Friday, March 20, 2020

Para Gostar de Ler 12: Histórias de Detetive - resenha que escrevi para o Good Reads

Historias De DetetiveHistorias De Detetive by Arthur Conan Doyle
My rating: 3 of 5 stars

De todos os volumes da série Para Gostar de Ler este é o mais fraco. Entendo perfeitamente o sentido da seleção de José Paulo Paes, que teve o intuito de apresentar textos importantes para a história do gênero. O problema é que são muito ingênuos, muito esquemáticos. Isto se perdoa no conto de Conan Doyle, afinal Sherlock Holmes tem seu charme, e no de Edgar Allan Poe, pioneiro da literatura policial que ainda teve o toque de gênio de inserir um pouco de terror, gênero pelo o qual é mais conhecido, na sua trama. O texto de Jerônimo Monteiro é uma coleção de estereótipos e infelizmente nem o grande Marcos Rey se sai tão bem assim. Mas não é nada que me faça desanimar pelo gênero policial, ao qual não sou muito afeito, só me fez ter mais curiosidade em ler histórias mais contemporâneas que não tenham tantos chavões. Nisto se destaca Medeiros e Albuquerque, cujo conto é uma fina ironia e ao mesmo tempo uma homenagem a Sherlock Holmes. O conto de Edgar Wallace que fecha o volume também é ótimo, mas se aproxima mais das histórias de espionagem.


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Friday, March 13, 2020

Antologia Estância Cultural volume 1: resenha que escrevi para o Good Reads

Antologia Estância Cultural Nº 1Antologia Estância Cultural Nº 1 by Regina Alves
My rating: 2 of 5 stars

Esta coletânea reúne autores de Poços de Caldas e região que fazem parte da Academia Poços-Caldense de Letras. Há de tudo, de poesia a dramaturgia, de contos a memórias, de relatos históricos formais a tentativas de ensaios. É uma antologia mal-ajambrada, na verdade; faltou edição: não há índice e aparentemente cada autor fez sua revisão - em muitos casos, é nítido que não se fez, há erros clamorosos. Isto me chama muito a atenção, afinal fui revisor do livro A Utilidade do Rascunho, de Tadeu Rodrigues, cujo poema Mapas consta nesta antologia. Há outra bela poesia chamada Legado, de Guiomar Paiva. Além disto, há dois ótimos contos, Cabaré do Bambu, de Antônio Manoel Júdice, e O Homem que Sabia de Menos, de João Gabriel Pinheiro Chagas. Há muito textos homenageando genitores; se houver um segundo volume gostaria fazer um sobre meu pai, pois faço parte da Academia.


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Monday, February 24, 2020

Segunda-feira de Cinzas

Os telefones tocam em vão.
Todos com quem preciso conversar não foram trabalhar. Estão metendo, cochilando, bebendo e dando baixaria, queimando as carnes brancas no mormaço, jogando frescobol, cheirando, vendo mulher pelada na televisão, vendo revista de homem pelado no banheiro, baixando filmes pornôs, brochando em suítes caras de motéis vagabundos para no máximo ganhar uma chupada, discutindo com os pais velhinhos para depois jantar com eles, ralhando com os filhos e levando-os para tomar sorvete, nadando em piscinas com 37% de mijo, pulando ondas de coliformes fecais enquanto tomam água de coco, andando de bicicleta na chuva, sendo presas por desacato à autoridade, dançando nus em frente ao espelho, lendo Stephen King, ouvindo jazz na praça, comendo pipoca na fila do cinema, socando a fuça do adversário no xadrez, jogando RPG com os primos bestas, passeando com três vira-latas em forma de Cérbero, jogando confete nas novinhas, beijando as travestis, tomando facada no bar, enrolando prostitutas com serpentina e chacoalhando-se atrás do trio elétrico. Tem quem esteja trancado no quarto, ouvindo Bauhaus, sendo tão feliz quanto os outros. Só alegria, o bordão surgido sabe-se lá onde me incomoda pra caralho.
Não é tristeza. Estou exasperado, pensando, impotente, cumprindo tabela, esperando que amanhã não perca o dia inteiro dormindo pra compensar a insônia que não posso descontar agora. O picareta do chefão veio dar exemplo. Trabalhou duas horas e foi embora rangar e fazer a sesta. Enquanto mofamos na firma, inúteis, por mero capricho e pão-durismo.
Daniel Souza Luz é professor, escritor, jornalista e revisor

Este conto foi publicado em 22 de fevereiro de 2020 na página oito da edição 7222 do Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG). É uma versão levemente ampliada e reescrita, evitando um termo preconceituoso que usei outrora, de um conto de mesmo nome, que publiquei aqui no blog em três de maio de 2007.


Carnaval em Mérida, no México, 08/03/2011. Foto de Theodor Hensolt, via Creative Commons. A original pode ser encontrada aqui e a página dele no Flickr é Theodor Hensolt, Street Fotographer (Fotógrafo de Rua).


Thursday, February 13, 2020

Garfield e seus Amigos 2 (resenha que fiz para o Good Reads)

Garfield e Seus Amigos 2Garfield e Seus Amigos 2 by Jim Davis
My rating: 2 of 5 stars

Lembro-me que no filme Vamos Nessa um personagem reclama de uma tirinha (não é o Garfield) que fica por último na ordem de leitura do jornal e estraga todas as outras. Achei bem sacado, pois este é o meu caso com o Garfield: eu até lia, mas, apesar de ser a última tira (ou ao menos era) na página de quadrinhos da FSP, era a primeira que eu lia, pois achava fraquinha em comparação às demais, daí era um crescendo de prazer. Às vezes nem a lia. Eu pulava tanto a leitura das HQs dele que só agora descobri que tinha outro gato, o Nermal, que também aparecia nas tirinhas às vezes. Esta compilação é de tiras dos anos noventa, justamente quando eu fazia isto todos os dias. Mostra que não perdi muita coisa, mas também está longe de ser ruim. Li numa sala de espera. Dei uma ou duas risadas, valeu a leitura.


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Friday, February 07, 2020

Esconde-esconde

No começo de janeiro li uma ótima crônica (ou ótimo conto, não sei) da escritora Letícia Novaes, que é mais conhecida no mundo da música e no qual atende pelo pseudônimo Letrux. Chamado Férias Forever, o texto logo no início menciona que ela é de uma geração que tirava férias por três meses na virada do ano. Fiquei pensando mesmo nisso na última vez em que escrevi uma crônica sobre meus tempos de férias na infância; parece que não eram só dois meses de descanso... Eu me lembro de uma vez ou outra voltar a ter aulas no finalzinho de fevereiro, mas é aquilo mesmo que ela diz: apesar de ser um pouco mais velho do que a Letícia, também sou do tempo em que as aulas voltavam em março. Hoje vejo crianças voltando às aulas no final de janeiro e acho muito estranho. É outro mundo, ainda mais competitivo.
Antes as férias eram tão estendidas e prazerosas que quando se machucava feio ainda dava tempo de aproveitá-las. Lembro bem, porque uma das brincadeiras favoritas da criançada era (e suponho que ainda seja) esconde-esconde. Numa dessas, me estrepei. Mas não foi culpa minha. É que eu tinha um colega muito atrapalhado. Já já chego lá.
O bacana do bairro da minha infância, o Marçal Santos, era que as ruas eram relativamente pouco movimentadas. Geralmente o pique era na rua Platina, onde eu morava, e valiam as adjacências das ruas de baixo e de cima, respectivamente Berilo e também Marçal Santos. Havia árvores, carros, pequenas moitas, reentrâncias nos muros e vários pequenos esconderijos. Naquela época havia, e talvez ainda haja, a “regra” de que o último a ser descoberto salvava todos os que haviam sido pegos, bastava chegar antes no pique e bater três vezes nele. Quem estava procurando não podia mais escolher quem foi pego para substituí-lo e voltava a desempenhar seu papel de, digamos assim, rastreador. Este hábito levava a desabaladas carreiras, às vezes na frente de carros em movimento, para salvar a galera. E não tinha tira-teima quando perseguidor e perseguido batiam quase ao mesmo tempo. Lembro que uma vez meu amigo Daniel loirinho dançou nessas quatro vezes seguidas. Ele ficou desanimado e foi embora para casa, choroso.
Pique esconde, diga-se de passagem, era uma brincadeira bem democrática. Participava gente de todas as idades, dos seis aos quatorze anos. Por isso todos os esconderijos foram ficando manjados. E às vezes vacilávamos também. Não me esqueço do dia em que achei que estava muito bem escondido atrás de uma árvore na rua Berilo. Meu amigo Márcio, o Baiano, gritou de longe, gargalhando: “Estou vendo seus Kicks, tá pego Daniel!”. Kick era uma marca de tênis para andar de skate que nos anos oitenta fazia uns tênis de cano alto, fechados com velcro, numas cores vermelho e verde berrantes – que aliás soltavam tanta tinta que manchavam as meias, desculpa mãe. Virei alvo fácil, camuflagem não rolava assim.
Enfim, como a brincadeira era frequente e literalmente todo mundo conhecia os esconderijos, passando a ser o atletismo e não a habilidade de se mimetizar a melhor arma, o pessoal foi ficando mais ousado. Valiam até os limites das casas das esquinas nas ruas adjacentes. Alguém teve a ideia, então, de pular o muro da casa do Coruja, um amigo nosso que morava (e ainda mora) em Santos e não vinha sempre passar férias em Poços, portanto muitas vezes sua casa na Marçal Santos ficava vazia. E nos considerávamos de casa. Então ficávamos lá, morrendo de rir, abafadamente, da cara de quem passava na rua nos procurando e não fazia ideia do novo esconderijo. E quando quem nos procurava descia para a rua Berilo, descíamos em massa para o pique e salvávamos todo mundo.
Minha desdita aconteceu por isso. Uma bela tarde, pulei lá primeiro, junto com meu amigo Evandro, o Bugu. Ah, pra quê? Meu irmão e meus amigos Paulo Augusto e Baiano acharam por bem esconder-se lá também. Não estando cientes da nossa presença, o Márcio pulou o muro e caiu com os dois pés em cima da minha cabeça. Não vi, claro. Só senti a porrada repentina; contaram-me que foi assim. Como estava me virando para o lado para falar com o Evandro, mordi a língua. É um músculo bem vascularizado, sangra abundantemente. O que acho engraçado, hoje em dia, é que não fiz uma tomografia nem nada disso, que me lembre. Nem sei se era um exame acessível à época. Meus pais levaram-me para médico e ele só cuidou da minha língua mesmo. Não passei mal e nem nada assim, apesar do banho de sangue; acho que isso colaborou.
Bem, só sei que não tomei ponto, ainda bem. Do jeito que estava dilacerada já doía demais – a maior dor que havia sentido na vida, até então. A solução foi ficar de repouso e só poder tomar sopa e líquidos por umas semanas. Foi um martírio. Tudo bem, acho que umas duas semanas depois eu já estava na rua de novo. Brincando de esconde-esconde. Sem traumas.


Daniel Souza Luz é escritor, jornalista e revisor

Este conto foi publicado originalmente no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em primeiro de fevereiro de 2020. Saiu na página nove da edição 7207. 

Kindred: Laços de Sangue, de Octavia E. Butler, é um livro fascinante (resenha que fiz para o Good Reads)

Kindred: Laços de sangueKindred: Laços de sangue by Octavia E. Butler
My rating: 5 of 5 stars

Minha primeira leitura de 2020 foi desta escritora de ficção científica da qual nunca tinha ouvido falar até o ano passado. Fiquei fascinado e comprei o livro em abril de 2019, assim que descobri a existência dela. Só li em janeiro de 2020 pois é uma obra de fôlego, bastante extensa, que exige dias menos atribulados para ser devidamente apreciada, ao menos no meu entender. Agora estou muito curioso para ler outras obras da autora, pois a questão da indexação é muito interessante para mim. A única relação com FC neste livro é a viagem no tempo, no meu entender. No entanto, ela não tem uma explicação científica ou racional, o que aproxima a obra muito mais da fantasia. Creio que é categorizado como ficção científica porque a Octavia Butler assim o quis - e se for o caso, acho que ela está mais do que certa. Suas outras obras, pelo pouco que li, parecem ser mais de FC propriamente dita. De qualquer forma, é um livro fascinante. Quando comentei com amigos que estava lendo-o e perguntaram sobre o que era, um deles, o Tiago Barreiro, me contou que o Chris Rock já tinha feito uma piada sobre isso: viagem no tempo é coisa de branco, quem é negro jamais vai querer construir uma máquina que faça isso, pois é arriscado demais voltar ao passado. Kindred: Laços de Sangue é exatamente sobre isso. E com certeza é por isso que a protagonista, Dana, não tem controle sobre suas idas ao passado. Elas simplesmente acontecem, contra sua vontade. Sendo uma mulher negra, Butler escolheu escrever sobre uma mulher negra contemporânea (no caso, dos anos setenta: Dana e o marido Kevin Franklin vivem em 1976; o livro foi lançado originalmente em 1979) que é lançada aos tempos da escravidão num estado sulista, Maryland, antes da Guerra da Secessão. A tensão da trama se estabelece justamente porque Dana, ao guardar uma bíblia que está com a família há gerações, sabe que pouco ou nada pode fazer para impedir as situações de abuso que presencia, pois é jogada a um passado no qual reconhece os nomes de seus antepassados. Ao contrário, precisa protegê-los, mesmo quando agem de forma vil. E eles são justamente o filho de um senhor de escravos e uma escrava. Daí o título do livro. Os pequenos defeitos da trama e da escrita - respectivamente o fato de que são situações de violência que a fazem a voltar para presente e no entanto ela passa a literalmente senti-las na pele sem retornar e o uso frequente da expressão "franzir a testa" (seria isso um maneirismo da tradução?) - são totalmente recompensados pela força avassaladora da narração. E esta força está justamente no fato de que Dana, apesar de tudo, tenta impedir os abusos escravocratas. Por isso, sofrerá castigos inimagináveis para ela, uma mulher livre vivendo na Califórnia do século vinte e que perde progressivamente o direito ao próprio corpo. As descrições das torturas físicas e psicológicas que ela e os demais escravos sofriam transportam o leitor para o passado tanto quanto a protagonista; são muito vívidas. E revoltantes. É envolvente ao ponto de se ficar indignado, mesmo que hoje saibamos sobre todas as infâmias da escravidão. Particularmente, tive que que interromper a leitura diversas vezes, pois era intenso demais e me causava profunda consternação. Não bastasse isto, a autora também adianta, já àquela época, questões hoje prementes, como a tensão de relações inter-raciais na contemporaneidade e não só num passado distante em que elas resumiam-se, basicamente, a estupro e posse.


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Thursday, January 09, 2020

A Fronteira da Chuva

Foi espetacular.
Férias. Cada dia, ao acordarmos, ao tomar café - sem café na verdade, mas sim com leite com achocolatado e muita bolachinha de chocolate – tínhamos uma folha em branco pela frente, como uma crônica ansiando para ser escrita. O que faríamos, libertos da rotina escolar? Geralmente alguém saia para rua de manhã já com uma bola, jogávamos um pouco de futebol quando aparecia mais gente, íamos conversando como seria a tarde. Cada dia, uma aventura diferente, na base do consenso. Às vezes havia algum dissenso e um pessoal ia fazer alguma outra coisa, sem ressentimentos; quase sempre, no entanto, permanecíamos juntos. Esconde-esconde, videogame, skate, fliperama, mais futebol (mas em outro lugar, em geral no Parque Municipal), assistir filme na casa de alguém, peteca. Muitas vezes, tudo isso junto e misturado. Uma rodinha jogava truco, uma dupla era derrotada, entrava no lugar da dupla perdedora da peteca. E assim íamos.
Minha rua, a Platina, no bairro Marçal Santos, era lotada de crianças e adolescentes brincando e zoando. Vinha gente de longe até, de bairros como o São Geraldo; não sei por que se concentravam ali, mas assim foi nos anos oitenta, ao menos dos meados daquela década até o início da seguinte. No começo deste século passava por lá e ainda via muitas crianças por perto se divertindo. Agora não vejo mais. O prédio onde morava, o Beta, tem atualmente um portão, não entra mais qualquer um. Há aquelas placas de casas de rede de vigilância de vizinhos em conjunto com a PM. A rua ainda é muito parecida, as fachadas são mais ou menos as mesmas, mas está vazia e quando passo olhando, devagar, saudoso, rostos desconfiados me olham de dentro dos apartamentos. Houve uma única vez que, ao subir a trilha do Cristo e descer pela estrada da Vila Cruz, há cinco anos, passei na Platina e reencontrei minhas ex-vizinhas Dalva e Terezinha em frente ao prédio. Conversamos longamente. Não há mais ninguém por lá que eu conheça, a não ser a ex-vereadora e professora Tita, que mora em frente, na casa que pertencia à família da minha amiga de infância Juliana Mariano Iwamoto, que me considera um irmão. De qualquer forma, a Tita não é do meu tempo ali.
Eu disse que foi espetacular. O verbo está no passado porque foi há mais de três décadas, vou voltar para o “meu tempo”, portanto. Como a rua de baixo, a Berilo, era mais plana, apesar de mais movimentada, costumávamos jogar futebol e esportes afins por ali – sei lá por que insistíamos em jogar eventualmente na minha rua, com aquele declive. Já não me recordo quem estava comigo naquela tarde, então vocês vão ter que acreditar na minha palavra. Talvez meu irmão, o Evandro Godói, o Paulo Augusto Rodrigues, o Márcio de Melo, todos amigões e vizinhos, parece que me lembro que eles estavam juntos, mas o cenário onírico me fez esquecer exatamente quem era a companhia. Nem sei se eles lembrariam disso também, não é porque me marcou que os impressionaria também. Enfim, ali vi algo no qual sempre pensava, quando, em viagens de carro, via tempestades cair nas paisagens distantes: será que a chuva sempre vem caindo aos poucos, geralmente com vento e obliquamente, ou às vezes uma nuvem ficava parada e ao lado dela haveria pessoas vendo o dilúvio logo adiante, protegidas pelo sol? Naquele dia, e só naquela tarde, testemunhei isto: perto da minha rua, estava o tempo firme. Na esquina seguinte, na das ruas Berilo e Ouro, chovia a cântaros. Chegávamos pertinho e voltávamos secos, admirados; aquela barragem de pingos não se mexia e assim permaneceu por uns quinze, vinte minutos, até cessar completamente. Aquela foi a única vez em que cheguei à beira da fronteira da chuva.
Daniel Souza Luz é escritor, jornalista e revisor

Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 04/01/2020, na página oito da edição 7188 do jornal. Escrevi-a no dia anterior, com saudades das férias de quando eu era garoto.

Foto que tirei com celular no dia 09/01/2020



Thursday, January 02, 2020

A Flor e a Feiticeira (resenha)

A Flor e a FeiticeiraA Flor e a Feiticeira by Katia Pinno
My rating: 5 of 5 stars

Conheci a Kátia Pinno, escritora carioca para lá de simpática, há um par de anos, durante uma edição da Flipoços. Na deste ano fizemos um escambo de nossos livros: meu primeiro pelo mais recente dela. Só agora, no finzinho de 2019, é que o li. É um livro infanto-juvenil que tem como propósito ser um conto de fadas redivivo. Atenção: é um conto de fadas no sentido em que o conhecemos na infância, mais encantador do que assustador, que seria o sentido original destas histórias na antiguidade e que vem sendo destacado em filmes desta década. É um livro indicado para crianças na mais tenra idade mesmo, começa inclusive o tradicionalíssimo “Era uma vez...”; assim elas podem desde já fascinar-se com a estrutura arquetípica e tomar contato em livro com a tradição narrativa ocidental. A obra é excelente no que se propõe. É a história de uma família modesta e trabalhadora que vivia na floresta, com pai, mãe e três filhos, todos homens. Eles desejam uma menina para ser caçula e o pai, um lenhador, faz um pacto com uma feiticeira para que nasça a garota. É claro que há um preço a pagar: a menina, quando completar quinze anos, deverá ser entregue para a Feiticeira, que teria uma serviçal. Os familiares unem-se para burlar o trato amaldiçoado e proteger a filha mais nova, que se chama Flor – daí o título. Tem início então as peripécias, com passagens por cabanas isoladas na floresta, nevoeiro mágico sobre uma pequena vila e alguns simbolismos significativos. Há também, é claro, um grande amor e o proverbial final feliz – façam-me o favor de não reclamar de spoiler quanto a isto, afinal de contas é um conto de fadas. As ilustrações de Wagner Matias de Andrade lembram o estilo clássico de linha clara dos quadrinhos europeus de meados do século passado, mas com uma pegada mais contemporânea, e devem fazer os olhos das crianças brilharem. Quem reavivar sua criança interior também deve gostar do livro.
Daniel Souza Luz é escritor, jornalista e revisor
Resenha publicada no Jornal da Cidade (Ano XXX, nº 7.186, Poços de Caldas, MG, de 28 e 29 de dezembro de 2019).


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Wednesday, January 01, 2020

Daniel da Luz, Contador de História (versão resumida para o Mantiqueira)

Daniel da Luz foi um homem trabalhador, bom pai e alegre. Gostava de ajudar as pessoas, de rir, de contar histórias e piadas. Pediu para pôr como epígrafe no seu túmulo a inscrição “Aqui jaz o homem mais feliz do mundo”. Não chorem ao se lembrarem dele, mas sim sorriam e riam; se possível, caiam na gargalhada, ele preferiria assim. Mas lembrem-se dele, sempre.
Bem, até aqui está o que escrevi, com a ajuda da minha mãe, para constar no cartão de lembranças que será distribuído neste final de semana, na missa de sétimo dia do meu pai. Minha amiga Renata Chan revisou o texto para mim, assim como esta crônica, e disse-me que se lembrou d’Os Excêntricos Tenenbaums devido à frase a constar no epitáfio. Não assisti ao filme, mas meu papai me faz recordar outro: Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, do Tim Burton, baseado num livro de Daniel Wallace, o qual ainda não li.
Meu pai gostava de contar história de pescador, mas nenhuma delas envolvia pesca. Como em Peixe Grande, também eu, filho mais velho, formei-me em jornalismo e não aturava as mentiras dele. O Daniel pai era um cara inteligente. Quando eu era criança, ele lia o Pasquim para nós, nos falava de política; sei quem é Adam Smith e Karl Marx, o que é capitalismo e comunismo, desde a mais tenra idade. Ainda estávamos na ditadura quando ele nos falava de Marighella e Lamarca, assuntos tabus na época. O livro do qual meu pai mais falava era História da Riqueza do Homem, de Leo Huberman, que era um historiador marxista; só descobri isso agora, para minha total surpresa, ao escrever estas memórias. Isso porque meu pai ainda nos falava muito dele quando entrou para o PMDB, no início dos anos noventa, e passou a ter uma postura cada vez mais pragmática, fazendo-me supor que Huberman era um autor de direita liberal, até pelo título do livro. Antes, papai era brizolista roxo, filiado ao PDT, e gostava de afirmar que era ex-comunista.
A questão é que meu pai contava tanta mentira cabeluda, muitas delas envolvendo conquistas amorosas, que caiu em descrédito comigo. Passei a ser completamente cético com relação às histórias de seu passado de esquerdista radical, por exemplo. Até que dois fatos me mostraram que, como em Peixe Grande, muitas vezes ele só dava umas exageradas na verdade. Ao voltar para Poços de Caldas em 2001, depois de formado, encontrei na casa do meu amigo Raphael Xavier um velho volume amarelado de Marx que meu pai havia emprestado para ele. Estava datado e assinado por ele: era de 1968, poucos meses antes do AI-5. Isso explica porque nunca tinha visto esse livro em casa; ele o manteve bem escondido.
Naquele ano ou no seguinte, morreu o ator Fernando Frizzo. Meu pai viu a notícia e disse-me que ficou triste com isso, que havia feito teatro e que simpatizava muito com ele. Ah, peraí, teatro? Não tem nada, mas nada a ver com ele. Pois bem, e não é que meu pai fez teatro estudantil? Foi no fim dos anos sessenta. Quem me contou foi Teresa Mesquita, educadora e prima do jornalista Luis Nassif. Um dia, nos idos de 2003, fui entrevistá-la, ela viu meu nome e me contou que faziam reuniões secretas, pois eram vistos como subversivos e viviam sob uma ditadura. E faziam peças de teatro, das quais meu pai participava. Fiquei de cara, então era tudo verdade.
Há tantos causos dele que gostaria de retransmitir, mas o espaço reservado para este texto está acabando. Fica aqui meu favorito: diz meu pai que ele teve uma boate em Beagá e que um dia um sujeito estava lá aprontando uma confusão. Isso teria sido nos anos sessenta. Ao abordar o cara e pedir para que ele parasse a baixaria, ele teria dito “Eu sou Agnaldo Timóteo!” e meu pai teria respondido “E daí? Eu sou Daniel da Luz!”. Isso feito, saíram pela rua trocando tiros. É inverossímil, mas e se for real? Como dizia o cineasta John Ford: “Quando a lenda é mais interessante que a verdade, imprima-se a lenda”.
Daniel Souza Luz é escritor, jornalista e revisor

Hoje meu pai faria 79 anos, mas ele faleceu um mês antes. A saudade é muita. Este texto em homenagem a ele foi publicado no Mantiqueira, jornal de Poços de Caldas/MG, em 07/12/2019.



Sunday, December 29, 2019

Ontem Foi Um Sonho

Neste ano publiquei meu primeiro livro, Ontem Foi Um Sonho. 
É uma distopia que se passa num futuro (relativamente) próximo.
É uma edição totalmente independente, em papel reciclado, inclusive capa e contracapa.
A ilustração da capa é da Juliana Melo e a revisão é de Renata Cristina Ling Chan.
Eu mesmo editei e criei uma editora independente para isso, Enigma Anônimo - uma homenagem aos nomes das gravadoras independentes do Joy Division, Enigma e Anonymous, ambas meio de mentirinha, assim como minha editora, mas com pretensões de ser sérias (assim como minha editora). Não pus em nenhuma plataforma, ao menos por enquanto. Pedidos podem ser feitos diretamente a mim nos meus perfis nas redes sociais ou no e-mail danielsouzaluz@gmail.com
Já aviso: é em formato de bolso e tem apenas 16 páginas. A ideia é ser o primeiro de uma série de pequeninos livros de bolso. O valor é R$ 10,00 - mais o frete.


Friday, December 13, 2019

Daniel da Luz, contador de histórias

Daniel da Luz foi um homem trabalhador, bom pai e alegre. Gostava de ajudar as pessoas, de rir, de contar histórias e piadas. Pediu para pôr como epígrafe no seu túmulo a inscrição “Aqui jaz o homem mais feliz do mundo”. Não chorem ao se lembrarem dele, mas sim sorriam e riam; se possível, caiam na gargalhada, ele preferiria assim. Mas lembrem-se dele, sempre.
Bem, até aqui está o que escrevi, com a ajuda da minha mãe, que me lembrou que ele gostava de ajudar os outros e para quem ele disse o que gostaria de constar no seu epitáfio, para constar no cartão de lembranças que será distribuído neste final de semana, na missa de sétimo dia do meu pai. Minha amiga Renata Chan revisou o texto para mim, assim como esta crônica, e disse-me que se lembrou d’Os Excêntricos Tenenbaums devido à frase a constar na epígrafe. Não assisti ao filme, mas meu papai me faz recordar outro: Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, do Tim Burton, baseado num livro de Daniel Wallace, o qual ainda não li.
Meu pai gostava de contar história de pescador, mas nenhuma delas envolvia pesca. Como em Peixe Grande, também eu, filho mais velho, formei-me em jornalismo e não aturava as mentiras dele. O Daniel pai era um cara inteligente. Quando eu era criança, ele lia o Pasquim para nós, nos falava de política; sei quem é Adam Smith e Karl Marx, o que é capitalismo e comunismo, desde a mais tenra idade, horrorizem-se defensores de Escola Sem Partido (e não optei por nenhum deles, idiotas). Ainda estávamos na ditadura quando ele nos falava de Marighella e Lamarca, assuntos tabus na época. O livro do qual meu pai mais falava era História da Riqueza do Homem, de Leo Huberman, que era um historiador marxista; só descobri isso agora, para minha total surpresa, ao escrever estas memórias. Isso porque meu pai ainda nos falava muito dele quando entrou para o PMDB, no início dos anos noventa, e passou a ter uma postura cada vez mais pragmática, fazendo-me supor que Huberman era um autor de direita liberal, até pelo título do livro. Antes, papai era brizolista roxo, filiado ao PDT, e gostava de afirmar que era ex-comunista.
A questão é que meu pai contava tanta mentira cabeluda, muitas delas envolvendo conquistas amorosas, que caiu em descrédito comigo. Passei a ser completamente cético com relação às histórias de seu passado de esquerdista radical, por exemplo. Até que dois fatos me mostraram que, como em Peixe Grande, muitas vezes ele só dava umas exageradas na verdade. Ao voltar para Poços de Caldas em 2001, depois de formado, encontrei na casa do meu amigo Raphael Xavier um velho volume amarelado de Marx que meu pai havia emprestado para ele. Estava datado e assinado por ele: era de 1968, poucos meses antes do AI-5. Isso explica porque nunca tinha visto esse livro em casa; ele o manteve bem escondido.
Naquele ano ou no seguinte, morreu o ator Fernando Frizzo. Meu pai viu a notícia e disse-me que ficou triste com isso, que havia feito teatro e que simpatizava muito com ele. Ah, peraí, teatro? Não tem nada, mas nada a ver com ele. Desculpem-me, para mim, ser politicamente correto ou incorreto são duas bobagens, é maniqueísmo, então não vou edulcorar o passado, apesar de ser sim uma frase homofóbica: não me lembro agora exatamente do meu pai dizer “teatro é coisa de viado”, mas é a cara dele dizer isso, quem o conheceu sabe. Ninguém é santo e Daniel da Luz era um ser humano falho como qualquer outro, um homem de seu tempo, não estou escrevendo uma hagiografia.
Pois bem, e não é que meu pai fez teatro estudantil? Foi no fim dos anos sessenta (não no fim dos anos setenta, como saiu no obituário que escrevi para o Jornal da Cidade). Quem me contou foi Teresa Mesquita, educadora e prima do jornalista Luis Nassif. Um dia, nos idos de 2003, fui entrevistá-la, ela viu meu nome e me contou que faziam reuniões secretas, pois eram vistos como subversivos e viviam sob uma ditadura. E faziam peças de teatro, das quais meu pai participava. Fiquei de cara, então era tudo verdade – talvez aumentada de uma forma um tanto épica nas histórias que nos contava, mas era.
Há tantos causos dele que gostaria de retransmitir, mas o espaço reservado para este texto está acabando. Fica aqui meu favorito: diz meu pai que ele teve uma boate em Beagá e que um dia um sujeito estava lá aprontando uma confusão. Isso teria sido nos anos sessenta. Ao abordar o cara e pedir para que ele parasse a baixaria, ele teria dito “Eu sou Agnaldo Timóteo!” e meu pai teria respondido “E daí? Eu sou Daniel da Luz!”. Isso feito, saíram pela rua trocando tiros. É inverossímil, mas e se for real? Como dizia o cineasta John Ford: “Quando a lenda é mais interessante que a verdade, imprima-se a lenda”.

Daniel Souza Luz é escritor, jornalista e revisor


Este texto, híbrido de crônica e memórias, saiu no dia sete de dezembro de 2019 no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG). Também foi publicada, de forma resumida, no jornal Mantiqueira, na mesma data. Eu mesmo fiz a edição para o Mantiqueira, por questão de espaço. Meu pai nasceu em Poço Fundo, MG, em primeiro de janeiro de 1941. Faleceu em Poços de Caldas em primeiro de dezembro de 2019, devido a complicações de saúde causadas por um câncer, com o qual batalhou por quatro anos e meio. 
Também escrevi o obituário do meu pai para o Jornal da Cidade, acho interessante disponibilizar aqui também uma pequena biografia mais formal. O texto foi copidescado pelo editor João Gabriel Pinheiro Chagas, adaptando-o para o estilo do jornal, e publicado em 03/12//2019, com o sobretítulo Memória Viva; aqui está o original:
Daniel da Luz nasceu em primeiro de janeiro de 1941, em Poço Fundo. Faleceu em primeiro de dezembro de 2019, no domingo, com 78 anos e onze meses. Formou-se em Contabilidade, Administração e Direito. Era conhecido pelo escritório de Contabilidade com seu nome e também exerceu a advocacia. Foi membro dos diretórios do MDB, PDT e PMDB, tendo-se candidatado a vereador em 1992. Também teve cargos em vários conselhos e entidades, como a Caldense e a ACIA. Foi professor de Contabilidade do Colégio Pio XII nos anos oitenta e noventa. Também fez parte de grupos de teatro estudantil no fim dos anos sessenta, de oposição à ditadura militar. Torcia para a Beija-Flor, Vasco e era conhecido também como contador de causos. Deixa três filhos: Daniel Souza Luz, Eurico José de Souza Luz e Fernanda Souza Luz.


Meu pai, Daniel da Luz, nos idos de 2007/2008. Salvo engano, tirei esta foto pela primeira vez em que usei uma máquina digital que não era de disquete.

Monday, November 18, 2019

Para Gostar de Ler Volume 10 - Contos (Resenha que fiz para o Good Reads)

Para Gostar de Ler Volume 10 ContosPara Gostar de Ler Volume 10 Contos by Aluísio Azevedo
My rating: 5 of 5 stars

Todos os contos deste volume são ótimos. Iria lê-lo aos poucos, um conto por dia, mas uma viagem que fiz hoje demorou um pouquinho mais do que eu esperava e matei-o de uma vez. Já tinha lido um spoiler do conto do António de Alcântara Machado numa crônica do Ivan Ângelo, também presente neste volume, escrita em 2017, mas como a prosa (de ambos) é excelente não é nada que tenha tisnado o prazer da leitura. Fiquei surpreso ao notar, conforme passava a história, que já tinha lido A Terceira Margem do Rio, do Guimarães Rosa. Talvez tenha lido-o isoladamente neste número da coleção mesmo, na escola, não tenho certeza. De qualquer forma, isso foi há três décadas, não me recordava do fim, então foi como se tivesse lido pela primeira vez. E foi um deleite finalmente ter devorado de cabo a rabo este livro.


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Monday, October 21, 2019

A Droga do Amor - minhas impressões.

Texto que escrevi para a rede social Good Reads.

My rating: 3 of 5 stars
Li numa tarde. Bandeira o escreveu muitos anos depois da aventura inicial dos Karas, perdeu um pouco da química com o passar dos anos - ou já sou velho demais e perdi um pouco da minha criança interior. De qualquer forma, é uma narrativa digna da turma. O bacana é que ele o fez a pedido de uma leitora (Vanessa Cristina Haneda, a quem ele dedica o livro), que deu a ideia inicial da trama. A obra é de 1993; ele aborda a questão da epidemia de AIDS, então mais assustadora, sem jamais tocar no nome da doença - opção estética que ele explica no posfácio, citando as peças Os Espectros, de Ibsen, e O Homem de Flor na Boca, de Pirandello.
P.S. Uma ótima lembrança que o livro me trouxe dos anos oitenta, embora ele seja dos anos noventa, é a comunicação pelo código Tênis Polar, que eu e uns colegas usávamos na escola para escrever bilhetinhos.


Thursday, September 26, 2019

O Auto da Compadecida - minhas impressões.

Auto da CompadecidaAuto da Compadecida by Ariano Suassuna
My rating: 5 of 5 stars

Li de uma vez só. Na verdade, li em voz alta, para meu pai, que não enxerga quase mais nada. Contando o tempo de leitura do prefácio, que foi lido depois, também para ele, não levou mais do que três horas. Já tínhamos assistido ao filme dirigido pelo Guel Arraes há uns dez anos, à época passou batido para mim; acho que meus familiares já tinham visto até antes, quando foi exibido em forma de minissérie. O texto é muito prazeroso de ser lido em voz alta, afinal foi concebido para o teatro. O que chamou minha atenção, em primeiro lugar, foram as referências das histórias populares que Suassuna cita no preâmbulo; apesar dele ser cristão e conservador, ele não tem pejo em usar passagens escatológicas e me parecem que bem blasfemas, pois também abordam traição e sexo. O ótimo prefácio, de Henrique Oscar, traça as origens disto em textos medievais, nas quais Nossa Senhora também tem papel fundamental na salvação de almas. Ou seja, pode escandalizar carolas, mas é uma obra fundada em narrativas católicas populares que refletem a profunda religiosidade do autor. Outro aspecto que me chamou a atenção é que no livro João Grilo é mais violento e maquiavélico do que me lembro dele ser no filme; parece-me bem normal isto ter sido atenuado no roteiro, pois dificultaria a identificação do público com o personagem. Enfim, um livro divertidíssimo, rápido de ser lido e que não é uma leitura superficial, pelo contrário, também há reflexões assertivas e precisas sobre racismo e gênero, uma surpresa enorme vinda de um autor assumidamente conservador.
Daniel Souza Luz
Texto que escrevi para a rede social Good Reads.


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Thursday, September 05, 2019

Como sobreviver a uma briga num show de punk rock

Hoje, dia da independência, é uma ocasião especial na minha memória afetiva. Remete a uma noite cuja data exata ignoro, apenas tenho o registro de que foi em 1997. É que há uma música do Down By Law, grupo de hardcore dos anos noventa, que narra quase exatamente uma aventura pela qual passei. Ela se chama Independence Day e a letra fala de uma treta num show de punk rock, sem mencionar datas, mas deve ter sido num quatro de julho, a independência dos gringos.
“Bem, os moleques chegam no pico e a merda bate no ventilador/Muita segurança, mas pouca maturidade/A banda subiu no palco/Os garotos estavam furiosos”, começa a letra. Há 22 anos eu cursava Jornalismo no campus da Unesp Bauru e frequentava uma biboca chamada Pau Brasil Café. Era um lugar tosco, mas bacana. Um sobradinho com um bar embaixo, perto da Duque, avenida que concentrava os bares frequentados por unespianos. No fundo, subia-se por uma escadinha e havia um cômodo no qual as bandas tocavam. Era apertadíssimo, inclusive uns malucos equilibravam-se entre a mureta ao lado do “palco” e uma reentrância na parede da escada. Passava-se debaixo da perna deles para adentrar o recinto. Uma legítima espelunca underground. Em agosto de 97 vi lá pela primeira vez o No Bones, banda local de hardcore. O guitarrista Luiz Fernando tocava com o pé suspenso em cima do pedal. Quando alguém se aproximava muito, levava um chute dele.
“Todos os otários estavam aterrorizados, sabiam que iam pagar/Todo coração jovem na casa aquela noite batia um milhão de batidas/Punhos cerrados e um pouco de medo/Ninguém sabe quem tascou o primeiro soco/Mas depois disso ficou pior”. Coisa de um mês depois o Angry e o Autoboneco tocaram também no Pau Brasil. Na hora do Angry estava tão cheio que não adiantou abrir a janela do lugar: estava tão quente que os vidros permaneceram embaçados e não eram apenas os frequentadores que pingavam de suor: houve condensação no teto e os pingos que de lá caiam tornavam o chão uma armadilha. Foi tenso. No pogo – a famosa roda punk, na qual as pessoas pulam, empurram-se e socam o ar – escorregava-se no chão de ladrilhos. Então chegou a hora do Autoboneco, lenda local até hoje ativa.  Algumas músicas deles depois, aconteceu enquanto eles tocavam sua versão de I Wanna Be Your Dog, do Stooges: alguém esmurrou de verdade outra pessoa. Mais de duas décadas depois, conversando com amigos várias vezes a respeito, ninguém sabe quem começou ou o porquê. As suspeitas apontam para o Boy, skatista e pedreiro, um troglodita que me metia medo e que anos depois eu veria levar um senhor murro na cara de uma amiga, a Marília, ao boliná-la. Mas mesmo detratores dizem que ele não foi o culpado. O fato é que ele se envolveu na briga, que em segundos tomou proporções homéricas. Com tanta gente apinhada, não vi nada direito. Fui separar o Tcharlão, então um jovem anarcopunk, de um sujeito e só depois de um tempão entendi que ele estava é segurando o cara para ele não voltar para a treta. O Autoboneco parou de tocar, seus membros aturdidos, e a pancadaria rumou escada abaixo, um furacão devastando o caminho.
“Nós dissemos tudo o que tínhamos a dizer/Fizemos tudo o que tínhamos que fazer/Não pediremos desculpas por nada/ Não há como interromper uma briga/ Eles tentaram parar o show/Nós não iríamos embora/Pela primeira vez as vozes gritaram juntas por um dia”. O Pau Brasil não tinha seguranças. Ninguém chamou a polícia. Não havia armas. Foi como no filme Warriors. Cada um se garantiu como pôde. Quando desci, a briga se dividia entre focos no bar e na rua. O Nardi, batera do No Bones, correu até a esquina para dichavar alguém. Meu amigo Léo, zineiro, estava com o nariz sangrando; sua namorada de então, a Dri, estava possessa. Segurei-a pela camiseta, mas ela escapou e deu uns tabefes num pobre-diabo. Voltei para dentro do bar e meu amigo Samuel estava sentado, olhando fixamente para uma garrafa. Ele havia levado umas pancadas. Quebrou a garrafa e levantou-se. Temendo o pior, pedi por favor que me desse para jogá-la no lixo. Ele concordou, pegou uma cadeira do bar e bateu no Boy a valer. Dadas as circunstâncias, achei razoável e civilizado. O Boy, que já havia batido, resolveu apanhar resignadamente. Lembro-me como se fosse há cinco minutos ele dizendo “Tá bom, já apanhei bastante”, sem reagir a uma cadeirada nas costas.
“Não se preocupe comigo, mamãe e papai/O que posso fazer além de sair na porrada e rezar?.../Garrafas quebradas, ossos quebrados e lá se foi a noite”. Depois de testemunhar essas pequenas partes da carnificina, levei o Léo ao hospital. Ele havia quebrado o nariz. Até hoje não sabe quem o atingiu e por que justamente ele. Umas garotas foram junto, preocupadas com ele. Constam que não o conheciam, o que acharam engraçado. Deviam ser umas minas gente fina. Fiz uma tradução livre da letra do Down By Law para esta crônica, mas creio ter sido bem fiel. Ela é de 1996, já conhecia e gostava, mas só prestei atenção nela em 2002. Cinco anos depois daquela contenda titânica, fiquei com um nó na garganta: naquela noite minha mãe e meu pai foram visitar a mim e meu irmão de surpresa em Bauru. Eu estava de saída para o Pau-Brasil quando chegaram e disse que ficaria bem – eles ficaram preocupados. Vai ver inclusive foi no feriado de sete de setembro que nos visitaram. E como sobreviver a uma briga num show de punk rock? Mermão, não sou escritor de autoajuda. Nem separar briga, que é o que faço, eu sei direito. Te vira aí.
Daniel Souza Luz é escritor, revisor e jornalista

Thursday, May 30, 2019

Machado

Almoço de negócios. No mais afamado restaurante da cidade. Já um tanto decadente, sequer ainda é tido como o melhor, mas a comida é mais do que palatável. O expatriado empresário paulistano joga conversa fora com os conterrâneos; o acordo está fechado. Demoram-se um pouco mais do que o previsto, mas como a conversa tomara um rumo muito agradável, deixaram-se ficar e atrasaram um pouco a volta para São Paulo. Tudo bem.
O empresário, conhecido como Júnior, perde o timing e começa a aborrecer os visitantes, lamuriando-se de não ser bem aceito pela sociedade local, apesar de ser bem-sucedido.
- As pessoas aqui são muito preconceituosas. É uma bela cidade, com muito potencial, mas é um tantinho provinciana. Sou visto como um forasteiro que não deveria opinar na política local.
Já enfastiado, um engenheiro, mais novo, propõe que não se demorem mais para pegarem a estrada. Ao saírem, se deparam com o protesto dos estudantes do campus local da universidade federal. É 15 de maio de 2019. Um dos visitantes engravatados pergunta, já tendo certeza:
- Tudo estudante de Filosofia, né?
Júnior, desde que se mudou para a pequena cidade, meteu-se a ler tudo sobre ela: revistas antigas, jornais, blogs na internet, diário oficial. Arvora-se mais conhecedor dela do que os historiadores e memorialistas locais. Bem relacionado e extremamente articulado, ganhou um terreno público, avaliado em mais de um milhão, para instalar sua indústria no município. Atribui parte do seu sucesso ao profundo conhecimento sobre a cidade que adotou e que ama como se fosse um rebento. Responde com propriedade:
- Sim, só podia ser.
O único curso de Filosofia da cidade havia sido fechado quatro décadas antes. Os cartazes da manifestação destacavam os trabalhos científicos de pesquisa em Biologia desenvolvidos no campus, além de protestar contra o corte abrupto e arbitrário no orçamento da instituição.
Após escutarem por alto o discurso dos alunos da universidade local, transmitidos por um pequeno amplificador aos transeuntes, eles viram a esquina e Júnior não resiste a fazer sua observação mordaz:
- Quando vejo um desses vagabundos cabeludos percebo que criei bem minha filha. Ela nunca aparecerá com um desses em casa. Até por isso a mandei para uma faculdade particular.
O engravatado mais velho, grisalho e baixinho, carregando uma deslocada mochila nas costas, é um tipo mendaz. Muito aprazível, no afã de agradar, acha por bem fazer um complemento venal:
- E se mesmo assim ela aparecesse com um desses, não é nada que uma Glock não resolva.
O empresário aquiesce com um sorriso satisfeito. Segue-se um pequeno silêncio, que, no entanto, não é incômodo para ninguém.
O engenheiro decide rompê-lo.
- Estive aqui quando era criança, não me lembro bem mais de como era a cidade.
- Está igual, a mesma merda, não muda, só tem uns prédios a mais.
Despendem-se no estacionamento. Até ali havia sido um dia produtivo, estão orgulhosos e esperançosos quanto ao futuro empreendimento conjunto.

Daniel Souza Luz é escritor, jornalista e revisor

Este conto foi publicado no dia 17 de maio de 2019 no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG). Desde dezembro de 2018 que não publicava um novo conto no jornal, este foi o primeiro inédito em quase seis meses; todos os outros que saíram nos primeiros meses do ano foram versões retrabalhadas de contos e minicontos antigos postados originalmente aqui neste blog. Revisei esta versão que estou publicando agora no blog, eliminando pequenos errinhos e repetição de palavras e expressões que deixei desatentamente passar na versão original que saiu no jornal.

Machado foi publicado originalmente na página oito na edição 7037 do Jornal da Cidade.

Tuesday, February 26, 2019

Gatinha

Paula lambia-se como se fosse uma gata. Metaforicamente ela é, mas também, neste caso, literalmente. Sabia que não tinha lógica, mas é um hábito de criança do qual não consegue se livrar. Finalmente em casa, depois de um banho e do almoço, morrendo de sono em frente à TV, sol a pino e sabendo-se privilegiada por estar naquele quarto fresco, todo bege e bem ventilado, Paula lambe-se e arrepia-se consigo mesma, sua melhor companhia, ainda que não considere dispensáveis as demais. 
Contorce-se na medida do possível, estendendo a língua onde aprendeu que era bom pô-la, até que se aconchega no edredom e, antes de apagar, pensa brevemente em ser contorcionista de verdade. Quando acorda, ao fim da tarde, o sol já amigável, ela espreguiça-se pacientemente e sai para caçar.
Daniel Souza Luz é jornalista e revisor


Gatinha foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 23 de fevereiro de 2019. É uma versão retrabalhada de um conto de mesmo nome, publicado aqui no blog em 10 de setembro de 2007. É conto lascivo, mas não chega a ser literatura erótica, creio. Esta versão difere também da versão que saiu no jornal, pois a revisei e corrigi um erro de conjugação verbal.

Gatinha foi publicado no meio da página oito, à esquerda, da edição 6985 do Jornal da Cidade.

Thursday, February 21, 2019

Zelo

A ideia tornou-se recorrente. Tudo o que vem acontecendo deixa-me mais desgostoso. Nada permanece. A maioria dos meus livros, que guardei com tanto zelo durante todos estes anos, foram roídos por traças, carunchos, sei lá. Trabalhei demais, tornei-me um workaholic ao longo do ano passado. Nem me senti pressionado a fazer isso por patrões ou colegas, mas sentia-me tão angustiado ao chegar no horário certo em casa, com tantos projetos em mente e tão pouco tempo para viabilizá-los, que passei a dar uma de rapaz responsável. Não conseguia escolher um dos meus sonhos para concretizá-los, deixava tudo pela metade.
Por acaso, encontro-a na rua. Irritado com o abandono e com tudo o mais, disse o que sempre dizia nas antigas. Que estava com vontade de morrer. “Não fala isso, você é tão novo, tanta gente queria ter sua saúde”, blábláblá. Conhecia a velha ladainha. Desta vez falei com sinceridade. Antes dizia isso para que ela me acalentasse depois do esporro. Mas todos temos uma imagem a gelar agora. Sim, gelar. Não há nada mais a zelar. Seremos apenas isso, congelados até o fim, porque nossas escolhas foram encerradas, agora temos que vivê-las e não há volta. Ao menos, ela me aquece com um café, mas, enquanto conta-me as travessuras da filha e as noias do corno que a sustenta, não consigo deixar de pensar de que preferia quando ela se esgueirava debaixo das minhas cobertas para sumir assim que eu adormecia.

Daniel Souza Luz é jornalista e revisor

Zelo saiu no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 16 de fevereiro de 2019. É uma versão levemente retrabalhada de um conto meu de mesmo nome, publicado aqui no blog em oito de janeiro de 2007.

Zelo saiu no canto esquerdo inferior da página oito da edição 6980 do Jornal da Cidade.


Tuesday, February 12, 2019

Será que dá tempo?

Nada do que ela disse me impressionou mais do que confessar que já teve um relacionamento com outra mulher. Ela sempre foi muito conservadora. E me diz algo assim com a maior naturalidade. Tão arrogante, tão provinciana, tão preocupada em aparecer nas colunas sociais da sua cidadezinha. Adorava figurar ao lado das velhas carolas, “damas de caridade”, ciosas de seu marketing pessoal. Ela expulsou a filha de casa porque a menina tinha assumido o namoro com uma menininha ainda mais nova. Tentei tomar as mãos dela entre as minhas para alentá-la, mas ela já havia levantado para atender a ligação do marido. O celular tinha um toque específico, uma música do Franz Ferdinand, Michael, que identificava o número dele. Guiada pela coleira eletrônica, desabou escada abaixo. Imediatamente vestiu sua máscara, para nunca mais tirá-la.

Daniel Souza Luz é jornalista e revisor

Será que dá tempo? foi publicado no dia nove de fevereiro de 2019 no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG). É uma versão retrabalhada do primeiro conto publicado neste blog, em três de janeiro de 2007. Mesmo em relação à versão publicada no jornal, fiz uma pequena alteração aqui, substituindo a palavra "aparelho" por "número" na frase em que falo do toque no celular, o que também foi uma mudança que fiz no original: incluí a citação da música do Franz Ferdinand, pois é um som que caracteriza bem aquela década e que de quebra ainda forneceu o nome de um personagem.


Será que dá tempo? conforme saiu no Jornal da Cidade, no cantinho esquerdo inferior da página oito da edição 6975. Ao lado saiu um texto que fala de poesia, erroneamente creditado a mim, e com o mesmo título, por engano também.



Thursday, February 07, 2019

Memento Mori

Com o tempo se aproximando, sentiu-se petrificado. Não conseguia se mover. Vivendo fora do tempo, isso soa natural, mas não é. Ele ganhou algumas semanas de existência fugaz para compensar os dez anos de quase olvido. Dez anos existindo apenas durante as noites e madrugadas, por alguns poucos segundos, no máximo minutos. Enquanto ela sonhava. Surpreso, às vezes via-se consciente aos sábados ou domingos durante as tardes. Uma vez ela caiu doente e encontraram-se às onze e pouco da manhã de uma terça-feira, por meros quatro segundos, enquanto ela cochilava. Ele prolongava os sonhos dela sempre que podia, conversando, convencendo-a, ou tentando convencê-la, de que era real. Enquanto isso seu corpo envelhecia, mas ele era o mesmo de dez anos antes no fluir etéreo. Finalmente despertou do coma. Mudo e paralisado, não consegue explicar para ela que era tudo verdade. Ele espera que ela note sua ausência onírica.

Daniel Souza Luz é jornalista e revisor

Memento Mori foi publicado no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em dois de fevereiro de 2019. Já o havia publicado aqui no blog em 09/06/2008, mas o reescrevi para publicá-lo no jornal, porque o original me pareceu ruim ao relê-lo, embora a ideia que tive, tangenciando a literatura fantástica, continue aprazendo-me. Em relação à publicação no jornal, nesta versão ainda grafei por extenso o numeral 4, algo que não consertei a tempo antes do enviá-lo ao editor João Gabriel Pinheiro Chagas.  


Memento Mori saiu no canto inferior esquerdo da página oito da edição 6970 do Jornal da Cidade