A terceira crônica que publiquei no Jornal da Cidade (Poços de Caldas), em 08/03/2017, foi Cabine C, uma versão muito ampliada de uma pequena crônica quase homônima que já havia publicado aqui no blog em 29/06/2016, originalmente titulada "Cabine C, uma crônica sobre uma das maiores aventuras de infância". O título é uma homenagem à banda brasileira pós punk de mesmo nome, que lançou apenas um disco em 1986; no primeiro parágrafo fiz uma citação ao Atari Teenage Riot, grupo alemão de digital hardcore. A reescrevi porque acho que não havia conseguido passar a sensação de maravilhamento que tínhamos quando crianças na aventura que narro, mas na versão que saiu no jornal creio que consegui meu intento, devido à repercussão e ao fato de que o relato também me satisfez muito:
Wednesday, September 06, 2017
Tuesday, September 05, 2017
Televisão, crônica de uma infância cheia de fascínio
Esta crônica é uma versão ampliada de "Television, crônica de uma infância cheia de fascínio" que publiquei no blog em 16 de janeiro de 2017. O título original é uma homenagem à banda protopunk de mesmo nome e a primeira frase é uma citação explícita à música homônima do Titãs. A versão abaixo, com o título aportuguesado, foi publicada no Jornal da Cidade, Poços de Caldas, em dois de setembro de 2017.
A televisão me deixou
inteligente, muito inteligente demais. Acordava cedinho no sábado só para ver
desenho animado. Antes das oito da manhã ainda dava tempo de assistir Urso do
Cabelo Duro e Bionicão. Tenho vagas recordações, pois isso foi há mais de
trinta anos, mas me parece irônico e cômico que o primeiro desenho retrate um
bando de hippies safos travestidos de ursos e o segundo um cão policial. Como
nunca havia pensado nisso? Às vezes rolavam uns crossovers nos desenhos; ainda
bem que nunca puseram o Bionicão para reprimir a turma dos ursos, afinal eles
eram espertinhos, mas não malandros.
O que era legal demais nesses
desenhos é que eles eram psicodélicos, pois eram dos anos sessenta e setenta,
mas ainda passavam nos anos oitenta. Os Incríveis era infinitamente mais bacana
do que a banda de mesmo nome. Banana Split devia ter ácido nos ingredientes.
Jackson Five era tão massa quanto o grupo mirim do Michael Jackson e seus
irmãos. A Corrida Espacial fazia discotecas parecerem baladas com viagens boas;
apesar de já ser da era disco, o psicodelismo era muito mais mesmerizante. Dias
de aventura. Não esqueço de jeito nenhum
das pouquíssimas vezes em que passou o desenho do Recruta Zero, que era um dos
meus gibis favoritos. E de que tinha que explicar para os incautos que Danger
Mouse não só não era a mesma coisa como também era infinitamente mais legal do
que Super Mouse.
Aprendi a ler graças a meu pai,
que lia quadrinhos para mim e meu irmão; por isso antes mesmo de entrar na
escola conseguia ler alguns trechos, pois queria saber logo como terminavam as
histórias que ele não tinha tempo de acabar de ler. Saquei os rudimentos
sozinho. Quando lia os créditos nos desenhos animados, mesmo sem saber inglês,
notei que havia quem escrevia aquelas histórias e dava vontade de ser um
daqueles caras. Como desejar ter um emprego normal se você pode imaginar e
escrever as peripécias do Johnny Quest?
![]() |
| Imagem de divulgação do super legal desenho do Jackson Five. |
Monday, September 04, 2017
Conta Comigo, Rullyan
A segunda crônica que publiquei no Jornal da Cidade, em 22 de fevereiro de 2017, foi Conta Comigo, Rullyan. Esta foi escrita exclusivamente para o jornal (não havia publicado-a antes aqui no blog), em meia à comoção da morte de Rullyan Carlos de Assis, que lutava contra um tipo de câncer raro e promoveu uma grande campanha de doação de medula. A crônica é dedicada à memória dele. Ele era meu amigo de infância e adolescência, ainda o via às vezes pelas ruas de Poços de Caldas. Depois encontrei por acaso com o irmão dele, que não conhecia, e ele me disse que leu a crônica e se lembrava bem do episódio que narro na crônica.
Friday, September 01, 2017
New Model Army no Jornal da Cidade
Vou publicar aqui os links das crônicas que publiquei no Jornal da Cidade (Poços de Caldas). A primeira foi New Model Army (título em homenagem à banda homônima, mas também uma brincadeira com o exército histórico inglês e a nossa traquinagem), que postei aqui no blog em oito de fevereiro deste ano e republiquei no jornal na semana seguinte, com uma pequeníssima alteração, acrescentando o nome da rua que dava nome ao bairro onde cresci - ou melhor dizendo, o editor João Gabriel Pinheiro Chagas, do Jornal da Cidade, é que a publicou:
New Model Army no site do jornal
Tuesday, August 29, 2017
Vazio de Romeu
O surgimento do Sararah – e seu
provável declínio, daqui a algumas semanas, ou mesmo dias – fez com que me
lembrasse de uma história constrangedora para mim. Achei que pegariam no meu pé
por anos, durante a adolescência, por causa dela, mas passou batido, para a
minha surpresa. Agora vou relembrá-la e eu mesmo vou queimar o meu filme.
Aliás, “queimar filme” é uma expressão denunciadora de certa senilidade
precoce, afinal não há mais filme algum a ser queimado, e algo extremamente
queima filme.
Mas peraí. Primeiro um suspense.
Não contarei a história assim, logo no começo. Vou te engambelar, leitor. Você
há de concordar que é necessária alguma contextualização. O Sararah é um
aplicativo saudita que permite o envio de mensagens anônimas. Segundo matéria
da BBC, significa “honestidade” em árabe. Faz-se um perfil no aplicativo e as
pessoas mandam as tais mensagens dizendo o que realmente pensam. Uma temeridade
em tempos de redes sociais cheias de discursos de ódio, mas na prática o
Sararah meio que virou um Tinder de quem vive na friendzone – traduzindo: outro
aplicativo, só que de pegação, para quem já conhece quem deseja, mas não tem
coragem de dizê-lo diretamente.
Creio que o Sararah já está
vivendo seu ocaso, francamente. Parece ter sido um rápido modismo. No entanto,
remete aos dias de correio elegante. Quando estava na sétima ou oitava série a
escola em que estudava, no fim dos anos oitenta, sei lá por que, num ato
lúdico, resolveu institucionalizar a prática. Na hora do recreio instalaram
alto-falantes no pátio e liam os bilhetinhos anônimos que os estudantes
escreviam uns para os outros. Tinha zoeira, que eles com certeza filtravam, mas
também havia os recadinhos de amor. Nunca recebi nenhum. Daí forjei um para
mim, mas deixei o bilhetinho cair do bolso. O bully da minha sala pegou antes
que eu pudesse esboçar reação, leu em voz alta e tirou o maior sarro, na frente
de todos.
Achei que pagaria caro por isso,
mas logo fui esquecido, conforme expliquei no início. Minha falta de carisma
não me permite nem ser alvo de bullying. Voltando a 2017, quando notei o
Sararah se alastrando, fiz um perfil e logo já fui mandando recado para mim
mesmo, mas eu mesmo me delatei assim que o fiz. Afinal, delação também está na
moda e pode render algum bônus. Surpreendentemente, recebi alguns recadinhos
legais de terceiros sim. Mas nude que é bom ninguém mandou.
Crônica publicada no Jornal da Cidade, Poços de Caldas, em 26/08/2017.
Tuesday, August 22, 2017
Futuro Negro
Na escola, nas séries iniciais,
odiava quando as professoras nos ensinavam a identificar a estrutura literária
de um texto. Criança ainda, me insurgia contra a noção de que o clímax textual
deveria ser sempre um pouco antes do fim. Em vários escritos isto não tinha
sentido; às vezes, note-se, sequer estava presente este suposto orgasmo
literário. Ou, como isto é subjetivo, para mim o clímax era noutro ponto. Adulto,
vejo como estava certo.
Entretanto, esta recordação
retornou avassaladora quando estava quase terminando a leitura de Ganga-Zumba,
livro épico de João Felício dos Santos, dias atrás. Ao decorrer das peripécias,
a despeito da trama se passar no Nordeste e narrar as aventuras e desventuras de
Zumbi dos Palmares, Dandara e inúmeros negros que não se submeteram à
escravidão, foi solidificando-se em mim a percepção de que a narrativa
mimetizava as epopeias clássicas gregas. Nunca as li, mas curiosamente as
conheço desde criança, devido às adaptações cinematográficas que assisti nos
anos oitenta, na Sessão da Tarde. Perto do fim do livro, reconheci uma
referência explícita às odisseias gregas numa frase de um lirismo paradoxalmente
rude. Num instante de enlevo, emiti um “Nossa!” inaudível, que só reconheci
porque eu mesmo articulei a interjeição. Fiquei boquiaberto. Literalmente boquiaberto,
o que jamais acontece, que eu saiba.
Na página seguinte está a
conclusão da história. Plácida, muito plácida. Tenho que reconhecer como minhas
professoras do Instituto Educacional São João da Escócia eram boas. Não sou
muito chegado no conceito de politicamente correto, mas lembro vagamente até de
explicações em sala de aula sobre como o adjetivo “negro” não era racista e lembro-me
que estranhava a conotação negativa que davam à palavra. Incomodava-me,
sobremaneira, o verbo “judiar”, que desde tenra idade me parecia preconceituoso
com judeus – e é mesmo, como vim a descobrir. Jamais o uso. Mas o uso
corriqueiro das palavras negro e negra como adjetivos pejorativos é
estigmatizador também, a despeito das justificativas dadas em sala de aula. Não
deveria ser. No futuro, ou seja, agora, a leitura do romance histórico sobre o
que se passou no Quilombo dos Palmares iluminou a minha existência.
Esta crônica é uma reelaboração da minha micrônica 1927, reescrita e ampliada. O título é uma homenagem à banda brasileira de pós punk experimental Black Future. Foi publicada originalmente no Jornal da Cidade (Poços de Caldas) em 19 de agosto de 2017.
![]() |
| Tirei com celular a foto da edição que li do Ganga-Zumba, publicada em 1985 (o livro foi publicado primeiramente nos anos sessenta). |
Tuesday, August 01, 2017
Cisnes
Era a
nossa rua. Resolvemos que seria o nosso bairro.
As
primeiras exibições de Warriors, os
Selvagens da Noite na TV aberta foram um marco histórico para a minha
geração. A maioria dos moleques, invocados ou não, queria provar aquele gosto
de aventura fora-da-lei do filme. Sem armas, com senso de lealdade e resolvendo
desavenças na porrada, tal como no filme. As eventuais reprises iam amealhando
mais adeptos do “ganguismo” de araque, com o passar dos anos oitenta. Quem não
tem senso de aventura não vai entender que isso nada tem a ver com violência
gratuita, perda de valores da civilização ocidental e outras asneiras de missivista
padrão de jornal – para citar um ser verdadeiramente pernicioso d’antanho, hoje
transmutado nas fileiras de um exército virtual sem peias.
Então
montamos a nossa gangue. Fajuta, claro. Nem lembro o nome, se é que tinha. Não
tinha um Cisne, o líder do Warriors; nós todos éramos líderes, numa estrutura
horizontalizada, por assim dizer. E fomos tocar o terror, a nossa maneira. Ou
seja, não fazendo nada, só ficando sentados na esquina de baixo da Rua Platina,
jogando conversa fora e tomando conta do nosso “território”, um conceito tão
caro às gangues do filme. Nunca li o livro de Sol Yurick no qual foi baseado o
antológico filme de Walter Hill, então não sei se é algo tão importante na
trama original, mas imagino que sim. Para nosso bairrismo pueril, era
importante. Nosso território era aquela rua.
Finalmente,
um dia, nossas vítimas vieram ao nosso encontro. Uns molequinhos menores do que
nós que moravam na avenida que margeia o bairro Marçal Santos, a João Pinheiro.
Eles vieram jogar bola justo no nosso “território”. Nós os cercamos.
Perguntamos se eles tinham pedido licença para jogar bola lá. Claro que não.
Então os mandamos ir embora, pois explicamos que aquele era nosso território.
Fomos ameaçadores o suficiente para eles vazarem mesmo.
No dia
seguinte, depois da escola e do almoço, como de costume, nos sentamos sob a
sombra da árvore da esquina. Então o molequinho mais falante apareceu. Sozinho.
Desafiador. Com camisa de botão, penteado certinho e uma cara ingênua cheia de
verdades. Alguém perguntou o que ele queria. Acho que fui eu.
- Eu
conversei com meu pai e ele disse que não existe esse negócio de território!
Nós rimos
e o mandamos picar a mula. Ele se foi, obediente. Afinal, era menor que nós e
estava sozinho. Assim que ele se afastou, um de nós, creio que o Paulo Augusto
Rodrigues, adiantou-se e precaveu-nos.
- Sujou,
galera. Acho melhor não ficarmos na rua um tempo, para não dar rolo.
Abandonamos
nosso “território” umas semanas e não tocamos mais no assunto quando o
reocupamos, sem discutirmos com mais ninguém. O menino não voltou lá com o pai
dele. Não teve problema nenhum. Nós éramos mais bundas-moles do que Os Órfãos,
a pior gangue do filme.
Crônica originalmente publicada no Jornal da Cidade de 27 de maio de 2017, em Poços de Caldas. É baseado no meu texto Swans, o qual reescrevi e revisei.
![]() |
| Still do filme Warriors, os Selvagens da Noite (1979), dirigido por Walter Hill. |
Legião
Exorcista e Poltergeist. Pô, era
sacanagem. Falaram para eu não assistir, mas não me metia medo. Sexta-Feira 13
tirava de letra. Achava que teria alguns sustos e boa.
Quando Poltergeist estreou na TV
foi aquele alvoroço. Muitas chamadas na programação ao longo da semana que
antecedeu à exibição provocaram um frisson na moçada. Era um filme
contemporâneo, ainda estávamos nos anos oitenta. Ah, pra quê? Mal vi o começo e
já fiquei meio arrepiado com a expectativa que criei. Desliguei a TV e desisti.
Uma meia hora depois me enchi de coragem. Quando religuei, vi a cena dos
trovões. Desliguei de novo e naquela época não havia controle remoto assim
fácil, ainda bem, pois não vi a tal cena da TV com chuviscos. Só fiquei sabendo
anos depois. Naquela tensão, discutindo com a babá, a driblei e liguei de novo
numa cena horrenda – ou ao menos me parecia terrível, afinal era criança.
Assustado, desliguei DE NOVO e acabei humilhado pelos risinhos de mofa da moça.
A cena que me apavorou deve ser algo risível hoje até para criancinhas; os
efeitos especiais provavelmente ficaram muito datados. Mas para mim não era e
fiquei dormindo mal por semanas. O pior era quando trovejava.
E o Exorcista então? Vi por menos
tempo ainda. Até hoje, tenho a impressão que é um filme muito tenso. O bizarro
é que vi as duas continuações pouco tempo depois e achei ambas bestas. Mas o
original, o clássico de William Friedkin com a Linda Blair, nunca vi inteiro. Hoje
nem tenho mais curiosidade, mas antigamente era pelo trauma que o medo infantil
me incutiu. O que não tem o menor sentido: divertia-me na mesma época não só
com os Sextas-Feiras 13, mas também com uma infinidade de filmes de terror gore,
como O Massacre da Serra Elétrica, A Volta Dos Mortos-Vivos, Re-Animator, A
Hora do Espanto e outras preciosidades que esbanjavam carnificinas, zumbis e
vampiros.
Meu problema era com demônios. Tentando
racionalizar sobre isso agora, creio que é porque com vampiros, zumbis e
psicopatas o problema era se meter no lugar errado numa hora imprópria. Mas os
capetas pegavam qualquer um em qualquer lugar e qualquer hora, era muita
maldade sem razão. Não que os outros seres tivessem alguma racionalidade, mas
tinha mais ou menos um por quê. Tipo, você vacilou e esbarrou num morto-vivo.
Ou vai transar justo perto do lago onde o Jason morreu, maior falta de
respeito. No entanto, com demônios você estava amaldiçoado porque sim. Acho que
era isso com que encanava.
Uma conversa casual na rua redimiu meu sono
naquela época. Ouvi-a por puro acaso mesmo, eu nem tinha provocado o assunto e
cheguei à rodinha no meio da prosa. Um moleque um pouco mais velho, o Marcão,
explicou para nós que possessões demoníacas aconteciam apenas nos Estados Unidos,
podíamos até ver que não tinha filme nacional sobre isso. Ah bom! Fez todo o
sentido do universo para mim. Só podia ser. Deus é brasileiro e patriota,
certeza. Estava a salvo.
Tempos depois assistia
tranquilamente Uma Noite Alucinante - A Morte do Demônio, Hellraiser, O Portão
e outros filmaços que faziam sucesso nas locadoras. E era um hipócrita. Quando
assistimos ao Evil Dead 2 – que é divertidíssimo – de galera, meu amigo Paulo
tapava os olhos nas cenas mais cabulosas e eu tirava sarro, como se fosse muito
macho.
Originalmente publicado no Jornal da Cidade, Poços de Caldas, 29 de julho de 2017.
O porquê do sumiço
Não tenho publicado mais neste blog porque quebrei o
pulso direito andando de skate e estava reeditando algumas crônicas no
Jornal da Cidade - todas com correções, alguns títulos aportuguesados e
acréscimos, em especial a crônica Cabine C, que foi totalmente reescrita
-, com exceção da crônica "Conta Comigo, Rullyan", que foi escrita
antes do acidente e foi mandada exclusivamente para o jornal. Desde o final de semana passado, agora que a fisioterapia já fez meu quadro
evoluir consideravelmente, comecei a mandar crônicas totalmente inéditas para o
jornal. Todas as crônicas que foram publicadas lá, focando em especial a
minha infância e adolescência (com uma única exceção, a Stiff Little
Fingers), podem ser encontradas neste link: http://www.jornaldacidade1.com.br/tag/daniel-souza-luz/
Monday, March 27, 2017
The Passage, uma brevíssima crônica.
Brincávamos de esconde-esconde.
Dentro de casa. Já estávamos até meio grandinhos para um espaço tão exíguo. A
ideia foi dela. Fui me esconder atrás de um armário. Ela resolveu se esconder
junto. Estava bem apertadinho.
Foi de caso pensado. Ela se
aconchegou a mim. Meu primeiro beijo de língua. Com um sabor de algo escondido.
Literalmente. Não me lembro se fomos flagrados na brincadeira. No que
interessava, não fomos.
Monday, March 13, 2017
Jesus and Mary Chain, uma crônica sobre como foi se apaixonar pela banda nos anos oitenta
Muitas bandas, mas muitas mesmo,
passei a gostar ao ler sobre elas, muito antes de ouvi-las. Anos antes. Isso
aconteceu comigo e vários amigos meus. Anos oitenta, baby.
Não me esqueço da primeira vez em
que li sobre o Jesus. Estava esperando meu pai no antigo escritório dele, eu
era criança ou adolescente. O problema é que agora a lembrança não é tão exata.
Mas do texto me lembro bem da frase que marcou. Não é a citação literal, mas o
crítico dizia “Este disco do Jesus and Mary Chain é um tiro do Magnum 45 na
cabeça de quem diz que o rock inglês está morto”. Estava em uma Folha de S.
Paulo, salvo engano, que estava dando bobeira ali na sala de espera. Será que
foi na época do Psychocandy, quando eu tinha 11 anos, ou do Darklands, quando
eu já tinha 13? De quem será o texto? Há muito tempo tenho para mim mesmo que,
pelo estilão, é o tão amado e odiado Pepe Escobar.
Guardei bem o nome da banda.
Depois disso, uma amiga de infância, a Cláudia Cândida, levou uma Bizz Letras
Traduzidas para casa. Ela a esqueceu lá e fiquei fascinado. Pedi para que ela
deixasse comigo mais um tempo para eu ler todas as letras; ela me deu a
revista, o que foi muito bacana da parte dela. E lá estava uma letra do Jesus
and Mary Chain, Darklands, faixa-título do disco de 1988.
Nunca tinha visto tanto niilismo
e desesperança. Ainda não conhecia as letras do Ian Curtis. Fiquei boquiaberto,
em especial com o final, que me pareceu mais irônico do que amargo. Foi paixão
à primeira leitura. Decorei a letra muito antes de realmente ouvir a música; na
verdade, antes mesmo de ouvir o que quer que fosse da banda.
Fiquei um tiquinho decepcionado a
primeira vez que consegui escutar. Amo Just Like Honey, mas pelo o que lia
deles, pensava que fosse mais barulhento, e foi justo a primeira música deles
que ouvi. Perto de Bauhaus, que escutava muito à época, achei muito contido. Só
tinha acesso via clipes que passavam no Som Pop na TV Cultura. Mas meu irmão
ganhou de uma menina que era apaixonada por ele, em 1990, uma coletânea em
vinil chamada Skate Surf Music; tinha uma música deles, Surfin’ USA, versão esporrenta
de um som do Beach Boys que eu já conhecia, aí sim gostei. Nem lembro mais onde
e quando que ouvi Darklands pela primeira vez. Mas a música fazia jus à letra,
felizmente.
Friday, March 10, 2017
The Slits, um miniconto.
As típicas garotas com quem
sonhei quando adolescente só as conheci quando era novo ou velho demais para
elas. Ainda bem que houve algumas poucas exceções aos vinte e poucos anos.
Thursday, March 02, 2017
Einstürzende Neubauten, crônica com um título literal.
Eram com estéticas iguais, mas
como disposições diferentes, de acordo com a topografia da rua. Ambos divididos
em dois blocos, um era perpendicular à rua, o outro era paralelo. O uso do verbo no passado não está correto.
Eram não, ainda são. Edifícios Alfa e Beta. Na minha memória, no entanto, eram.
Morei, quando criança, no Beta.
Na verdade, de recém-nascido até o fim da adolescência e começo da vida adulta.
De 1974 a 1993. Vi várias fases nele. De quando havia árvores na rua. Quando
foram arrancadas. Quando era pintado. Era branco com detalhes verdes. Mudaram
completamente a cor hoje, é bege. Não gostei. Talvez melhor do que quando a
pintura ia ficando descascada, antigamente. E as grades brancas enferrujadas.
Mas prefiro lembrar delas assim. Primeiro baixas, depois altas. Hoje há um
portão que impedindo a entrada de não moradores. Antes a entrada para a escada
que dá acesso aos apartamentos era livre, apenas um portão interno deveria ser
fechado à noite, por volta das 22:00 – lembro-me de meus pais fechando-o. Até
pouco tempo ainda podia-se entrar livremente lá, de dia. Fui até a porta do
apartamento onde passei a infância, o número 101, em 2013. Não bati nas portas
(são duas) para saber quem mora lá ou como ele está por dentro. Vivo sonhando com
ele, tal como era, ou surrealmente modificado. Prefiro assim, que o apê
permaneça como lembrança e como um ente onírico.
Monday, February 20, 2017
Minutemen, uma crônica sobre um vendedor punk.
Morei brevemente em São Paulo em
1995 para fazer uma faculdade que logo abandonei, pois passei na segunda chamada,
pouco depois, do curso de jornalismo da Unesp de Bauru. Morava na República,
perto da Galeria do Rock, onde costuma ir quase todos os dias. Eu tinha dois CDs
do Black Flag e queria mais. Vi o single de Nervous Breakdown numa loja. Pedi
para o balconista, um garoto negro, de óculos, bastante expansivo, pegar o CD
para mim, pois iria comprá-lo. Ele se recusa. Seguiu-se um diálogo mais ou
menos assim.
- Não cara, você conhece
Minutemen?
- Conheço de nome.
- Minutemen é muito melhor do que
Black Flag. É da mesma turma, da mesma gravadora, a SST.
- A gravadora do Greg Ginn, do
Black Flag.
- Sim, mas esquece Black Flag,
cara! Minutemen é muito mais criativo. Compra o disco deles. Você tá marcando.
É a mesma pegada, só que melhor, muito mais inteligente. Melhor banda dos anos oitenta.
- Legal, mas...
- Para de bobeira. Você vai fazer
o melhor negócio da sua vida. Leva o CD do Minutemen, você vai gostar muito
mais e...
Somos interrompidos antes de ele
pôr o CD para tocar e tentar me convencer. Uma assistente social entra na loja
e chama o balconista pelo nome, do qual não me recordo mais. Ela abre uma
pasta, diz que precisa conversar com ele sobre o cumprimento da medida; imagino
que de um ato infracional, embora ele não parecesse tão adolescente, mas sim
alguém com uns vinte anos. Aproveitei a deixa para cair fora. Achei o tão
almejado single de Nervous Breakdown em outro estabelecimento. Queria porque
queria. Só fui ouvir o Minutemen uns dois anos depois. Época de recursos
limitados e sem acesso à internet. É uma banda tão fascinante quanto o Black
Flag mesmo, embora não pareça tanto assim. O Black Flag me marcou mais, conheci
antes, mas gosto quase tanto quanto. Talvez Minutemen seja melhor mesmo e
aquele garoto estivesse certo, no entanto. Mas há muito espaço no meu coração
para ambas as bandas.
Wednesday, February 08, 2017
New Model Army, crônica de nossa batalha mirim.
Havia Atari e tinha brinquedos de
guerra. Tanques, armas e soldados de brinquedo hoje me parecem uma bizarria,
mas vá lá. Que eu gostava de brincar de guerrinha, gostava. Quase todas as
crianças gostavam. Quer dizer, ao menos os meninos (mau sinal, não é?). Teve
uma vez que foi fera demais. Armamos (opa) de fazer uma guerrinha diferente: em
vez de ser entre a molecada com pistolas de brinquedo – ou mãos fazendo as vezes de
revólveres – com nós mesmos bancando os
soldados, fizemos uma guerra entre os nossos brinquedos. Juntou um pessoalzinho
na casa do Coruja, amigo nosso de Santos, que costumava passar as férias em
Poços de Caldas na casa da avó dele, na rua de cima. Combinamos assim: as escaramuças
aconteceriam no gramado do quintal. No corredor ficava o nosso quartel-general.
Na edícula do fundo, onde era aberta a área da máquina de lavar, ficava o
quartel-general do inimigo, que no caso era nosso amigo Maurício, cujos pais
tinham grana, o que lhe proporcionava tantos brinquedos de guerra que era ele
sozinho contra a rapa. Assim seguiu-se a batalha, cheia de estratégias e
bombardeios com pedrinhas nas naves; se alguma era acertada tava fora. Os quartéis generais eram protegidos por campos de força. Mesmo invisíveis, respeitávamos
completamente o ente intangível que criamos. Assim se deu por horas. O mecanismo do campo de
força eram pedras que deviam ficar em cima de uma cadeira; punham-se elas no
chão e se entrava com os brinquedos que não podiam mais ser atacados. Não me
lembro mais quem gritou, acho que foi o Coruja.
- OLHA O CAMPO DE FORÇA DELE
DESLIGADO!
O Maurício estava atacando algum
flanco. Ele estava longe da casinha do fundo. Saímos correndo e entramos impetuosamente
dentro do quartel-general dele. Lembro que estávamos eu, meu irmão e o Coruja,
mas tinha mais moleques ainda. Eu tranquilamente bombardeei com pedrinhas os
bonequinhos de soldado dele, no começo. Quando vi, no entanto, o Coruja estava
dando bicudas nos jipes e tanques do Maurício. Aí todos os combatentes
decidiram que não haveria prisioneiros. Não conhecíamos a Convenção de Genebra
ainda, éramos muito jovens. Ele voltou para lá gritando para pararmos, mas
fomos derrubando e “explodindo” tudo. Conversando com meu irmão hoje, ele
lembrou que o Maurício levou para lá uma bela réplica de um F-14 Tomcat, desses que se
monta pacientemente com cola em casa. Voou pelos ares, no mau sentido, durante
aquela blitzkrieg bop mirim. O Maurício foi embora chorando, juntando os cacos
dos brinquedos dele. Se eu fosse ele, sairia chutando nossos brinquedos, afinal
ele saiu pelo corredor atravessando o nosso campo de força invisível, que
deixamos cuidadosamente ligado. Mas ele não foi à forra. Depois ficamos morrendo de medo dos pais dele bater
na porta de nossas casas e cobrarem-nos os brinquedos estragados. Não deu nada.
Ninguém se machucou mesmo. Essas guerras são as únicas que não são tão bestas.
Friday, February 03, 2017
Old Skull, uma crônica dedicada à memória de Toninho Mendes
Os shapes dos skates tinham
caveiras, geralmente. O que elas me lembram é vida e não morte. Da grande
aventura de ir para o centro da cidade sozinho, pela primeira vez, lá pelos
idos de 1988. Não sozinho, mas junto com uma galera. Sem meus pais, melhor
dizendo. Um domingo à tarde rolava fugir pra lá, numa boa.
Tinha um ponto de encontro do
pessoal da escola, uma cafeteria que não existe mais, com as menininhas
bonitinhas. Elas nem nos notavam ou olhavam-nos com desdém. “Ollie air não pega
mulher”; lembro da frase de um skatista da época, Celso Not Dead, em uma das
revistas de skate que colecionava, a Yeah! ou a Overall. Mas me sentia muito à
vontade em meio a elas, também não me importava. Sentamos encostados a um muro.
Não me lembro mais quem foi, mas alguém que estava na lanchonete levou uma
revista em quadrinhos que adorei, a do Geraldão. Era melhor ainda do que a Mad.
Ainda me lembro do cheiro daquele papel-jornal, tinha aroma de anarquia. Eu te odeio, Ronald Reagan. O Glauco, o Toninho Mendes, que editava a revista e
várias outras revistas que ajudaram a moldar minha visão de mundo (Chiclete com
Banana, Circo, Piratas do Tietê), os irmãos Toulon do Old Skull, que eram a cara do
que aspirávamos à época, ou ao menos o que eu aspirava entre 1988 e 1990,
nenhum deles está mais neste mundo. Mas ainda estão; tudo está; todos estamos.
Thursday, January 26, 2017
Talking Heads, uma crônica imersiva.
Uma das lembranças mais antigas e
marcantes que tenho é de quando a TV Tupi saiu do ar. Foi tão estranho... Há
pouco tempo me dei conta de que foi a primeira morte que testemunhei. Pesquisando
depois, já adulto, vi que isso foi em meados de 1980. Eu tinha cinco anos. Um
dia liguei a televisão e o canal havia desaparecido – época da ditadura, agora
isso me parece sinistro. Houve um aviso no dia anterior, tenho uma vaga
lembrança; não sei se isso é uma memória falsa que criei. Há outro fato
estranho: li que a Tupi tinha novelas. Não me lembro bem disso. Lembro que a
Globo tinha e que odiei o fato dela ser a única outra estação de televisão que
pegava bem, porque à noite gostava de ver faroestes e desenhos. Parece que me
lembro do Chaparral na Tupi, mas talvez tenha sido apenas na Record, nos anos
oitenta. Lembro de ver Bonanza também. Não me lembro das tramas, mas me recordo
de algo muito melhor.
Há até fotos datadas de 1979. Eu
andava com chapéu de cowboy e armas de brinquedo quando era criancinha. Meu
irmão também. Na verdade tenho lembranças até mais antigas, de quando tinha uns
quatro anos, de gostar de filme e seriados de faroeste. E tinha um hábito mais
solitário, não brincava só com meu irmão de mocinho e bandido. Eu gostava de
participar dos faroestes. Fazia assim: postava-me ao lado da TV. Prestava
atenção ao que os personagens diziam e participava dos diálogos. Como tinha
muito plano americano, agia como se estivessem falando comigo também. Se alguém
dizia “A emboscada será no desfiladeiro” eu tentava responder com algo que
fizesse sentido, como “Isso mesmo amigo, vamos pelo outro caminho!”. Como ficava feliz quando o diálogo calhava com o que eu dizia! Muitas vezes dava
certo. Só havia um senão: geralmente os personagens para os lados dos quais
me bandeava morriam ou se ferravam. Então começava tudo de novo, no meio do
filme ou episódio, como se nada houvesse acontecido. Fazer o quê? Mas eu estava
sempre presente na trama. Acho que fui um pioneiro da realidade virtual, isso
sim foi imersão.
Monday, January 16, 2017
Television, uma crônica de uma infância cheia de fascínio.
A televisão me deixou muito inteligente,
inteligente demais. Acordava cedinho no sábado só para ver desenho animado. Antes
das oito da manhã ainda dava tempo de assistir Urso do Cabelo Duro e Bionicão.
Tenho vagas recordações, mesmo agora já adulto, pois até isso foi há mais de
vinte anos, mas agora me parece irônico que o primeiro desenho retrate um bando
de hippies safos travestidos de ursos e o segundo um cão policial – acho que
era, já nem lembro tão bem. Como nunca havia pensado nisso? Às vezes rolavam
uns crossovers nos desenhos; poderiam ter posto o Bionicão para reprimir a turma
dos ursos para dar a real para as crianças.
O que era legal demais desses desenhos
é que eles eram psicodélicos. Os Incríveis era infinitamente mais legal do que
a banda de mesmo nome. Banana Split devia ter ácido nos ingredientes. Jackson
Five era tão legal quanto a banda. A Corrida Espacial fazia discotecas
parecerem good trips; apesar de já ser da era disco, o psicodelismo era muito
mais mesmerizante. Dias de aventura. Não
esqueço de jeito nenhum das pouquíssimas vezes em que passou o desenho do
Recruta Zero, que era um dos meus gibis favoritos. E de que tinha que explicar
que Danger Mouse era infinitamente mais legal do que Super Mouse. Aprendi a ler
graças a meu pai, que lia quadrinhos para mim e meu irmão; por isso antes mesmo
de entrar na escola queria saber como terminavam outras histórias que meu pai
não tinha tempo de ler. Saquei os rudimentos sozinho. Quando lia os créditos
nos desenhos animados, mesmo sem saber inglês, notei que havia quem escrevia
aquelas histórias. Como desejar ter um emprego normal então?
Wednesday, January 11, 2017
Love and Rockets, crônica sobre um sonho com livros fascinantes.
Adoro sonhos detalhistas. Estava
fazendo um TCC sobre sebos em São Paulo e no sonho hospedei-me no apartamento
do meu amigo Cleiton Corrêa, que na vida real mora em Poços de Caldas. Tinha
que achar um numa tal de rua Gurgel. Olhei num mapa na web e achei quatro ruas
com esse nome; fui na que era mais perto. Desci por uma escada – que não existe
na realidade – ao lado do metrô Vila Madalena e lá estava o sebo. Ao achar os
donos do lugar, uma loira de meia-idade e um rapaz de óculos e cabelo meio
beatle, marquei uma entrevista para fazer em outra ocasião. Disseram-me para eu
ficar à vontade.
Comecei a olhar os livros e em
meio a best-sellers desinteressantes achei vários volumes de “Locas – Poemas,”
com poesias de Jaime Hernandez e desenhos de seu irmão Gilbert. Custava 25
mangos e o que peguei em mãos estava ainda dentro do plástico, que estava
empoeirado. Dei uma olhada nos outros exemplares e eram uns poucos desenhos e
muitas poesias. Pensei “como não estou enxergando direito mesmo, é melhor do que
ler os quadrinhos no momento”. Aliás antes qualquer obra original dos criadores
do Love and Rockets, que citava o Black Flag nas HQs, do a banda que copiou o
nome, da qual gosto, mas é meio decepcionante, ainda mais que é o Bauhaus
inteirinho, com exceção do Peter Murphy. Enfim, voltando ao sonho, pedi para
reservarem que logo depois já pegaria com eles no balcão, como usualmente faço.
Continuei fuçando e achei um livro de bolso do Phillip K. Dick; era uma edição
original em inglês de um conto inédito chamado The Lake’s Placid Face e custava
meros sete reais. Espero que algum dia esse livro dos irmãos Hernandez chegue a
ser feito. E talvez o K. Dick tenha imaginado esse conto, não tenha tido tempo
de escrevê-lo e me deu um toque em uma brecha no continuum espaço-tempo.
![]() |
| A banda nunca será tão legal quanto a HQ, mas eu gosto. |
Monday, January 02, 2017
Black Flag, crônica sobre um sonho.
Amo Black Flag, é uma das minhas
bandas favoritas. Não sei se gostaria de ver um dos shows da volta, não
deve se equivaler à energia da época original deles, quando foram pioneiros do
punk hardcore, e nem do Flag, banda montada por ex-integrantes tretados com o
guitarrista Greg Ginn, fundador, o único membro remanescente da formação
original e a única pessoa presente em todas as inúmeras míticas formações do
Black Flag. Hoje sonhei que fui a um show deles. Sequer vi o show no sonho, mas
o que vi deve ser melhor do vê-los de verdade – e consta que o Flag é ótimo ao
vivo. De certa forma, vi o Flag no sonho, curiosamente com o único
ex-Black Flag que já vi de verdade, o Dez Cadena, numa apresentação
horrível do “Misfits”. Show que foi um dos mais divertidos aos quais já fui:
justamente porque não havia nada a ser visto, poguei o tempo todo, junto com vários
amigos das antigas que estiveram em inúmeros rolês de punk rock comigo. Usei
aspas porque nem era o Misfits de verdade, que para mim acabou em 1983; a volta
deles sempre foi ridícula. Enfim, vou é contar como foi o sonho com o Black
Flag.
Cheguei de
mochila ao local da apresentação; era uma casa noturna fechada, com palco até que baixo, na altura do
peito. Colei no palco do lado direito, mas atrás de dois
moleques. Um segurança os abordou e perguntou por que eles estavam usando
uniformes dos correios. Eles responderam que estavam matando serviço para poder
ver o show. O segurança retorquiu que eles nem poderiam estar ali, mas que
faria vista grossa, desde que eles fossem ao banheiro trocar de camisa.
Aproveitei para colar de fato no palco e a banda entrou sem o Greg Ginn para fazer a
passagem de som. Era o Dez Cadena na segunda guitarra, a Kira Roessler no baixo
e um baterista que não identifiquei. A guitarra transparente do Greg Ginn ficou
em cima de um amplificador. De repente entra o Keith Morris no palco e começa a
cantar Revenge. Ou seja, uma formação do Black Flag que nunca existiu, com músicos que jamais tocaram juntos, pois são de épocas diferentes. Como
aconteceu comigo na vida real, no show do Agent Orange, quando vi a passagem de som,
formou-se uma roda de pogo atrás de nós, mas preferi ficar grudado ao palco. A
passagem de som foi só com Revenge e o público dispersou-se. Fui ao banheiro,
depois tomei uma sopa no bar (não me perguntem o porquê) e voltei preocupado em
perder o lugar. Colei no outro lado do palco, onde ainda havia espaço, e fiquei
conversando com duas meninas. Dava para ver o setlist ao lado do baixo da Kira.
Falei que ia pedir para ela me dar o papel autografado, nisto a Kira, que
estava com cabelo grande e pintado de loiro, passou e nos cumprimentou. Vimos que os
panos se abriram e lá no fundo ela se encontrou com os outros músicos.
Não sei se o Greg Ginn estava junto, pois as meninas do lado falaram-me que
estavam enxergando-os borrados. Quando me esforcei para ver quem estava nos
bastidores, minha vista começou a ficar muito embaçada. Acordei, acabou.
Subscribe to:
Posts (Atom)







