Monday, November 27, 2017
Tuesday, November 21, 2017
Jesus and Mary Chain
Muitas bandas, mas muitas mesmo,
passei a gostar ao ler sobre elas, muito antes de ouvi-las. Anos antes. Isso
aconteceu comigo e vários amigos meus. Anos oitenta, baby.
Não me esqueço da primeira vez em
que li sobre o Jesus. Estava esperando meu pai no antigo escritório dele, na
Rua Assis Figueiredo, no segundo andar de uma construção onde hoje há uma
igreja evangélica; eu era criança ou adolescente. O problema é que agora a
lembrança não é tão exata. Mas do texto me lembro bem da frase que marcou. Não
é a citação literal, mas o crítico musical escreveu algo muito parecido com
isto: “Este disco do Jesus and Mary Chain é um tiro do Magnum 45 na cabeça de
quem diz que o rock inglês está morto”. Estava em uma Folha de S. Paulo, salvo
engano, que estava dando bobeira ali na sala de espera. Será que foi na época
do Psychocandy, quando eu tinha 11 anos, ou do Darklands, quando eu já tinha
13? De quem será o texto? Há muito tempo tenho para mim que, pelo estilão, é o
tão amado e odiado jornalista Pepe Escobar.
Guardei bem o nome da banda.
Depois disso, uma amiga de infância, a Cláudia Cândida, levou uma Bizz Letras
Traduzidas para casa. Ela a esqueceu lá e fiquei fascinado. Pedi para que ela
deixasse comigo mais um tempo para eu ler todas as letras; ela me deu a
revista, o que foi muito bacana da parte dela. E lá estava uma letra do Jesus
and Mary Chain, Darklands, faixa-título do disco de 1988.
Nunca tinha visto tanto niilismo
e desesperança. Ainda não conhecia as letras do Ian Curtis, do Joy Division,
incomparavelmente mais sombrias. Fiquei boquiaberto, em especial com o final de
Darklands, que me pareceu mais irônico do que amargo. Foi paixão à primeira
leitura. Decorei a letra muito antes de realmente ouvir a música; na verdade,
antes mesmo de ouvir o que quer que fosse da banda.
Fiquei um tiquinho decepcionado a
primeira vez que consegui escutar. Amo Just Like Honey, mas, pelo o que lia,
pensava que fosse mais barulhento, e foi justo a primeira música deles que ouvi/vi
o clipe. Perto do Bauhaus, banda gótica que escutava bastante à época, achei
muito contido. Só tinha acesso via vídeos que passavam no Som Pop na TV
Cultura. Mas meu irmão ganhou de uma menina que era apaixonada por ele, em
1990, uma coletânea em vinil chamada Skate Surf Music; tinha uma música deles,
Surfin’ USA, versão esporrenta de um som do Beach Boys que eu já conhecia, aí
sim gostei. Nem lembro mais onde e quando que finalmente ouvi Darklands pela
primeira vez. Mas a música fazia jus à letra, felizmente.
O Jesus and Mary Chain veio ao
Brasil pela primeira vez em 1990; eu era muito adolescente ainda e fiquei
sabendo dessa vinda depois. Quando voltaram, já no século vinte e um, não me
animei, mas em 2014 resolvi assistir ao show deles no Memorial da América
Latina, no encerramento do Festival Cultura Inglesa. Estava tão perfeito que
começou a ficar robótico justamente em Blues From a Gun, som que flerta com a
eletrônica; então felizmente eles erraram feio uma música e tiveram que parar
na metade para reiniciá-la. Ao humanizarem o show, veio um momento mágico,
inesquecível para os presentes: justo quando começaram a tocar Happy When It
Rains caíram momentaneamente pingos de chuva que abrilhantaram o momento e não
estragaram o resto da apresentação.
Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas) em 18 de novembro de 2017. É uma versão ampliada de "Jesus and Mary Chain, uma crônica sobre como foi se apaixonar pela banda nos anos oitenta", publicada aqui no blog em 13 de março de 2017.
Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas) em 18 de novembro de 2017. É uma versão ampliada de "Jesus and Mary Chain, uma crônica sobre como foi se apaixonar pela banda nos anos oitenta", publicada aqui no blog em 13 de março de 2017.
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| The Jesus and Mary ao vivo com a Scarlet Johansson. Foto de Juan Bendana/Creative Commons. A original pode ser encontrada aqui. |
Friday, November 17, 2017
Dead Kennedy
O vinil
branco. O famoso vinil branco do Fresh Fruit for Rotting Vegetables, que lembra
meus primeiros discos de infância; embora meus primeiros compactos com
histórias infantis fossem vermelhos e verdes, o encantador disco com as
histórias d’O Leão Cantor, o Rouxinol do Imperador e Chapéuzinho Vermelho
também é branco – ainda o tenho. Demorou um tanto bom para consegui-lo. Usado e
sem o famoso encarte enorme, que nunca vi pessoalmente.
A primeira vez que li sobre o Dead
Kennedys foi, obviamente, em revistas de skate, no fim dos anos oitenta. Claro
que gostei do nome. É uma clássica banda da Califórnia, uma das poucas das que
fez a transição do punk rock para o hardcore mais veloz, mas mantendo
características distintas, com influências de surf music, rockabilly e
psicodelismo. Faziam até versão dos Beatles e Elvis, uma anátema para época.
Fui ouvir só em 1989 ou 1990, quando o Kid Vinil passou um trecho de um show
deles na TV Cultura. Foi mesmerizante, pela primeira vez estava vendo como era
um show de hardcore, sem separação entre banda e público; parecia – e é – algo
mágico, um estado de graça, de congraçamento, ainda que sem conteúdo religioso.
Eu me lembro até dos gestos teatrais do vocalista Jello Biafra no vídeo deste
show – revendo-o, já em meados dos anos noventa, notei que a música que havia
sido exibida era Bleed for Me, denunciando os casos de tortura das ditaduras
militares no Brasil, Paraguai e Argentina.
Salvo engano, neste mesmo dia o Kid
Vinil passou Holiday in Cambodia, que depois foi exibida novamente, sozinha. Aí
queria porque queria o primeiro disco, o já mencionando Fresh Fruit... Só fui
conseguir em 1991, usado. Comprei de um amigo, o Leandro Tramonte, hoje um
engenheiro bastante conhecido em Poços de Caldas, que na verdade o vendeu para
ajudar um primo, o dono original, que meteu a faca no preço. O álbum era de uma
galera em São Paulo, tinha o nome de todos os que fizeram a vaquinha para ter o
vinil e mais um monte de inscrições a canetinha na capa e verso, como “Piração
Total” e “Punk’s not Dead”. Tudo bem, o importante é que o vinil não tinha
risco e provavelmente os donos originais jamais recuperariam o disco, pois o
primo do Leandro, cujo nome nunca me preocupei em saber, havia se mudado para
uma cidadezinha do daqui do interior de Minas Gerais, a vizinha Campestre.
Detalhe: na contracapa havia também a inscrição “Carecas do Subúrbio”. Eu a
risquei e escrevi embaixo “Nazi Punks Fuck Off!”, mesmo que ainda não tendo
ouvido a música à época. Mas sabia do título e já havia pegado o espírito da
banda.
O Dead Kennedys acabou em 1986,
poucos antes do lançamento tardio do disco no Brasil e da vinda deles para o
país. Estavam lutando contra Tipper Gore, esposa de Al Gore, e um bando de
políticos que queriam censurar discos, devido ao encarte do álbum
Frankenchrist, que tinha um pôster com um quadro do artista suíço H.R. Giger,
cujo título era Penis Landscape. Foram acusados de distribuir material
pornográfico para menores, num esquema agora repetido pelo nada criativo MBL no
Brasil. Especialistas em artes testemunharam em favor da banda e o promotor do
caso em Los Angeles, Michael Guarino, posteriormente pediu desculpas pela
tentativa de censura. A ver se no Brasil o Ministério Público e o poder
judiciário terão o mesmo bom senso em casos análogos.
Os integrantes acabaram brigando
depois e a banda voltou no começo do século. Acusavam o vocalista, Jello
Biafra, de não ter composto as músicas, como ele alegava, apenas as letras. Por
mais que sejam grandes músicos, habilidosos, e mereçam mais créditos, para mim
hoje está claro que Jello era o principal compositor mesmo. Os Kennedys
remanescentes nunca mais fizeram uma música, Jello faz uma banda atrás da outra
e compõe para todas.
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| Meu velho álbum do DKs. Tirei a foto com celular em 17 de novembro de 2017. |
Em 2009 ele lançou um disco com um
novo grupo que fazia excursões, o Guantánamo School of Medicine, e finalmente
veio para uma tour ao Brasil no ano seguinte, embora já tivesse feito
participação especial em shows com Sepultura, Mano Negra e Ratos de Porão aqui, em 1992, no
lançamento do livro Barulho, de André Barcinski. Não bastasse este show de 2010,
o Jello Biafra and Guantanamo School of Medicine ainda veio de novo pra cá em
2012 e fui ao show novamente. Este me surpreendeu mais ainda. Já velhinho, não
esperava que ele tocasse Nazi Punks Fuck Off, uma música muito veloz, a mais
rápida do Dead Kennedys, mas fui atropelado por ela em meio a apresentação. Não
bastasse isto, parece mentira, mas ainda fiz um stage dive (pulei do palco),
fui levado nos braços do público para trás e trago de volta para frente do
palco. Meus amigos estavam no bar, não conhecia ninguém que me carregou. Foi
lindo.
Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 11 de novembro de 2017. Era para ter saído uma semana antes, mas esqueci de salvar o arquivo e o enviei vazio ao editor, João Gabriel Pinheiro Chagas. É uma versão ampliada de "Dead Kennedys, uma crônica", publicada aqui no blog em 26 de setembro de 2016. O título foi alterado para Dead Kennedy pelo João Gabriel e gostei, esta tem um tom (ainda) mais pessoal. Esta versão difere da publicada no jornal por duas correções no último parágrafo: acrescentei que o Jello Biafra havia tocado também com o Mano Negra (antiga banda de Manu Chao) no Brasil em 1992 e alterei o trecho "não conhecia ninguém que fez isso" para "não conhecia ninguém que me carregou", para fins de mais clareza.
Thursday, November 02, 2017
Morte por Napalm
Tem duas bandas sobre as quais li nos
anos oitenta, em revistas de skate como a Yeah! e a Overall, e virei fã antes
mesmo de ouvir, só por causa dos nomes: Sex Pistols e Napalm Death. Eu era
garoto, estava começando a aprender inglês e ficava embasbacado. Como alguém
tinha coragem de batizar grupos com nomes tão fortes? A primeira vez que
ouvi o Never Mind the Bollocks foi inesquecível, porque cultivava expectativas
enormes, e sempre me decepcionei ao ter grandes expectativas com algo, menos
com o Sex Pistols.
Já o Napalm Death atendeu
perfeitamente ao que esperava, até porque já tinha uma ideia melhor de como era
a música, pois posteriormente li mais um artigo sobre eles, na minha revista de
HQ favorita, a Animal, escrito pelo João Gordo, do Ratos de Porão. Ele
descrevia o som deles e de outras bandas da Earache (Dor de Ouvido, em
português), a gravadora independente que lançou o Napalm, como algo muito mais
barulhento do que já era conhecido à época, o hoje bem estabelecido gênero
musical grindcore, e ao final do texto, nunca me esqueci da frase, ele
afirmava “só sei que liquidificador com gelo também é música”. Quando
finalmente consegui ouvir o From Enslavement to Obliteration, segundo disco
deles, já no começo dos anos noventa, o som era exatamente isso.
Consegui ter acesso porque gravei uma
fitinha do disco de um amigo de um amigo de Poços de Caldas, cujo nome sequer
me lembro. Nos antigamente era assim, esta troca de vinis e fitas na virada
daquelas décadas era muito intensa. Além disso, achei outros álbuns deles em
locadoras de CDs. Este deve ser um conceito muito estranho para quem é mais
novo, imaginar alguém alugar um CD para escutar e gravar um disco numa fita
cassete. É incrível que a cidade ainda tenha algumas locadoras de DVDs e
Blu-Rays.
Por inúmeras razões, ao longo dos
anos e das várias vindas do Napalm ao Brasil, nunca havia visto um show deles. Só
fui assisti-los no ano passado, com mais de quarenta anos; finalmente pude
reencontrar-me com minhas perspectivas de adolescente e as satisfazê-las
completamente. Foi um dos melhores shows que já vi. Saí cedo da casa da garota
com quem estava então namorando e de tardezinha já estava na fila do Clash Club, em São Paulo. Além da abertura com uma banda brasileira famosa no
estilo, o Test, pude apreciar a companhia dos meus velhos amigos dos tempos da
Unesp, Tatá Mazza e Fernando Ovelha, e fazer amizade com um chegado deste
último, o Celinho. Um amigo de Poços, Alex Aguiar, também estava lá, mas
não o encontrei.
Um aspecto muito legal da
apresentação é que, como é uma banda de grindcore, mas com um grande público
ligado ao heavy metal – inclusive porque a banda com o passar dos anos adotou
muitas influências do death metal –, o público era muito heterogêneo, o que é muito
mais saudável. Ao contrário de outros shows de hardcore e principalmente de
metal, havia mais negros, mulheres e pessoas com camisetas de bandas que não
são ligadas ao metal. Uma moça negra subia no palco e às vezes fazia o famoso
stage diving, que é quando alguém pula no público; depois a ajudavam a voltar,
inclusive também ajudei dando-a a mão. Num show de heavy metal, cujo público
atualmente tornou-se muito conservador e machista, em termos gerais, isto é
quase inimaginável.
Outro detalhe bacana é que apesar do
vocal gutural, o vocalista Barney Greenway, com a fala tranquila e o sotaque
britânico acentuado, parecia que a qualquer momento iria nos convidar para tomar
o chá das cinco. Pude cantar (na verdade, berrar) ao microfone o refrão de uma
das músicas, Greed Killing, de tão perto que estava do palco. Até tive o
privilégio de ver You Suffer, música lendária que entrou para o livro Guinness
de Recordes nos anos oitenta, por ter apenas um segundo. Como o Barney brincou,
quem olhou para trás perdeu. Quando o show acabou, devidamente curto e grosso,
sem bis, eu estava mais disposto do que quando cheguei.
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| Foto que tirei no final do show do Napalm Death, do Barney conversando com o público no Clash Club, em 26 de junho de 2016, São Paulo/SP |
Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas) em 28 de outubro de 2017. É uma versão da minha crônica Napalm Death, publicada aqui em 27 de junho de 2016. Adorei reescrevê-la, uma complementa a outra, pois nesta segunda versão, publicada no jornal e levemente retocada aqui no blog, escrevo tudo o que não cabia na primeira versão, da qual limei detalhes do show que não encontrariam eco, quero crer, nos leitores do jornal.
Tuesday, October 24, 2017
Siouxsie and the Banshees, crônica da descoberta
Sons soturnos para dias alegres.
Acho que a primeira vez que ouvi Siouxsie and the Banshees foi quando vi o clipe
de Peek-a-Boo no Som Pop, apresentado pelo Kid Vinil na TV Cultura. Não gostei
muito, até hoje não sou grande fã da música. Lembro bem da figura marcante da
Siouxsie no clipe, mas um dia o som realmente me encantou. No mesmo programa,
tempos depois, foi exibido o clipe de Hong Kong Garden, de 1978. Aí sim. A
guitarra aguda, com tons orientais, o baixo saliente, a batida final num gongo,
o vídeo feito com cores em tons negativos, tudo aspirava a um mistério inalcançável
para mim, enquanto a energia era um convite para me perder num abismo etéreo.
Não dá para descrever, essa descrição não basta, mas é isto.
Cacei os vinis o máximo que pude.
O que pude encontrar, no fim dos anos oitenta, no interior de Minas Gerais, foi
nada. Achei uma coletânea chamada New Wave Times em um sebo somente em 1991. É
muito bacana, a capa é uma paródia do New York Times e foi feita no Brasil no
fim dos anos setenta, entre outras pessoas, pelo... Kid Vinil! O disco tem
muitas bandas chatas e outras absurdas de legais, como The Jam, Sham 69, The
Chords e a Siouxsie Sioux com seus Banshees fazendo uma versão de Helter Skelter.
Li nos créditos que a música era dos Beatles, pois não conhecia, mas até hoje
minha versão favorita é a da Siouxsie and the Banshees. Começa devagar, baixo de
uma nota só secundado por um guincho de guitarra que vai sendo acelerado pela
bateria, soando como um trem ganhando velocidade aos poucos até descarrilar
violentamente, no final abrupto.
Apesar de nessa época já ter
escutado também Cities in Dust no rádio e ter achado a melodia fascinante, qual
não foi a minha decepção ao finalmente achar um álbum da Siouxsie e sua gangue
num sebo, já em 1992. Era o Hyaena, de 1984, com uma sonoridade bem mais sutil.
Não bastasse isso, tinha um colante da Fluminense FM na capa e uma amiga de
infância, a Ana Karla Rodrigues, quando viu, achou curioso (brega mesmo, na
verdade) e tirou um sarro, aumentando o meu desgosto. Havia mais um colante,
destacando outra cover também dos Beatles, Dear Prudence, da qual não gostei a
princípio. Demorou mais de ano para eu realmente apreciar o disco, mas
felizmente não desisti dele. Aos poucos as músicas foram ganhando minha afeição
e por muito tempo foi o único disco dela a que tive acesso.
Daniel Souza Luz é jornalista e revisor
Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 21 de outubro de 2017. É uma versão reescrita e revisada de uma crônica publicada aqui no blog em três de outubro de 2016. Aqui o nome da Siouxsie está correto; na versão para o jornal, tal como a original, faltou um "s"; o editor João Gabriel Pinheiro Chagas gentilmente a revisou novamente, notou o erro e avisou-me, mas ao acrescentar a letra errou também a grafia - é minha culpa não tê-lo informado corretamente, registre-se.
Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 21 de outubro de 2017. É uma versão reescrita e revisada de uma crônica publicada aqui no blog em três de outubro de 2016. Aqui o nome da Siouxsie está correto; na versão para o jornal, tal como a original, faltou um "s"; o editor João Gabriel Pinheiro Chagas gentilmente a revisou novamente, notou o erro e avisou-me, mas ao acrescentar a letra errou também a grafia - é minha culpa não tê-lo informado corretamente, registre-se.
Tuesday, October 03, 2017
Fellini (terceira versão)
É curioso quando penso hoje a
respeito porque os nomes nem se parecem muito. No fim dos anos oitenta, quando
eu tinha entre 13 a 15 anos – ou seja, entre 1988 e 1990 –, comecei a gostar de
dois grupos que tocavam muito de vez em quando no rádio: Fellini e Defalla.
Como era o auge do chamado BRock, o rock brasileiro que finalmente caiu no
gosto popular, até mesmo grupos alternativos tinham certa projeção. Eram tempos
de informações escassas e nada sabia sobre as bandas, a não ser que eram
brasileiras, porque cantavam em português. Mas confundia uma com a outra e na
minha ingenuidade ainda meio infantil achava que quem tinha uma música chamada
Teu Inglês era o Defalla.
Desfiz a confusão quando comprei
o 3 Lugares Diferentes, vinil do Fellini lançado pelo legendário selo
independente Baratos Afins. Só consegui encontrá-lo em 1991, ou mais
provavelmente em 1992, quando comprei muitos discos num tradicional sebo de
Poços de Caldas, pois muita gente se desfazia de vinis na era do CD, para a
minha felicidade. Vinil era algo meio inacessível que se tornara barato... e atualmente
deixou novamente de ser acessível.
Mais curioso ainda é quando
reflito por que Teu Inglês é uma música que me fascinava tanto. Talvez gostasse
do sentimento de saudade que a letra evocava, ainda que fosse novo demais para
isto. Mais do que isso, noto que somos, em boa medida, produtos do nosso tempo.
Gosto tanto da sonoridade pós punk porque vários discos do fim dos anos setenta
e começo dos anos oitenta estavam saindo no Brasil naquela época, com atraso: obras
do Joy Division, PIL, The Cure, The Fall, Siouxie and the Banshees, os
primeiros do New Order e tantos outros. Não sabia ainda de nada disso, mas
escutava no rádio e principalmente em programas de skate na TV; além disso,
bandas como Legião Urbana, U2 e o próprio New Order eram muito populares,
preparando meus ouvidos para as sonoridades mais experimentais do gênero.
Se não deixo de ser um produto do
meu tempo porque o Fellini que mais me importa é a banda, ressaltando que
também amo os filmes de Federico Fellini, devido às memórias da adolescência,
não deixo de ter alguma satisfação por também não ser exatamente um produto e
me encaixar nos padrões de qualquer indústria cultural, mesmo que alternativa:
Teu Inglês é única, muito diferente de Rock Europeu, outra música do Fellini
que fez pequenino sucesso à época e tinha forte influência pós punk – ainda que
em certa medida o ironize –; no entanto, só a conheci décadas depois. Se algo
que não se encaixa nem nos padrões tortos que procuravam fugir de padronizações
me fascinava quando garoto, é porque estava na senda certa. Minha irmã Fernanda
reparou no ano passado, quando eu ouvia o vinil, que Teu Inglês tem até alguma
brasilidade escondida no ritmo. Alquimia que só me interessaria de verdade
muitos e muitos anos depois. Ou seja, a música também instruiu meus ouvidos,
mas para outros experimentos.
Daniel Souza Luz é jornalista e revisor
Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas) em 30 de setembro de 2017. É uma versão corrigida de uma crônica de mesmo nome que havia publicado aqui no blog em 11 de julho de 2016. No entanto, esta versão difere da do jornal em algum detalhes, portanto aquela fica exclusiva para o papel. Nesta fiz ainda mais correções de português e ampliei ainda um pouco mais, incluindo o nome da minha irmã e algumas frases. Mais importante para mim, a frase que abre o último parágrafo era acidentalmente longa e a tornei propositalmente extensa, adicionando mais uma oração - já era tortuosa e queria torná-la mais torta ainda, pois falo justamente de caminhos tortuosos. No entanto, creio ter alcançado meu intento de ainda assim ser compreensível e principalmente fixar-me menos no estilo de frases muito curtas que adotava antigamente. Cansei-me disso, passei a prezar um pouco mais de complexidade, meio como um punk que passa a gostar de rock progressivo.
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| Capa de 3 Lugares Diferentes, álbum do Fellini lançado em 1987. |
Tuesday, September 26, 2017
Anjos de Satélites
Vários
dos meus melhores amigos, quando eu era criancinha, eram de desenhos animados e
de gibis. Eles eram tão legais quanto os melhores amigos da vida. Ninguém
brigava comigo, nem os amigos de verdade e nem os dos desenhos e das histórias
em quadrinhos, que também eram “de verdade” para minha imaginação infantil; os
amigos dos desenhos só brigavam entre si na TV e nas revistas, mas ninguém
nunca se machucava – ou não se machucava muito – ou morria. Nos gibis do
Gasparzinho, os fantasmas e os diabinhos também não morriam. Ninguém morria,
nem os mortos.
Lembro de
uma visita à tarde de uma tia lá no apê da minha infância. Ela ficava abismada
toda vez que via um amigo meu atirando no outro na TV. Achava os desenhos muito
violentos.
- É
normal tia, ninguém morre de verdade.
Bem nesta
hora em que esta minha tia apareceu em casa sem eu saber, o Jerry matou o Tom
com um tiro. Ele não foi pro céu e voltou. Ele morreu mesmo, da famosa morte
matada.
- Viu, te
falei! As pessoas morrem sim – ela implicou.
Lá se foi uma inocência.
Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas) em 23 de setembro de 2017. É uma versão levemente reescrita, com um final que julgo muito melhor, do meu miniconto autobiográfico Comsat Angels, publicado aqui no blog em 23 de novembro de 2015 e agora despojado de seus poucos elementos ficcionais. O estilo, imitando a escrita infantil, foi fortemente influenciado pela leitura do livro Brinquedo, de Aran Carriel. O título é justamente uma tradução aproximada de Comsat Angels e homenageia a banda inglesa pós punk de mesmo nome. A capa escaneada do gibi do Brasinha foi tirada de um site de HQ e creio que não infringe - ao menos espero que não infrinja - nenhum direito autoral, por ser um registro histórico de uma revista já extinta. Já a havia usado de ilustração na postagem do texto original.
Friday, September 22, 2017
Prédios Novos Já Velhos
A quarta crônica que publiquei no Jornal da Cidade (Poços de Caldas) foi Prédios Novos Já Velhos, em 18 de março de 2017. É uma versão levemente reescrita da crônica Einstürzende Neubaten, publicada aqui no blog neste ano mesmo, dias antes, em dois de março. Traduzi o título, mas mantive a homenagem à banda alemã de som industrial de mesmo nome, da qual gosto muito.
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| Rua Platina, com o Edifício Beta à esquerda. Tirei esta foto com celular em 2012. |
Tuesday, September 19, 2017
Au Pairs, Crônica de uma Infância Feliz.
Au Pairs: crônica de uma infância feliz foi publicada no Jornal da
Cidade, Poços de Caldas, no dia 16 de setembro de 2017. É uma versão
retrabalhada e um pouco ampliada de uma crônica com o mesmo título e subtítulo que publiquei originalmente no blog em 27 de dezembro de 2016.
O título é uma homenagem à banda pós punk feminista Au Pairs, formada
na Inglaterra no final dos anos setenta do século passado.
http://www.jornaldacidade1.com.br/au-pairs-daniel-souza-luz/
Tuesday, September 12, 2017
Arame
Invasão de propriedade. Nunca vimos como maldade ou crime. Criança não
conhece essas fronteiras. Sabem que elas existem, mas se não estragamos nada,
qual o problema? Nos anos oitenta, com o fim da ditadura, tudo tinha cheiro de
liberdade.
Uma das melhores lembranças que tenho da época é pular dentro do pátio
de uma loja de pneus e artigos automotivos que ficava fechada do sábado à tarde
até a segunda de manhã e ficarmos andando de skate no cimento liso daquele
lugar tranquilo, que até hoje permanece o mesmo, pois, claro, nunca estragamos
nada, não queríamos ser descobertos e repreendidos – ainda tenho vontade de
pular lá dentro, sei que continua igual, pois sou cliente da loja. Em 2014
cheguei a andar de skate no pátio aberto na frente, que também é grande e
propicia bons rolês, mas não tem tanta graça quanto pular aquele muro. Mas
deixa isso pra lá, também me lembro de amigos relatarem que a Cida Caselli deu
um apavoro neles quando pularam lá, há quase trinta anos. Ela ainda tem muitos
fãs por aí e já não sou mais tão novinho para ser tão desajuizado.
No mesmo quarteirão dessa loja, o de baixo de onde eu morava, no bairro
Marçal Santos, tinha uma fábrica de chocolates na qual ia, quando criança, com
a minha mãe; lá, os funcionários sempre me davam bombons! Não bastasse essa
ótima memória, há outra. Uns dez anos depois, nos idos de 1989, como esta
famosa fábrica, a Milktex, faliu, eu, meu irmão e um amigo já falecido, o
Maurício Rodrigues, resolvemos ver o que havia por trás dos muros. Que surpresa:
tinha uma piscina vazia lá dentro! Ou um tanque azulejado, não sei por que
haveria uma piscina ali. Com uma parede curva, que acompanhava a esquina, pois
a piscina ficava num canto da fábrica. Não havia transição, tínhamos que andar
lá dando wall rides (manobra que consiste em lançar o skate contra a parede e
andar brevemente nela, na vertical). Claro que pulamos o muro. Era divertido,
mas fomos pouco lá, pois não éramos tão bons nisso e havia o medo de sermos
apanhados. Foi o mais perto que já cheguei de andar de skate em uma piscina
como as da Califórnia – é uma pena mesmo as daqui não ter transições. Quando
penso nisso, parece um sonho, de tão fantástico que foi; líamos nas revistas de
skate sobre os secret spots, lugares segredos que um grupo de skatistas jamais
contava para os outros, e aquele era o nosso.
Andar de bike e entrar em fazendas ou áreas de represa ou usinas de
força (ou algo assim) era mato – literalmente também. Fazíamos isto
constantemente à época. O problema sempre foram os arames farpados, alguns
enferrujados. Um de nós às vezes se enroscava. Bons tempos, – sei que essa
expressão é clichê, fazer o quê? – mas bons tempos mesmo em que as grandes
enroscadas eram essas.
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| Colin Newman, do Wire, ao vivo em 2011, em Chicago, Illinois, Estados Unidos. Foto de Gina Collecchia, via Flickr/Creative Commons - licença para uso sem fins lucrativos. |
Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade, Poços de Caldas, em sete de setembro de 2017. O título é uma homenagem ao grupo britânico de art punk/pós punk Wire. Cheguei a titular a crônica como Arame Farpado, mas o editor do jornal, João Gabriel Pinheiro Chagas, preferiu o título original e ficou uma homenagem literal mesmo à banda. Trata-se de uma versão reescrita e ampliada da crônica que se chama Wire mesmo, publicada neste blog em 14 de dezembro de 2015. Para quem não é poços-caldense: Cida Caselli era uma comissária de menores, já falecida, que tocava o terror em crianças e adolescentes da cidade nos anos oitenta, portanto antes do surgimento do Estatuto da Criança e do Adolescente e do Conselho Tutelar. A foto que ilustra o texto foi originalmente publicada no Flickr e a usei devido a uma licença Creative Commons.
Wednesday, September 06, 2017
Cabine C
A terceira crônica que publiquei no Jornal da Cidade (Poços de Caldas), em 08/03/2017, foi Cabine C, uma versão muito ampliada de uma pequena crônica quase homônima que já havia publicado aqui no blog em 29/06/2016, originalmente titulada "Cabine C, uma crônica sobre uma das maiores aventuras de infância". O título é uma homenagem à banda brasileira pós punk de mesmo nome, que lançou apenas um disco em 1986; no primeiro parágrafo fiz uma citação ao Atari Teenage Riot, grupo alemão de digital hardcore. A reescrevi porque acho que não havia conseguido passar a sensação de maravilhamento que tínhamos quando crianças na aventura que narro, mas na versão que saiu no jornal creio que consegui meu intento, devido à repercussão e ao fato de que o relato também me satisfez muito:
Tuesday, September 05, 2017
Televisão, crônica de uma infância cheia de fascínio
Esta crônica é uma versão ampliada de "Television, crônica de uma infância cheia de fascínio" que publiquei no blog em 16 de janeiro de 2017. O título original é uma homenagem à banda protopunk de mesmo nome e a primeira frase é uma citação explícita à música homônima do Titãs. A versão abaixo, com o título aportuguesado, foi publicada no Jornal da Cidade, Poços de Caldas, em dois de setembro de 2017.
A televisão me deixou
inteligente, muito inteligente demais. Acordava cedinho no sábado só para ver
desenho animado. Antes das oito da manhã ainda dava tempo de assistir Urso do
Cabelo Duro e Bionicão. Tenho vagas recordações, pois isso foi há mais de
trinta anos, mas me parece irônico e cômico que o primeiro desenho retrate um
bando de hippies safos travestidos de ursos e o segundo um cão policial. Como
nunca havia pensado nisso? Às vezes rolavam uns crossovers nos desenhos; ainda
bem que nunca puseram o Bionicão para reprimir a turma dos ursos, afinal eles
eram espertinhos, mas não malandros.
O que era legal demais nesses
desenhos é que eles eram psicodélicos, pois eram dos anos sessenta e setenta,
mas ainda passavam nos anos oitenta. Os Incríveis era infinitamente mais bacana
do que a banda de mesmo nome. Banana Split devia ter ácido nos ingredientes.
Jackson Five era tão massa quanto o grupo mirim do Michael Jackson e seus
irmãos. A Corrida Espacial fazia discotecas parecerem baladas com viagens boas;
apesar de já ser da era disco, o psicodelismo era muito mais mesmerizante. Dias
de aventura. Não esqueço de jeito nenhum
das pouquíssimas vezes em que passou o desenho do Recruta Zero, que era um dos
meus gibis favoritos. E de que tinha que explicar para os incautos que Danger
Mouse não só não era a mesma coisa como também era infinitamente mais legal do
que Super Mouse.
Aprendi a ler graças a meu pai,
que lia quadrinhos para mim e meu irmão; por isso antes mesmo de entrar na
escola conseguia ler alguns trechos, pois queria saber logo como terminavam as
histórias que ele não tinha tempo de acabar de ler. Saquei os rudimentos
sozinho. Quando lia os créditos nos desenhos animados, mesmo sem saber inglês,
notei que havia quem escrevia aquelas histórias e dava vontade de ser um
daqueles caras. Como desejar ter um emprego normal se você pode imaginar e
escrever as peripécias do Johnny Quest?
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| Imagem de divulgação do super legal desenho do Jackson Five. |
Monday, September 04, 2017
Conta Comigo, Rullyan
A segunda crônica que publiquei no Jornal da Cidade, em 22 de fevereiro de 2017, foi Conta Comigo, Rullyan. Esta foi escrita exclusivamente para o jornal (não havia publicado-a antes aqui no blog), em meia à comoção da morte de Rullyan Carlos de Assis, que lutava contra um tipo de câncer raro e promoveu uma grande campanha de doação de medula. A crônica é dedicada à memória dele. Ele era meu amigo de infância e adolescência, ainda o via às vezes pelas ruas de Poços de Caldas. Depois encontrei por acaso com o irmão dele, que não conhecia, e ele me disse que leu a crônica e se lembrava bem do episódio que narro na crônica.
Friday, September 01, 2017
New Model Army no Jornal da Cidade
Vou publicar aqui os links das crônicas que publiquei no Jornal da Cidade (Poços de Caldas). A primeira foi New Model Army (título em homenagem à banda homônima, mas também uma brincadeira com o exército histórico inglês e a nossa traquinagem), que postei aqui no blog em oito de fevereiro deste ano e republiquei no jornal na semana seguinte, com uma pequeníssima alteração, acrescentando o nome da rua que dava nome ao bairro onde cresci - ou melhor dizendo, o editor João Gabriel Pinheiro Chagas, do Jornal da Cidade, é que a publicou:
New Model Army no site do jornal
Tuesday, August 29, 2017
Vazio de Romeu
O surgimento do Sararah – e seu
provável declínio, daqui a algumas semanas, ou mesmo dias – fez com que me
lembrasse de uma história constrangedora para mim. Achei que pegariam no meu pé
por anos, durante a adolescência, por causa dela, mas passou batido, para a
minha surpresa. Agora vou relembrá-la e eu mesmo vou queimar o meu filme.
Aliás, “queimar filme” é uma expressão denunciadora de certa senilidade
precoce, afinal não há mais filme algum a ser queimado, e algo extremamente
queima filme.
Mas peraí. Primeiro um suspense.
Não contarei a história assim, logo no começo. Vou te engambelar, leitor. Você
há de concordar que é necessária alguma contextualização. O Sararah é um
aplicativo saudita que permite o envio de mensagens anônimas. Segundo matéria
da BBC, significa “honestidade” em árabe. Faz-se um perfil no aplicativo e as
pessoas mandam as tais mensagens dizendo o que realmente pensam. Uma temeridade
em tempos de redes sociais cheias de discursos de ódio, mas na prática o
Sararah meio que virou um Tinder de quem vive na friendzone – traduzindo: outro
aplicativo, só que de pegação, para quem já conhece quem deseja, mas não tem
coragem de dizê-lo diretamente.
Creio que o Sararah já está
vivendo seu ocaso, francamente. Parece ter sido um rápido modismo. No entanto,
remete aos dias de correio elegante. Quando estava na sétima ou oitava série a
escola em que estudava, no fim dos anos oitenta, sei lá por que, num ato
lúdico, resolveu institucionalizar a prática. Na hora do recreio instalaram
alto-falantes no pátio e liam os bilhetinhos anônimos que os estudantes
escreviam uns para os outros. Tinha zoeira, que eles com certeza filtravam, mas
também havia os recadinhos de amor. Nunca recebi nenhum. Daí forjei um para
mim, mas deixei o bilhetinho cair do bolso. O bully da minha sala pegou antes
que eu pudesse esboçar reação, leu em voz alta e tirou o maior sarro, na frente
de todos.
Achei que pagaria caro por isso,
mas logo fui esquecido, conforme expliquei no início. Minha falta de carisma
não me permite nem ser alvo de bullying. Voltando a 2017, quando notei o
Sararah se alastrando, fiz um perfil e logo já fui mandando recado para mim
mesmo, mas eu mesmo me delatei assim que o fiz. Afinal, delação também está na
moda e pode render algum bônus. Surpreendentemente, recebi alguns recadinhos
legais de terceiros sim. Mas nude que é bom ninguém mandou.
Crônica publicada no Jornal da Cidade, Poços de Caldas, em 26/08/2017.
Tuesday, August 22, 2017
Futuro Negro
Na escola, nas séries iniciais,
odiava quando as professoras nos ensinavam a identificar a estrutura literária
de um texto. Criança ainda, me insurgia contra a noção de que o clímax textual
deveria ser sempre um pouco antes do fim. Em vários escritos isto não tinha
sentido; às vezes, note-se, sequer estava presente este suposto orgasmo
literário. Ou, como isto é subjetivo, para mim o clímax era noutro ponto. Adulto,
vejo como estava certo.
Entretanto, esta recordação
retornou avassaladora quando estava quase terminando a leitura de Ganga-Zumba,
livro épico de João Felício dos Santos, dias atrás. Ao decorrer das peripécias,
a despeito da trama se passar no Nordeste e narrar as aventuras e desventuras de
Zumbi dos Palmares, Dandara e inúmeros negros que não se submeteram à
escravidão, foi solidificando-se em mim a percepção de que a narrativa
mimetizava as epopeias clássicas gregas. Nunca as li, mas curiosamente as
conheço desde criança, devido às adaptações cinematográficas que assisti nos
anos oitenta, na Sessão da Tarde. Perto do fim do livro, reconheci uma
referência explícita às odisseias gregas numa frase de um lirismo paradoxalmente
rude. Num instante de enlevo, emiti um “Nossa!” inaudível, que só reconheci
porque eu mesmo articulei a interjeição. Fiquei boquiaberto. Literalmente boquiaberto,
o que jamais acontece, que eu saiba.
Na página seguinte está a
conclusão da história. Plácida, muito plácida. Tenho que reconhecer como minhas
professoras do Instituto Educacional São João da Escócia eram boas. Não sou
muito chegado no conceito de politicamente correto, mas lembro vagamente até de
explicações em sala de aula sobre como o adjetivo “negro” não era racista e lembro-me
que estranhava a conotação negativa que davam à palavra. Incomodava-me,
sobremaneira, o verbo “judiar”, que desde tenra idade me parecia preconceituoso
com judeus – e é mesmo, como vim a descobrir. Jamais o uso. Mas o uso
corriqueiro das palavras negro e negra como adjetivos pejorativos é
estigmatizador também, a despeito das justificativas dadas em sala de aula. Não
deveria ser. No futuro, ou seja, agora, a leitura do romance histórico sobre o
que se passou no Quilombo dos Palmares iluminou a minha existência.
Esta crônica é uma reelaboração da minha micrônica 1927, reescrita e ampliada. O título é uma homenagem à banda brasileira de pós punk experimental Black Future. Foi publicada originalmente no Jornal da Cidade (Poços de Caldas) em 19 de agosto de 2017.
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| Tirei com celular a foto da edição que li do Ganga-Zumba, publicada em 1985 (o livro foi publicado primeiramente nos anos sessenta). |
Tuesday, August 01, 2017
Cisnes
Era a
nossa rua. Resolvemos que seria o nosso bairro.
As
primeiras exibições de Warriors, os
Selvagens da Noite na TV aberta foram um marco histórico para a minha
geração. A maioria dos moleques, invocados ou não, queria provar aquele gosto
de aventura fora-da-lei do filme. Sem armas, com senso de lealdade e resolvendo
desavenças na porrada, tal como no filme. As eventuais reprises iam amealhando
mais adeptos do “ganguismo” de araque, com o passar dos anos oitenta. Quem não
tem senso de aventura não vai entender que isso nada tem a ver com violência
gratuita, perda de valores da civilização ocidental e outras asneiras de missivista
padrão de jornal – para citar um ser verdadeiramente pernicioso d’antanho, hoje
transmutado nas fileiras de um exército virtual sem peias.
Então
montamos a nossa gangue. Fajuta, claro. Nem lembro o nome, se é que tinha. Não
tinha um Cisne, o líder do Warriors; nós todos éramos líderes, numa estrutura
horizontalizada, por assim dizer. E fomos tocar o terror, a nossa maneira. Ou
seja, não fazendo nada, só ficando sentados na esquina de baixo da Rua Platina,
jogando conversa fora e tomando conta do nosso “território”, um conceito tão
caro às gangues do filme. Nunca li o livro de Sol Yurick no qual foi baseado o
antológico filme de Walter Hill, então não sei se é algo tão importante na
trama original, mas imagino que sim. Para nosso bairrismo pueril, era
importante. Nosso território era aquela rua.
Finalmente,
um dia, nossas vítimas vieram ao nosso encontro. Uns molequinhos menores do que
nós que moravam na avenida que margeia o bairro Marçal Santos, a João Pinheiro.
Eles vieram jogar bola justo no nosso “território”. Nós os cercamos.
Perguntamos se eles tinham pedido licença para jogar bola lá. Claro que não.
Então os mandamos ir embora, pois explicamos que aquele era nosso território.
Fomos ameaçadores o suficiente para eles vazarem mesmo.
No dia
seguinte, depois da escola e do almoço, como de costume, nos sentamos sob a
sombra da árvore da esquina. Então o molequinho mais falante apareceu. Sozinho.
Desafiador. Com camisa de botão, penteado certinho e uma cara ingênua cheia de
verdades. Alguém perguntou o que ele queria. Acho que fui eu.
- Eu
conversei com meu pai e ele disse que não existe esse negócio de território!
Nós rimos
e o mandamos picar a mula. Ele se foi, obediente. Afinal, era menor que nós e
estava sozinho. Assim que ele se afastou, um de nós, creio que o Paulo Augusto
Rodrigues, adiantou-se e precaveu-nos.
- Sujou,
galera. Acho melhor não ficarmos na rua um tempo, para não dar rolo.
Abandonamos
nosso “território” umas semanas e não tocamos mais no assunto quando o
reocupamos, sem discutirmos com mais ninguém. O menino não voltou lá com o pai
dele. Não teve problema nenhum. Nós éramos mais bundas-moles do que Os Órfãos,
a pior gangue do filme.
Crônica originalmente publicada no Jornal da Cidade de 27 de maio de 2017, em Poços de Caldas. É baseado no meu texto Swans, o qual reescrevi e revisei.
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| Still do filme Warriors, os Selvagens da Noite (1979), dirigido por Walter Hill. |
Legião
Exorcista e Poltergeist. Pô, era
sacanagem. Falaram para eu não assistir, mas não me metia medo. Sexta-Feira 13
tirava de letra. Achava que teria alguns sustos e boa.
Quando Poltergeist estreou na TV
foi aquele alvoroço. Muitas chamadas na programação ao longo da semana que
antecedeu à exibição provocaram um frisson na moçada. Era um filme
contemporâneo, ainda estávamos nos anos oitenta. Ah, pra quê? Mal vi o começo e
já fiquei meio arrepiado com a expectativa que criei. Desliguei a TV e desisti.
Uma meia hora depois me enchi de coragem. Quando religuei, vi a cena dos
trovões. Desliguei de novo e naquela época não havia controle remoto assim
fácil, ainda bem, pois não vi a tal cena da TV com chuviscos. Só fiquei sabendo
anos depois. Naquela tensão, discutindo com a babá, a driblei e liguei de novo
numa cena horrenda – ou ao menos me parecia terrível, afinal era criança.
Assustado, desliguei DE NOVO e acabei humilhado pelos risinhos de mofa da moça.
A cena que me apavorou deve ser algo risível hoje até para criancinhas; os
efeitos especiais provavelmente ficaram muito datados. Mas para mim não era e
fiquei dormindo mal por semanas. O pior era quando trovejava.
E o Exorcista então? Vi por menos
tempo ainda. Até hoje, tenho a impressão que é um filme muito tenso. O bizarro
é que vi as duas continuações pouco tempo depois e achei ambas bestas. Mas o
original, o clássico de William Friedkin com a Linda Blair, nunca vi inteiro. Hoje
nem tenho mais curiosidade, mas antigamente era pelo trauma que o medo infantil
me incutiu. O que não tem o menor sentido: divertia-me na mesma época não só
com os Sextas-Feiras 13, mas também com uma infinidade de filmes de terror gore,
como O Massacre da Serra Elétrica, A Volta Dos Mortos-Vivos, Re-Animator, A
Hora do Espanto e outras preciosidades que esbanjavam carnificinas, zumbis e
vampiros.
Meu problema era com demônios. Tentando
racionalizar sobre isso agora, creio que é porque com vampiros, zumbis e
psicopatas o problema era se meter no lugar errado numa hora imprópria. Mas os
capetas pegavam qualquer um em qualquer lugar e qualquer hora, era muita
maldade sem razão. Não que os outros seres tivessem alguma racionalidade, mas
tinha mais ou menos um por quê. Tipo, você vacilou e esbarrou num morto-vivo.
Ou vai transar justo perto do lago onde o Jason morreu, maior falta de
respeito. No entanto, com demônios você estava amaldiçoado porque sim. Acho que
era isso com que encanava.
Uma conversa casual na rua redimiu meu sono
naquela época. Ouvi-a por puro acaso mesmo, eu nem tinha provocado o assunto e
cheguei à rodinha no meio da prosa. Um moleque um pouco mais velho, o Marcão,
explicou para nós que possessões demoníacas aconteciam apenas nos Estados Unidos,
podíamos até ver que não tinha filme nacional sobre isso. Ah bom! Fez todo o
sentido do universo para mim. Só podia ser. Deus é brasileiro e patriota,
certeza. Estava a salvo.
Tempos depois assistia
tranquilamente Uma Noite Alucinante - A Morte do Demônio, Hellraiser, O Portão
e outros filmaços que faziam sucesso nas locadoras. E era um hipócrita. Quando
assistimos ao Evil Dead 2 – que é divertidíssimo – de galera, meu amigo Paulo
tapava os olhos nas cenas mais cabulosas e eu tirava sarro, como se fosse muito
macho.
Originalmente publicado no Jornal da Cidade, Poços de Caldas, 29 de julho de 2017.
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