Monday, January 25, 2016

Devo

Devo contar a história tal como aconteceu? Devo.
Em 1989 um cara de Caldas, o Fabiano, veio estudar na minha sala. Ele era repetente e bem mais maduro do que nós. Politizado e bem informado. Era de esquerda e meu melhor amigo o imitava e o zoava impiedosamente na rua; se começava a chover, por exemplo, o Márcio dizia que “é culpa da Globo”, só para sacaneá-lo, pois era uma frase recorrente do nosso colega de Caldas. O apelido do nosso amigo caldense era Biá, hoje ele é referência em direitos humanos na área acadêmica. Um dia, numa conversa de hora de recreio, ele descobriu que eu andava de skate.
- Já viu o Thrashin’?
- O que?
- O filme sobre skate, como que você não conhece?
- Ah, eu já li sobre o filme nas revistas de skate. Nunca vi. Não tem para locar aqui. Onde você viu?
- Tem em Caldas.
- Não acredito.
Caldas era uma cidade muito menor.
- Eu pego na locadora lá e trago para você amanhã.
Ele trouxe mesmo. Mas não lembro por que cargas d’água ele não levou o filme para a escola. Combinou de se encontrar comigo à tarde na velha rodoviária de Poços de Caldas, já demolida, onde hoje há uma praça de concreto – na qual a guarda municipal não deixa os garotos andarem de skate ou bike, a despeito da falta de grama, árvores e frequentadores.
Quando rememoro esse encontro assalta-me uma sensação de estranheza. Subi por uma rampa lateral e esperei numa pequena banca, uma mera reentrância naquela rampa (talvez fosse uma escada), que nos meus sonhos é curva, sempre sonho com esse lugar. Eu acho que ela era curva, de fato. Quando caminho pela avenida João Pinheiro nos meus sonhos, a velha rodoviária ainda existe e ela se apresenta como mais real do que minhas lembranças dela. Nas minhas lembranças, quando me recordo do lugar, as cores são mais esmaecidas.
Comprei alguma das revistas de quadrinhos que colecionava: a Circo, o Geraldão, a Chiclete ou, mais provavelmente, a MAD. Comprei só uma, o dinheiro só dava para isso. Eu deixava de comer lanche na escola para comprar as revistas.
O Biá apareceu com o filme e lembro-me bem de conversarmos na parte de cima da rodoviária, num parapeito, pois olhávamos para a avenida enquanto conversávamos. Como conversávamos sobre Metallica e Guns n’ Roses no colégio, fiquei surpreso quando ele perguntou se eu conhecia Devo, pois é outro universo.
- Pô, adoro!
- Tem That’s Good no filme.
- Eu já li sobre essa música.
- Mas você nunca ouviu?
Ele ficou espantado e riu. Eu lia o nome das músicas e bandas em revistas de skate como a Overall e a Yeah! e os decorava. Além de ficar exultante quando tocou Devo no filme, houve outros dois momentos musicais no Thrashin’ do qual nunca me esqueci: o show do Red Hot Chilli Peppers, uma banda sobre a qual até então eu também só havia lido a respeito, e principalmente a clássica cena da perseguição de skates (melhor do que qualquer cena de perseguição policial com carros) na qual toca Wild in The Streets. Quando reconheci essas palavras no refrão logo lembrei de uma lista de músicas favoritas de skatistas que havia numa Overall ou Yeah! Eu sabia que era do Circle Jerks, tinha memorizado o nome! Não há palavras para descrever a emoção de descobrir um tesouro enterrado, ainda mais naquela época pré-internet, em que o acesso à cultura era tão difícil. Tomei contato com o hardcore em filmes; a primeira vez que ouvi Bad Brains foi no Depois de Horas, do Scorsese. Mas eu não sabia de quem era música, não tinha referências. Já o VI do Circle Jerks foi o terceiro disco que comprei na vida.
- Não. Mas eu adoro Satisfaction, já vi o vídeo.
Tinha visto o clipe na TV Cultura. Para mim Satisfaction era do Devo; a do Rolling Stones era uma cover ruim. Tempos depois descobri que a original era do Stones. Para mim, até hoje, continua sendo uma versão mais ou menos de uma música genial do Devo.

That's Good - Devo 

Monday, January 18, 2016

Rapeman

Atualiza o site com conteúdo antissemítico. Ele gosta de rir dessa palavra e tirar sarro de quem a usa. Costuma rebater em discussões virtuais escrevendo que “mítico é o Holocausto” e que “antisse” não existe. Usa essa piadinha na vida real também, sempre seguida de uma risadinha de mofa, tão forçada quanto sua saída de perto de quem ele escarnece, pois nunca confronta ninguém pessoalmente. Gosta de dizer que não fala mal pelas costas; prefere dar tapinhas nas costas.
Queria sair da internet, mas a discussão no whatsapp da banda, a qual deixou de acompanhar, ao desligar o celular, migrou para uma conversa inbox. Estavam-no chamando na chincha.  Ninguém quer usar a letra homofóbica que ele havia feito. “Vocês nunca se importaram com isso, por que não posso falar abertamente?”, ele questiona. “Você não é nenhum Neil Peart e esse não é um tema do death”, rebate, seco, o vocalista, pondo um ponto final a uma guerra de textão. “Então está bom, vocês não são true”, capitula. Pensa em sair da banda. Depois decide isso, afinal não o expulsaram. Mas talvez seja mais importante se dedicar a ajudar a difundir o Nazbol no país. Enfim, depois pensa direito a respeito. Está tudo sob controle.
Então finalmente sai da internet. Quer dormir. Mas o telefone toca. O fixo. Fazia tanto tempo que ninguém ligava no fixo que nem se lembrava que ainda mantinha um. Atende. É a menina de ontem, sua ex-aluna.
- Oi.
- Oi.
- Eu estava bêbada. Por que você fez isso?
- Você queria.
- Eu não lembro.
- Pois é, você não lembra. Vamos esquecer então.
- Eu lembro de acordar, eu lembro como acordei! Eu te disse que gostava da amarula? Você me embebedou. Por que você fez isso comigo?
- Você gostou.
- Não gostei nada. Nem lembro.
- Então nem sequer há algo para ser esquecido.
- Escuta aqui, eu não lemb...
- Boa noite, beijo.

Vai dormir tranquilo; todas as vezes em que fez isso nunca teve problema. Sonha com deus, o seu Deus, o que o encontrou no seminário e disse para largar tudo e aproveitar tudo. No entanto, não consegue lembrar muito bem do sonho, ao acordar. Nunca havia dormido tão bem.

Monday, January 11, 2016

Big Black

Tinha um CD do Big Black. A compilação dos EPs. Eu já era ansioso, pulava as faixas chatas. Foi assim ao longo de metade dos anos noventa, nos quais havia, num bar, a menina. Ela passou mal, breja demais, se é que não tinha algo mais na parada. Conheci a melhor amiga dela. Nós a amparamos. A melhor amiga logo a substituiu, para a alegria dos três. Numa noite em combustão a língua linda incendiou meu pau, no estacionamento da faculdade. Só assim descobri que Seth, faixa que começava com um longo discurso e que eu nunca havia escutado, era a melhor música do CD do Big Black. Gozei na música seguinte, Jump the Climb. Ela engoliu tudo. Pulamos fora do carro e ficamos conversando longe um do outro. A canícula era tão desumana que não suportávamos mais o calor de nossos corpos. Ainda assim, beijamo-nos, encostando apenas bocas, dentes, línguas e sorrisos. Perdi a garota depois de alguns meses. O CD, uns anos depois. 

Originalmente esse texto era uma prosa poética chamada Descoberta; a escrevi em 23 de novembro de 2014. Deixei-a de lado por não ficar satisfeito com o resultado, além de achar explícita demais, e reencontrá-la foi realmente uma descoberta. Hoje a retirei da estrutura de versos e a reescrevi levemente; ainda a acho um pouco pesada, mas não entendo por que não gostei imediatamente do texto.

Monday, January 04, 2016

Pop Group

O cheiro do feijão cozido impregnava o apartamento. Era uma leseira depois do almoço e da escola. Mas ninguém usava esse termo “leseira”, acho. Falávamos que estávamos morgados. Acho que ficávamos morgados o dia todo, por nossos relógios biológicos não estarem adaptados a acordar cedo. Só melhorávamos quando saímos pra rua para zoar, do meio da tarde em diante.
O rádio estava sempre ligado. Legião Urbana, Ira! e Titãs tocavam o tempo todo, eram tão populares quanto Roberto Carlos era para os nossos pais. Tinha banda chata e convencional como o Barão Vermelho também, isso lá tinha. O doido, no entanto, é que no meio da programação, às vezes, tocava Garotos Podres, Replicantes e Toy Dolls. A primeira vez que ouvi “Eu quero matá-lo/aquele porco capitalista” foi numa rádio FM normal, dessas que tocam, sei lá, Chris Brown. Tá, naquela época tocava Chris de Burgh, não era tão diferente assim também.
O interessante é que não consigo imaginar uma rádio convencional tocando O Satânico Doutor Mao e os Espiões Secretos em 2016. Até porque não é um clima otimista de redemocratização, mas sim uma vaibe sinistra em que a extrema-direita volta a pedir golpe militar na cara dura. Pior ainda, no fim dos anos oitenta não havia essa praga neopentecostal fundamentalista. À época, havia toda uma grita contra censura; hoje, se alguém tocar algo com o nome “satânico” no rádio, correrá o risco de perder o emprego. Bem, provavelmente naquela época também e talvez eu esteja edulcorando o passado, afinal a Igreja Católica conseguiu censurar o Je Vous Salue Marie já na época da besta do Sarney. Isso fez com que eu assistisse ao filme com uns quinze anos. Levou outros quinze anos para ter coragem de assistir um filme do Goddard de novo, pois assisti ao filme apenas porque ele foi proibido – e achei chato pra caralho.
Enfim, só quem viveu antes do advento da internet e não tinha grana pra comprar discos para saber como é emocionante quando se tocava uma banda da qual você gostava muito no rádio. Era a oportunidade de gravar a música, você tinha que ficar atento. E o mais importante: não ligar na rádio para pedir a música. Senão eles soltavam alguma maldita vinheta em cima da música. O importante era ligar a rádio e se ligar como um caçador de tesouros no fundo abissal. Eu não gravei Papai Noel, Velho Batuta. Tive que esperar anos para ouvir a música depois, após o começo dos anos noventa. Vocês acham que tocava só Nirvana no rádio? Mal tocava. As rádios preferiam 4 Non Blondes e outras bandas mais palatáveis, nem Pearl Jam rolava tanto assim. O poperô já tinha dominado tudo antes. Mas já sabia que seria assim, não confiava nos DJs. Eu ouvia Smiths desde os anos oitenta e lia algumas das letras.

Monday, December 28, 2015

Birthday Party

Era meu aniversário de sete anos. Estava na escola. Não via sentido nisso. Era meu aniversário! Devia estar em casa assistindo desenho animado na televisão ou jogando futebol de botão ou futebol de verdade com meu irmão.
A aula parou. Entraram com um bolo de aniversário e chamaram até o meu irmão para vir na minha sala! Não há nada mais encantador para uma criança, ao menos para a que eu era, que fazer uma sala de aula parar para uma festinha. Basta dizer que nunca mais vi isso acontecer.
Foi a minha última festa de aniversário nos anos oitenta. Minha mãe e meu pai só me davam presentes e boa. A próxima festa de aniversário que tive foi uns vinte anos depois. Mas aquela de 1981 me bastou esses anos todos.

Monday, December 21, 2015

Mercenárias

O disco só roda em 45 RPM. Por sorte meu aparelho de som tem esse recurso . Achei num sebo. É de 1987. Estamos em 1989. A banda não existia mais há um ano, descobriria numa revista Bizz, também comprada num sebo, uns dois ou três anos depois. Estava vivendo intensamente algo que já havia acabado. Os anos oitenta tinham muito disso, o apartamento onde vivia era uma caverna de Platão, nos quais as sombras dançando ao fundo não eram sombrias, mas sim tão fascinantes quanto um teatro de sombras é para uma criança – a qual eu ainda era ali, com 14/15 anos.

Uns dois anos depois mais ou menos, em 1991 ou 1992, minha irmã e suas amigas descobrem o disco, decoram umas letras, cantam junto. Elas adoraram, era uma banda só de mulheres, novidade para elas, com a qual se identificaram. Elas tinham 10 ou 11 anos. Eu fiquei enciumado. Era a MINHA banda. Eu devia ter incentivado-as a montarem uma banda influenciada pelas Mercenárias. Faltou empatia. A empatia que elas tiveram.

Monday, December 14, 2015

Wire


Invasão de propriedade. Nunca vimos como maldade ou crime. Criança não conhece essas fronteiras. Sabem que elas existem, mas se não estragamos nada, qual o problema? Nos anos oitenta, com o fim da ditadura, tudo tinha cheiro de liberdade.
Uma das melhores lembranças que tenho da época é pular dentro do pátio de uma loja de pneus e artigos automotivos que ficava fechada do sábado à tarde em diante e ficarmos andando de skate no cimento liso daquele lugar tranquilo, que até hoje permanece exatamente igual, pois, claro, nunca estragamos nada, não queríamos ser descobertos e repreendidos – ainda tenho vontade de pular lá dentro. No ano passado cheguei a andar no pátio aberto na frente, que também é grande e propicia bons rolês, mas não tem tanta graça quanto pular aquele muro.
No mesmo quarteirão dessa loja, o de baixo da minha casa, tinha uma fábrica de chocolates na qual ia, quando criança, com a minha mãe; lá, um funcionário sempre me dava bombons! Não bastasse essa boa memória, há outra. Uns dez anos depois, como ela faliu, eu, meu irmão e uns amigos resolvemos pular o muro. Que surpresa: tinha uma piscina vazia lá dentro! Com uma parede curva, que acompanhava a esquina, pois a piscina ficava num canto da fábrica. Não tinha transição, tínhamos que andar lá dando wall rides. Era divertido, mas fomos pouco lá, pois não éramos tão bons nisso. Foi o mais perto que já cheguei de andar de skate em uma piscina como as da Califórnia – é uma pena mesmo as daqui não ter transições.
Andar de bike e entrar em fazendas ou áreas de represa ou usinas de força (ou algo assim) era mato – literalmente também. O problema sempre foram os arames farpados, alguns enferrujados. Um de nós às vezes se enroscava. Bons tempos – sei que essa expressão é clichê, fazer o quê? – mas bons tempos mesmo em que as grandes enroscadas eram essas.  

Monday, December 07, 2015

Hüsker Dü

1988 ou 1989.

Na entrada do prédio, após virarmos o corredor à esquerda – seguindo em frente chegava-se ao quintal onde penduravam as roupas nos varais – jogávamos uma brincadeira de bolinha de plástico, dessas que quicam muito, que inventamos da nossa cabeça. Ficávamos sentados, não podíamos levantar, e batíamos na bolinha com a mão. Se passasse atrás dos jogares do outro time, era ponto. Fomos precursores de uma forma primitiva de goalball.
Os vizinhos não gostavam muito dessa ideia não, eles tinham que passar por ali. Mas era de tarde. Não dava nada.
Você se lembra?
Hoje sonhei que a Menina, a cachorra da minha irmã, estava no corredor e que ainda morávamos lá. Logo acordei, alertado pelo anacronismo da cachorrinha que ainda nasceria muitos anos depois de nos mudarmos de lá. Lembrei-me do jogo que inventamos, nunca pensamos nisso. Talvez só eu ainda me lembre.

Monday, November 30, 2015

Burning Image

Com o filme queimado, mas não sabia disso. Nem conhece a expressão, é nova demais, nem sabia que a má fama maculava seu nome no lugar.
Foi apelidada de Samarca. Gostava de falar das marcas das roupas com as quais desfilava. Essas marcas para as quais dizia não se importar um ano antes.
Ela mesma enterrou-se na lama.

Monday, November 23, 2015

Comsat Angels

Coadjuvante do Gasparzinho também teve seu gibi. Reprodução da capa de uma velha edição brasileira.


Vários dos meus melhores amigos eram de desenhos animados e de gibis. Eles eram tão legais quanto os melhores amigos da vida. Ninguém brigava com ninguém, nem os amigos da vida e nem os dos desenhos e dos gibis comigo; os amigos dos desenhos só brigavam entre si na TV e nas revistas, mas ninguém nunca se machucava – não se machucava muito – ou morria. Nos gibis do Gasparzinho os fantasmas e os diabinhos também não morriam. Ninguém morria, nem os mortos.
Minha tia ficava abismada toda vez que via um amigo meu atirando no outro na TV.
- É normal tia, ninguém morre de verdade.
Aí um dia, bem numa hora em que minha tia apareceu em casa sem eu saber, o Jerry matou o Tom com um tiro. Ele não foi pro céu e continuou vivo. Ele morreu mesmo.
- Viu, te falei! As pessoas morrem sim.
Essa tia era chata. A inocência também não foi pro céu.

Sunday, November 15, 2015

The Sound

Para Adrian Borland

A consciência se expande para além do corpo. Não é nenhuma bobagem mística. Não creio em nenhuma delas. É um estado induzido, propositalmente induzido, mas cujo controle é uma rédea esquecida em uma casa abandonada há centenas de quilômetros, dias antes. Uma fuga do corpo. Quando finalmente é bem-sucedida, no entanto, é aterrorizante. Os neurônios, na ponta dos dedos, são tocados por pensamentos incorpóreos, mas extremamente conscientes da expansão pelo ar. Talvez possam esvair, sem retorno. Por isso agarram-se à pele.
Um som de sino. Distante, vem se aproximando.
- Que merda, você está lendo muito Phillip K. Dick e brisando demais.
Reprodução de Daniel in the Lion's Den, quadro de Briton Rivière (1872)

Ela agarra meu pau. Escapei de mim mesmo e retornei, enlaçado pelos baixos instintos. Os melhores; será?...

Sunday, November 08, 2015

Baader-Meinhof Blues

Será que se chamava aparelho, como no Brasil? O fato é que adentrei no apartamento e fui bem recebido.
Estava brincando no prédio e um amigo me chamou para participar do grupo. Eu devia ter uns 14 ou 15 anos, dá para depreender pela aparência do meu amigo, um moleque branquelo, de bochechas rosadas. Ele me disse que me viram no edifício e gostaram da minha atitude – seja ela qual for, não faço ideia.
 estavam eles: Andreas Baader e Ulrike Meinhof. Não reconheci Gudrun Ensslin entre os presentes, não havia nenhuma loira. Devia ter umas sete ou seis pessoas na sala do apartamento. Quando a porta se abriu, notei que eu estava em nos anos setenta. Todos os homens usavam golas rolê com pulôveres ou paletós, alguns tinham costeletas; as mulheres vestidos com muitos botões e botas, além de óculos escuros e boinas. O apartamento parecia ser todo acarpetado, o estilo dos móveis era típico dos anos 1970. Eu não sei explicar por que os móveis são desta época; não sou bom em descrever detalhes de sofás e mesas, mas eu me lembro desse estilo, seja em filmes, seja porque eu tenho memórias deste tipo de mobiliário no fim da década de setenta, quando tinha entre quatro e seis anos.
Havia mais um visitante, além de meu amigo e eu – um Pantera Negra. Fiquei impressionado. Ninguém disse que era, mas só podia ser. Negro, com cabelo Black Power, com uma barbicha e uma postura arrogante. Fiquei surpreso de ver os dois grupos juntos. A cena era impressionante e ficou mais ainda.
Mal nos cumprimentamos – ninguém nos deu as mãos, pois estavam vidrados no noticiário policial da TV, como no filme que fala sobre o Baader-Meinhof. Não daria tempo, pois a polícia logo irrompeu pela porta. Armas na mão, junto ao corpo, e extremamente ágeis, logo dominaram todos. Notei que estava escrito Gendarmerie – a polícia francesa – nos uniformes deles. Eu era francês então.
Apesar disto, no sonho todos falavam português, lógico. Um policial mascarado agarrou a mim e meu amigo pelos braços. Ele nos disse para ficarmos tranquilos, pois eles sabiam que estávamos sendo cooptados. Era só para irmos na delegacia amanhã. Sendo arrastado porta afora, ainda vi os policiais torturando Baader, enfiando sua cabeça num saco plástico. Escada abaixo, enquanto o policial insistia para ficarmos tranquilos, ressaltando que era só irmos prestar depoimento na delegacia no dia seguinte e tudo ficaria bem, senti náuseas, pois não queria ter participado e nem visto nada daquilo. Era um pesadelo, de verdade – portanto, de mentira. Antes de acordar, ao lado das viaturas da Gerdarmerie na garagem do prédio, notei que também havia uma escrita Polizei. Os agentes alemães tinham vindo pegá-los.

A sensação nauseante não passou quando acordei. Talvez tenha sido o mais assustador dos pesadelos, pois foi com fantasmas que me foram contemporâneos, embora tenham morrido alhures muitos anos antes de ouvir falar neles.

Sunday, November 01, 2015

DNA, uma crônica no wave onírica

Para Ikue Mori, Arto Lindsay, Robin Crutchfield e meus irmãos Fernanda e Eurico

Sempre soube que eram sonhos, eram fantásticos e eram recorrentes. Poderiam até ser realidade, ao menos no começo os percebia como reais enquanto eles aconteciam, pois era criancinha quando eles começaram e eu ficava um pouco confuso por o cenário sempre ser o apartamento onde vivia e no início sempre era de noite neles.
Foram proto-sonhos lúcidos, portanto; meu primeiro sonho lúcido, no entanto, foi uns anos depois destes preâmbulos fantásticos, mas ainda era criança quando aconteceu: estava no pátio do Colégio Canadá, onde fiz o jardim da infância, e uma freira me mandou parar de brincar e voltar para a sala. Estranhei, pois em primeiro lugar não parecia tanto assim o Colégio Canadá, que não existe mais (mas ainda existia, à época do sonho). Em segundo lugar, embora eu ficasse louco para voltar para casa e assistir desenhos animados, na verdade eu gostava desta escola, justamente porque era um ambiente alegre e laico. Não havia aulas de religião e muito menos freiras. Então, no meio do sonho, tomei CONSCIÊNCIA DE QUE ESTAVA SONHANDO.
Meu primeiro sonho lúcido foi libertador, uma experiência inesquecível para uma criança. Não fiquei apavorado, não tive paralisia do sono e não sabia que existia o termo “sonho lúcido”. Só fiquei muito feliz, tanto como quando estudava no Colégio Canadá. Na época deste sonho já estudava em outra escola, hoje centenária, num ambiente mais repressor.
Como sabia que estava sonhando, interpelei a freira e disse-lhe “Isto é um sonho. Você não manda em mim”. Era uma senhora, ela fez uma cara de decepcionada... Ainda virei para ela mais uma vez e disse “Você não existe, vou continuar brincando”. E fiquei na caixa de areia, com um carrinho de plástico vermelho na mão. Acordei pouco depois, mas feliz. Durou pouco essa mobilidade onírica consciente, mas foi marcante. Décadas depois, vi uma cena semelhante no filme Vanilla Sky, do diretor Cameron Crowe.
Saudades desse Colégio Canadá. Lembro-me que o diretor se chamava Sérgio e ele dava aulas de judô ou karatê – alguma arte marcial; só lembro que não era kung fu – para nós. Mas era algo muito lúdico, todos tínhamos seis anos ou menos. Eu tinha sentimentos muito divididos sobre a escola: eu detestava não poder assistir desenhos animados e invejava meu irmão mais novo, Eurico, que ficava em casa assistindo-os. Por outro lado, ele queria demais ir à escola comigo e eu não entendia isso. Mas quando chegava ao colégio era um ambiente tão bom e aprendia tantas coisas tão alegremente que esquecia dos desenhos do Zero (sim, além do gibi, existia um desenho animado), do Johnny Quest, Carangos e Motocas, Speed Racer e tantos outros que adorava.
Na hora de ir embora, pela qual eu tanto ansiava antes, para poder ver TV com meu irmão (minha irmã Fernanda ainda não havia nascido), no entanto, eu ficava apavorado. É que havia uma oficina mecânica na avenida João Pinheiro, num local onde hoje há uma padaria, e eu ficava apavorado ao ver as faíscas de quando eles soldavam algo. Eu deveria achar que algo ia explodir ou que estavam montando um robô assassino gigante ali, sei lá. Minha experiência com a escola era uma montanha-russa de emoções conflitantes. O Colégio Canadá, no fim, foi parar perto da casa onde morei nos anos noventa e morreu quieto, eu acho, na mão de outros proprietários, pelo o que sei. Um pedacinho que se perdeu da história de Poços de Caldas.
Toda esta divagação e ainda não falei dos sonhos fantásticos que tinha desde criancinha. Não há como descrever a maravilha visual que eram estes sonhos, simplesmente não há palavras para isto. Mas o que sempre acontecia é que olhava pela janela do apartamento onde morei quando era criança e estava tudo certo com a paisagem: o quintal do prédio, com uma casinha de utensílios para o jardineiro e vários varais, alguns com roupa. Em frente, os fundos de uma casa. Mas o céu sempre era diferente: às vezes, eu via o núcleo da Via Láctea. A Lua geralmente não aparecia, mas vários planetas apareciam tendo o mesmo tamanho dela ou maiores, como se estivessem muito mais próximos. Júpiter, Marte e especialmente Saturno eram presenças constantes. Em vários desses sonhos, quando eu abria a cortina, havia outros planetas, desconhecidos e maravilhosos, por perto. Não era nada como Melancolia, não era ameaçador – era deslumbrante. Discos voadores eventualmente cruzavam o céu. Não era sempre que apareciam e raramente eram ameaçadores. Às vezes o tráfego de OVNIs era intenso. Nos únicos casos em que me senti ameaçado por eles, eles sempre vinham sobrevoando de trás do teto de uma casa cinza cuja lateral ficava à esquerda. Estas casas, assim como o prédio, existem até hoje no mundo real. Exatamente por isso, como disse minha irmã dias atrás, o prédio se parece com um sonho.
O curioso a respeito dos discos voadores que sempre surgiam sinistramente por detrás da casa cinza, tendo ao fundo as montanhas, é que muitas vezes eles surgiam de dia e este virava noite. Mas eles nunca pousaram ou destruíram nada. Eventualmente viravam teco-tecos. Ou seja, nunca foram perigosos.
Embora estes sonhos com o céu transformado tenham começado em tenra idade, continuei tendo-os mesmo depois que mudei do prédio. Foram inúmeros, sempre fascinantes, por décadas, do fim dos anos setenta até neste século. Tive-os até recentemente.
O prédio onde cresci. Tirei a foto em 2012.
O último foi há um par de anos. Sonhei que a banda no wave DNA estava tocando no quintal do prédio. Poderia ter descido lá o Mars, outra banda da mesma cena e com nome de planeta, mas alguma engrenagem onírica escolheu o DNA. Dois integrantes, Arto Lindsay e Ikue Mori, estavam lá, tocando muito baixo para uma banda tão barulhenta e experimental, ao lado de um terceiro integrante indistinto, como se fosse o fantasma do tecladista Robin Crutchfield. Corri para a janela para vê-los, não queria perder um segundo da apresentação descendo a escada até lá. Afinal, se o DNA estava tocando no quintal do meu prédio sem qualquer motivo, se eu descesse até lá talvez eles não estivessem mais lá quando eu chegasse. Apenas algumas crianças estavam vendo-os. Então notei que o céu era igual ao dos meus sonhos recorrentes. Repentinamente, era noite, Saturno estava enorme no céu e discos voadores nos sobrevoavam. Foi a última vez que sonhei com este céu fantástico, que não aparece em nenhuma outra paisagem onírica – ele ocorre apenas no quintal do meu predinho da infância. Sempre que acontece, a sensação remete ao título de uma música de outra banda no wave, o Teenage Jesus and the Jerks: eu acordei sonhando.

Friday, August 28, 2015

Durutti Column

A meninada se posta diante dos dois maiores, que vão escolher os times.
Escolhem da forma mais equânime possível, mais ou menos medindo as forças de cada um, de acordo com o tamanho e as habilidades de cada moleque. Formados os times, vai-se para a pelada no campinho demarcado na rua, meio apagado devido à chuva repentina de verão do começo da tarde. As meninas jogavam também, tinham duas; ninguém se importava.
Eu lembro-me de quando meu xará tomou uma entrada mais dura. Expulsamos o forasteiro. Sim, nós mesmos éramos nossos juízes. Com um a menos, passei para o time deles. Ficou mais ou menos equilibrado; era o menos habilidoso, mas chutava forte umas bombas difíceis pros goleiros, que também jogavam na linha, segurar.
Terminada a partida, eu que estava perdendo num time acabei ganhando no outro. E montamos outros times, uma das minas não tava mais a fim, deu certo. Deu empate, acho. Se os anos oitenta ficaram conhecidos como a década perdida, nós só ganhávamos, independente dos resultados.

Monday, August 24, 2015

Theatre of Hate

O sorriso desvanece conforme viravam as costas e transmuta-se num esgar de desprezo. Tantos anos estudando artes cênicas renderam-lhe habilidades sociais imprescindíveis, pelas quais sempre ansiou. Adentra ao recinto segura de si, algo que logrou após anos de treino em dissimulação. As vestes hippies conferem-lhe uma simpatia que não denunciam seu artificialismo aos convivas.
Abrem-se as cortinas. A melhor atuação, no entanto, já havia ocorrido no átrio, antes do início da peça.
O final da peça é abrupto. O público, a princípio atônito, só passa a aplaudir quando as cortinas fecham-se sem aviso, segundos depois. Quando o elenco logo volta, aplaudem de pé, mas nota-se certo constrangimento, raras as exceções. Ela é uma destas.
Na saída, passa a falar o mais alto possível, para atrair todas as atenções. Agora sim começa o verdadeiro espetáculo, no qual reputações inocentes serão destruídas de forma sórdida, causando deleite ao público remanescente.
Por favor, desliguem os celulares.

Monday, August 03, 2015

Crispy Ambulance

Por favor.
- Samu, boa noite.
- Por favor, manda uma ambulância.
- Peraí, o que foi que aconteceu?
- A menina aqui, ela tomou todos os remédios.
- Ela está inconsciente?
-Não.
- Está falando?
- Sim.
- Você tem carro?
- Tenho.
- Ela tem plano de saúde?
- Tem.
- Então leva ela você mesmo para lá. É melhor. Vai demorar menos.
Durante o caminho, só ouvi nonsense vindo dela. Mas, pensando bem, sempre foi assim.

Sunday, July 26, 2015

Section 25

As janelas todas abertas. Ao menos a brisa nos confortava de quando em quando. Nos estertores do século passado, essa frase era literal.
Passou Here We Go na MTV.
- Olha que legal! Você conhece?
- Nossa, você não conhece? Shelter tocava no rádio o tempo todo. Eu nem notei que não fazia mais sucesso.
- Você já é velho.
Aos 25 anos. Here we go again.
Liguei o ventilador. Mesmo assim, suávamos. À noite. A inspiração que bastava. Tiramos as roupas. O tecido do sofá era incômodo, grudava na pele. 
O chão da cozinha ficou empapado de suor.