Tuesday, October 24, 2017

Siouxsie and the Banshees, crônica da descoberta

Sons soturnos para dias alegres. Acho que a primeira vez que ouvi Siouxsie and the Banshees foi quando vi o clipe de Peek-a-Boo no Som Pop, apresentado pelo Kid Vinil na TV Cultura. Não gostei muito, até hoje não sou grande fã da música. Lembro bem da figura marcante da Siouxsie no clipe, mas um dia o som realmente me encantou. No mesmo programa, tempos depois, foi exibido o clipe de Hong Kong Garden, de 1978. Aí sim. A guitarra aguda, com tons orientais, o baixo saliente, a batida final num gongo, o vídeo feito com cores em tons negativos, tudo aspirava a um mistério inalcançável para mim, enquanto a energia era um convite para me perder num abismo etéreo. Não dá para descrever, essa descrição não basta, mas é isto.
Cacei os vinis o máximo que pude. O que pude encontrar, no fim dos anos oitenta, no interior de Minas Gerais, foi nada. Achei uma coletânea chamada New Wave Times em um sebo somente em 1991. É muito bacana, a capa é uma paródia do New York Times e foi feita no Brasil no fim dos anos setenta, entre outras pessoas, pelo... Kid Vinil! O disco tem muitas bandas chatas e outras absurdas de legais, como The Jam, Sham 69, The Chords e a Siouxsie Sioux com seus Banshees fazendo uma versão de Helter Skelter. Li nos créditos que a música era dos Beatles, pois não conhecia, mas até hoje minha versão favorita é a da Siouxsie and the Banshees. Começa devagar, baixo de uma nota só secundado por um guincho de guitarra que vai sendo acelerado pela bateria, soando como um trem ganhando velocidade aos poucos até descarrilar violentamente, no final abrupto.
Apesar de nessa época já ter escutado também Cities in Dust no rádio e ter achado a melodia fascinante, qual não foi a minha decepção ao finalmente achar um álbum da Siouxsie e sua gangue num sebo, já em 1992. Era o Hyaena, de 1984, com uma sonoridade bem mais sutil. Não bastasse isso, tinha um colante da Fluminense FM na capa e uma amiga de infância, a Ana Karla Rodrigues, quando viu, achou curioso (brega mesmo, na verdade) e tirou um sarro, aumentando o meu desgosto. Havia mais um colante, destacando outra cover também dos Beatles, Dear Prudence, da qual não gostei a princípio. Demorou mais de ano para eu realmente apreciar o disco, mas felizmente não desisti dele. Aos poucos as músicas foram ganhando minha afeição e por muito tempo foi o único disco dela a que tive acesso.

Daniel Souza Luz é jornalista e revisor

Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 21 de outubro de 2017. É uma versão reescrita e revisada de uma crônica publicada aqui no blog em três de outubro de 2016. Aqui o nome da Siouxsie está correto; na versão para o jornal, tal como a original, faltou um "s"; o editor João Gabriel Pinheiro Chagas gentilmente a revisou novamente, notou o erro e avisou-me, mas ao acrescentar a letra errou também a grafia - é minha culpa não tê-lo informado corretamente, registre-se.
Esta fotografia foi publicada junto à crônica no Jornal da Cidade, com a legenda "Siouxsie and the Banshees, banda de rock britânica formada em 1976". Não sei qual é a fonte da foto e nem quem é o fotógrafo.

Tuesday, October 03, 2017

Fellini (terceira versão)

É curioso quando penso hoje a respeito porque os nomes nem se parecem muito. No fim dos anos oitenta, quando eu tinha entre 13 a 15 anos – ou seja, entre 1988 e 1990 –, comecei a gostar de dois grupos que tocavam muito de vez em quando no rádio: Fellini e Defalla. Como era o auge do chamado BRock, o rock brasileiro que finalmente caiu no gosto popular, até mesmo grupos alternativos tinham certa projeção. Eram tempos de informações escassas e nada sabia sobre as bandas, a não ser que eram brasileiras, porque cantavam em português. Mas confundia uma com a outra e na minha ingenuidade ainda meio infantil achava que quem tinha uma música chamada Teu Inglês era o Defalla.
Desfiz a confusão quando comprei o 3 Lugares Diferentes, vinil do Fellini lançado pelo legendário selo independente Baratos Afins. Só consegui encontrá-lo em 1991, ou mais provavelmente em 1992, quando comprei muitos discos num tradicional sebo de Poços de Caldas, pois muita gente se desfazia de vinis na era do CD, para a minha felicidade. Vinil era algo meio inacessível que se tornara barato... e atualmente deixou novamente de ser acessível.
Mais curioso ainda é quando reflito por que Teu Inglês é uma música que me fascinava tanto. Talvez gostasse do sentimento de saudade que a letra evocava, ainda que fosse novo demais para isto. Mais do que isso, noto que somos, em boa medida, produtos do nosso tempo. Gosto tanto da sonoridade pós punk porque vários discos do fim dos anos setenta e começo dos anos oitenta estavam saindo no Brasil naquela época, com atraso: obras do Joy Division, PIL, The Cure, The Fall, Siouxie and the Banshees, os primeiros do New Order e tantos outros. Não sabia ainda de nada disso, mas escutava no rádio e principalmente em programas de skate na TV; além disso, bandas como Legião Urbana, U2 e o próprio New Order eram muito populares, preparando meus ouvidos para as sonoridades mais experimentais do gênero.
Se não deixo de ser um produto do meu tempo porque o Fellini que mais me importa é a banda, ressaltando que também amo os filmes de Federico Fellini, devido às memórias da adolescência, não deixo de ter alguma satisfação por também não ser exatamente um produto e me encaixar nos padrões de qualquer indústria cultural, mesmo que alternativa: Teu Inglês é única, muito diferente de Rock Europeu, outra música do Fellini que fez pequenino sucesso à época e tinha forte influência pós punk – ainda que em certa medida o ironize –; no entanto, só a conheci décadas depois. Se algo que não se encaixa nem nos padrões tortos que procuravam fugir de padronizações me fascinava quando garoto, é porque estava na senda certa. Minha irmã Fernanda reparou no ano passado, quando eu ouvia o vinil, que Teu Inglês tem até alguma brasilidade escondida no ritmo. Alquimia que só me interessaria de verdade muitos e muitos anos depois. Ou seja, a música também instruiu meus ouvidos, mas para outros experimentos.
Daniel Souza Luz é jornalista e revisor

Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas) em 30 de setembro de 2017. É uma versão corrigida de uma crônica de mesmo nome que havia publicado aqui no blog em 11 de julho de 2016. No entanto, esta versão difere da do jornal em algum detalhes, portanto aquela fica exclusiva para o papel. Nesta fiz ainda mais correções de português e ampliei ainda um pouco mais, incluindo o nome da minha irmã e algumas frases. Mais importante para mim, a frase que abre o último parágrafo era acidentalmente longa e a tornei propositalmente extensa, adicionando mais uma oração - já era tortuosa e queria torná-la mais torta ainda, pois falo justamente de caminhos tortuosos. No entanto, creio ter alcançado meu intento de ainda assim ser compreensível e principalmente fixar-me menos no estilo de frases muito curtas que adotava antigamente. Cansei-me disso, passei a prezar um pouco mais de complexidade, meio como um punk que passa a gostar de rock progressivo.

Capa de 3 Lugares Diferentes, álbum do Fellini lançado em 1987.
 

Tuesday, September 26, 2017

Anjos de Satélites

Vários dos meus melhores amigos, quando eu era criancinha, eram de desenhos animados e de gibis. Eles eram tão legais quanto os melhores amigos da vida. Ninguém brigava comigo, nem os amigos de verdade e nem os dos desenhos e das histórias em quadrinhos, que também eram “de verdade” para minha imaginação infantil; os amigos dos desenhos só brigavam entre si na TV e nas revistas, mas ninguém nunca se machucava – ou não se machucava muito – ou morria. Nos gibis do Gasparzinho, os fantasmas e os diabinhos também não morriam. Ninguém morria, nem os mortos.
Lembro de uma visita à tarde de uma tia lá no apê da minha infância. Ela ficava abismada toda vez que via um amigo meu atirando no outro na TV. Achava os desenhos muito violentos.
- É normal tia, ninguém morre de verdade.
Bem nesta hora em que esta minha tia apareceu em casa sem eu saber, o Jerry matou o Tom com um tiro. Ele não foi pro céu e voltou. Ele morreu mesmo, da famosa morte matada.
- Viu, te falei! As pessoas morrem sim – ela implicou.
Lá se foi uma inocência.  

Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas) em 23 de setembro de 2017. É uma versão levemente reescrita, com um final que julgo muito melhor, do meu miniconto autobiográfico Comsat Angels, publicado aqui no blog em 23 de novembro de 2015 e agora despojado de seus poucos elementos ficcionais. O estilo, imitando a escrita infantil, foi fortemente influenciado pela leitura do livro Brinquedo, de Aran Carriel. O título é justamente uma tradução aproximada de Comsat Angels e homenageia a banda inglesa pós punk de mesmo nome. A capa escaneada do gibi do Brasinha foi tirada de um site de HQ e creio que não infringe - ao menos espero que não infrinja - nenhum direito autoral, por ser um registro histórico de uma revista já extinta. Já a havia usado de ilustração na postagem do texto original.

                                         

Friday, September 22, 2017

Prédios Novos Já Velhos

A quarta crônica que publiquei no Jornal da Cidade (Poços de Caldas) foi Prédios Novos Já Velhos, em 18 de março de 2017. É uma versão levemente reescrita da crônica Einstürzende Neubaten, publicada aqui no blog neste ano mesmo, dias antes, em dois de março. Traduzi o título, mas mantive a homenagem à banda alemã de som industrial de mesmo nome, da qual gosto muito.
Rua Platina, com o Edifício Beta à esquerda. Tirei esta foto com celular em 2012.

Tuesday, September 19, 2017

Au Pairs, Crônica de uma Infância Feliz.

Au Pairs: crônica de uma infância feliz foi publicada no Jornal da Cidade, Poços de Caldas, no dia 16 de setembro de 2017. É uma versão retrabalhada e um pouco ampliada de uma crônica com o mesmo título e subtítulo que publiquei originalmente no blog em 27 de dezembro de 2016. O título é uma homenagem à banda pós punk feminista Au Pairs, formada na Inglaterra no final dos anos setenta do século passado.
http://www.jornaldacidade1.com.br/au-pairs-daniel-souza-luz/

Tuesday, September 12, 2017

Arame

Invasão de propriedade. Nunca vimos como maldade ou crime. Criança não conhece essas fronteiras. Sabem que elas existem, mas se não estragamos nada, qual o problema? Nos anos oitenta, com o fim da ditadura, tudo tinha cheiro de liberdade.
Uma das melhores lembranças que tenho da época é pular dentro do pátio de uma loja de pneus e artigos automotivos que ficava fechada do sábado à tarde até a segunda de manhã e ficarmos andando de skate no cimento liso daquele lugar tranquilo, que até hoje permanece o mesmo, pois, claro, nunca estragamos nada, não queríamos ser descobertos e repreendidos – ainda tenho vontade de pular lá dentro, sei que continua igual, pois sou cliente da loja. Em 2014 cheguei a andar de skate no pátio aberto na frente, que também é grande e propicia bons rolês, mas não tem tanta graça quanto pular aquele muro. Mas deixa isso pra lá, também me lembro de amigos relatarem que a Cida Caselli deu um apavoro neles quando pularam lá, há quase trinta anos. Ela ainda tem muitos fãs por aí e já não sou mais tão novinho para ser tão desajuizado.
No mesmo quarteirão dessa loja, o de baixo de onde eu morava, no bairro Marçal Santos, tinha uma fábrica de chocolates na qual ia, quando criança, com a minha mãe; lá, os funcionários sempre me davam bombons! Não bastasse essa ótima memória, há outra. Uns dez anos depois, nos idos de 1989, como esta famosa fábrica, a Milktex, faliu, eu, meu irmão e um amigo já falecido, o Maurício Rodrigues, resolvemos ver o que havia por trás dos muros. Que surpresa: tinha uma piscina vazia lá dentro! Ou um tanque azulejado, não sei por que haveria uma piscina ali. Com uma parede curva, que acompanhava a esquina, pois a piscina ficava num canto da fábrica. Não havia transição, tínhamos que andar lá dando wall rides (manobra que consiste em lançar o skate contra a parede e andar brevemente nela, na vertical). Claro que pulamos o muro. Era divertido, mas fomos pouco lá, pois não éramos tão bons nisso e havia o medo de sermos apanhados. Foi o mais perto que já cheguei de andar de skate em uma piscina como as da Califórnia – é uma pena mesmo as daqui não ter transições. Quando penso nisso, parece um sonho, de tão fantástico que foi; líamos nas revistas de skate sobre os secret spots, lugares segredos que um grupo de skatistas jamais contava para os outros, e aquele era o nosso.
Andar de bike e entrar em fazendas ou áreas de represa ou usinas de força (ou algo assim) era mato – literalmente também. Fazíamos isto constantemente à época. O problema sempre foram os arames farpados, alguns enferrujados. Um de nós às vezes se enroscava. Bons tempos, – sei que essa expressão é clichê, fazer o quê? – mas bons tempos mesmo em que as grandes enroscadas eram essas.  
Colin Newman, do Wire, ao vivo em 2011, em Chicago, Illinois, Estados Unidos. Foto de Gina Collecchia, via Flickr/Creative Commons - licença para uso sem fins lucrativos.
Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade, Poços de Caldas, em sete de setembro de 2017. O título é uma homenagem ao grupo britânico de art punk/pós punk Wire. Cheguei a titular a crônica como Arame Farpado, mas o editor do jornal, João Gabriel Pinheiro Chagas, preferiu o título original e ficou uma homenagem literal mesmo à banda. Trata-se de uma versão reescrita e ampliada da crônica que se chama Wire mesmo, publicada neste blog em 14 de dezembro de 2015. Para quem não é poços-caldense: Cida Caselli era uma comissária de menores, já falecida, que tocava o terror em crianças e adolescentes da cidade nos anos oitenta, portanto antes do surgimento do Estatuto da Criança e do Adolescente e do Conselho Tutelar. A foto que ilustra o texto foi originalmente publicada no Flickr e a usei devido a uma licença Creative Commons. 

Wednesday, September 06, 2017

Cabine C

A terceira crônica que publiquei no Jornal da Cidade (Poços de Caldas), em 08/03/2017, foi Cabine C, uma versão muito ampliada de uma pequena crônica quase homônima que já havia publicado aqui no blog em 29/06/2016, originalmente titulada "Cabine C, uma crônica sobre uma das maiores aventuras de infância". O título é uma homenagem à banda brasileira pós punk de mesmo nome, que lançou apenas um disco em 1986; no primeiro parágrafo fiz uma citação ao Atari Teenage Riot, grupo alemão de digital hardcore. A reescrevi porque acho que não havia conseguido passar a sensação de maravilhamento que tínhamos quando crianças na aventura que narro, mas na versão que saiu no jornal creio que consegui meu intento, devido à repercussão e ao fato de que o relato também me satisfez muito:

Tuesday, September 05, 2017

Televisão, crônica de uma infância cheia de fascínio

Esta crônica é uma versão ampliada de "Television, crônica de uma infância cheia de fascínio" que publiquei no blog em 16 de janeiro de 2017. O título original é uma homenagem à banda protopunk de mesmo nome e a primeira frase é uma citação explícita à música homônima do Titãs. A versão abaixo, com o título aportuguesado, foi publicada no Jornal da Cidade, Poços de Caldas, em dois de setembro de 2017.

A televisão me deixou inteligente, muito inteligente demais. Acordava cedinho no sábado só para ver desenho animado. Antes das oito da manhã ainda dava tempo de assistir Urso do Cabelo Duro e Bionicão. Tenho vagas recordações, pois isso foi há mais de trinta anos, mas me parece irônico e cômico que o primeiro desenho retrate um bando de hippies safos travestidos de ursos e o segundo um cão policial. Como nunca havia pensado nisso? Às vezes rolavam uns crossovers nos desenhos; ainda bem que nunca puseram o Bionicão para reprimir a turma dos ursos, afinal eles eram espertinhos, mas não malandros.
O que era legal demais nesses desenhos é que eles eram psicodélicos, pois eram dos anos sessenta e setenta, mas ainda passavam nos anos oitenta. Os Incríveis era infinitamente mais bacana do que a banda de mesmo nome. Banana Split devia ter ácido nos ingredientes. Jackson Five era tão massa quanto o grupo mirim do Michael Jackson e seus irmãos. A Corrida Espacial fazia discotecas parecerem baladas com viagens boas; apesar de já ser da era disco, o psicodelismo era muito mais mesmerizante. Dias de aventura.  Não esqueço de jeito nenhum das pouquíssimas vezes em que passou o desenho do Recruta Zero, que era um dos meus gibis favoritos. E de que tinha que explicar para os incautos que Danger Mouse não só não era a mesma coisa como também era infinitamente mais legal do que Super Mouse.
Aprendi a ler graças a meu pai, que lia quadrinhos para mim e meu irmão; por isso antes mesmo de entrar na escola conseguia ler alguns trechos, pois queria saber logo como terminavam as histórias que ele não tinha tempo de acabar de ler. Saquei os rudimentos sozinho. Quando lia os créditos nos desenhos animados, mesmo sem saber inglês, notei que havia quem escrevia aquelas histórias e dava vontade de ser um daqueles caras. Como desejar ter um emprego normal se você pode imaginar e escrever as peripécias do Johnny Quest?
Imagem de divulgação do super legal desenho do Jackson Five.

Monday, September 04, 2017

Conta Comigo, Rullyan

A segunda crônica que publiquei no Jornal da Cidade, em 22 de fevereiro de 2017, foi Conta Comigo, Rullyan. Esta foi escrita exclusivamente para o jornal (não havia publicado-a antes aqui no blog), em meia à comoção da morte de Rullyan Carlos de Assis, que lutava contra um tipo de câncer raro e promoveu uma grande campanha de doação de medula. A crônica é dedicada à memória dele. Ele era meu amigo de infância e adolescência, ainda o via às vezes pelas ruas de Poços de Caldas. Depois encontrei por acaso com o irmão dele, que não conhecia, e ele me disse que leu a crônica e se lembrava bem do episódio que narro na crônica. 

Friday, September 01, 2017

New Model Army no Jornal da Cidade

Vou publicar aqui os links das crônicas que publiquei no Jornal da Cidade (Poços de Caldas). A primeira foi New Model Army (título em homenagem à banda homônima, mas também uma brincadeira com o exército histórico inglês e a nossa traquinagem), que postei aqui no blog em oito de fevereiro deste ano e republiquei no jornal na semana seguinte, com uma pequeníssima alteração, acrescentando o nome da rua que dava nome ao bairro onde cresci - ou melhor dizendo, o editor João Gabriel Pinheiro Chagas, do Jornal da Cidade, é que a publicou:
New Model Army no site do jornal

Tuesday, August 29, 2017

Vazio de Romeu

O surgimento do Sararah – e seu provável declínio, daqui a algumas semanas, ou mesmo dias – fez com que me lembrasse de uma história constrangedora para mim. Achei que pegariam no meu pé por anos, durante a adolescência, por causa dela, mas passou batido, para a minha surpresa. Agora vou relembrá-la e eu mesmo vou queimar o meu filme. Aliás, “queimar filme” é uma expressão denunciadora de certa senilidade precoce, afinal não há mais filme algum a ser queimado, e algo extremamente queima filme.
Mas peraí. Primeiro um suspense. Não contarei a história assim, logo no começo. Vou te engambelar, leitor. Você há de concordar que é necessária alguma contextualização. O Sararah é um aplicativo saudita que permite o envio de mensagens anônimas. Segundo matéria da BBC, significa “honestidade” em árabe. Faz-se um perfil no aplicativo e as pessoas mandam as tais mensagens dizendo o que realmente pensam. Uma temeridade em tempos de redes sociais cheias de discursos de ódio, mas na prática o Sararah meio que virou um Tinder de quem vive na friendzone – traduzindo: outro aplicativo, só que de pegação, para quem já conhece quem deseja, mas não tem coragem de dizê-lo diretamente.
Creio que o Sararah já está vivendo seu ocaso, francamente. Parece ter sido um rápido modismo. No entanto, remete aos dias de correio elegante. Quando estava na sétima ou oitava série a escola em que estudava, no fim dos anos oitenta, sei lá por que, num ato lúdico, resolveu institucionalizar a prática. Na hora do recreio instalaram alto-falantes no pátio e liam os bilhetinhos anônimos que os estudantes escreviam uns para os outros. Tinha zoeira, que eles com certeza filtravam, mas também havia os recadinhos de amor. Nunca recebi nenhum. Daí forjei um para mim, mas deixei o bilhetinho cair do bolso. O bully da minha sala pegou antes que eu pudesse esboçar reação, leu em voz alta e tirou o maior sarro, na frente de todos.
Achei que pagaria caro por isso, mas logo fui esquecido, conforme expliquei no início. Minha falta de carisma não me permite nem ser alvo de bullying. Voltando a 2017, quando notei o Sararah se alastrando, fiz um perfil e logo já fui mandando recado para mim mesmo, mas eu mesmo me delatei assim que o fiz. Afinal, delação também está na moda e pode render algum bônus. Surpreendentemente, recebi alguns recadinhos legais de terceiros sim. Mas nude que é bom ninguém mandou.
Crônica publicada no Jornal da Cidade, Poços de Caldas, em 26/08/2017.

Tuesday, August 22, 2017

Futuro Negro

Na escola, nas séries iniciais, odiava quando as professoras nos ensinavam a identificar a estrutura literária de um texto. Criança ainda, me insurgia contra a noção de que o clímax textual deveria ser sempre um pouco antes do fim. Em vários escritos isto não tinha sentido; às vezes, note-se, sequer estava presente este suposto orgasmo literário. Ou, como isto é subjetivo, para mim o clímax era noutro ponto. Adulto, vejo como estava certo.
Entretanto, esta recordação retornou avassaladora quando estava quase terminando a leitura de Ganga-Zumba, livro épico de João Felício dos Santos, dias atrás. Ao decorrer das peripécias, a despeito da trama se passar no Nordeste e narrar as aventuras e desventuras de Zumbi dos Palmares, Dandara e inúmeros negros que não se submeteram à escravidão, foi solidificando-se em mim a percepção de que a narrativa mimetizava as epopeias clássicas gregas. Nunca as li, mas curiosamente as conheço desde criança, devido às adaptações cinematográficas que assisti nos anos oitenta, na Sessão da Tarde. Perto do fim do livro, reconheci uma referência explícita às odisseias gregas numa frase de um lirismo paradoxalmente rude. Num instante de enlevo, emiti um “Nossa!” inaudível, que só reconheci porque eu mesmo articulei a interjeição. Fiquei boquiaberto. Literalmente boquiaberto, o que jamais acontece, que eu saiba.
Na página seguinte está a conclusão da história. Plácida, muito plácida. Tenho que reconhecer como minhas professoras do Instituto Educacional São João da Escócia eram boas. Não sou muito chegado no conceito de politicamente correto, mas lembro vagamente até de explicações em sala de aula sobre como o adjetivo “negro” não era racista e lembro-me que estranhava a conotação negativa que davam à palavra. Incomodava-me, sobremaneira, o verbo “judiar”, que desde tenra idade me parecia preconceituoso com judeus – e é mesmo, como vim a descobrir. Jamais o uso. Mas o uso corriqueiro das palavras negro e negra como adjetivos pejorativos é estigmatizador também, a despeito das justificativas dadas em sala de aula. Não deveria ser. No futuro, ou seja, agora, a leitura do romance histórico sobre o que se passou no Quilombo dos Palmares iluminou a minha existência.

Esta crônica é uma reelaboração da minha micrônica 1927, reescrita e ampliada. O título é uma homenagem à banda brasileira de pós punk experimental Black Future. Foi publicada originalmente no Jornal da Cidade (Poços de Caldas) em 19 de agosto de 2017.
Tirei com celular a foto da edição que li do Ganga-Zumba, publicada em 1985 (o livro foi publicado primeiramente nos anos sessenta).

Tuesday, August 01, 2017

Cisnes

Era a nossa rua. Resolvemos que seria o nosso bairro.
As primeiras exibições de Warriors, os Selvagens da Noite na TV aberta foram um marco histórico para a minha geração. A maioria dos moleques, invocados ou não, queria provar aquele gosto de aventura fora-da-lei do filme. Sem armas, com senso de lealdade e resolvendo desavenças na porrada, tal como no filme. As eventuais reprises iam amealhando mais adeptos do “ganguismo” de araque, com o passar dos anos oitenta. Quem não tem senso de aventura não vai entender que isso nada tem a ver com violência gratuita, perda de valores da civilização ocidental e outras asneiras de missivista padrão de jornal – para citar um ser verdadeiramente pernicioso d’antanho, hoje transmutado nas fileiras de um exército virtual sem peias.
Então montamos a nossa gangue. Fajuta, claro. Nem lembro o nome, se é que tinha. Não tinha um Cisne, o líder do Warriors; nós todos éramos líderes, numa estrutura horizontalizada, por assim dizer. E fomos tocar o terror, a nossa maneira. Ou seja, não fazendo nada, só ficando sentados na esquina de baixo da Rua Platina, jogando conversa fora e tomando conta do nosso “território”, um conceito tão caro às gangues do filme. Nunca li o livro de Sol Yurick no qual foi baseado o antológico filme de Walter Hill, então não sei se é algo tão importante na trama original, mas imagino que sim. Para nosso bairrismo pueril, era importante. Nosso território era aquela rua.
Finalmente, um dia, nossas vítimas vieram ao nosso encontro. Uns molequinhos menores do que nós que moravam na avenida que margeia o bairro Marçal Santos, a João Pinheiro. Eles vieram jogar bola justo no nosso “território”. Nós os cercamos. Perguntamos se eles tinham pedido licença para jogar bola lá. Claro que não. Então os mandamos ir embora, pois explicamos que aquele era nosso território. Fomos ameaçadores o suficiente para eles vazarem mesmo.
No dia seguinte, depois da escola e do almoço, como de costume, nos sentamos sob a sombra da árvore da esquina. Então o molequinho mais falante apareceu. Sozinho. Desafiador. Com camisa de botão, penteado certinho e uma cara ingênua cheia de verdades. Alguém perguntou o que ele queria. Acho que fui eu.
- Eu conversei com meu pai e ele disse que não existe esse negócio de território!
Nós rimos e o mandamos picar a mula. Ele se foi, obediente. Afinal, era menor que nós e estava sozinho. Assim que ele se afastou, um de nós, creio que o Paulo Augusto Rodrigues, adiantou-se e precaveu-nos.
- Sujou, galera. Acho melhor não ficarmos na rua um tempo, para não dar rolo.

Abandonamos nosso “território” umas semanas e não tocamos mais no assunto quando o reocupamos, sem discutirmos com mais ninguém. O menino não voltou lá com o pai dele. Não teve problema nenhum. Nós éramos mais bundas-moles do que Os Órfãos, a pior gangue do filme.

Crônica originalmente publicada no Jornal da Cidade de 27 de maio de 2017, em Poços de Caldas. É baseado no meu texto Swans, o qual reescrevi e revisei.

Still do filme Warriors, os Selvagens da Noite (1979), dirigido por Walter Hill.

Legião

Exorcista e Poltergeist. Pô, era sacanagem. Falaram para eu não assistir, mas não me metia medo. Sexta-Feira 13 tirava de letra. Achava que teria alguns sustos e boa.
Quando Poltergeist estreou na TV foi aquele alvoroço. Muitas chamadas na programação ao longo da semana que antecedeu à exibição provocaram um frisson na moçada. Era um filme contemporâneo, ainda estávamos nos anos oitenta. Ah, pra quê? Mal vi o começo e já fiquei meio arrepiado com a expectativa que criei. Desliguei a TV e desisti. Uma meia hora depois me enchi de coragem. Quando religuei, vi a cena dos trovões. Desliguei de novo e naquela época não havia controle remoto assim fácil, ainda bem, pois não vi a tal cena da TV com chuviscos. Só fiquei sabendo anos depois. Naquela tensão, discutindo com a babá, a driblei e liguei de novo numa cena horrenda – ou ao menos me parecia terrível, afinal era criança. Assustado, desliguei DE NOVO e acabei humilhado pelos risinhos de mofa da moça. A cena que me apavorou deve ser algo risível hoje até para criancinhas; os efeitos especiais provavelmente ficaram muito datados. Mas para mim não era e fiquei dormindo mal por semanas. O pior era quando trovejava.
E o Exorcista então? Vi por menos tempo ainda. Até hoje, tenho a impressão que é um filme muito tenso. O bizarro é que vi as duas continuações pouco tempo depois e achei ambas bestas. Mas o original, o clássico de William Friedkin com a Linda Blair, nunca vi inteiro. Hoje nem tenho mais curiosidade, mas antigamente era pelo trauma que o medo infantil me incutiu. O que não tem o menor sentido: divertia-me na mesma época não só com os Sextas-Feiras 13, mas também com uma infinidade de filmes de terror gore, como O Massacre da Serra Elétrica, A Volta Dos Mortos-Vivos, Re-Animator, A Hora do Espanto e outras preciosidades que esbanjavam carnificinas, zumbis e vampiros.
Meu problema era com demônios. Tentando racionalizar sobre isso agora, creio que é porque com vampiros, zumbis e psicopatas o problema era se meter no lugar errado numa hora imprópria. Mas os capetas pegavam qualquer um em qualquer lugar e qualquer hora, era muita maldade sem razão. Não que os outros seres tivessem alguma racionalidade, mas tinha mais ou menos um por quê. Tipo, você vacilou e esbarrou num morto-vivo. Ou vai transar justo perto do lago onde o Jason morreu, maior falta de respeito. No entanto, com demônios você estava amaldiçoado porque sim. Acho que era isso com que encanava.
 Uma conversa casual na rua redimiu meu sono naquela época. Ouvi-a por puro acaso mesmo, eu nem tinha provocado o assunto e cheguei à rodinha no meio da prosa. Um moleque um pouco mais velho, o Marcão, explicou para nós que possessões demoníacas aconteciam apenas nos Estados Unidos, podíamos até ver que não tinha filme nacional sobre isso. Ah bom! Fez todo o sentido do universo para mim. Só podia ser. Deus é brasileiro e patriota, certeza. Estava a salvo. 
Tempos depois assistia tranquilamente Uma Noite Alucinante - A Morte do Demônio, Hellraiser, O Portão e outros filmaços que faziam sucesso nas locadoras. E era um hipócrita. Quando assistimos ao Evil Dead 2 – que é divertidíssimo – de galera, meu amigo Paulo tapava os olhos nas cenas mais cabulosas e eu tirava sarro, como se fosse muito macho.

Originalmente publicado no Jornal da Cidade, Poços de Caldas, 29 de julho de 2017.

O porquê do sumiço

Não tenho publicado mais neste blog porque quebrei o pulso direito andando de skate e estava reeditando algumas crônicas no Jornal da Cidade - todas com correções, alguns títulos aportuguesados e acréscimos, em especial a crônica Cabine C, que foi totalmente reescrita -, com exceção da crônica "Conta Comigo, Rullyan", que foi escrita antes do acidente e foi mandada exclusivamente para o jornal. Desde o final de semana passado, agora que a fisioterapia já fez meu quadro evoluir consideravelmente, comecei a mandar crônicas totalmente inéditas para o jornal. Todas as crônicas que foram publicadas lá, focando em especial a minha infância e adolescência (com uma única exceção, a Stiff Little Fingers), podem ser encontradas neste link: http://www.jornaldacidade1.com.br/tag/daniel-souza-luz/

Monday, March 27, 2017

The Passage, uma brevíssima crônica.

Brincávamos de esconde-esconde. Dentro de casa. Já estávamos até meio grandinhos para um espaço tão exíguo. A ideia foi dela. Fui me esconder atrás de um armário. Ela resolveu se esconder junto. Estava bem apertadinho.
Foi de caso pensado. Ela se aconchegou a mim. Meu primeiro beijo de língua. Com um sabor de algo escondido. Literalmente. Não me lembro se fomos flagrados na brincadeira. No que interessava, não fomos.

Monday, March 13, 2017

Jesus and Mary Chain, uma crônica sobre como foi se apaixonar pela banda nos anos oitenta

Muitas bandas, mas muitas mesmo, passei a gostar ao ler sobre elas, muito antes de ouvi-las. Anos antes. Isso aconteceu comigo e vários amigos meus. Anos oitenta, baby.

Não me esqueço da primeira vez em que li sobre o Jesus. Estava esperando meu pai no antigo escritório dele, eu era criança ou adolescente. O problema é que agora a lembrança não é tão exata. Mas do texto me lembro bem da frase que marcou. Não é a citação literal, mas o crítico dizia “Este disco do Jesus and Mary Chain é um tiro do Magnum 45 na cabeça de quem diz que o rock inglês está morto”. Estava em uma Folha de S. Paulo, salvo engano, que estava dando bobeira ali na sala de espera. Será que foi na época do Psychocandy, quando eu tinha 11 anos, ou do Darklands, quando eu já tinha 13? De quem será o texto? Há muito tempo tenho para mim mesmo que, pelo estilão, é o tão amado e odiado Pepe Escobar.

Guardei bem o nome da banda. Depois disso, uma amiga de infância, a Cláudia Cândida, levou uma Bizz Letras Traduzidas para casa. Ela a esqueceu lá e fiquei fascinado. Pedi para que ela deixasse comigo mais um tempo para eu ler todas as letras; ela me deu a revista, o que foi muito bacana da parte dela. E lá estava uma letra do Jesus and Mary Chain, Darklands, faixa-título do disco de 1988.

Nunca tinha visto tanto niilismo e desesperança. Ainda não conhecia as letras do Ian Curtis. Fiquei boquiaberto, em especial com o final, que me pareceu mais irônico do que amargo. Foi paixão à primeira leitura. Decorei a letra muito antes de realmente ouvir a música; na verdade, antes mesmo de ouvir o que quer que fosse da banda.

Fiquei um tiquinho decepcionado a primeira vez que consegui escutar. Amo Just Like Honey, mas pelo o que lia deles, pensava que fosse mais barulhento, e foi justo a primeira música deles que ouvi. Perto de Bauhaus, que escutava muito à época, achei muito contido. Só tinha acesso via clipes que passavam no Som Pop na TV Cultura. Mas meu irmão ganhou de uma menina que era apaixonada por ele, em 1990, uma coletânea em vinil chamada Skate Surf Music; tinha uma música deles, Surfin’ USA, versão esporrenta de um som do Beach Boys que eu já conhecia, aí sim gostei. Nem lembro mais onde e quando que ouvi Darklands pela primeira vez. Mas a música fazia jus à letra, felizmente.  

 
 

Friday, March 10, 2017

The Slits, um miniconto.

As típicas garotas com quem sonhei quando adolescente só as conheci quando era novo ou velho demais para elas. Ainda bem que houve algumas poucas exceções aos vinte e poucos anos.

Thursday, March 02, 2017

Einstürzende Neubauten, crônica com um título literal.

Eram com estéticas iguais, mas como disposições diferentes, de acordo com a topografia da rua. Ambos divididos em dois blocos, um era perpendicular à rua, o outro era paralelo.  O uso do verbo no passado não está correto. Eram não, ainda são. Edifícios Alfa e Beta. Na minha memória, no entanto, eram.
Morei, quando criança, no Beta. Na verdade, de recém-nascido até o fim da adolescência e começo da vida adulta. De 1974 a 1993. Vi várias fases nele. De quando havia árvores na rua. Quando foram arrancadas. Quando era pintado. Era branco com detalhes verdes. Mudaram completamente a cor hoje, é bege. Não gostei. Talvez melhor do que quando a pintura ia ficando descascada, antigamente. E as grades brancas enferrujadas. Mas prefiro lembrar delas assim. Primeiro baixas, depois altas. Hoje há um portão que impedindo a entrada de não moradores. Antes a entrada para a escada que dá acesso aos apartamentos era livre, apenas um portão interno deveria ser fechado à noite, por volta das 22:00 – lembro-me de meus pais fechando-o. Até pouco tempo ainda podia-se entrar livremente lá, de dia. Fui até a porta do apartamento onde passei a infância, o número 101, em 2013. Não bati nas portas (são duas) para saber quem mora lá ou como ele está por dentro. Vivo sonhando com ele, tal como era, ou surrealmente modificado. Prefiro assim, que o apê permaneça como lembrança e como um ente onírico.

Monday, February 20, 2017

Minutemen, uma crônica sobre um vendedor punk.

Morei brevemente em São Paulo em 1995 para fazer uma faculdade que logo abandonei, pois passei na segunda chamada, pouco depois, do curso de jornalismo da Unesp de Bauru. Morava na República, perto da Galeria do Rock, onde costuma ir quase todos os dias. Eu tinha dois CDs do Black Flag e queria mais. Vi o single de Nervous Breakdown numa loja. Pedi para o balconista, um garoto negro, de óculos, bastante expansivo, pegar o CD para mim, pois iria comprá-lo. Ele se recusa. Seguiu-se um diálogo mais ou menos assim.
- Não cara, você conhece Minutemen?
- Conheço de nome.
- Minutemen é muito melhor do que Black Flag. É da mesma turma, da mesma gravadora, a SST.
- A gravadora do Greg Ginn, do Black Flag.
- Sim, mas esquece Black Flag, cara! Minutemen é muito mais criativo. Compra o disco deles. Você tá marcando. É a mesma pegada, só que melhor, muito mais inteligente. Melhor banda dos anos oitenta.
- Legal, mas...
- Para de bobeira. Você vai fazer o melhor negócio da sua vida. Leva o CD do Minutemen, você vai gostar muito mais e...
Somos interrompidos antes de ele pôr o CD para tocar e tentar me convencer. Uma assistente social entra na loja e chama o balconista pelo nome, do qual não me recordo mais. Ela abre uma pasta, diz que precisa conversar com ele sobre o cumprimento da medida; imagino que de um ato infracional, embora ele não parecesse tão adolescente, mas sim alguém com uns vinte anos. Aproveitei a deixa para cair fora. Achei o tão almejado single de Nervous Breakdown em outro estabelecimento. Queria porque queria. Só fui ouvir o Minutemen uns dois anos depois. Época de recursos limitados e sem acesso à internet. É uma banda tão fascinante quanto o Black Flag mesmo, embora não pareça tanto assim. O Black Flag me marcou mais, conheci antes, mas gosto quase tanto quanto. Talvez Minutemen seja melhor mesmo e aquele garoto estivesse certo, no entanto. Mas há muito espaço no meu coração para ambas as bandas.