Tuesday, August 01, 2017

Legião

Exorcista e Poltergeist. Pô, era sacanagem. Falaram para eu não assistir, mas não me metia medo. Sexta-Feira 13 tirava de letra. Achava que teria alguns sustos e boa.
Quando Poltergeist estreou na TV foi aquele alvoroço. Muitas chamadas na programação ao longo da semana que antecedeu à exibição provocaram um frisson na moçada. Era um filme contemporâneo, ainda estávamos nos anos oitenta. Ah, pra quê? Mal vi o começo e já fiquei meio arrepiado com a expectativa que criei. Desliguei a TV e desisti. Uma meia hora depois me enchi de coragem. Quando religuei, vi a cena dos trovões. Desliguei de novo e naquela época não havia controle remoto assim fácil, ainda bem, pois não vi a tal cena da TV com chuviscos. Só fiquei sabendo anos depois. Naquela tensão, discutindo com a babá, a driblei e liguei de novo numa cena horrenda – ou ao menos me parecia terrível, afinal era criança. Assustado, desliguei DE NOVO e acabei humilhado pelos risinhos de mofa da moça. A cena que me apavorou deve ser algo risível hoje até para criancinhas; os efeitos especiais provavelmente ficaram muito datados. Mas para mim não era e fiquei dormindo mal por semanas. O pior era quando trovejava.
E o Exorcista então? Vi por menos tempo ainda. Até hoje, tenho a impressão que é um filme muito tenso. O bizarro é que vi as duas continuações pouco tempo depois e achei ambas bestas. Mas o original, o clássico de William Friedkin com a Linda Blair, nunca vi inteiro. Hoje nem tenho mais curiosidade, mas antigamente era pelo trauma que o medo infantil me incutiu. O que não tem o menor sentido: divertia-me na mesma época não só com os Sextas-Feiras 13, mas também com uma infinidade de filmes de terror gore, como O Massacre da Serra Elétrica, A Volta Dos Mortos-Vivos, Re-Animator, A Hora do Espanto e outras preciosidades que esbanjavam carnificinas, zumbis e vampiros.
Meu problema era com demônios. Tentando racionalizar sobre isso agora, creio que é porque com vampiros, zumbis e psicopatas o problema era se meter no lugar errado numa hora imprópria. Mas os capetas pegavam qualquer um em qualquer lugar e qualquer hora, era muita maldade sem razão. Não que os outros seres tivessem alguma racionalidade, mas tinha mais ou menos um por quê. Tipo, você vacilou e esbarrou num morto-vivo. Ou vai transar justo perto do lago onde o Jason morreu, maior falta de respeito. No entanto, com demônios você estava amaldiçoado porque sim. Acho que era isso com que encanava.
 Uma conversa casual na rua redimiu meu sono naquela época. Ouvi-a por puro acaso mesmo, eu nem tinha provocado o assunto e cheguei à rodinha no meio da prosa. Um moleque um pouco mais velho, o Marcão, explicou para nós que possessões demoníacas aconteciam apenas nos Estados Unidos, podíamos até ver que não tinha filme nacional sobre isso. Ah bom! Fez todo o sentido do universo para mim. Só podia ser. Deus é brasileiro e patriota, certeza. Estava a salvo. 
Tempos depois assistia tranquilamente Uma Noite Alucinante - A Morte do Demônio, Hellraiser, O Portão e outros filmaços que faziam sucesso nas locadoras. E era um hipócrita. Quando assistimos ao Evil Dead 2 – que é divertidíssimo – de galera, meu amigo Paulo tapava os olhos nas cenas mais cabulosas e eu tirava sarro, como se fosse muito macho.

Originalmente publicado no Jornal da Cidade, Poços de Caldas, 29 de julho de 2017.

O porquê do sumiço

Não tenho publicado mais neste blog porque quebrei o pulso direito andando de skate e estava reeditando algumas crônicas no Jornal da Cidade - todas com correções, alguns títulos aportuguesados e acréscimos, em especial a crônica Cabine C, que foi totalmente reescrita -, com exceção da crônica "Conta Comigo, Rullyan", que foi escrita antes do acidente e foi mandada exclusivamente para o jornal. Desde o final de semana passado, agora que a fisioterapia já fez meu quadro evoluir consideravelmente, comecei a mandar crônicas totalmente inéditas para o jornal. Todas as crônicas que foram publicadas lá, focando em especial a minha infância e adolescência (com uma única exceção, a Stiff Little Fingers), podem ser encontradas neste link: http://www.jornaldacidade1.com.br/tag/daniel-souza-luz/

Monday, March 27, 2017

The Passage, uma brevíssima crônica.

Brincávamos de esconde-esconde. Dentro de casa. Já estávamos até meio grandinhos para um espaço tão exíguo. A ideia foi dela. Fui me esconder atrás de um armário. Ela resolveu se esconder junto. Estava bem apertadinho.
Foi de caso pensado. Ela se aconchegou a mim. Meu primeiro beijo de língua. Com um sabor de algo escondido. Literalmente. Não me lembro se fomos flagrados na brincadeira. No que interessava, não fomos.

Monday, March 13, 2017

Jesus and Mary Chain, uma crônica sobre como foi se apaixonar pela banda nos anos oitenta

Muitas bandas, mas muitas mesmo, passei a gostar ao ler sobre elas, muito antes de ouvi-las. Anos antes. Isso aconteceu comigo e vários amigos meus. Anos oitenta, baby.

Não me esqueço da primeira vez em que li sobre o Jesus. Estava esperando meu pai no antigo escritório dele, eu era criança ou adolescente. O problema é que agora a lembrança não é tão exata. Mas do texto me lembro bem da frase que marcou. Não é a citação literal, mas o crítico dizia “Este disco do Jesus and Mary Chain é um tiro do Magnum 45 na cabeça de quem diz que o rock inglês está morto”. Estava em uma Folha de S. Paulo, salvo engano, que estava dando bobeira ali na sala de espera. Será que foi na época do Psychocandy, quando eu tinha 11 anos, ou do Darklands, quando eu já tinha 13? De quem será o texto? Há muito tempo tenho para mim mesmo que, pelo estilão, é o tão amado e odiado Pepe Escobar.

Guardei bem o nome da banda. Depois disso, uma amiga de infância, a Cláudia Cândida, levou uma Bizz Letras Traduzidas para casa. Ela a esqueceu lá e fiquei fascinado. Pedi para que ela deixasse comigo mais um tempo para eu ler todas as letras; ela me deu a revista, o que foi muito bacana da parte dela. E lá estava uma letra do Jesus and Mary Chain, Darklands, faixa-título do disco de 1988.

Nunca tinha visto tanto niilismo e desesperança. Ainda não conhecia as letras do Ian Curtis. Fiquei boquiaberto, em especial com o final, que me pareceu mais irônico do que amargo. Foi paixão à primeira leitura. Decorei a letra muito antes de realmente ouvir a música; na verdade, antes mesmo de ouvir o que quer que fosse da banda.

Fiquei um tiquinho decepcionado a primeira vez que consegui escutar. Amo Just Like Honey, mas pelo o que lia deles, pensava que fosse mais barulhento, e foi justo a primeira música deles que ouvi. Perto de Bauhaus, que escutava muito à época, achei muito contido. Só tinha acesso via clipes que passavam no Som Pop na TV Cultura. Mas meu irmão ganhou de uma menina que era apaixonada por ele, em 1990, uma coletânea em vinil chamada Skate Surf Music; tinha uma música deles, Surfin’ USA, versão esporrenta de um som do Beach Boys que eu já conhecia, aí sim gostei. Nem lembro mais onde e quando que ouvi Darklands pela primeira vez. Mas a música fazia jus à letra, felizmente.  

 
 

Friday, March 10, 2017

The Slits, um miniconto.

As típicas garotas com quem sonhei quando adolescente só as conheci quando era novo ou velho demais para elas. Ainda bem que houve algumas poucas exceções aos vinte e poucos anos.

Thursday, March 02, 2017

Einstürzende Neubauten, crônica com um título literal.

Eram com estéticas iguais, mas como disposições diferentes, de acordo com a topografia da rua. Ambos divididos em dois blocos, um era perpendicular à rua, o outro era paralelo.  O uso do verbo no passado não está correto. Eram não, ainda são. Edifícios Alfa e Beta. Na minha memória, no entanto, eram.
Morei, quando criança, no Beta. Na verdade, de recém-nascido até o fim da adolescência e começo da vida adulta. De 1974 a 1993. Vi várias fases nele. De quando havia árvores na rua. Quando foram arrancadas. Quando era pintado. Era branco com detalhes verdes. Mudaram completamente a cor hoje, é bege. Não gostei. Talvez melhor do que quando a pintura ia ficando descascada, antigamente. E as grades brancas enferrujadas. Mas prefiro lembrar delas assim. Primeiro baixas, depois altas. Hoje há um portão que impedindo a entrada de não moradores. Antes a entrada para a escada que dá acesso aos apartamentos era livre, apenas um portão interno deveria ser fechado à noite, por volta das 22:00 – lembro-me de meus pais fechando-o. Até pouco tempo ainda podia-se entrar livremente lá, de dia. Fui até a porta do apartamento onde passei a infância, o número 101, em 2013. Não bati nas portas (são duas) para saber quem mora lá ou como ele está por dentro. Vivo sonhando com ele, tal como era, ou surrealmente modificado. Prefiro assim, que o apê permaneça como lembrança e como um ente onírico.

Monday, February 20, 2017

Minutemen, uma crônica sobre um vendedor punk.

Morei brevemente em São Paulo em 1995 para fazer uma faculdade que logo abandonei, pois passei na segunda chamada, pouco depois, do curso de jornalismo da Unesp de Bauru. Morava na República, perto da Galeria do Rock, onde costuma ir quase todos os dias. Eu tinha dois CDs do Black Flag e queria mais. Vi o single de Nervous Breakdown numa loja. Pedi para o balconista, um garoto negro, de óculos, bastante expansivo, pegar o CD para mim, pois iria comprá-lo. Ele se recusa. Seguiu-se um diálogo mais ou menos assim.
- Não cara, você conhece Minutemen?
- Conheço de nome.
- Minutemen é muito melhor do que Black Flag. É da mesma turma, da mesma gravadora, a SST.
- A gravadora do Greg Ginn, do Black Flag.
- Sim, mas esquece Black Flag, cara! Minutemen é muito mais criativo. Compra o disco deles. Você tá marcando. É a mesma pegada, só que melhor, muito mais inteligente. Melhor banda dos anos oitenta.
- Legal, mas...
- Para de bobeira. Você vai fazer o melhor negócio da sua vida. Leva o CD do Minutemen, você vai gostar muito mais e...
Somos interrompidos antes de ele pôr o CD para tocar e tentar me convencer. Uma assistente social entra na loja e chama o balconista pelo nome, do qual não me recordo mais. Ela abre uma pasta, diz que precisa conversar com ele sobre o cumprimento da medida; imagino que de um ato infracional, embora ele não parecesse tão adolescente, mas sim alguém com uns vinte anos. Aproveitei a deixa para cair fora. Achei o tão almejado single de Nervous Breakdown em outro estabelecimento. Queria porque queria. Só fui ouvir o Minutemen uns dois anos depois. Época de recursos limitados e sem acesso à internet. É uma banda tão fascinante quanto o Black Flag mesmo, embora não pareça tanto assim. O Black Flag me marcou mais, conheci antes, mas gosto quase tanto quanto. Talvez Minutemen seja melhor mesmo e aquele garoto estivesse certo, no entanto. Mas há muito espaço no meu coração para ambas as bandas.

Wednesday, February 08, 2017

New Model Army, crônica de nossa batalha mirim.

Havia Atari e tinha brinquedos de guerra. Tanques, armas e soldados de brinquedo hoje me parecem uma bizarria, mas vá lá. Que eu gostava de brincar de guerrinha, gostava. Quase todas as crianças gostavam. Quer dizer, ao menos os meninos (mau sinal, não é?). Teve uma vez que foi fera demais. Armamos (opa) de fazer uma guerrinha diferente: em vez de ser entre a molecada com pistolas de brinquedo – ou mãos fazendo as vezes de revólveres –  com nós mesmos bancando os soldados, fizemos uma guerra entre os nossos brinquedos. Juntou um pessoalzinho na casa do Coruja, amigo nosso de Santos, que costumava passar as férias em Poços de Caldas na casa da avó dele, na rua de cima. Combinamos assim: as escaramuças aconteceriam no gramado do quintal. No corredor ficava o nosso quartel-general. Na edícula do fundo, onde era aberta a área da máquina de lavar, ficava o quartel-general do inimigo, que no caso era nosso amigo Maurício, cujos pais tinham grana, o que lhe proporcionava tantos brinquedos de guerra que era ele sozinho contra a rapa. Assim seguiu-se a batalha, cheia de estratégias e bombardeios com pedrinhas nas naves; se alguma era acertada tava fora. Os quartéis generais eram protegidos por campos de força. Mesmo invisíveis, respeitávamos completamente o ente intangível que criamos. Assim se deu por horas. O mecanismo do campo de força eram pedras que deviam ficar em cima de uma cadeira; punham-se elas no chão e se entrava com os brinquedos que não podiam mais ser atacados. Não me lembro mais quem gritou, acho que foi o Coruja.
- OLHA O CAMPO DE FORÇA DELE DESLIGADO!
O Maurício estava atacando algum flanco. Ele estava longe da casinha do fundo. Saímos correndo e entramos impetuosamente dentro do quartel-general dele. Lembro que estávamos eu, meu irmão e o Coruja, mas tinha mais moleques ainda. Eu tranquilamente bombardeei com pedrinhas os bonequinhos de soldado dele, no começo. Quando vi, no entanto, o Coruja estava dando bicudas nos jipes e tanques do Maurício. Aí todos os combatentes decidiram que não haveria prisioneiros. Não conhecíamos a Convenção de Genebra ainda, éramos muito jovens. Ele voltou para lá gritando para pararmos, mas fomos derrubando e “explodindo” tudo. Conversando com meu irmão hoje, ele lembrou que o Maurício levou para lá uma bela réplica de um F-14 Tomcat, desses que se monta pacientemente com cola em casa. Voou pelos ares, no mau sentido, durante aquela blitzkrieg bop mirim. O Maurício foi embora chorando, juntando os cacos dos brinquedos dele. Se eu fosse ele, sairia chutando nossos brinquedos, afinal ele saiu pelo corredor atravessando o nosso campo de força invisível, que deixamos cuidadosamente ligado. Mas ele não foi à forra. Depois ficamos morrendo de medo dos pais dele bater na porta de nossas casas e cobrarem-nos os brinquedos estragados. Não deu nada. Ninguém se machucou mesmo. Essas guerras são as únicas que não são tão bestas.

Friday, February 03, 2017

Old Skull, uma crônica dedicada à memória de Toninho Mendes

Os shapes dos skates tinham caveiras, geralmente. O que elas me lembram é vida e não morte. Da grande aventura de ir para o centro da cidade sozinho, pela primeira vez, lá pelos idos de 1988. Não sozinho, mas junto com uma galera. Sem meus pais, melhor dizendo. Um domingo à tarde rolava fugir pra lá, numa boa.
Tinha um ponto de encontro do pessoal da escola, uma cafeteria que não existe mais, com as menininhas bonitinhas. Elas nem nos notavam ou olhavam-nos com desdém. “Ollie air não pega mulher”; lembro da frase de um skatista da época, Celso Not Dead, em uma das revistas de skate que colecionava, a Yeah! ou a Overall. Mas me sentia muito à vontade em meio a elas, também não me importava. Sentamos encostados a um muro. Não me lembro mais quem foi, mas alguém que estava na lanchonete levou uma revista em quadrinhos que adorei, a do Geraldão. Era melhor ainda do que a Mad. Ainda me lembro do cheiro daquele papel-jornal, tinha aroma de anarquia. Eu te odeio, Ronald Reagan. O Glauco, o Toninho Mendes, que editava a revista e várias outras revistas que ajudaram a moldar minha visão de mundo (Chiclete com Banana, Circo, Piratas do Tietê), os irmãos Toulon do Old Skull, que eram a cara do que aspirávamos à época, ou ao menos o que eu aspirava entre 1988 e 1990, nenhum deles está mais neste mundo. Mas ainda estão; tudo está; todos estamos.

Thursday, January 26, 2017

Talking Heads, uma crônica imersiva.

Uma das lembranças mais antigas e marcantes que tenho é de quando a TV Tupi saiu do ar. Foi tão estranho... Há pouco tempo me dei conta de que foi a primeira morte que testemunhei. Pesquisando depois, já adulto, vi que isso foi em meados de 1980. Eu tinha cinco anos. Um dia liguei a televisão e o canal havia desaparecido – época da ditadura, agora isso me parece sinistro. Houve um aviso no dia anterior, tenho uma vaga lembrança; não sei se isso é uma memória falsa que criei. Há outro fato estranho: li que a Tupi tinha novelas. Não me lembro bem disso. Lembro que a Globo tinha e que odiei o fato dela ser a única outra estação de televisão que pegava bem, porque à noite gostava de ver faroestes e desenhos. Parece que me lembro do Chaparral na Tupi, mas talvez tenha sido apenas na Record, nos anos oitenta. Lembro de ver Bonanza também. Não me lembro das tramas, mas me recordo de algo muito melhor.
Há até fotos datadas de 1979. Eu andava com chapéu de cowboy e armas de brinquedo quando era criancinha. Meu irmão também. Na verdade tenho lembranças até mais antigas, de quando tinha uns quatro anos, de gostar de filme e seriados de faroeste. E tinha um hábito mais solitário, não brincava só com meu irmão de mocinho e bandido. Eu gostava de participar dos faroestes. Fazia assim: postava-me ao lado da TV. Prestava atenção ao que os personagens diziam e participava dos diálogos. Como tinha muito plano americano, agia como se estivessem falando comigo também. Se alguém dizia “A emboscada será no desfiladeiro” eu tentava responder com algo que fizesse sentido, como “Isso mesmo amigo, vamos pelo outro caminho!”. Como ficava feliz quando o diálogo calhava com o que eu dizia! Muitas vezes dava certo. Só havia um senão: geralmente os personagens para os lados dos quais me bandeava morriam ou se ferravam. Então começava tudo de novo, no meio do filme ou episódio, como se nada houvesse acontecido. Fazer o quê? Mas eu estava sempre presente na trama. Acho que fui um pioneiro da realidade virtual, isso sim foi imersão.

Monday, January 16, 2017

Television, uma crônica de uma infância cheia de fascínio.

A televisão me deixou muito inteligente, inteligente demais. Acordava cedinho no sábado só para ver desenho animado. Antes das oito da manhã ainda dava tempo de assistir Urso do Cabelo Duro e Bionicão. Tenho vagas recordações, mesmo agora já adulto, pois até isso foi há mais de vinte anos, mas agora me parece irônico que o primeiro desenho retrate um bando de hippies safos travestidos de ursos e o segundo um cão policial – acho que era, já nem lembro tão bem. Como nunca havia pensado nisso? Às vezes rolavam uns crossovers nos desenhos; poderiam ter posto o Bionicão para reprimir a turma dos ursos para dar a real para as crianças.
O que era legal demais desses desenhos é que eles eram psicodélicos. Os Incríveis era infinitamente mais legal do que a banda de mesmo nome. Banana Split devia ter ácido nos ingredientes. Jackson Five era tão legal quanto a banda. A Corrida Espacial fazia discotecas parecerem good trips; apesar de já ser da era disco, o psicodelismo era muito mais mesmerizante. Dias de aventura.  Não esqueço de jeito nenhum das pouquíssimas vezes em que passou o desenho do Recruta Zero, que era um dos meus gibis favoritos. E de que tinha que explicar que Danger Mouse era infinitamente mais legal do que Super Mouse. Aprendi a ler graças a meu pai, que lia quadrinhos para mim e meu irmão; por isso antes mesmo de entrar na escola queria saber como terminavam outras histórias que meu pai não tinha tempo de ler. Saquei os rudimentos sozinho. Quando lia os créditos nos desenhos animados, mesmo sem saber inglês, notei que havia quem escrevia aquelas histórias. Como desejar ter um emprego normal então?

Wednesday, January 11, 2017

Love and Rockets, crônica sobre um sonho com livros fascinantes.

Adoro sonhos detalhistas. Estava fazendo um TCC sobre sebos em São Paulo e no sonho hospedei-me no apartamento do meu amigo Cleiton Corrêa, que na vida real mora em Poços de Caldas. Tinha que achar um numa tal de rua Gurgel. Olhei num mapa na web e achei quatro ruas com esse nome; fui na que era mais perto. Desci por uma escada – que não existe na realidade – ao lado do metrô Vila Madalena e lá estava o sebo. Ao achar os donos do lugar, uma loira de meia-idade e um rapaz de óculos e cabelo meio beatle, marquei uma entrevista para fazer em outra ocasião. Disseram-me para eu ficar à vontade.
Comecei a olhar os livros e em meio a best-sellers desinteressantes achei vários volumes de “Locas – Poemas,” com poesias de Jaime Hernandez e desenhos de seu irmão Gilbert. Custava 25 mangos e o que peguei em mãos estava ainda dentro do plástico, que estava empoeirado. Dei uma olhada nos outros exemplares e eram uns poucos desenhos e muitas poesias. Pensei “como não estou enxergando direito mesmo, é melhor do que ler os quadrinhos no momento”. Aliás antes qualquer obra original dos criadores do Love and Rockets, que citava o Black Flag nas HQs, do a banda que copiou o nome, da qual gosto, mas é meio decepcionante, ainda mais que é o Bauhaus inteirinho, com exceção do Peter Murphy. Enfim, voltando ao sonho, pedi para reservarem que logo depois já pegaria com eles no balcão, como usualmente faço. Continuei fuçando e achei um livro de bolso do Phillip K. Dick; era uma edição original em inglês de um conto inédito chamado The Lake’s Placid Face e custava meros sete reais. Espero que algum dia esse livro dos irmãos Hernandez chegue a ser feito. E talvez o K. Dick tenha imaginado esse conto, não tenha tido tempo de escrevê-lo e me deu um toque em uma brecha no continuum espaço-tempo.
A banda nunca será tão legal quanto a HQ, mas eu gosto.

Monday, January 02, 2017

Black Flag, crônica sobre um sonho.

Amo Black Flag, é uma das minhas bandas favoritas. Não sei se gostaria de ver um dos shows da volta, não deve se equivaler à energia da época original deles, quando foram pioneiros do punk hardcore, e nem do Flag, banda montada por ex-integrantes tretados com o guitarrista Greg Ginn, fundador, o único membro remanescente da formação original e a única pessoa presente em todas as inúmeras míticas formações do Black Flag. Hoje sonhei que fui a um show deles. Sequer vi o show no sonho, mas o que vi deve ser melhor do vê-los de verdade – e consta que o Flag é ótimo ao vivo. De certa forma, vi o Flag no sonho, curiosamente com o único ex-Black Flag que já vi de verdade, o Dez Cadena, numa apresentação horrível do “Misfits”. Show que foi um dos mais divertidos aos quais já fui: justamente porque não havia nada a ser visto, poguei o tempo todo, junto com vários amigos das antigas que estiveram em inúmeros rolês de punk rock comigo. Usei aspas porque nem era o Misfits de verdade, que para mim acabou em 1983; a volta deles sempre foi ridícula. Enfim, vou é contar como foi o sonho com o Black Flag.
Cheguei de mochila ao local da apresentação; era uma casa noturna fechada, com palco até que baixo, na altura do peito. Colei no palco do lado direito, mas atrás de dois moleques. Um segurança os abordou e perguntou por que eles estavam usando uniformes dos correios. Eles responderam que estavam matando serviço para poder ver o show. O segurança retorquiu que eles nem poderiam estar ali, mas que faria vista grossa, desde que eles fossem ao banheiro trocar de camisa. Aproveitei para colar de fato no palco e a banda entrou sem o Greg Ginn para fazer a passagem de som. Era o Dez Cadena na segunda guitarra, a Kira Roessler no baixo e um baterista que não identifiquei. A guitarra transparente do Greg Ginn ficou em cima de um amplificador. De repente entra o Keith Morris no palco e começa a cantar Revenge. Ou seja, uma formação do Black Flag que nunca existiu, com músicos que jamais tocaram juntos, pois são de épocas diferentes. Como aconteceu comigo na vida real, no show do Agent Orange, quando vi a passagem de som, formou-se uma roda de pogo atrás de nós, mas preferi ficar grudado ao palco. A passagem de som foi só com Revenge e o público dispersou-se. Fui ao banheiro, depois tomei uma sopa no bar (não me perguntem o porquê) e voltei preocupado em perder o lugar. Colei no outro lado do palco, onde ainda havia espaço, e fiquei conversando com duas meninas. Dava para ver o setlist ao lado do baixo da Kira. Falei que ia pedir para ela me dar o papel autografado, nisto a Kira, que estava com cabelo grande e pintado de loiro, passou e nos cumprimentou. Vimos que os panos se abriram e lá no fundo ela se encontrou com os outros músicos. Não sei se o Greg Ginn estava junto, pois as meninas do lado falaram-me que estavam enxergando-os borrados. Quando me esforcei para ver quem estava nos bastidores, minha vista começou a ficar muito embaçada. Acordei, acabou.

Wednesday, December 28, 2016

Unknown Gender, crônica sobre meu primeiro beijo.

Lembro-me calorosamente do meu primeiro beijo. Foi em 1985. Ela era bem mais velha; ainda adolescente e com apreço por usar uns decotes que me fascinavam. À época havia uma novela global que tinha como protagonista um estilista que durante a trama lançou um batom chamado Boka Loka. O tal do batom tornaria irresistível quem o usasse, fazendo quem estava por perto querer beijar a pessoa a qualquer custo. Talvez O Perfume, do Patrick Süskind, tenha sido a gênese desta ideia, ocorre-me agora. Afinal o livro foi lançado naquele ano. Enfim, eu tinha só dez anos, ia fazer onze. Ela tinha quinze ou dezesseis. Ela passou o batom dela em mim e me beijou até tirá-lo. A língua tinha um gosto diferente e apetitoso. Ela deixou que eu passasse a mão na bunda dela, em outra ocasião. Foi só isso e foi muito bom. O batom foi lançado de verdade, anos depois, mas tenho certeza de que não teria o mesmo gosto.

Tuesday, December 27, 2016

Au Pairs, crônica sobre uma infância feliz.

Primeiro, quando meus pais faziam faculdade, era uma moça ainda adolescente. Era eles saírem e ela pegava o telefone para passar trote em algum felizardo. Tinha uma linha de disk amizade, algo assim, na qual se podia falar com qualquer um que estivesse “online”. Acho que deu sujeira, vinha uma conta cara, não lembro mais direito. Daí ela começou a ligar a esmo e passar cantadas vagabundas em qualquer trouxa que acreditasse. A cara de pau marcava encontros nos quais não ia e nem pretendia. O dia mais massa foi quando ela conseguiu convencer um fulano de que ela era rica. Ela pediu para eu e meus irmãos pegarmos um balde e o enchermos d’água. Feito isso, ela espalmava a mão n’água e falava que estava mergulhando na piscina. Morríamos de rir. Essa aí não durou muito, era muito desajuizada. Consta que casou com um fazendeiro rico, quando perguntei dela, muitos anos atrás. Deve ter uma piscina de verdade agora.
Depois foi uma moça muito gente fina e mais inteligente. Creio que posso citar o nome dela: Fátima. Dela infelizmente não sei mais nada. Ela esperava um pouco para meus pais saírem para a aula. Telefone nos anos oitenta era algo muito sério, do qual ela mantinha distância. Assim que estava limpo, íamos todos para a rua. Ela sentava na porta do prédio e ficava trocando ideia com as minhas vizinhas que já eram adolescentes. Suponho que sobre garotos, nunca prestei atenção às conversas. Minha rua virava uma bagunça danada. Das sete e pouco da noite até as dez era lotada de criança zoando no talo. Não sei como nenhum vizinho não nos dedurou a nossos pais. Acho que ali, na rua Platina da minha infância, todo mundo mais velho era como sou agora com relação à molecada do meu bairro: se há crianças implodindo a rua à noite de tanto brincar, é porque posso dormir sossegado, pois estou num lugar muito seguro.

Monday, December 19, 2016

Agent Orange, uma breve crônica.

Nunca me esqueci de uma música de um vídeo de skate chamada 2+2=5, do Agent Orange, uma das bandas que mais amo. Até aprendi com uma amiga, nos anos oitenta mesmo, como se pronunciava dois mais dois igual a cinco em inglês. O problema é que já há alguns anos, com o acesso fácil à informação na internet, descobri que essa música definitivamente não existe. Era um vídeo de um programa de TV lendário, o Grito da Rua, e o amigo que o gravou, Maurício, morreu há vinte anos. Dificilmente verei isso de novo algum dia. Ou legendaram erroneamente o vídeo e trocaram o nome da banda, ou sonhei com essa cena quando era adolescente e a memória solidificou o que era onírico. Era uma música tão legal, ela precisava existir.
Foto que tirei de Mike Palm, do Agent Orange, em junho de 2014, num dos shows mais emocionantes da minha vida.

Tuesday, December 13, 2016

Peter Hook and the Light, crônica sobre o show

Joy Division é a minha banda favorita. Amo New Order desde criança, quando era uma banda mega popular que tocava no rádio o tempo todo, no auge de um termo que me parece esquecido hoje, o tecnopop. O primeiro disco do New Order que ouvi foi a coletânea Substance, em 1988, embora lançada em 1987. Minha música predileta era Ceremony, mas a achava estranhamente diferente das demais e muito melhor. Só dois anos depois fui saber que foi composta um pouco antes do suicídio de Ian Curtis em 1980 e reaproveitada pelos sobreviventes do Joy Division no novo grupo, o New Order. Ou seja, Joy Division já era minha banda favorita e eu nem sabia. Naquele ano vi um vídeo de skate, creio que do Vibração, gravado no campeonato no prédio da Cásper Líbero. Nele pela primeira vez ouvi Love Will Tear Us Apart; não sabia de quem era a música e nem o seu nome, o que me marcou é que um arrepio subiu pela minha espinha. Nunca havia ouvido nada tão lindo e até hoje não conheço algo comparável. Pouco tempo depois ouvi uma radialista conterrânea chamada Flávia tocar Love Will Tear Us Apart, dizer que era do Joy Division e a emendar com Ceremony, dizendo que não era uma coincidência. Desconfiei que havia uma ligação entre as bandas e em 1990, ao ler um artigo do já falecido jornalista Celso Pucci (guitarrista da banda de alt-country 3 Hombres) na lendária revista de HQ underground Animal, descobri que estava certo e me inteirei sobre a morte de Ian Curtis e a transmutação do JD no New Order, um nome apropriado. A percepção que tive era de que o NO era uma banda alegre para compensar a dor e o tom soturno do JD, algo que vejo até hoje os integrantes confirmarem em entrevistas. Enfim, ao longo dos anos fui completando a discografia do Joy Division, a maioria gravada em fita cassete. Algo que me impressiona profundamente é que o disco perfeito para mim, o segundo álbum deles, o Closer, só o seja no Brasil; só a versão brasileira saiu com Love Will Tear Us Apart de bônus. De qualquer forma, curiosamente, o disco deles que mais ouvi – justamente porque foi o único vinil que consegui à época – foi a coletânea que tem o mesmo nome da do New Order, Substance, que possuía a indicação 1977-1980, algo que sempre me fascinou por ser um período da música pelo qual sempre me encantei. Meu irmão Eurico percebeu nos vídeos de skate que tinham músicas do Joy Division e em especial no Substance, principalmente quando tem início a segunda música, Leaders of Men, que o que se destaca na banda é o baixo. Nós nunca conseguíamos ouvir o baixo em banda nenhuma, a não ser no New Order, no PIL, no Sisters of Mercy, na Legião e principalmente no Joy Division, em que o grave é simplesmente animal. Animal, não tem outra palavra pra descrever. Notamos que essa marca da banda, junto ao vocal grave, parece ter influenciado infinitas bandas.
Corta para 2016, vinte e oito anos depois. O New Order esfacelou-se e o responsável por aquele baixo, Peter Hook, está brigado com a banda e tocará na íntegra os dois Substances numa turnê, a qual passará para o Brasil. Tenho que ir, claro. Queria ter 18 anos em 1977, mas não tem jeito, o modo mais próximo de chegar perto do Joy Division é este. Então peguei o busão com meu amigo Bruno Karnov e cheguei ao show do Peter Hook and the Light em São Paulo, na Liberdade, às 22:00 em ponto, depois de correr muito pela rua e pela estação de metrô Tietê, devido a contratempos que me impediram de ir mais cedo. A divulgação dizia que o show começaria pontualmente. Até eu entrar e achar um lugar legal para ver era 22:02. Às 22:03 o show começou, como se Hooky tivesse me esperado. Muito obrigado. Do fundo, esbaforido, vi uma gentileza: ele começou com o Substance do New Order, mas com três músicas bônus do segundo CD. A primeira foi In a Lonely Place, sombria, combinando com o fato de que foi a última letra (salvo engano) escrita por Ian Curtis, pouco antes de se matar. Procession foi linda ao vivo, o sintetizador emulou bem a sonoridade original. Preocupado em encontrar um lugar melhor no meio das pessoas, nem prestei muita atenção na terceira música, acho que foi Cries and Whispers mesmo. Aí veio Ceremony. Aí sim. Que linha de baixo. Que textura e timbre absolutamente pessoais. Que coisa linda finalmente vê-la ao vivo. De Everything’s Gone Green em diante o show dedicado ao New Order degringolou um pouco. Muitos samplers, não eram sintetizadores sendo tocados na hora, mas sim bases pré-gravadas idênticas ao disco; soava como mero playback para que Peter Hook e seu filho se revezarem no baixo, notadamente enquanto Hooky cantava. Num tom mais grave, Hook engana, mas foi sábio quando ele deixou para o guitarrista David Potts cantar músicas como Confusion, pois seu tom lembra bastante o de Bernard Sumner. Houve bons momentos, como Perfect Kiss, mas quando a parte dedicada ao New Order chegou ao fim, com todo o Substance executado mecanicamente na ordem e com 1963 de bônus, entrou o som mecânico rolando Kraftwerk e o próprio New Order. Fiquei com a sensação de que fazia pouca diferença; era só o baixo que se destacava ao vivo mesmo. Muita gente foi para trás, neste momento, para comprar cerveja e tomar um ar. Que sorte! Cheguei mais perto do palco e, como se não bastasse, ali chegava o ar condicionado. Antes da apresentação recomeçar, ouvi uma garota perto dizendo para o namorado, empolgada: “Ele vai tocar o Substance do Joy Division também? Não acredito, que incrível!”. Pensei: gostaria de ser feliz na ignorância também. E não é que meu desejo se realizou? Hook e a banda voltaram e também começaram por músicas bônus do Substance do JD, como No Love Lost e These Days. Mas, ao contrário da seção dedicada ao New Order, não se circunscreveram ao Substance. Para minha completa incredulidade, tocaram a minha música favorita de todos os tempos: Disorder. Faltou peso no baixo, tocado pelo filho dele, mas era Disorder. Cantei a todos pulmões, até agora não acredito, parecia um sonho. Foi um sonho. De quebra, ainda tocaram Shadowplay. Baque à parte, lá veio: 3,5,0,1,2,5, go! Finalmente o Substance na ordem original do LP. Só havia quatro pessoas pogando: eu, um cara grandão e negro (achei legal demais, o público não era tão branco para uma banda que no passado era cultuada por um público “dark” metido a elitista), uma moça e um headbanger. Quando um sujeito subiu no palco para um stage dive, ninguém quis segurar e ele desceu sem pular; o Hook chegou a rir da situação. Warsaw veio com um intermezzo desacelerando-a e depois dá-lhe porrada de novo; Leaders of Men  teve o baixo um tiquinho mais pesado; Digital manteve o ritmo; em Autosuggestion, durante a qual filmei alguns trechos, aceleraram bastante o andamento no refrão; em Transmission a maioria dos presentes cantou junto; em She’s Lost Control faltou a bateria acústica junto com a eletrônica, mas o duelo de baixos robóticos valeu a pena; em Incubation foi estranho ver a banda sem Hooky no palco; Dead Souls foi outro sonho, pois sempre achei que ficaria boa com dois baixos e nela Hook e seu filho complementaram-se tocando juntos o tempo todo. Deu-se uma pausa e foi engraçado: um cara que parecia um cosplay do Mark E. Smith do The Fall subiu ao palco e disse que a próxima música era dedicada à Chapecoense, cujo time morreu quase todo no acidente aéreo que ocupou a mídia por boa parte naqueles dias. O público ovacionou, fiquei na minha. Não achei totalmente inadequado, ingleses amam futebol, mas me pareceu algo piegas. O banger que estava perto gritou “Foda-se a Chapecoense!” e foi embora desgostoso. Iluminaram o palco de verde e lá veio Atmosphere. Achei que seria uma breguice medonha, é a música do disco que menos gosto, mas não é que deu certo? A música ganhou vida ao vivo, aliás isso me chamou demais a atenção: por mais que eu ame o New Order, não dá para comparar mesmo com o Joy Division, cujas músicas, ironicamente ou não, pulsam vida no show. Por fim, um dos grandes momentos da minha vida aconteceu neste show. Não esperava nada do final. Love Will Tear Us Apart é uma música que ouvi ad nauseam. Eu tenho o espírito, mas perdi o sentimento. Quando ela teve início, destacando mais o baixo do que teclado, aquele arrepio que senti na espinha há vinte e oito anos subiu de novo. Acabou sendo meio rock de arena do meio para frente, mas não tem importância, aproveitei para pensar em todas as mulheres que me marcaram. Ainda tenho o espírito e o sentimento, apesar de ter achado que perdi o último há anos. Nunca imaginei que teria a mesma sensação de encantamento com Love Will Tear Us Apart de quase três décadas atrás. Ian Curtis cometeu o único erro. Por mais que o mundo seja frio e áspero, a vida é a única coisa que vale a pena ser vivida, como dizia Will Shatter.

Peter Hook and the Light no Cine Joia, seis de dezembro de 2016. Tirei a foto com celular.

Monday, November 28, 2016

Cocteau Twins, uma crônica.

Etéreo e onírico são adjetivos já muito desgastados para descrever o som do Cocteau Twins. Para mim, a primeira vez que ouvi, parecia mais do que isso até. Era magia, algo impossível de ser feito com instrumentos musicais, pois soou uma cornucópia de todas as belezas do mundo aos meus ouvidos. Um feito inumano feito por humanos que tiveram uma epifania, ou, melhor ainda, uma teofania.
Como vários bons sons que marcaram minha vida, conheci através do programa Som Pop, apresentado por Kid Vinil, na TV Cultura. Em 1990 ele passou dois clipes do Cocteau Twins. Recordo-me, mesmerizado, do deleite proporcionado pelas músicas e também pelas imagens. Um foi Carolyn’s Fingers e o outro foi Iceblink Luck. Não tenho nem mais o que falar; são obras de arte tão belíssimas que falam por si mesmas.
Foto de Teakood: https://www.flickr.com/photos/teakwood/ (Creative Commons). Link da postagem original da foto: https://www.flickr.com/photos/teakwood/8944771412/

Tuesday, November 22, 2016

PIL, uma crônica.

Sex Pistols era uma das minhas bandas favoritas no fim dos anos oitenta, talvez então fosse “A” favorita. Às vezes lia sobre o Public Image Limited, o PIL, o grupo que John Lydon montou logo depois da dissolução dos Pistols em 1978, abandonando o nome Johnny Rotten, mas só podia imaginar como era o som. Quando ouvi pela primeira vez, logo percebi a diferença fundamental do pós punk para o punk: eu ouvia nitidamente o baixo de Jah Wobble, era outra pegada, embora próxima. Na verdade, já conhecia a banda de um vídeo, gravado pelo meu amigo Maurício, do programa Vibração, que falava surf e às vezes de skate. Era uma reportagem mostrando como foram as demos de Tony Hawk e Lance Mountain nas pistas de skate do Brasil; uma das músicas do vídeo era Fodderstompf. Eu e meu irmão adorávamos o “rap” que mandavam em cima de uma base eletrofunk, uma falação no qual distinguíamos apenas que estavam ironizando, em meio ao pouco que sabíamos de inglês, o “amor estúpido”. No entanto, não fazíamos ideia de que banda era, não havia identificação das músicas e só conhecíamos o Sisters of Mercy na trilha sonora.
A primeira vez que me dei conta de que estava ouvindo o PIL foi emocionante: no programa Matéria Prima, apresentado por Serginho Groisman na TV Cultura na virada dos anos oitenta para os noventa. Durante o encerramento, tocou uma música na qual logo reconheci o vocal de Lydon, mas o timbre da guitarra era muito diferente da de Steve Jones e tão brilhante quanto. Em especial, consegui ouvir o baixo, algo que tentava fazer nas músicas dos Pistols e não conhecia reconhecer nada debaixo daquelas camadas superpostas de guitarras – só depois de começar a fazer aula de baixo que distingui o pálido som de base feito, reza a lenda, pelo próprio Jones, pois Sid Vicious não conseguia gravar adequadamente. A música do PIL que rolou no Matéria Prima era Public Image, descobri ao conseguir gravar o disco ao pegar emprestado com um amigo, creio que no final daquele ano ou em 1991; antes, como não tinha acesso, aproveite-me de uma particularidade da minha cidade natal. Assistia ao Matéria Prima na TV Cultura; ao final de todo programa tocava uma música diferente. Como outra emissora “educativa” iria se instalar no município em 1990, começaram a transmitir o sinal carioca da TVE. Sei lá porque cargas d’água, sempre que acabava o programa a TVE cortava o sinal ao vivo e passavam o final daquele Matéria Prima em que tocava Public Image quase na íntegra. Era o único jeito, para mim, de ouvir PIL à época. Toda tarde, sem exceção, assistia ao programa na TV Cultura e depois trocava de canal para escutar minha amada música no final “alternativo” inventado pela TVE.
Minha velha e querida fitinha cassete do PIL, já com mais de um quarto de século e ainda funcionando.

Friday, November 18, 2016

Magazine, uma crônica

Magazine era a banda de Howard Devoto, ex-Buzzcocks. Uma lenda pós punk do fim dos anos setenta e começo da década de oitenta. Mas só fui ouvir no século 21 e não me marcou muito.  O que eu ouvia mesmo nos anos oitenta era outro Magazine, o brasileiro. A banda de Kid Vinil, figura popular e simpática, que depois influenciaria muito do meu gosto musical à frente do Som Pop, na TV Cultura, no fim daquela década, um assunto do qual sempre gosto de falar. Mas quando eu era criança gostava mesmo era da banda new wave dele. Geral na escola também adorava os sucessos Eu Sou Boy e Tic Tic Nervoso. Meio que caiu no esquecimento; nunca mais ouvi, até lembrar hoje da existência da banda e de como achava divertido.
Manjam aquelas apresentações que as crianças fazem para os pais no fim do ano escolar? Em 1984 ou 1985 eu e meu irmão fizemos uma dessas apresentações no teatro da escola na qual estudávamos, o Pelicano, e foram apresentações musicais da qual ainda temos as fotos. A do meu irmão foi mais complicada: eles dançaram break ao som de uma música do Michael Jackson, vestidos a caráter, com roupas de b-boys. Não tenho certeza de qual música foi, só sei que era um dos hits então onipresentes dele, provavelmente Beat It. Era uma coreografia toda complicada, ou ao menos me pareceu. Um detalhe paralelo curioso: à época, quando passávamos em frente ao cemitério, minha irmã, que é mais nova, tinha medo de que tocasse Thriller no toca-fitas e até o pôster gigante do Michael Jackson que havia em casa foi tirado da parede quando começou a parecer meio sinistrão. Voltando à apresentação escolar de fim de ano, para mim foi mais fácil e combinava comigo: dançamos Tic Tic Nervoso, também devidamente vestidos para a ocasião; hoje seria chamado de cosplay new wave: com camisas sociais de manga curta e gravata. Foi divertido. Mesmo tendo vergonha de subir ao palco, não precisava fazer algo tão bem coreografado. Os meus amigos e colegas de sala até que dançaram mais direitinho, eu fiz tudo descoordenado e achei ótimo. Até hoje acho que mandei bem, era o espírito da música. O mais legal é olhar para as fotos e ver que eu pareço uma versão mirim do próprio Kid Vinil ou do Herbert Vianna – eu uso óculos.

Monday, November 07, 2016

XTC, uma croniqueta

Até hoje não ouvi muito. Sim, pouco manjo de XTC. No entanto, tenho uma ótima lembrança deles; só não sei se é real.
Em um domingo ensolarado e tranquilo da pré-adolescência, assim que caiu a noite, como de costume, fui assistir ao Som Pom, na TV Cultura. Lembro que passou um clipe deles e logo decorei o nome da banda, bem fácil de lembrar. Uma música tão solar quanto foi aquele domingo perdido lá nos estertores dos anos oitenta, com um vídeo muito colorido, que refletia a felicidade daquele dia. O problema é que só guardei o nome do XTC, não da música. Sempre procurei esse videoclipe. Nunca o vi em outros canais de TV ou online, justo hoje em que (quase) tudo se encontra na internet. Os clipes que encontro não tem eles tocando em estúdio, nem todo um clima leve em volta. Às vezes acho que esse vídeo que supostamente vi foi um sonho que tive inadvertidamente e a recordação dele se tornou real demais.

Monday, October 31, 2016

The Fall, uma croniqueta.

Salvo engano, só comecei a andar de skate em 1988. Com certeza foi, porque me lembro de que aprendi quando tinha 13 anos, completados no fim de 1987. Meu irmão Eurico começou a andar antes, provavelmente naquele 1987, quando um amigo chamado Ronan levou o skate dele na rua, um péssimo Pro Life, mas que serviu para nossas primeiras tentativas.
Não tenho muita certeza, mas acho que não andava ainda quando testemunhei um tombo do meu irmão que me assustou muito e por causa disso só deixei de ser cabação no sk8 em 1988. E eu era bem cabaço mesmo. Ele foi pular uma rampinha improvisada na rua do predinho onde morávamos, bateu a cabeça no chão e eu ouvi o barulho da batida apesar de estar ouvindo música alta no toca-fitas do carro do meu pai, que era o único aparelho de som que tínhamos. Detalhe: bem na hora em que ele caiu, eu ouvia Bark at the Moon, do Ozzy Osbourne. Pensamento mágico de criança, influenciado por discursos sensacionalistas na mídia: eu entrei em casa lamentando o que aconteceu com meu irmão, devido a uma suposta influência malévola da música. Felizmente ficou tudo bem: ele logo se recuperou da pancada e dois anos depois já estávamos até ouvindo Slayer juntos.

Monday, October 24, 2016

The Clash, uma crônica dedicada com muito amor para a Renata Rodrigues e o Maurício Rodrigues.

A primeira vez que ouvi The Clash foi num vídeo de skate. Era um programa da TV Manchete levado ao ar entre meados e fim dos anos oitenta. Chamava-se Vibração e foi gravado numa fita de videocassete por um amigo, já falecido, Maurício Rodrigues. O programa mostrava a visita de John Gibson, um skatista texano, ao Brasil. Depois da entrevista, ele andava enquanto rolava algumas músicas no BG; não me recordo de todas, mas creio que era Janie Jones, White Riot, I Fought the Law e, por fim, Guns of Brixton. Eu e meu irmão, respectivamente com 13 e 12 anos, ao ouvir, ficamos empolgadíssimos. Um de nós, acho que eu, disse “Ramones é demais!”, e o outro concordou. Só um tempo depois, ao ouvir fitinhas do Clash, que descobri que aquelas músicas não eram do Ramones. Quase sempre rio ao me lembrar dessa ingenuidade e por um bom tempo isso fez com que eu não gostasse muito de Clash. Lembro até de ter lido uns dois anos depois, já em 1990 ou talvez em 1991, a biografia de Sid Vicious escrita por Hugo Santos e publicada pela editora Brasiliense. O livro destacava que Vicious achava o Clash uma cópia do Ramones. Concordei com isso por muitos anos, mas hoje, ao ouvir novamente as músicas, não acho tão parecido. O Rancid é que se parece com o Clash, isso sim. Outro ponto engraçado dessa primeira experiência ao ouvir The Clash é que na minha ingenuidade pueril achei que Guns of Brixton fosse do Bob Marley e, por causa disso, demorou muito para eu gostar de qualquer outro som dele também, pois não achava nenhum reggae tão legal quanto aquele.
Tenho muitas saudades do Maurício e da irmã dele, que também morreu muito precocemente, a Renata. De andar de skate com ele, meu irmão e o pessoal do bairro; de ir às festinhas com eles, ela e as meninas da rua; de ler Mad e Chiclete com Banana e jogar Atari. É do que muitas vezes me lembro ao ouvir o The Clash e mais do que nostalgia, as músicas evocam-me um sentimento bom, de ainda ter alguma esperança no futuro. O que é sincrônico: consta que o Joe Strummer não gostava muito do mote No Future do Sex Pistols.

Monday, October 17, 2016

Legião Urbana XXX anos, crônica do show

Fui com o pé atrás. Mas num sábado à noite, em Poços de Caldas (a cidade epítome de Tédio com um T bem grande para você), fazer mais o quê? Comprei o ingresso de última hora, desgostoso de estar escrito Legião Urbana e não “Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá tocam Legião Urbana XXX anos”. Não consigo engolir que se chame Legião após a morte do Renato Russo. Mas bora lá, meu amigo Juliano Zappia também quis ir em cima da hora e comprou o ingresso lá mesmo no ginásio poliesportivo, habitual palco de shows na cidade, nos quais nunca fui, porque sempre ouvi falar da acústica horrível. De qualquer forma geralmente eram bandas pop que não interessavam e quando era algo bom eu já tinha visto em outras cidades. Ficamos na arquibancada e, apesar de certa distância, fiquei surpreso: não só o som estava razoável como a abertura, com Será, a primeira música do lado A do primeiro vinil, foi boa, com ela sendo bem executada. Conforme anunciado, as músicas vieram na sequência: A Dança ficou horrível sem o arranjo funky feito por Renato Rocha; Petróleo do Futuro foi fiel; em Ainda é Cedo faltou o baixo pós punk destacado do original (Renato Rocha é um cara subestimado, mas ao menos foi citado posteriormente por André Frateschi, vocalista que fez as vezes de Renato Russo), o andamento acelerou no refrão e um solo “rock é rock mesmo” do segundo guitarrista no fim cobriu a sutileza da guitarra de Dado; Perdidos no Espaço ficou muito boa, com 'efeitos espaciais” no vocal; Geração Coca-Coça para mim é ponto fraco do disco, mas mandaram bem ao vivo; O Reggae foi excelente, com efeitos lembrando dub e Dado cantando um trecho de Guns of Brixton, do The Clash, uma grande sacada; Baader-Meinhof Blues foi emocionante, fizeram uma versão pancadaria que a princípio ficou quase irreconhecível, mas manteve o espírito original; Soldados começou bem, apesar de terem atravessado após o segundo refrão ainda teve punch (nesse ponto a péssima acústica foi se impondo, o timbre do teclado ficou agudo demais); Teorema foi enérgica e correta; por fim, Por Enquanto fechou muito bem como também fecha melancolicamente bem o disco, ao vivo Bonfá foi maquinal como uma bateria eletrônica e fizeram um arranjo com certo peso, mas concentrado na eletrônica, lembrando o New Order, tal como a original.
Por mim o show podia até ter acabado ali, mas teve mais para a alegria do público, que me surpreendeu negativamente: achei a maior parte bem poser, só sabiam cantar junto os sucessos e, claro, Por Enquanto, tornada famosa por Cássia Eller numa versão, sinto muito, chinfrim. Sei que ela era legal, mas não engulo aquilo. A música seguinte às do primeiro disco foi Tempo Perdido, e aí paguei a língua: ainda bem que o show se estendeu, porque para mim o disco perfeito do Legião é o primeiro acrescido dessa belíssima música do Dois, outro discaço. A banda ainda tocou músicas menos óbvias do Dois; Daniel na Cova dos Leões e, numa boa jogada, Fábrica com outro vocalista, bem andrógino. Dezesseis também foi cantada por uma vocalista, numa outra tentativa de fugir ao lugar comum, mas achei algo meio jovem guarda o vocal dela, ou, melhor ainda, parecia a Rita Lee dando gritinho nos Mutantes. Dado e Bonfá também se revezavam no vocal, num esquema meio The Great Rock n’Roll Swindle. Foi uma sequência de hits, fora essas três, que poucas bandas podem se orgulhar de ter: Índios, Angra dos Reis, Pais e Filhos, Meninos e Meninas, Há Tempos e por aí vai. Quando saíram do palco, eu e Juliano adivinhamos o bis, pois faltaram justamente três grandes sucessos, e eles vieram conforme imaginamos corretamente (se bem que agora estou lembrando que não tocaram Eduardo e Mônica), pois não ficamos olhando o playlist da banda em outras cidades: Faroeste Caboclo, Perfeição e Que País é Esse?. Neste bis, embora Frateschi tenha falado que 2016 tem sido um ano terrível, senti uma certa dubiedade: se ele mandasse um “Fora Temer!” na lata, poderia tomar uma vaia, pois boa parte do público de meia idade provavelmente votou no futuro prefeito de Poços de Caldas. Prudentemente, deixou no ar o que queria dizer, pois a postura poderia produzir reações parecidas com as que o Pearl Jam enfrentou na década passada, ao se deparar com um público que não tinha a vibe da banda. Quando essa parte do público cantava junto Que País é Esse?, ainda mais com aquela resposta “é a porra do Brasil”, eu inevitavelmente não conseguia dissociar: parece energia, mas é só distorção.
Palco logo antes da entrada da banda. Tirei a foto com celular, 15/10/2016.

Monday, October 10, 2016

Agnostic Front, crônica sobre o show.

Não estou enxergando muito bem, devido a um problema de saúde, mas a convite do meu amigo Tatá (Otávio Mazza), topei ir a um show do Agnostic Front em São Paulo, já que vacilei demais ao longo de anos e perdi várias apresentações deles. Sempre gostei, mas sabia da postura de direita do hardcore de Nova Iorque que atraia fãs skinheads de extrema-direita. Vá lá, o clássico deles Fascist Attitudes, uma música da qual gosto muito, critica os nazis e as letras recentes são muito boas, antibélicas e pró-direitos humanos. Mesmo assim, temia que fosse algo meio zoado e violento num momento ruim para mim, mas que nada. Só me fez bem e o público estava na vibe certa do show, da tão propalada união e “família hardcore” que o Agnostic prega.
Chegamos cedo e vimos os dois shows de abertura, do Last Warning (cujo nome já deixa patente a admiração pela banda nova-iorquina) e do One True Reason. Estava muito vazio e deve ser foda para bandas que tocam hardcore apresentarem-se para um público estático (já que show com pouco público para uma banda de punk/hardcore não é demérito, mas geralmente são agitados), no entanto foram aplaudidos polidamente e fizeram seu papel com energia. Estava tão vazio que ficamos na frente do palco com facilidade quando começou o Agnostic Front, mas repentinamente brotou gente de tudo que é lugar. Não estava lotado, só que a galera colou em frente ao palco e assim que começou o show, com Eliminator (do disco Cause For Alarm, um disco de crossover bem próximo ao thrash metal) começaram os stage dives e fiquei por lá somente umas duas ou três músicas, pois desta vez, ao contrário de quando vi o Napalm Death no mesmo Clash Club, eu estava de óculos. Fomos para trás e quando o Tatá foi comprar cerveja tocaram Police Violence, uma das melhores músicas do disco mais recente deles, The American Dream Died, que tem a mesma pegada de hardcore à velocidade da luz que eles tinham no começo dos anos oitenta. Fiquei esperando, devolvi a garrafa d´água dele e não resisti quando começou o clássico Victim in Pain, música que para mim descreve minha vida no momento: fui pro circle pit sozinho para pogar e cantar junto o refrão com o público. Sobrevivi à roda de pogo sozinho e quando voltei para trás não achei mais o Tatá. Fui para um canto na frente, fiquei prensado e não consegui subir no palco quando muita, mas muita gente mesmo, subiu para cantar junto Crucified, do Iron Cross. Era aquela cena clássica, nem dava para ver a banda. Fui para o outro canto e consegui subir em outra música, não me lembro agora qual, acho que era For My Family, mas logo desci para evitar ser empurrado pelos seguranças. O show ia mesclando clássicos da adrenalina como Your Mistake, Friend or Foe, United Blood e Blind Justice com músicas mais recentes que são arrastadas; destas, ao menos A Mi Manera, em espanhol, para mim foi legal. Quando outra música recente que é uma pancadaria, I Can’t Relate, também foi executada até entrei na roda de novo. No fim eles inacreditavelmente (pois eu não conhecia a versão) tocaram Blitzkrieg Bop, do Ramones. Vou contar isso para meus netinhos, se os tiver, e para todo mundo para o resto da vida: subi no palco de um show do Agnostic Front, abracei o Roger Miret, e cantei Ramones junto com dezenas de pessoas. A adolescência nunca acaba, nem se você estiver velho e doente, pois vale o que diz a música do Seven Seconds tocada pelo DJ que mandava os sons entre as apresentações: Young Till I Die.
Foto que tirei (com celular) de Craig Silverman e Vinnie Stigma no início do show. Agnostic Front, São Paulo, 08/10/2016.

Monday, October 03, 2016

Siouxie and the Banshees, uma crônica

Sons soturnos para dias alegres. Acho que a primeira vez que ouvi Siouxie and the Banshees foi quando vi o clipe de Peek-a-Boo no Som Pop, apresentado pelo Kid Vinil na TV Cultura. Não gostei muito, até hoje não sou grande fã da música. Lembro bem da figura marcante da Siouxie no clipe, mas um dia o som realmente me encantou. No mesmo programa foi exibido o clipe de Hong Kong Garden. Aí sim. A guitarra aguda, com tons orientais, o baixo destacado, a batida final num gongo, o vídeo feito com cores em tons negativos, tudo aspirava a um mistério inalcançável para mim, enquanto que a energia era um convite a me perder num abismo etéreo. Não dá para descrever, essa descrição não basta.
Cacei os vinis o máximo que pude. O que eu podia encontrar, no fim dos anos oitenta, no interior de Minas Gerais, era nada. Achei uma coletânea chamada New Wave Times em um sebo somente em 1991. Era fascinante, uma paródia do New York Times, feita no Brasil no fim dos anos setenta pelo... Kid Vinil! Tinha muitas bandas chatas e outras absurdas de legais, como o The Jam, o Sham 69 e a Siouxie and the Banshees fazendo uma versão de Helter Skelter. Li nos créditos que a música era dos Beatles, pois não conhecia, mas até hoje minha versão favorita é a da Siouxie. Começa devagar, baixo de uma nota só secundado por um guincho de guitarra que vai sendo acelerado pela bateria, soando como um trem ganhando velocidade aos poucos até descarrilar violentamente, no final abrupto. Apesar de nessa época já ter escutado também Cities in Dust no rádio e ter achado a melodia fascinante, qual não foi a minha decepção ao finalmente achar um disco da Siouxie num sebo, já em 1992. Era o Hyaena, com uma sonoridade bem mais sutil. Não bastasse isso, tinha um colante da Fluminense FM na capa e uma amiga, a Ana Karla, quando viu, achou curioso e tirou um sarro, aumentando o meu desgosto. Tinha um colante também destacando outra cover dos Beatles, Dear Prudence, que não me desceu a princípio. Demorou mais de ano para eu realmente gostar do disco, mas felizmente não desisti dele. Aos poucos as músicas foram ganhando minha afeição e por muito tempo foi o único disco dela que conheci.