Sunday, April 26, 2009

Enfim parte 4

Os filetes de suor que escaldavam meu rosto são subitamente envolvidos pela água do gélido filete que cai ao lado da cachoeira, e no qual me enfiei ainda de roupa. Que burrada. Meu irmão já está nadando só de cueca nas águas translúcidas do regato que segue diante da pequena queda d’água. Recolho-me assim que enfio o pé descalço n’água.

- Entra de uma vez, será que você nunca vai aprender?

Continua...

Sunday, April 19, 2009

Enfim parte 3

Deixo o motor morrer ao tentar transpor um cupinzeiro inconveniente, crescido bem no lado esquerdo em um trecho estreito da estrada. Pensei que seria recriminado, mas meu irmão abre um sorriso. Em alta rotação constante naquele pedaço difícil, não havíamos percebido o arrulhar manso das águas. Argumentei que estávamos um pouco atrasados devido ao terreno acidentado. Entretanto, ele já abria a porta. “Já prevíamos isto, não é mesmo?”, rebateu desnecessariamente, pois já rumava para a cachoeira, mochila nas costas. Desço atrás, me segurando em galhos que se partem com facilidade, mas me apóio aqui e ali.

Continua...

Sunday, April 12, 2009

Enfim parte 2

Os arbustos vão se quebrando no mata-burro. Em meio aos solavancos, os troncos partidos guincham ao raspar no assoalho. A trilha logo aparece. Está quase coberta pelo mato, mas é nítido o caminho em meio às árvores. A estrada para a antiga mineradora.

Iniciantes não percorreriam 200 metros. Em um atoleiro, perdemos um bom tempo fazendo um calço e guinchando o jipe a uma árvore. Depois tivemos que usar os facões para derrubar dois arbustos que inadvertidamente cresceram no meio do caminho. Avançamos lentamente, escorregando no limo, perigando tombar em desníveis escondidos pela vegetação, mal nos mantendo na estrada já quase indistinta da mata e que nos é delineada pela trilha da cachoeira.

Continua...

Sunday, April 05, 2009

Enfim - parte I

A rua de terra batida morre em uma borracharia quase inacessível devido à lama frente ao portão de madeira. Sobre a pintura azul descascada das tábuas mal ajambradas está rascunhado porcamente com tinta preta: “Nao fazemos fiado”. Não há sinal de atividade. Batemos palmas. Ninguém aparece. Empurro o portão rangente. De dentro, sai um senhor calvo. Olhos vermelhos, barba rala branca, botinas cheias de barro, a roupa toda esgarçada. Não precisava chegar perto, mas ao se aproximar tivemos certeza que estava alcoolizado.

- Pois não? - é o sentido que parece ter o bafo de cachaça aspergido pelo ar que ressoa aos ouvidos e se insinua desagradavelmente narinas adentro. Gotículas de saliva pousam na minha bochecha.

Explicamos que ouvimos dizer que há uma antiga estrada que prossegue atrás da borracharia, e que gostaríamos de conhecê-la. Ele franze a testa e balança, parecendo se perguntar o que está fazendo ali. Depois levanta os olhos, mantendo a mesma expressão apalermada, dirigindo-os ao meu irmão. Por que estávamos querendo saber de uma estrada abandonada? Para fazer reconhecimento para um rali. E por que faríamos isso domingo de manhãzinha? É nosso hobby, um grande prazer, somos da federação de automobilismo off-road.

Contorno o galpão com o jipe. O espelho esquerdo raspa no muro; o espaço é muito estreito. Vagarosamente, evitando pedras pontiagudas enterradas na terra, dirijo paralelamente às árvores do fundo até um pequeno declive, onde há uma vegetação rasteira. O tiozinho explica que ali a estrada fazia uma curva, e que era só descer um pouco até uma trilha que eventualmente é usada por alguns moleques que nadam em uma cachoeira no meio da mata. Dou um dinheirinho para ele; abre-se um sorriso de dentes amarelados.

- Então vamos? – quase suplica meu irmão, ansioso.

O velhinho se espanta, mesmo ciente de nossas intenções desde que chegamos. “Vocês vão descer mesmo?”. Claro, é uma quatro por quatro, estamos acostumados. Nos despedimos, e ele, estranhamente, bate continência. Olho para meu irmão, que ignorou o gesto, mantendo o olhar fixo na descida. Ótimo, precisamos de foco.

Comecei esse conto mais longo em meados de 2004 e, apesar de a trama ainda avançar muito, deixei-o pela metade. Espero conseguir terminá-lo agora.

Sunday, March 29, 2009

Devaneio

Queria dormir e acordar no dia em que você nasceu. Ciente do retorno, lobotomizado quanto ao sofrimento inútil que passei, que passamos, e, mais importante, que te fiz passar. Com dez anos, não podia sair de casa. Com malícia, mais tarde, sairia correndo da escola, no meio do recreio, fugiria e iria ao berçário te ver. Você é careca, vermelha, feia, todo neném é feio, chorona, mas eu já te amo, te amo tanto que estou aqui, agora, com a alegria de viver intacta, olhando pelo vidro riscado, e me perguntam se vim ver meu irmãozinho e digo que sim, e meu pai está lá embaixo e vou lá chamar ele. Quando disse malícia, me entenda bem, não é a malícia que meu amigo Evandro, que nem conheci ainda, falava que queria ter se pudesse voltar no tempo e pudesse pensar como um adolescente sendo criança, não, eu não ia ficar folgando nas menininhas, fazendo elas de bobas. Não, só vou ser mais esperto, vou fingir que sou criança e vou a todos os lugares que queria ir e não podia, porque tinha medo, punham medo em mim, não sei, nem me ensinaram a andar de ônibus, bicicleta ou skate, aprendi a fazer isto quando era muito mais velho, nunca saía de perto de casa, a menos se fosse junto aos meus pais, mas agora não, não vou ter medo de andar na rua, de jogar no fliperama barra-pesada que eu sempre quis jogar. O que quero mesmo dizer é que vou ser puro, vou esperar você crescer, te vendo de longe, e um dia vou pegar na sua mão e te pedir em namoro, e a gente vai ficar junto desde bem novinhos, e tudo será melhor. Desço a rua do hospital direto para o fliperama, mas um desgraçado pega o meu braço e diz “acorda!”, ele parece ser um comissário de menores, um daquela época, só podia ser. Você não está do meu lado, e as fotos daquele tempo bom, que até tinham o cheiro gostoso das manhãs de 1986, aquele cheiro das bolachas de chocolate redondinhas que não existem mais, estão rasgadas ao lado da cama, picadinhos esmaecidos e malcheirosos.

27/05/2005

Sunday, March 15, 2009

O primeiro amor

Sábado à noite. Na cadeia, em um corró reservado para a garotada, para que eles não fossem currados pelos demais presos, ele pensa nela. Ela caiu da ponte que não ligava as duas margens, deixada pela metade, sem dizer uma palavra, ou demonstrar qualquer reação, chapada pra caralho. Seu nome era Paula, ao menos foi o que ela disse dez minutos antes de morrer depois de lhe fazer uma chupeta, a primeira da vida dele, por uma pedra. WJQ, as iniciais dele, estilizadas como sempre, estavam escritas à caneta no pescoço dela. Os policiais já sabiam, já as tinham visto pichadas e eles o odiavam. Ele começou a chorar, quinze anos, abandonado pela família, imaginando o encontro no motel, agora mesmo. Ela poderia ter sido sua namorada.

15/03/2009 – escrito originalmente em inglês e ampliado.

Sunday, March 08, 2009

Pseudônimo à revelia

Não consigo lembrar onde foi que li. Era uma matéria sobre escritores brasileiros que foram funcionários públicos. Não me lembro bem do conteúdo, nem quem eram eles, à exceção de Carlos Drummond de Andrade. Só não me esqueci que a ociosidade do serviço público permitiu que eles escrevessem e desenvolvessem seu estilo durante o expediente.

Eis que um dia me vi enfiado neste desgraça. “Presta concurso, presta concurso!”, toda sua família contra você. Esgoto cheio de ratazanas, ninho de cobras, escolha a imagem que mais lhe aprazer. Não tem nada pior do que ser enfiado neste covil de medíocres. Casamento marcado, estabilidade no emprego, prisão perpétua.

Juro que queria trabalhar muito para justificar o suado imposto do povo. De cara vi que só tinha vagabundo. Serviço jogado nas minhas costas. Tentei me livrar, só que é aquilo: os vagabundos velhos acham que o serviço deles é sua obrigação. Um dia cansei de bancar o garoto trabalhador. Virei vagabundo novo. Inventei que meu serviço mesmo era outro, devolvi a papelada a quem de direito, e fui à caça do idílio literário.

Tomei no cu. Em uma repartição pública, o trabalho mais importante é o de espionagem. O que está fazendo, a que horas, com quem. Ninguém é carente emocionalmente, pois todos se preocupam uns com os outros. Três dias para escrever e depurar uma crônica caprichada, e vejo-a publicada em um pasquim local. Porém, assinada por uma “jornalista” que eu não conheço. Amiga do chefe do setor. Que não vai com minha cara. E, entre um café e outro, mexe no meu computador quando não estou.

Três dias. Serviram para que o embrulho do peixe não fosse branquinho. Para tanto, podia ser apenas um. Mas com tanta gente falando na sua cabeça o tempo todo, é impossível concentrar-se.

Serviço de rua. A salvação.


Esse miniconto é de 2003 ou 2004. Achei no meu computador velho. Não consigo entender porque não o curti na época.

Sunday, March 01, 2009

Calor Humano

- Pai, o senhor pode voar igual ao Super Homem?
- Posso.
- Então voa.
- Não quero.
- Por quê?
- As pessoas podiam ficar com inveja, e não quero que elas saiam voando por aí. Pior do que um invejoso, só um invejoso voador.
Nunca menti para meu filho. Mas toda vez que sou sincero com minha esposa, chamas envolvem o meu estômago.
- Amanhã ele vai à missa comigo.
- Você vai transformá-lo em um robô.
- Não somos idiotas, e nem seu filho – nosso filho! – será...
- Ele deveria escolher se quer ir, ou não, quando for adulto.
- Mas...
- Não sei porque casamos. Um par de coisas fundamentais não se encaixa entre nós.
Minha língua funcionou como um lancha-chamas. E ela se queimou mesmo. Não devia deixar algo tão abrasivo escapar. Estávamos todos de mau humor, e mais cedo ou mais tarde ela inventaria uma desculpa qualquer para sair pelo mundo. Nós berramos desvairadamente naquela noite. Tanto o vizinho de cima quanto o debaixo reclamaram na portaria.
- Você não pode gritar com seu filho! Nem se ele gritar. Nunca!
Me levou tudo e deixou apenas uma foto. Um carola casou com ela. A guarda do garoto foi dada à mãe. Os três acabaram dentro de um ônibus, em um precipício, quando iam para Aparecida.
Tentei fazer uma escultura de nós três, a partir da foto. Pelo menos teria mais uma lembrança material. Pareceríamos tão feios se a concluísse que nem chorei ao rebentá-la contra a parede. Fiquei é sem ar. Novamente me deparei com a imagem de Júnior decapitado.
A vida ficou fora de controle.
Ponho meio corpo fora da janela, puxando o mormaço para dentro dos pulmões. Como se estivessem sendo compactados pela atmosfera, enquanto o tórax entra em combustão.
Há anjos desenhados no playground. O céu é lá. Encontrarei minha mulher, meu filho. Hora de voar. Não me preocuparei mais com os invejosos.

Esse miniconto foi publicado no número 11 do jornal PapoArte, há três anos, e já o havia reproduzido no meu blog Humano Obsoleto pouco dias depois da publicação. Foi apenas um exercício para uma oficina de literatura ministrado para a escritora Ana Miranda, mas creio que é um dos melhores textos que já consegui escrever e um dos meus favoritos. Lembro-me de duas reações ao conto que me agradaram: uma amiga leu o jornal, me encontrou na rua e disse-me que adorou; um amigo me disse que amigos dele que eram muito carolas não gostaram.

Sunday, February 22, 2009

Melhor assim

Sempre confuso, ele também parecia precisar da aprovação de amigos que ele julgava melhor conhecedores de algo que em que ele se metia. E isto era um problema para todo mundo, pois ao mesmo tempo em que todos tinham o seu ego inflado por serem considerados bons em alguma coisa, nós éramos pessoas normais com aptidões comuns. E ele levava muito a sério as nossas opiniões. Todos nós sempre nos arrependíamos de termos lhe dado trela. Uma vez ele mandou-me um e-mail assim:

“JANO

Talvez seja, ela não gostava de mim. Eu nunca pensei que pudesse olhar para um canto escuro e nada vir a minha cabeça. Se eu fosse o personagem de Dan Akroid no primeiro Caça-Fantasmas, aquele homem de marshmellow gigante não teria aparecido. Eu queria ligar esta porra de televisão, mas não posso, ela é uma amiga de certa forma. Meu corpo se manifesta de várias maneiras, mas esse negócio de escrita automática não é tão legal no computador.

Foi o máximo que consegui escrever dessa forma. Sempre quis fazer escrita automática, mas deveria ter escrito a caneta mesmo. Teria dado mais certo. Que porra era aquele título, Jano? De onde tirei isto? De algum livro de história que li quando era pequeno, provavelmente. Até o meu subconsciente gosta de dar uma de besta. Só sei que nunca mais animei em dar uma de dadaísta. Eu não digito tão rápido, e isto me tirou o tesão do negócio.

O que você achou? Ficou muito ruim? Sinceramente? Você sabe que eu sempre quis fazer isto. Escrevi isto há muito tempo. Eu queria ser bom nisso, mas sabe, desanimei mesmo. Sabe onde está escrito “Eu queria ligar esta porra de televisão...”? Bem, eu queria ter escrito “Eu queria desligar esta porra de televisão...”, mas digitei errado. Não faz sentido, não é mesmo? Eu queria desligar, mas não podia, porque a TV era uma boa amiga naquela época, em que estava muito sozinho, você sabe. Se bem que de repente até que ficou legal, né? Por ter ficado esquisito, sabe como é que é?”

Eu só respondi isso:

“Você escreve bem, é um dom, mas acho que qualquer um o pode fazê-lo treinando.”

Nunca mais ele olhou na minha cara.


Escrevi este miniconto em 2003 ou 2004, revisei hoje.

Sunday, February 15, 2009

Balada Errada 2

A luz negra realça o seu vestido branco. Ela joga os cabelos para os lados, os braços para cima, ensaia uns passinhos de samba. Drum n'bass brasileiro. Como todo mundo que que havia descoberto isso ontem, tinha os quadris duros. A lábio e o requebrado ainda hão de funcionar. Aproximo-me, deixo solto meu lado Dudu Nobre, ela sorri.

- Na minha quebrada, você não enganaria ninguém.

Berro isto três vezes. Vale a pena. Ela começa a rir, a cara enfiada no meu ombro, as mãos apoiadas em meu peito enquanto mexe aqueles tênis brilhantes. Começa o poperô. Eu não quero ficar no meio daquela tenda cheia de barro. Ela quer. Ainda agüento três “músicas”. Tsi, tum, tsi, tum, tsi, tum.

Desisto, não estou com paciência pra ficar mimando madame criada por FMs. Olho para a casa perdida no meio do mato, faço menção com a cabeça de que vou pra lá, e saio abrindo caminho em meio ao povinho fashion. Chegando perto da janela, me viro e só vejo os clubbers de sempre. Hora de vazar. Ao encostar-me na parede para descansar um pouco, vejo uma ruiva empurrando uns agroboys. Ela me seguiu.

A porta da frente está trancada. O único jeito de entrar é pelo buraco do cachorro da porta de trás. Quando ela engatinha pela portinhola, eu penso na minha adolescência, no banheiro de azulejo rosa, e me pergunto por que nunca fantasiei isto antes.

Só havia luzes vermelhas bem fraquinhas no corredor. Os cômodos são insondáveis. Não consigo ver nenhum dos famosos sofás para amasso que tanto havia ouvido falar. Ela ri do meu desconforto, e, tropeçando nas próprias pernas, arranca uma lanterna da bolsa. Gargalha ao apontar o facho para um quarto. Têm quatro, cinco pessoas por sofá. Todos homens, acho. Subindo correndo as escadas, ela gargalha ainda mais.

Tomo a lanterna de sua mão. Mas ela tem uma idéia pior. Acende a luz de um dos quartos. Ninguém acredita. Vários casais seminus naqueles sofás e... Tony em cima de um magricela com a cara enfiada em almofadas. Ambos com as calças arriadas. Pô, Tony.

- Apaga a luz agora, o que você está olhando?! – Estou olhando ele fechar o zíper, e agora me sinto duplamente otário.

- Porra Negão, justo você, me fazer este papelão - Tony arfava indignado.

E ela ri alto, mais ainda enquanto Tony nos puxa pelos braços através do corredor. Ele nos joga com toda força em um banheiro. Tem um sofá! E nele caímos. Ela me pergunta quem era meu amigo. “Segurança da rave”. Seus risos ficam ainda mais histéricos.

Acendo a luz. Boca borrada de batom, maquiagem pesada escorrendo junto ao suor, faróis acesos. Senhorita roubada, o que vamos fazer?

- Quer tomar essa pílula azulzinha? Um sorriso sacana é esboçado.

- Não preciso disso.

- Nem eu - e ela engole aquilo. Portanto, apago a luz. Era a deixa.

Tony e outro segurança entram com os fachos das lanternas em nossas caras. Vingança. É justo. Somos arrastados pra fora da casa. Saio atrás dela, e não acredito no que ouço:

- Amor, onde você estava?

Mesma roupa, mesmo cabelo. É o rapazinho magrela do Tony. Com a minha mina. Abraçando-a. Dois pombinhos. Saem de mãos dadas. Nenhum deles olha pra trás. Tony, ao meu lado, parece mais resignado.

- A vida é assim. Negão... escuta, a galera do bairro, eles não precisam saber...

- Saber do quê? Não sei de nada.

A casa treme. São os graves do som estourado, ou... Esquece. Não volto lá para descobrir.



Pensando bem, acho que esta é a versão deste conto publicado na revista Ops! e a versão que publiquei aqui no ano passado é a versão original, mais longa, que pensei que havia perdido. Depois preciso achar a revista para confirmar isso, mas é 99,99% de certeza.


Sunday, February 08, 2009

O Recomeço

É como se fosse uma licença tácita para a putaria e isso não faz sentido para ele. Meio que está intrigado pensando o quanto se importava em ficar sabendo de tudo que rolava entre todos os de outrora. Desarticulado, não quer saber de perguntar como eles vão quando os encontra, ainda que todos perguntem o que ele anda fazendo para ouvir respostas acanhadas e vagas. Mas no carnaval é diferente. Ele quer saber de tudo o que os vizinhos fazem, olhando-os por binóculos, é muito bom morar em um prédio em frente a outros nesta época. Voyeurismo sem culpas, não sabe quem são e não fala nada sobre eles para ninguém. Até porque fica embaraçado demais com isso. O que não imaginava, na única licenciosidade que se permitia, era flagrar a vizinha de baixo do apartamento frente ao seu dando para um japonês cujo pau de fato parecia ser bem pequeno. Ela não tirou a camisa do Che Guevara em momento algum, como alguém pode dar uma trepadinha olhando para um cara feio como aquele? Ela devia mesmo ter os peitos pequenos, sempre teve essa impressão. Pelo menos ela tirou a boininha e seus cabelos negros feitos na chapinha refletiam o abajur rosa de forma ritmada e linda. Pela primeira vez em dezessete anos saiu para curtir um Carnaval com c maiúsculo, ao contrário do que recomenda a moral cristã da ortografia.

23/12/2008-08/02/2009

Sunday, February 01, 2009

J.

Foi tentando explicar-se que se arrependeu, tal como acontecia quando era criança. Andando devagar até a beirada da varanda da casa nova, o alpendre ainda sem grades e a queda de uns belos sete metros, pois a lateral direita dava para um precipício, foi surpreendido pela mãe que lhe deu o mesmo tipo de repreensão de trinta anos atrás. Ian Curtis ainda estava vivo naquela época. Por que você está chegando tão perto daí? foi a pergunta precedida do “Falta juízo!” que tanto o irritava e o humilhava; que fodeu a sua auto-estima e até mesmo a cognição na adolescência. O que você está pensando, sai daí?, o que era para ser uma ordem saiu como se fosse um apelo, pois ela intuiu que aquilo não seria bom. Ele nem estava pensando em nada, voltaria após olhar para baixo, não contava em ser surpreendido pela mãe até naquela hora e, pela primeira vez na vida, pensou realmente em se matar. Retrocedeu, no entanto.
18/12/2008

Sunday, January 25, 2009

Réquiem

A mãe tinha orgulho da filha e de si mesma por ter parido alguém tão querida e motivo de tantos comentários laudatórios, alguns piegas até, porém bonitos. O namorado da filha tem uma parte boa nisso, por pior que tenha sido sua atitude: ele segurava a mão de ambas durante a missa, e elogiava a comida da sogrona, e gostava de ficar conversando depois de comer, e ia para casa cedo, e não levava a filha para lugares ruins, e podia falar bem dele o dia todo, e não se cansaria de elogiá-lo. Ele a levou embora, mas levaram-no daqui quando ele estava na prisão. Agora a filha é a santa do Orkut. A mãe tentou apagar o perfil dela, mas não conseguia descobrir a senha. Tentou tudo: o nome da iguana de estimação, do namorado, do falecido pai, placa do carro. Enquanto isso, pessoas até mesmo desconhecidas, comovidas com o que leram nos jornais (que citavam todos os detalhes da vida da filha disponíveis no tal Orkut), iam escrevendo desejando uma ótima pós-vida para a filha. A mãe decidiu criar então o seu perfil, aprendeu a mexer com aquele Orkut, aquela internet que ela não gostava e que a fazia sentir-se desconfortável, ela uma professora que sempre soube que as modernidades não iam ajudar seus alunos a serem inteligentes e bem colocados, pois só os livros faziam isso, então apreender novidades tecnológicas era perder tempo com bobagem. Quando a mãe ia pedir para o administrador daquele site de relacionamentos tão fútil apagar o perfil da filha, ela leu-o uma última vez e deitou lágrimas com os depoimentos dos amigos da filha, tão íntimos, bem-humorados e contando coisas que a mãe não sabia, que ela jamais saberia. Isso fora os tais scraps, que eram escritos tanto por amigos como por desconhecidos, vizinhos antigos, artistas, gente que morava em outros países e muitos tipos de pessoas que ela nem imaginava existir. Em todos os aniversários da filha e em Dia de Finados a mãe visitava aquela página com a cor de céu, centro de peregrinação virtual, onde sempre havia quem pedia uma oração que ela tinha certeza que seria atendida até pelos engraçadinhos que entravam eventualmente para pichar aquele mural de evocações.

06/01/2006-09/01/2006

P.S.: Quando penso no caso Eloá e nas matérias dizendo que ela tinha orkut e que a página dela (que nunca visitei) passou a ser muito visitada após seu sequestro e morte, sinto-me meio estranho por ter escrito isso há três anos, mas gostei desse miniconto ao achá-lo e relê-lo.

Sunday, January 18, 2009

Chuva de ouro

Não é o que você está pensando, entendeu? Você tem uma visão preconceituosa de mim. Estou falando de algo real, que permanece. Não, não é nada disso também. Presta atenção: você acha que sabe das coisas. Só que você não sabe nada sobre aquele cofre. Interessado agora?

Ele ficou extremamente ligado a cada detalhe da conversa. Em como eles entrariam na casa. Como tacariam as barras pela janela, para a caçamba alcochoada do caminhão, durante a noite, sem barulho. Que a família era negligente e estaria viajando. O alarme era fácil de ser desativado e o cofre era acessível por meras picaretadas. O antigo comparsa o construiu e mentiu sobre a sua segurança. Para manter sua reputação, enganava apenas clientes selecionados, com muita penetração social. Entregava todo o ouro, literalmente, para o velho parceiro. Até tomar um tirambaço de escopeta da PM.

Aproveitando o fascínio e a momentânea distração do novo parceiro, tascou-lhe um beijo na boca. Porque parceiro tem ser parceiro.

Sunday, January 11, 2009

Muito doce na escola não dá certo

A luz negra partiu ao meio o mapa do Brasil, e foi então que tive a revelação: o berço da civilização fica aqui. A nave está enterrada aqui. Enquanto eu encarava a fumaça arco-íris que escapava pelas frestas da fenda no meio do mapa, invadindo a sala e anestesiando a todos para que não percebessem nada, notei que a bruma multicor torna-se ígnea ao aproximar-se de mim, recuando um pouco antes de tocar-me.

Sunday, January 04, 2009

Cabrón

Foi para lá sem pensar, mas ao se aproximar da casa, começou a encanar. Ficou rodeando-a, dando voltas pelo quarteirão com a moto, mas vencido pela falta de coragem procurou na casa do velho amigo que não via há quase um ano e que ele sabia que havia se mudado para perto dela. Celular na mão, parado na sarjeta cheia de água barrenta da chuva incessante que caíra pela manhãzinha, ele vê Beto abrindo a janela do apartamento por puro acaso, bem à sua frente. Beto não o havia visto, mas quando ouviu Davi chamando-o fechou a janela abruptamente para depois abri-la às gargalhadas cinco segundos depois. Pediu para que Davi subisse e ele o fez com uma agilidade jovial que não era sua em uma manhã de domingo. Papo vai e cerveja vem goela abaixo, recordando-se da adolescência às risadas e lamentando-se com desdém com a falta de propósito da vida profissional, ambos confessam que levaram chifres e prejuízos com as ex-namoradas recentemente.

Bêbado o suficiente e com a feliz certeza de que estava fazendo besteira, foi até a casa dela e bateu na porta. O pai dela atendeu e ele ficou sem ação e voz. Relutantemente, disse que era um amigo de Eliane, mas como o tiozinho nunca o havia visto, fechou a porta na sua cara sem dizer nada. Já tinha se virado e estava abrindo o portão quando ela abriu a porta e perguntou aonde ele ia. Ver um filme no cinema. Ela não estranhou nada e foi falante como nunca foi. Só que até chegar lá o efeito do álcool passou e ele não conseguiu dizer nada a ela e se contentou com um breve roçar no braço dela.

Não sabia o que dizer na volta e falou sobre o Woody Allen até cansar a ambos. Ela que teve que agarrá-lo no portão. O pai, vendo da janela, fez com que ambos entrassem, afinal era muito perigoso ficar até tarde na rua, e foi dormir sem aparentar qualquer preocupação. Ela tentou Davi para que eles dormissem juntos, mas não, os pais dela estão na casa. Não teve perdão, no sábado ela se arrumou e já era. Não é à toa que seu pai não estava preocupado.

Sunday, December 28, 2008

Puto e com sono

Vando estava redigindo um longo romance baseado misturando o imaginário batido de mundos fantásticos de um passado idealizado da humanidade, semelhante a todos estes subprodutos que outros jogadores de RPG e viciados em Tolkien escrevem, com uma forte influência de policial noir, em especial Raymond Chandler. Não tem pé nem cabeça, mas ele está crente que está para revolucionar a história da indústria editorial.
Gordo, branquelo e com a voz pastosa de mocorongo, ele investe horas e sono nisto, crente na força de vontade que vai tirá-lo do cartório de notas e ofícios. Tem sorte de ser grandão e por isso mesmo não é tão zoado. Está demorando demais. O computador trava e é desligado com um chute na torre.
De manhã, levanta uma hora mais cedo do que cotidianamente acorda, reconecta os cabos na torre e liga o computador. O arquivo recuperado não tinha um trechinho fundamental, o último que foi digitado. Foi quando desistiu do livro e sua vida e a dos seus semelhantes melhoraram muito.

Sunday, December 21, 2008

Heroína

Safo. Ele acha que essa palavra se aplica a ele, lhe define bem, pelo o que entendeu da aula de literatura. O dicionário está na estante, à sua frente, mas não o pegou para confirmar o significado; nem sequer teve coragem de abrir as apostilas do cursinho na escrivaninha, ao seu lado. Sentado na cama, sem forças nem vontade para fazer nada além de ouvir Dead Fish e Millencollin, pensa como é sortudo e deita-se de novo, só de cueca e pedalando uma bicicleta imaginária. Agora que se afastou da marijuana tudo o que quer é emagrecer e fazer algo por Maria Joana. A coincidência de nomes desagradável pra caralho joga na cara a sua pusilanimidade durante todo o tempo de vigília e em alguns sonhos, ainda que estes sejam bons. Havia e há pouco que ele pode fazer, mas ele não faz bosta nenhuma. Na verdade, tem feito demais, ele que nunca fez nada na vida lava a louça, varre a casa, limpa os banheiros, passa a roupa, os pais admirados por ele ser tão prestativo em um momento em que eles não podem mais ter uma empregada. No entanto, preocupados por estarem gastando tanto com colégio particular e ele não estar particularmente estudioso. Procrastinação. A única outra coisa que aprendeu este ano foi esta palavra e dessa ele tinha certeza do significado. Era a exata definição do que fazia há algumas semanas, embora jamais a tenha escutado sentia-a pesar sobre a consciência. Quem ainda injetava em 2008? Só ela mesmo. Paralisado pela culpa de não ajudá-la, nem se ajudar, nem ajudar de verdade seus pais, ficou na cama esperando todas as duas discografias em MP3 se esgotarem até as duas da tarde, quando se levantou para ir à cadeia visitar pela primeira vez a menina que o salvou da virgindade e do desejo de morrer.

Sunday, October 26, 2008

Não foi dessa vez

Não consegui processar a informação na hora e ainda não absorvi bem o que aconteceu. Foi mais ou menos assim. Ela fumou um e saiu elétrica. O legal é que ela ficou ligadaça e não largada, naquele esquema de ficar rindo de tudo. Como ela nunca havia fumado antes encanou que a polícia a seguia e que a enquadraria – uma menininha daquele tamanho. Correu então para casa e achou melhor escrever o livro com o qual sempre sonhou antes que ela morresse. Porque ela ficou com a certeza de que morreria na viagem que a mãe a obrigou a fazer. No dia seguinte teria que visitar a avó no Paraná, afinal não aparecia por lá há dois anos. E elas iriam de fusquinha. Então ela escreveu o livro durante toda a noite e varou a madrugada. Eu o recebi por e-mail – ela estava preocupada de ter todo aquele trabalho e nunca ser lida. Infelizmente era uma porcaria e não tive coragem de dizer isso para ela. Quando ela chegou sã e salva – teve que ir dirigindo sem dormir, mas disse que ainda foi dirigindo bem – cheguei junto e mesmo assim, mais uma vez, ouvi um não.

Sunday, October 19, 2008

A nova estrela da MPB

O site não tinha nenhuma menção sequer a ele e dois dias já haviam se passado. Manuel apertava o botão de atualização do navegador insistentemente, sem conseguir estudar, ouvindo o início das músicas do seu próprio CD por alguns segundos enquanto aflitamente comia batatas fritas trazidas por “Nanata, a empregada mulata”. Assim ele a chamava de brincadeira quando ela lhe fazia algum agrado. Correu no banheiro, lavou as mãos, pegou o livro de geografia e tentou decorar como seria o relevo da Ásia, seus desertos, pradarias e as cordilheiras irrompendo à força de movimentos tectônicos ao sul e leste. Dois minutos depois atualizou mais uma vez a página e lá estava a foto na seção de notícias. Seu sobrenome estava errado. Putaço, pediu para o seu pai ligar para o dono do site. Além de corrigir o erro, que também mandasse embora o jornalista responsável, de preferência.
Trilha sonora sugerida para a leitura deste conto: Porque Não, Replicantes.

Sunday, October 12, 2008

Hoje à tarde

Escuto meu nome, como se uma velhinha que estivesse sendo estrangulada gritasse por mim desesperadamente, com o que resta de suas forças. Apesar da chuva e do vento frio que empurra as gotas contra minha cara e meu quarto, abro a janela e me deparo com ela, segurando uma bicicleta na mão e ainda insistindo em tocar o interfone quebrado, ao mesmo tempo em que me chama mais uma vez, sem notar que abri a janela logo à sua frente. Peço que espere, desço as escadas correndo e abro a porta e corro até o portão. A chuva fina incomodava relativamente pouco, mas a ventania gelada lembrou-me do sentimento irracional que nutria por aquela menina, afinal se fosse qualquer outra pessoa teria pegado uma blusa antes. É, normalmente sou egoísta, todos adoram jogar isso na minha cara. Mas ela não sabe disso.

Sunday, October 05, 2008

É...

O monitor engordurado e empoeirado lhe inspirava asco e torpor, o teclado em estado semelhante não o ajudava a se concentrar, tampouco. Foi assim que, dominado pela modorra, Jairo viu-se dispensado em favor de um garoto com menos demandas salariais e trabalhistas.

Sunday, September 28, 2008

Não foi por querer

Era deliberado. Não tinha graça, mas ele ria e tentava contaminar todos com as gargalhadas forçadas, só que ninguém o levava a sério (mesmo que isso pareça paradoxal). Ele achava que o pessoal me protegia, pois eu não participava das brincadeiras do escritório, no entanto acho que era por isso mesmo que me respeitavam: eu não zoava ninguém.
Isso só aumentava o despeito do sujeito. Ninguém tinha que ser intocável, na visão dele. Óbvio que ele estava certo, mas não dou a mínima para isso, principalmente quando eu sou o alvo em potencial. Como ele era o saco de pancadas, era como se o grande trunfo que ele poderia alcançar seria justamente deixar de ser o foco das atenções negativas empurrando-me para o picadeiro corporativo que ele ocupava.
A voz dos “ataques preventivos” era muito engraçada. Ele falava com voz de choro, sempre; um velhinho moribundo gemendo enquanto pedia compaixão. A insegurança era patente. No entanto, em situações em que procurava encaixar alguém em algum estereótipo, sua emissão vocal era forte como a de um barítono. Com o passar do tempo, notaram o que eu havia percebido há meses. Mantive-me quieto este tempo todo, mas quando o fato tornou-se notório, passaram o dia inteiro fingido que estavam zoando um aos outros com aquela voz sem noção – e às vezes até tripudiavam uns aos outros mesmo. Ele, no entanto, foi particularmente detonado. Dizem que pegou o ônibus chorando.

Sunday, September 21, 2008

Quarta-feira, cinco e meia da manhã

- Estanque o sangramento.
- Por que você não a leva ao hospital?
- A culpa é sua. Você é o doutor aqui, e eu não quero mais sujeira para o meu lado. Era só não se meter no nosso lance.
- Mas...
- Faça um curativo nela. Você já pegou nos peitos dela antes, vamos lá. Não ouse me dizer que você não tem nada a ver com isso. Anda logo, porque hoje estou a fim de socar quem me encher o saco.
É o mesmo modo ameaçador de sempre. Desde nossa adolescência é assim. O mesmo tom de voz, a mesma frase, o mesmo fedor de álcool, e ainda mais corpulento. Sua pretensão de me fazer seu eterno serviçal vem sendo minada pela minha dedicação ao muay thai, mas resolvo obedecer. Ela me importa, sempre desejei domar aquela insensatez sexual. Quando deslizo a mão em seu pescoço, pressionando a jugular, a pele macia morna, percebo que minhas chances de ser um homem realizado foram extirpadas.
- Deixe-a como está, ela está morta, pode sangrar à vontade.
É curioso notar, machões não passam de crianças mimadas. Logo se desmancham em choro convulsivo e sussurros negatórios. Não há bom senso que explique por que ela o admirava. Ligo para o 190 e saio para dar comida ao gatinho dela, Laerte, que, espero, me ficará de companhia.

28/04/2005 – 21/05/2005

Sunday, September 14, 2008

Suicídio Passional

Traído pelo inconsciente, fiz com que ela percebesse que ainda estava preso ao passado que renegava. Na noite em que finalmente começou a rolar, após muito insistir até que ela se ligasse em mim, entrei na rua errada. Mania idiota de pegar atalhos. Era a rua da Camila. Ela perguntou por que virei no rumo oposto da rua dela. Disse que me distraí, que a conversa estava tão boa e que estava tão feliz que nem estava prestando atenção no que fazia. Acho que até colou. Meia volta e três quarteirões depois, a força do hábito fode tudo de novo. Entrei na rua da Mariana, que era vizinha na rua de cima. Ela sabia sobre nós com certeza, foi mais recente. Desta vez ela não disse nada a não ser um tchau ao descer. O beijo foi na testa. Não atendeu o celular no dia seguinte. Uma semana depois me tratou com frieza, depois voltou a me tratar bem, o que foi irritante. Nunca mais falamos sobre nós ou sobre isso. Parei de olhar na cara dela e foi o fim daquilo.

Sunday, September 07, 2008

Zine

Há três anos, recebi a última carta de um fanzineiro, pedindo para trocar zines e tal. Escrevi um e-mail, falando para ela (era uma fanzineira, na verdade) mandasse um exemplar do zine dela. Recebi, esqueci onde o coloquei e acabei lendo apenas uma entrevista. Sequer lembro quem era o entrevistado. Não devia ser nada importante. Aquela cara que mandei foi a última pois não mandei um Descanse em Paz – este era o nome do meu zine – para a menina.
Eu me mudei para outra cidade e minha família comprou uma casa, conseguindo enfim zerar o aluguel. Mesmo assim, não consigo entender como essa menina descobriu meu endereço novo. Seu nome é Valéria e só me lembrei dela devido ao zine que ela mandou e que eu desprezei. Achei que ela ia me cobrar exemplares, mas o pior foi o que li depois. Era uma carta de suicídio. Na hora desacreditei. Passaram-se alguns dias e não conseguia mais pensar no trabalho, estava assombrado por aquela folha, preenchida frente e verso com mágoas, decepções e rejeições. Era sobre pessoas que não conhecia, mas não conhecia entender como elas os conhecera, se eram namorados, amigos, irmãos, sei lá. Com aquilo na cabeça, viajei até o endereço constante na carta. Verifiquei nos meus arquivos que ela era de Goiás, mas aquela carta era de Porto Velho. Pedi uma semana de folga que estavam me devendo e fui para lá. Ao chegar, a mãe me disse que ela havia morrido fazia dois anos. Foi suicídio, mas a mãe queimou a carta original. A que eu recebi era psicografada e me foi enviada por Júlia, uma amiga de Valéria, que a enviou em seu nome e com o endereço da sua mãe. Para quê isso eu não sei, mas a viagem foi legal e ao voltar acabei o zine que havia deixado parado e enviei uma cópia para a mãe dela.
06/05/2005

Sunday, August 31, 2008

Estagnação

Emprego novo e colegas das antigas. Não dá para acreditar; é 2008 e mais uma vez retrocedeu nesse esquema arcaico. O escritório é pior do que o outro, fedendo a cigarro. A empresa mudou de nome, mas o modus operandi é o mesmo. Todos são os mesmos. E o ranço é o pior possível. Até os nomes são do tempo do onça: Praxedes, Antenor e Guilhermina. Quem na faixa dos 25 anos se chama assim? Todos trabalhando juntos. Muito bizarro.
É nojento, mas antes fazer isso com alguém do que um escroto aprontar uma dessas com ele, tenta justificar-se sem convicção. Ligam para o caboclo, como eles gostam de dizer ali, e fazem um recrutamento para uma indústria da região. Detalhe: o pessoal tem que pagar adiantado pela entrevista de emprego. Ele e seus colegas ficam uns dois meses por ali e somem. Todos eles são de cidades longínquas.
O engraçado é quem trabalha nisso, com asco de si mesmo, faz de tudo para cair fora. Mas os três viajam pelo Brasil, como empregados do boçal do Antunes (outro nome embolorado) ainda por cima, só fazendo isso. Sem criar raízes. Sem família. A Guilhermina é a pior, ô mulher sem coração. Todos eles tentaram comê-la e não conseguiram, ele não sabia deste detalhe. Eles se odeiam e saem juntos sempre, porque são tão detestáveis que ninguém mais os suporta. Solteiros encaminhando-se para tornarem-se solteirões e solteirona. Talvez ele seja pior dentre todos, não consegue evitar de pensar: foi o único que voltou a se juntar a trupe. E a fila dos otários que entregam seus parcos trocos não pára, não pára.

Sunday, August 24, 2008

Ensaio Utópico

A civilização, tal como a conhecemos, deveria ser extinta. O tráfico – seja de influência, drogas, armas ou imigrantes ilegais – seria extirpado pela raiz. Toda e qualquer autoridade seria ignorada. A propriedade seria abolida e, ato contínuo, os males decorrentes desta instituição cairiam em desuso. Esta idealização da anarquia, no entanto, depende da tomada de consciência de que é necessário que não nos reproduzíssemos. Havendo menos gente, a necessidade de competição cai por terra. Porém, isso não pode ser imposto pela traição da manipulação, ou pelo fio da espada, ou pela rajada da metralhadora. A tomada de consciência deve ser voluntária. A natureza, desgastada pela estupidez humana, não é mais uma cornucópia que nos abastecerá indefinidamente, poupando-nos da labuta, mas sem o estímulo ao consumismo basta reciclar as quinquilharias supérfluas do capitalismo em bens essenciais. Se houver menos gente, elas sobrarão, de qualquer forma. Pena que o trabalho persistirá. Preciso me ocupar com modo de destruí-lo, pois, segundo a máxima do Barão de Itararé, “quem inventou o trabalho não tinha mais o que fazer”.

Outro texto que achei perdido no meio das minhas coisas. Foi feito para uma oficina literária ministrada pela escritora Ana Miranda em maio de 2004. Pelo o que me lembro ela não gostou do texto, pois o devolveu sem fazer nenhum comentário, após elogiar um conto que produzi nesta oficina: Calor Humano, que foi publicado no jornal PapoArte. Tem um link para esse conto neste blog (na verdade o reproduzi em outro blog, o Humano Obsoleto). Já este Ensaio Utópico teve como base a proposta de se produzir um texto tendo como base um ensaio clássico – só que não me lembro qual, pois não estou achando todas as minhas anotações da oficina. Segui o conselho da Ana Miranda e cortei alguns trechos do texto, de qualquer forma. Em parte o texto é nonsense bem-humorado, mas o sentimento pessoal no qual ele é alicerçado é verdadeiro.

Sunday, August 17, 2008

Estrela

A semana caiu quando ela o encontrou. Os compromissos já firmados e os pretendidos encontros ainda pendentes de detalhes a ser resolvidos em sua cabeça espatifaram-se no lodo da vergonha, estampada em um rubor que deu força à expressão maçãs do rosto. O sábado e domingo de reencontro, no entanto, transformaram seus olhos em diques para as lágrimas. Naquela segunda de manhã, pisando leve no chão acarpetado daquele corredor sem janelas, não esperava subir a escada e ainda encontrar o marido àquela hora, olhando-a de cima, afetando uma expressão de superioridade, logo desfeita quando ele passou arqueado por ela, descendo enquanto tenta conter os soluços, sem lhe dirigir o olhar.
Após o luto guardado no apartamento depenado, já no domingo seguinte, não há nada interessante na TV para fazê-la esquecer de que está sozinha. Após passar a manhã toda procurando algo, definitivamente irritada quando com um seriado de luta logo após o almoço, ela decide que a próxima segunda de manhã seria diferente. Começou com um telefonema. O produtor concordou. A Esposa do Carola faria mais um filme. Desta vez seu rosto seria revelado ao público. Mas seus fãs ficaram na dúvida. Ela filmou de roupa, pois estava se achando gorda. Ela havia raspado os pêlos pubianos. Discutia-se se sua famosa pintinha não havia sido reproduzida em outra mulher. E os gemidos não eram mais aqueles. Mas que ela era bonita, ela era. O vídeo e o DVD venderam bem.

Achei um rascunho deste miniconto enquanto fazia uma faxina. Lembro que o escrevi no segundo semestre de 2004, após uma aula particular de alemão com a falecida Ursula Beith. Acrescentei alguns detalhes e o revisei hoje. É um predecessor da premissa do meu miniconto Nilky, embora tenha me esquecido totalmente dele nestes quase quatro anos.

Sunday, August 10, 2008

Discurso de boteco

Sobe na mesa. Bêbado, mas com o discurso decorado: "Senhoras e senhores, preciso da atenção de vocês. Existe algo tão chato quanto neguinho metido a politicamente correto: os malas do politicamente incorreto. Burros, todos eles. Os primeiros não reconhecem uma das maiores qualidades de nós, seres humanos, que é a capacidade de sermos contraditórios. Vejam bem, não estou dizendo que é legal ser hipócrita, apenas estou dizendo que se não fosse assim não suportaríamos a angústia. Não rola, esse mundo é filho da puta demais. Não, peraí, eu vou falar, tô à pampa aqui, fica de boa aí também, é rapidinho. Então, os segundos são metidos a espertinhos e para disfarçar a falta de escrúpulos e seus preconceitos escrotos dão uma de rebeldes, clamando contra a opressão do politicamente correto, enquanto na verdade querem que tudo seja a mesma merda que sempre foi. Fazer o contrário para fazer o que sempre se fez. É muita cretinice. Peraí, já vou descer. São esses estereótipos ambulantes que existem. Esses são os que acham que pensam, mas tem nojo dos livres pensadores como eu. Os outros gostam de patrulhinhas mesmo, é verdade. A palavra viado, por exemplo. Viado pra mim é sinônimo de babaca, quando eu era um ninquinho de gente eu chamava os outros de viado porque era um xingamento legal, nunca ia imaginar que viado era o que é! Podem vaiar. Não é por mal nem por preconceito. Enfim, tem alguma gostosa aía fim de levar um papo legal?" Dito isso, ganha uma latinha de cerveja cheia na testa.

Fiz este miniconto para um fanzine chamado Embrulho de Banana em julho do ano passado. Na real, é uma adaptação de um velho continho meu, pois estava sem tempo naquela época e já tinha feito dois textos especialmente para o Embrulho. Infelizmente os dois outros continhos não puderam ser aproveitados porque estouraram o limite de caracteres. Este conto deveria ter saído na edição número 14, mas pelo que eu sei o projeto ficou em estado de suspensão. O site do zine é
www.embrulhodebanana.org

Sunday, August 03, 2008

Adolescência tardia

Elas confiam em mim. Não deveriam. Fico apreensivo e erro; erros que podem se tornar tragédias. Visualizo. Olhos vazados, ossos quebrados, talvez intestinos perfurados. Mesmo quando erro e o skate zune próximo a elas, no máximo levantam-se, recuam brevemente e logo voltam para perto de mim. Tranco-as dentro de casa, mas não adianta muito, a gatinha mais nova sempre dá um jeito de escapar e ficar ao meu lado. Gosto demais dela. Tanto por preguiça minha em alertá-la novamente para sair de perto de mim, quanto por preguiça dela, que adora ficar refestelada ao sol acompanhando-me, ollies particularmente altos aterrissam estalados ao lado das pernas dela, que não se assusta com o barulho – ela nem sequer se mexe. Solto as cachorras e deixo que todas me façam companhia, bem-vinda ao fim das contas. Vou afastando-as, elas voltam, e assim vai. Deixei de ficar nervoso ao ser observado e torno-me um skatista melhor. O skate, às vezes, escapa e rasga o ar a milímetros delas. As bordas desgastadas estão parecendo facas, sem muito corte, é verdade, mas é o suficiente para talharem a minha pele mesmo quando batem de leve. Nada nunca acontece com elas, na real, mas não é que não possa acontecer. É que não quero sair de perto de casa. JFA, Minor Threat, Brujeria, Poison Idea, Mzuri Sana, Parteum, Paura, Bad Brains, Jesu, Nação Zumbi, Zeni Geva, Toasters, Alice Donut, Citizen Fish, Crass, sempre alto, um atrás do outro, no fim de tarde, sol fraco e bom, tomando suco de laranja e bem acompanhado. Lendo as velhas Chicletes com Banana em um ou outro intervalo em que a respiração fica pesada, rindo do Furio Lonza falando mal de skate. Os moleques do quarteirão ao lado aparecem com skates debaixo do braço e começamos a montar uma rampinha para subirmos no muro de casa. Nenhum namoro nunca foi tão bom assim. É que elas não confiam em mim. Deveriam. Também só as conduziria a fazermos essas fitas da hora. E outras mais ainda, claro. Só que elas teriam que confiar em mim. De qualquer forma, gosto de todas elas. Principalmente das gatinhas e das cadelas. É uma pena que não dá para mantê-las em casa.

Sunday, July 27, 2008

Encanação

Ela se chama Jocasta. As amigas devem achar muito estranho, penso enquanto ela embrulha o presente para Mariana. Deve ter uns 19 ou 20 anos, embora pareça ser um pouco mais velha do que isso. Mas só pode ser, quando é que foi? Foi em 1988. A Vera Fischer e o Felipe Camargo era o Édipo – era Felipe Camargo o nome daquele cara? Fodam-se essas merdas, eu não sou o Marcelo Mirisola... pra que perder tempo pensando nisso? Mas que nome idiota para se pôr na filha. Será que a mãe leu o Édipo Rei alguma vez? Eu também não, nem acho que vá ler. Não deveria ficar pensando mal de alguém que é paga pau de novela. Jocasta passa um laço caprichosamente no alto do pacotinho com as blusinhas e me diz, sorrindo, para eu pegar o pacote no caixa com uma mina lá. Demoro o olhar nela um pouco mais do que devia até deixá-la um pouco desconcertada. Percebo a besteira, digo obrigado e saio rápido de perto daquele balcão. Dia dos namorados de 2008. Deveria compartilhar um pouco mais, mas não rola. Ela deve estar sozinha. Não é justo, mas vai ficar assim.

Sunday, July 20, 2008

Você tem cinco minutos

Você se foi atirando-me acusações, todas rebatidas, ponto por ponto, aos gritos e por e-mails que não foram respondidos. Não a reconheço ao perceber que está adulando os esquerdistas ora no poder, os mesmos que você sempre criticou e desprezou, para desespero dos seus pais sindicalistas. Os mesmos políticos nos quais sempre votei e nos quais não pretendo renovar meu legado de confiança através do meu voto, de resto inútil, pois agora não confio em mais ninguém. Graças a você. Seus pais ao menos devem estar contentes. Pronto, não precisei mais do que cinco minutos para redigir este bilhete e pensando bem não quero tomar chá de cadeira antes de entrar na sua sala. Para que ver sua cara novamente? Para enfeitiçar-me de novo, voluntariamente. Melhor não.

OBS: Este blog ficou mais de um mês sem atualização e ninguém reparou, fazendo jus ao seu nome. Legal, faz muito sentido. A quem interessar possa: a partir de agora atualizarei aos domingos. Ando sentindo-me inspirado, gostei do conto acima e ando escrevendo contos maiores que têm me satisfeito.

Monday, June 16, 2008

No future for you, já dizia John Lydon

Nada de relevante de novo. Esta é de 2006:

NUNCA MAIS

Você nada me contou. Permanecerá deitada até que um dia a alcance. Sempre que algo assim acontecia, nos detestávamos por alguns dias. No entanto, nos odiaríamos inelutavelmente se eu soubesse desta. Deveria não me importar contigo, mas sinto muita saudade e só consigo pensar coisas boas a seu respeito. Grato pela omissão.

Monday, June 09, 2008

Memento Mori

Com o tempo se aproximando, ele sentiu-se petrificado. Não conseguia se mover. Vivendo fora do tempo, isso soa natural, mas não é. Ele ganhou dez anos de existência fugaz para compensar os cinco de olvido. Dez anos existindo apenas durante as noites e madrugadas, por algumas poucas horas. Enquanto ela sonhava. Surpreso, às vezes via-se consciente sábados ou domingos durante as tardes. Uma vez ela caiu doente e ele se encontrou às onze horas de uma terça-feira, por meros 4 minutos, enquanto ela cochilava. Ele prolongava os sonhos dela, conversando, convencendo-o que era ela real. Enquanto isso seu corpo envelhecia, mas ele era o mesmo de 15 anos antes no fluir etéreo. Finalmente ele desperta do coma. Mudo e paralisado, não consegue explicar para ela que era tudo verdade. Ele espera que ela note sua ausência no sono.

Monday, June 02, 2008

Nostalgia é um veneno, já dizia Jello Biafra

Outra semana em que não escrevi nada de relevante.
Já que falei da Ops!...
Segue abaixo link para a crônica que foi publicada.
A reproduzi originalmente em meu primeiro blog:
 
http://humanoobsoleto.blogspot.com/2006_01_01_archive.html