Tuesday, October 30, 2018

Os Meninos do Brasil

O seu cachorrinho acompanha-a, quietinho. Ele empurra uma bicicleta. Nunca ouviu I Wanna Be Your Dog.
Vegano, pose de bonzinho. O passado de playba maquiado com visual riponga, coque samurai e muita aula de yoga. Espancava um moleque na escola que gostava de Shelter. Fazia bullying com quem ele teoricamente, imaginaria quem o visse vestido daquela forma, pensaria de forma semelhante anos depois. O garoto humilhado, hoje hare krishna, sequer reconheceu o seu antigo antagonista, que caminhava de cabeça baixa atrás da companheira. Sorte dele. O fascista zen, como diria Jello Biafra, sorriu cinicamente, encarando o chão com saudades de pisar em alguém. Muitas saudades.
Chegaram em casa e puseram um vinil da Janis Joplin. Fumaram um banza, brisaram por uma meia hora e treparam. Logo depois ele vestiu uma camisa da seleção e correu para a manifestação com um cartaz, belamente desenhado, pedindo mais repressão. Sua companheira ficou estupefata. Lembrou-se do velho ditado que tanto ouvia do pai, um velho punk – never trust a hippie.

Daniel Souza Luz é jornalista e revisor

Os Meninos do Brasil foi publicado no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) no dia 27 de outubro de 2018. Como foi no final de semana do segundo turno das eleições presidenciais, veio a calhar aproveitar meu conto 108, publicado aqui em 27 de abril de 2015, e adaptá-lo para a ocasião, afinal ele já era originalmente um conto politizado. Mudei o título, que antes homenageava uma banda de hardcore straight edge, inspirado pela audição da música The Boys From Brazil, do grupo pós punk The Pop Group. O nome da música já é referência a outra obra, um filme inspirado num livro de mesmo nome, e quem o(s) conhece perceberá o porquê da citação. 


Wednesday, October 24, 2018

Metal Perfumado

Jairo e Juliano chegam à casa de shows, na verdade mais conhecida por abrigar arrasta-pés na cidade interiorana, cujo calor derrete quem está à beira da piscina e ainda mais os dois e todos os que estão na porta do lugar, um deserto de asfalto e concreto. Ambos vestem preto e logo identificam seus pares.
- Aqui que é o Tijuana Bar? Não tem placa...
- Opa! Vamô quebra tudo com uns déti metal com nóis.
Apresentações feitas, simpatia imediata.
- Então, nós somos da banda de fora.
- Qual banda? Eu sou um dos organizadores. Não lembro de banda de fora...
- Do Virgin's Immolation.
- Ah é! Mal aí, já virei um tubão. Cadê os equipos d’ôces?
- Vamô lá pegar.
Pardal não perde as piadas no caminho. Sugere que Jairo e Juliano seria um bom nome para uma dupla caipira e que não era para eles tocarem viola no show não. Os dois riem, mas ficam putos por dentro.
- Ô Fabinho, abre o portão aí pros meninos do Virge Amolação montar o palco – brinca Pardal. É o jeito dele, pensam.
A cena parece um hospital de campanha. Vários desfalecidos deitados no chão, vomitados. E o show nem havia começado.
- Falaí, seus poser!
Era Zé, o único contato de Jairo e Juliano na cidade.
- Cê que é um comedor de sucrilhos!; vociferam de volta, em uníssono.
Sentindo-se mais à vontade, os dois enchem-se de expectativa. A bateria eletrônica é plugada e devidamente programada. Eles não têm mais paciência com baterista; está todo mundo velho, os amigos não dão mais conta de tocarem rápido.
Sobem ao palco. Serão os primeiros a tocar, para poderem pegar estrada e voltar cedo. Todo mundo trabalha na segunda de manhãzinha. Antes do primeiro acorde, chega a polícia. Já era.
Estava cheio de adolescentes bêbados e o comissariado não perdoou. O comissário ficou horrorizado. Disse que nunca havia entrado num lugar que cheirasse tão mal. Com o calor, o cheiro de cecê vazava pelas janelas. Jairo e Juliano venderam uma demo em fita, como antigamente. Coisa do demo. Voltam felizes, apesar de tudo; missão cumprida.
Daniel Souza Luz é jornalista e revisor
Foto que tirei do Infects Humanity no parque Vitória Régia, em Bauru/SP, em meados de 1999. Minha inspiração para este conto foram mais os shows que vi na primeira década do século 21, mas também não me esqueço do calor do interior paulista nestas ocasiões.

Este conto foi publicado no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) no dia 20 de outubro de 2018. É uma versão levemente reescrita do meu conto Os Verdadeiros Guerreiros da Verdade do Verdadeiro Metal, publicado aqui no blog em 26 de abril de 2015. O novo título é uma homenagem ao grupo pós punk Chrome, que tem uma música chamada Perfumed Metal, que nada tem a ver com heavy metal. O conto é inspirado em memórias de shows underground de metal que vi em Varginha, Mogi Mirim, Bauru e em especial no primeiro endereço do bar Califórnia e no Bailão do Toninho Norato (acho que era este o nome), ambos no centro de Poços de Caldas, ao longo da década passada.

Tuesday, October 16, 2018

Sindicato dos Sonhos

O jornal é de ontem, mas o texto não é mais o mesmo. Havia sido alterado. Como? Não havia jeito, é papel, não há como aparecer um “atualizado às 18:48”, por exemplo. No entanto, o acróstico desabonador não consta mais na matéria.
É que as letras na verdade são pessoas. Elas haviam sido substituídas por jornalistas mais novos, contratados como PJs, pois todos os sindicalizados foram mandados embora. Entretanto, os jornalistas demitidos entram no texto, diante dos meus olhos, e empurram para fora seus substitutos. Não obstante, o acróstico ainda está falho. Resta uma letra trocada. Eu a localizo. É uma menininha de vestido verde, não um adulto.
Rumo ao encontro dela, dentro da página. Ao contrário dos jornalistas mais novos, que saíram de seus postos, ela permanece no lugar. O início do parágrafo é um pequeno morro; ao me aproximar, noto que ela se torna translúcida. Espectral. Entro dentro dela. Uma voz doce ecoa na minha mente:

- Foi você que me possuiu. Você é o fantasma.

Daniel Souza Luz é jornalista e revisor

Sindicato dos Sonhos saiu no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) no dia 12 de outubro de 2018. É uma versão levemente reescrita do meu conto Dream Syndicate, publicado aqui no blog em 19 de julho de 2015. À época havia lido sobre um jornalista que ao sair da Folha de S. Paulo escreveu num obituário o acróstico "Chupa Folha". Acabei sonhando com isso, mas num contexto etéreo e confuso. Aproveitei  para escrever um pequeno conto surrealista de inspiração onírica. Esta versão que reescrevi agrada-me muito mais. O título é uma homenagem à banda angelena, referência nos anos oitenta quando se falava em paisley underground.   

O conto na versão impressa do jornal.

Friday, September 28, 2018

Mortos Podem Dançar

Os cabelos bem penteados, os óculos escuros e a camisa social contrastam com as mangas puídas dobradas, a bermuda, as meias esgarçadas e as sandálias com as tiras de trás estouradas. Aquele homem pouco envelhecera na última década – já estava alquebrado e com as linhas de expressão acentuadas há pouco mais de dez anos. À época, concedia entrevistas, um pouco mais bem vestido, à frente de um projeto social, já naufragado. Agora, nitidamente, depende de assistência social.
O repórter aposentado sempre o via caminhando desalentado pela rua. Naquela manhã, o extenuado jornalista acordara desanimado com o tempo chuvoso; a depressão lhe invadia e, por mais esforços que envidasse, era difícil superá-la. O súbito aparecimento do sol e o céu azulando-se incutiram-lhe ânimo e resolveu abordar aquele homem, a quem já entrevistara para um jornal hoje tão extinto quanto ambos.
- Bom dia!                            
- Bom dia... – respondeu desconfiado o homem que já não parecia ter como envelhecer mais ainda.
- Eu já entrevistei o senhor algumas vezes, lembra-se? Desculpe-me, não lembro seu nome.
Não houve resposta. O homem desgastado e agastado permaneceu com o olhar receoso. O velho jornalista, por força do hábito, insistiu:
 - Você tinha um projeto social, como que se chamava mesmo...?
- Ora, vá se meter com a sua vida! – retorquiu aquele sujeito que algum dia foi midiático, mas agora parecia querer evanescer. A frase escapuliu com desespero, sem muita agressividade, como que também quisesse pedir desculpas, impressão reforçada pelo olhar implorando piedade.
Seguiram em sentidos opostos, sem olhar para trás, assim como a vida fez com eles.

Daniel Souza Luz é jornalista e revisor

Este conto (ou crônica, conforme definido pelo jornal, já nem sei mais em qual gênero qualificar) foi publicado no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 22 de setembro de 2018. É uma versão levemente reescrita do meu conto A Tristeza Insinua-se no Dia Ensolarado, publicado aqui no blog em cinco de abril de 2015. Alterei o título para homenagear a banda gótica/pós punk/folk quase inqualificável Dead Can Dance, achei que era cabível e mais adequado. 

A crônica (ou conto, depende de como você quiser indexar) na versão impressa do jornal.
 

Tuesday, September 18, 2018

Tempo Perdido

É das primeiras músicas das quais me lembro de gostar. Ouvi pela primeira vez numa propaganda de TV; será que era para anunciar a participação em algum programa de auditório? Pela frequência com que era exibida, mais possivelmente era para promover alguma das compilações de novos grupos, àquela época chamadas de pau de sebo, ou uma trilha de novela. Era o vídeo de Tempo Perdido, tenho certeza.
Para mim o disco perfeito da Legião Urbana seria o primeiro acrescido de Tempo Perdido ao final. Tirei esta foto no antigo aparelho de som de casa, agora estragado e sem uso, em 2015.


Depois ouvi no rádio. Fiquei encantado. Foi a primeira vez na vida que prestei atenção espontaneamente à letra de uma música. Isso foi por volta de 1986/1987, tinha uns doze anos. Quer dizer, eu sabia a letra de algumas músicas, principalmente porque meus colegas de escola falavam das do RPM, mas o clássico da Legião Urbana foi a primeira que me interessou mesmo, só que não havia com quem a conversar a respeito. Ninguém se importava muito e acho que nem eu.
À época respondi um daqueles cadernos de perguntas que as meninas faziam e davam para você levar para casa – sim, já se stalkeava naquela época, mas era mais explícito – e respondi que minha música favorita era Tempo Perdido, sem titubear. Ela perguntou depois o porquê e eu disse que a letra refletia a vida; não sei por que disse isso. Hoje ela é atriz, às vezes a vejo no teatro. Eu devia estar afetando profundidade, ela deve ter percebido, pois pareceu incrédula. Para mim, no entanto, a resposta foi sincera. Tempo perdido.

Daniel Souza Luz é jornalista e revisor 

Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 15 de setembro de 2018. É uma versão ampliada de "Legião Urbana, uma crônica", originalmente publicada aqui no blog em cinco de setembro de 2016. Em relação ao texto que foi publicado no jornal, fiz apenas uma pequena alteração no segundo parágrafo.



Tuesday, August 14, 2018

Uma Banda Chamada Morte

O anúncio da vinda do Death ao Brasil, em fevereiro de 2016, foi surpreendente. É um mito. Não tem nada a ver com o grupo de death metal dos anos oitenta/noventa, do qual gosto também e que ainda excursiona em homenagem ao fundador Chuck Schuldiner, já morto. O Death em questão foi formado por três irmãos negros em 1971, os Hackney, que lançaram apenas um compacto em 1974. São de Detroit, como as bandas mais importantes do protopunk (ou seja, que já tocavam punk rock antes do estilo existir), o Stooges e o MC 5. Foram redescobertos já no século XXI e o disco com todas as gravações de 1974 foi lançado em 2009.
Como no caso do homônimo, o Death protopunk perdeu para o câncer o guitarrista e mentor, David Hackney, e excursiona em homenagem a ele, mas com um diferencial: fazem músicas novas, pois seguiram tocando rock cristão e depois reggae sob outros nomes ao longo das décadas seguintes ao fim em 1977. Para isto, recrutaram seu guitarrista Bobbie Duncan, da banda de reggae, o Lambsbread. Um grupo fantástico; as gravações de 1974 lembram o que o Bad Brains, a banda fundamental para o surgimento do hardcore, também formada por músicos negros, viria a fazer cinco anos depois. Já vi o Bad Brains ao vivo, não podia perder este show.
Meus problemas começaram aí: eles fariam três apresentações; uma em Curitiba, de graça, mas longe demais, não teria onde ficar, e duas em São Paulo, no Sesc Belenzinho. Ingresso barato, mas o duro é que esgotaram assim que começaram a ser vendidos na web. Tentei comprar horas depois do início da venda, quando já estavam esgotados. Poderia pegar pessoalmente no dia seguinte, mas moro no sul de Minas Gerais. Solução: pedi para um amigo de Sampa, o Bruno Karnov, falecido há um mês e para a qual escrevi uma crônica em homenagem há duas semanas, para pegar o ingresso para nós.
Dá-lhe aventura: macaco velho, ele falou para eu relaxar e NÃO FOI PEGAR os ingressos. Tinha um jeito melhor. Era mesmo, mas meio desesperador para quem mora longe. Ele me pôs em contato com o Clodô Paiva, velho chegado dele, que tinha um camarada que pegou uma cota boa de ingressos para quem precisasse. Na quinta, um dia antes do show, conversei com o Clodô, que me pôs em contato com o amigo dele, o Sandro. Se não fosse o Bruno e o Clodô eu nem teria ido ao show e eles infelizmente não foram; o primeiro perdido na noite; o segundo tinha que trabalhar.
Combinei de pegar o ingresso com o Sandro, que nem conhecia, e fiquei de encontrar dois velhos amigos, a Aline de Castro e o Gustavo Cardoso. Peguei o busão às 14:00, atrasadaço. Queria chegar em Sampa bem antes do horário de pico. Todo mundo iria viajar devido ao carnaval, certeza que as marginais estariam entupidas.
Fui combinando com a Aline, o Cardoso e o Sandro ao longo da viagem usando o celular com parcimônia, pois eu não levei carregador. Ela já tinha chegado a São Paulo e o meu ônibus indo devagariiiinho. Cheguei às 19:00, aproximadamente. Surpresa: até que as marginais não estavam tão zuadas. Corri para o metrô, satisfeito. O Sandro me disse que estaria de regata e bermuda vinho, vou em direção à bilheteria e voilá, vejo alguém trajado assim. Era ele mesmo, havia acabado de chegar também, com nossos ingressos. Era para eu ver o show, pus na cabeça que ia ver. E vi.
Estava perto do guitarrista Bobbie, daí decidi ir para o outro lado quando o baixista e vocalista Bobby Hackney começou a falar sobre a Motown e Marvin Gaye, de como a soul music era importante para eles, e tocaram algo que não reconheci, mas supus ser o Gaye. Queria ficar perto do Bobby, afinal ele canta aquelas músicas há mais de quarenta anos, e consegui ficar em frente, muito perto dele; pena que não dava para ver direito o batera tocando, o Dannis Hackney. Então sinto um toque no meu ombro, era a Aline, em quem dei um abraço e dois beijos, não um só, de felicidade. O show foi lindo, não tem nem muito o que falar, senão estraga a sensação, indescritível para quem não vi(ve)u.
Findo o show, após o bis, despedi-me de Sandro e seus amigos e fui dar uma volta com a Aline para acharmos o Cardoso. O encontramos. Reparamos que havia uma banquinha na qual os caras do Death estavam dando autógrafos. Ela me ajudou a escolher uma camiseta e comprei um pôster para autografar. Após tirar uma foto com eles resolvi trocar algumas palavras; soltei um “I came from a small town so far away, thanks for the show!” ao que eles responderam com largos sorrisos e um sonoro “Thank you!” que me pareceu genuinamente empolgado.
Foi uma noite quase perfeita, então foi perfeita. Se fosse perfeita, não seria punk. Despedi-me da Aline no metrô e fui dormir na casa do Bruno. Ao pegar o ônibus de volta para casa, no dia seguinte, comprei o Laranja Mecânica do Anthony Burgess e voltei lendo-o sem ouvir música nos fones. Não precisava.
Daniel Souza Luz é jornalista e revisor 

Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade, de Poços de Caldas/MG, em 11 de agosto de 2018. É uma versão resumida e com algumas atualizações (infelizmente meu amigo Bruno, citado na crônica, faleceu em julho deste ano) de Death, uma crônica protopunk, publicada aqui em oito de fevereiro de 2016, três dias após o show.  

Death ao vivo em cinco de fevereiro de 2016, no Sesc Belenzinho, em São Paulo. Tirei a foto com celular, ficou com a qualidade razoável, creio.
                   

Tuesday, July 31, 2018

Seção 25

Era uma daquelas típicas frias manhãs poços-caldenses que parecem deslocadas, sob o sol alto no céu alijado de nuvens proporcionando um calor ínfimo; aquela sensação de que morava em Ganimedes ou em Io, longe demais, longe demais. Viver insulado em um grande satélite nos anos oitenta fazia com que me apegasse muito a qualquer artefato de civilizações distantes. Naquela manhã encontrei um numa calçada da rua Berilo, na parte baixa do Marçal Santos, o bairro da minha infância. Era uma fita cassete ordinária, sem a caixa, sem nome do dono ou qualquer indicação do conteúdo, mas nitidamente usada.
Peguei-a e esperei. Ninguém apareceu para reclamá-la. Era paciente, tinha tempo, estava com apenas 14 ou 15 anos. Subi a rua onde morava, a Platina, postei-me estrategicamente numa sombra e observei por muito tempo se alguém passava procurando algo no chão perto de onde estava na Berilo. Nada. Era minha, era justo. Estava curioso, coloquei-a no toca-fitas assim que pude. Tinha muita musiquinha sem graça da acid house então em voga. Era dance music bem genérica mesmo; só reconheci o Konkan, uma banda de tecnopop que lembrava um New Order anêmico.
No meio de tanta batida dançante que não dava vontade de se mexer, no entanto, reluziu um tesouro. Era um som com camadas hipnotizantes de sintetizadores, bateria eletrônica e então surgia aquele baixo gordo, potente, destacado. O vocal, distante, contido, deixa mais dúvidas ainda; tudo parece muito também o New Order, a banda que dominava o rádio à época, mas com a audição entrei no Vale da Estranheza: algo estava fora do lugar, aqueles belos backing vocals femininos não se encaixavam, a energia e a criatividade futurista se assemelhavam, mas estava diante de outro ente. Não era uma cópia, parecia um clone robótico que havia assimilado os maneirismos do original e criado personalidade própria.
Perdi a fita numa mudança, mas nunca me esqueci da longa odisseia daquela música. A batida e os acordes foram entranhados no meu DNA. Não havia informação nenhuma que pudesse recuperar ou acessar que não fosse essa memória. Haveria de ser paciente.
Em 1996, seis ou sete anos depois, o mistério começou a se desvanecer. Quando meu amigo Daniel Ferreira, que cursava Arquitetura na Unesp, pediu para morar na mesma república em que eu e meu irmão morávamos, ele me emprestou várias fitinhas. Finalmente pude ouvir Misfits, músicas da Siouxsie and the Banshees que ainda não conhecia e numa delas uma que fez meu coração bater forte e compassadamente, como um marca-passo remoto: Inspiration, do Section 25, era o nome daquela joia cibernética que havia encontrado numa calçada por onde minha infância havia caminhado antes.
Tudo fez sentido, maravilhosamente. Ainda me lembrava de uma resenha do jornalista e escritor Alex Antunes na extinta revista Bizz, na qual ele explicava que a imprensa oitentista acusava o Section 25 de ser uma mera cópia do Joy Division e do New Order, mas que não era bem assim: nas suas palavras, era antes uma banda-irmã dos dois grupos de Manchester, assumidamente influenciado. O mais incrível de tudo, para mim, é que tiveram o primeiro compacto produzido por Ian Curtis, o vocalista do Joy Division, minha banda favorita, meses antes de seu suicídio. A relação era tão umbilical que me recordo que ao ler a biografia Touching From a Distance, de Deborah Curtis, ri ao descobrir que o poeta e mito Ian Curtis ficou com um olho roxo ao se meter numa briga num show do Section 25, sendo, enfim, um humano como qualquer outro.
A fita que o Daniel gravou deixava clara a ligação: as músicas no começo soam como o Joy Division, lúgubres, etéreas, intocáveis, e vão paulatinamente tornando-se mais tecnopop e dançantes, como o New Order. O advento da internet, no entanto, fez-me descobrir que isso foi outro mito que carreguei comigo por muitos anos. Ainda que o single e as primeiras músicas do Section 25 atravessem sendas pouco iluminadas, as músicas que mais se assemelham ao Joy Division, como Beneath the Blade, estão no disco mais pop. Meu xará gravou tudo fora de ordem numa coletânea muito pessoal naquela fita; gostaria de retomar o contato com ele, possivelmente este era o intuito dele, ouvir com a sensação de uma evolução sonora que na prática não ocorreu, pois o grupo é muito confuso. Aliás, existe até hoje, com a filha dos vocalistas, já falecidos, à frente dos músicos, quase como um Demônios da Garoa do Velho Mundo, mal comparando. E Looking from a Hilltop é que foi o grande hit deles; no Youtube, descobri que Inspiration foi um sucesso nas casas noturnas góticas da noite paulistana nos anos 1980 e só lá. Algum DJ deve ter gostado dela mais do que outras e por algum motivo foi parar naquela fitinha esquecida na rua e que me inspira ternas recordações há anos.  
Daniel Souza Luz é jornalista e revisor

Seção 25 foi publicada em 28 de julho de 2018 no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG). Escrevi a crônica no dia anterior e o título, evidentemente, alude ao grupo Section 25.
 
Capa do single Charnel Ground/Haunted, lançado na Bélgica, em 1980, pela Factory Benelux. Foto de Jim Barker, via licença Creative Commons.



Wednesday, July 04, 2018

Grandes Garotos

Lembro ternamente de um caminhãozinho que ganhei quando era criança, azul metálico com a caçamba laranja. Não existem caminhões assim, por isso gostava tanto dele, creio. A caçamba era funcional, gostava de carregar pequenos objetos nela e descarregá-la.
Quando minha mãe passou a permitir que brincássemos na rua, tive a ideia de fazer uma fazendinha. Eu e meu irmão pegamos uma casinha de brinquedo, pegamos pedacinhos de grama, palitos, fósforos e fizemos uma plantação diversa em torno da sede. Já havia aprendido na escola que monoculturas fazem mal para o solo. Colhíamos a safra e embarcávamos no caminhão até um depósito imaginário. Tudo isso na parte de terra de um gramado, hoje cimentado, no predinho em que morávamos na rua Platina.
Não era o quintal do prédio. Estávamos expostos. Não demorou tanto e chegou um moleque da rua de cima querendo intimar. À toa, só porque era maior e riquinho mal-educado. Parou sua bicicleta ao nosso lado e passou a tirar a sarro. “Estão brincando de casinha igual menininha”, ficou repetindo, com sorrisinho de mofa.  Expliquei que não era de casinha, era de fazendinha. “É a mesma coisa, brincadeira de menina”, continuou com a babaquice, nos desestimulando. Obviamente era uma brincadeira diferente; hoje não me ofenderia, pena que não brinco mais, para poder bater o pé.
Os papéis de gênero são bem cristalizados nas cabeças das crianças pelos pais. Mesmo se fosse de casinha, e daí? Não afeta em nada a masculinidade, como poderia? Mas o pentelho estava lá, há mais de trinta anos, nos aporrinhando gratuitamente. Do outro da rua, para nossa sorte, morava um moleque ainda mais velho, o Neto, que já devia ter uns treze, quatorze, quinze anos. Foi um Deus Ex Machina naquele dia para nós. Enquanto outros moleques se aglomeravam para tomar parte do escárnio e já estávamos a ponto de recolher nossos brinquedos, ele atravessou a rua para ver o que estava pegando. Quando ele tomou conhecimento do que acontecia, se virou para o riquinho e fulminou: “Do que você está falando, seu idiota? É maior fera a fazendinha deles, não é brincadeira de casinha”. Nunca me esqueci disto. E fez o riquinho descer da bicicleta e brincar conosco. Não gostei muito dele participar da brincadeira, mas gostei demais dele calar a boca, humilhado. Foi genial. Vai ver que é por isso, também, que hoje em dia ele é uma pessoa melhor. O Neto se mudou pouco depois, nunca soube o nome dele para agradecê-lo.
Daniel Souza Luz é jornalista e revisor

Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 30 de junho de 2018. A escrevi de supetão no dia anterior e já a enviei. Traz muitas reminiscências queridas da infância e uma reflexão à luz do atual debate dos papéis de gêneros na infância, inspirado numa palestra da minha amiga Andréa Benetti a respeito da Judith Butler. O título é uma homenagem ao Big Boys, uma estupenda e inclassificável banda de skate rock, que transitava com desenvoltura e extrema criatividade pelo punk, funk, hardcore e pós punk. Não bastasse isto, surgiram no ultraconservador Texas, no fim dos anos setenta, tendo como vocalista uma drag queen skatista e gordo, Randy "Biscuits" Turner, que sofreu homofobia na cena machona do hardcore dos anos oitenta. Um grupo sui generis, predecessor do Red Hot Chilli Peppers e do Suicidal Tendencies, que tiveram muito mais sucesso.

Um dos símbolos dos Big Boys. Muita informação sobre a banda pode ser encontrada no site http://www.soundonsound.org/ - no qual peguei esta imagem. 

Tuesday, June 26, 2018

Juventude Sônica

Uma rixa adolescente das mais típicas é por causa de música. Deveria ser ao menos, melhor do que futebol. “Silver Rocket é mais hardcore do que qualquer música do Bad Religion”, “Inocentes nunca será tão bom quanto Cólera”, “Credo, vocês só ouvem barulho, música de verdade é Stravinsky” e por aí vai. A possibilidade de alguém sair na pancada por causa disso é muito menor também, convenhamos.
Da juventude, guardo o encanto de amar sons que me fascinavam, mas que não fazia a menor ideia do que seriam. Por exemplo, quando vi um anúncio de uma marca de skate dos anos oitenta, já extinta, salvo engano a Momento Angular, fiquei fascinado pelas belas melodias das guitarras da trilha sonora. Só quando pude gravar um CD do Sonic Youth, Daydream Nation, quatro anos ou cinco anos depois, é que descobri, por acaso e exultante, que aquela música inspiradora chamava-se The Sprawl. Ainda que já conhecesse o grupo, não desconfiei que fosse deles; mesmo no início da música não reconheci o timbre, mas quando finalmente aquelas guitarradas densas afloraram nas caixas de som fiquei extasiado ao reconhecê-las.
Atravessar a brisa, como se diz hoje, daquelas discussões e sair incólume era um pouco difícil. Era um lixo total, ainda é, aturar algum músico metido a besta dizendo que tal som é simplório, que qualquer um faz e tal, que bom mesmo é, sei lá, Rush. Aliás, quem dizia isso eram os caras que nunca compuseram nada de bom na vida e cuja utilidade, ainda nos dias de hoje, é reproduzir as músicas de outrem, quando muito, em algum barzinho em que ninguém lhes presta atenção. Eventualmente têm fazer isso com o que desprezavam antes como muito simples; músicas dos Beatles, por exemplo. Bem feito.
“Ei, Joni Mitchell é muito bom, conhece?”, “Tá viajando, Eric. Você não era radical, não gostava só de death metal? Como pode falar que Guns n’Roses é ruim se gosta desse troço hippie? Poser!”. Testemunhei diálogos mais ou menos assim, amigos patrulhando o gosto musical dos outros. O certo era tomar a providência de botar panos quentes, mas adolescente gosta mesmo é de carregar vela pra pôr fogo na lona do circo, né? E aí não havia rei da chuva para apagar as chamas da treta. Acho até engraçado ver quem é mais novo chamar os outros de posers hoje em dia, antes esse xingamento era restritos a adolescentes dos anos noventa que gostavam de hard rock dos anos oitenta.
Conforme se ganha a habilidade de se dar uns beijos, brigas musicais se tornam menos intensas, talvez. Não há verdades absolutas. A paixão, no entanto, nunca diminui. Mas é melhor ficar em casa lendo trilogias e pondo bons LPs na vitrola do que perder tempo discutindo com cabeças de bagre que não entendem que Green Day nunca será melhor do que Ramones, o que é uma verdade científica insofismável.
Daniel Souza Luz é jornalista e revisor
Detalhe de um show do Sonic Youth em Paredes de Coura, Portugal, 2007. Foto de Catarina Limão, via licença Creative Commons. A postagem original da fotografia pode ser vista aqui.

Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 23 de junho de 2018. Era inédita até então. A escrevi no dia 21 de junho e a revisei no dia 22, acrescentando a frase "Não há verdades absolutas" e a piada da última frase (espero que entendam a ironia). O título é uma homenagem ao Sonic Youth, cujo nome já havia dado a um conto que publiquei aqui no blog em 25 de janeiro de 2015. A maior inspiração para esta crônica foi o disco Daydream Nation, de 1988; cito os nomes de todas as músicas, disfarçadamente ou não, ao longo do texto - menos os nomes específicos das partes de Trilogy; não soube como fazê-lo.  

Wednesday, June 06, 2018

Sussurros Japoneses

Há crianças que amam gatos. Que lamentam banhos. Que fazem birra para não comer salada. Cada uma com sua mania. Eu tinha medo de monstros japoneses.
Meu irmão é mais novo do que eu e adorava Ultra Seven e Spectreman, que me despertavam pavor. Não só seus inimigos, mas também os protagonistas, que para mim nada tinham de heróicos. Não sei explicar por que algo tão farsesco como esses seriados japoneses inspiravam-me medo. Achava que seria esmagado, tenho essa vaga sensação quando penso a respeito. Um desses dois heróis aí se agigantava para combater os monstros que vinham arrasar Tóquio. Talvez ambos. Só via trechos disso e saía da sala, pra mim qualquer um deles poderia pisar no prédio onde morava. Procurava não externar esse medo; deveria tê-lo feito, alguém poderia me explicar que isso só acontecia no Japão e eu poderia tranquilizar-me, igual a um amigo da pré-adolescência que não tinha medo de demônios porque os filmes mostravam que eles só possuíam pessoas nos Estados Unidos. Ele acreditava piamente nisso.
Lá pelos oitos anos esse medo passou. De bobeira, um dia, liguei a TV e estava passando Robô Gigante. Era uma família de robôs espaciais, tinha o pai, a mãe e o filho que combatiam invasores da Terra. Ah bom, de família não tenho medo. Já dos defensores dela... Bem, isso é outra história. O fato é que, ao que parece, o seriado não era assim como o descrevo, na realidade. Seria um garoto que controlaria o Robô; então tenho a memória falsa de que era uma família de robôs, ou havia um seriado concorrente de robôs gigantes, ou me induzi a acreditar que havia uma família, inclusive me lembro da Robô Gigante, maior do que filho e menor do que o marido. Prodígios da mente infantil.
Até o medo do Spectreman e do Ultra Seven acabou. Nem sei bem qual é um e qual o outro até hoje, são clássicos da TV, mas não prestava atenção. Já de Robô Gigante gostava tanto que não teve como não gostar de Círculo de Fogo, filme do Guilherme del Toro, inclusive me identificando com o medo que a personagem Mako sente ao se confrontar com suas memórias de criança. Fizeram uma continuação, mas sem o del Toro dirigindo não me animo tanto assim, por mais que adore robôs gigantes. O melhor de todos eles, aliás, é o Robert Smith, do The Cure, transmutado em um robô-borboleta num episódio do infame desenho South Park para combater uma monstruosa Barbra Streisand, transformada num robô maligno que arrasa a cidade onde se passa a história.
Todos estes seriados japoneses eram dos anos sessenta e setenta. Em meados dos anos oitenta estrearam no Brasil outras produções nipônicas, mais contemporâneas, mas tão toscas quanto suas predecessoras. Aí já não falavam mais a minha linguagem, mas o pessoal um pouco mais novo ainda gostava e a geração da minha irmã Fernanda, principalmente, adorou. Jaspion e Changeman foram grandes sucessos seguidos, salvo engano, pelo Jiraya. Na real, era Esquadrão Relâmpago Changeman; no seu quarto e no quarto acima do nosso apartamento, no apê da nossa vizinha Paulinha, Nanda e sua turminha, nossos também vizinhos Giovani Molinari e Juliana Mariano, imitavam a formação e os movimentos do esquadrão. Tinha até gente da minha idade caindo nessa. Eu já era velho demais para aquilo, achava uma bobeira. Queria mais era um beijo das meninas da minha idade, só um beijo que fosse, não tinha mais a mentalidade para aquelas criancices; afinal já era rapazinho e gostava é de videogames, filmes de terror e outras infantilidades de adultos.
Numa tarde de um sábado perdido no fim dos anos oitenta fui dar uma caminhada no centro da cidade com meu amigo Cleiber Pomárico Filho, hoje cirurgião plástico em São Paulo. Fiquei muito feliz, pois não era de andar a pé pela cidade à toa. Vimos uma movimentação em frente à locadora Click Vídeo, que há muito não existe mais, na rua Prefeito Chagas, a qual havia sido fechada para a circulação de veículos. Paramos para ver o que era e descobrimos que se tratava de uma exibição com atores representando os Changeman. Da esquina, meio de longe, vimos minha irmã e meu pai na calçada, esperando pela apresentação; eles também nos viram e deram tchau de lá. Conversando sobre garotas, absortos, fomos surpreendidos por atores vestidos como os inimigos da trupe do Changeman, uns alienígenas todos azuis, desengonçados, que sussurravam uns barulhinhos ininteligíveis. Caímos na gargalhada por nos vermos bem no meio do show.
Tempos depois ainda lembrávamo-nos do episódio aos risos. Comentando a respeito com minha irmã, há poucos anos, também me recordei que achei as vestimentas dos atores, todas, muito realistas, tendo em vista o quão irreal originalmente eram. Estavam perfeitas, era convincente. Então a Nanda me contou que, como ela era muito gurizinha, com uns seis aninhos, ela achou que era de verdade, que era mesmo os integrantes do Esquadrão Relâmpago Changeman! Achou que a luta foi real. Que bom que ela gostava; com a mesma idade, se eu tivesse visto o Spectreman na rua, eu teria saído correndo e me acabaria de chorar. Naquele dia, o que foi apenas um caso folclórico para mim quando fui para a cama, para ela foi um sonho. O sonho. Aliás, esta crônica é dedicada para a Fernanda, espero que tenha uma surpresa ao revisá-la, como usualmente faz. Minhas crônicas que saem com erros são as que não mando para ela revisar.
Daniel Souza Luz é jornalista e revisor

Sussurros Japoneses é uma crônica inspirada numa conversa com a minha irmã, meses atrás. Ao revisar a crônica, ela me disse que se emocionou e que ficou com a voz embargada ao ler o último parágrafo para o meu irmão. Tirei o título de uma coletânea de compactos do The Cure, cito todos os nomes das músicas da compilação em meio ao texto, o que me motivou muito. Enquanto escrevia, me lembrei do episódio do South Park em que o Robert Smith vira um mecha (robô gigante), veio a calhar! Foi a primeira crônica totalmente inédita que fiz para o jornal desde o início de março, quando escrevi Dispositivo da Moda; nos três meses seguintes somente reescrevi e ampliei crônicas que havia publicado anteriormente no blog. Sussurros Japoneses saiu no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) no feriado de 31 de maio de 2018. Em relação à original, apenas fiz uma alteração de estilo numa frase e também corrigi o nome do Spectreman. Na versão publicada pelo jornal grafei erroneamente como "Spectremen", que na verdade soa melhor aos meus ouvidos - o certo para mim deveria ser "Changemen" e não Changeman, então um herói com nome no plural faz um bom contraste ao Esquadrão Relâmpago.   


Print do PDF da edição do jornal no qual a crônica foi originalmente publicada; o jornal ilustrou o texto com uma foto do Spectreman.

Wednesday, March 21, 2018

Morrissey, uma poesia

Escrevi uma poesia chamada The Smiths
Um dia a lerei num sarau
Mas não será nesse
Um dia a moça para quem a escrevi
Estará por perto

Daniel Souza Luz
20 de março de 2016
Morrissey ao vivo em 2014, em Nashville. Foto de Kathryn Parson (Creative Commons).


Escrevi esta poesia, de improviso, no Sarau de Ninguém e a publiquei no dia seguinte no Instagram. O sarau é organizado pelo músico poços-caldense Tokinho Carvalho e neste dia a poeta convidada era a brasiliense Tatiana Nascimento, que estava lançando seu livro lundu, (o título é assim mesmo, com inicial minúscula e vírgula no fim) e até o autografou para mim citando a leitura da minha poesia poesia no recital. Escolhi homenagear o Morrisey no título pois, além da poesia original chamar-se The Smiths, esta aqui é muito melodramática.

Friday, March 02, 2018

The Fall

Mark E. Smith, o vocalista do The Fall, faleceu dias atrás, mais precisamente no dia 24 de janeiro de 2018, aos 60 anos. Tinha fama de ser uma pessoa difícil; era o único membro constante da banda, pela qual passaram mais de sessenta músicos. Para mim, é uma daquelas lendas sobre as quais lia na imprensa quando garoto, mas cujo contato com a obra em si demorou um pouco.
O Fall era a típica banda pós punk da mítica Manchester, cidade industrial inglesa então decadente, refletida na sonoridade sombria e nas letras de E. Smith abordando aspectos menos felizes do cotidiano, o que o tornou uma figura cultuada pelo seu texto e vocal inconfundível, aliás, como muitos outros letristas de sua época, tidos como poetas de primeira linha.  Mesmo tendo início nos anos setenta, imediatamente após a explosão do punk em 1977, é uma banda fortemente associada aos anos oitenta, pelas suas características e pela relevância da discografia daquele decênio.
Embora lesse a respeito na Bizz, extinta revista musical, no finzinho da década de oitenta, só fui ouvir em 1992, quando estava no chamado secundário (hoje ensino médio) e um colega viu o desenho que fiz do logo do PIL no meu caderno, puxando conversa. Esse colega de sala, o João Louco, ao saber que o Joy Division era minha banda favorita, gravou para mim o Bend Sinister, disco do Fall que ele tinha na edição em vinil. Não me decepcionou, pelas ótimas referências que tinha poderia ter cultivado expectativas excessivas. Só estranhei alguns teclados new wave em músicas animadinhas que contrastavam muito com o tom sóbrio, mas há muito tempo saquei que aquilo era cinismo, o típico sarcasmo oitentista, por parte deles.
Com o passar dos anos noventa, achei em sebos tanto o Bend Sinister, de 1986, quanto o The Frenz Experiment, de 1988, os únicos discos que saíram no Brasil, ao menos que eu saiba, ambos em vinil. Sou especialmente afeiçoado ao primeiro, que foi o disco pelo qual os conheci. Embora encontrando CDs importados, baratos quando o dólar estava em paridade com o real, antes de 1998, e ouvindo outros discos pela internet, neste século, não conheço nem metade da discografia do The Fall e olha que sou bem fã; no entanto, logo explicarei meu parcial desencanto com o grupo. Mark E. Smith era extremamente prolífico e lançou 78 (setenta e oito!) LPs, contando os inúmeros ao vivo, entre 1979 e 2017. Isso sem mencionar os compactos e EPs.
Ouvi por cima o penúltimo disco de estúdio, Sub-Lingual Tablet de 2015, e até apreciei, mas o último disco deles que realmente gostei foi o Extricate, de 1990, o qual procurei apenas em 2016. É brilhante, começa como citação aos Stooges, e musicalmente é uma continuidade um pouco mais polida dos discos anteriores, com alguns músicos remanescentes. Mas a verdade é que quando conheci o disco de 1993, que fez até certo sucesso no exterior, The Infotainment Scan, meu interesse pelo grupo arrefeceu, pois dos anos noventa em diante me parece que E. Smith passou apenas a se repetir, mas usando outra banda, aliás, qualquer banda.
Um amigo, Aran Carriel, me contou de uma frase famosa de E. Smith, “Se sou eu acompanhado por sua vovó nos bongos, então é o The Fall”, citada no obituário publicado pelo jornal The Guardian, e me mostrou um vídeo relativamente recente de um show do grupo, no qual E. Smith deixa o palco e diz para os fãs terminarem o show, assumindo o microfone, o que realmente fazem. Talvez o The Fall se torne uma banda infinita por isso, como os Demônios da Garoa, até hoje tocando com descendentes de seus músicos originais; talvez não, espero que não, pois a música já está imortalizada. Já para Mark E. Smith, infelizmente, a queda que espera por todos nós chegou.
Daniel Souza Luz é jornalista e revisor
Mark E. Smith ao vivo com o The Fall, em Berlim. Foto de Stefan Müller, via licença Creative Commons. A original pode ser vista aqui: https://www.flickr.com/photos/stefan-mueller-net/30937763673/

Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 27 de janeiro de 2018 e no site em 29 de janeiro seguinte. Era então inédita e e a escrevi tocado pela morte do Mark E. Smith. Mantive-a como está, não tenho reparos a fazer no texto. O nome da banda já havia inspirado outra crônica minha, The Fall, uma croniqueta, publicada aqui no blog em 31 de outubro de 2016 e reformulada para o Jornal da Cidade, com o título A Queda, que a publicou em primeiro de julho de 2017 e no site em três de julho de 2017. A Queda, inclusive, como já mencionei numa micrônica, é um uma crônica que ainda quero reescreve mais uma vez, pois há mais detalhes a ser contados sobre o episódio.

Thursday, February 22, 2018

O Grupo Pop

O cheiro do feijão cozido impregnava o apartamento. Era uma leseira depois do almoço e da escola. Mas ninguém usava esse termo “leseira”, acho. Falávamos que estávamos “morgados”. Acho que ficávamos morgados o dia todo, por nossos relógios biológicos não estarem adaptados a acordar cedo, recém-adolescentes que éramos, obrigados a ir ao colégio de manhã, após termos sempre estudado à tarde. Só melhorávamos quando saímos pra rua para zoar, do meio da tarde em diante.
O rádio estava sempre ligado. Legião Urbana, Ira!, Plebe Rude, Capital Inicial e Titãs tocavam o tempo todo, eram tão populares quanto Roberto Carlos era para os nossos pais. Tinha banda chata e convencional como o Barão Vermelho também, que até hoje não me desce, isso lá tinha. O doido, no entanto, é que no meio da programação, às vezes, tocava Garotos Podres, Replicantes e Toy Dolls. A primeira vez que ouvi “Eu quero matá-lo/aquele porco capitalista” foi numa rádio FM normal, dessas que hoje tocam, sei lá, Chris Brown. Tá, naquela época também tocava Chris de Burgh, que é tão ruim quanto ou pior, não era tão diferente assim também. Dizem que naqueles tempos havia uma rádio muito boa em Poços de Caldas chamada Cidade FM, que estaria ligada nas novidades do rock dos anos oitenta, mas não guardei o nome da rádio e nem dos locutores, só das músicas e grupos mesmo, quando consegui guardar.
O interessante é que não consigo imaginar uma rádio convencional tocando O Satânico Doutor Mao e os Espiões Secretos, banda do vocalista do Garotos Podres, em 2018. Até porque não é um clima otimista de redemocratização, mas sim uma atmosfera sinistra em que a extrema-direita volta a pedir golpe militar na cara dura. Pior ainda, no fim dos anos oitenta não havia essa praga fundamentalista religiosa. À época, havia toda uma grita contra censura; hoje, se alguém tocar algo com o nome “satânico” no rádio, correrá o risco de perder o emprego. Bem, provavelmente naquela década também e talvez eu esteja edulcorando o passado, afinal a Igreja Católica conseguiu censurar o Je Vous Salue Marie durante a presidência do besta do Sarney. Isso fez com que eu assistisse ao filme com uns quinze anos. Levou outros quinze anos para ter coragem de assistir um filme do Jean-Luc Godard de novo, que hoje considero um gênio, pois assisti ao filme apenas porque ele foi proibido, sem ter maturidade alguma para isto – e achei um porre.
Àquela época rolava também toda uma discussão bizantina na imprensa musical sobre qual seria o grupo pop perfeito. Bobagem, enquanto se digladiavam com isso havia toda uma geração de músicos e inovadores da eletrônica renovando tudo e nada disso de pop perfeito existe, nada é perfeito. Até porque todo mundo sabe que a música pop perfeita foi feita em 1967 e é Femme Fatale, do Velvet Underground.
Enfim, só quem viveu antes do advento da internet e não tinha grana pra comprar discos para saber como é emocionante quando se tocava uma banda da qual você gostava muito no rádio. Era a oportunidade de gravar a música, você tinha que ficar atento. E o mais importante: não ligar na emissora para pedir a música. Senão eles soltavam alguma maldita vinheta em cima. O importante era ligar o rádio e se ligar como um caçador de tesouros no fundo abissal. Eu não gravei Papai Noel, Velho Batuta. Tive que esperar anos para ouvir a música depois, após o começo dos anos noventa. Vocês acham que tocava só Nirvana quando chegou a era grunge? Mal tocava. As rádios preferiam 4 Non Blondes e outras bandas mais palatáveis, nem Pearl Jam rolava tanto assim. O poperô já tinha dominado tudo antes. E nem era ruim no começo, bandas como o Bomb the Bass eram muito criativas; hoje suas enérgicas colagens sonoras só não soam como a música pop eletrônica do futuro porque o futuro já chegou e ele é mais distópico. Mas já sabia que seria assim, não confiava nos DJs. Eu ouvia Smiths desde os anos oitenta e lia algumas das letras, sabia que os DJs de rádio não mereciam crédito. Com exceção do DJ Banana (achava antes que era o DJ Iraí Campos), que inventou a esquecida e engraçadíssima paródia de rap chamada Sbrebow, outro hit dos estertores dos anos oitenta.
Daniel Souza Luz é jornalista e revisor
Foto que tirei com celular em 22/02/2018.
Esta é a terceira versão da crônica Pop Group, publicada aqui no blog em quatro de janeiro de 2016. A segunda versão saiu no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em três de fevereiro de 2018, já consideravelmente ampliada. Nesta versão a revisei, eliminando expressões repetidas e alguns trechos quase pleonásticos, além de corrigir um erro no fim; provavelmente fica esta versão como a definitiva. Principalmente, queria corrigir o título de Grupo Pop e para O Grupo Pop, em homenagem à banda pós punk inglesa The Pop Group, que, diga-se de passagem, era radicalmente experimental e dissonante, não tendo nada a ver com as minhas lembranças radiofônicas.
 

Wednesday, February 21, 2018

Imagem Pública Limitada

Estava distraído. Parado no semáforo, conversando sobre política, um assunto deprimente nesta cidade em fevereiro de 2018, em que somos obrigados a saber que há um vereador obtuso falando abertamente que tem saudades da ditadura na mesma Câmara na qual, nos anos setenta, o então vereador oposicionista Dgeney Diniz de Melo foi perseguido por um mero pronunciamento sobre a PM, a ponto de o episódio figurar no notório livro Brasil Nunca Mais, com denúncias dos abusos cometidos pela ditadura militar. 
Enfim, enquanto ainda há liberdade de expressão, eventualmente usada cinicamente nos seus limites por essas figuras toscas que exultam regimes que a tolhem (pior ainda: um vereador filiado ao partido fundado por Miguel Arraes, cassado pelo regime militar), voltemos para o garoto, mais um, mas parecido demais com os demais: de barbicha, roupas que aludem ao circo, muito jovem, malvisto na família (provavelmente). Fazendo malabarismo com bolinhas. Ou malabares, como dizem.
Notei-o quando errou: uma bolinha escapou e foi parar embaixo do carro ao lado. Sorri – na verdade, ri da cara dele. Ele foi safo o suficiente para levar na esportiva: não se deixou abater, pegou uma das bolas que restaram, vermelha, e a pôs em frente ao nariz, emulando um palhaço que não meteria medo nem na mais traumatizada criança que teme essa figura.
Procurei desesperadamente por umas moedas, mas, como não estava prestando atenção antes, não as encontrei. Quando ele se aproximou, entreguei uma bala. A desculpa que dei é que ela poderia lhe dar energia. O semáforo, que não estava para brincadeiras, deixou de ser vermelho.
Foto de René Mayorga, intitulada Malabares. Disponível via licença Creative Commons no Flickr: https://www.flickr.com/photos/elchurro/158478618/
Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas) no dia 17 de fevereiro de 2018. É uma versão ampliada e principalmente atualizada da minha crônica Public Image Limited (uma homenagem à banda, obviamente), publicada aqui no blog em 12 de julho de 2015. Aproveitei a reflexão do texto original para fazer referência ao triste episódio que menciono, no qual um vereador da bancada da bala local elogiou a ditadura em sessão da câmara municipal, pois não me lembrava mais sobre qual episódio político estava conversando naquele semáforo, na avenida Santo Antônio, em 2015. Queria fazer uma crônica política, analisando o recente fato, e veio a calhar o texto antigo, assim como seu título, para dar um pouco mais de leveza.  
Daniel Souza Luz é jornalista e revisor