Monday, October 25, 2021

Nêmesis, de Philip Roth (resenha)

Esta resenha foi publicada no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 23 de outubro de 2021. 

O lançamento deste livro pela TAG, em parceria com a Companhia das Letras, foi muito oportuno: em março, salvo engano, quando a pandemia estava acelerando no Brasil a níveis absurdos. Com UTIs com 100% de ocupação e pessoas morrendo na fila de espera, não tive coragem de seguir na leitura. Quem foi mais racional e prosseguiu, com certeza pôde refletir profundamente e compreender melhor o ponto em que chegaríamos agora neste segundo semestre. Roth é dos raros autores a incorporar a Filosofia à Literatura de forma orgânica, sem pedantismo, numa narrativa fluída na qual questões contemporâneas são esmiuçadas sob o ponto de vista de discussões de pensadores do século XX. Este livro, no entanto, é de 2009 e é seu canto do cisne. É ambientado, mais uma vez, na sua cidade natal, Newark. No entanto, a trama passa-se em 1944 e a doença sem cura, também provocada por um vírus, é a poliomielite. Há muitos pontos de contato com o que o mundo vem passando desde o fim de 2019. Mas também há diferenças marcantes: a doença não atacava tanto pessoas na terceira idade ou mesmo adultas, mas sim crianças. E, principalmente, não havia uma política genocida de um governo de extrema-direita para que ela fosse irresponsavelmente espalhada para que se alcançasse imunidade de rebanho. É justamente esse o ponto de tensão que permeia a história: as pessoas não queriam que a doença se espalhasse. No entanto, no fraturado caldeirão étnico dos EUA, um grupo de arruaceiros italianos decide ir ao bairro judeu para dar cusparadas em direção a crianças judias, dizendo abertamente que queriam contaminar judeus. O romance não se foca no antissemitismo, no entanto. Roth conta a tragédia de um professor de Educação Física, Eugene “Bucky” Cantor, jovem judeu muito forte e míope, frustrado por não poder lutar na Segunda Guerra Mundial, através do seu ponto de vista filtrado por um narrador que é na verdade um personagem secundário, numa manobra narrativa muito interessante – por vezes, esquece-se disso e pensa-se estar diante de um narrador onisciente, mas isso é esclarecido no capítulo final, no qual se compreende que as poucas lacunas da história são justo as que Cantor estava relutante em contar. Não é à toa: admirado na comunidade, especialmente após enfrentar absolutamente sozinho os filhos de imigrantes italianos que ameaçavam seus amados alunos, ele passa também a ser malvisto conforme as crianças que ele treina vão adoecendo e morrendo. Desacorçoado e impotente, ele entra num processo de fuga perene e degradação impensável para alguém tão autoconfiante. O reencontro com o narrador, Arnie Meniskoff, também vítima da pólio, é o que proporciona reflexões mais aprofundadas, pois Cantor não consegue elaborá-las. São especialmente fortes as sobre culpa e sobre sequelas que talvez podem até se agravar anos depois, arruinando planejamentos para a vida – aí sim temos outro ponto de contato com a atualidade. O ateísmo de Roth não é tão pronunciado nesta obra, mas ele não deixa de apontar como processos aleatórios e fora de controle são determinantes para os indivíduos tentados a racionalizá-los ou espiritualizá-los, sempre em vão. Por fim, sempre me perguntei por que Roth se aposentou dos romances, embora ainda tenha vivido quase mais uma década, depois de uma carreira tão profícua. Sempre pode haver mais algo a ser escrito. Mas talvez ele tenha contemplado as quatro últimas páginas deste livro, assim que as escreveu, e pensado: é isso. É compreensível, são um primor.   

Daniel Souza Luz é professor, revisor, jornalista e escritor



Monday, October 18, 2021

O Nobel

Este conto foi publicado no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 16/10/2021. Era inédito, foi escrito no dia anterior. 

Um espasmo de ódio sacode Spaticano, sempre cioso de sua organização. Os livros expostos na vitrine não estão de acordo com a lista dos mais vendidos desta semana e as exigências das editoras. É um trabalho artístico essa arrumação. Ele jamais deveria ter delegado a um empregado. Até porque alguns pedidos jamais devem ser atendidos. Os livros comemorando o centenário de Paulo Freire nunca deveriam estar em destaque. Algo assim ele só aceitaria, muito a contragosto, se ele entrasse na lista dos dez mais vendidos. É verdade que a revista na qual sempre se fiou não é mais sua favorita. Spaticano se revolta ao ler alguns dos artigos hoje. O novato, ainda no contrato de experiência, não entende. “É que eles cederam na guerra cultural. Você não compreenderia, é novo demais. Precisa fazer os cursos que fiz para entender”, explica Spaticano, suspirando. “O senhor leu muitos livros nesses cursos?”, pergunta, ingenuamente, o novato. “Vi os vídeos. Não tenho tempo de ler, tenho tarefas demais”, justifica Spaticano. Agora ele está à procura do empregado mais antigo. Está sedento por justiça. Dá aquele esporro e arremata: “Na minha livraria não!”. Depois procura nos catálogos das editoras se o novo laureado pelo Nobel de Literatura já foi editado no Brasil. Não foi. “Quem deveria ganhar um Nobel de Literatura era eu”, resmunga. O novato, querendo entender a dinâmica da livraria, pergunta o que ele disse, pois não escutou bem. Irritadiço, Spaticano repete a frase com certa brutalidade: “Quem deveria ganhar um Nobel de Literatura era eu”. Diante da cara de incredulidade do pobre-diabo, ele complementa: “Quem faz de verdade os livros somos nós que os vendemos. E eu sou o melhor vendedor. Não é justo isso. Vou escrever um livro sobre vendas de livros, especificamente”. Agora quem está incrédulo e largou seus afazeres é o empregado das antigas, leitor voraz que bem sabe como o patrão é iletrado. Notando que já conquistou sua audiência, afinal duas pessoas prestando atenção é o começo da trajetória do vencedor, Spaticano discursa triunfante. “Livro é igual salsicha, eu fui gerente de vendas uma fábrica de salsichas, é tudo a mesma coisa. É só uma mistura de papel e umas merdas. Vou escrever o meu! É só saber chegar nas pessoas certas da sociedade para ser um sucesso”. Um cliente entra na loja, alheio ao espetáculo. O novato vai atendê-lo. O velho empregado não resiste: “Você esqueceu do sangue”. Spaticano está tão fascinado por seu próprio rompante que sequer escutou.       

Daniel Souza Luz é professor, revisor, jornalista e escritor




Wednesday, October 13, 2021

Gerô e Cris

Este conto foi publicado no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 09/10/2021. Eu o escrevi no dia sete de outubro e por coincidência no dia seguinte viralizou nas redes sociais um vídeo de uma mesa de debate sobre racismo na qual o Demétrio Magnoli censurou a manifestação de negros e permitiu que apenas brancos falassem. O conto não foi escrito tendo em mente o Magnoli, mas sim em sujeitos que são muito parecidas com ele. 

Coça a papada com a mão macilenta em frente ao espelho. Encara-se, incomodado. O fixo toca. Ninguém liga mais nesse número. Estranha, mas atende.

- Fala, Gerô!

- Cris! Há quanto tempo! Que surpresa boa. O que você conta de bom?

- Ah, nada de especial. Pandemia, tudo parado. Estou escrevendo bastante, ao menos. E você?

- Quem me dera... Jornalismo desconcentra. Escrevo bastante também, mas só para imprensa. Mas tudo bem, ao menos nunca saio de casa, estou fazendo um isolamento rigoroso.

- Eu também! Estou acompanhando tudo, rapaz. Assinei a revista nova, tenho lido sua coluna online. Impecável, como sempre.

- Muito obrigado, meu caro!

- Precisa voltar para a Literatura, Gerô! São poucos que ainda a honram. Se existisse essa besteira de lugar de fala, esse é o seu.

- Ah, estou tão desanimado... Foi um fiasco esse último. Mais um. Eu sei, você sabe.

-  Não é assim também...

- Foi. Nem o esquema da revista deu certo. E deu tão certo pro Marião... Ainda bem que saí de lá.

- É, nem sua crítica ao meu livro fez ele bombar. Mas não é culpa sua. A revista que já estava em decadência, não é como antes.

- Sim, mas ao menos você vende sempre. O incrível é que a sua crítica ao meu, que eu tinha tanta certeza que faria um barulho, não atraiu ninguém. Nada. Queria ganhar meus trocados.

- O meio cultural daqui que não está preparado pra sua sofisticação, Gerô. Está vendo que horror essa tentativa de transformar a Carolina Maria de Jesus em escritora? Em escritora de respeito! Esse país não tem jeito. É uma terra de parvos.

- E esse preto que ganhou o Nobel agora? Nunca ouvi falar. Não suporto mais o politicamente correto, Cris. Um dia ainda vão nos proibir de ler os clássicos apenas porque são europeus.

- Nem me fale. Mas, deixa eu te falar, faz tempo que a gente não conversa e fiquei preocupado com algo... Aquele povo festeiro percebeu nosso esquema de nos elogiar na revista? Deu certo esperar umas semanas para que não notassem? Você sabe, não tenho redes sociais.

- Passou batido, fica tranquilo! Mas não sei se foi porque armamos direito. É que eles inflavam a circulação, distribuem vários exemplares gratuitamente pelo país todo. Ninguém mais lê a revista; você está certo, entrou em declínio.

- É, por isso não vendemos mais. Mas e agora, daria certo fazer outro esquema pra promover meu livro que estou terminando aqui?

- Não, não. Ficam em cima. Não me deixariam escrever a respeito.

- Ah, pena.

-Bem, sendo bem Poliana, ninguém parece ter percebido que foi tudo combinado. Às vezes foi melhor ter passado batido. Se fosse naquela época que tentei esmagar a petistada nas letras... Teriam caído matando.

- Era o meu temor. Imagina se alguém percebesse? Iam fazer aqueles textos nos estereotipando como elitistas, racistas, pedantes, esnobes e sabe-se lá mais que outro delírio.

- Pois é, imagina só! Que falta de imaginação. Esse povo não sabe de nada. São sempre esses personagens caricatos, planos.

- Não sabem como valorizamos o diálogo democrático.

- E sofisticado.

- Pois é. Bem, tenho que desligar, o alarme do SUV disparou aqui. Abraço!

- Vai lá! Vou terminar de bebericar meu Chateau Petrus. Abraço!

 

Daniel Souza Luz é professor, revisor, jornalista e escritor

Thursday, October 07, 2021

Raimundos Versus Pin Ups (eu era muito feliz há 25 anos)

Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade em 04/09/2021. Originalmente chama-se Raimundos Versus Pins Ups (eu era muito feliz há 21 anos), pois a escrevi e publiquei como a Micrônica 1996 em 25/10/2017. Premido pela falta de tempo e outras tarefas, esqueci de alterar o título quando a mandei para o jornal, de última hora. O texto que foi publicado nele é mera transcrição daquela micrônica escrita à mão. Agora corrigi o título, observando a passagem do tempo, para essa publicação e resolvi fazer várias alterações, acrescentando muita mais informação ao texto e eliminando muita repetição de termos e palavras. Esta versão publicada aqui, portanto, é a definitiva.  

Sempre gostei de contar esta história, mas nunca a escrevi. As bandas que mais vi shows ao longo dos anos noventa foram os Raimundos, os Pin Ups e o Autoboneco. Em Bauru, onde fiz a universidade, o Autoboneco, cujo nome na verdade é um símbolo como o do Prince e na época era conhecido como Bonequinho, era a banda que mais gostava na cena underground e naturalmente foi que mais vi ao vivo. Raimundos era zoeira adolescente com a qual me identifiquei assim que ouvi Puteiro em João Pessoa, antes do primeiro disco sair, em 1994. Vi um trecho num show exibido na MTV; um amigo de Ribeirão Preto, o Vítor, gravou pra mim. Em 1995 consegui ver o primeiro de vários shows deles que eu viria a assistir. Pin Ups conheci antes ainda, quando o Luiz Gustavo, o vocalista, cujas HQs eu gostava demais, ainda estava à frente do grupo. No entanto, só vi shows depois que a baixista Alê Briganti se tornou a vocalista. Por mim tudo ótimo com ela no vocal de 1996 em diante, minha música favorita deles era Witkin, a única que ela cantava antes (se não se levar em conta o projeto acústico do grupo, o Gash). Com a Alê à frente, o Pin Ups tornou-se a voz do feminismo no rock brasileiro e o Raimundos era a face das letras machistas, mas eu levava no bom humor. Entrevistei tanto ela quanto o Rodolfo, à época ainda à frente dos Raimundos, para o meu TCC, no final daquela década. Ambos foram legais ao me receber, em especial ela, ao encontrá-la por acaso em Santos – eu ainda marcaria a entrevista em São Paulo, mas fizemos a entrevista no improviso, o que não foi nenhum problema, pois eu já tinha a pauta na cabeça. Apesar de não ter gostado de algumas perguntas, ele me tratou educadamente e não precisei pedir para assessoria de imprensa antes e nem nada assim, simplesmente me apresentei, disse que era para um trabalho da faculdade, que iria ao ar na rádio universitária, e ele me concedeu a entrevista imediatamente, sem qualquer formalidade. E os conflitos de hoje espelham o que ambos diziam.

 

Daniel Souza Luz é jornalista, escritor, revisor e professor


Meu exemplar do vinil do Scrabby?, o segundo LP do Pin Ups (sem contar o projeto acústico Gash, de 1992), lançado em 1993 pela gravadora independente Devil Discos. Tirei esta foto em 21/10/2012 e a publiquei originalmente no meu perfil do Twitter, naquela data. 


Wednesday, October 06, 2021

Ramones

Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em dois de outubro de 2021. É uma versão reescrita e um pouco ampliada da minha Micrônica 1976, de cinco de outubro de 2017. Tal como o som dos Ramones, é rápida e simples. 

Estava andando de skate com meu irmão Eurico e meus amigos no centro. Estávamos em 1988, havia skatista para tudo que é canto da cidade. Na esquina das Rio Grande do Sul e Prefeito Chagas encontramos um amigo, o Helinho. Trocando ideia, ele me fala sobre os Ramones. Digo que nunca ouvi e ele fica espantado: “Como assim, você anda de skate e não conhece Ramones?”. No dia seguinte o Helinho, que curiosamente hoje pouco vejo e é um amigo distante, apareceu na rua de casa e trouxe uma fitinha do Ramones para me emprestar. Eu nem pedi, pelo que me lembro foi generosidade dele. Hoje, relembrando a sequência das músicas, sei que era uma gravação da coletânea Ramonesmania, então recém-lançada. Recordo-me bem do som que meu pai havia acabado de mandar fazer: era um toca-fitas de carro acoplado a caixas de som pequenas, instalado no quarto que eu dividia com meu irmão. Pus a fitinha pra tocar e aconteceu o mesmo momento mágico que ocorreu com milhões desde o primeiro contato com Ramones: daí em diante minha vida mudou pra sempre.

Daniel Souza Luz é professor, revisor, jornalista e escritor



Estátua em homenagem a Johnny Ramone. Foto de Scott Beale/Laughing Squid (laughingsquid.com), compartilhada aqui via licença Creative Commons


Wednesday, September 29, 2021

O Facho

Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 25 de setembro de 2021. Foi revisada atentamente pela Renata Chan. É uma sátira política inspirada no Machado de Assis, John Boyne (no final) e principalmente no grande Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta. E, claro, nos transfóbicos políticos da terrinha, em especial naquele que se acha o lídimo representante da liberdade de expressão - desde que seja a dele, senão não procuraria interditar a discussão da identidade de gênero. 

1921. Na modorrenta Poções de Cura, cidade interiorana que passara da condição de vila no começo do século, a pequena população foi chacoalhada por um intrépido vereador, que trouxe, para o júbilo do seu proponente, um debate então inaudito à câmara e que logo ganharia repercussão nas ruas e até fora da província. Em moção de apoio a Arthur Bernardes, que então ocupava a chamada Presidência do Estado de Minas Gerais e que no ano seguinte ocuparia a presidência de fato do Brasil, o nobre edil Claudelino Marcel Queiroga Neves Pazuello de Carvalho saiu-se com o seguinte discurso, tido por muitos como um disparate, mas que encheu de orgulho o bravo orador, maravilhado com a própria oratória:

- Faz muito bem nosso grande líder desse Estado em vetar os projetos apresentados pela oposição. Vejam bem, tenho convívio e até amizade com pretos e mulatos, não se trata de conservadorismo, até porque a douta princesa Isabel extinguiu a escravidão, mas é um absurdo que a oposição queira dar mais guarida ainda a essa gente, que já tem direitos demais desde então. Daqui a pouco vão querer usar os mesmos banheiros que nós!

Surpreendido, o líder da oposição local pede a palavra, agastado desde o princípio do discurso delirante.

- Mas o que vossa senhoria quer dizer com isso? Mas já não usam? Racismo é um absurdo. Queiram nossos governantes que um dia isso seja crime! Jamais havia escutado tamanha aleivosia neste magnânimo espaço, até então prístino!  

Inabalável, Claudelino retorquiu de imediato.

- Pois crime aqui deveriam ser considerados o samba e a capoeira, tal como já fazem na capital da nação! Se vossas senhorias não sabem, no Rio a polícia coíbe tais manifestações ditas “culturais”, que impedem que alcancemos nosso papel de novos timoneiros da cultura greco-romana, que Deus há de nos legar!

Atônitos, os demais membros do legislativo assistem calados à tagarelice que compraz Claudelino. O líder da oposição é a exceção.

- Pois saiba que aqui não há segregação por lei, como há nos Estados Unidos, nobre colega!

Claudelino não se fez de rogado.

- Essas ideologias de igualdade importadas vão destruir a família brasileira! São piores do que o nazismo e o fascismo.

Neste momento, o narrador, que apenas era observador, irrompe pelas portas da câmara, tornando-se participante, e dispara:

- Não cabe falar de nazismo aqui, estamos em 1921! Fascismo, talvez, afinal, Mussolini já apronta das suas na Itália, mas nazismo não! Trata-se de um anacronismo que está prejudicando a narrativa!

Claudelino assente e agradece a intervenção.

- Para que vossas melhorias entendam meu brilhante raciocínio, usarei um exemplo melhor, pois sou um facho de luz que vos ilumina. Quando as tropas do safardana Solano López, o bolivariano ditador paraguaio, nos atacavam, era possível ver as baionetas e balas de canhão vindo na nossa direção. Já esse novo inimigo é invisível, insidioso. Adentra nossos lares, o corrompem com a ideia de igualdade; é uma desonra para nossa sociedade, tão elevada em seus princípios.

Neste momento o narrador torna-se onisciente, o que não deixa de ser uma blasfêmia, e ciente da perversidade dos pensamentos de personagem tão ignaro, não se contém e encerra a história com a seguinte fala:

- Em primeiro lugar, tu não passas de um facho de luz na contramão que obscurece nossa visão! Em segundo lugar, mesmo que Bolívar seja tido como um herói na América Latina, está muito cedo para usar o termo bolivariano, tratando-se de outro anacronismo que conspurca essa narrativa. Por fim, todo preconceito é odioso e a totalidade do seu discurso é repugnante, digno do biltre, do sacripanta, que tu és. Daqui um século tudo isso estará superado. Não é possível que os tribunais superiores tenham que considerar crime racismo e outros preconceitos contra seres humanos que não têm nosso perfil daqui a cem anos, pois até lá a humanidade terá evoluído muito, esses reacionarismos estarão extintos, e quem os exarar terá o ostracismo que merece. Não é possível que eu esteja sendo tão ingênuo.  

O texto e o contexto. Ampliando no celular, é possível ler tudo.


Tuesday, September 21, 2021

Nêmese

Este conto foi escrito em 20 de janeiro de 2014. Revisei-o na véspera, sem alterar nada da história, para publicação no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 18 de setembro de 2021. O conto mostra o destino de um dos personagens do meu primeiro livro/plaquete, No entanto, o reescreverei radicalmente para o meu segundo livro/plaquete. 

Ecsel mira o morro que se descortina a uns quinhentos metros, quando o mormaço dos exaustores da usina eólica dissipa o sinomog abrupta e brevemente. Ecsel mira celeremente. A ex-esposa do Gerente municipal estava passeando com o pug de estimação na rua central do condomínio, tal como lhe foi minuciosamente informado pelo mandante. O silenciador da metralhadora de precisão funciona a contento. A mulher tomba com o rosto irremediavelmente desfigurado. O pug está ileso, conforme foi expressamente encomendado. Com o focinho alongado cirurgicamente com o dinheiro do mandante, Gonzo bate num poste ao correr e olhar para trás ao mesmo tempo, vítima de sua falta de noção espacial devido à intervenção do veterinário na face. O mandante, observando do escritório pela cam do seu drone, tem um esgar de arrependimento, preocupado com Gonzo, que provavelmente fraturou o excerto ósseo.

Ecsel desmonta rapidamente a metranca, enfia-a na barriga falsa coberta pelo vestido, abre a porta da casa de serviço do telhado da clínica de fertilização transgênica, desce e sai incógnito, confundindo-se com os demais grávidos.

Nas ruas esvaziadas, no entanto, Ecsel aperta o passo. Os ataques dos neoavivamentistas contra os transgêneros ou os hippocampistas tornaram-se frequentes até mesmo em cidades com meros duzentos mil habitantes. Pelejando há dois anos para sair de uma cidade pequena, Ecsel adotou a estratégia de receber apenas em avatar para evitar ser rastreado. Em dois meses fará 14 anos e atingirá a maioridade penal, mas mesmo assim quer evitar qualquer estigma. É um perfeccionista e não pretende cumprir qualquer medida socioeducativa. Já é a 17ª encomenda e, pelas suas contas, conseguirá converter os avatares em uma soma razoável de créditos reais, mesmo perdendo no paralelo; o suficiente para financiar um quarto com banheiro em Manaus e toda a faculdade de engenharia de impressão. Sem que os pais desconfiem de que é o matador de aluguel que mais assombra a concessionária de segurança pública, pois ambos creem que Ecsel ganha tudo monitorando fluxos de opinião para as campanhas eleitorais do avô, o Supervisor distrital. Basta ser discreto. Enquanto minhocava essas questões na cabeça, para seu desgosto, a circunstância estragou a discrição. Dois quarteirões adiante topa com Hugo, um colega de sala do Ciclo Básico. Pensa que talvez terá de eliminar Hugo e o cumprimenta com um sorriso contrito.

- Oxe, seu nome é Êcsel, né?

- Não, se pronuncia Écsel.

- Que diferente, de onde que veio esse nome?

- É de um cantor de uma banda da qual minha mãe gostava. – Ecsel estava pensando em atirar à queima-roupa mesmo, já tendo acionado o disruptor remoto das câmeras de segurança daquelas ruas antes de sair da clínica.

- Nunca ouvi falar.

- É coisa de velho.

O taser de Hugo estava regulado para infarto fulminante e fez dessas as últimas palavras de Ecsel. Ele achou que Ecsel havia comprado um bebê semipronto. Não o questionou, nem se questionou, só viu mais um negacionista dos cisgêneros – é assim que os neoavivamentistas os denominam. Tornou-se inconscientemente o assassino mais prolífico da cidade. Sem pensar em reconhecimento argentário, almejando apenas a benção de seu pastor.

Daniel Souza Luz é jornalista, professor, revisor e escritor

Meu primeiro livro/plaquete, lançado em 2019. A capa foi ilustrada pela Juliana Melo.  


Wednesday, September 15, 2021

O dia em que eu tretaria com o Brizola

 Esta crônica foi publicada na página 9 da edição 7549 do Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 11 de setembro de 2021. Eu a escrevi à queima roupa pouco antes do horário do fechamento do jornal e não passou por revisão, a não ser por mim mesmo agora, para publicação no blog. Fiz pequeníssimas modificações; a principal foi desmembrar a última frase. 

Já escrevi uma crônica sobre as eleições de 1989: para mim foram divertidíssimas. Eu sei que teve baixaria até que parecida com as de hoje, como a vergonhosa edição que a Globo fez do debate entre Lula e Collor, abordada no documentário Além do Cidadão Kane. Outra história famosa é a do sequestro do empresário Abílio Diniz por um grupo de extrema-esquerda do Chile, o MIR: quando a polícia encontrou o cativeiro e prendeu os sequestradores, os apresentou com camisetas do PT, as quais teriam sido plantadas. Enfim, era jogo sujo sem meios virtuais. Mas tudo isso estava fora do meu radar, eu era novo demais. Mesmo assim, acompanhei as eleições com relativa atenção. Apesar de ainda existir a União Soviética, esses papinhos furados de fantasma do comunismo me pareciam bem insignificantes. O ambiente era muito mais de alegria, devido à redemocratização; não era algo tão conflagrado quanto agora. Eram muitos candidatos à presidência e os debates eram muito engraçados. Eu levei na galhofa, apesar de saber da seriedade e da importância. No meu anarquismo pueril, eu queria mais era zoar todos os candidatos. O que efetivamente fiz, mas isso já contei na crônica que mencionei na primeira frase, chamada República Selvagem, publicada neste Jornal da Cidade anos atrás. Nela, conto que Brizola almoçaria na minha casa durante a campanha. Meu pai era filiado ao PDT e brizolista roxo. No entanto, minha mãe vetou a ideia, pois o apartamento em que morávamos era muito acanhado. Era num predinho do BNH, o Minha Casa, Minha Vida dos tempos da ditadura. Ela achou que não ia dar certo um monte de correligionários dele e mais equipes de TV lá. E ela estava certa, não caberia. Como já disse, achei uma pena, pois seria divertido vê-lo xingar o Collor dentro da minha casa. Mas, pensando bem, acho que acabaríamos discutindo. Sei que o Brizola foi um sujeito muito corajoso, teve vários méritos, impediu um golpe de estado em 1961. Posso até admirar isso, mas eu já o achava um populista. O jeito dele falar me irritava e os seus imitadores daqui mais ainda – meu pai não imitava o jeito dele falar, ao menos ele tinha personalidade própria. Imagina se ele entra no meu quarto e vê pôster de skate e videogame. É certeza que iríamos bater boca. Consigo visualizar ele criticando tudo, dizendo que são coisas da “juventude americana” ou algo assim. E eu retorquiria dizendo que ele era um velho gagá. E se ele visse alguma Playboy lá? Acho que teria uma síncope. Consta que ele quis ou conseguiu impedir uma parente (Neusinha Brizola, salvo engano) de posar para a revista. Acho não tínhamos mais armas de brinquedo àquela altura, mas não tenho certeza. Era capaz dele pegar e jogar no lixo. Hoje eu acho que ele está certíssimo, mas é óbvio que eu não ia engolir isso. Não, estou exagerando; ele ia criticar tudo, mas não ia dar uma dessas. Mas deveria, no final das contas seria uma ótima memória. Pena que não aconteceu essa nossa briga. Grande Brizola.

Daniel Souza Luz é jornalista, revisor, professor e escritor


Leonel Brizola pula fogueira de armas de brinquedo, que foram trocadas por livros, em 1982, no Rio de Janeiro. A foto é de Aguinaldo Ramos e não está em domínio público, mas pela leitura desse texto no blog dele suponho que ele não se importa pelo uso não comercial dela. Recomendo muito a leitura deste texto dele contando os bastidores da ocasião em que ele tirou a famosa foto. 


Wednesday, September 01, 2021

Dominatrix no pogo

Esta crônica foi publicada em 28 de agosto de 2021 na página nove do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG). É uma versão ampliada e reescrita da minha Micrônica 1998, de 27 de outubro de 2017, sobre meus bons tempos dos anos noventa, a qual eu mesmo revisei mais uma vez agora, pois encontrei vários errinhos após a publicação no jornal. 

Adorava os shows no Pau-Brasil, bar de Bauru que era na verdade um sobradinho adaptado, na última década do século passado. Embaixo ficava o balcão e subindo as escadas ficava um pequeno “palco” num cômodo. Na verdade, não havia palco algum, era só o espaço ao lado da escada que fazia as vezes de um palquinho. Tinha gente que se equilibrava entre a parede e aquela espécie de mezzanino, então pra começar às vezes passava por baixo daquele bando de homens e mulheres-aranhas ao chegar para os shows. Bauru é quente como um fogão em funcionamento e aquele salãozinho era uma panela de pressão. Durante o mosh, com umas oitenta ou mais pessoas onde deveriam caber umas cinquenta, as paredes literalmente suavam. Bem, talvez eu esteja exagerando quanto ao número de presentes, afinal eram shows underground; vai ver eram apenas quarenta pessoas onde cabiam apenas vinte. Mas não estou exagerando quanto ao suor. Formavam-se gotículas no teto e quando elas caiam o chão enlameava-se com os tênis e coturnos sujos. Ficava super escorregadio para o pogo. Com certeza algum espírito de porco também derrubava cerveja, o que não ajudava em nada. De qualquer forma, punk rock sempre foi uma aventura solidária. Se você caía, alguém logo te ajudava a levantar. Mas nada de edulcorar o passado. A briga mais sanguinária que já testemunhei em show foi lá, em 1997, quando o Autoboneco, heróis locais e até hoje na ativa, estava tocando. Mas um ano depois era meio diferente e esta história de 97 já contei numa outra crônica chamada Como Sobreviver a uma Briga num Show de Punk Rock. Em 1998 vi o cara, na verdade um gorila, que provocou a treta de um ano antes, o Boy, tentar encoxar uma amiga, a Marília, durante o mosh. Ela, muito menor, deu um soco na fuça do babaca que ele até perdeu o rumo. Era o tempo das riot grrrls. No meio do hardcore se discutia muito sobre as letras do Dominatrix, banda que fazia do feminismo sua bandeira. Felizmente, isso não é mais restrito ao meio underground ou acadêmico. Pena que ainda haja muitos trogloditas por aí, talvez até mais. De qualquer forma, conversando recentemente com a Marília, rememorando esses episódios, ela me disse que se compadece do Boy, que provavelmente ele era um rejeitado até mesmo num meio inclusivo. De fato, ele não reagiu, assim como resolveu apanhar quieto um ano antes, depois de começar a briga. Alguém imagina um “cidadão de bem” tendo essa dignidade, ainda que meio torta, em 2021? Eu não.

Daniel Souza Luz é jornalista, revisor, professor e escritor


Foto que tirei do Dominatrix na Virada Cultural de São Paulo/SP, 18/05/2014. Infelizmente não fotografei o show delas que vi nos anos noventa.  


Monday, August 23, 2021

Indignação, de Philip Roth (resenha)

Esta resenha foi publicada no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 21 de agosto de 2021. Já havia publicado uma versão preliminar no Good Reads cinco dias antes, a qual reescrevi para adaptá-la ao jornal, também ampliando-a. 

Conforme prometi na minha mais recente crônica para o Jornal da Cidade, aqui está a resenha de um livro do Philip Roth. Era para ser outro, mais recente, mas não faz mal. Haverá outra oportunidade. Indignação é uma obra excepcional. Roth é mesmo um mestre da narrativa. Em certos momentos ele ilude o leitor, parece que incorre na literatura fantástica, mas nada disso; Roth era um cético, com os dois pés firmes no chão, e tudo fica muito bem explicado e amarrado. E estava tudo na cara, mas ele habilmente me deixou perplexo, imaginando experimentalismos e implicações cósmicas. Já deveria saber de antemão que não era nada disso. E esse é só um dos inúmeros pontos fortes do livro. Se você não gosta de spoilers e ainda não leu esse obra-prima, pare de ler por aqui. O narrador, Marcus Messner, é um jovem ateu de origem judaica (o que me faz supor que o romance seja em parte autobiográfico, como boa parte da obra dele) que desiste de estudar na faculdade local para escapar à opressão paterna, que até um pouco antes de sua entrada na universidade não existia ou era muito tênue. Messner, aliás, é de Newark, cidade natal de Roth em Nova Jérsei. Ele então parte para outra, muito conservadora e numa cidade interiorana do reacionário Meio-Oeste dos EUA. É claro que nada de bom virá daí e suas relações com um colega de quarto homossexual e libertino, com outro obtuso e provinciano, com uma "peguete" chamada Olivia Hutton, com colegas das famosas fraternidades daquele país e principalmente com uma espécie de bedel moral da faculdade serão permeadas de tensão. Fascina-me em especial a discussão com este último, chamado Cauldwell, no qual Marcus cita o ensaio Por Que Não Sou Cristão, de Bertrand Russell, esgrimindo argumentos impecáveis e sendo retorquido por uma retórica medíocre, eivada de macartismo. Roth mostra brilhantemente como um jovem inexperiente pode ser inteligentíssimo, mas também pode ser tolhido pela inexperiência e pelo uso abusivo de micropoderes por parte de adultos tóxicos e invasivos. Chama a atenção, comparativamente, a crescente paranoia do pai de Marcus, que em parte lembra as neuroses de Portnoy, que não tinha uma relação sadia com os pais em O Complexo de Portnoy, outra das obras-primas do Roth. Marcus, pelo contrário, tinha uma boa relação e é trabalhador, estudioso e principalmente compenetrado, tendo em mente que precisava se destacar nos estudos para não ser alistado e mandado para a morte certa na cruenta Guerra da Coreia. O encadeamento de escolhas impensadas, imaturidade, reacionarismo e eventos fortuitos resultam em tragédia e na perda irreparável de cérebros - não só de Marcus, como o de Olivia, provavelmente. A final nota amarga é que Roth não deixa de observar que isso deve-se muito ao zeitgeist: a trama se passa nos anos 1950 e na libertária década seguinte espíritos arrojados e brilhantes como os de Marcus e Olivia não serão destruídos por sujeitos obtusos como Cauldwell, que perdem a importância e o poder mesmo numa instituição ultraconservadora, mas sim se destacarão na geração flower power que demoliria tabus sexuais e comportamentais.

Daniel Souza Luz é revisor, professor, escritor e jornalista



Monday, August 16, 2021

Para Philip Roth

Esta crônica foi publicada em 14 de julho de 2021 no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG). É uma versão retrabalhada da minha micrônica 2207, publicada em 24 de maio de 2018, dois dias após a morte de Philip Roth - soube do falecimento dele no dia anterior. Mantive a dedicatória, como se fosse um título, por pura preguiça. 

Em 1995, quando cursava o primeiro ano de Jornalismo na Unesp, no campus de Bauru, saí para um rolê no intervalo das aulas e fui parar na Banca do Itamar, que na verdade era uma livraria que ficava entre os blocos das salas de aula. Uma galera da minha turma notou que havia livros em promoção por valores irrisórios. Se bem me lembro, foi um amigo chamado William Cardoso, hoje repórter do jornal Agora, que pôs fogo em nós para que colássemos lá. Em meio à pilha de livros, não tão substanciosa assim, com preços promocionais, encontrei lá uma edição de O Complexo de Portnoy, lançada no Brasil, salvo engano, nos anos 1980. Já havia lido sobre o Philip Roth e me interessei. O livro custou apenas um real. Sempre disse que foi o melhor negócio da minha vida. Paguei com aquelas notas de real que nem existem mais. Ao contrário do que faço hoje, devorei o livro pouco depois de comprá-lo. Adorei-o. Até ler O Rei de Havana, de Pedro Juan Gutiérrez, era o melhor final que já havia saboreado na literatura. É curioso: ser um homem branco (ao menos aqui no Brasil; na gringa eu seria tido como latino) e heterossexual como Roth fez com que, até emprestar o livro para uma ex, não me desse conta do quão machista é o narrador. Embarquei na psique distorcida do protagonista e apenas me diverti ou fiquei embasbacado, mas nunca de fato chocado. O que também é fruto da minha imaturidade à época, com certeza. É uma obra-prima tão bem escrita que não li nenhum outro livro de Roth nos próximos 25 anos. Achava que nenhum estaria à altura. Ledo engano, no ano passado li Indignação e o próximo livro que encararei será o canto do cisne dele – Roth morreu em 2018. Sempre pode haver mudanças de percurso, no entanto. Mas provavelmente será. Aguardem uma resenha. Ou não.

Daniel Souza Luz é revisor, professor, jornalista e escritor


Philip Roth em 1973. Foto de Nancy Crampton, já em domínio público.




Monday, August 09, 2021

Juventude Sônica Estourando Alto-Falantes

Esta crônica é uma ampliação da minha micrônica 1992, de 2017. Foi publicada no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG), em 07/08/2021, revisada por mim mesmo. Para a publicação aqui, foi revisada pela Juliana Gandra.

Depois de algum tempo comprando discos em sebos, li uma crítica do já falecido jornalista Celso Pucci na revista Bizz e resolvi comprar o então recém-lançado Dirty, do Sonic Youth, em 1992. Dias atrás li que no mês passado fez 29 anos do lançamento. Lembro até hoje de voltar feliz para casa, com o vinil duplo, novinho, debaixo do braço, e encontrar uma colega de escola, a Maria Fernanda (que nunca mais vi), na praça. Eu estava caminhando também para o fim do ensino médio. Mostrei o disco, ela não conhecia, mas todo mundo sabia já quem era o Nirvana, então bastou explicar que era um grupo que os tinha influenciado. Conheci o Sonic Youth de ler a respeito no fim dos anos 1980 e os ouvi pela primeira vez em 1990, quando o Kid Vinil passou o clipe de Silver Rocket na TV Cultura. Era uma pancada como nunca havia ouvido antes; parecia hardcore, mas era muito mais barulhento e sujo do que bandas do estilo à época, que estavam muito próximas do thrash metal. Por isso, me decepcionei quando peguei a fitinha do disco Goo, que era daquele ano, com um amigo, o Jorge Nunes – cujo pai foi o primeiro dono da Agência Playboy, banca já extinta onde comprei muitas HQs e livros. Foi quando percebi que eles não eram uma banda de hardcore punk, como o clipe sugeria. Mas havia adorado o clipe de Dirty Boots, o som que abre Goo, que o Kid Vinil também exibira dois anos antes. O disco de 1992, que parecia fazer referência à música de 1990, me desceu muito melhor. O vinil tinha uma música a mais do que o CD, informação que constava na resenha do Celso Pucci, e por isso optei por comprá-lo. Ouvi o disco, maravilhado. Eles não tinham se “nirvanizado”, como apontou Pucci. Eram músicas bucólicas, ou barulhentas, ou caóticas, ou bem engendradas. Stalker, a música-bônus, tem um fim com uma frequência de som tão alta que estourou a caixa de som do aparelho da sala logo na primeira vez que a ouvi. Fiquei quieto a respeito, para não tomar bronca dos meus pais. E por 26 anos esse aparelho funcionou com apenas uma caixa, até pifar de vez. Já o vinil duplo de Dirty tenho até hoje e ainda o escuto. Mas, calejado, tomo o cuidado de abaixar o som no final fatídico de Stalker.

Daniel Souza Luz é revisor, jornalista, professor e escritor


Foto que tirei em 21 de outubro de 2017, data em que publiquei a micrônica 1992 nas minhas redes sociais. 


Monday, August 02, 2021

A Filha, A Flor, O Cais, de Ana Luíza Drummond (resenha)

Esta resenha foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 31 de julho de 2021 - ou seja, apenas onze dias após o lançamento do livro e um dia depois de recebê-lo pelo correio. Por isso o "neste mês" no texto, agora já mês passado. Portanto, é um livro que merece uma releitura. Muitos pontos que chamaram a atenção nos poemas, como os hábitos que cultivamos nas redes sociais, não estão presentes na resenha, por questões de espaço e de ter sido escrita à queima-roupa. Mais uma vez citando o posfácio de Ricardo Pinto de Souza: este texto também é um guia para uma leitura inicial. O texto foi revisado pela Juliana Gandra para a publicação no jornal e o revisei novamente para publicá-lo aqui; basicamente, só eliminei uma vírgula que ela inseriu, inclui uma crase que estava faltando, consertei uma frase para não haver repetição exagerada do termo "aqui" e pus o nome completo do Jorge (também conhecido como Jorgeras).  

Conheci a poeta Ana Luíza Drummond há dez anos, numa viagem para Ouro Preto, quando visitei sua casa em Mariana. Ela é companheira de Jorge Benedito Freitas, meu ex-aluno, hoje já com doutorado em Letras, em que estudou o grande poeta judeu Paul Celan. Lembro-me de Jorge lendo seus poemas em saraus espontâneos, sem divulgação prévia ou incentivos culturais, num barzinho na rua Rio Grande do Sul, em meados da primeira década deste século. Ana Luíza, que eu não sabia que escrevia, é quem lança um livro de poesias neste mês. Ela já morou em Poços de Caldas também, por um breve período de tempo, quando foi minha colega no núcleo local do curso pré-vestibular Educafro, no qual lecionou Português. Seu primeiro livro foi lançado em 20 de julho deste ano pelo selo Leme, da editora Impressões de Minas. Ao lê-lo e fazer anotações mentais para esta resenha, acabei tendo uma impressão muito parecida com a registrada no posfácio, escrito por Ricardo Pinto de Souza: a de que a obra se divide em três partes, ainda que a autora não tenha estabelecido essa divisão formalmente. Na primeira, ela relembra e, o mais importante, revive sua infância, ressignificando as relações com a família. É especialmente pungente o poema no qual aborda a relação paterna: “Esta é minha cena-carta-poema do perdão: livro-me/Nela me escrevo para assombrar-te: existo/Nela iludo lei e pai” é um dos trechos mais fortes. Ao contrário de Pinto de Souza, no entanto, entendo que não é o belo poema Mito, que abre o livro e é dedicado à mãe de Ana Luíza, que dá a chave de compreensão dessa primeira parte. Isso já está posto na dedicatória à avó Almerinda. É o ser e crescer mulher que permeia o livro até a segunda parte, que também identifiquei ter o mesmo tema destacado por Pinto de Souza no “percurso interpretativo” que ele estabelece e que percorri na mesma senda até aqui, inconsciente de sua proposição: a da descoberta de si e de ser mulher num mundo hostil e misógino. Nela se (re)afirma o corpo e a sexualidade numa linguagem sem pejo, na qual termos como “buceta” e “meu cio” são usados não para chocar moralistas conservadores (que ficariam desgostosos de qualquer forma), mas para refletir sobre sua condição – e de todas as mulheres, num viés feminista. Curiosamente, é aqui que Ferros, cidade mineira na qual Ana Luíza nasceu e chegou a ser secretária municipal de Educação, é mencionada e evocada mais diretamente. As lembranças de uma idade mais tenra na cidade natal aparecem quando a autora se vê numa rotina no Rio de Janeiro que pouco lembra o estereótipo do carioca “sangue bom”. Esse encontro com si mesma, como bem observado no posfácio, deve-se muito ao nascimento de Flora, quando ela e Jorge moravam em Alfenas (agora estão em Timóteo; ao menos foi de lá que Ana Luíza me enviou o livro), pois “modifica e problematiza tanto a memória do passado quanto o sentido do presente”. Este “memória do passado” algo pleonástico de Pinto de Souza, não está errado; a terceira parte me fez lembrar de “Memories of Tomorrow”, do grupo de hardcore Suicidal Tendencies. Mas não estamos num mundo devastado por uma guerra nuclear e sim num país em processo de destruição por um presidente ignorante e neonazista (agora com laços assumidos com o partido neonazi alemão). A terceira parte do livro é menos sobre o espanto com o mundo atual, como entende Pinto de Souza, e mais de indignação política e alguma esperança, no meu entender. Nesse caso, há um feliz acidente, ao menos no exemplar que recebi: as páginas 53 e 54 se repetem três vezes; é justo no poema 14 de março de 2018. Esta é a data do assassinato de Marielle Franco. Provavelmente não é proposital, mas acabou vindo a calhar ler os mesmos versos repetidamente, pois é uma data que ecoa até hoje, sem parar, sem parar, sem parar.   

 

Daniel Souza Luz é revisor, jornalista, professor e escritor



Monday, July 26, 2021

Niponírico

Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 24 de julho de 2021. A Juliana Gandra fez a revisão.

Foto de Pablo Fernández. Reproduzo aqui via Creative Commons.

Tóquio 2020 em 2021. Esta edição das Olimpíadas um tanto quanto distópica me faz lembrar de que fiz a melhor viagem possível ao Japão num sonho. Cheguei em uma Tóquio que parecia ser feita de casas bixas, mas o hotel era uma torre enorme, isolada. Ficava em frente a uma pequena praça desolada, sem árvores, parecida com a da igreja Matriz (!?!) de Bauru, que é (ou era) muito concretada, mas muito miniaturizada. A entrada era de portas de vidro enormes, com paredes de mármore preto. Após deixar as malas no quarto, desci para a casa de chá, no lobby do hotel. Na real, parecia um bar com paredes escurecidas e um grande balcão. Enquanto esperava, pois o chá demoraria um pouco para ficar pronto, cansei de ver as casas mirradas da esquina da rua em frente, pois estava num andar muito baixo e a paisagem era monótona; fui dar uma olhada na loja de CDs em frente. Chegado lá, fiquei impressionado pela enorme quantidade de CDs de MPB: Toquinho, Taunay, Taiguara muitos outros. Numa prateleira em frente, vários DVDs de desenhos da Turma da Mônica, inéditos no Brasil. E, ao lado deles, mais DVDs ainda de filmes pornôs sadomasoquistas e alguns hentais. Acordei achando isso tudo muito nipônico mesmo. Talvez alguém ache que isso seja orientalismo, mas não posso controlar meu inconsciente.

Daniel Souza Luz é revisor, jornalista, professor e escritor


Tuesday, July 20, 2021

O Pianista Que Pensava (resenha)

Esta resenha foi publicada em 19 de junho de 2021 no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG). Havia sido publicada originalmente no Good Reads em dezembro de 2020, mas a atualizei e ampliei para a publicação no jornal. 

Confesso que adoro encontrar obras que parecem ter sido escritas por pessoas que tiveram filhos, plantaram uma árvore e escreveram um livro só porque há o famoso ditado que recomenda isso. Apesar de todos os pesares, sempre há pequenas pérolas. Peguei este livro um pouco antes da pandemia, em Campestre, pequena cidade mineira vizinha a Poços de Caldas, no consultório do dentista Wilton Serrano, um bom amigo. Ele disse que era para eu ler e passar pra frente mesmo. Não sei onde ele encontrou o livro, mas estava até com o convite de lançamento e uma curiosa dedicatória do autor, um músico carioca a respeito do qual quase não há traços na internet, na qual ele colou um papel em cima do nome de alguém e aparentemente dedicou este exemplar a outra pessoa – olhando na contraluz, minha namorada depois desvendou o segredo: ele havia escrito errado o nome da pessoa para quem ele autografou este exemplar. Li as poesias no início e me animei, ainda mais que a capa foi desenhada pelo Chico Caruso e o Millôr fez ilustrações para o livro. Parece que isso foi em outra vida; quando peguei realmente para ler o livro, pandemia ainda grassando desgraçadamente no Brasil, evito até pequenas viagens para cidades vizinhas. Infelizmente o livro não sustenta as expectativas. Na verdade, é uma coletânea de máximas (isso eu já sabia); algumas, como diz o editor Marcelo Câmara no prefácio, podem até ser entendidas como haikais. O problema é que a maioria é banal, não passam de generalidades, algumas beirando àquele humor misógino típico daquela geração. Osvaldo Nunes Filho, o pianista que pensava, com certeza era melhor em escrever partituras. Outra curiosidade é que o exemplar tem um errinho que passou pela revisão e foi corrigido à caneta pelo próprio autor - é possível reconhecer a letra. E a edição prejudica algumas das ilustrações do Millôr, distribuindo-as por duas páginas e dificultando a apreciação delas, devido à dobradura do livro. De qualquer forma, há algumas tiradas geniais. Um exemplo: "Era um grande democrata. Estava sempre pronto para dizer seu monólogo". Essa é bem apropriada para estes dias, embora o livro seja de 2004. Como é uma leitura rápida, vale a pena, no fim das contas.

Daniel Souza Luz é escritor, jornalista, professor e revisor




Monday, July 19, 2021

Por todos os discos que não comprei, obrigado, Carlão

Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 17/07/2021. O título foi sugerido pela Juliana Gandra, que também revisou o texto.

Nesta semana, na segunda-feira (12/07/2021), faleceu Carlos Eduardo Pereira, dono do sebo Ler e Ouvir, de sequelas da Covid-19, segundo Roberto Tereziano. Conforme comentei no telejornal Virou Notícia, da Virando TV - pois substituí nesta semana o jornalista Roni Bispo na apresentação do jornal -, trata-se de uma vítima da doença que não consta nas estatísticas oficiais, pois morreu depois de estar em casa e já ser considerado curado. Ou seja, aquela maldita tabelinha de “recuperados” não contempla os sequelados e vítimas colaterais da pandemia, que foi tão potencializada por neofascistas negacionistas e, também, não podemos nos esquecer, por aqueles que têm noção, mas são coniventes com aglomerações para atender interesses comerciais e políticos. Neste mesmo Jornal da Cidade, na coluna Aspectos da Literatura Poços-Caldense, Huendel Viana já contou a história do livreiro Eduardo, ou seja, de como Carlos Eduardo, conhecido pelos amigos como Carlão, se formou em Filosofia, frequentou os famosos sebos do centro de São Paulo e trouxe a ideia para cá. Figura querida, ele era mesmo uma figura. Esses espíritos rebeldes têm conexões: meu amigo Aran Brandão tem em Bauru uma espécie de loja que nunca vi similar, a Extinção, que é uma mistura de sebo e brechó. Ele e Carlos Eduardo têm (tinham) o desprezo pelos horários comerciais: abriam quando queriam, se quisessem, só à tarde, e fechavam quando desse na telha. A relação de Carlos Eduardo com os livros, suas outras manias e seu método de precificação já foram esmiuçados pelo Huendel. Eu, no entanto, tive uma convivência muito diferente com ele. Sempre busquei discos de vinil no seu sebo e não livros. E ia lá frequentemente com amigos headbangers, que ficavam fascinados lá quando viam lá discos como o raríssimo EP Fuck Me Jesus, do grupo de black metal Marduk. Vou poupar os leitores religiosos dos detalhes da capa. A questão é que era um bando de metaleiros cabeludos que não compravam porra nenhuma. No máximo, um ou outro comprava algum disco do Kiss ou algo assim. Carlão ficava irritadíssimo, sempre nos tratava às patadas e cheguei a vê-lo expulsar um banger da sua loja aos berros – mas o sujeito não estava conosco, não faço ideia de quem seja. Comigo ele era um pouco menos hostil, pois virava e mexia eu comprava vinis – raramente algum de metal, aliás. Várias pérolas da minha coleção vieram do seu sebo: o primeiro disco das Mercenárias, o 3 Lugares Diferentes do Fellini, a coletânea New Wave Times, o Midnight Madness and Beyond do grupo britcore GBH, o inacreditável vinil brasileiro original de Wooly Bully, do Sam the Sham and the Pharaos, grupo de rock de garagem dos anos sessenta, e inúmeros outros. Comprei por preços módicos, ou a preço de banana mesmo. Hoje alguns valem pequenas fortunas. O título desse texto foi uma sugestão da minha namorada, Juliana Gandra. Tem discos que deixei de lado lá, como o To Mega Therion, do Celtic Frost, o Where Legend Began, do English Dogs e o Here Comes Everybody, do The Wake, que hoje com certeza valem centenas de reais. Separei-os, deixei com ele, na hora de fazer as contas vi que pesariam demais no meu bolso – nunca me esqueci disso e de quais discos eram. Arrependo-me, podia ter feito uma forcinha. Além disso, tem discos que adquiri lá e que vendi depois, como um das Throwing Muses, dos quais me arrependo muito de tê-lo feito. Bem, ao menos posso ouvi-los online hoje para inspirar-me para esta pequena crônica. Quanto ao Carlão, quando eu já estava na universidade deixei de ter a má impressão inicial; uma parente dele que também fez a Unesp Bauru disse-me que ele era inteligentíssimo e contou-me dos problemas de saúde que ele tinha. Considerei normal ele ser estressado, ainda mais com os amigos idiotas que eu tinha no final da adolescência – tanto que nem converso mais com eles. Quando o sebo já estava na rua Santa Catarina conversei com o Carlão algumas vezes, já em busca de (uns poucos) livros. Aí ele era outra pessoa, também creio que não se lembrava mais de mim. Devia ser duro para um homem sofisticado, amante de jazz, literatura e filosofia, aturar um bando de adolescentes desajustados em busca de barulho. Ou, pior ainda, que fossem no seu sebo apenas fazer muito barulho por nada – sei que ele entenderia essa referência.    

 Daniel Souza Luz é revisor, jornalista, professor e escritor


Capa do disco To Mega Therion (1985), do grupo suíço de death/thrash/black metal Celtic Frost. O desenho é do também suíço H.R. Giger, o criador do Alien. 


Monday, July 12, 2021

Revolta da Vacina, de André Diniz (resenha)

Esta resenha foi publicada no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 10 de julho de 2021. O texto foi revisado pela Juliana Gandra. 

Esta graphic novel foi lançada num momento muito oportuno, algo que a editora Darkside fez questão de ressaltar na contracapa. A Revolta da Vacina ocorreu em 1904, no Rio de Janeiro, e já foi tema de ao menos um ótimo romance: Sonhos Tropicais, de Moacyr Scliar, lançado em 1992 e vencedor do prêmio Jabuti em 1993. Ressoa agora na pandemia da Covid-19, com a diferença de que à época a população era desinformada e premida por políticas de gentrificação de gestores elitistas e racistas, como muito bem explana o excelente posfácio desta história em quadrinhos, escrito pelo historiador Luiz Antônio Simas. Agora, como bem sabemos, os anti-vaxxers, os celerados obscurantistas de extrema direita que fazem campanha contra vacinas chegam a influir nas decisões de um presidente neofascista e genocida, que delas desdenhou não por falta de informação, hoje abundante, mas pela fé (não há outra palavra) na mentira e nas notícias falsas. O resultado está aí: um massacre com mais de meio milhão de mortos. Cuidem-se, quem sabe não sobrevivemos para ver o quadrinista André Diniz ganhar os prêmios HQ Mix e Angelo Agostini (as grandes premiações dos quadrinhos brasileiros) de melhor HQ de 2021 por esta obra? Potencial há. Diniz lança mão de um expediente semelhante ao de Scliar: o período logo anterior à Revolta da Vacina, sua eclosão e consequências são pano de fundo para a ficção, mas o drama aqui não é o do sanitarista Oswaldo Cruz, mas sim de um aspirante a caricaturista, Zelito, recém-chegado do Ceará para trabalhar na imprensa carioca. A tensão não é só política e social, há uma trama familiar e amorosa que retorce seu caráter e leva-o (e ao leitor) a rumos imprevistos. O traço de Diniz é facilmente reconhecível e bastante pessoal, mas não deixo de pensar que deva ter ao menos alguma influência de Jô Oliveira. Aliás, o caráter algo pedagógico da obra (poderia e deveria ser adotada por escolas, talvez até seja a intenção dos editores), reforçado pela seleção de cartuns da época num apêndice após o posfácio, me faz lembrar da HQ Hans Standen, um Aventureiro no Novo Mundo, de Oliveira. A diferença primordial é que este procurava ser didático, o que levava a diálogos artificiais e uma narrativa que procurava ser fiel aos registros de Standen, um dos primeiros viajantes a aportar no Brasil, enquanto Diniz constrói uma narrativa robusta, com personagens com profundeza psicológica.

Daniel Souza Luz é jornalista, revisor, professor e escritor





Tuesday, July 06, 2021

Canícula gótica

Este conto foi publicado no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em três de julho de 2021. É uma versão reescrita e levemente ampliada da minha micrônica 1995, cujo título original era Canícula Gótica e Siouxsie and the Banshees, escrita à mão e publicada por mim nas redes sociais em originalmente em 26 de novembro de 2017. Esta nova versão foi gentilmente revisada pela Juliana Gandra. 

Passei em Jornalismo na Unesp, no campus de Bauru, em 1995. No final de 1994 havia ido para lá para fazer vestibular e gostei muito. Fiquei.

É irônico agora que penso a respeito, mas talvez por ser um lugar tão quente, ensolarado e suarento que vários alunos lá se refugiaram em sombras de bandas góticas/darks/sombrias e outras variações trevosas do pós-punk.

Logo nas primeiras semanas de aula fomos convencidos por veteranos a participar de uma ocupação da “reitoria” (na verdade, da sede administrativa do campus, mas na minha cabeça era a reitoria), em protesto por melhores laboratórios e a instalação de um restaurante universitário. Conversando com as minhas amigas e colegas de sala Patrícia e Paula a respeito da letra de How Soon is Now?, dos Smiths, a Paula me pergunta se conheço Minor Threat e digo que não, mas sempre quis ouvir. Ela me emprestou uma fitinha do irmão dela no dia seguinte. Foi uma paixão fulminante.

Mas voltando às bandas com gotiquices, era Joy Division pra cá, Sisters of Mercy pra lá. Em festas fui apresentado a grupos como o Kommunity FK, Swans e Malaria.

No fim daquele ano a Paula e o Márcio, que morava em uma república comigo, me chamaram para ver o show da Siousxie and the Banshees. Não quis ir. A Paula saiu da Unesp. Trocamos cartas. Confessei que achei o último disco da Siousxie chato. Que arrependimento. A banda acabou e nunca mais encontrei a Paula pessoalmente, até de redes sociais ela sumiu, e isso já tem anos.

 Daniel Souza Luz é revisor, jornalista, professor e escritor


                                                           

Siouxsie Sioux. Foto de Jennifer Patterson Lohman, s/d, via Creative Commons. 




Monday, July 05, 2021

Passado

Miniconto publicado no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) há um ano. Basta clicar no print para lê-lo 



Print que fiz na ocasião da publicação.


Friday, July 02, 2021

Do tempo em que havia shows

Esta crônica saiu na página oito da edição do Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 26 de junho de 2021. É uma versão muito encurtada, para caber no jornal, e atualizada do texto que escrevi logo após o show do Peter Hook and the Light no Cine Joia (SP/SP), em dezembro de 2016. Foi revisada pela Juliana Gandra.

Primeiro foi a Austrália, depois a Nova Zelândia e agora os EUA. Países que já têm shows. Em comum, não têm presidentes negacionistas. Por ora, cultivo a memória de boas apresentações enquanto aglomerações não voltam a ser algo normal. Amo New Order desde criança, quando era um grupo tecnopop popular que sempre tocava no rádio. O primeiro disco deles que ouvi foi a coletânea Substance, em 1988. Minha música predileta era Ceremony, mas a achava estranhamente diferente das demais e muito melhor. Só anos depois soube que foi composta originalmente pelo soturno Joy Division, grupo pós punk cujo vocalista Ian Curtis se matou em 1980; os sobreviventes a reaproveitaram no New Order. Ou seja, Joy Division já era minha banda predileta e eu nem sabia. Corta para 2016, 28 anos depois. O baixista do New Order, Peter Hook, está brigado com a banda e tocará na íntegra e na ordem os dois Substances (o Joy Division também tem uma coletânea com o mesmo nome) numa turnê, a qual passará para o Brasil. Tinha que ir, claro. Então peguei o busão com meu amigo Bruno Karnov, já falecido, e cheguei ao show do Peter Hook and the Light em São Paulo, na Liberdade, às 22:00 em ponto, depois de correr muito pela rua e pela estação de metrô Tietê, devido a vários contratempos. A divulgação dizia que o show começaria pontualmente. Até entrar e achar um lugar bom para ver era 22:02. Às 22:03 o show começou, como se Hooky, o apelido do músico, tivesse me esperado. Muito obrigado. Do fundo, esbaforido, mais uma gentileza: ele começou com o Substance do New Order, mas com três músicas bônus do CD extra. A primeira foi a sombria In a Lonely Place. Procession foi linda ao vivo, o sintetizador emulou bem a sonoridade original. Preocupado em encontrar um lugar melhor, nem prestei muita atenção no terceiro som. Soaram os primeiros acordes de Ceremony. Aí sim começou o disco. Que lindo finalmente vê-la ao vivo. De Everything’s Gone Green em diante, a parte dedicada ao New Order degringolou um pouco. Não eram sintetizadores sendo tocados no muque, mas sim bases pré-gravadas idênticas ao disco; soava como mero playback para que Peter Hook e seu filho se revezarem no baixo, notadamente enquanto Hooky cantava. Quando esta parte terminou, com todo o Substance executado mecanicamente e com 1963 de bônus, entrou o som mecânico rolando Kraftwerk e o próprio New Order. Fiquei com a sensação de que fazia pouca diferença. Muita gente foi para trás, neste momento, para comprar cerveja e tomar um ar. Que bom! Cheguei mais perto do palco e, como se não bastasse, ali chegava o ar-condicionado. Hook e a banda voltaram e também começaram pelos bônus, mas, ao contrário da seção dedicada ao New Order, não se circunscreveram ao Substance. Para minha incredulidade, tocaram minha música favorita de todos os tempos: Disorder. Faltou peso no baixo, tocado pelo filho dele, mas era ela. Cantei a todos pulmões; até hoje não acredito, parecia um sonho. De quebra, ainda tocaram Shadowplay. Baque à parte, lá veio: 3,5,0,1,2,5, go! Finalmente o Substance na ordem original do LP. Os clássicos tocados magnificamente, com destaque para Dead Souls: sempre achei que ficaria boa com dois baixos e nela Hook e seu filho complementaram-se. Não esperava nada do final. Love Will Tear Us Apart é uma música que ouvi ad nauseam. Quando ela teve início, destacando mais o baixo do que o teclado, aquele arrepio que senti na espinha há 28 anos subiu de novo. Ainda tinha o espírito e o sentimento.

Daniel Souza Luz é revisor, professor, jornalista e escritor


Foto que tirei do show do Peter Hook and the Light em seis de dezembro de 2016, no Cine Joia, São Paulo/SP, na ocasião em que ele apresentou as duas coletâneas Substance, do Joy Division e do New Order, na íntegra (tendo os vinis originais como base) e alguns bônus.