Miniconto publicado no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) há um ano. Basta clicar no print para lê-lo
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| Print que fiz na ocasião da publicação. |
Você se lembrará de algo que está aqui? Atualizado toda segunda-feira com minicontos ou crônicas (no começo era aos domingos).
Esta crônica saiu na página oito da edição do Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 26 de junho de 2021. É uma versão muito encurtada, para caber no jornal, e atualizada do texto que escrevi logo após o show do Peter Hook and the Light no Cine Joia (SP/SP), em dezembro de 2016. Foi revisada pela Juliana Gandra.
Primeiro foi a Austrália, depois a Nova Zelândia e agora os EUA. Países
que já têm shows. Em comum, não têm presidentes negacionistas. Por ora, cultivo
a memória de boas apresentações enquanto aglomerações não voltam a ser algo
normal. Amo New Order desde criança, quando era um grupo tecnopop popular que
sempre tocava no rádio. O primeiro disco deles que ouvi foi a coletânea
Substance, em 1988. Minha música predileta era Ceremony, mas a achava
estranhamente diferente das demais e muito melhor. Só anos depois soube que foi
composta originalmente pelo soturno Joy Division, grupo pós punk cujo vocalista
Ian Curtis se matou em 1980; os sobreviventes a reaproveitaram no New Order. Ou
seja, Joy Division já era minha banda predileta e eu nem sabia. Corta para
2016, 28 anos depois. O baixista do New Order, Peter Hook, está brigado com a
banda e tocará na íntegra e na ordem os dois Substances (o Joy Division também
tem uma coletânea com o mesmo nome) numa turnê, a qual passará para o Brasil. Tinha
que ir, claro. Então peguei o busão com meu amigo Bruno Karnov, já falecido, e
cheguei ao show do Peter Hook and the Light em São Paulo, na Liberdade, às
22:00 em ponto, depois de correr muito pela rua e pela estação de metrô Tietê,
devido a vários contratempos. A divulgação dizia que o show começaria
pontualmente. Até entrar e achar um lugar bom para ver era 22:02. Às 22:03 o
show começou, como se Hooky, o apelido do músico, tivesse me esperado. Muito
obrigado. Do fundo, esbaforido, mais uma gentileza: ele começou com o Substance
do New Order, mas com três músicas bônus do CD extra. A primeira foi a sombria
In a Lonely Place. Procession foi linda ao vivo, o sintetizador emulou bem a
sonoridade original. Preocupado em encontrar um lugar melhor, nem prestei muita
atenção no terceiro som. Soaram os primeiros acordes de Ceremony. Aí sim
começou o disco. Que lindo finalmente vê-la ao vivo. De Everything’s Gone Green
em diante, a parte dedicada ao New Order degringolou um pouco. Não eram
sintetizadores sendo tocados no muque, mas sim bases pré-gravadas idênticas ao
disco; soava como mero playback para que Peter Hook e seu filho se revezarem no
baixo, notadamente enquanto Hooky cantava. Quando esta parte terminou, com todo
o Substance executado mecanicamente e com 1963 de bônus, entrou o som mecânico
rolando Kraftwerk e o próprio New Order. Fiquei com a sensação de que fazia
pouca diferença. Muita gente foi para trás, neste momento, para comprar cerveja
e tomar um ar. Que bom! Cheguei mais perto do palco e, como se não bastasse,
ali chegava o ar-condicionado. Hook e a banda voltaram e também começaram pelos
bônus, mas, ao contrário da seção dedicada ao New Order, não se circunscreveram
ao Substance. Para minha incredulidade, tocaram minha música favorita de todos
os tempos: Disorder. Faltou peso no baixo, tocado pelo filho dele, mas era ela.
Cantei a todos pulmões; até hoje não acredito, parecia um sonho. De quebra,
ainda tocaram Shadowplay. Baque à parte, lá veio: 3,5,0,1,2,5, go! Finalmente o
Substance na ordem original do LP. Os clássicos tocados magnificamente, com
destaque para Dead Souls: sempre achei que ficaria boa com dois baixos e nela
Hook e seu filho complementaram-se. Não esperava nada do final. Love Will Tear
Us Apart é uma música que ouvi ad nauseam. Quando ela teve início, destacando
mais o baixo do que o teclado, aquele arrepio que senti na espinha há 28 anos
subiu de novo. Ainda tinha o espírito e o sentimento.
Daniel Souza Luz é revisor, professor, jornalista e escritor
Este conto foi publicado no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 12 de junho de 2021 como presente de dia dos namorados para minha namorada, Juliana Gandra, que revisou o texto. É uma paródia de filmes de terror e ficção científica e propositadamente infame, como as melhores produções do cinema B.
Achei minha fitinha do My
Bloody Valentine. Ouvia sem parar nos anos noventa, mas fazia uns vinte anos
que estava parada. Não jogo nada fora, ficou acumulando poeira num canto do
armário. Só que agora consertei meu aparelho de som; ficou uma nota, mas tá tocando
fita cassete de novo. Estava mastigando as fitas antes, mesmo as novas que
comprei recentemente e que custaram o olho da cara. Maldito fetiche da
mercadoria que fode meu bolso já fodido, antes era tão baratinho...
- Olha meu cassete do My
Bloody Valentine. Tem a primeira meia hora do Isn’t Anything de um lado e a
primeira meia hora do Loveless do outro. Foi uma amiga que gravou pra mim nos
anos noventa.
Ela responde com um muxoxo.
- “Amiga”. Sei. Grande
“amiga”.
- Era amiga mesmo.
- Dá para ouvir os discos
completos em qualquer serviço de streaming.
Pus para tocar mesmo assim. O
som estava muito bom, dado o tempo que se passou. A gravação que eu fazia
deixava tudo um pouco mais grave. Fiquei ouvindo, extasiado. A TV está ligada
no mudo, ela mais interessada nas imagens do que no som.
- Achei que você gostava
deles.
- Gosto. Estou ouvindo.
Fecho o olho e fico viajando
em Cupid Come. Quando a música está quase no fim, abro os olhos e ela está
boquiaberta olhando para a televisão. Então olho também, para ver o que estava
se passando, e vi a notícia: uma bomba nuclear explodiu no sertão da Bahia. Ou
um meteorito. Há pânico no olhar dos apresentadores.
- Olha! A janela!
Por cima da serra, brilha uma
espécie de halo azul. Um azul cobalto fascinante, bem diferente do azul do dia
sem nuvens. Logo depois, escutamos um rumor estranho, ao longe, como se fosse
uma espécie de microfonia celestial.
- Estamos sendo atacados?
- Não. Deve ser uma explosão
de meteorito, como o de Tunguska. Estava demorando muito mesmo para a Terra ser
atingida por um meteorito grande. Desde 1908! Desliga a TV, será que esse
barulho não é dela também?
- Já está desligada.
Nos dias seguintes o céu ficou
claro como se fosse dia. Ainda bem que a terceira guerra não começou por causa
disso. Foi apenas um meteorito, tal como eu havia previsto. Bem, mais ou menos.
Na cratera de impacto, os primeiros pesquisadores foram atacados. Estamos sendo
invadidos!
Em três horas as criaturas
chegam aqui na cidade, a centenas de quilômetros do local da aterrissagem. Parecem
gelatinas de morango disformes. Movem-se rápido, são pequenas e pululam nas
ruas. As pessoas trancam-se em casa. Não adianta nada, as gelatinas quebram as
janelas e invadem os orifícios, qualquer um, dos humanos e animais. Mas não
acontece nada com ninguém ou nenhum bicho, apenas se reproduzem rapidamente e
saem por algum orifício, aliás qualquer um também. As notícias no rádio e TV
deixam isso bem claro, apesar do constrangimento dos âncoras.
- Ah, mas em mim não!
- Nem em mim. E quem disse que
não vai acontecer nada depois?
- Sem falar na superpopulação
dessas gelatinas siderais. Vão acabar nos matando de outro jeito.
Então bolei o plano. Nos
trancamos no banheiro. Uma gelatina esgueira-se debaixo do vão da porta. Jogo
um pacote de sal em cima. Ela desintegra-se, não como as lesmas da infância,
mas sim numa pequena explosão, e voa meleca na minha namorada, que me protege
como um escudo humano.
- Vamos ligar para a TV e
anunciar o método!
Viramos heróis. Assistir a
tantos filmes B tem a sua valia. Ganhamos uns títulos nas câmaras municipal e dos
deputados. Mas só isso, pois ser herói não tem nenhuma mais-valia; exterminar
alienígenas não dá dinheiro.
*Feliz dia dos namorados, Juju.
Daniel Souza Luz é jornalista, revisor,
professor e escritor
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| Selfie do dia dos namorados de 2021. Ela que tirou, eu estava dormindo. |
Esta resenha foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 24 de abril de 2021. O texto foi revisado pela Juliana Gandra.
O
subtítulo desta obra biográfica é muito feliz. Trata-se, de fato, de um livro
que foge um pouco do que seria uma biografia convencional. Chico Lopes é a pessoa
talhada para escrever um livro sobre Bruno Filisberti, sendo um escritor que
atuou na imprensa por anos e tendo conhecimento de causa para falar sobre artes
plásticas, pois também é pintor.
O
livro foi lançado em dezembro de 2019 (o copirraite, no entanto, indica que foi
pesquisado e escrito em 2018); estive presente no lançamento e adquirir um
exemplar. No entanto, não o li à época, ainda devastado que estava pela morte
de meu pai, falecido naquele mês. Agora pareceu-me o momento adequado, um bom
preparo antes de mergulhar no caudaloso (336 páginas) novo romance do autor, A
Ponte no Nevoeiro.
Além
disso, passado tanto tempo do lançamento, é sempre importante relembrar aos
possíveis interessados que a versão digital deste livro sobre um importante
artista da cidade está disponibilizada gratuitamente na internet pela empresa
que o patrocinou, basta pesquisar pelo título.
Os
problemas das biografias, que não se resumem às questões jurídicas que rendem
acalorados debates sobre censura, em especial no Brasil, interessam-me
sobretudo desde que estudei especificamente o tema na minha pós-graduação em
Jornalismo Literário. É quase inevitável que sempre estejam sob fogo cerrado.
Escritas por jornalistas ou outros profissionais das letras, são questionadas
em sua metodologia por historiadores. Segundo um dos meus professores, lembro-me
bem disso, estima-se que cerca de dez por cento das suas narrativas seriam
elaborações ficcionais. Como exemplo, usou um trecho do excelente Olga, de
Fernando Morais, em que se conta como os guardas nazistas tomaram a filha
recém-nascida, Anita Leocádia, dos braços da militante comunista. Consta que
Morais localizou um dos presentes, já muito idoso, para reconstituir a cena.
Memória falha ou não, é um relato primário de uma testemunha ocular, foi o que
observei. Meu professor e futuro orientador, Alex Criado, explicou então que o
método científico da História exige que se diga explicitamente que se trata da
versão de uma única testemunha, coletada em tal data, em tal local, o que
burocratiza, por assim dizer, a narrativa.
Por
que trago tudo isso a lume? A biografia de Felisberti escrita por Chico contorna
essas questões usando o mesmo expediente que acabei de usar: teorizando a
respeito do assunto. Há vários trechos que são quase pequenos ensaios do
biógrafo a respeito da Arte, sua aceitação, a dificuldade do artista em lidar
com uma sociedade que exige um pragmatismo que, via de regra, é castrador. Questões
que, sem dúvida, com certeza também afligiam o biografado. E, provavelmente
fruto da experiência do autor como jornalista, não há exatamente uma narrativa
cronológica sobre as ações de Felisberti, mas sim entrevistas entre aspas com
amigos, conhecidos, estudiosos e admiradores do artista – só não há a data
delas, mas há explicações sobre as circunstâncias como foram conseguidas. O que
atende em parte às exigências de historiadores. Não que devam obrigatoriamente
ser atendidas, mas é um método interessante. Isso leva, como diz o subtítulo, a
pequenas crônicas sobre como o artista procedia e pensava. Cita-se ipsis litteris,
inclusive, crônicas escritas pelo grande nome das letras de Poços de Caldas,
Jurandir Ferreira, que foi muito próximo de Felisberti. E quem conhecemos é apenas
o artista.
Um
homem extremamente reservado, ele logrou manter-se uma incógnita. Seus amores,
seus ódios, todas as paixões que nos tornam humanos, não estão de fato
presentes. Infenso ao abstracionismo nas artes plásticas, paradoxalmente tornou-se
um ser hermético. Ao biógrafo restou conjecturar, evitando corretamente as
armadilhas dos psicologismos, o que inclusive explica ao citar reducionismos
freudianos, para traçar um bom perfil.
Daniel Souza Luz
é jornalista, revisor, escritor e professor
Esta resenha foi publicada originalmente na página dez da edição número 7526 do Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em três de junho de 2021.
A exemplo da coletânea Partes De
Um Corpo, também editada pela casa editorial TAG, Partes de uma Casa é uma
coletânea de contos inéditos que acompanhou o romance do mês passado, O Pássaro
Secreto, de Marília Arnaud, vencedor do prêmio Kindle em fevereiro. Tal como
seu par, que acompanhou o livro inédito daquele mês do clube de livros gaúcho,
não é um mero apêndice, mas sim uma obra independente para a qual sete autores
foram convidados a escrever contos que têm como espaço uma casa, tendo em mente
a pandemia. O prefácio é do incensado Itamar Vieira Júnior, escritor baiano que
ganhou fama ao conquistar o prêmio Jabuti de 2020 com o romance Torto Arado, mas
apenas cumpre tabela. Ao menos não dá muitos spoilers, até dá para lê-lo antes
de se ler os contos. O primeiro conto chama-se João Maia, 237. É uma ótima
reflexão sobre o perdão, ou a impossibilidade de se perdoar, da gaúcha Carol
Besimon. Aliás, este livro é bem mais provinciano do que o seu volume análogo;
há muitos escritores do sul do país, em especial do Rio Grande do Sul. Solange,
o segundo conto, de Jeferson Tenório, peca pelos personagens estereotipados e a
narrativa artificial, salvando-se apenas pelo desfecho. Segue-se a ele Sem
Saída, de Marília Garcia, que é antes um ensaio pessoal do que um conto. Ela
pesa um pouco na metalinguagem e neste ponto passa-se a temer que o pequeno
volume se torne uma leitura enfadonha, sensação agravada por Não Me Olha, Não
Me Diz Nada, cuja narrativa lúdica torna a leitura até leve, mas é pouco para o
talento de Natalia Borges Polesso, autora que eu já conhecia de ler nas redes
sociais. No entanto, o quinto texto, Basta A Cada Dia O Seu Próprio Mal, de
Miguel Del Castillo, é muito mais um exercício de exorcismo do que um conto e é
absolutamente brilhante, a começar pela impactante escolha do título. O alto
nível, inclusive de tensão narrativa, é mantido por A Porta Da Rua, de Caetano
W. Galindo. Por fim, a escritora trans Amaira Moira fecha esse volume com um
conto surpreendentemente terno, Luan Ângelo, contrariando expectativas de uma
tragédia eminente vivenciada por grande parcela da população LGBTQIA+. Noves
fora, é uma compilação de autores brasileiros das novas gerações que se saiu
melhor do que Partes de um Corpo, que li antes.
Daniel
Souza Luz é professor, jornalista, escritor e revisor
Esta resenha foi publicada na página oito do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 22 de maio de 2021. Foi publicada originalmente no Good Reads em outubro de 2019; a reescrevi e a adaptei para a publicação no jornal. O texto foi revisado pela Juliana Gandra.
No ano passado comemorou-se o centenário de Paul Celan, um dos poetas
mais celebrados pela crítica no século passado. Apesar disso, ele permanece
pouco editado no Brasil. A Editora 34 recém-lançou A Rosa de Ninguém, uma de
suas obras mais importantes, originalmente publicada em 1963. Enquanto não
ponho as mãos nele, relerei e me deleitarei novamente com a coletânea Cristal,
publicada pela Iluminuras em 1999. Não sei de mais nenhuma outra obra dele lançada
aqui. Este livro é um portento. Nem sei se deveria dizer muito mais a respeito,
ainda mais sendo (quase forçosamente) neófito na poesia de Paul Celan. Foi
indicação e empréstimo do meu ex-aluno e amigo Jorge Benedito de Freitas, que
estudou Celan no doutorado. Esta coletânea compila poemas de todos os livros
reconhecidos pelo autor; a seleção foi da tradutora, Claudia Cavalcanti. Li, ao
longo de quase dois meses, um poema por dia. Por fim, depois de passado um bom
tempo, li um discurso que Celan proferiu na entrega de um prêmio literário, que
na verdade é um ensaio complexo sobre o fazer poético e logo vi que sua
erudição demandava muita concentração - separei uma tarde de domingo em que
pude lê-lo atentamente. Recordo-me que pedi para meu irmão cuidar do meu pai,
então com câncer, para que eu tivesse uma folga por algumas horas e mergulhasse
no raciocínio complexo do autor. Nos textos de apresentação de Cavalcanti e
Márcio Seligmann-Silva aprendi que Celan era judeu, nasceu na Romênia, passou a
maior parte da vida na França e mesmo assim considerava-se um escritor alemão,
língua na qual escrevia. Até o Jorge me emprestar o livro, jamais tinha ouvido
falar nele. O tema do Holocausto, do 20 de janeiro de 1942 citado na orelha e
no discurso, pareceu-me ser aludido apenas em algumas poesias no início. Com o
passar dos anos, noto que ele tornou-se cada vez mais conciso. Suas obras
finais, as que não tiveram muita atenção do público e crítica, foram as que
mais gostei. Ele torna-se simultaneamente mais explícito, como em Uma Folha,
Desarvorada, que é dedicado a Bertolt Brecht, e ao mesmo tempo mais enigmático
– na verdade, extremamente hermético. Os dois últimos poemas, póstumos,
fascinam-me em particular; para mim tangenciam a FC, o que é inaudito, creio.
No apêndice, o discurso menciona a questão do diálogo do poeta com o Outro
(inclusive Celan destaca que este encontro se dá em outros tempos, pelo que
entendi), o "tu" ("Du") que meu amigo Jorge tantas vezes
marcou nos textos originais - a edição é bilíngue - e que a tradutora optou por
tornar sujeito oculto. Isto me chamou muito a atenção. Parece-me que alguns
poemas ganham outro sentido, que Celan não está falando (somente) com sua musa:
"Foste minha morte/Pude deter-te/enquanto tudo me escapava". Ele
estava falando de viver em você, leitor, por mais algum tempo, não? Não sei.
Mas talvez - talvez - seja isto a majestade do absurdo que testemunha a tênue
presença humana da qual ele fala.
Daniel Souza Luz é jornalista,
escritor, educador e revisor
Resenha publicada originalmente no Good Reads em dezembro de 2019; reescrevi e ampliei para publicação no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 29 de maio de 2021. O texto foi revisado pela Juliana Gandra e ainda inseri uma informação na última linha, após a publicação no jornal: a data da publicação original do livro.
Ótimo livro sobre objeção de consciência. Maria Lacerda de Moura nasceu
em Manhuaçu, Minas Gerais (não que isso importe para uma anarquista), e faria
134 anos neste mês, caso isso fosse possível para a espécie humana. O ponto de
vista anárquico e antibélico da autora rejeita tanto o feminismo liberal, que
defende que mulheres também integrem as forças armadas, quanto o feminismo
comunista de Alexandra Kollontai, que sustenta que as mulheres tomem parte do
aparato bélico para que se instale a ditadura do proletariado. Diga-se de
passagem, isto não consta no livro, mas Kollontai abandonou os ideais
feministas de outubro de 1917 e apoiou o reacionarismo de Stalin, que passou a
proibir o aborto e cancelou outras conquistas femininas da revolução. O
conteúdo do livro na verdade é a transcrição de uma conferência de Maria
Lacerda de Moura, proferida em dezembro de 1932, à semelhança de Por Que Não
Sou Cristão, de Bertrand Russell. O feminismo libertário de Maria Lacerda é
impiedoso com mulheres que transigem com o militarismo, imputando o fato à educação
conformadora que as fazem enxergar-se em papel subalterno a ponto de defender
esta função. A argumentação é muito sólida, a despeito do caráter panfletário.
O livro inclui dois artigos posteriores para o jornal santista A Tribuna, por
isso tem o subtítulo "(e outros escritos...)", mas sem a mesma verve.
De qualquer forma, são importantíssimos registros históricos. Espero que algum
dia o livro seja reeditado com a nova ortografia e uma revisão mais caprichada.
Não há crase alguma, por exemplo, e mistura-se a grafia da época com a então
vigente antes da reforma que entrou em vigor em 2009, pois foi editado pela
pequena editora anarquista Opúsculo Libertário em 1999 (e publicado originalmente em 1933).
Daniel Souza Luz é professor, escritor, revisor e jornalista
Autores do livro: Cláudia Tajes, Giovana Madalosso, Antônio Prata, Jarid Arraes, Tati Bernardi, Jessé Andarilho e Mel Duarte.
A TAG é uma editora gaúcha que
tem uma proposta interessante: um clube de livros. O leitor assina e recebe em sua casa uma obra da qual não
tem conhecimento prévio. Não é um expediente inédito e, basicamente, são livros
de outros editoras que recebem um tratamento de luxo, com vários apêndices. Algo
parecido com o extinto Círculo do Livro, que funcionou entre as décadas de 1970
e 1990, mas muito mais caprichado. A boa novidade é que passou a publicar
títulos inéditos e neste mês as duas obras ofertadas estão sendo acompanhados
por obras independentes, ou seja, livros de contos que não são meros apêndices.
Um deles é Partes de um Corpo, que veio junto ao livro Gostaria que Você
Estivesse Aqui, de Fernando Scheller. Enquanto lia-o, repensei um pouco minha
condenação ao uso de redes sociais: por parte delas, descubro e leio vários
bons novos escritores, alguns deles presentes neste volume. De qualquer forma,
uma coletânea dessas é sempre bem-vinda, pois transcende os esquemas de
algoritmos que tentam capt(ur)ar nossos gostos. Aos autores convidados, foi
dado o tema que está exposto explicitamente no título, que ganharia relevância
numa pandemia que extirpou os corpos de mais de 400.000 brasileiros. Alguns
contos, muito alegóricos, acabam por não passar essa urgência da
contemporaneidade proposta, no entanto. Não que isso seja ruim, acaba tornando
este pequeno painel mais diverso. Recomendo deixar a leitura do prefácio, de
Socorro Acioli, por último. Acaba entregando muito dos contos, todos inéditos.
Mesmo assim, ela expõe muito de O Nariz, de Gógol, que não li por pouco há uns
anos, e O Visconde Partido ao Meio, de Ítalo Calvino, que está há meses na
minha pilha de livros a serem lidos. Tendo isso em mente, tentarei dar o menos
de spoilers possíveis. Bile n.º
5, de Claudia Tajes, é o primeiro texto e é o mais distópico de todos – na
verdade, o único, e era de se esperar outros, dado o contexto. Fortíssimo e
surpreendente, contrasta com o conto seguinte, o delicado Melanomas, de Giovana
Madalosso. Entretanto, há muitos pontos de contato, pois ambas as tramas partem
de tratamentos oncológicos e há muitos termos médicos – dá até para supor que
as autoras tiveram que enfrentar a doença nas suas famílias, pois também sou
familiarizado com tais vocábulos. São os melhores. Bourbon, de Antonio Prata, é
hilário e rápido. Neste caso, tenho que entregar uma parte fundamental da
história: é sobre um falo falante. Não é algo de todo original, ao contrário do
que parece; O Tagarela, HQ do italiano Paolo Baciliero, publicada no Brasil no
início dos anos 1990 na icônica Grandes Aventuras Animal, já contava uma
história parecida e até mais engraçada. Antonio, no entanto, insere discussões
deste século na história e demonstra ser até mais hábil para o humor do que seu
pai, Mario. A narrativa seguinte é Engolir o Amor, de Jarid Arraes. Já havia
lido um de seus livros de poesia, Um Buraco com meu Nome, e foi uma grata
surpresa ver que também domina muito bem a prosa ao abordar as crendices do
catolicismo popular e seus efeitos, muito deletérios, nas relações
interpessoais das protagonistas. O conto que se segue, O Dedão de Carolina, é
uma grata surpresa: é de Tati Bernardi, a quem costumava ler na Folha de
S.Paulo, junto com Antonio Prata, e me fartei de seus textos acerbos e
egocêntricos, especialmente os que abordavam maternidade e saíam na Revista da
Folha. Ao contrário do que esperava, não há nenhuma birrinha de gente branca de
classe média alta no texto, mas sim uma história quase tão cômica quanto ao de
seu colega de jornal. Os dois últimos, infelizmente, não são tão bons. Braço
Direito, de Jessé Andarilho, é um texto metafórico, uma brincadeira com
lugares-comuns; é bem urdido, mas não faz rir. O que, talvez, nem seja a
intenção do autor, mas parece-me que sim e que ele não alcançou seu intento. Daquela
que te Alimenta as Memórias, de Mel Duarte, ótima poeta – dessas que conheci e
leio nas redes –, pesa muito na questão autorreferencial e faz pensar como o
incensado modelo de autoficção já está muito desgastado. De qualquer forma,
temos aí autores e autoras de formações e públicos muito diferentes reunidos
num pequeno livro interessante, que pode apresentá-los para leitores de fora de
suas bolhas.
Daniel
Souza Luz é professor, jornalista, escritor e revisor
Esta resenha foi publicada originalmente no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 18 de maio de 2021. O texto foi revisado pela Juliana Gandra.
Conforme
lia este livro de crônicas, que foi presente de uma amiga, dei-me conta de que
já havia começado a lê-lo nos anos noventa, quando o comprei numa livraria no
campus da Unesp em Bauru, esperançoso de ter uma ótima leitura, dada a
reputação do Saramago. Mas detestei-o e o deixei de lado. Esqueci-me dele de
tal forma que não me lembrava mais do título e, como a reedição tem uma capa
muito diferente da edição original que adquiri em 1996, de um lindo roxo brilhoso, não percebi de imediato que passei a ter duas edições diferentes da
mesma obra. Lendo-o agora, tendo mais paciência, devido à idade, notei que não
é tão ruim assim. Apesar da frustrada primeira experiência, não fiquei com
nenhum ranço do Saramago; naquela década mesmo, ainda jovem, li O Conto da Ilha
Desconhecida e achei ótimo. Meu problema com este livro é que as crônicas
brasileiras são ótimas, uma tradição que provavelmente é inigualável. Saramago,
português nobelizado, tem a mão pesada demais para o gênero. Ele diz que tem um
tom "doce-amargo" nas suas crônicas; balela, são apenas amargas mesmo
e, principalmente, maçantes. Há algumas lindíssimas (A minha subida ao
Evereste, As terras, Os portões que dão para onde?) e lê-se o livro na
expectativa de que outros momentos sublimes como estes se repitam em meio a
tantos queixumes chatíssimos, mas eles não vêm, não vêm. Felizmente, valeu a
pena chegar ao fim: a última, A perfeita viagem, é tão inspirada quanto aquelas
que me encantaram.
Esta resenha foi publicada no Jornal da
Cidade (Poços de Caldas/MG) em 17 de abril de 2021. Originalmente foi escrita
para o Good Reads. Eu a adaptei para sair no jornal, o texto foi revisado pela
Juliana Gandra. Esta é a versão final, com mais uma revisão, feita por mim
mesmo. É o mesmo texto do jornal, com uma pequena correção para que uma frase
ficasse mais compreensível.
Uma chamada em grupo. De
surpresa. Dos trinta selecionados, vinte e dois atendem.
- Oi, geeenteeeemmmm! Vocês devem
estar se perguntando por que os reuni aqui. É que quero um resgate de um milhão
de dólares de cada um vocês. Sequestrei a dignidade de todos.
Alguns riem. A maioria está meio
atônita. Então a responsável pela chamada explode em gargalhadas.
- Brincadeirinha! Hoje é meu
aniversário. Me deem parabéns!
Aí o gelo racha e quase todos
racham o bico. Chovem parabéns, parabéns, parabéns.
- Sequestrou minha dignidade
mesmo, já estou de pijama.
- Ai, amiga, desculpa. Foi por
uma boa causa. Todo mundo que tem algo para beber pega aí. Vão me falar que
vocês não têm estoque, mesmo com lei seca?
Uma pessoa sai da chamada. Supõe-se
que ela deu as felicitações pedidas. Era difícil discernir quem disse algo ou
não.
- E quem quiser sair da chamada,
tudo bem. Só queria parabéns. Mas quem puder, vamos beber juntos.
Mais ninguém sai. Alguns já
estavam bebendo. É sexta à noite. Outros levantam-se, vão buscar bebidas,
voltam. Mas fica um silêncio. Muitos não se conhecem entre si.
- Fala alguma coisa alguém.
- Alguma coisa.
- Engraçadinho.
- Se não fosse essa maldita
pandemia poderíamos estar comemorando pessoalmente.
- Não tem nada a ver. É só fazer
o tratamento precoce. Podemos nos encontrar agora mesmo.
- Mas você fez?
- Não.
- Não acredito que tem um
fascista aqui.
- Olha o respeito.
- Vai falar que também acredita em cloroquina, ivermerctina
e outras fake news de gado?
- Gado é você, sua vaca.
- Além de fascista, é machista.
- Sai daqui, fascista.
Vaias. A aniversariante está atônita.
- Não saio, fui convidado.
- Não acredito que você tem um amigo fascista e convidou ele
pra festa.
- Gente, calma. Eu não sabia.
- Você tá me chamando de fascista? Pensei que fôssemos
amigos.
Algumas pessoas saem da chamada. Restam quinze presentes.
- Não é isso. Eu não acho que você seja, eu só não sabia que
você defendia essas burrices.
- Agora que não saio daqui.
- Encerra a chamada e faz outra sem ele.
Silêncio.
- Meu celular travou, gente.
- Eu não saio. Agora embirrei. É a minha opinião. Vocês não
aceitam opinião?
- É tudo remédio que não funciona, ivermerctina em excesso
está resultando em falência renal, as pessoas estão precisando de transplante
porque tem idiotas que divulgam isso. Tipo você.
- Você não sabe de nada.
- Ora, então é você que não aceita opinião. Aliás, não é
opinião, é fato.
Mais sete pessoas saem da chamada. Restam oito. Sorte delas.
Elas podem ver uma cena inesquecível.
- Vem aqui, Chanim. Mostra pra essas feias os gatos que
somos.
Dito isso, o gato arranhou o rosto do dono ao ser pego. Gargalhadas.
Humilhado, o prepotente convidado sai da chamada.
- Essa foi a melhor festa para a qual já fui convidada.
Obrigada!
Este é um texto de ficção. Mas hoje à noite pode não ser,
quem sabe?
*Este conto é dedicado à Juliana Gandra, minha namorada,
que faz aniversário hoje. Te amo, Juju.
Daniel Souza Luz é jornalista, escritor, revisor e
professor.
Este conto saiu no Jornal da
Cidade, de Poços de Caldas/MG, em 02/04/2021, dia de aniversário de 25 anos da Ju, que
revisou o texto. Também fiz uma leve revisão extra agora, só consertei uma
palavra (no original, saiu “geeeteeeemmmm”). Alterei o título também, o original
era “Aniversário Pandêmico”, mas com quase quatrocentos mil assassinados pela necropolítica
do governo neofascista da genocida familícia Bolsonaro (esse emprego de vários
adjetivos não é nada exagerado, pelo contrário), creio que é um título impensado,
pouco empático.
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| Selfie da Ju, 21 de março de 2021. |
Nesta semana, no dia primeiro
de dezembro, fez um ano que meu pai faleceu. Não parece, sonho com ele quase
todo dia. São sonhos alegres, ele está sempre bem, geralmente dirigindo ou
querendo dar uma volta, não é nada que me deixe melancólico. Como é
relativamente comum que eu tenha sonhos lúcidos, às vezes me toco da
irrealidade e ele logo se vira para mim e diz que não, não morreu. É como se
ele sempre estivesse presente. Ele está, portanto.
Por obra do destino (este
chavão quase inevitável), dois amigos dele morreram nestes dias. Publiquei
fotos de ambos, acompanhados do meu pai. Primeiro o advogado e escritor Marcos
Mattioli, há exatamente uma semana, no sábado passado. Mattioli, como era
conhecido, gostava da boêmia e, portanto, tinha a saúde frágil. Ou quem o
conheceu melhor pode dizer que, pelo contrário, tinha saúde de touro e que
aguentou o tranco. O fato é que, como disse para minha família, sempre achei
que levaria meu pai, que já não enxergava mais direito, no velório do “Matti”,
outro modo como ele era chamado. Jamais imaginaria o contrário. Como já
evidenciei acima, não o conheci bem, só o encontrava quando meu pai ia na casa
dele ou de algum amigo em comum, troquei poucas palavras com ele. Há alguns
livros dele, autografados, em casa; nunca me interessei, creio que passou da
hora de me interessar. Preciso achar onde meu pai os guardou. Pelo o que me
recordo, são livros de memórias. Suponho que engraçados, o Mattioli parecia ser
um sujeito divertido. O motivo que não conversava com ele é que era muito
conservador, reacionário mesmo, segundo o que meu pai me contava. Eu evitava,
para não haver conflitos. Claro que me arrependo um pouco, nunca contei para
ele que um dos meus quadrinistas favoritos é o italiano Massimo Mattioli, por
exemplo. Já meu pai era íntimo dele a ponto de imitar o jeito como ele falava
na cara dele, tirando um sarro; minha irmã ri demais quando se lembra disso.
Um dia depois que o
falecimento do meu pai completou um ano, outro grande amigo dele se foi: Manoel
Renda Salcidos Filho, o Mané Renda. Ele eu conheci melhor, visitava meu pai em
casa e frequentava seu escritório, além de ser filiado ao mesmo partido, o
PMDB, hoje apenas MDB. Viajaram juntos muitas vezes, tanto para o exterior,
quanto para vários locais do Brasil. De uma viagem jamais me esquecerei, pois
também estava presente: a primeira vez que fui ao Rio, em fevereiro de 2012, encontramos
com o Mané; ele já estava lá. Ele levou a mim e a minha mãe – não me lembro
agora se meu pai foi também – para um tour pela cidade no carro dele. Não
conhecemos só lugares óbvios para turistas, como São Conrado e o Botafogo: foi
um rolê aventureiro, no qual fomos para o Vidigal e demos um grande passeio na
favela da Rocinha, que tinha uma quantidade absurda de PMs com escopetas e
armas desse naipe, além de ter a melhor vista da cidade, fora o Pão de Açúcar.
Sem guia, sem nada, só metendo as caras (claro que o Mané já conhecia bem o
Rio, estava acostumado a dirigir lá). Foi maneiro demais, fiquei fascinado pela
cidade e achava que jamais gostaria de lá.
Fui puxando o fio da memória e
falei foi dos amigos do meu pai e não dele. Aliás, tem muito “meu pai” nesta
crônica e tem que ter mesmo. Lembro que no ano passado, ao fazer um texto sobre
a passagem dele, usei o sinônimo papai, mas não tenho este hábito. O que me
recorda um artigo recente do Mario Sérgio Conti no qual ele menciona que os
gringos não têm essa preocupação de ficar procurando sinônimos para que
palavras e expressões não se repitam ao longo do texto; estão certos eles.
Aproveito o ensejo para mandar um antigo chefe meu numa assessoria de imprensa
ir se lascar, pois ele deu um chilique no telefone quando usei muito o termo
“biblioteca” num release sobre... bibliotecas. Ora, que grande imbecil ele era.
Eu era jovem demais para reagir à descompostura, hoje eu falaria grosso na hora.
Bem, vingança tardia à parte, meu pai gostava disso, de um assunto ir puxando o
outro. Nesta semana publiquei em todas as redes sociais possíveis uma foto dele
e no fundo havia um quadro que um amigo dele, Hiroshi Murakami, pintou a partir
de uma foto minha de quando eu era bebê, ainda nos anos 1970. Disse que ele
havia falecido naquela década, mas guardei errado a informação que meu pai me
passou: o Murakami feneceu (deste sinônimo eu gosto) nos anos 1990,
esclareceu-me num comentário na foto meu amigo Clisthenis Betti, ator bem
conhecido, e que precisa ser mais reconhecido, na cidade. O Clisthenis conheceu
bem os filhos do Murakami, foram criados juntos. Ele, inclusive, gravou e me
mandou um vídeo com a caixa com os pincéis e materiais de pintura dele, dada de
presente para o irmão dele por uma das duas filhas do Murakami, que
infelizmente não conheci. No acanhado apartamento onde passei a infância tinha
um quadro dele mais autoral, na verdade um esboço que meu pai enquadrou. Um dos
motivos do qual tanto gosto dele é que estava inacabado. Está guardado em algum
lugar. Há fotos do meu pai e da minha família em que este quadro aparece,
guardadas em álbuns. São essas as memórias que acalento. As crônicas no sentido
norte-americano, das histórias dos poderosos da cidade, não me interessam. Acho
que só interessam a quem gosta mais de preservar estátuas do que pessoas. É,
pouco falei mesmo do meu pai. Só que Daniel da Luz era generoso. Tenho certeza
de que ele gostaria de compartilhar essas histórias dos amigos dele, todos
companheiros agora no bardo, no céu, na farra, em alguma viagem por aí, vocês
que sabem.
Daniel Souza Luz é professor, escritor, jornalista e revisor
Esta crônica deveria ter saído hoje no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG), mas estava muito extensa. Em seu lugar saiu um miniconto. O título provisório era Um Ano Sem Meu Pai, mas minha namorada, Juliana Gandra, sugeriu o título Pictures of You, citando a música do The Cure. Eu optei por traduzi-lo. Ela também revisou o texto.
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| Foto que tirei do meu pai no dia 30 de agosto de 2006, no escritório dele. |
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| Meu pai (Daniel da Luz), a enfermeira Maria José, Sebastião Pinheiro Chagas, Sérgio Alvisi e Marcos Mattioli. Foto que tirei no aniversário de Norberto Danza, 02/05/2017. |
Historias De Detetive by Arthur Conan Doyle
Antologia Estância Cultural Nº 1 by Regina Alves![]() |
| Carnaval em Mérida, no México, 08/03/2011. Foto de Theodor Hensolt, via Creative Commons. A original pode ser encontrada aqui e a página dele no Flickr é Theodor Hensolt, Street Fotographer (Fotógrafo de Rua). |
Garfield e Seus Amigos 2 by Jim Davis
Kindred: Laços de sangue by Octavia E. Butler![]() |
| Foto que tirei com celular no dia 09/01/2020 |
A Flor e a Feiticeira by Katia Pinno