Tuesday, August 29, 2017

Vazio de Romeu

O surgimento do Sararah – e seu provável declínio, daqui a algumas semanas, ou mesmo dias – fez com que me lembrasse de uma história constrangedora para mim. Achei que pegariam no meu pé por anos, durante a adolescência, por causa dela, mas passou batido, para a minha surpresa. Agora vou relembrá-la e eu mesmo vou queimar o meu filme. Aliás, “queimar filme” é uma expressão denunciadora de certa senilidade precoce, afinal não há mais filme algum a ser queimado, e algo extremamente queima filme.
Mas peraí. Primeiro um suspense. Não contarei a história assim, logo no começo. Vou te engambelar, leitor. Você há de concordar que é necessária alguma contextualização. O Sararah é um aplicativo saudita que permite o envio de mensagens anônimas. Segundo matéria da BBC, significa “honestidade” em árabe. Faz-se um perfil no aplicativo e as pessoas mandam as tais mensagens dizendo o que realmente pensam. Uma temeridade em tempos de redes sociais cheias de discursos de ódio, mas na prática o Sararah meio que virou um Tinder de quem vive na friendzone – traduzindo: outro aplicativo, só que de pegação, para quem já conhece quem deseja, mas não tem coragem de dizê-lo diretamente.
Creio que o Sararah já está vivendo seu ocaso, francamente. Parece ter sido um rápido modismo. No entanto, remete aos dias de correio elegante. Quando estava na sétima ou oitava série a escola em que estudava, no fim dos anos oitenta, sei lá por que, num ato lúdico, resolveu institucionalizar a prática. Na hora do recreio instalaram alto-falantes no pátio e liam os bilhetinhos anônimos que os estudantes escreviam uns para os outros. Tinha zoeira, que eles com certeza filtravam, mas também havia os recadinhos de amor. Nunca recebi nenhum. Daí forjei um para mim, mas deixei o bilhetinho cair do bolso. O bully da minha sala pegou antes que eu pudesse esboçar reação, leu em voz alta e tirou o maior sarro, na frente de todos.
Achei que pagaria caro por isso, mas logo fui esquecido, conforme expliquei no início. Minha falta de carisma não me permite nem ser alvo de bullying. Voltando a 2017, quando notei o Sararah se alastrando, fiz um perfil e logo já fui mandando recado para mim mesmo, mas eu mesmo me delatei assim que o fiz. Afinal, delação também está na moda e pode render algum bônus. Surpreendentemente, recebi alguns recadinhos legais de terceiros sim. Mas nude que é bom ninguém mandou.
Crônica publicada no Jornal da Cidade, Poços de Caldas, em 26/08/2017.

Tuesday, August 22, 2017

Futuro Negro

Na escola, nas séries iniciais, odiava quando as professoras nos ensinavam a identificar a estrutura literária de um texto. Criança ainda, me insurgia contra a noção de que o clímax textual deveria ser sempre um pouco antes do fim. Em vários escritos isto não tinha sentido; às vezes, note-se, sequer estava presente este suposto orgasmo literário. Ou, como isto é subjetivo, para mim o clímax era noutro ponto. Adulto, vejo como estava certo.
Entretanto, esta recordação retornou avassaladora quando estava quase terminando a leitura de Ganga-Zumba, livro épico de João Felício dos Santos, dias atrás. Ao decorrer das peripécias, a despeito da trama se passar no Nordeste e narrar as aventuras e desventuras de Zumbi dos Palmares, Dandara e inúmeros negros que não se submeteram à escravidão, foi solidificando-se em mim a percepção de que a narrativa mimetizava as epopeias clássicas gregas. Nunca as li, mas curiosamente as conheço desde criança, devido às adaptações cinematográficas que assisti nos anos oitenta, na Sessão da Tarde. Perto do fim do livro, reconheci uma referência explícita às odisseias gregas numa frase de um lirismo paradoxalmente rude. Num instante de enlevo, emiti um “Nossa!” inaudível, que só reconheci porque eu mesmo articulei a interjeição. Fiquei boquiaberto. Literalmente boquiaberto, o que jamais acontece, que eu saiba.
Na página seguinte está a conclusão da história. Plácida, muito plácida. Tenho que reconhecer como minhas professoras do Instituto Educacional São João da Escócia eram boas. Não sou muito chegado no conceito de politicamente correto, mas lembro vagamente até de explicações em sala de aula sobre como o adjetivo “negro” não era racista e lembro-me que estranhava a conotação negativa que davam à palavra. Incomodava-me, sobremaneira, o verbo “judiar”, que desde tenra idade me parecia preconceituoso com judeus – e é mesmo, como vim a descobrir. Jamais o uso. Mas o uso corriqueiro das palavras negro e negra como adjetivos pejorativos é estigmatizador também, a despeito das justificativas dadas em sala de aula. Não deveria ser. No futuro, ou seja, agora, a leitura do romance histórico sobre o que se passou no Quilombo dos Palmares iluminou a minha existência.

Esta crônica é uma reelaboração da minha micrônica 1927, reescrita e ampliada. O título é uma homenagem à banda brasileira de pós punk experimental Black Future. Foi publicada originalmente no Jornal da Cidade (Poços de Caldas) em 19 de agosto de 2017.
Tirei com celular a foto da edição que li do Ganga-Zumba, publicada em 1985 (o livro foi publicado primeiramente nos anos sessenta).

Tuesday, August 01, 2017

Cisnes

Era a nossa rua. Resolvemos que seria o nosso bairro.
As primeiras exibições de Warriors, os Selvagens da Noite na TV aberta foram um marco histórico para a minha geração. A maioria dos moleques, invocados ou não, queria provar aquele gosto de aventura fora-da-lei do filme. Sem armas, com senso de lealdade e resolvendo desavenças na porrada, tal como no filme. As eventuais reprises iam amealhando mais adeptos do “ganguismo” de araque, com o passar dos anos oitenta. Quem não tem senso de aventura não vai entender que isso nada tem a ver com violência gratuita, perda de valores da civilização ocidental e outras asneiras de missivista padrão de jornal – para citar um ser verdadeiramente pernicioso d’antanho, hoje transmutado nas fileiras de um exército virtual sem peias.
Então montamos a nossa gangue. Fajuta, claro. Nem lembro o nome, se é que tinha. Não tinha um Cisne, o líder do Warriors; nós todos éramos líderes, numa estrutura horizontalizada, por assim dizer. E fomos tocar o terror, a nossa maneira. Ou seja, não fazendo nada, só ficando sentados na esquina de baixo da Rua Platina, jogando conversa fora e tomando conta do nosso “território”, um conceito tão caro às gangues do filme. Nunca li o livro de Sol Yurick no qual foi baseado o antológico filme de Walter Hill, então não sei se é algo tão importante na trama original, mas imagino que sim. Para nosso bairrismo pueril, era importante. Nosso território era aquela rua.
Finalmente, um dia, nossas vítimas vieram ao nosso encontro. Uns molequinhos menores do que nós que moravam na avenida que margeia o bairro Marçal Santos, a João Pinheiro. Eles vieram jogar bola justo no nosso “território”. Nós os cercamos. Perguntamos se eles tinham pedido licença para jogar bola lá. Claro que não. Então os mandamos ir embora, pois explicamos que aquele era nosso território. Fomos ameaçadores o suficiente para eles vazarem mesmo.
No dia seguinte, depois da escola e do almoço, como de costume, nos sentamos sob a sombra da árvore da esquina. Então o molequinho mais falante apareceu. Sozinho. Desafiador. Com camisa de botão, penteado certinho e uma cara ingênua cheia de verdades. Alguém perguntou o que ele queria. Acho que fui eu.
- Eu conversei com meu pai e ele disse que não existe esse negócio de território!
Nós rimos e o mandamos picar a mula. Ele se foi, obediente. Afinal, era menor que nós e estava sozinho. Assim que ele se afastou, um de nós, creio que o Paulo Augusto Rodrigues, adiantou-se e precaveu-nos.
- Sujou, galera. Acho melhor não ficarmos na rua um tempo, para não dar rolo.

Abandonamos nosso “território” umas semanas e não tocamos mais no assunto quando o reocupamos, sem discutirmos com mais ninguém. O menino não voltou lá com o pai dele. Não teve problema nenhum. Nós éramos mais bundas-moles do que Os Órfãos, a pior gangue do filme.

Crônica originalmente publicada no Jornal da Cidade de 27 de maio de 2017, em Poços de Caldas. É baseado no meu texto Swans, o qual reescrevi e revisei.

Still do filme Warriors, os Selvagens da Noite (1979), dirigido por Walter Hill.

Legião

Exorcista e Poltergeist. Pô, era sacanagem. Falaram para eu não assistir, mas não me metia medo. Sexta-Feira 13 tirava de letra. Achava que teria alguns sustos e boa.
Quando Poltergeist estreou na TV foi aquele alvoroço. Muitas chamadas na programação ao longo da semana que antecedeu à exibição provocaram um frisson na moçada. Era um filme contemporâneo, ainda estávamos nos anos oitenta. Ah, pra quê? Mal vi o começo e já fiquei meio arrepiado com a expectativa que criei. Desliguei a TV e desisti. Uma meia hora depois me enchi de coragem. Quando religuei, vi a cena dos trovões. Desliguei de novo e naquela época não havia controle remoto assim fácil, ainda bem, pois não vi a tal cena da TV com chuviscos. Só fiquei sabendo anos depois. Naquela tensão, discutindo com a babá, a driblei e liguei de novo numa cena horrenda – ou ao menos me parecia terrível, afinal era criança. Assustado, desliguei DE NOVO e acabei humilhado pelos risinhos de mofa da moça. A cena que me apavorou deve ser algo risível hoje até para criancinhas; os efeitos especiais provavelmente ficaram muito datados. Mas para mim não era e fiquei dormindo mal por semanas. O pior era quando trovejava.
E o Exorcista então? Vi por menos tempo ainda. Até hoje, tenho a impressão que é um filme muito tenso. O bizarro é que vi as duas continuações pouco tempo depois e achei ambas bestas. Mas o original, o clássico de William Friedkin com a Linda Blair, nunca vi inteiro. Hoje nem tenho mais curiosidade, mas antigamente era pelo trauma que o medo infantil me incutiu. O que não tem o menor sentido: divertia-me na mesma época não só com os Sextas-Feiras 13, mas também com uma infinidade de filmes de terror gore, como O Massacre da Serra Elétrica, A Volta Dos Mortos-Vivos, Re-Animator, A Hora do Espanto e outras preciosidades que esbanjavam carnificinas, zumbis e vampiros.
Meu problema era com demônios. Tentando racionalizar sobre isso agora, creio que é porque com vampiros, zumbis e psicopatas o problema era se meter no lugar errado numa hora imprópria. Mas os capetas pegavam qualquer um em qualquer lugar e qualquer hora, era muita maldade sem razão. Não que os outros seres tivessem alguma racionalidade, mas tinha mais ou menos um por quê. Tipo, você vacilou e esbarrou num morto-vivo. Ou vai transar justo perto do lago onde o Jason morreu, maior falta de respeito. No entanto, com demônios você estava amaldiçoado porque sim. Acho que era isso com que encanava.
 Uma conversa casual na rua redimiu meu sono naquela época. Ouvi-a por puro acaso mesmo, eu nem tinha provocado o assunto e cheguei à rodinha no meio da prosa. Um moleque um pouco mais velho, o Marcão, explicou para nós que possessões demoníacas aconteciam apenas nos Estados Unidos, podíamos até ver que não tinha filme nacional sobre isso. Ah bom! Fez todo o sentido do universo para mim. Só podia ser. Deus é brasileiro e patriota, certeza. Estava a salvo. 
Tempos depois assistia tranquilamente Uma Noite Alucinante - A Morte do Demônio, Hellraiser, O Portão e outros filmaços que faziam sucesso nas locadoras. E era um hipócrita. Quando assistimos ao Evil Dead 2 – que é divertidíssimo – de galera, meu amigo Paulo tapava os olhos nas cenas mais cabulosas e eu tirava sarro, como se fosse muito macho.

Originalmente publicado no Jornal da Cidade, Poços de Caldas, 29 de julho de 2017.

O porquê do sumiço

Não tenho publicado mais neste blog porque quebrei o pulso direito andando de skate e estava reeditando algumas crônicas no Jornal da Cidade - todas com correções, alguns títulos aportuguesados e acréscimos, em especial a crônica Cabine C, que foi totalmente reescrita -, com exceção da crônica "Conta Comigo, Rullyan", que foi escrita antes do acidente e foi mandada exclusivamente para o jornal. Desde o final de semana passado, agora que a fisioterapia já fez meu quadro evoluir consideravelmente, comecei a mandar crônicas totalmente inéditas para o jornal. Todas as crônicas que foram publicadas lá, focando em especial a minha infância e adolescência (com uma única exceção, a Stiff Little Fingers), podem ser encontradas neste link: http://www.jornaldacidade1.com.br/tag/daniel-souza-luz/

Monday, March 27, 2017

The Passage, uma brevíssima crônica.

Brincávamos de esconde-esconde. Dentro de casa. Já estávamos até meio grandinhos para um espaço tão exíguo. A ideia foi dela. Fui me esconder atrás de um armário. Ela resolveu se esconder junto. Estava bem apertadinho.
Foi de caso pensado. Ela se aconchegou a mim. Meu primeiro beijo de língua. Com um sabor de algo escondido. Literalmente. Não me lembro se fomos flagrados na brincadeira. No que interessava, não fomos.

Monday, March 13, 2017

Jesus and Mary Chain, uma crônica sobre como foi se apaixonar pela banda nos anos oitenta

Muitas bandas, mas muitas mesmo, passei a gostar ao ler sobre elas, muito antes de ouvi-las. Anos antes. Isso aconteceu comigo e vários amigos meus. Anos oitenta, baby.

Não me esqueço da primeira vez em que li sobre o Jesus. Estava esperando meu pai no antigo escritório dele, eu era criança ou adolescente. O problema é que agora a lembrança não é tão exata. Mas do texto me lembro bem da frase que marcou. Não é a citação literal, mas o crítico dizia “Este disco do Jesus and Mary Chain é um tiro do Magnum 45 na cabeça de quem diz que o rock inglês está morto”. Estava em uma Folha de S. Paulo, salvo engano, que estava dando bobeira ali na sala de espera. Será que foi na época do Psychocandy, quando eu tinha 11 anos, ou do Darklands, quando eu já tinha 13? De quem será o texto? Há muito tempo tenho para mim mesmo que, pelo estilão, é o tão amado e odiado Pepe Escobar.

Guardei bem o nome da banda. Depois disso, uma amiga de infância, a Cláudia Cândida, levou uma Bizz Letras Traduzidas para casa. Ela a esqueceu lá e fiquei fascinado. Pedi para que ela deixasse comigo mais um tempo para eu ler todas as letras; ela me deu a revista, o que foi muito bacana da parte dela. E lá estava uma letra do Jesus and Mary Chain, Darklands, faixa-título do disco de 1988.

Nunca tinha visto tanto niilismo e desesperança. Ainda não conhecia as letras do Ian Curtis. Fiquei boquiaberto, em especial com o final, que me pareceu mais irônico do que amargo. Foi paixão à primeira leitura. Decorei a letra muito antes de realmente ouvir a música; na verdade, antes mesmo de ouvir o que quer que fosse da banda.

Fiquei um tiquinho decepcionado a primeira vez que consegui escutar. Amo Just Like Honey, mas pelo o que lia deles, pensava que fosse mais barulhento, e foi justo a primeira música deles que ouvi. Perto de Bauhaus, que escutava muito à época, achei muito contido. Só tinha acesso via clipes que passavam no Som Pop na TV Cultura. Mas meu irmão ganhou de uma menina que era apaixonada por ele, em 1990, uma coletânea em vinil chamada Skate Surf Music; tinha uma música deles, Surfin’ USA, versão esporrenta de um som do Beach Boys que eu já conhecia, aí sim gostei. Nem lembro mais onde e quando que ouvi Darklands pela primeira vez. Mas a música fazia jus à letra, felizmente.  

 
 

Friday, March 10, 2017

The Slits, um miniconto.

As típicas garotas com quem sonhei quando adolescente só as conheci quando era novo ou velho demais para elas. Ainda bem que houve algumas poucas exceções aos vinte e poucos anos.

Thursday, March 02, 2017

Einstürzende Neubauten, crônica com um título literal.

Eram com estéticas iguais, mas como disposições diferentes, de acordo com a topografia da rua. Ambos divididos em dois blocos, um era perpendicular à rua, o outro era paralelo.  O uso do verbo no passado não está correto. Eram não, ainda são. Edifícios Alfa e Beta. Na minha memória, no entanto, eram.
Morei, quando criança, no Beta. Na verdade, de recém-nascido até o fim da adolescência e começo da vida adulta. De 1974 a 1993. Vi várias fases nele. De quando havia árvores na rua. Quando foram arrancadas. Quando era pintado. Era branco com detalhes verdes. Mudaram completamente a cor hoje, é bege. Não gostei. Talvez melhor do que quando a pintura ia ficando descascada, antigamente. E as grades brancas enferrujadas. Mas prefiro lembrar delas assim. Primeiro baixas, depois altas. Hoje há um portão que impedindo a entrada de não moradores. Antes a entrada para a escada que dá acesso aos apartamentos era livre, apenas um portão interno deveria ser fechado à noite, por volta das 22:00 – lembro-me de meus pais fechando-o. Até pouco tempo ainda podia-se entrar livremente lá, de dia. Fui até a porta do apartamento onde passei a infância, o número 101, em 2013. Não bati nas portas (são duas) para saber quem mora lá ou como ele está por dentro. Vivo sonhando com ele, tal como era, ou surrealmente modificado. Prefiro assim, que o apê permaneça como lembrança e como um ente onírico.

Monday, February 20, 2017

Minutemen, uma crônica sobre um vendedor punk.

Morei brevemente em São Paulo em 1995 para fazer uma faculdade que logo abandonei, pois passei na segunda chamada, pouco depois, do curso de jornalismo da Unesp de Bauru. Morava na República, perto da Galeria do Rock, onde costuma ir quase todos os dias. Eu tinha dois CDs do Black Flag e queria mais. Vi o single de Nervous Breakdown numa loja. Pedi para o balconista, um garoto negro, de óculos, bastante expansivo, pegar o CD para mim, pois iria comprá-lo. Ele se recusa. Seguiu-se um diálogo mais ou menos assim.
- Não cara, você conhece Minutemen?
- Conheço de nome.
- Minutemen é muito melhor do que Black Flag. É da mesma turma, da mesma gravadora, a SST.
- A gravadora do Greg Ginn, do Black Flag.
- Sim, mas esquece Black Flag, cara! Minutemen é muito mais criativo. Compra o disco deles. Você tá marcando. É a mesma pegada, só que melhor, muito mais inteligente. Melhor banda dos anos oitenta.
- Legal, mas...
- Para de bobeira. Você vai fazer o melhor negócio da sua vida. Leva o CD do Minutemen, você vai gostar muito mais e...
Somos interrompidos antes de ele pôr o CD para tocar e tentar me convencer. Uma assistente social entra na loja e chama o balconista pelo nome, do qual não me recordo mais. Ela abre uma pasta, diz que precisa conversar com ele sobre o cumprimento da medida; imagino que de um ato infracional, embora ele não parecesse tão adolescente, mas sim alguém com uns vinte anos. Aproveitei a deixa para cair fora. Achei o tão almejado single de Nervous Breakdown em outro estabelecimento. Queria porque queria. Só fui ouvir o Minutemen uns dois anos depois. Época de recursos limitados e sem acesso à internet. É uma banda tão fascinante quanto o Black Flag mesmo, embora não pareça tanto assim. O Black Flag me marcou mais, conheci antes, mas gosto quase tanto quanto. Talvez Minutemen seja melhor mesmo e aquele garoto estivesse certo, no entanto. Mas há muito espaço no meu coração para ambas as bandas.

Wednesday, February 08, 2017

New Model Army, crônica de nossa batalha mirim.

Havia Atari e tinha brinquedos de guerra. Tanques, armas e soldados de brinquedo hoje me parecem uma bizarria, mas vá lá. Que eu gostava de brincar de guerrinha, gostava. Quase todas as crianças gostavam. Quer dizer, ao menos os meninos (mau sinal, não é?). Teve uma vez que foi fera demais. Armamos (opa) de fazer uma guerrinha diferente: em vez de ser entre a molecada com pistolas de brinquedo – ou mãos fazendo as vezes de revólveres –  com nós mesmos bancando os soldados, fizemos uma guerra entre os nossos brinquedos. Juntou um pessoalzinho na casa do Coruja, amigo nosso de Santos, que costumava passar as férias em Poços de Caldas na casa da avó dele, na rua de cima. Combinamos assim: as escaramuças aconteceriam no gramado do quintal. No corredor ficava o nosso quartel-general. Na edícula do fundo, onde era aberta a área da máquina de lavar, ficava o quartel-general do inimigo, que no caso era nosso amigo Maurício, cujos pais tinham grana, o que lhe proporcionava tantos brinquedos de guerra que era ele sozinho contra a rapa. Assim seguiu-se a batalha, cheia de estratégias e bombardeios com pedrinhas nas naves; se alguma era acertada tava fora. Os quartéis generais eram protegidos por campos de força. Mesmo invisíveis, respeitávamos completamente o ente intangível que criamos. Assim se deu por horas. O mecanismo do campo de força eram pedras que deviam ficar em cima de uma cadeira; punham-se elas no chão e se entrava com os brinquedos que não podiam mais ser atacados. Não me lembro mais quem gritou, acho que foi o Coruja.
- OLHA O CAMPO DE FORÇA DELE DESLIGADO!
O Maurício estava atacando algum flanco. Ele estava longe da casinha do fundo. Saímos correndo e entramos impetuosamente dentro do quartel-general dele. Lembro que estávamos eu, meu irmão e o Coruja, mas tinha mais moleques ainda. Eu tranquilamente bombardeei com pedrinhas os bonequinhos de soldado dele, no começo. Quando vi, no entanto, o Coruja estava dando bicudas nos jipes e tanques do Maurício. Aí todos os combatentes decidiram que não haveria prisioneiros. Não conhecíamos a Convenção de Genebra ainda, éramos muito jovens. Ele voltou para lá gritando para pararmos, mas fomos derrubando e “explodindo” tudo. Conversando com meu irmão hoje, ele lembrou que o Maurício levou para lá uma bela réplica de um F-14 Tomcat, desses que se monta pacientemente com cola em casa. Voou pelos ares, no mau sentido, durante aquela blitzkrieg bop mirim. O Maurício foi embora chorando, juntando os cacos dos brinquedos dele. Se eu fosse ele, sairia chutando nossos brinquedos, afinal ele saiu pelo corredor atravessando o nosso campo de força invisível, que deixamos cuidadosamente ligado. Mas ele não foi à forra. Depois ficamos morrendo de medo dos pais dele bater na porta de nossas casas e cobrarem-nos os brinquedos estragados. Não deu nada. Ninguém se machucou mesmo. Essas guerras são as únicas que não são tão bestas.

Friday, February 03, 2017

Old Skull, uma crônica dedicada à memória de Toninho Mendes

Os shapes dos skates tinham caveiras, geralmente. O que elas me lembram é vida e não morte. Da grande aventura de ir para o centro da cidade sozinho, pela primeira vez, lá pelos idos de 1988. Não sozinho, mas junto com uma galera. Sem meus pais, melhor dizendo. Um domingo à tarde rolava fugir pra lá, numa boa.
Tinha um ponto de encontro do pessoal da escola, uma cafeteria que não existe mais, com as menininhas bonitinhas. Elas nem nos notavam ou olhavam-nos com desdém. “Ollie air não pega mulher”; lembro da frase de um skatista da época, Celso Not Dead, em uma das revistas de skate que colecionava, a Yeah! ou a Overall. Mas me sentia muito à vontade em meio a elas, também não me importava. Sentamos encostados a um muro. Não me lembro mais quem foi, mas alguém que estava na lanchonete levou uma revista em quadrinhos que adorei, a do Geraldão. Era melhor ainda do que a Mad. Ainda me lembro do cheiro daquele papel-jornal, tinha aroma de anarquia. Eu te odeio, Ronald Reagan. O Glauco, o Toninho Mendes, que editava a revista e várias outras revistas que ajudaram a moldar minha visão de mundo (Chiclete com Banana, Circo, Piratas do Tietê), os irmãos Toulon do Old Skull, que eram a cara do que aspirávamos à época, ou ao menos o que eu aspirava entre 1988 e 1990, nenhum deles está mais neste mundo. Mas ainda estão; tudo está; todos estamos.

Thursday, January 26, 2017

Talking Heads, uma crônica imersiva.

Uma das lembranças mais antigas e marcantes que tenho é de quando a TV Tupi saiu do ar. Foi tão estranho... Há pouco tempo me dei conta de que foi a primeira morte que testemunhei. Pesquisando depois, já adulto, vi que isso foi em meados de 1980. Eu tinha cinco anos. Um dia liguei a televisão e o canal havia desaparecido – época da ditadura, agora isso me parece sinistro. Houve um aviso no dia anterior, tenho uma vaga lembrança; não sei se isso é uma memória falsa que criei. Há outro fato estranho: li que a Tupi tinha novelas. Não me lembro bem disso. Lembro que a Globo tinha e que odiei o fato dela ser a única outra estação de televisão que pegava bem, porque à noite gostava de ver faroestes e desenhos. Parece que me lembro do Chaparral na Tupi, mas talvez tenha sido apenas na Record, nos anos oitenta. Lembro de ver Bonanza também. Não me lembro das tramas, mas me recordo de algo muito melhor.
Há até fotos datadas de 1979. Eu andava com chapéu de cowboy e armas de brinquedo quando era criancinha. Meu irmão também. Na verdade tenho lembranças até mais antigas, de quando tinha uns quatro anos, de gostar de filme e seriados de faroeste. E tinha um hábito mais solitário, não brincava só com meu irmão de mocinho e bandido. Eu gostava de participar dos faroestes. Fazia assim: postava-me ao lado da TV. Prestava atenção ao que os personagens diziam e participava dos diálogos. Como tinha muito plano americano, agia como se estivessem falando comigo também. Se alguém dizia “A emboscada será no desfiladeiro” eu tentava responder com algo que fizesse sentido, como “Isso mesmo amigo, vamos pelo outro caminho!”. Como ficava feliz quando o diálogo calhava com o que eu dizia! Muitas vezes dava certo. Só havia um senão: geralmente os personagens para os lados dos quais me bandeava morriam ou se ferravam. Então começava tudo de novo, no meio do filme ou episódio, como se nada houvesse acontecido. Fazer o quê? Mas eu estava sempre presente na trama. Acho que fui um pioneiro da realidade virtual, isso sim foi imersão.

Monday, January 16, 2017

Television, uma crônica de uma infância cheia de fascínio.

A televisão me deixou muito inteligente, inteligente demais. Acordava cedinho no sábado só para ver desenho animado. Antes das oito da manhã ainda dava tempo de assistir Urso do Cabelo Duro e Bionicão. Tenho vagas recordações, mesmo agora já adulto, pois até isso foi há mais de vinte anos, mas agora me parece irônico que o primeiro desenho retrate um bando de hippies safos travestidos de ursos e o segundo um cão policial – acho que era, já nem lembro tão bem. Como nunca havia pensado nisso? Às vezes rolavam uns crossovers nos desenhos; poderiam ter posto o Bionicão para reprimir a turma dos ursos para dar a real para as crianças.
O que era legal demais desses desenhos é que eles eram psicodélicos. Os Incríveis era infinitamente mais legal do que a banda de mesmo nome. Banana Split devia ter ácido nos ingredientes. Jackson Five era tão legal quanto a banda. A Corrida Espacial fazia discotecas parecerem good trips; apesar de já ser da era disco, o psicodelismo era muito mais mesmerizante. Dias de aventura.  Não esqueço de jeito nenhum das pouquíssimas vezes em que passou o desenho do Recruta Zero, que era um dos meus gibis favoritos. E de que tinha que explicar que Danger Mouse era infinitamente mais legal do que Super Mouse. Aprendi a ler graças a meu pai, que lia quadrinhos para mim e meu irmão; por isso antes mesmo de entrar na escola queria saber como terminavam outras histórias que meu pai não tinha tempo de ler. Saquei os rudimentos sozinho. Quando lia os créditos nos desenhos animados, mesmo sem saber inglês, notei que havia quem escrevia aquelas histórias. Como desejar ter um emprego normal então?

Wednesday, January 11, 2017

Love and Rockets, crônica sobre um sonho com livros fascinantes.

Adoro sonhos detalhistas. Estava fazendo um TCC sobre sebos em São Paulo e no sonho hospedei-me no apartamento do meu amigo Cleiton Corrêa, que na vida real mora em Poços de Caldas. Tinha que achar um numa tal de rua Gurgel. Olhei num mapa na web e achei quatro ruas com esse nome; fui na que era mais perto. Desci por uma escada – que não existe na realidade – ao lado do metrô Vila Madalena e lá estava o sebo. Ao achar os donos do lugar, uma loira de meia-idade e um rapaz de óculos e cabelo meio beatle, marquei uma entrevista para fazer em outra ocasião. Disseram-me para eu ficar à vontade.
Comecei a olhar os livros e em meio a best-sellers desinteressantes achei vários volumes de “Locas – Poemas,” com poesias de Jaime Hernandez e desenhos de seu irmão Gilbert. Custava 25 mangos e o que peguei em mãos estava ainda dentro do plástico, que estava empoeirado. Dei uma olhada nos outros exemplares e eram uns poucos desenhos e muitas poesias. Pensei “como não estou enxergando direito mesmo, é melhor do que ler os quadrinhos no momento”. Aliás antes qualquer obra original dos criadores do Love and Rockets, que citava o Black Flag nas HQs, do a banda que copiou o nome, da qual gosto, mas é meio decepcionante, ainda mais que é o Bauhaus inteirinho, com exceção do Peter Murphy. Enfim, voltando ao sonho, pedi para reservarem que logo depois já pegaria com eles no balcão, como usualmente faço. Continuei fuçando e achei um livro de bolso do Phillip K. Dick; era uma edição original em inglês de um conto inédito chamado The Lake’s Placid Face e custava meros sete reais. Espero que algum dia esse livro dos irmãos Hernandez chegue a ser feito. E talvez o K. Dick tenha imaginado esse conto, não tenha tido tempo de escrevê-lo e me deu um toque em uma brecha no continuum espaço-tempo.
A banda nunca será tão legal quanto a HQ, mas eu gosto.

Monday, January 02, 2017

Black Flag, crônica sobre um sonho.

Amo Black Flag, é uma das minhas bandas favoritas. Não sei se gostaria de ver um dos shows da volta, não deve se equivaler à energia da época original deles, quando foram pioneiros do punk hardcore, e nem do Flag, banda montada por ex-integrantes tretados com o guitarrista Greg Ginn, fundador, o único membro remanescente da formação original e a única pessoa presente em todas as inúmeras míticas formações do Black Flag. Hoje sonhei que fui a um show deles. Sequer vi o show no sonho, mas o que vi deve ser melhor do vê-los de verdade – e consta que o Flag é ótimo ao vivo. De certa forma, vi o Flag no sonho, curiosamente com o único ex-Black Flag que já vi de verdade, o Dez Cadena, numa apresentação horrível do “Misfits”. Show que foi um dos mais divertidos aos quais já fui: justamente porque não havia nada a ser visto, poguei o tempo todo, junto com vários amigos das antigas que estiveram em inúmeros rolês de punk rock comigo. Usei aspas porque nem era o Misfits de verdade, que para mim acabou em 1983; a volta deles sempre foi ridícula. Enfim, vou é contar como foi o sonho com o Black Flag.
Cheguei de mochila ao local da apresentação; era uma casa noturna fechada, com palco até que baixo, na altura do peito. Colei no palco do lado direito, mas atrás de dois moleques. Um segurança os abordou e perguntou por que eles estavam usando uniformes dos correios. Eles responderam que estavam matando serviço para poder ver o show. O segurança retorquiu que eles nem poderiam estar ali, mas que faria vista grossa, desde que eles fossem ao banheiro trocar de camisa. Aproveitei para colar de fato no palco e a banda entrou sem o Greg Ginn para fazer a passagem de som. Era o Dez Cadena na segunda guitarra, a Kira Roessler no baixo e um baterista que não identifiquei. A guitarra transparente do Greg Ginn ficou em cima de um amplificador. De repente entra o Keith Morris no palco e começa a cantar Revenge. Ou seja, uma formação do Black Flag que nunca existiu, com músicos que jamais tocaram juntos, pois são de épocas diferentes. Como aconteceu comigo na vida real, no show do Agent Orange, quando vi a passagem de som, formou-se uma roda de pogo atrás de nós, mas preferi ficar grudado ao palco. A passagem de som foi só com Revenge e o público dispersou-se. Fui ao banheiro, depois tomei uma sopa no bar (não me perguntem o porquê) e voltei preocupado em perder o lugar. Colei no outro lado do palco, onde ainda havia espaço, e fiquei conversando com duas meninas. Dava para ver o setlist ao lado do baixo da Kira. Falei que ia pedir para ela me dar o papel autografado, nisto a Kira, que estava com cabelo grande e pintado de loiro, passou e nos cumprimentou. Vimos que os panos se abriram e lá no fundo ela se encontrou com os outros músicos. Não sei se o Greg Ginn estava junto, pois as meninas do lado falaram-me que estavam enxergando-os borrados. Quando me esforcei para ver quem estava nos bastidores, minha vista começou a ficar muito embaçada. Acordei, acabou.

Wednesday, December 28, 2016

Unknown Gender, crônica sobre meu primeiro beijo.

Lembro-me calorosamente do meu primeiro beijo. Foi em 1985. Ela era bem mais velha; ainda adolescente e com apreço por usar uns decotes que me fascinavam. À época havia uma novela global que tinha como protagonista um estilista que durante a trama lançou um batom chamado Boka Loka. O tal do batom tornaria irresistível quem o usasse, fazendo quem estava por perto querer beijar a pessoa a qualquer custo. Talvez O Perfume, do Patrick Süskind, tenha sido a gênese desta ideia, ocorre-me agora. Afinal o livro foi lançado naquele ano. Enfim, eu tinha só dez anos, ia fazer onze. Ela tinha quinze ou dezesseis. Ela passou o batom dela em mim e me beijou até tirá-lo. A língua tinha um gosto diferente e apetitoso. Ela deixou que eu passasse a mão na bunda dela, em outra ocasião. Foi só isso e foi muito bom. O batom foi lançado de verdade, anos depois, mas tenho certeza de que não teria o mesmo gosto.

Tuesday, December 27, 2016

Au Pairs, crônica sobre uma infância feliz.

Primeiro, quando meus pais faziam faculdade, era uma moça ainda adolescente. Era eles saírem e ela pegava o telefone para passar trote em algum felizardo. Tinha uma linha de disk amizade, algo assim, na qual se podia falar com qualquer um que estivesse “online”. Acho que deu sujeira, vinha uma conta cara, não lembro mais direito. Daí ela começou a ligar a esmo e passar cantadas vagabundas em qualquer trouxa que acreditasse. A cara de pau marcava encontros nos quais não ia e nem pretendia. O dia mais massa foi quando ela conseguiu convencer um fulano de que ela era rica. Ela pediu para eu e meus irmãos pegarmos um balde e o enchermos d’água. Feito isso, ela espalmava a mão n’água e falava que estava mergulhando na piscina. Morríamos de rir. Essa aí não durou muito, era muito desajuizada. Consta que casou com um fazendeiro rico, quando perguntei dela, muitos anos atrás. Deve ter uma piscina de verdade agora.
Depois foi uma moça muito gente fina e mais inteligente. Creio que posso citar o nome dela: Fátima. Dela infelizmente não sei mais nada. Ela esperava um pouco para meus pais saírem para a aula. Telefone nos anos oitenta era algo muito sério, do qual ela mantinha distância. Assim que estava limpo, íamos todos para a rua. Ela sentava na porta do prédio e ficava trocando ideia com as minhas vizinhas que já eram adolescentes. Suponho que sobre garotos, nunca prestei atenção às conversas. Minha rua virava uma bagunça danada. Das sete e pouco da noite até as dez era lotada de criança zoando no talo. Não sei como nenhum vizinho não nos dedurou a nossos pais. Acho que ali, na rua Platina da minha infância, todo mundo mais velho era como sou agora com relação à molecada do meu bairro: se há crianças implodindo a rua à noite de tanto brincar, é porque posso dormir sossegado, pois estou num lugar muito seguro.

Monday, December 19, 2016

Agent Orange, uma breve crônica.

Nunca me esqueci de uma música de um vídeo de skate chamada 2+2=5, do Agent Orange, uma das bandas que mais amo. Até aprendi com uma amiga, nos anos oitenta mesmo, como se pronunciava dois mais dois igual a cinco em inglês. O problema é que já há alguns anos, com o acesso fácil à informação na internet, descobri que essa música definitivamente não existe. Era um vídeo de um programa de TV lendário, o Grito da Rua, e o amigo que o gravou, Maurício, morreu há vinte anos. Dificilmente verei isso de novo algum dia. Ou legendaram erroneamente o vídeo e trocaram o nome da banda, ou sonhei com essa cena quando era adolescente e a memória solidificou o que era onírico. Era uma música tão legal, ela precisava existir.
Foto que tirei de Mike Palm, do Agent Orange, em junho de 2014, num dos shows mais emocionantes da minha vida.

Tuesday, December 13, 2016

Peter Hook and the Light, crônica sobre o show

Joy Division é a minha banda favorita. Amo New Order desde criança, quando era uma banda mega popular que tocava no rádio o tempo todo, no auge de um termo que me parece esquecido hoje, o tecnopop. O primeiro disco do New Order que ouvi foi a coletânea Substance, em 1988, embora lançada em 1987. Minha música predileta era Ceremony, mas a achava estranhamente diferente das demais e muito melhor. Só dois anos depois fui saber que foi composta um pouco antes do suicídio de Ian Curtis em 1980 e reaproveitada pelos sobreviventes do Joy Division no novo grupo, o New Order. Ou seja, Joy Division já era minha banda favorita e eu nem sabia. Naquele ano vi um vídeo de skate, creio que do Vibração, gravado no campeonato no prédio da Cásper Líbero. Nele pela primeira vez ouvi Love Will Tear Us Apart; não sabia de quem era a música e nem o seu nome, o que me marcou é que um arrepio subiu pela minha espinha. Nunca havia ouvido nada tão lindo e até hoje não conheço algo comparável. Pouco tempo depois ouvi uma radialista conterrânea chamada Flávia tocar Love Will Tear Us Apart, dizer que era do Joy Division e a emendar com Ceremony, dizendo que não era uma coincidência. Desconfiei que havia uma ligação entre as bandas e em 1990, ao ler um artigo do já falecido jornalista Celso Pucci (guitarrista da banda de alt-country 3 Hombres) na lendária revista de HQ underground Animal, descobri que estava certo e me inteirei sobre a morte de Ian Curtis e a transmutação do JD no New Order, um nome apropriado. A percepção que tive era de que o NO era uma banda alegre para compensar a dor e o tom soturno do JD, algo que vejo até hoje os integrantes confirmarem em entrevistas. Enfim, ao longo dos anos fui completando a discografia do Joy Division, a maioria gravada em fita cassete. Algo que me impressiona profundamente é que o disco perfeito para mim, o segundo álbum deles, o Closer, só o seja no Brasil; só a versão brasileira saiu com Love Will Tear Us Apart de bônus. De qualquer forma, curiosamente, o disco deles que mais ouvi – justamente porque foi o único vinil que consegui à época – foi a coletânea que tem o mesmo nome da do New Order, Substance, que possuía a indicação 1977-1980, algo que sempre me fascinou por ser um período da música pelo qual sempre me encantei. Meu irmão Eurico percebeu nos vídeos de skate que tinham músicas do Joy Division e em especial no Substance, principalmente quando tem início a segunda música, Leaders of Men, que o que se destaca na banda é o baixo. Nós nunca conseguíamos ouvir o baixo em banda nenhuma, a não ser no New Order, no PIL, no Sisters of Mercy, na Legião e principalmente no Joy Division, em que o grave é simplesmente animal. Animal, não tem outra palavra pra descrever. Notamos que essa marca da banda, junto ao vocal grave, parece ter influenciado infinitas bandas.
Corta para 2016, vinte e oito anos depois. O New Order esfacelou-se e o responsável por aquele baixo, Peter Hook, está brigado com a banda e tocará na íntegra os dois Substances numa turnê, a qual passará para o Brasil. Tenho que ir, claro. Queria ter 18 anos em 1977, mas não tem jeito, o modo mais próximo de chegar perto do Joy Division é este. Então peguei o busão com meu amigo Bruno Karnov e cheguei ao show do Peter Hook and the Light em São Paulo, na Liberdade, às 22:00 em ponto, depois de correr muito pela rua e pela estação de metrô Tietê, devido a contratempos que me impediram de ir mais cedo. A divulgação dizia que o show começaria pontualmente. Até eu entrar e achar um lugar legal para ver era 22:02. Às 22:03 o show começou, como se Hooky tivesse me esperado. Muito obrigado. Do fundo, esbaforido, vi uma gentileza: ele começou com o Substance do New Order, mas com três músicas bônus do segundo CD. A primeira foi In a Lonely Place, sombria, combinando com o fato de que foi a última letra (salvo engano) escrita por Ian Curtis, pouco antes de se matar. Procession foi linda ao vivo, o sintetizador emulou bem a sonoridade original. Preocupado em encontrar um lugar melhor no meio das pessoas, nem prestei muita atenção na terceira música, acho que foi Cries and Whispers mesmo. Aí veio Ceremony. Aí sim. Que linha de baixo. Que textura e timbre absolutamente pessoais. Que coisa linda finalmente vê-la ao vivo. De Everything’s Gone Green em diante o show dedicado ao New Order degringolou um pouco. Muitos samplers, não eram sintetizadores sendo tocados na hora, mas sim bases pré-gravadas idênticas ao disco; soava como mero playback para que Peter Hook e seu filho se revezarem no baixo, notadamente enquanto Hooky cantava. Num tom mais grave, Hook engana, mas foi sábio quando ele deixou para o guitarrista David Potts cantar músicas como Confusion, pois seu tom lembra bastante o de Bernard Sumner. Houve bons momentos, como Perfect Kiss, mas quando a parte dedicada ao New Order chegou ao fim, com todo o Substance executado mecanicamente na ordem e com 1963 de bônus, entrou o som mecânico rolando Kraftwerk e o próprio New Order. Fiquei com a sensação de que fazia pouca diferença; era só o baixo que se destacava ao vivo mesmo. Muita gente foi para trás, neste momento, para comprar cerveja e tomar um ar. Que sorte! Cheguei mais perto do palco e, como se não bastasse, ali chegava o ar condicionado. Antes da apresentação recomeçar, ouvi uma garota perto dizendo para o namorado, empolgada: “Ele vai tocar o Substance do Joy Division também? Não acredito, que incrível!”. Pensei: gostaria de ser feliz na ignorância também. E não é que meu desejo se realizou? Hook e a banda voltaram e também começaram por músicas bônus do Substance do JD, como No Love Lost e These Days. Mas, ao contrário da seção dedicada ao New Order, não se circunscreveram ao Substance. Para minha completa incredulidade, tocaram a minha música favorita de todos os tempos: Disorder. Faltou peso no baixo, tocado pelo filho dele, mas era Disorder. Cantei a todos pulmões, até agora não acredito, parecia um sonho. Foi um sonho. De quebra, ainda tocaram Shadowplay. Baque à parte, lá veio: 3,5,0,1,2,5, go! Finalmente o Substance na ordem original do LP. Só havia quatro pessoas pogando: eu, um cara grandão e negro (achei legal demais, o público não era tão branco para uma banda que no passado era cultuada por um público “dark” metido a elitista), uma moça e um headbanger. Quando um sujeito subiu no palco para um stage dive, ninguém quis segurar e ele desceu sem pular; o Hook chegou a rir da situação. Warsaw veio com um intermezzo desacelerando-a e depois dá-lhe porrada de novo; Leaders of Men  teve o baixo um tiquinho mais pesado; Digital manteve o ritmo; em Autosuggestion, durante a qual filmei alguns trechos, aceleraram bastante o andamento no refrão; em Transmission a maioria dos presentes cantou junto; em She’s Lost Control faltou a bateria acústica junto com a eletrônica, mas o duelo de baixos robóticos valeu a pena; em Incubation foi estranho ver a banda sem Hooky no palco; Dead Souls foi outro sonho, pois sempre achei que ficaria boa com dois baixos e nela Hook e seu filho complementaram-se tocando juntos o tempo todo. Deu-se uma pausa e foi engraçado: um cara que parecia um cosplay do Mark E. Smith do The Fall subiu ao palco e disse que a próxima música era dedicada à Chapecoense, cujo time morreu quase todo no acidente aéreo que ocupou a mídia por boa parte naqueles dias. O público ovacionou, fiquei na minha. Não achei totalmente inadequado, ingleses amam futebol, mas me pareceu algo piegas. O banger que estava perto gritou “Foda-se a Chapecoense!” e foi embora desgostoso. Iluminaram o palco de verde e lá veio Atmosphere. Achei que seria uma breguice medonha, é a música do disco que menos gosto, mas não é que deu certo? A música ganhou vida ao vivo, aliás isso me chamou demais a atenção: por mais que eu ame o New Order, não dá para comparar mesmo com o Joy Division, cujas músicas, ironicamente ou não, pulsam vida no show. Por fim, um dos grandes momentos da minha vida aconteceu neste show. Não esperava nada do final. Love Will Tear Us Apart é uma música que ouvi ad nauseam. Eu tenho o espírito, mas perdi o sentimento. Quando ela teve início, destacando mais o baixo do que teclado, aquele arrepio que senti na espinha há vinte e oito anos subiu de novo. Acabou sendo meio rock de arena do meio para frente, mas não tem importância, aproveitei para pensar em todas as mulheres que me marcaram. Ainda tenho o espírito e o sentimento, apesar de ter achado que perdi o último há anos. Nunca imaginei que teria a mesma sensação de encantamento com Love Will Tear Us Apart de quase três décadas atrás. Ian Curtis cometeu o único erro. Por mais que o mundo seja frio e áspero, a vida é a única coisa que vale a pena ser vivida, como dizia Will Shatter.

Peter Hook and the Light no Cine Joia, seis de dezembro de 2016. Tirei a foto com celular.