Mônica, inéditos no Brasil. E, ao lado deles, mais DVDs ainda de filmes pornôs sadomasoquistas e alguns hentais. Acordei achando isso tudo muito nipônico mesmo. Talvez alguém ache que isso seja orientalismo, mas não posso controlar meu inconsciente.

Daniel Souza Luz é revisor, jornalista, professor e escritor


Tuesday, July 20, 2021

O Pianista Que Pensava (resenha)

Esta resenha foi publicada em 19 de junho de 2021 no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG). Havia sido publicada originalmente no Good Reads em dezembro de 2020, mas a atualizei e ampliei para a publicação no jornal. 

Confesso que adoro encontrar obras que parecem ter sido escritas por pessoas que tiveram filhos, plantaram uma árvore e escreveram um livro só porque há o famoso ditado que recomenda isso. Apesar de todos os pesares, sempre há pequenas pérolas. Peguei este livro um pouco antes da pandemia, em Campestre, pequena cidade mineira vizinha a Poços de Caldas, no consultório do dentista Wilton Serrano, um bom amigo. Ele disse que era para eu ler e passar pra frente mesmo. Não sei onde ele encontrou o livro, mas estava até com o convite de lançamento e uma curiosa dedicatória do autor, um músico carioca a respeito do qual quase não há traços na internet, na qual ele colou um papel em cima do nome de alguém e aparentemente dedicou este exemplar a outra pessoa – olhando na contraluz, minha namorada depois desvendou o segredo: ele havia escrito errado o nome da pessoa para quem ele autografou este exemplar. Li as poesias no início e me animei, ainda mais que a capa foi desenhada pelo Chico Caruso e o Millôr fez ilustrações para o livro. Parece que isso foi em outra vida; quando peguei realmente para ler o livro, pandemia ainda grassando desgraçadamente no Brasil, evito até pequenas viagens para cidades vizinhas. Infelizmente o livro não sustenta as expectativas. Na verdade, é uma coletânea de máximas (isso eu já sabia); algumas, como diz o editor Marcelo Câmara no prefácio, podem até ser entendidas como haikais. O problema é que a maioria é banal, não passam de generalidades, algumas beirando àquele humor misógino típico daquela geração. Osvaldo Nunes Filho, o pianista que pensava, com certeza era melhor em escrever partituras. Outra curiosidade é que o exemplar tem um errinho que passou pela revisão e foi corrigido à caneta pelo próprio autor - é possível reconhecer a letra. E a edição prejudica algumas das ilustrações do Millôr, distribuindo-as por duas páginas e dificultando a apreciação delas, devido à dobradura do livro. De qualquer forma, há algumas tiradas geniais. Um exemplo: "Era um grande democrata. Estava sempre pronto para dizer seu monólogo". Essa é bem apropriada para estes dias, embora o livro seja de 2004. Como é uma leitura rápida, vale a pena, no fim das contas.

Daniel Souza Luz é escritor, jornalista, professor e revisor




Monday, July 19, 2021

Por todos os discos que não comprei, obrigado, Carlão

Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 17/07/2021. O título foi sugerido pela Juliana Gandra, que também revisou o texto.

Nesta semana, na segunda-feira (12/07/2021), faleceu Carlos Eduardo Pereira, dono do sebo Ler e Ouvir, de sequelas da Covid-19, segundo Roberto Tereziano. Conforme comentei no telejornal Virou Notícia, da Virando TV - pois substituí nesta semana o jornalista Roni Bispo na apresentação do jornal -, trata-se de uma vítima da doença que não consta nas estatísticas oficiais, pois morreu depois de estar em casa e já ser considerado curado. Ou seja, aquela maldita tabelinha de “recuperados” não contempla os sequelados e vítimas colaterais da pandemia, que foi tão potencializada por neofascistas negacionistas e, também, não podemos nos esquecer, por aqueles que têm noção, mas são coniventes com aglomerações para atender interesses comerciais e políticos. Neste mesmo Jornal da Cidade, na coluna Aspectos da Literatura Poços-Caldense, Huendel Viana já contou a história do livreiro Eduardo, ou seja, de como Carlos Eduardo, conhecido pelos amigos como Carlão, se formou em Filosofia, frequentou os famosos sebos do centro de São Paulo e trouxe a ideia para cá. Figura querida, ele era mesmo uma figura. Esses espíritos rebeldes têm conexões: meu amigo Aran Brandão tem em Bauru uma espécie de loja que nunca vi similar, a Extinção, que é uma mistura de sebo e brechó. Ele e Carlos Eduardo têm (tinham) o desprezo pelos horários comerciais: abriam quando queriam, se quisessem, só à tarde, e fechavam quando desse na telha. A relação de Carlos Eduardo com os livros, suas outras manias e seu método de precificação já foram esmiuçados pelo Huendel. Eu, no entanto, tive uma convivência muito diferente com ele. Sempre busquei discos de vinil no seu sebo e não livros. E ia lá frequentemente com amigos headbangers, que ficavam fascinados lá quando viam lá discos como o raríssimo EP Fuck Me Jesus, do grupo de black metal Marduk. Vou poupar os leitores religiosos dos detalhes da capa. A questão é que era um bando de metaleiros cabeludos que não compravam porra nenhuma. No máximo, um ou outro comprava algum disco do Kiss ou algo assim. Carlão ficava irritadíssimo, sempre nos tratava às patadas e cheguei a vê-lo expulsar um banger da sua loja aos berros – mas o sujeito não estava conosco, não faço ideia de quem seja. Comigo ele era um pouco menos hostil, pois virava e mexia eu comprava vinis – raramente algum de metal, aliás. Várias pérolas da minha coleção vieram do seu sebo: o primeiro disco das Mercenárias, o 3 Lugares Diferentes do Fellini, a coletânea New Wave Times, o Midnight Madness and Beyond do grupo britcore GBH, o inacreditável vinil brasileiro original de Wooly Bully, do Sam the Sham and the Pharaos, grupo de rock de garagem dos anos sessenta, e inúmeros outros. Comprei por preços módicos, ou a preço de banana mesmo. Hoje alguns valem pequenas fortunas. O título desse texto foi uma sugestão da minha namorada, Juliana Gandra. Tem discos que deixei de lado lá, como o To Mega Therion, do Celtic Frost, o Where Legend Began, do English Dogs e o Here Comes Everybody, do The Wake, que hoje com certeza valem centenas de reais. Separei-os, deixei com ele, na hora de fazer as contas vi que pesariam demais no meu bolso – nunca me esqueci disso e de quais discos eram. Arrependo-me, podia ter feito uma forcinha. Além disso, tem discos que adquiri lá e que vendi depois, como um das Throwing Muses, dos quais me arrependo muito de tê-lo feito. Bem, ao menos posso ouvi-los online hoje para inspirar-me para esta pequena crônica. Quanto ao Carlão, quando eu já estava na universidade deixei de ter a má impressão inicial; uma parente dele que também fez a Unesp Bauru disse-me que ele era inteligentíssimo e contou-me dos problemas de saúde que ele tinha. Considerei normal ele ser estressado, ainda mais com os amigos idiotas que eu tinha no final da adolescência – tanto que nem converso mais com eles. Quando o sebo já estava na rua Santa Catarina conversei com o Carlão algumas vezes, já em busca de (uns poucos) livros. Aí ele era outra pessoa, também creio que não se lembrava mais de mim. Devia ser duro para um homem sofisticado, amante de jazz, literatura e filosofia, aturar um bando de adolescentes desajustados em busca de barulho. Ou, pior ainda, que fossem no seu sebo apenas fazer muito barulho por nada – sei que ele entenderia essa referência.    

 Daniel Souza Luz é revisor, jornalista, professor e escritor


Capa do disco To Mega Therion (1985), do grupo suíço de death/thrash/black metal Celtic Frost. O desenho é do também suíço H.R. Giger, o criador do Alien. 


Monday, July 12, 2021

Revolta da Vacina, de André Diniz (resenha)

Esta resenha foi publicada no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 10 de julho de 2021. O texto foi revisado pela Juliana Gandra. 

Esta graphic novel foi lançada num momento muito oportuno, algo que a editora Darkside fez questão de ressaltar na contracapa. A Revolta da Vacina ocorreu em 1904, no Rio de Janeiro, e já foi tema de ao menos um ótimo romance: Sonhos Tropicais, de Moacyr Scliar, lançado em 1992 e vencedor do prêmio Jabuti em 1993. Ressoa agora na pandemia da Covid-19, com a diferença de que à época a população era desinformada e premida por políticas de gentrificação de gestores elitistas e racistas, como muito bem explana o excelente posfácio desta história em quadrinhos, escrito pelo historiador Luiz Antônio Simas. Agora, como bem sabemos, os anti-vaxxers, os celerados obscurantistas de extrema direita que fazem campanha contra vacinas chegam a influir nas decisões de um presidente neofascista e genocida, que delas desdenhou não por falta de informação, hoje abundante, mas pela fé (não há outra palavra) na mentira e nas notícias falsas. O resultado está aí: um massacre com mais de meio milhão de mortos. Cuidem-se, quem sabe não sobrevivemos para ver o quadrinista André Diniz ganhar os prêmios HQ Mix e Angelo Agostini (as grandes premiações dos quadrinhos brasileiros) de melhor HQ de 2021 por esta obra? Potencial há. Diniz lança mão de um expediente semelhante ao de Scliar: o período logo anterior à Revolta da Vacina, sua eclosão e consequências são pano de fundo para a ficção, mas o drama aqui não é o do sanitarista Oswaldo Cruz, mas sim de um aspirante a caricaturista, Zelito, recém-chegado do Ceará para trabalhar na imprensa carioca. A tensão não é só política e social, há uma trama familiar e amorosa que retorce seu caráter e leva-o (e ao leitor) a rumos imprevistos. O traço de Diniz é facilmente reconhecível e bastante pessoal, mas não deixo de pensar que deva ter ao menos alguma influência de Jô Oliveira. Aliás, o caráter algo pedagógico da obra (poderia e deveria ser adotada por escolas, talvez até seja a intenção dos editores), reforçado pela seleção de cartuns da época num apêndice após o posfácio, me faz lembrar da HQ Hans Standen, um Aventureiro no Novo Mundo, de Oliveira. A diferença primordial é que este procurava ser didático, o que levava a diálogos artificiais e uma narrativa que procurava ser fiel aos registros de Standen, um dos primeiros viajantes a aportar no Brasil, enquanto Diniz constrói uma narrativa robusta, com personagens com profundeza psicológica.

Daniel Souza Luz é jornalista, revisor, professor e escritor





Tuesday, July 06, 2021

Canícula gótica

Este conto foi publicado no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em três de julho de 2021. É uma versão reescrita e levemente ampliada da minha micrônica 1995, cujo título original era Canícula Gótica e Siouxsie and the Banshees, escrita à mão e publicada por mim nas redes sociais em originalmente em 26 de novembro de 2017. Esta nova versão foi gentilmente revisada pela Juliana Gandra. 

Passei em Jornalismo na Unesp, no campus de Bauru, em 1995. No final de 1994 havia ido para lá para fazer vestibular e gostei muito. Fiquei.

É irônico agora que penso a respeito, mas talvez por ser um lugar tão quente, ensolarado e suarento que vários alunos lá se refugiaram em sombras de bandas góticas/darks/sombrias e outras variações trevosas do pós-punk.

Logo nas primeiras semanas de aula fomos convencidos por veteranos a participar de uma ocupação da “reitoria” (na verdade, da sede administrativa do campus, mas na minha cabeça era a reitoria), em protesto por melhores laboratórios e a instalação de um restaurante universitário. Conversando com as minhas amigas e colegas de sala Patrícia e Paula a respeito da letra de How Soon is Now?, dos Smiths, a Paula me pergunta se conheço Minor Threat e digo que não, mas sempre quis ouvir. Ela me emprestou uma fitinha do irmão dela no dia seguinte. Foi uma paixão fulminante.

Mas voltando às bandas com gotiquices, era Joy Division pra cá, Sisters of Mercy pra lá. Em festas fui apresentado a grupos como o Kommunity FK, Swans e Malaria.

No fim daquele ano a Paula e o Márcio, que morava em uma república comigo, me chamaram para ver o show da Siousxie and the Banshees. Não quis ir. A Paula saiu da Unesp. Trocamos cartas. Confessei que achei o último disco da Siousxie chato. Que arrependimento. A banda acabou e nunca mais encontrei a Paula pessoalmente, até de redes sociais ela sumiu, e isso já tem anos.

 Daniel Souza Luz é revisor, jornalista, professor e escritor


                                                           

Siouxsie Sioux. Foto de Jennifer Patterson Lohman, s/d, via Creative Commons. 




Monday, July 05, 2021

Passado

Miniconto publicado no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) há um ano. Basta clicar no print para lê-lo 



Print que fiz na ocasião da publicação.


Friday, July 02, 2021

Do tempo em que havia shows

Esta crônica saiu na página oito da edição do Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 26 de junho de 2021. É uma versão muito encurtada, para caber no jornal, e atualizada do texto que escrevi logo após o show do Peter Hook and the Light no Cine Joia (SP/SP), em dezembro de 2016. Foi revisada pela Juliana Gandra.

Primeiro foi a Austrália, depois a Nova Zelândia e agora os EUA. Países que já têm shows. Em comum, não têm presidentes negacionistas. Por ora, cultivo a memória de boas apresentações enquanto aglomerações não voltam a ser algo normal. Amo New Order desde criança, quando era um grupo tecnopop popular que sempre tocava no rádio. O primeiro disco deles que ouvi foi a coletânea Substance, em 1988. Minha música predileta era Ceremony, mas a achava estranhamente diferente das demais e muito melhor. Só anos depois soube que foi composta originalmente pelo soturno Joy Division, grupo pós punk cujo vocalista Ian Curtis se matou em 1980; os sobreviventes a reaproveitaram no New Order. Ou seja, Joy Division já era minha banda predileta e eu nem sabia. Corta para 2016, 28 anos depois. O baixista do New Order, Peter Hook, está brigado com a banda e tocará na íntegra e na ordem os dois Substances (o Joy Division também tem uma coletânea com o mesmo nome) numa turnê, a qual passará para o Brasil. Tinha que ir, claro. Então peguei o busão com meu amigo Bruno Karnov, já falecido, e cheguei ao show do Peter Hook and the Light em São Paulo, na Liberdade, às 22:00 em ponto, depois de correr muito pela rua e pela estação de metrô Tietê, devido a vários contratempos. A divulgação dizia que o show começaria pontualmente. Até entrar e achar um lugar bom para ver era 22:02. Às 22:03 o show começou, como se Hooky, o apelido do músico, tivesse me esperado. Muito obrigado. Do fundo, esbaforido, mais uma gentileza: ele começou com o Substance do New Order, mas com três músicas bônus do CD extra. A primeira foi a sombria In a Lonely Place. Procession foi linda ao vivo, o sintetizador emulou bem a sonoridade original. Preocupado em encontrar um lugar melhor, nem prestei muita atenção no terceiro som. Soaram os primeiros acordes de Ceremony. Aí sim começou o disco. Que lindo finalmente vê-la ao vivo. De Everything’s Gone Green em diante, a parte dedicada ao New Order degringolou um pouco. Não eram sintetizadores sendo tocados no muque, mas sim bases pré-gravadas idênticas ao disco; soava como mero playback para que Peter Hook e seu filho se revezarem no baixo, notadamente enquanto Hooky cantava. Quando esta parte terminou, com todo o Substance executado mecanicamente e com 1963 de bônus, entrou o som mecânico rolando Kraftwerk e o próprio New Order. Fiquei com a sensação de que fazia pouca diferença. Muita gente foi para trás, neste momento, para comprar cerveja e tomar um ar. Que bom! Cheguei mais perto do palco e, como se não bastasse, ali chegava o ar-condicionado. Hook e a banda voltaram e também começaram pelos bônus, mas, ao contrário da seção dedicada ao New Order, não se circunscreveram ao Substance. Para minha incredulidade, tocaram minha música favorita de todos os tempos: Disorder. Faltou peso no baixo, tocado pelo filho dele, mas era ela. Cantei a todos pulmões; até hoje não acredito, parecia um sonho. De quebra, ainda tocaram Shadowplay. Baque à parte, lá veio: 3,5,0,1,2,5, go! Finalmente o Substance na ordem original do LP. Os clássicos tocados magnificamente, com destaque para Dead Souls: sempre achei que ficaria boa com dois baixos e nela Hook e seu filho complementaram-se. Não esperava nada do final. Love Will Tear Us Apart é uma música que ouvi ad nauseam. Quando ela teve início, destacando mais o baixo do que o teclado, aquele arrepio que senti na espinha há 28 anos subiu de novo. Ainda tinha o espírito e o sentimento.

Daniel Souza Luz é revisor, professor, jornalista e escritor


Foto que tirei do show do Peter Hook and the Light em seis de dezembro de 2016, no Cine Joia, São Paulo/SP, na ocasião em que ele apresentou as duas coletâneas Substance, do Joy Division e do New Order, na íntegra (tendo os vinis originais como base) e alguns bônus.


Monday, June 14, 2021

Minha Namorada Sangrenta*

Este conto foi publicado no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 12 de junho de 2021 como presente de dia dos namorados para minha namorada, Juliana Gandra, que revisou o texto. É uma paródia de filmes de terror e ficção científica e propositadamente infame, como as melhores produções do cinema B. 

Achei minha fitinha do My Bloody Valentine. Ouvia sem parar nos anos noventa, mas fazia uns vinte anos que estava parada. Não jogo nada fora, ficou acumulando poeira num canto do armário. Só que agora consertei meu aparelho de som; ficou uma nota, mas tá tocando fita cassete de novo. Estava mastigando as fitas antes, mesmo as novas que comprei recentemente e que custaram o olho da cara. Maldito fetiche da mercadoria que fode meu bolso já fodido, antes era tão baratinho...

- Olha meu cassete do My Bloody Valentine. Tem a primeira meia hora do Isn’t Anything de um lado e a primeira meia hora do Loveless do outro. Foi uma amiga que gravou pra mim nos anos noventa.

Ela responde com um muxoxo.

- “Amiga”. Sei. Grande “amiga”.

- Era amiga mesmo.

- Dá para ouvir os discos completos em qualquer serviço de streaming.

Pus para tocar mesmo assim. O som estava muito bom, dado o tempo que se passou. A gravação que eu fazia deixava tudo um pouco mais grave. Fiquei ouvindo, extasiado. A TV está ligada no mudo, ela mais interessada nas imagens do que no som.

- Achei que você gostava deles.

- Gosto. Estou ouvindo.

Fecho o olho e fico viajando em Cupid Come. Quando a música está quase no fim, abro os olhos e ela está boquiaberta olhando para a televisão. Então olho também, para ver o que estava se passando, e vi a notícia: uma bomba nuclear explodiu no sertão da Bahia. Ou um meteorito. Há pânico no olhar dos apresentadores.

- Olha! A janela!

Por cima da serra, brilha uma espécie de halo azul. Um azul cobalto fascinante, bem diferente do azul do dia sem nuvens. Logo depois, escutamos um rumor estranho, ao longe, como se fosse uma espécie de microfonia celestial.

- Estamos sendo atacados?

- Não. Deve ser uma explosão de meteorito, como o de Tunguska. Estava demorando muito mesmo para a Terra ser atingida por um meteorito grande. Desde 1908! Desliga a TV, será que esse barulho não é dela também?

- Já está desligada.

Nos dias seguintes o céu ficou claro como se fosse dia. Ainda bem que a terceira guerra não começou por causa disso. Foi apenas um meteorito, tal como eu havia previsto. Bem, mais ou menos. Na cratera de impacto, os primeiros pesquisadores foram atacados. Estamos sendo invadidos!

Em três horas as criaturas chegam aqui na cidade, a centenas de quilômetros do local da aterrissagem. Parecem gelatinas de morango disformes. Movem-se rápido, são pequenas e pululam nas ruas. As pessoas trancam-se em casa. Não adianta nada, as gelatinas quebram as janelas e invadem os orifícios, qualquer um, dos humanos e animais. Mas não acontece nada com ninguém ou nenhum bicho, apenas se reproduzem rapidamente e saem por algum orifício, aliás qualquer um também. As notícias no rádio e TV deixam isso bem claro, apesar do constrangimento dos âncoras.

- Ah, mas em mim não!

- Nem em mim. E quem disse que não vai acontecer nada depois?

- Sem falar na superpopulação dessas gelatinas siderais. Vão acabar nos matando de outro jeito.

Então bolei o plano. Nos trancamos no banheiro. Uma gelatina esgueira-se debaixo do vão da porta. Jogo um pacote de sal em cima. Ela desintegra-se, não como as lesmas da infância, mas sim numa pequena explosão, e voa meleca na minha namorada, que me protege como um escudo humano.

- Vamos ligar para a TV e anunciar o método!

Viramos heróis. Assistir a tantos filmes B tem a sua valia. Ganhamos uns títulos nas câmaras municipal e dos deputados. Mas só isso, pois ser herói não tem nenhuma mais-valia; exterminar alienígenas não dá dinheiro.

*Feliz dia dos namorados, Juju.  

Daniel Souza Luz é jornalista, revisor, professor e escritor


Selfie do dia dos namorados de 2021. Ela que tirou, eu estava dormindo.


Tuesday, June 08, 2021

Bruno Felisberti: Crônicas da Vida do Mestre dos Pintores de Poços de Caldas, de Chico Lopes

 Esta resenha foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 24 de abril de 2021. O texto foi revisado pela Juliana Gandra. 

O subtítulo desta obra biográfica é muito feliz. Trata-se, de fato, de um livro que foge um pouco do que seria uma biografia convencional. Chico Lopes é a pessoa talhada para escrever um livro sobre Bruno Filisberti, sendo um escritor que atuou na imprensa por anos e tendo conhecimento de causa para falar sobre artes plásticas, pois também é pintor.

O livro foi lançado em dezembro de 2019 (o copirraite, no entanto, indica que foi pesquisado e escrito em 2018); estive presente no lançamento e adquirir um exemplar. No entanto, não o li à época, ainda devastado que estava pela morte de meu pai, falecido naquele mês. Agora pareceu-me o momento adequado, um bom preparo antes de mergulhar no caudaloso (336 páginas) novo romance do autor, A Ponte no Nevoeiro.

Além disso, passado tanto tempo do lançamento, é sempre importante relembrar aos possíveis interessados que a versão digital deste livro sobre um importante artista da cidade está disponibilizada gratuitamente na internet pela empresa que o patrocinou, basta pesquisar pelo título.

Os problemas das biografias, que não se resumem às questões jurídicas que rendem acalorados debates sobre censura, em especial no Brasil, interessam-me sobretudo desde que estudei especificamente o tema na minha pós-graduação em Jornalismo Literário. É quase inevitável que sempre estejam sob fogo cerrado. Escritas por jornalistas ou outros profissionais das letras, são questionadas em sua metodologia por historiadores. Segundo um dos meus professores, lembro-me bem disso, estima-se que cerca de dez por cento das suas narrativas seriam elaborações ficcionais. Como exemplo, usou um trecho do excelente Olga, de Fernando Morais, em que se conta como os guardas nazistas tomaram a filha recém-nascida, Anita Leocádia, dos braços da militante comunista. Consta que Morais localizou um dos presentes, já muito idoso, para reconstituir a cena. Memória falha ou não, é um relato primário de uma testemunha ocular, foi o que observei. Meu professor e futuro orientador, Alex Criado, explicou então que o método científico da História exige que se diga explicitamente que se trata da versão de uma única testemunha, coletada em tal data, em tal local, o que burocratiza, por assim dizer, a narrativa.

Por que trago tudo isso a lume? A biografia de Felisberti escrita por Chico contorna essas questões usando o mesmo expediente que acabei de usar: teorizando a respeito do assunto. Há vários trechos que são quase pequenos ensaios do biógrafo a respeito da Arte, sua aceitação, a dificuldade do artista em lidar com uma sociedade que exige um pragmatismo que, via de regra, é castrador. Questões que, sem dúvida, com certeza também afligiam o biografado. E, provavelmente fruto da experiência do autor como jornalista, não há exatamente uma narrativa cronológica sobre as ações de Felisberti, mas sim entrevistas entre aspas com amigos, conhecidos, estudiosos e admiradores do artista – só não há a data delas, mas há explicações sobre as circunstâncias como foram conseguidas. O que atende em parte às exigências de historiadores. Não que devam obrigatoriamente ser atendidas, mas é um método interessante. Isso leva, como diz o subtítulo, a pequenas crônicas sobre como o artista procedia e pensava. Cita-se ipsis litteris, inclusive, crônicas escritas pelo grande nome das letras de Poços de Caldas, Jurandir Ferreira, que foi muito próximo de Felisberti. E quem conhecemos é apenas o artista.

Um homem extremamente reservado, ele logrou manter-se uma incógnita. Seus amores, seus ódios, todas as paixões que nos tornam humanos, não estão de fato presentes. Infenso ao abstracionismo nas artes plásticas, paradoxalmente tornou-se um ser hermético. Ao biógrafo restou conjecturar, evitando corretamente as armadilhas dos psicologismos, o que inclusive explica ao citar reducionismos freudianos, para traçar um bom perfil.  

Daniel Souza Luz é jornalista, revisor, escritor e professor




Monday, June 07, 2021

Partes De Uma Casa, vários autores

 Esta resenha foi publicada originalmente na página dez da edição número 7526 do Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em três de junho de 2021.

A exemplo da coletânea Partes De Um Corpo, também editada pela casa editorial TAG, Partes de uma Casa é uma coletânea de contos inéditos que acompanhou o romance do mês passado, O Pássaro Secreto, de Marília Arnaud, vencedor do prêmio Kindle em fevereiro. Tal como seu par, que acompanhou o livro inédito daquele mês do clube de livros gaúcho, não é um mero apêndice, mas sim uma obra independente para a qual sete autores foram convidados a escrever contos que têm como espaço uma casa, tendo em mente a pandemia. O prefácio é do incensado Itamar Vieira Júnior, escritor baiano que ganhou fama ao conquistar o prêmio Jabuti de 2020 com o romance Torto Arado, mas apenas cumpre tabela. Ao menos não dá muitos spoilers, até dá para lê-lo antes de se ler os contos. O primeiro conto chama-se João Maia, 237. É uma ótima reflexão sobre o perdão, ou a impossibilidade de se perdoar, da gaúcha Carol Besimon. Aliás, este livro é bem mais provinciano do que o seu volume análogo; há muitos escritores do sul do país, em especial do Rio Grande do Sul. Solange, o segundo conto, de Jeferson Tenório, peca pelos personagens estereotipados e a narrativa artificial, salvando-se apenas pelo desfecho. Segue-se a ele Sem Saída, de Marília Garcia, que é antes um ensaio pessoal do que um conto. Ela pesa um pouco na metalinguagem e neste ponto passa-se a temer que o pequeno volume se torne uma leitura enfadonha, sensação agravada por Não Me Olha, Não Me Diz Nada, cuja narrativa lúdica torna a leitura até leve, mas é pouco para o talento de Natalia Borges Polesso, autora que eu já conhecia de ler nas redes sociais. No entanto, o quinto texto, Basta A Cada Dia O Seu Próprio Mal, de Miguel Del Castillo, é muito mais um exercício de exorcismo do que um conto e é absolutamente brilhante, a começar pela impactante escolha do título. O alto nível, inclusive de tensão narrativa, é mantido por A Porta Da Rua, de Caetano W. Galindo. Por fim, a escritora trans Amaira Moira fecha esse volume com um conto surpreendentemente terno, Luan Ângelo, contrariando expectativas de uma tragédia eminente vivenciada por grande parcela da população LGBTQIA+. Noves fora, é uma compilação de autores brasileiros das novas gerações que se saiu melhor do que Partes de um Corpo, que li antes.

Daniel Souza Luz é professor, jornalista, escritor e revisor




Tuesday, June 01, 2021

Cristal, de Paul Celan

 Esta resenha foi publicada na página oito do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 22 de maio de 2021. Foi publicada originalmente no Good Reads em outubro de 2019; a reescrevi e a adaptei para a publicação no jornal. O texto foi revisado pela Juliana Gandra.  

No ano passado comemorou-se o centenário de Paul Celan, um dos poetas mais celebrados pela crítica no século passado. Apesar disso, ele permanece pouco editado no Brasil. A Editora 34 recém-lançou A Rosa de Ninguém, uma de suas obras mais importantes, originalmente publicada em 1963. Enquanto não ponho as mãos nele, relerei e me deleitarei novamente com a coletânea Cristal, publicada pela Iluminuras em 1999. Não sei de mais nenhuma outra obra dele lançada aqui. Este livro é um portento. Nem sei se deveria dizer muito mais a respeito, ainda mais sendo (quase forçosamente) neófito na poesia de Paul Celan. Foi indicação e empréstimo do meu ex-aluno e amigo Jorge Benedito de Freitas, que estudou Celan no doutorado. Esta coletânea compila poemas de todos os livros reconhecidos pelo autor; a seleção foi da tradutora, Claudia Cavalcanti. Li, ao longo de quase dois meses, um poema por dia. Por fim, depois de passado um bom tempo, li um discurso que Celan proferiu na entrega de um prêmio literário, que na verdade é um ensaio complexo sobre o fazer poético e logo vi que sua erudição demandava muita concentração - separei uma tarde de domingo em que pude lê-lo atentamente. Recordo-me que pedi para meu irmão cuidar do meu pai, então com câncer, para que eu tivesse uma folga por algumas horas e mergulhasse no raciocínio complexo do autor. Nos textos de apresentação de Cavalcanti e Márcio Seligmann-Silva aprendi que Celan era judeu, nasceu na Romênia, passou a maior parte da vida na França e mesmo assim considerava-se um escritor alemão, língua na qual escrevia. Até o Jorge me emprestar o livro, jamais tinha ouvido falar nele. O tema do Holocausto, do 20 de janeiro de 1942 citado na orelha e no discurso, pareceu-me ser aludido apenas em algumas poesias no início. Com o passar dos anos, noto que ele tornou-se cada vez mais conciso. Suas obras finais, as que não tiveram muita atenção do público e crítica, foram as que mais gostei. Ele torna-se simultaneamente mais explícito, como em Uma Folha, Desarvorada, que é dedicado a Bertolt Brecht, e ao mesmo tempo mais enigmático – na verdade, extremamente hermético. Os dois últimos poemas, póstumos, fascinam-me em particular; para mim tangenciam a FC, o que é inaudito, creio. No apêndice, o discurso menciona a questão do diálogo do poeta com o Outro (inclusive Celan destaca que este encontro se dá em outros tempos, pelo que entendi), o "tu" ("Du") que meu amigo Jorge tantas vezes marcou nos textos originais - a edição é bilíngue - e que a tradutora optou por tornar sujeito oculto. Isto me chamou muito a atenção. Parece-me que alguns poemas ganham outro sentido, que Celan não está falando (somente) com sua musa: "Foste minha morte/Pude deter-te/enquanto tudo me escapava". Ele estava falando de viver em você, leitor, por mais algum tempo, não? Não sei. Mas talvez - talvez - seja isto a majestade do absurdo que testemunha a tênue presença humana da qual ele fala.

 

Daniel Souza Luz é jornalista, escritor, educador e revisor




Monday, May 31, 2021

Serviço militar obrigatório para mulher? Recuso-me! Denuncio!, de Maria Lacerda de Moura

 Resenha publicada originalmente no Good Reads em dezembro de 2019; reescrevi e ampliei para publicação no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 29 de maio de 2021. O texto foi revisado pela Juliana Gandra e ainda inseri uma informação na última linha, após a publicação no jornal: a data da publicação original do livro.

Ótimo livro sobre objeção de consciência. Maria Lacerda de Moura nasceu em Manhuaçu, Minas Gerais (não que isso importe para uma anarquista), e faria 134 anos neste mês, caso isso fosse possível para a espécie humana. O ponto de vista anárquico e antibélico da autora rejeita tanto o feminismo liberal, que defende que mulheres também integrem as forças armadas, quanto o feminismo comunista de Alexandra Kollontai, que sustenta que as mulheres tomem parte do aparato bélico para que se instale a ditadura do proletariado. Diga-se de passagem, isto não consta no livro, mas Kollontai abandonou os ideais feministas de outubro de 1917 e apoiou o reacionarismo de Stalin, que passou a proibir o aborto e cancelou outras conquistas femininas da revolução. O conteúdo do livro na verdade é a transcrição de uma conferência de Maria Lacerda de Moura, proferida em dezembro de 1932, à semelhança de Por Que Não Sou Cristão, de Bertrand Russell. O feminismo libertário de Maria Lacerda é impiedoso com mulheres que transigem com o militarismo, imputando o fato à educação conformadora que as fazem enxergar-se em papel subalterno a ponto de defender esta função. A argumentação é muito sólida, a despeito do caráter panfletário. O livro inclui dois artigos posteriores para o jornal santista A Tribuna, por isso tem o subtítulo "(e outros escritos...)", mas sem a mesma verve. De qualquer forma, são importantíssimos registros históricos. Espero que algum dia o livro seja reeditado com a nova ortografia e uma revisão mais caprichada. Não há crase alguma, por exemplo, e mistura-se a grafia da época com a então vigente antes da reforma que entrou em vigor em 2009, pois foi editado pela pequena editora anarquista Opúsculo Libertário em 1999 (e publicado originalmente em 1933).

Daniel Souza Luz é professor, escritor, revisor e jornalista




Thursday, May 20, 2021

Partes de um Corpo, vários autores

Autores do livro: Cláudia Tajes, Giovana Madalosso, Antônio Prata, Jarid Arraes, Tati Bernardi, Jessé Andarilho e Mel Duarte.

A TAG é uma editora gaúcha que tem uma proposta interessante: um clube de livros. O leitor assina e recebe em sua casa uma obra da qual não tem conhecimento prévio. Não é um expediente inédito e, basicamente, são livros de outros editoras que recebem um tratamento de luxo, com vários apêndices. Algo parecido com o extinto Círculo do Livro, que funcionou entre as décadas de 1970 e 1990, mas muito mais caprichado. A boa novidade é que passou a publicar títulos inéditos e neste mês as duas obras ofertadas estão sendo acompanhados por obras independentes, ou seja, livros de contos que não são meros apêndices. Um deles é Partes de um Corpo, que veio junto ao livro Gostaria que Você Estivesse Aqui, de Fernando Scheller. Enquanto lia-o, repensei um pouco minha condenação ao uso de redes sociais: por parte delas, descubro e leio vários bons novos escritores, alguns deles presentes neste volume. De qualquer forma, uma coletânea dessas é sempre bem-vinda, pois transcende os esquemas de algoritmos que tentam capt(ur)ar nossos gostos. Aos autores convidados, foi dado o tema que está exposto explicitamente no título, que ganharia relevância numa pandemia que extirpou os corpos de mais de 400.000 brasileiros. Alguns contos, muito alegóricos, acabam por não passar essa urgência da contemporaneidade proposta, no entanto. Não que isso seja ruim, acaba tornando este pequeno painel mais diverso. Recomendo deixar a leitura do prefácio, de Socorro Acioli, por último. Acaba entregando muito dos contos, todos inéditos. Mesmo assim, ela expõe muito de O Nariz, de Gógol, que não li por pouco há uns anos, e O Visconde Partido ao Meio, de Ítalo Calvino, que está há meses na minha pilha de livros a serem lidos. Tendo isso em mente, tentarei dar o menos de spoilers possíveis. Bile n.º 5, de Claudia Tajes, é o primeiro texto e é o mais distópico de todos – na verdade, o único, e era de se esperar outros, dado o contexto. Fortíssimo e surpreendente, contrasta com o conto seguinte, o delicado Melanomas, de Giovana Madalosso. Entretanto, há muitos pontos de contato, pois ambas as tramas partem de tratamentos oncológicos e há muitos termos médicos – dá até para supor que as autoras tiveram que enfrentar a doença nas suas famílias, pois também sou familiarizado com tais vocábulos. São os melhores. Bourbon, de Antonio Prata, é hilário e rápido. Neste caso, tenho que entregar uma parte fundamental da história: é sobre um falo falante. Não é algo de todo original, ao contrário do que parece; O Tagarela, HQ do italiano Paolo Baciliero, publicada no Brasil no início dos anos 1990 na icônica Grandes Aventuras Animal, já contava uma história parecida e até mais engraçada. Antonio, no entanto, insere discussões deste século na história e demonstra ser até mais hábil para o humor do que seu pai, Mario. A narrativa seguinte é Engolir o Amor, de Jarid Arraes. Já havia lido um de seus livros de poesia, Um Buraco com meu Nome, e foi uma grata surpresa ver que também domina muito bem a prosa ao abordar as crendices do catolicismo popular e seus efeitos, muito deletérios, nas relações interpessoais das protagonistas. O conto que se segue, O Dedão de Carolina, é uma grata surpresa: é de Tati Bernardi, a quem costumava ler na Folha de S.Paulo, junto com Antonio Prata, e me fartei de seus textos acerbos e egocêntricos, especialmente os que abordavam maternidade e saíam na Revista da Folha. Ao contrário do que esperava, não há nenhuma birrinha de gente branca de classe média alta no texto, mas sim uma história quase tão cômica quanto ao de seu colega de jornal. Os dois últimos, infelizmente, não são tão bons. Braço Direito, de Jessé Andarilho, é um texto metafórico, uma brincadeira com lugares-comuns; é bem urdido, mas não faz rir. O que, talvez, nem seja a intenção do autor, mas parece-me que sim e que ele não alcançou seu intento. Daquela que te Alimenta as Memórias, de Mel Duarte, ótima poeta – dessas que conheci e leio nas redes –, pesa muito na questão autorreferencial e faz pensar como o incensado modelo de autoficção já está muito desgastado. De qualquer forma, temos aí autores e autoras de formações e públicos muito diferentes reunidos num pequeno livro interessante, que pode apresentá-los para leitores de fora de suas bolhas.

Daniel Souza Luz é professor, jornalista, escritor e revisor


Esta resenha foi publicada originalmente no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 18 de maio de 2021. O texto foi revisado pela Juliana Gandra.  




Monday, May 03, 2021

A Bagagem do Viajante

Conforme lia este livro de crônicas, que foi presente de uma amiga, dei-me conta de que já havia começado a lê-lo nos anos noventa, quando o comprei numa livraria no campus da Unesp em Bauru, esperançoso de ter uma ótima leitura, dada a reputação do Saramago. Mas detestei-o e o deixei de lado. Esqueci-me dele de tal forma que não me lembrava mais do título e, como a reedição tem uma capa muito diferente da edição original que adquiri em 1996, de um lindo roxo brilhoso, não percebi de imediato que passei a ter duas edições diferentes da mesma obra. Lendo-o agora, tendo mais paciência, devido à idade, notei que não é tão ruim assim. Apesar da frustrada primeira experiência, não fiquei com nenhum ranço do Saramago; naquela década mesmo, ainda jovem, li O Conto da Ilha Desconhecida e achei ótimo. Meu problema com este livro é que as crônicas brasileiras são ótimas, uma tradição que provavelmente é inigualável. Saramago, português nobelizado, tem a mão pesada demais para o gênero. Ele diz que tem um tom "doce-amargo" nas suas crônicas; balela, são apenas amargas mesmo e, principalmente, maçantes. Há algumas lindíssimas (A minha subida ao Evereste, As terras, Os portões que dão para onde?) e lê-se o livro na expectativa de que outros momentos sublimes como estes se repitam em meio a tantos queixumes chatíssimos, mas eles não vêm, não vêm. Felizmente, valeu a pena chegar ao fim: a última, A perfeita viagem, é tão inspirada quanto aquelas que me encantaram.


Daniel Souza Luz é jornalista, revisor, escritor e professor. 

Esta resenha foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 17 de abril de 2021. Originalmente foi escrita para o Good Reads. Eu a adaptei para sair no jornal, o texto foi revisado pela Juliana Gandra. Esta é a versão final, com mais uma revisão, feita por mim mesmo. É o mesmo texto do jornal, com uma pequena correção para que uma frase ficasse mais compreensível.