Monday, June 14, 2021

Minha Namorada Sangrenta*

Este conto foi publicado no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 12 de junho de 2021 como presente de dia dos namorados para minha namorada, Juliana Gandra, que revisou o texto. É uma paródia de filmes de terror e ficção científica e propositadamente infame, como as melhores produções do cinema B. 

Achei minha fitinha do My Bloody Valentine. Ouvia sem parar nos anos noventa, mas fazia uns vinte anos que estava parada. Não jogo nada fora, ficou acumulando poeira num canto do armário. Só que agora consertei meu aparelho de som; ficou uma nota, mas tá tocando fita cassete de novo. Estava mastigando as fitas antes, mesmo as novas que comprei recentemente e que custaram o olho da cara. Maldito fetiche da mercadoria que fode meu bolso já fodido, antes era tão baratinho...

- Olha meu cassete do My Bloody Valentine. Tem a primeira meia hora do Isn’t Anything de um lado e a primeira meia hora do Loveless do outro. Foi uma amiga que gravou pra mim nos anos noventa.

Ela responde com um muxoxo.

- “Amiga”. Sei. Grande “amiga”.

- Era amiga mesmo.

- Dá para ouvir os discos completos em qualquer serviço de streaming.

Pus para tocar mesmo assim. O som estava muito bom, dado o tempo que se passou. A gravação que eu fazia deixava tudo um pouco mais grave. Fiquei ouvindo, extasiado. A TV está ligada no mudo, ela mais interessada nas imagens do que no som.

- Achei que você gostava deles.

- Gosto. Estou ouvindo.

Fecho o olho e fico viajando em Cupid Come. Quando a música está quase no fim, abro os olhos e ela está boquiaberta olhando para a televisão. Então olho também, para ver o que estava se passando, e vi a notícia: uma bomba nuclear explodiu no sertão da Bahia. Ou um meteorito. Há pânico no olhar dos apresentadores.

- Olha! A janela!

Por cima da serra, brilha uma espécie de halo azul. Um azul cobalto fascinante, bem diferente do azul do dia sem nuvens. Logo depois, escutamos um rumor estranho, ao longe, como se fosse uma espécie de microfonia celestial.

- Estamos sendo atacados?

- Não. Deve ser uma explosão de meteorito, como o de Tunguska. Estava demorando muito mesmo para a Terra ser atingida por um meteorito grande. Desde 1908! Desliga a TV, será que esse barulho não é dela também?

- Já está desligada.

Nos dias seguintes o céu ficou claro como se fosse dia. Ainda bem que a terceira guerra não começou por causa disso. Foi apenas um meteorito, tal como eu havia previsto. Bem, mais ou menos. Na cratera de impacto, os primeiros pesquisadores foram atacados. Estamos sendo invadidos!

Em três horas as criaturas chegam aqui na cidade, a centenas de quilômetros do local da aterrissagem. Parecem gelatinas de morango disformes. Movem-se rápido, são pequenas e pululam nas ruas. As pessoas trancam-se em casa. Não adianta nada, as gelatinas quebram as janelas e invadem os orifícios, qualquer um, dos humanos e animais. Mas não acontece nada com ninguém ou nenhum bicho, apenas se reproduzem rapidamente e saem por algum orifício, aliás qualquer um também. As notícias no rádio e TV deixam isso bem claro, apesar do constrangimento dos âncoras.

- Ah, mas em mim não!

- Nem em mim. E quem disse que não vai acontecer nada depois?

- Sem falar na superpopulação dessas gelatinas siderais. Vão acabar nos matando de outro jeito.

Então bolei o plano. Nos trancamos no banheiro. Uma gelatina esgueira-se debaixo do vão da porta. Jogo um pacote de sal em cima. Ela desintegra-se, não como as lesmas da infância, mas sim numa pequena explosão, e voa meleca na minha namorada, que me protege como um escudo humano.

- Vamos ligar para a TV e anunciar o método!

Viramos heróis. Assistir a tantos filmes B tem a sua valia. Ganhamos uns títulos nas câmaras municipal e dos deputados. Mas só isso, pois ser herói não tem nenhuma mais-valia; exterminar alienígenas não dá dinheiro.

*Feliz dia dos namorados, Juju.  

Daniel Souza Luz é jornalista, revisor, professor e escritor


Selfie do dia dos namorados de 2021. Ela que tirou, eu estava dormindo.


Tuesday, June 08, 2021

Bruno Felisberti: Crônicas da Vida do Mestre dos Pintores de Poços de Caldas, de Chico Lopes

 Esta resenha foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 24 de abril de 2021. O texto foi revisado pela Juliana Gandra. 

O subtítulo desta obra biográfica é muito feliz. Trata-se, de fato, de um livro que foge um pouco do que seria uma biografia convencional. Chico Lopes é a pessoa talhada para escrever um livro sobre Bruno Filisberti, sendo um escritor que atuou na imprensa por anos e tendo conhecimento de causa para falar sobre artes plásticas, pois também é pintor.

O livro foi lançado em dezembro de 2019 (o copirraite, no entanto, indica que foi pesquisado e escrito em 2018); estive presente no lançamento e adquirir um exemplar. No entanto, não o li à época, ainda devastado que estava pela morte de meu pai, falecido naquele mês. Agora pareceu-me o momento adequado, um bom preparo antes de mergulhar no caudaloso (336 páginas) novo romance do autor, A Ponte no Nevoeiro.

Além disso, passado tanto tempo do lançamento, é sempre importante relembrar aos possíveis interessados que a versão digital deste livro sobre um importante artista da cidade está disponibilizada gratuitamente na internet pela empresa que o patrocinou, basta pesquisar pelo título.

Os problemas das biografias, que não se resumem às questões jurídicas que rendem acalorados debates sobre censura, em especial no Brasil, interessam-me sobretudo desde que estudei especificamente o tema na minha pós-graduação em Jornalismo Literário. É quase inevitável que sempre estejam sob fogo cerrado. Escritas por jornalistas ou outros profissionais das letras, são questionadas em sua metodologia por historiadores. Segundo um dos meus professores, lembro-me bem disso, estima-se que cerca de dez por cento das suas narrativas seriam elaborações ficcionais. Como exemplo, usou um trecho do excelente Olga, de Fernando Morais, em que se conta como os guardas nazistas tomaram a filha recém-nascida, Anita Leocádia, dos braços da militante comunista. Consta que Morais localizou um dos presentes, já muito idoso, para reconstituir a cena. Memória falha ou não, é um relato primário de uma testemunha ocular, foi o que observei. Meu professor e futuro orientador, Alex Criado, explicou então que o método científico da História exige que se diga explicitamente que se trata da versão de uma única testemunha, coletada em tal data, em tal local, o que burocratiza, por assim dizer, a narrativa.

Por que trago tudo isso a lume? A biografia de Felisberti escrita por Chico contorna essas questões usando o mesmo expediente que acabei de usar: teorizando a respeito do assunto. Há vários trechos que são quase pequenos ensaios do biógrafo a respeito da Arte, sua aceitação, a dificuldade do artista em lidar com uma sociedade que exige um pragmatismo que, via de regra, é castrador. Questões que, sem dúvida, com certeza também afligiam o biografado. E, provavelmente fruto da experiência do autor como jornalista, não há exatamente uma narrativa cronológica sobre as ações de Felisberti, mas sim entrevistas entre aspas com amigos, conhecidos, estudiosos e admiradores do artista – só não há a data delas, mas há explicações sobre as circunstâncias como foram conseguidas. O que atende em parte às exigências de historiadores. Não que devam obrigatoriamente ser atendidas, mas é um método interessante. Isso leva, como diz o subtítulo, a pequenas crônicas sobre como o artista procedia e pensava. Cita-se ipsis litteris, inclusive, crônicas escritas pelo grande nome das letras de Poços de Caldas, Jurandir Ferreira, que foi muito próximo de Felisberti. E quem conhecemos é apenas o artista.

Um homem extremamente reservado, ele logrou manter-se uma incógnita. Seus amores, seus ódios, todas as paixões que nos tornam humanos, não estão de fato presentes. Infenso ao abstracionismo nas artes plásticas, paradoxalmente tornou-se um ser hermético. Ao biógrafo restou conjecturar, evitando corretamente as armadilhas dos psicologismos, o que inclusive explica ao citar reducionismos freudianos, para traçar um bom perfil.  

Daniel Souza Luz é jornalista, revisor, escritor e professor




Monday, June 07, 2021

Partes De Uma Casa, vários autores

 Esta resenha foi publicada originalmente na página dez da edição número 7526 do Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em três de junho de 2021.

A exemplo da coletânea Partes De Um Corpo, também editada pela casa editorial TAG, Partes de uma Casa é uma coletânea de contos inéditos que acompanhou o romance do mês passado, O Pássaro Secreto, de Marília Arnaud, vencedor do prêmio Kindle em fevereiro. Tal como seu par, que acompanhou o livro inédito daquele mês do clube de livros gaúcho, não é um mero apêndice, mas sim uma obra independente para a qual sete autores foram convidados a escrever contos que têm como espaço uma casa, tendo em mente a pandemia. O prefácio é do incensado Itamar Vieira Júnior, escritor baiano que ganhou fama ao conquistar o prêmio Jabuti de 2020 com o romance Torto Arado, mas apenas cumpre tabela. Ao menos não dá muitos spoilers, até dá para lê-lo antes de se ler os contos. O primeiro conto chama-se João Maia, 237. É uma ótima reflexão sobre o perdão, ou a impossibilidade de se perdoar, da gaúcha Carol Besimon. Aliás, este livro é bem mais provinciano do que o seu volume análogo; há muitos escritores do sul do país, em especial do Rio Grande do Sul. Solange, o segundo conto, de Jeferson Tenório, peca pelos personagens estereotipados e a narrativa artificial, salvando-se apenas pelo desfecho. Segue-se a ele Sem Saída, de Marília Garcia, que é antes um ensaio pessoal do que um conto. Ela pesa um pouco na metalinguagem e neste ponto passa-se a temer que o pequeno volume se torne uma leitura enfadonha, sensação agravada por Não Me Olha, Não Me Diz Nada, cuja narrativa lúdica torna a leitura até leve, mas é pouco para o talento de Natalia Borges Polesso, autora que eu já conhecia de ler nas redes sociais. No entanto, o quinto texto, Basta A Cada Dia O Seu Próprio Mal, de Miguel Del Castillo, é muito mais um exercício de exorcismo do que um conto e é absolutamente brilhante, a começar pela impactante escolha do título. O alto nível, inclusive de tensão narrativa, é mantido por A Porta Da Rua, de Caetano W. Galindo. Por fim, a escritora trans Amaira Moira fecha esse volume com um conto surpreendentemente terno, Luan Ângelo, contrariando expectativas de uma tragédia eminente vivenciada por grande parcela da população LGBTQIA+. Noves fora, é uma compilação de autores brasileiros das novas gerações que se saiu melhor do que Partes de um Corpo, que li antes.

Daniel Souza Luz é professor, jornalista, escritor e revisor




Tuesday, June 01, 2021

Cristal, de Paul Celan

 Esta resenha foi publicada na página oito do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 22 de maio de 2021. Foi publicada originalmente no Good Reads em outubro de 2019; a reescrevi e a adaptei para a publicação no jornal. O texto foi revisado pela Juliana Gandra.  

No ano passado comemorou-se o centenário de Paul Celan, um dos poetas mais celebrados pela crítica no século passado. Apesar disso, ele permanece pouco editado no Brasil. A Editora 34 recém-lançou A Rosa de Ninguém, uma de suas obras mais importantes, originalmente publicada em 1963. Enquanto não ponho as mãos nele, relerei e me deleitarei novamente com a coletânea Cristal, publicada pela Iluminuras em 1999. Não sei de mais nenhuma outra obra dele lançada aqui. Este livro é um portento. Nem sei se deveria dizer muito mais a respeito, ainda mais sendo (quase forçosamente) neófito na poesia de Paul Celan. Foi indicação e empréstimo do meu ex-aluno e amigo Jorge Benedito de Freitas, que estudou Celan no doutorado. Esta coletânea compila poemas de todos os livros reconhecidos pelo autor; a seleção foi da tradutora, Claudia Cavalcanti. Li, ao longo de quase dois meses, um poema por dia. Por fim, depois de passado um bom tempo, li um discurso que Celan proferiu na entrega de um prêmio literário, que na verdade é um ensaio complexo sobre o fazer poético e logo vi que sua erudição demandava muita concentração - separei uma tarde de domingo em que pude lê-lo atentamente. Recordo-me que pedi para meu irmão cuidar do meu pai, então com câncer, para que eu tivesse uma folga por algumas horas e mergulhasse no raciocínio complexo do autor. Nos textos de apresentação de Cavalcanti e Márcio Seligmann-Silva aprendi que Celan era judeu, nasceu na Romênia, passou a maior parte da vida na França e mesmo assim considerava-se um escritor alemão, língua na qual escrevia. Até o Jorge me emprestar o livro, jamais tinha ouvido falar nele. O tema do Holocausto, do 20 de janeiro de 1942 citado na orelha e no discurso, pareceu-me ser aludido apenas em algumas poesias no início. Com o passar dos anos, noto que ele tornou-se cada vez mais conciso. Suas obras finais, as que não tiveram muita atenção do público e crítica, foram as que mais gostei. Ele torna-se simultaneamente mais explícito, como em Uma Folha, Desarvorada, que é dedicado a Bertolt Brecht, e ao mesmo tempo mais enigmático – na verdade, extremamente hermético. Os dois últimos poemas, póstumos, fascinam-me em particular; para mim tangenciam a FC, o que é inaudito, creio. No apêndice, o discurso menciona a questão do diálogo do poeta com o Outro (inclusive Celan destaca que este encontro se dá em outros tempos, pelo que entendi), o "tu" ("Du") que meu amigo Jorge tantas vezes marcou nos textos originais - a edição é bilíngue - e que a tradutora optou por tornar sujeito oculto. Isto me chamou muito a atenção. Parece-me que alguns poemas ganham outro sentido, que Celan não está falando (somente) com sua musa: "Foste minha morte/Pude deter-te/enquanto tudo me escapava". Ele estava falando de viver em você, leitor, por mais algum tempo, não? Não sei. Mas talvez - talvez - seja isto a majestade do absurdo que testemunha a tênue presença humana da qual ele fala.

 

Daniel Souza Luz é jornalista, escritor, educador e revisor




Monday, May 31, 2021

Serviço militar obrigatório para mulher? Recuso-me! Denuncio!, de Maria Lacerda de Moura

 Resenha publicada originalmente no Good Reads em dezembro de 2019; reescrevi e ampliei para publicação no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 29 de maio de 2021. O texto foi revisado pela Juliana Gandra e ainda inseri uma informação na última linha, após a publicação no jornal: a data da publicação original do livro.

Ótimo livro sobre objeção de consciência. Maria Lacerda de Moura nasceu em Manhuaçu, Minas Gerais (não que isso importe para uma anarquista), e faria 134 anos neste mês, caso isso fosse possível para a espécie humana. O ponto de vista anárquico e antibélico da autora rejeita tanto o feminismo liberal, que defende que mulheres também integrem as forças armadas, quanto o feminismo comunista de Alexandra Kollontai, que sustenta que as mulheres tomem parte do aparato bélico para que se instale a ditadura do proletariado. Diga-se de passagem, isto não consta no livro, mas Kollontai abandonou os ideais feministas de outubro de 1917 e apoiou o reacionarismo de Stalin, que passou a proibir o aborto e cancelou outras conquistas femininas da revolução. O conteúdo do livro na verdade é a transcrição de uma conferência de Maria Lacerda de Moura, proferida em dezembro de 1932, à semelhança de Por Que Não Sou Cristão, de Bertrand Russell. O feminismo libertário de Maria Lacerda é impiedoso com mulheres que transigem com o militarismo, imputando o fato à educação conformadora que as fazem enxergar-se em papel subalterno a ponto de defender esta função. A argumentação é muito sólida, a despeito do caráter panfletário. O livro inclui dois artigos posteriores para o jornal santista A Tribuna, por isso tem o subtítulo "(e outros escritos...)", mas sem a mesma verve. De qualquer forma, são importantíssimos registros históricos. Espero que algum dia o livro seja reeditado com a nova ortografia e uma revisão mais caprichada. Não há crase alguma, por exemplo, e mistura-se a grafia da época com a então vigente antes da reforma que entrou em vigor em 2009, pois foi editado pela pequena editora anarquista Opúsculo Libertário em 1999 (e publicado originalmente em 1933).

Daniel Souza Luz é professor, escritor, revisor e jornalista




Thursday, May 20, 2021

Partes de um Corpo, vários autores

Autores do livro: Cláudia Tajes, Giovana Madalosso, Antônio Prata, Jarid Arraes, Tati Bernardi, Jessé Andarilho e Mel Duarte.

A TAG é uma editora gaúcha que tem uma proposta interessante: um clube de livros. O leitor assina e recebe em sua casa uma obra da qual não tem conhecimento prévio. Não é um expediente inédito e, basicamente, são livros de outros editoras que recebem um tratamento de luxo, com vários apêndices. Algo parecido com o extinto Círculo do Livro, que funcionou entre as décadas de 1970 e 1990, mas muito mais caprichado. A boa novidade é que passou a publicar títulos inéditos e neste mês as duas obras ofertadas estão sendo acompanhados por obras independentes, ou seja, livros de contos que não são meros apêndices. Um deles é Partes de um Corpo, que veio junto ao livro Gostaria que Você Estivesse Aqui, de Fernando Scheller. Enquanto lia-o, repensei um pouco minha condenação ao uso de redes sociais: por parte delas, descubro e leio vários bons novos escritores, alguns deles presentes neste volume. De qualquer forma, uma coletânea dessas é sempre bem-vinda, pois transcende os esquemas de algoritmos que tentam capt(ur)ar nossos gostos. Aos autores convidados, foi dado o tema que está exposto explicitamente no título, que ganharia relevância numa pandemia que extirpou os corpos de mais de 400.000 brasileiros. Alguns contos, muito alegóricos, acabam por não passar essa urgência da contemporaneidade proposta, no entanto. Não que isso seja ruim, acaba tornando este pequeno painel mais diverso. Recomendo deixar a leitura do prefácio, de Socorro Acioli, por último. Acaba entregando muito dos contos, todos inéditos. Mesmo assim, ela expõe muito de O Nariz, de Gógol, que não li por pouco há uns anos, e O Visconde Partido ao Meio, de Ítalo Calvino, que está há meses na minha pilha de livros a serem lidos. Tendo isso em mente, tentarei dar o menos de spoilers possíveis. Bile n.º 5, de Claudia Tajes, é o primeiro texto e é o mais distópico de todos – na verdade, o único, e era de se esperar outros, dado o contexto. Fortíssimo e surpreendente, contrasta com o conto seguinte, o delicado Melanomas, de Giovana Madalosso. Entretanto, há muitos pontos de contato, pois ambas as tramas partem de tratamentos oncológicos e há muitos termos médicos – dá até para supor que as autoras tiveram que enfrentar a doença nas suas famílias, pois também sou familiarizado com tais vocábulos. São os melhores. Bourbon, de Antonio Prata, é hilário e rápido. Neste caso, tenho que entregar uma parte fundamental da história: é sobre um falo falante. Não é algo de todo original, ao contrário do que parece; O Tagarela, HQ do italiano Paolo Baciliero, publicada no Brasil no início dos anos 1990 na icônica Grandes Aventuras Animal, já contava uma história parecida e até mais engraçada. Antonio, no entanto, insere discussões deste século na história e demonstra ser até mais hábil para o humor do que seu pai, Mario. A narrativa seguinte é Engolir o Amor, de Jarid Arraes. Já havia lido um de seus livros de poesia, Um Buraco com meu Nome, e foi uma grata surpresa ver que também domina muito bem a prosa ao abordar as crendices do catolicismo popular e seus efeitos, muito deletérios, nas relações interpessoais das protagonistas. O conto que se segue, O Dedão de Carolina, é uma grata surpresa: é de Tati Bernardi, a quem costumava ler na Folha de S.Paulo, junto com Antonio Prata, e me fartei de seus textos acerbos e egocêntricos, especialmente os que abordavam maternidade e saíam na Revista da Folha. Ao contrário do que esperava, não há nenhuma birrinha de gente branca de classe média alta no texto, mas sim uma história quase tão cômica quanto ao de seu colega de jornal. Os dois últimos, infelizmente, não são tão bons. Braço Direito, de Jessé Andarilho, é um texto metafórico, uma brincadeira com lugares-comuns; é bem urdido, mas não faz rir. O que, talvez, nem seja a intenção do autor, mas parece-me que sim e que ele não alcançou seu intento. Daquela que te Alimenta as Memórias, de Mel Duarte, ótima poeta – dessas que conheci e leio nas redes –, pesa muito na questão autorreferencial e faz pensar como o incensado modelo de autoficção já está muito desgastado. De qualquer forma, temos aí autores e autoras de formações e públicos muito diferentes reunidos num pequeno livro interessante, que pode apresentá-los para leitores de fora de suas bolhas.

Daniel Souza Luz é professor, jornalista, escritor e revisor


Esta resenha foi publicada originalmente no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 18 de maio de 2021. O texto foi revisado pela Juliana Gandra.  




Monday, May 03, 2021

A Bagagem do Viajante

Conforme lia este livro de crônicas, que foi presente de uma amiga, dei-me conta de que já havia começado a lê-lo nos anos noventa, quando o comprei numa livraria no campus da Unesp em Bauru, esperançoso de ter uma ótima leitura, dada a reputação do Saramago. Mas detestei-o e o deixei de lado. Esqueci-me dele de tal forma que não me lembrava mais do título e, como a reedição tem uma capa muito diferente da edição original que adquiri em 1996, de um lindo roxo brilhoso, não percebi de imediato que passei a ter duas edições diferentes da mesma obra. Lendo-o agora, tendo mais paciência, devido à idade, notei que não é tão ruim assim. Apesar da frustrada primeira experiência, não fiquei com nenhum ranço do Saramago; naquela década mesmo, ainda jovem, li O Conto da Ilha Desconhecida e achei ótimo. Meu problema com este livro é que as crônicas brasileiras são ótimas, uma tradição que provavelmente é inigualável. Saramago, português nobelizado, tem a mão pesada demais para o gênero. Ele diz que tem um tom "doce-amargo" nas suas crônicas; balela, são apenas amargas mesmo e, principalmente, maçantes. Há algumas lindíssimas (A minha subida ao Evereste, As terras, Os portões que dão para onde?) e lê-se o livro na expectativa de que outros momentos sublimes como estes se repitam em meio a tantos queixumes chatíssimos, mas eles não vêm, não vêm. Felizmente, valeu a pena chegar ao fim: a última, A perfeita viagem, é tão inspirada quanto aquelas que me encantaram.


Daniel Souza Luz é jornalista, revisor, escritor e professor. 

Esta resenha foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 17 de abril de 2021. Originalmente foi escrita para o Good Reads. Eu a adaptei para sair no jornal, o texto foi revisado pela Juliana Gandra. Esta é a versão final, com mais uma revisão, feita por mim mesmo. É o mesmo texto do jornal, com uma pequena correção para que uma frase ficasse mais compreensível. 




Wednesday, April 21, 2021

Aniversário em 2021

Uma chamada em grupo. De surpresa. Dos trinta selecionados, vinte e dois atendem.

- Oi, geeenteeeemmmm! Vocês devem estar se perguntando por que os reuni aqui. É que quero um resgate de um milhão de dólares de cada um vocês. Sequestrei a dignidade de todos.

Alguns riem. A maioria está meio atônita. Então a responsável pela chamada explode em gargalhadas.

- Brincadeirinha! Hoje é meu aniversário. Me deem parabéns!

Aí o gelo racha e quase todos racham o bico. Chovem parabéns, parabéns, parabéns.

- Sequestrou minha dignidade mesmo, já estou de pijama.

- Ai, amiga, desculpa. Foi por uma boa causa. Todo mundo que tem algo para beber pega aí. Vão me falar que vocês não têm estoque, mesmo com lei seca?

Uma pessoa sai da chamada. Supõe-se que ela deu as felicitações pedidas. Era difícil discernir quem disse algo ou não.

- E quem quiser sair da chamada, tudo bem. Só queria parabéns. Mas quem puder, vamos beber juntos.

Mais ninguém sai. Alguns já estavam bebendo. É sexta à noite. Outros levantam-se, vão buscar bebidas, voltam. Mas fica um silêncio. Muitos não se conhecem entre si.

- Fala alguma coisa alguém.

- Alguma coisa.

- Engraçadinho.

- Se não fosse essa maldita pandemia poderíamos estar comemorando pessoalmente.

- Não tem nada a ver. É só fazer o tratamento precoce. Podemos nos encontrar agora mesmo.

- Mas você fez?

- Não.

- Não acredito que tem um fascista aqui.

- Olha o respeito.

- Vai falar que também acredita em cloroquina, ivermerctina e outras fake news de gado?

- Gado é você, sua vaca.

- Além de fascista, é machista.

- Sai daqui, fascista.

Vaias. A aniversariante está atônita.

- Não saio, fui convidado.

- Não acredito que você tem um amigo fascista e convidou ele pra festa.

- Gente, calma. Eu não sabia.

- Você tá me chamando de fascista? Pensei que fôssemos amigos.

Algumas pessoas saem da chamada. Restam quinze presentes.

- Não é isso. Eu não acho que você seja, eu só não sabia que você defendia essas burrices.

- Agora que não saio daqui.

- Encerra a chamada e faz outra sem ele.

Silêncio.

- Meu celular travou, gente.

- Eu não saio. Agora embirrei. É a minha opinião. Vocês não aceitam opinião?

- É tudo remédio que não funciona, ivermerctina em excesso está resultando em falência renal, as pessoas estão precisando de transplante porque tem idiotas que divulgam isso. Tipo você.

- Você não sabe de nada.

- Ora, então é você que não aceita opinião. Aliás, não é opinião, é fato.

Mais sete pessoas saem da chamada. Restam oito. Sorte delas. Elas podem ver uma cena inesquecível.

- Vem aqui, Chanim. Mostra pra essas feias os gatos que somos.

Dito isso, o gato arranhou o rosto do dono ao ser pego. Gargalhadas. Humilhado, o prepotente convidado sai da chamada.

- Essa foi a melhor festa para a qual já fui convidada. Obrigada!

Este é um texto de ficção. Mas hoje à noite pode não ser, quem sabe?

*Este conto é dedicado à Juliana Gandra, minha namorada, que faz aniversário hoje. Te amo, Juju.

Daniel Souza Luz é jornalista, escritor, revisor e professor.

Este conto saiu no Jornal da Cidade, de Poços de Caldas/MG, em 02/04/2021, dia de aniversário de 25 anos da Ju, que revisou o texto. Também fiz uma leve revisão extra agora, só consertei uma palavra (no original, saiu “geeeteeeemmmm”). Alterei o título também, o original era “Aniversário Pandêmico”, mas com quase quatrocentos mil assassinados pela necropolítica do governo neofascista da genocida familícia Bolsonaro (esse emprego de vários adjetivos não é nada exagerado, pelo contrário), creio que é um título impensado, pouco empático.

Selfie da Ju, 21 de março de 2021.


Saturday, December 05, 2020

Fotos de você

Nesta semana, no dia primeiro de dezembro, fez um ano que meu pai faleceu. Não parece, sonho com ele quase todo dia. São sonhos alegres, ele está sempre bem, geralmente dirigindo ou querendo dar uma volta, não é nada que me deixe melancólico. Como é relativamente comum que eu tenha sonhos lúcidos, às vezes me toco da irrealidade e ele logo se vira para mim e diz que não, não morreu. É como se ele sempre estivesse presente. Ele está, portanto.

Por obra do destino (este chavão quase inevitável), dois amigos dele morreram nestes dias. Publiquei fotos de ambos, acompanhados do meu pai. Primeiro o advogado e escritor Marcos Mattioli, há exatamente uma semana, no sábado passado. Mattioli, como era conhecido, gostava da boêmia e, portanto, tinha a saúde frágil. Ou quem o conheceu melhor pode dizer que, pelo contrário, tinha saúde de touro e que aguentou o tranco. O fato é que, como disse para minha família, sempre achei que levaria meu pai, que já não enxergava mais direito, no velório do “Matti”, outro modo como ele era chamado. Jamais imaginaria o contrário. Como já evidenciei acima, não o conheci bem, só o encontrava quando meu pai ia na casa dele ou de algum amigo em comum, troquei poucas palavras com ele. Há alguns livros dele, autografados, em casa; nunca me interessei, creio que passou da hora de me interessar. Preciso achar onde meu pai os guardou. Pelo o que me recordo, são livros de memórias. Suponho que engraçados, o Mattioli parecia ser um sujeito divertido. O motivo que não conversava com ele é que era muito conservador, reacionário mesmo, segundo o que meu pai me contava. Eu evitava, para não haver conflitos. Claro que me arrependo um pouco, nunca contei para ele que um dos meus quadrinistas favoritos é o italiano Massimo Mattioli, por exemplo. Já meu pai era íntimo dele a ponto de imitar o jeito como ele falava na cara dele, tirando um sarro; minha irmã ri demais quando se lembra disso.

Um dia depois que o falecimento do meu pai completou um ano, outro grande amigo dele se foi: Manoel Renda Salcidos Filho, o Mané Renda. Ele eu conheci melhor, visitava meu pai em casa e frequentava seu escritório, além de ser filiado ao mesmo partido, o PMDB, hoje apenas MDB. Viajaram juntos muitas vezes, tanto para o exterior, quanto para vários locais do Brasil. De uma viagem jamais me esquecerei, pois também estava presente: a primeira vez que fui ao Rio, em fevereiro de 2012, encontramos com o Mané; ele já estava lá. Ele levou a mim e a minha mãe – não me lembro agora se meu pai foi também – para um tour pela cidade no carro dele. Não conhecemos só lugares óbvios para turistas, como São Conrado e o Botafogo: foi um rolê aventureiro, no qual fomos para o Vidigal e demos um grande passeio na favela da Rocinha, que tinha uma quantidade absurda de PMs com escopetas e armas desse naipe, além de ter a melhor vista da cidade, fora o Pão de Açúcar. Sem guia, sem nada, só metendo as caras (claro que o Mané já conhecia bem o Rio, estava acostumado a dirigir lá). Foi maneiro demais, fiquei fascinado pela cidade e achava que jamais gostaria de lá.

Fui puxando o fio da memória e falei foi dos amigos do meu pai e não dele. Aliás, tem muito “meu pai” nesta crônica e tem que ter mesmo. Lembro que no ano passado, ao fazer um texto sobre a passagem dele, usei o sinônimo papai, mas não tenho este hábito. O que me recorda um artigo recente do Mario Sérgio Conti no qual ele menciona que os gringos não têm essa preocupação de ficar procurando sinônimos para que palavras e expressões não se repitam ao longo do texto; estão certos eles. Aproveito o ensejo para mandar um antigo chefe meu numa assessoria de imprensa ir se lascar, pois ele deu um chilique no telefone quando usei muito o termo “biblioteca” num release sobre... bibliotecas. Ora, que grande imbecil ele era. Eu era jovem demais para reagir à descompostura, hoje eu falaria grosso na hora. Bem, vingança tardia à parte, meu pai gostava disso, de um assunto ir puxando o outro. Nesta semana publiquei em todas as redes sociais possíveis uma foto dele e no fundo havia um quadro que um amigo dele, Hiroshi Murakami, pintou a partir de uma foto minha de quando eu era bebê, ainda nos anos 1970. Disse que ele havia falecido naquela década, mas guardei errado a informação que meu pai me passou: o Murakami feneceu (deste sinônimo eu gosto) nos anos 1990, esclareceu-me num comentário na foto meu amigo Clisthenis Betti, ator bem conhecido, e que precisa ser mais reconhecido, na cidade. O Clisthenis conheceu bem os filhos do Murakami, foram criados juntos. Ele, inclusive, gravou e me mandou um vídeo com a caixa com os pincéis e materiais de pintura dele, dada de presente para o irmão dele por uma das duas filhas do Murakami, que infelizmente não conheci. No acanhado apartamento onde passei a infância tinha um quadro dele mais autoral, na verdade um esboço que meu pai enquadrou. Um dos motivos do qual tanto gosto dele é que estava inacabado. Está guardado em algum lugar. Há fotos do meu pai e da minha família em que este quadro aparece, guardadas em álbuns. São essas as memórias que acalento. As crônicas no sentido norte-americano, das histórias dos poderosos da cidade, não me interessam. Acho que só interessam a quem gosta mais de preservar estátuas do que pessoas. É, pouco falei mesmo do meu pai. Só que Daniel da Luz era generoso. Tenho certeza de que ele gostaria de compartilhar essas histórias dos amigos dele, todos companheiros agora no bardo, no céu, na farra, em alguma viagem por aí, vocês que sabem. 

Daniel Souza Luz é professor, escritor, jornalista e revisor

Esta crônica deveria ter saído hoje no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG), mas estava muito extensa. Em seu lugar saiu um miniconto. O título provisório era Um Ano Sem Meu Pai, mas minha namorada, Juliana Gandra, sugeriu o título Pictures of You, citando a música do The Cure. Eu optei por traduzi-lo. Ela também revisou o texto.


Foto que tirei do meu pai no dia 30 de agosto de 2006, no escritório dele.
Meu pai (Daniel da Luz), a enfermeira Maria José, Sebastião Pinheiro Chagas, Sérgio Alvisi e Marcos Mattioli. Foto que tirei no aniversário de Norberto Danza, 02/05/2017.



Mané Renda e meu pai em frente à Ópera Nacional de Paris, especificamente à Ópera da Bastilha (obrigado pela informação, Pádua Fernandes). Foto que tirei de uma fotografia que provavelmente foi tirada por Waldemar Lemes Filho em 05/11/2005 (ou no dia 4 daquele mês, a anotação do meu pai está meio confusa).


Friday, March 20, 2020

Para Gostar de Ler 12: Histórias de Detetive - resenha que escrevi para o Good Reads

Historias De DetetiveHistorias De Detetive by Arthur Conan Doyle
My rating: 3 of 5 stars

De todos os volumes da série Para Gostar de Ler este é o mais fraco. Entendo perfeitamente o sentido da seleção de José Paulo Paes, que teve o intuito de apresentar textos importantes para a história do gênero. O problema é que são muito ingênuos, muito esquemáticos. Isto se perdoa no conto de Conan Doyle, afinal Sherlock Holmes tem seu charme, e no de Edgar Allan Poe, pioneiro da literatura policial que ainda teve o toque de gênio de inserir um pouco de terror, gênero pelo o qual é mais conhecido, na sua trama. O texto de Jerônimo Monteiro é uma coleção de estereótipos e infelizmente nem o grande Marcos Rey se sai tão bem assim. Mas não é nada que me faça desanimar pelo gênero policial, ao qual não sou muito afeito, só me fez ter mais curiosidade em ler histórias mais contemporâneas que não tenham tantos chavões. Nisto se destaca Medeiros e Albuquerque, cujo conto é uma fina ironia e ao mesmo tempo uma homenagem a Sherlock Holmes. O conto de Edgar Wallace que fecha o volume também é ótimo, mas se aproxima mais das histórias de espionagem.


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Friday, March 13, 2020

Antologia Estância Cultural volume 1: resenha que escrevi para o Good Reads

Antologia Estância Cultural Nº 1Antologia Estância Cultural Nº 1 by Regina Alves
My rating: 2 of 5 stars

Esta coletânea reúne autores de Poços de Caldas e região que fazem parte da Academia Poços-Caldense de Letras. Há de tudo, de poesia a dramaturgia, de contos a memórias, de relatos históricos formais a tentativas de ensaios. É uma antologia mal-ajambrada, na verdade; faltou edição: não há índice e aparentemente cada autor fez sua revisão - em muitos casos, é nítido que não se fez, há erros clamorosos. Isto me chama muito a atenção, afinal fui revisor do livro A Utilidade do Rascunho, de Tadeu Rodrigues, cujo poema Mapas consta nesta antologia. Há outra bela poesia chamada Legado, de Guiomar Paiva. Além disto, há dois ótimos contos, Cabaré do Bambu, de Antônio Manoel Júdice, e O Homem que Sabia de Menos, de João Gabriel Pinheiro Chagas. Há muito textos homenageando genitores; se houver um segundo volume gostaria fazer um sobre meu pai, pois faço parte da Academia.


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Monday, February 24, 2020

Segunda-feira de Cinzas

Os telefones tocam em vão.
Todos com quem preciso conversar não foram trabalhar. Estão metendo, cochilando, bebendo e dando baixaria, queimando as carnes brancas no mormaço, jogando frescobol, cheirando, vendo mulher pelada na televisão, vendo revista de homem pelado no banheiro, baixando filmes pornôs, brochando em suítes caras de motéis vagabundos para no máximo ganhar uma chupada, discutindo com os pais velhinhos para depois jantar com eles, ralhando com os filhos e levando-os para tomar sorvete, nadando em piscinas com 37% de mijo, pulando ondas de coliformes fecais enquanto tomam água de coco, andando de bicicleta na chuva, sendo presas por desacato à autoridade, dançando nus em frente ao espelho, lendo Stephen King, ouvindo jazz na praça, comendo pipoca na fila do cinema, socando a fuça do adversário no xadrez, jogando RPG com os primos bestas, passeando com três vira-latas em forma de Cérbero, jogando confete nas novinhas, beijando as travestis, tomando facada no bar, enrolando prostitutas com serpentina e chacoalhando-se atrás do trio elétrico. Tem quem esteja trancado no quarto, ouvindo Bauhaus, sendo tão feliz quanto os outros. Só alegria, o bordão surgido sabe-se lá onde me incomoda pra caralho.
Não é tristeza. Estou exasperado, pensando, impotente, cumprindo tabela, esperando que amanhã não perca o dia inteiro dormindo pra compensar a insônia que não posso descontar agora. O picareta do chefão veio dar exemplo. Trabalhou duas horas e foi embora rangar e fazer a sesta. Enquanto mofamos na firma, inúteis, por mero capricho e pão-durismo.
Daniel Souza Luz é professor, escritor, jornalista e revisor

Este conto foi publicado em 22 de fevereiro de 2020 na página oito da edição 7222 do Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG). É uma versão levemente ampliada e reescrita, evitando um termo preconceituoso que usei outrora, de um conto de mesmo nome, que publiquei aqui no blog em três de maio de 2007.


Carnaval em Mérida, no México, 08/03/2011. Foto de Theodor Hensolt, via Creative Commons. A original pode ser encontrada aqui e a página dele no Flickr é Theodor Hensolt, Street Fotographer (Fotógrafo de Rua).


Thursday, February 13, 2020

Garfield e seus Amigos 2 (resenha que fiz para o Good Reads)

Garfield e Seus Amigos 2Garfield e Seus Amigos 2 by Jim Davis
My rating: 2 of 5 stars

Lembro-me que no filme Vamos Nessa um personagem reclama de uma tirinha (não é o Garfield) que fica por último na ordem de leitura do jornal e estraga todas as outras. Achei bem sacado, pois este é o meu caso com o Garfield: eu até lia, mas, apesar de ser a última tira (ou ao menos era) na página de quadrinhos da FSP, era a primeira que eu lia, pois achava fraquinha em comparação às demais, daí era um crescendo de prazer. Às vezes nem a lia. Eu pulava tanto a leitura das HQs dele que só agora descobri que tinha outro gato, o Nermal, que também aparecia nas tirinhas às vezes. Esta compilação é de tiras dos anos noventa, justamente quando eu fazia isto todos os dias. Mostra que não perdi muita coisa, mas também está longe de ser ruim. Li numa sala de espera. Dei uma ou duas risadas, valeu a leitura.


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Friday, February 07, 2020

Esconde-esconde

No começo de janeiro li uma ótima crônica (ou ótimo conto, não sei) da escritora Letícia Novaes, que é mais conhecida no mundo da música e no qual atende pelo pseudônimo Letrux. Chamado Férias Forever, o texto logo no início menciona que ela é de uma geração que tirava férias por três meses na virada do ano. Fiquei pensando mesmo nisso na última vez em que escrevi uma crônica sobre meus tempos de férias na infância; parece que não eram só dois meses de descanso... Eu me lembro de uma vez ou outra voltar a ter aulas no finalzinho de fevereiro, mas é aquilo mesmo que ela diz: apesar de ser um pouco mais velho do que a Letícia, também sou do tempo em que as aulas voltavam em março. Hoje vejo crianças voltando às aulas no final de janeiro e acho muito estranho. É outro mundo, ainda mais competitivo.
Antes as férias eram tão estendidas e prazerosas que quando se machucava feio ainda dava tempo de aproveitá-las. Lembro bem, porque uma das brincadeiras favoritas da criançada era (e suponho que ainda seja) esconde-esconde. Numa dessas, me estrepei. Mas não foi culpa minha. É que eu tinha um colega muito atrapalhado. Já já chego lá.
O bacana do bairro da minha infância, o Marçal Santos, era que as ruas eram relativamente pouco movimentadas. Geralmente o pique era na rua Platina, onde eu morava, e valiam as adjacências das ruas de baixo e de cima, respectivamente Berilo e também Marçal Santos. Havia árvores, carros, pequenas moitas, reentrâncias nos muros e vários pequenos esconderijos. Naquela época havia, e talvez ainda haja, a “regra” de que o último a ser descoberto salvava todos os que haviam sido pegos, bastava chegar antes no pique e bater três vezes nele. Quem estava procurando não podia mais escolher quem foi pego para substituí-lo e voltava a desempenhar seu papel de, digamos assim, rastreador. Este hábito levava a desabaladas carreiras, às vezes na frente de carros em movimento, para salvar a galera. E não tinha tira-teima quando perseguidor e perseguido batiam quase ao mesmo tempo. Lembro que uma vez meu amigo Daniel loirinho dançou nessas quatro vezes seguidas. Ele ficou desanimado e foi embora para casa, choroso.
Pique esconde, diga-se de passagem, era uma brincadeira bem democrática. Participava gente de todas as idades, dos seis aos quatorze anos. Por isso todos os esconderijos foram ficando manjados. E às vezes vacilávamos também. Não me esqueço do dia em que achei que estava muito bem escondido atrás de uma árvore na rua Berilo. Meu amigo Márcio, o Baiano, gritou de longe, gargalhando: “Estou vendo seus Kicks, tá pego Daniel!”. Kick era uma marca de tênis para andar de skate que nos anos oitenta fazia uns tênis de cano alto, fechados com velcro, numas cores vermelho e verde berrantes – que aliás soltavam tanta tinta que manchavam as meias, desculpa mãe. Virei alvo fácil, camuflagem não rolava assim.
Enfim, como a brincadeira era frequente e literalmente todo mundo conhecia os esconderijos, passando a ser o atletismo e não a habilidade de se mimetizar a melhor arma, o pessoal foi ficando mais ousado. Valiam até os limites das casas das esquinas nas ruas adjacentes. Alguém teve a ideia, então, de pular o muro da casa do Coruja, um amigo nosso que morava (e ainda mora) em Santos e não vinha sempre passar férias em Poços, portanto muitas vezes sua casa na Marçal Santos ficava vazia. E nos considerávamos de casa. Então ficávamos lá, morrendo de rir, abafadamente, da cara de quem passava na rua nos procurando e não fazia ideia do novo esconderijo. E quando quem nos procurava descia para a rua Berilo, descíamos em massa para o pique e salvávamos todo mundo.
Minha desdita aconteceu por isso. Uma bela tarde, pulei lá primeiro, junto com meu amigo Evandro, o Bugu. Ah, pra quê? Meu irmão e meus amigos Paulo Augusto e Baiano acharam por bem esconder-se lá também. Não estando cientes da nossa presença, o Márcio pulou o muro e caiu com os dois pés em cima da minha cabeça. Não vi, claro. Só senti a porrada repentina; contaram-me que foi assim. Como estava me virando para o lado para falar com o Evandro, mordi a língua. É um músculo bem vascularizado, sangra abundantemente. O que acho engraçado, hoje em dia, é que não fiz uma tomografia nem nada disso, que me lembre. Nem sei se era um exame acessível à época. Meus pais levaram-me para médico e ele só cuidou da minha língua mesmo. Não passei mal e nem nada assim, apesar do banho de sangue; acho que isso colaborou.
Bem, só sei que não tomei ponto, ainda bem. Do jeito que estava dilacerada já doía demais – a maior dor que havia sentido na vida, até então. A solução foi ficar de repouso e só poder tomar sopa e líquidos por umas semanas. Foi um martírio. Tudo bem, acho que umas duas semanas depois eu já estava na rua de novo. Brincando de esconde-esconde. Sem traumas.


Daniel Souza Luz é escritor, jornalista e revisor

Este conto foi publicado originalmente no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em primeiro de fevereiro de 2020. Saiu na página nove da edição 7207. 

Kindred: Laços de Sangue, de Octavia E. Butler, é um livro fascinante (resenha que fiz para o Good Reads)

Kindred: Laços de sangueKindred: Laços de sangue by Octavia E. Butler
My rating: 5 of 5 stars

Minha primeira leitura de 2020 foi desta escritora de ficção científica da qual nunca tinha ouvido falar até o ano passado. Fiquei fascinado e comprei o livro em abril de 2019, assim que descobri a existência dela. Só li em janeiro de 2020 pois é uma obra de fôlego, bastante extensa, que exige dias menos atribulados para ser devidamente apreciada, ao menos no meu entender. Agora estou muito curioso para ler outras obras da autora, pois a questão da indexação é muito interessante para mim. A única relação com FC neste livro é a viagem no tempo, no meu entender. No entanto, ela não tem uma explicação científica ou racional, o que aproxima a obra muito mais da fantasia. Creio que é categorizado como ficção científica porque a Octavia Butler assim o quis - e se for o caso, acho que ela está mais do que certa. Suas outras obras, pelo pouco que li, parecem ser mais de FC propriamente dita. De qualquer forma, é um livro fascinante. Quando comentei com amigos que estava lendo-o e perguntaram sobre o que era, um deles, o Tiago Barreiro, me contou que o Chris Rock já tinha feito uma piada sobre isso: viagem no tempo é coisa de branco, quem é negro jamais vai querer construir uma máquina que faça isso, pois é arriscado demais voltar ao passado. Kindred: Laços de Sangue é exatamente sobre isso. E com certeza é por isso que a protagonista, Dana, não tem controle sobre suas idas ao passado. Elas simplesmente acontecem, contra sua vontade. Sendo uma mulher negra, Butler escolheu escrever sobre uma mulher negra contemporânea (no caso, dos anos setenta: Dana e o marido Kevin Franklin vivem em 1976; o livro foi lançado originalmente em 1979) que é lançada aos tempos da escravidão num estado sulista, Maryland, antes da Guerra da Secessão. A tensão da trama se estabelece justamente porque Dana, ao guardar uma bíblia que está com a família há gerações, sabe que pouco ou nada pode fazer para impedir as situações de abuso que presencia, pois é jogada a um passado no qual reconhece os nomes de seus antepassados. Ao contrário, precisa protegê-los, mesmo quando agem de forma vil. E eles são justamente o filho de um senhor de escravos e uma escrava. Daí o título do livro. Os pequenos defeitos da trama e da escrita - respectivamente o fato de que são situações de violência que a fazem a voltar para presente e no entanto ela passa a literalmente senti-las na pele sem retornar e o uso frequente da expressão "franzir a testa" (seria isso um maneirismo da tradução?) - são totalmente recompensados pela força avassaladora da narração. E esta força está justamente no fato de que Dana, apesar de tudo, tenta impedir os abusos escravocratas. Por isso, sofrerá castigos inimagináveis para ela, uma mulher livre vivendo na Califórnia do século vinte e que perde progressivamente o direito ao próprio corpo. As descrições das torturas físicas e psicológicas que ela e os demais escravos sofriam transportam o leitor para o passado tanto quanto a protagonista; são muito vívidas. E revoltantes. É envolvente ao ponto de se ficar indignado, mesmo que hoje saibamos sobre todas as infâmias da escravidão. Particularmente, tive que que interromper a leitura diversas vezes, pois era intenso demais e me causava profunda consternação. Não bastasse isto, a autora também adianta, já àquela época, questões hoje prementes, como a tensão de relações inter-raciais na contemporaneidade e não só num passado distante em que elas resumiam-se, basicamente, a estupro e posse.


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Thursday, January 09, 2020

A Fronteira da Chuva

Foi espetacular.
Férias. Cada dia, ao acordarmos, ao tomar café - sem café na verdade, mas sim com leite com achocolatado e muita bolachinha de chocolate – tínhamos uma folha em branco pela frente, como uma crônica ansiando para ser escrita. O que faríamos, libertos da rotina escolar? Geralmente alguém saia para rua de manhã já com uma bola, jogávamos um pouco de futebol quando aparecia mais gente, íamos conversando como seria a tarde. Cada dia, uma aventura diferente, na base do consenso. Às vezes havia algum dissenso e um pessoal ia fazer alguma outra coisa, sem ressentimentos; quase sempre, no entanto, permanecíamos juntos. Esconde-esconde, videogame, skate, fliperama, mais futebol (mas em outro lugar, em geral no Parque Municipal), assistir filme na casa de alguém, peteca. Muitas vezes, tudo isso junto e misturado. Uma rodinha jogava truco, uma dupla era derrotada, entrava no lugar da dupla perdedora da peteca. E assim íamos.
Minha rua, a Platina, no bairro Marçal Santos, era lotada de crianças e adolescentes brincando e zoando. Vinha gente de longe até, de bairros como o São Geraldo; não sei por que se concentravam ali, mas assim foi nos anos oitenta, ao menos dos meados daquela década até o início da seguinte. No começo deste século passava por lá e ainda via muitas crianças por perto se divertindo. Agora não vejo mais. O prédio onde morava, o Beta, tem atualmente um portão, não entra mais qualquer um. Há aquelas placas de casas de rede de vigilância de vizinhos em conjunto com a PM. A rua ainda é muito parecida, as fachadas são mais ou menos as mesmas, mas está vazia e quando passo olhando, devagar, saudoso, rostos desconfiados me olham de dentro dos apartamentos. Houve uma única vez que, ao subir a trilha do Cristo e descer pela estrada da Vila Cruz, há cinco anos, passei na Platina e reencontrei minhas ex-vizinhas Dalva e Terezinha em frente ao prédio. Conversamos longamente. Não há mais ninguém por lá que eu conheça, a não ser a ex-vereadora e professora Tita, que mora em frente, na casa que pertencia à família da minha amiga de infância Juliana Mariano Iwamoto, que me considera um irmão. De qualquer forma, a Tita não é do meu tempo ali.
Eu disse que foi espetacular. O verbo está no passado porque foi há mais de três décadas, vou voltar para o “meu tempo”, portanto. Como a rua de baixo, a Berilo, era mais plana, apesar de mais movimentada, costumávamos jogar futebol e esportes afins por ali – sei lá por que insistíamos em jogar eventualmente na minha rua, com aquele declive. Já não me recordo quem estava comigo naquela tarde, então vocês vão ter que acreditar na minha palavra. Talvez meu irmão, o Evandro Godói, o Paulo Augusto Rodrigues, o Márcio de Melo, todos amigões e vizinhos, parece que me lembro que eles estavam juntos, mas o cenário onírico me fez esquecer exatamente quem era a companhia. Nem sei se eles lembrariam disso também, não é porque me marcou que os impressionaria também. Enfim, ali vi algo no qual sempre pensava, quando, em viagens de carro, via tempestades cair nas paisagens distantes: será que a chuva sempre vem caindo aos poucos, geralmente com vento e obliquamente, ou às vezes uma nuvem ficava parada e ao lado dela haveria pessoas vendo o dilúvio logo adiante, protegidas pelo sol? Naquele dia, e só naquela tarde, testemunhei isto: perto da minha rua, estava o tempo firme. Na esquina seguinte, na das ruas Berilo e Ouro, chovia a cântaros. Chegávamos pertinho e voltávamos secos, admirados; aquela barragem de pingos não se mexia e assim permaneceu por uns quinze, vinte minutos, até cessar completamente. Aquela foi a única vez em que cheguei à beira da fronteira da chuva.
Daniel Souza Luz é escritor, jornalista e revisor

Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 04/01/2020, na página oito da edição 7188 do jornal. Escrevi-a no dia anterior, com saudades das férias de quando eu era garoto.

Foto que tirei com celular no dia 09/01/2020



Thursday, January 02, 2020

A Flor e a Feiticeira (resenha)

A Flor e a FeiticeiraA Flor e a Feiticeira by Katia Pinno
My rating: 5 of 5 stars

Conheci a Kátia Pinno, escritora carioca para lá de simpática, há um par de anos, durante uma edição da Flipoços. Na deste ano fizemos um escambo de nossos livros: meu primeiro pelo mais recente dela. Só agora, no finzinho de 2019, é que o li. É um livro infanto-juvenil que tem como propósito ser um conto de fadas redivivo. Atenção: é um conto de fadas no sentido em que o conhecemos na infância, mais encantador do que assustador, que seria o sentido original destas histórias na antiguidade e que vem sendo destacado em filmes desta década. É um livro indicado para crianças na mais tenra idade mesmo, começa inclusive o tradicionalíssimo “Era uma vez...”; assim elas podem desde já fascinar-se com a estrutura arquetípica e tomar contato em livro com a tradição narrativa ocidental. A obra é excelente no que se propõe. É a história de uma família modesta e trabalhadora que vivia na floresta, com pai, mãe e três filhos, todos homens. Eles desejam uma menina para ser caçula e o pai, um lenhador, faz um pacto com uma feiticeira para que nasça a garota. É claro que há um preço a pagar: a menina, quando completar quinze anos, deverá ser entregue para a Feiticeira, que teria uma serviçal. Os familiares unem-se para burlar o trato amaldiçoado e proteger a filha mais nova, que se chama Flor – daí o título. Tem início então as peripécias, com passagens por cabanas isoladas na floresta, nevoeiro mágico sobre uma pequena vila e alguns simbolismos significativos. Há também, é claro, um grande amor e o proverbial final feliz – façam-me o favor de não reclamar de spoiler quanto a isto, afinal de contas é um conto de fadas. As ilustrações de Wagner Matias de Andrade lembram o estilo clássico de linha clara dos quadrinhos europeus de meados do século passado, mas com uma pegada mais contemporânea, e devem fazer os olhos das crianças brilharem. Quem reavivar sua criança interior também deve gostar do livro.
Daniel Souza Luz é escritor, jornalista e revisor
Resenha publicada no Jornal da Cidade (Ano XXX, nº 7.186, Poços de Caldas, MG, de 28 e 29 de dezembro de 2019).


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Wednesday, January 01, 2020

Daniel da Luz, Contador de História (versão resumida para o Mantiqueira)

Daniel da Luz foi um homem trabalhador, bom pai e alegre. Gostava de ajudar as pessoas, de rir, de contar histórias e piadas. Pediu para pôr como epígrafe no seu túmulo a inscrição “Aqui jaz o homem mais feliz do mundo”. Não chorem ao se lembrarem dele, mas sim sorriam e riam; se possível, caiam na gargalhada, ele preferiria assim. Mas lembrem-se dele, sempre.
Bem, até aqui está o que escrevi, com a ajuda da minha mãe, para constar no cartão de lembranças que será distribuído neste final de semana, na missa de sétimo dia do meu pai. Minha amiga Renata Chan revisou o texto para mim, assim como esta crônica, e disse-me que se lembrou d’Os Excêntricos Tenenbaums devido à frase a constar no epitáfio. Não assisti ao filme, mas meu papai me faz recordar outro: Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, do Tim Burton, baseado num livro de Daniel Wallace, o qual ainda não li.
Meu pai gostava de contar história de pescador, mas nenhuma delas envolvia pesca. Como em Peixe Grande, também eu, filho mais velho, formei-me em jornalismo e não aturava as mentiras dele. O Daniel pai era um cara inteligente. Quando eu era criança, ele lia o Pasquim para nós, nos falava de política; sei quem é Adam Smith e Karl Marx, o que é capitalismo e comunismo, desde a mais tenra idade. Ainda estávamos na ditadura quando ele nos falava de Marighella e Lamarca, assuntos tabus na época. O livro do qual meu pai mais falava era História da Riqueza do Homem, de Leo Huberman, que era um historiador marxista; só descobri isso agora, para minha total surpresa, ao escrever estas memórias. Isso porque meu pai ainda nos falava muito dele quando entrou para o PMDB, no início dos anos noventa, e passou a ter uma postura cada vez mais pragmática, fazendo-me supor que Huberman era um autor de direita liberal, até pelo título do livro. Antes, papai era brizolista roxo, filiado ao PDT, e gostava de afirmar que era ex-comunista.
A questão é que meu pai contava tanta mentira cabeluda, muitas delas envolvendo conquistas amorosas, que caiu em descrédito comigo. Passei a ser completamente cético com relação às histórias de seu passado de esquerdista radical, por exemplo. Até que dois fatos me mostraram que, como em Peixe Grande, muitas vezes ele só dava umas exageradas na verdade. Ao voltar para Poços de Caldas em 2001, depois de formado, encontrei na casa do meu amigo Raphael Xavier um velho volume amarelado de Marx que meu pai havia emprestado para ele. Estava datado e assinado por ele: era de 1968, poucos meses antes do AI-5. Isso explica porque nunca tinha visto esse livro em casa; ele o manteve bem escondido.
Naquele ano ou no seguinte, morreu o ator Fernando Frizzo. Meu pai viu a notícia e disse-me que ficou triste com isso, que havia feito teatro e que simpatizava muito com ele. Ah, peraí, teatro? Não tem nada, mas nada a ver com ele. Pois bem, e não é que meu pai fez teatro estudantil? Foi no fim dos anos sessenta. Quem me contou foi Teresa Mesquita, educadora e prima do jornalista Luis Nassif. Um dia, nos idos de 2003, fui entrevistá-la, ela viu meu nome e me contou que faziam reuniões secretas, pois eram vistos como subversivos e viviam sob uma ditadura. E faziam peças de teatro, das quais meu pai participava. Fiquei de cara, então era tudo verdade.
Há tantos causos dele que gostaria de retransmitir, mas o espaço reservado para este texto está acabando. Fica aqui meu favorito: diz meu pai que ele teve uma boate em Beagá e que um dia um sujeito estava lá aprontando uma confusão. Isso teria sido nos anos sessenta. Ao abordar o cara e pedir para que ele parasse a baixaria, ele teria dito “Eu sou Agnaldo Timóteo!” e meu pai teria respondido “E daí? Eu sou Daniel da Luz!”. Isso feito, saíram pela rua trocando tiros. É inverossímil, mas e se for real? Como dizia o cineasta John Ford: “Quando a lenda é mais interessante que a verdade, imprima-se a lenda”.
Daniel Souza Luz é escritor, jornalista e revisor

Hoje meu pai faria 79 anos, mas ele faleceu um mês antes. A saudade é muita. Este texto em homenagem a ele foi publicado no Mantiqueira, jornal de Poços de Caldas/MG, em 07/12/2019.



Sunday, December 29, 2019

Ontem Foi Um Sonho

Neste ano publiquei meu primeiro livro, Ontem Foi Um Sonho. 
É uma distopia que se passa num futuro (relativamente) próximo.
É uma edição totalmente independente, em papel reciclado, inclusive capa e contracapa.
A ilustração da capa é da Juliana Melo e a revisão é de Renata Cristina Ling Chan.
Eu mesmo editei e criei uma editora independente para isso, Enigma Anônimo - uma homenagem aos nomes das gravadoras independentes do Joy Division, Enigma e Anonymous, ambas meio de mentirinha, assim como minha editora, mas com pretensões de ser sérias (assim como minha editora). Não pus em nenhuma plataforma, ao menos por enquanto. Pedidos podem ser feitos diretamente a mim nos meus perfis nas redes sociais ou no e-mail danielsouzaluz@gmail.com
Já aviso: é em formato de bolso e tem apenas 16 páginas. A ideia é ser o primeiro de uma série de pequeninos livros de bolso. O valor é R$ 10,00 - mais o frete.


Friday, December 13, 2019

Daniel da Luz, contador de histórias

Daniel da Luz foi um homem trabalhador, bom pai e alegre. Gostava de ajudar as pessoas, de rir, de contar histórias e piadas. Pediu para pôr como epígrafe no seu túmulo a inscrição “Aqui jaz o homem mais feliz do mundo”. Não chorem ao se lembrarem dele, mas sim sorriam e riam; se possível, caiam na gargalhada, ele preferiria assim. Mas lembrem-se dele, sempre.
Bem, até aqui está o que escrevi, com a ajuda da minha mãe, que me lembrou que ele gostava de ajudar os outros e para quem ele disse o que gostaria de constar no seu epitáfio, para constar no cartão de lembranças que será distribuído neste final de semana, na missa de sétimo dia do meu pai. Minha amiga Renata Chan revisou o texto para mim, assim como esta crônica, e disse-me que se lembrou d’Os Excêntricos Tenenbaums devido à frase a constar na epígrafe. Não assisti ao filme, mas meu papai me faz recordar outro: Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, do Tim Burton, baseado num livro de Daniel Wallace, o qual ainda não li.
Meu pai gostava de contar história de pescador, mas nenhuma delas envolvia pesca. Como em Peixe Grande, também eu, filho mais velho, formei-me em jornalismo e não aturava as mentiras dele. O Daniel pai era um cara inteligente. Quando eu era criança, ele lia o Pasquim para nós, nos falava de política; sei quem é Adam Smith e Karl Marx, o que é capitalismo e comunismo, desde a mais tenra idade, horrorizem-se defensores de Escola Sem Partido (e não optei por nenhum deles, idiotas). Ainda estávamos na ditadura quando ele nos falava de Marighella e Lamarca, assuntos tabus na época. O livro do qual meu pai mais falava era História da Riqueza do Homem, de Leo Huberman, que era um historiador marxista; só descobri isso agora, para minha total surpresa, ao escrever estas memórias. Isso porque meu pai ainda nos falava muito dele quando entrou para o PMDB, no início dos anos noventa, e passou a ter uma postura cada vez mais pragmática, fazendo-me supor que Huberman era um autor de direita liberal, até pelo título do livro. Antes, papai era brizolista roxo, filiado ao PDT, e gostava de afirmar que era ex-comunista.
A questão é que meu pai contava tanta mentira cabeluda, muitas delas envolvendo conquistas amorosas, que caiu em descrédito comigo. Passei a ser completamente cético com relação às histórias de seu passado de esquerdista radical, por exemplo. Até que dois fatos me mostraram que, como em Peixe Grande, muitas vezes ele só dava umas exageradas na verdade. Ao voltar para Poços de Caldas em 2001, depois de formado, encontrei na casa do meu amigo Raphael Xavier um velho volume amarelado de Marx que meu pai havia emprestado para ele. Estava datado e assinado por ele: era de 1968, poucos meses antes do AI-5. Isso explica porque nunca tinha visto esse livro em casa; ele o manteve bem escondido.
Naquele ano ou no seguinte, morreu o ator Fernando Frizzo. Meu pai viu a notícia e disse-me que ficou triste com isso, que havia feito teatro e que simpatizava muito com ele. Ah, peraí, teatro? Não tem nada, mas nada a ver com ele. Desculpem-me, para mim, ser politicamente correto ou incorreto são duas bobagens, é maniqueísmo, então não vou edulcorar o passado, apesar de ser sim uma frase homofóbica: não me lembro agora exatamente do meu pai dizer “teatro é coisa de viado”, mas é a cara dele dizer isso, quem o conheceu sabe. Ninguém é santo e Daniel da Luz era um ser humano falho como qualquer outro, um homem de seu tempo, não estou escrevendo uma hagiografia.
Pois bem, e não é que meu pai fez teatro estudantil? Foi no fim dos anos sessenta (não no fim dos anos setenta, como saiu no obituário que escrevi para o Jornal da Cidade). Quem me contou foi Teresa Mesquita, educadora e prima do jornalista Luis Nassif. Um dia, nos idos de 2003, fui entrevistá-la, ela viu meu nome e me contou que faziam reuniões secretas, pois eram vistos como subversivos e viviam sob uma ditadura. E faziam peças de teatro, das quais meu pai participava. Fiquei de cara, então era tudo verdade – talvez aumentada de uma forma um tanto épica nas histórias que nos contava, mas era.
Há tantos causos dele que gostaria de retransmitir, mas o espaço reservado para este texto está acabando. Fica aqui meu favorito: diz meu pai que ele teve uma boate em Beagá e que um dia um sujeito estava lá aprontando uma confusão. Isso teria sido nos anos sessenta. Ao abordar o cara e pedir para que ele parasse a baixaria, ele teria dito “Eu sou Agnaldo Timóteo!” e meu pai teria respondido “E daí? Eu sou Daniel da Luz!”. Isso feito, saíram pela rua trocando tiros. É inverossímil, mas e se for real? Como dizia o cineasta John Ford: “Quando a lenda é mais interessante que a verdade, imprima-se a lenda”.

Daniel Souza Luz é escritor, jornalista e revisor


Este texto, híbrido de crônica e memórias, saiu no dia sete de dezembro de 2019 no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG). Também foi publicada, de forma resumida, no jornal Mantiqueira, na mesma data. Eu mesmo fiz a edição para o Mantiqueira, por questão de espaço. Meu pai nasceu em Poço Fundo, MG, em primeiro de janeiro de 1941. Faleceu em Poços de Caldas em primeiro de dezembro de 2019, devido a complicações de saúde causadas por um câncer, com o qual batalhou por quatro anos e meio. 
Também escrevi o obituário do meu pai para o Jornal da Cidade, acho interessante disponibilizar aqui também uma pequena biografia mais formal. O texto foi copidescado pelo editor João Gabriel Pinheiro Chagas, adaptando-o para o estilo do jornal, e publicado em 03/12//2019, com o sobretítulo Memória Viva; aqui está o original:
Daniel da Luz nasceu em primeiro de janeiro de 1941, em Poço Fundo. Faleceu em primeiro de dezembro de 2019, no domingo, com 78 anos e onze meses. Formou-se em Contabilidade, Administração e Direito. Era conhecido pelo escritório de Contabilidade com seu nome e também exerceu a advocacia. Foi membro dos diretórios do MDB, PDT e PMDB, tendo-se candidatado a vereador em 1992. Também teve cargos em vários conselhos e entidades, como a Caldense e a ACIA. Foi professor de Contabilidade do Colégio Pio XII nos anos oitenta e noventa. Também fez parte de grupos de teatro estudantil no fim dos anos sessenta, de oposição à ditadura militar. Torcia para a Beija-Flor, Vasco e era conhecido também como contador de causos. Deixa três filhos: Daniel Souza Luz, Eurico José de Souza Luz e Fernanda Souza Luz.


Meu pai, Daniel da Luz, nos idos de 2007/2008. Salvo engano, tirei esta foto pela primeira vez em que usei uma máquina digital que não era de disquete.