Monday, April 25, 2022

O Menino do Dedo Verde, de Maurice Druon (resenha)

Esta resenha foi publicada na página nove da edição 7740 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 21 de abril de 2022. Eu mesmo revisei o texto; devido à falta de tempo hábil para escrever um texto inédito, apenas peguei uma resenha que havia escrito para o Good Reads em 2019 e acrescentei algumas informações, usando como gancho para a publicação o fato de Maurice Druon ter nascido e morrido em abril.  

O clipe de Tunic (Song for Karen), do Sonic Youth, tem alguns trechos que citam O Menino do Dedo Verde, comentou comigo uma ex-namorada, nos já distantes, muitos distantes, anos 1990. Nunca me esqueci disso e em julho de 2019 vi um exemplar da obra, uma maltratada edição de 1979, num brechó/sebo que estava arrecadando recursos para animais de rua. Comprei imediatamente e, concluída a leitura, o doei para uma biblioteca livre; a moça que estava responsável pela lojinha me disse, na ocasião, que é um clássico da literatura infantil. A introdução informa que Maurice Druon é um dos compositores da letra do hino antifascista Le Chant des Partisans. Outra boa referência. Druon, aliás, apesar de ter sido membro da Resistência contra os nazistas na França durante a Segunda Guerra Mundial, teve vida longeva e morreu num abril como este, poucos dias antes de fazer 91 anos, em 2009. O livro é uma fábula que quase imperceptivelmente remete ao também clássico O Pequeno Príncipe, mas é uma leitura que flui melhor e é mais encantadora. A história tem certo viés religioso, como nota o tradutor, Dom Marcos Barbosa. No entanto, não há proselitismo. Incomoda-me apenas que Druon esqueça-se que mudou o nome da cidade onde Tistu, o protagonista, mora, volte a usar o nome antigo no meio da trama e lembre-se do novo nome no final do livro, como se nada tivesse acontecido. Não é possível que esse anacronismo seja uma falha de tradução, mas seria interessante conferir isto em edições mais recentes, pois o livro ainda está em catálogo no Brasil. Há uma certa idealização da alta burguesia que também me causa certa estranheza, embora esta seja retratada até que criticamente, com o passar da história. Assim que acabei a leitura fui rever o clipe do Sonic Youth e percebi que as referências ao livro são breves, porque o tema da música na verdade é a vida de Karen Carpenter e o roteiro do vídeo foca-se na biografia dela, mas ao mesmo tempo são explícitas e bem encaixadas.

Daniel Souza Luz é professor, jornalista, escritor e revisor




Wednesday, April 20, 2022

Indesculpável

Este conto foi publicado na página nove da edição 7737 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 14 de abril de 2022. Apenas traduzi e adaptei para a realidade brasileira um conto que escrevi originalmente em inglês, tendo em mente os rednecks racistas do sul dos EUA, em 30 de outubro de 2007, embora só o tenha publicado no meu blog de textos em inglês em 24 de janeiro de 2008. Eu mesmo revisei o texto, cujo teor sarcástico foi muito influenciado por letras do Jello Biafra, do Dead Kennedys, e um pouco pelo Bukowski. 

Pouco antes da devolução de seu dinheiro, Jerry Garcia estava pensando em suicídio. Ele nunca teve nenhuma chance, ele não conseguia parar de pensar nisso. Um perfeito perdedor. Os pais eram doidivanas. Eles gastaram tudo em drogas e álcool. Mas eles também eram hippies, então o garoto cresceu em uma atmosfera de amor e foi batizado com o nome do líder do Grateful Dead. Eles apoiaram muitos de seus desejos quando ele era um pirralho. Quando a loja de bicicletas faliu, os dois fugiram e não deram a mínima para os credores. Afinal, o sonho não acabou. Ele não podia culpá-los. Eles não reagiram bem quando ele se rebelou na esteira dos hormônios adolescente, ironicamente desejando ser um cara comum e disciplinado, e negaram todas as suas acusações. A mãe comprou tudo o que ele desejava. O pai fez tudo o que Jerry queria. O resto do dinheiro foi investido em bebida, maconha e ácido, mas eles nunca se importaram com posses. Hippies, no verdadeiro sentido da palavra. Quando sumiram, tudo ficou para Jerry, que não podia ser cobrado no nome deles. Felizmente, a comarca já não tinha regras e costumes medievais naquela época, assim como uma minoria de lugares naquele interiorzão esquecido. O juiz estipulou um novo lar para o garoto abandonado. Ele foi adotado com seu Nintendo, brinquedos, bicicleta, raiva e medos. Na adolescência, ele só sabia ler e alguma coisa sobre matemática graças à mãe, mas nunca foi à escola, apenas vagueou pelo bairro e se divertiu muito. Era o final dos anos oitenta. Os anos noventa foram um pesadelo. Seus novos “pais” o colocaram na escola. Jerry nunca foi um saco de pancadas, apesar de sua falta de sociabilidade, por causa de sua condição física. Mas, em uma cidade pequena, ele teve que estudar com crianças pequenas, desde o início. Mesmo que isso fosse mais humilhante ainda, ele reabriu a bicicletaria e jurou honrar todas as dívidas. As pessoas do entorno começaram a apadrinhá-lo, por causa de seus esforços. Uma criança com senso de dever. Ou um tolo que pensa que o sistema feudal ainda é legal. Depende do ponto de vista. Quando ele acabou de se tornar independente, depois de anos de lucro zero, apenas pagando as dívidas e tendo o básico para se alimentar, o banco fez uma bagunça com sua conta. Um erro de sistema, eles alegaram. Bem, tudo bem, mas eles não corrigiram o erro, e até, sutilmente, tentaram culpar Jerry pela desistência. Ele quase desistiu e fechou as portas. Então, em uma espécie de milagre, ele viu uma carta debaixo de seus cobertores. Sua mãe – sua mãe biológica – lhe enviou uma carta. Rosa, que o adotara, não consegue disfarçar o ciúme, mas colocou a carta na cama dele escrupulosamente. Maria estava morando na estrada. Ela apenas relata banalidades que soam e cheiram como a chegada de um zéfiro açucarado em uma fábrica de suor. Essa boa sensação durou algum tempo. Logo depois, ele se tornou amargo e mais irritado do que nunca. Seu pai apenas diz um oi. Eles viajam pelo país fazendo biscates e viraram as costas por anos. Eles que se fodam. Ele voltou a trabalhar e trabalhou duro. O banco, finalmente, liberou seu dinheiro com um bônus, para evitar problemas legais. Hoje Jerry é um exemplo de cidadão de bem. Seus ray-bans e bigode tornaram-se o rosto do terror para os hippies da cidade. Como PM, ganhou todo o respeito que sempre julgou merecer.

Daniel Souza Luz é professor, escritor, jornalista e revisor


Mural em homenagem a Jerry Garcia, do Grateful Dead, pintado por Claire Bain em 1999 no The Warfield Theater, em San Francisco, Califórnia. Foto tirada por Franco Folini em 15 de agosto de 2012, postei aqui via licença Creative Commons. 





Monday, April 11, 2022

Parque Industrial, de Pagu (resenha)

Esta resenha foi publicada na página oito do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em nove de abril de 2022. Eu mesmo revisei o texto e incluí uma informação na última frase, aqui neste blog, a qual não consta na publicação do jornal, para fins de maior clareza: a de que é uma pena que Pagu não tenha escrito mais romances, pois foram poucos, mas ela escreveu muitos artigos na imprensa, contos, uma autobiografia e um livro de ensaios político-ideológicos. Também corrigi erros de concordância verbal e nominal que deixei passar na publicação no jornal. 

Patrícia Rehder Galvão, a Pagu, nasceu na vizinha São João da Boa Vista. No entanto, foi uma verdadeira cidadã do mundo: mais do que cosmopolita, teve uma vida de aventuras e uma militância política que lhe valeu torturas inomináveis na mão da polícia política do ditador Getúlio Vargas. A primeira vez que li a respeito dela não foi na escola, mas sim na revista de HQs underground Chiclete com Banana, do quadrinista Angeli, quando ainda era adolescente: ela foi também uma das pioneiras dos quadrinhos no Brasil, com os personagens Malakabeça, Fanika e Kbelluda. No artigo sobre a HQ dela também se mencionavam as viagens para o exterior, o trabalho como jornalista que a levou entrevistar Sigmund Freud e as sementes de soja que trouxe para o país, introduzindo esse cultivo no país. Essa história de vida impressionante proporcionou-lhe experiência suficiente para escrever Parque Industrial ainda muito jovem, aos 21 anos. No começo deste ano a Companhia das Letras o relançou, devido às comemorações do centenário da Semana de Arte Moderna de 1922 – Pagu foi musa dos modernistas. Agora é um momento mais apropriado para escrever a respeito, sem Ruy Castro poluindo o debate a respeito do modernismo com discussões bizantinas. Esta edição de Parque Industrial manteve o prefácio de 1994, escrito por Geraldo Galvão Ferraz. Notei que já o havia lido; com certeza foi reproduzido à época em algum caderno cultural dos grandes jornais brasileiros, que eu lia avidamente – deixando os livros de lado, desgraçadamente. Se eu os lesse, saberia que Galvão estava, em parte, equivocado: o panfletarismo da obra, um defeito comum na arte, é neste caso uma qualidade e não uma mácula. Afinal, trata-se explicitamente de um romance proletário. A trama captura a atmosfera do Brás, bairro operário de São Paulo, na virada dos anos 1920 para 1930, registrando amores, a luta por melhores condições de trabalho, as contradições decorrentes disso e incursões na vida burguesa de bairros mais aquinhoados. Pagu tece uma colha de retalhos bem urdida que entrelaça habilmente os destinos de personagens de origens muito variadas. Os defeitos do livro são muito outros: embora a linguagem seja moderna até hoje, com frases curtas e precisas, há uma profusão de personagens que exigem muito a atenção do leitor para que se lembre quem é quem, pois a profundeza psicológica deles e suas características não são bem trabalhadas – ou seja, uma característica de um romance realista do século 19, especificamente O Cortiço, de Aluísio Azevedo. Há certo esquematismo que leva a algumas falhas de lógica interna: num mundo sem celulares e com telefones inacessíveis à população explorada, uma operária que estava em casa já sabe da demissão de outra e até já lhe arrumou emprego antes que ela saísse da fábrica. O panfletarismo, às vezes até moralista, embora a autora e personagens critiquem a moral burguesa, só pesa a mão no capítulo Paredes Isolantes e ao final. Ainda assim, não é nada ingênuo, como afirma Galvão: os exploradores são também predadores sexuais, salvando-se o personagem Alfredo, inspirado em Oswald de Andrade, e há descrições cruas de estupros. Aliás, é muito difícil escrever sobre sexo sem cair na vulgaridade risível e Pagu o faz muito bem ao retratar relações consensuais. É uma pena que ela não tenha escrito muito mais romances, pois além desse, publicado com o pseudônimo de Mara Lobo, há apenas mais um, feito em parceria com Geraldo Ferraz.

Daniel Souza Luz é professor, jornalista, escritor e revisor





Tuesday, April 05, 2022

Longe das Aldeias, de Robertson Frizero (resenha)

Esta resenha foi publicada na página oito do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em dois de abril de 2022. O texto foi revisado por mim mesmo, no afogadilho, então talvez precise de correções posteriormente.  

Este livro é de 2015 e foi lançado pela editora Dublinense; no entanto, foi relançado no fim de 2021 e distribuído como brinde no clube de assinaturas TAG também no final do ano passado. Frizero é um escritor gaúcho que talvez seja apresentado a um público maior devido a isso. Tomara, a se julgar por essa obra. Longe das Aldeias é um romance, como destacado na capa, e é curtíssimo. Ou, talvez, devido a isso, uma novela. De qualquer forma, categorizações à parte, é um primor de concisão que traz uma história sufocante cuja intensidade é ressaltada no corte preciso. A trama revela-se aos poucos. Temos uma família de emigrados que vive no Brasil; isso é óbvio, mas não é dito em momento algum em que lugar estão. Apenas sabe-se que atravessaram o oceano para viver num país tropical, daí o porquê do batismo do livro, mas é fácil depreender que vivem entre brasileiros pelos nomes e rumos dos namorados de uma das personagens centrais. De onde vieram e quando também é impreciso, porém, também é possível inferir que se trata da Europa. Trata-se de algum lugar destruído por uma guerra no qual a intolerância religiosa levou a um genocídio. Seriam judeus à época da Segunda Guerra Mundial ou mulçumanos quando da fragmentação da antiga Iugoslávia seguida das cruentas guerras subsequentes? Só se sabe que seus inimigos são cristãos. De qualquer forma, os horrores, se não os mesmos, são sempre incomensuráveis e quase incompreensíveis, dado que religiões em geral pregam a congregação entre os homens, mas, obviamente, suas estruturas verticalizadas favorecem o autoritarismo e o ódio a quem é diferente. Da família, sabe-se que duas irmãs aportaram na nova terra, uma delas com o filho recém-nascido, Emanuel. O fio condutor é tecido por ele, que tenta entender quem é a figura fantasmagórica do pai, Josif, e como os demais parentes pereceram. A mãe, Marija, tem uma doença debilitante e a progressiva perda de contato com a realidade leva-a com frequência a alucinar com o passado e a guerra. Ela e irmã, Mirna, jamais contaram em detalhes o que aconteceu, embora cultuem a memória da família. Resta a Emanuel, que vai estudar História na faculdade, juntar pontas soltas dos relatos da progenitora e da tia com a leitura de livros sobre a política bélica de terra arrasada. O leitor experimentado logo adivinha quem é o pai e como Emanuel foi concebido – ele só não percebe logo por que é muito jovem e é um terror difícil de ser encarado, embora ele o intua. Isso, no entanto, em momento algum ofusca o impacto da história. A mãe é aparentemente uma figura opressiva, mas tanto o protagonista quanto o leitor vão compreendendo suas razões e as intricadas mentiras que construiu. Plasmando o rebento a seus inimigos e mesmo à religião deles, embora não abandonando a sua, ela recobra a humanidade. Há muito lirismo em meio à brutalidade, o pendor poético do autor não vem à tona apenas nos poemas que ele concebeu como se fossem de Emanuel, que os lê para a mãe adoentada. A narrativa, portanto, não é seca, mas sim adornada com passagens sutis que jamais edulcoram nada, apenas lembram-nos que certa fantasia é o que tornam o intolerável algo suportável, dando algum sentido à vida.       

Daniel Souza Luz é professor, jornalista, escritor e revisor



Monday, March 28, 2022

30 Artistas LGBTQ+ Incríveis, de Débora Thomé (resenha)

Esta resenha foi publicada na página 10 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 26 de março de 2022. O texto foi revisado pela Juliana Gandra.

Este livro é destinado para adolescentes, mas deveria ser lido por adultos. Veio como acompanhamento do romance O Parque das Irmãs Magníficas, escrito pela argentina Camila Sosa Villada, uma mulher trans, distribuído neste mês pelo clube de livros TAG. Provavelmente, por isso, vai acabar sendo mais lido por adultos mesmo, que talvez os repassem para leitores mais jovens, seu público-alvo. O ideal seria é que esses passassem para seus pais: minha geração, agora se aproximando dos cinquenta anos ou com um pouco mais do que isso, permanece agressivamente homofóbica e transfóbica – como eu também fui na juventude. Em geral, usam a desculpa clichê do “mimimi” e justificam seus preconceitos abjetos dizendo que aceitam ser alvos de piadas por serem loiras ou baixinhos como se essas características lhe trouxessem dificuldades de sobrevivência. É patético, no mínimo, e quem sabe a leitura de uma obra como essa lhes trouxesse ao menos alguma empatia e menos ignorância. É um painel limitado, como a autora reconhece, mas, mesmo assim, trouxe surpresas até mesmo para ela e o organizador, Richarlls Martins, o que dirá então para mim. Não apenas por trazer figuras menos conhecidas, como a transformista Gisberta e a rapper Katú Mirim, mas por falar sobre a sexualidade de pessoas muito conhecidas e que eu não fazia a menor ideia de que tinham saído do armário, caso do ator Marco Nanini e da jornalista Leilane Neubarth (ou seja, nem todos os perfilados são artistas). Ótimo sinal, aliás: significa que a mídia em geral não faz mais escândalos com o assunto, a exemplo das sensacionalistas e medíocres revistas de fofoca que eu folheava quando era criança e nas quais alguém era sempre acusado (não há outro termo para aquilo) de ser gay. Uma revelação impressionante que o livro traz, ao menos para mim, é que João do Rio era homossexual e negro. Já tendo devorado um livro dele, visto uma peça escrita por ele e lido inúmeros artigos a respeito do famoso autor carioca, fico impressionado como esses dois dados sempre foram omitidos. Grave sinal de como os apagamentos ainda vicejam por aí. Por essas e outras que este livro é muito bem-vindo às estantes de leitores de qualquer idade, sendo uma leitura ágil, com muita informação bem pesquisada e atraente para todos os públicos: há artigos desde divas pop como Pablo Vittar e Ludmilla, passando por intelectuais ativistas como Luiz Mott e João Silvério Trevisan, até João W. Nery, o primeiro homem trans do Brasil, também escritor. Ou seja, é uma obra que cumpre exemplarmente seus objetivos e até os ultrapassa.

Daniel Souza Luz é escritor, professor, jornalista e revisor






Wednesday, March 23, 2022

Na Natureza Selvagem, de Jon Krakauer (resenha)

Esta resenha foi publicada na página oito do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 19 de março de 2022. É uma versão atualizada da que escrevi para o Good Reads em 2019; eu mesmo revisei o texto, o que pode significar que deixei passei erros, devido ao olhar já estar viciado. 

Como a maioria das pessoas, creio, descobri a existência do livro após assistir ao filme homônimo. Há treze anos estava em casa num final de semana, doente, decidi não sair e liguei a TV. Estava passando por acaso, vi que era dirigido pelo Sean Penn, decidi assistir. A história de Chris McCandless era fascinante e desesperadora. Com o passar dos anos notei que muitos amigos adoram a história e a trilha sonora, composta por Eddie Vedder, o vocalista do Pearl Jam. Peguei o livro emprestado em 2013 e por uma série de circunstâncias desfavoráveis o devolvi após ler apenas os dois primeiros capítulos, mas ele não me saiu da cabeça. Há três anos o peguei emprestado novamente com uma amiga e finalmente pude me embrenhar nele. Li um capítulo por dia, pacientemente. Dava muita vontade de devorá-lo de uma vez, mas decidi me conter, para memorizar melhor a saga de McCandless - ou Alex Supertramp, tal qual ele decidiu chamar-se. Embora o filme seja ótimo, o livro, como é praxe, é muito superior. Além dos passos de McCandless o autor também destrincha o de outros exploradores modernos, estabelecendo comparações esclarecedores. Krakauer entende profundamente do assunto, é um jornalista especializado no tema e com experiência na área - também quase pereceu no Alasca, portanto traça paralelos com sua vivência pessoal. Por mais que ele tenha conhecimento técnico e o demonstre, em nenhum momento isso torna a leitura árdua. Em suma, um excelente livro-reportagem. O único senão para mim é a Companhia das Letras, uma ótima editora, manter o livro na ortografia anterior a que está em vigor e ainda não corrigir uns pequenos errinhos de revisão. A Cia. das Letras mantém a edição tal como era em 1998, quando teve o insight de adquirir os direitos de publicação no Brasil, e o exemplar que li é de uma reimpressão de 2015, ainda constando como primeira edição, sem qualquer correção. Em 2018 saiu uma nova edição, mas muito parecida com a anterior, ao menos visualmente; espero que a ortografia tenha sido atualizada e os erros corrigidos. Se não for o caso, este ano eles têm uma boa oportunidade para o fazê-lo, devido a uma efeméride: em agosto fará trinta anos que Christopher McCandless morreu no tristemente notório ônibus escolar perdido no remoto Alasca.

Daniel Souza Luz é escritor, professor, jornalista e revisor



Monday, March 14, 2022

A Bagagem do Viajante, de José Saramago (resenha)

Esta resenha foi publicada no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 12 de março de 2022. É uma versão reescrita da crítica que escrevi originalmente no Good Reads em 2019; vali-me dela para lembrar que neste ano será comemorado o centenário de nascimento de Saramago. Eu mesmo revisei o texto, ou seja, talvez algum dia ele precise que outra pessoa o revise para identificar erros que meu olhar já cansado não percebeu.    

Em 16 de novembro deste ano comemorar-se-ão os cem anos do grande escritor português José Saramago, o único ganhador do Prêmio Nobel de Literatura que escreveu em língua portuguesa. Ele venceu a premiação em 1998 e faleceu em 2010, autoexilado na ilha espanhola de Lanzarote. Comunista e pouco afeito a convenções, ele não se conformou com a censura política do governo português, em 1992, ao seu livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo, lançado no ano anterior. É de se imaginar que seu centenário ensejará a republicação de sua vasta obra e até mesmo de inéditos, embora até aqui não tenha visto nada neste sentido. Seria de bom alvitre, pois sua gramática própria e difícil, que engendrou um estilo personalíssimo inconfundível, com certeza afastou leitores jovens quando ele estava vivo – recordo-me até de uma reportagem da revista Trip que afirmava que a juventude portuguesa à época não o lia, preferindo António Lobo Antunes, autor de Os Cus de Judas, também tido em alta conta pela crítica especializada. Agora seria uma ótima oportunidade de redescobri-lo. Meu primeiro contato com a obra de Saramago não foi muito proveitoso, por exemplo. Conforme lia este livro de crônicas, que foi presente de uma amiga, dei-me conta de que já havia começado a lê-lo em 1996, quando o comprei numa livraria no campus da Unesp em Bauru, esperançoso de ter uma ótima leitura, dada a reputação do Saramago. Mas detestei-o e o deixei de lado. Não guardei na memória o título e como ele foi relançado com uma capa diferente, nem de longe tão bonita quanto à da edição lançada nos anos noventa, não percebi, a princípio, que se tratava do mesmo livro. Lendo-o agora, tendo mais paciência, devido à idade, notei que não é tão ruim assim. Não fiquei com nenhum ranço do Saramago; naquela década mesmo, ainda jovem, li O Conto da Ilha Desconhecida e achei ótimo. Meu problema com este livro é que a crônica brasileira é ótima, uma tradição que provavelmente é inigualável. Saramago tem a mão pesada demais para o gênero; pesadíssima, aliás. Ele diz que tem um tom "doce-amargo" nas suas crônicas; balela, são apenas amargas mesmo e, principalmente, maçantes. Há algumas lindíssimas (A minha subida ao Evereste, As terras, Os portões que dão para onde?) e lê-se o livro na expectativa que se repitam outros momentos sublimes como estes em meio a tantos queixumes chatíssimos, mas eles não vêm, simplesmente não vêm. Felizmente, valeu a pena chegar ao fim: a última, A perfeita viagem, é tão inspirada quanto aquelas que me encantaram.

Daniel Souza Luz é jornalista, escritor, professor e revisor

A capa da edição brasileira dos anos 1990 de A Bagagem do Viajante, a qual menciono no texto como sendo mais bonita do que a reedição. 




Wednesday, March 09, 2022

Cursinho comunitário Educafro prorroga inscrições para a turma de 2022

Distribuí este release para a imprensa local em quatro de março de 2022.

O cursinho pré-vestibular comunitário Educafro em Poços de Caldas prorrogou suas inscrições para a turma de 2022. Devido às dificuldades dos candidatos com o formulário online, será feita mais uma semana de inscrição, mas desta vez presencial. Portanto, os interessados podem se dirigir até a sala 22 do IFSuldeminas, das 19:00 às 22:00, de 07/03 a 11/03, ou seja, de segunda a sexta-feira da semana que vem. Os documentos necessários para efetivar a inscrição são comprovantes de renda familiar (cópias de holerites, por exemplo) e uma foto 3x4. O IFSuldeminas está localizado à Avenida Dirce Pereira Rosa, 300, bairro Jardim Esperança. Também é obrigatório que o candidato apresente comprovante de pelo menos duas doses de vacinação contra a Covid-19 e que use máscara na sala de aula.

Neste ano as aulas voltarão a ser presenciais, em uma sala cedida pelo campus local do Instituto Federal do Sul do Minas (IFSuldeminas), na Zona Sul, após terem sido feitas de forma remota durante todo o ano passado. As inscrições são gratuitas e mesmo as de forma online permanece aberta até este domingo, dia 06/03, através de formulário disponibilizado na página Educafro Poços de Caldas no Facebook.

As aulas, portanto, foram postergadas e terão início em 14/03. A aula inaugural será ministrada por Maria José de Souza, a professora Tita. O curso é destinado a estudantes de baixa renda provenientes do ensino médio da escola pública ou com bolsa integral em escolas particulares. A seleção será feita em 14/03, seguindo não só critérios socioeconômicos, mas também étnicos e de idade; ou seja, ser negro, indígena e/ou estar há mais tempo longe das salas de aula conta para ser selecionado prioritariamente, pois o curso tem caráter inclusivo. Outras minorias tradicionalmente alijadas do mercado de trabalho e com dificuldades para ingressar no mundo acadêmico, como pessoas com deficiência ou a população LGBTQIA+, também têm prioridade. Apesar de ser formalmente ligado aos franciscanos, o curso é laico, não sendo a religião, ou mesmo a ausência dela, critério para a seleção. Todos os professores e coordenadores são voluntários.

 O Educafro é um movimento social que atua em rede; foi fundado pelo Frei David Santos na Baixada Fluminense, no município carioca de São João do Meriti, em 1993. Por isso o cursinho possui, em sua grade, a disciplina Cultura e Cidadania, na qual são abordadas questões sociais como identidade de gênero, racismo, homofobia, transfobia, sexismo, capacitismo, direitos reprodutivos e outras temáticas relativas aos Direitos Humanos. O núcleo do Educafro em Poços funciona desde 2003 e chama-se Laudelina de Campos Melo, batizado em homenagem à poços-caldense que foi a fundadora do primeiro Sindicato de Domésticas do Brasil.

Caso o candidato seja aprovado na seleção, há uma colaboração anual de R$ 50,00, que pode ser paga a qualquer momento e é usada para manutenção do curso e materiais para os alunos. Não são cobradas mensalidades. Mais informações sobre o voluntariado ou as inscrições podem ser obtidas por mensagem de Whatsapp ou ligação para 98838-9741 (José Mário) ou 98803-3526 (Tiago). Além disso, o e-mail pocos.educafro@gmail.com ou a página no Facebook: Educafro – Poços de Caldas também estão disponíveis para dirimir dúvidas.

Texto: Daniel Souza Luz

Revisão: Juliana Gandra              

Foto: Diogo Lira

Arte do flyer virtual: Ricardo Senegal





Monday, March 07, 2022

Candyman, de Clive Barker (resenha)

Esta resenha foi publicada originalmente no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em cinco de março de 2022. O texto não passou por nenhum tipo de revisão; notei ao relê-lo que há muitas orações intercaladas longas e tortuosas, portanto, talvez o reescreva algum dia.  

Clive Barker é um nome muito conhecido entre os fãs de terror devido, primariamente, à série de filmes Hellraiser, baseada no seu livro Hellbound. Candyman é um conto da mesma época deste livro; ambos são de meados dos anos 1980. Foi publicado no Brasil, oportunamente, pela Darkside Books em um livro que conta com um ótimo posfácio do jornalista Carlos Primatti. Lançado em uma coletânea, a escolha deste formato, publicado individualmente, deve-se provavelmente à recente adaptação cinematográfica dirigida por Nia DaCosta, lançada no ano passado, e surpreendentemente roteirizada pelo genial Jordan Peele, conhecido por ser um humorista ácido. Uma série de três filmes já havia sido produzida nos anos 1990, tomando uma série de liberdades em relação à trama original, conforme explica Primatti. Uma delas, também utilizada na adaptação cinematográfica da HQ Hellblazer, do emblemático John Constantine, personagem criado por Alan Moore, é migrar a história da Grã-Bretanha para os Estados Unidos. Neste caso, o filme Constantine saiu terrivelmente descaracterizado. Não vi nenhum dos Candyman, mas se os diretores foram talentosos, eles tinham um ótimo material em mãos, fácil de adaptar. Barker sempre foi multimídia, desde cedo. Na Unicamp vi um curta-metragem que ele estrelou e dirigiu nos anos 1970; ele dirigiu também longas e clipes; as HQs adaptadas de Hellraiser, feitas por grandes nomes como Ted McKeever e publicadas no Brasil no início dos anos 1990, são as melhores que já vi adaptadas de uma obra cinematográfica, pois não se propõem a recontar a história dos filmes, mas sim levar seus personagens para épocas e situações distintas, pois são seres demoníacos intemporais. Aliás, este é o mesmo expediente de Candyman: embora chamado de demônio no livro, ele não é exatamente isso, assim como também os cenobitas sadomasoquistas do Hellraiser não são diabos da concepção cristã. Suas vítimas não são escolhidas a esmo para ser atormentadas, elas é que os procuram. No caso de Hellraiser, é através de um dispositivo; em Candyman, é a curiosidade mórbida da protagonista Helen Buchanan, acadêmica enfastiada com a arrogância de seus pares e com a indiferença do seu infiel marido, Trevor. Ao duvidar das histórias de massacres e crueldades de Candyman, ela acaba por invocá-lo. Barker é um narrador muito envolvente; no começo parece que estamos diante de um romance policial. Não há nenhuma invocação baseada em clichês como pentagramas; é a busca obcecada da protagonista por histórias que não fazem parte do seu objeto de pesquisa que acabam por levá-la à senda sinistra da qual seria poupada se deixasse de lado os rumores que ouviu. A imprudência de Helen, ao fazer uma pesquisa de campo sobre pichações e grafites num conjunto habitacional abandonado pelo poder público que o inaugurara com pompa três anos antes apenas para vê-lo tomado por heroinômanos e muita pobreza, desde o princípio a põe em situações de risco. A ameaça está sempre presente, mas ela não parece pressenti-la, ao menos não no seu sentido sobrenatural. Barker deve ter sido influenciado por Lovecraft, pelo pouco que li deste: faz descrições precisas e constrói um clima que se revela lentamente, no qual o inefável e o inelutável estão constantemente à espreita.

Daniel Souza Luz é jornalista, professor, escritor e revisor



Friday, March 04, 2022

Amor estranho é que faz o mundo girar

Este miniconto foi publicado na página oito do Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 26 de fevereiro de 2022. É uma versão traduzida e com mudança no foco narrativo de um miniconto que escrevi originalmente em inglês nos idos de 2007. 

Ela estava furiosa com ele. Não importava o que ele dissesse, ela fica mais irritada. Então ele foi embora de vez. Ainda tinha alguns arrependimentos, mas às vezes somos obrigados fazer más escolhas. Dois meses depois de vagar pelo campo, dormindo em bancos e implorando por comida quando suas economias se esgotaram completamente, decidiu voltar para casa. Ela desapareceu. Na cozinha, tomando um café enquanto procurava comida que ainda estava dentro do prazo de validade, ele ligou o noticiário e ouviu falar de uma pitbull que foi morta a tiros após atacar um idoso em uma cidade vizinha. Era ela; sentiu no seu coração.

Daniel Souza Luz é jornalista, escritor, professor e revisor

Foto reproduzida via licença Creative Commons. A original está aqui. 


Saturday, February 26, 2022

Curso pré-vestibular comunitário Educafro abre inscrições para a turma de 2022

 Este release foi enviado para a imprensa de Poços de Caldas a partir de 18 de fevereiro de 2022.

O cursinho pré-vestibular comunitário Educafro em Poços de Caldas abriu suas inscrições para a turma de 2022. Neste ano as aulas voltarão a ser presenciais, em uma sala cedida pelo campus local do Instituto Federal do Sul do Minas, na Zona Sul, após terem sido feitas de forma remota durante todo o ano passado. As inscrições são gratuitas e estarão abertas do dia 21/02 a 01/03, apenas de forma online, através de formulário que será disponibilizado na página Educafro Poços de Caldas no Facebook.

As aulas terão início em 07/03 e a aula inaugural será ministrada pela professora Tita, como é mais conhecida a ex-vereadora Maria José de Souza, que fez história na educação do município. O curso é destinado a estudantes de baixa renda provenientes do ensino médio da escola pública ou com bolsa integral em escolas particulares. A seleção será feita entre dois e quatro de março, seguindo não só critérios socioeconômicos, mas também étnicos e de idade; ou seja, ser negro e/ou estar há mais tempo longe das salas de aula conta para ser selecionado prioritariamente, pois o curso tem caráter inclusivo. Apesar de ser formalmente ligado aos franciscanos, o curso é laico, não sendo a religião, ou mesmo a ausência dela, critério para a seleção. Todos os professores e coordenadores são voluntários.

 O Educafro é um movimento social que atua em rede; foi fundado pelo Frei David Santos na Baixada Fluminense, no município carioca de São João do Meriti, em 1993. Por isso o cursinho possui, em sua grade, a disciplina Cultura e Cidadania, na qual são abordadas questões sociais como identidade de gênero, racismo, homofobia, transfobia, sexismo, direitos reprodutivos e outras temáticas relativas aos Direitos Humanos. O núcleo do Educafro em Poços funciona desde 2003 e chama-se Laudelina de Campos Melo, batizado em homenagem à poços-caldense que foi a fundadora do primeiro Sindicato de Domésticas do Brasil.

Caso o candidato seja aprovado na seleção, há uma colaboração anual de R$ 50,00, que é usada para manutenção do curso e materiais para os alunos. Não são cobradas mensalidades. Mais informações sobre o voluntariado ou as inscrições podem ser obtidas por mensagem ou ligação para 98838-9741 (José Mário) ou 98803-3526 (Tiago). Além disso, o e-mail pocos.educafro@gmail.com ou a página no Facebook: Educafro – Poços de Caldas também estão disponíveis para sanar dúvidas.

Texto: Daniel Souza Luz

Revisão: Juliana Gandra              

Foto: Diogo Lira

Encontro do Educafro Minas no Centro de Cultura Afro-brasileira Chico Rei, zona oeste de Poços de Caldas/MG, 2016. Foto gentilmente cedida pelo ex-aluno Diogo Lira.


Monday, February 21, 2022

O dia em que conversei com João Gilberto Noll

Este artigo foi publicado originalmente na página nove do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 19 de fevereiro de 2022. O texto foi revisado pela Juliana Gandra. 

Casa da Cultura de Poços de Caldas (ou IMS, se quiserem), meados da primeira década deste século. O escritor gaúcho João Gilberto Noll veio fazer uma palestra. Nunca havia lido nada dele, conhecia-o apenas de ler a respeito nos cadernos culturais dos grandes jornais brasileiros. Sabia que ele era muito estimado pela crítica, foi vencedor várias vezes do prêmio Jabuti. Eu trabalhava numa rádio ridícula, com uma súcia inacreditável e chefes picaretas. Pensei comigo mesmo: pelo menos vou aproveitar o espaço para falar de algo bom e vou lá entrevistá-lo. Mesmo sem ganhar hora-extra e nem nada disso; eu sequer combinava nada com a chefia. Simplesmente fazia e foda-se. Depois eu matava um pouco de serviço para compensar. Na verdade, fiz isso várias vezes, em todas as ocasiões em que algum escritor descia do Olimpo das capitais e vinha visitar o equipamento cultural da provinciana Poços. A entrevista com Noll, no entanto, marcou-me mais do que outras nessas ocasiões. Ele era um erudito e um gentleman. Mencionei na entrevista que me lembrava muito fortemente de uma reportagem sobre ele n’O Globo, na qual era relatado que ele estava vivendo em completo desalento. Isso havia sido em 1991 ou 1992, eu era adolescente e essa imagem de um escritor brasileiro vivendo à beira da miséria e do ostracismo, mesmo que premiado, me foi muito reveladora e marcante. Noll me disse que também se lembrava vivamente da matéria, mas me disse isso havia sido muito tempo atrás e que sua situação melhorara. Dava para imaginar, ele parecia muito elegante no terno em que usava. Talvez não fosse um terno bem cortado, mas como não é um assunto do qual entendo e ele se portava de modo muito cavalheiresco e afável, a imagem que retive foi a de um homem elegante. Eu perdi a fita com essa entrevista; a rádio na qual trabalhava, como já disse, era (e é) uma porcaria, portanto resta apenas minha memória deste encontro e conversa. E o que mais me causou espécie foi a palestra dele. Eu não era o único que não o havia lido ali; a maioria também não. Talvez ninguém. Alguma escola levou muitos alunos adolescentes para assistirem à palestra. É óbvio que isso redundou num desastre. Noll falava com uma voz muito fina, impressionantemente aguda, muito mais do que quando ele conversou comigo. Talvez estivesse muito nervoso por falar em público, embora parecesse muito sereno ao gravar a entrevista. Ele abria a boca para dizer qualquer coisa e o público, desinteressado e naturalmente cruel, devido à faixa etária e ao espírito de manada, mal conseguia disfarçar os risinhos de mofa. Alguns deixavam escapar uma ou outra gargalhada mais alta. E Noll ali na mesa, sério, eventualmente lançava alguns olhares evidentemente preocupados para o público, mas seguia inabalável falando sobre literatura e seu trabalho. Ele faleceu em 2017 e, quando soube da notícia, lembrei-me imediatamente da sua recusa digna a servir de bufão para o deleite de quem o escarnecia.

Daniel Souza Luz é jornalista, escritor, revisor e professor


Capa da edição gringa do romance Harmada, de João Gilberto Noll. 


Monday, February 14, 2022

Luis Fernando Verissimo e os modismos literários

Este artigo foi publicado na página nove do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 12 de fevereiro de 2022. Não passou por revisão; se necessário, depois faço correções. 

Luis Fernando Verissimo é um dos mais populares escritores brasileiros. Isso pode ser inclusive medido pelas falsas citações que são atribuídas a ele na internet, embora isso tenha sido mais comum na época das correntes de e-mail, antes das redes sociais. Ainda que o leitor apaixonado pela literatura seja imune a modismos literários (ou talvez acredite ser), é bem óbvio há modinhas na área que atraem leitores eventuais. Autores entram e saem de voga. Ainda que eu entenda que a melhor produção de Verissimo seja agora, com ele já octogenário, pois suas crônicas no Estadão são impecáveis, parece-me bastante óbvio que ele não tem mais o alcance de antes e a atual geração Z, em geral, não o conhece. No começo do ano resolvi pegar seu famoso O Analista de Bagé na biblioteca da Caldense. Adoro o Verissimo, mas este livro envelheceu mal. Jamais gostei do Analista de Bagé e nem das HQs baseadas no personagem (agora não me lembro se eram feitas pelo Miguel Paiva ou pelo Edgar Vasques), mas relendo até gostei de uma ou outra história com ele. O problema é que tinha a imagem do Verissimo como um humorista refinado, mas parte das crônicas que não são baseadas no personagem-título têm o mesmo espírito das do Analista, ou seja, parecem esquetes, sei lá, dos Trapalhões: são sem graça quando observadas com o olhar de hoje e cheias da misoginia e outros preconceitos que eram naturalizados naquela época. Fosse hoje Verissimo um jovem escritor, como o foi nos anos 1970, quando escreveu parte dos textos compilados no livro, ele já estaria canceladíssimo. Justo ele, velho nome da esquerda que pôs muito a cara para bater no cenário político nacional. Se redescoberto pelas novas gerações Z e alpha, vai levar muita porrada, mesmo que póstumas. Levar ou não em consideração o contexto e o fato que humanos são falhos é algo muito subjetivo, mas é fato que sua popularidade derreteria imediatamente caso subitamente alcançasse outro auge novamente. O livro em si tem também ótimas crônicas, como eu esperava, e algumas levaram-me às gargalhadas, como a segunda parte da Histórias de Bichos (o segmento do papagaio filósofo). Também tem uma boa história que não é uma crônica humorística: Posto 5, que está mais para um conto bastante melancólico. É curioso demais notar as ondas de popularidade do autor: o livro é de 1982 e foi um enorme sucesso, com sucessivas reedições; peguei numa biblioteca e na ficha está marcado que ele foi emprestado com alguma frequência entre 2005 e 2008, época em que o Verissimo teve outro pico de popularidade e foi até capa da Veja. Depois há um hiato de 14 anos no qual ele ficou esquecido, até eu pegá-lo no começo de 2022. Carlos Heitor Cony dizia que o Verissimo (o filho, claro; o pai, Erico, jamais deixará de ser prestigiado por literatos) tenderia a ficar esquecido, a despeito das ondas de sucesso, pois se concentrava em crônicas que tendiam a ficar datadas. Em parte, talvez ele esteja certo, mas há várias aqui que também resistiram e provavelmente resistirão ao implacável teste dos tempos. Quem também estava parcialmente errado a respeito de Verissimo é... o próprio Verissimo. Recordo-me de uma entrevista em que disse que o humor dele provoca no máximo um sorrisinho, jamais as risadas como as proporcionadas por humoristas televisivos. Ledo engano; inúmeras são hilárias.

Daniel Souza Luz é jornalista, escritor, revisor e professor

O dia no qual peguei um autógrafo do Luis Fernando Verissimo. A foto foi gentilmente tirada pela Flávia Fonseca na Feira do Livro de Poços de Caldas, em 2009.


Monday, February 07, 2022

O Estranho no Corredor, de Chico Lopes (resenha)

Esta resenha foi publicada no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em cinco de fevereiro de 2022. O texto não passou por revisão; se necessário, posteriormente faço correções.

Este romance curto – ou novela, dependendo do ponto de vista – de Chico Lopes foi lançado em 2011 e trouxe-lhe certa consagração no cenário da literatura brasileira ao conquistar o terceiro lugar como melhor romance no Prêmio Jabuti em 2012. O escritor, natural de Novo Horizonte, morava em Poços de Caldas quando o escreveu, mas à época da premiação mudou-se para Brotas. De volta a Poços há alguns anos, foi agraciado recentemente com inúmeros exemplares da primeira edição de O Estranho no Corredor pela Editora 34. Ele está aproveitando para divulgá-lo mais; sorteou dez exemplares no lançamento do meu segundo livro/plaquete Zênite, em dezembro de 2021, por exemplo. Quem é daqui e se interessa por literatura de alto nível deveria, no meu entender, aproveitar a oportunidade para contatar o autor pessoalmente e adquirir um exemplar por valor mais em conta, o que é importante nestes tempos bicudos, antes que se esgotem. E que se preparem para uma leitura desafiadora, que exige elaboração e introspecção. É um mergulho fundo na psique do protagonista, um jovem professor de inglês interiorano e literato que se muda para a capital. Sua cidadezinha é indicada apenas pela inicial (V.) e a metrópole também é indistinta. Ele sente-se inadequado em ambas; esperançoso de sair da cidade natal, onde é um órfão sufocado pela personalidade castradora da tia, e ver materializada suas veleidades literárias na cidade grande, ele toma consciência não só da sua insignificância, que até almeja, para não ser notado e ferido por olhares enviesados, como principalmente da sua pusilanimidade. Mal reage a isso e quando reage, reage mal. Pudera: é uma trama que destaca a masculinidade tóxica. A virilidade, o corpanzil e o tamanho do pênis daqueles que ele elege como rivais e que mal o notam são ressaltados com frequência ao longo da história. O protagonista sente-se tão emasculado, com exceção de uns poucos momentos de euforia no qual se esquece que é franzino, que não tem nem bem um nome: para o único amigo na capital, Russo, um vagabundo misógino de bar que conhece numa situação homoerótica que este trata como piada, ele é o Teacher; em V. ele é o Paiva para desqualificados ainda piores, sem a compaixão de Russo – isso o humilha ainda mais, pois é o sobrenome do pai alcóolatra e bufão que o estigmatiza. Neste episódio também fica patente algo que ao longo de todo o livro se pode intuir, tendo um personagem tão ensimesmado: ele também era vítima de bullying. Suas poucas relações, sejam sexuais, sejam de amizade, não permanecem – nem mesmo com Carla, a única com a qual o sexo não é repulsivo. Tudo é borrado e até mesmo o tempo em que a trama se passa é indistinto: pelas referências a academias com música alta, ao A-Ha e a cinemas fechados, bem como a falta de celulares e da internet, supõe-se que se passe entre o fim da década de 1980 e o começo dos anos 2000; no entanto, as citações constantes de estrelas da era de ouro de Hollywood, da orquestra de Billy Vaughan ou ao famoso “footing” de outrora remete aos anos 1950 e 1960. Não é à toa que o protagonista procura sua identidade e não e encontra. Não bastasse isso, é inexplicavelmente perseguido por um homem forte e fantasmagórico; é como se fosse sua sombra no conceito junguiano. Isso, sabiamente, fica em aberto para várias interpretações.

Daniel Souza Luz é jornalista, escritor, professor e revisor 





Monday, January 31, 2022

1984 em 2022

Este artigo saiu na página 8 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 29 de janeiro de 2022. Passou por uma leve revisão do editor do jornal, João Gabriel Pinheiro Chagas. 

A primeira vez que o Jornal da Cidade publicou um texto meu sobre um livro foi em 2012 e foi sobre o 1984, a clássica distopia de George Orwell. Dez anos depois, volto ao tema e, também, a parte daquele texto, pois recentemente passei por uma livraria no centro e fiquei impressionado com a quantidade de reedições do livro. Sabia que em 2021 a obra caiu em domínio público, então várias editoras fizeram a festa. O que me chamou a atenção para isso no ano passado foi quando uma delas enviou uma reedição de luxo deste clássico para uma influencer digital, na esperança dela ler ou falar a respeito, e a pessoa usou o livro de embalagem para dar um telefone para uma parente: ela fez um vídeo em que dá o livro para a criança, que fica decepcionada, mas ao abrir o luxuoso livro a garota descobre que foi feito um buraco no meio das páginas e nele se escondeu um celular novo. Isso é tão representativo dos instrumentos de controle social que Orwell criticava que é uma boa alegoria: essa editora só publica livros de autoajuda e porcarias semelhantes. Recuso-me até a escrever o nome dessa casa editorial: má publicidade é boa publicidade para esses abutres. A questão é: para o neófito ou para quem quer reler, qual dessas edições que vale a pena? Quase todas procuram se destacar através de conteúdo extra, como ilustrações e acabamento refinado. Lembro que o que interessa é o conteúdo. Para quem não conhece, uma breve contextualização: distopia é um subgênero da ficção científica com viés sombrio, no qual um estado totalitário, ou uma megacorporação capitalista, controla todos os aspectos da vida humana e elimina toda individualidade – o oposto da Utopia idealizada por Thomas Morus. O gênero tem como obras-primas 1984 e Admirável Mundo Novo, cujos autores são respectivamente Orwell e Aldous Huxley. Por muito tempo foi entendido como um estilo marcadamente anticomunista, no qual até a ultra-individualista Ayn Rand, uma filósofa de direita, se aventurou. O livro Nós, lançado pelo russo Eugene Zamiatin no calor da Revolução Russa, é tido como o marco inaugural do gênero. Zamiatin, comunista no início do século, exilado na Inglaterra devido ao regime czarista, voltou ao seu país para ajudar a revolução, mas já com uma visão mais libertária, ficou desconfiado com o autoritarismo que se insinuava e lançou o inovador Nós – no qual a palavra “eu” já não fazia sentido no mundo do ditador Benfeitor. Orwell foi influenciado por esse viés anárquico e assumidamente reelaborou a história de Nós para criar uma obra, por incrível que pareça, original e superior à intensa trama literária de Zamiatin. Inglês e, também, anarquista, Orwell lançou 1984 em 1948, justamente “brincando” com as datas. O protagonista de 1984, Winston Smith, tenta registrar em suas memórias a verdade histórica num canto onde supõe que não é filmado, pois tudo era vigiado pelas câmeras do ditador Grande Irmão – sim, o Big Brother que dá nome ao cínico reality show. Designado para reescrever a história de acordo com os caprichos momentâneos do Estado, algo bem parecido com o uso do Telegram pela atual administração federal brasileira para que as fake news se disseminem em outros meios através da infodemia, Smith rebela-se discretamente, mas atrai a atenção de Julia, que também tenta resistir à eliminação do livre arbítrio. Não é uma história de amor, embora a afeição entre os personagens seja tocante, mas sim um profundo tratado sobre a liberdade e a desconstrução do espírito humano pelo arbítrio ditatorial. É extremamente atual. Portanto, recomendo a leitura de qualquer uma dessas novas edições. Estão caras? Para dirimir esse mal, há os sebos. E-book legítimo e pirataria online eu ignoro, mas o leitor é que sabe que caminho vai tomar.

Daniel Souza Luz é jornalista, escritor, professor e revisor


George Orwell.. Foto de domínio público. 


Monday, January 24, 2022

Ópera Geológica, de Marcos Silva (resenha)

Esta resenha foi publicada na página 9 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 22 de janeiro de 2022. Não passou por revisão; depois, se necessário, faço correções. 

Depois de conhecer a prosa do professor Marcos Sturaro Silva, cuja plaquete Aqui, Ali, Todo Lugar foi lançada conjuntamente com este livro de poesias há duas semanas em Poços de Caldas (e em dezembro do ano passado em São João da Boa Vista, sua cidade natal), há de se notar que sua poética é bastante narrativa e coloquial. Isso contrasta fortemente com o que o editor Cesare Rodrigues informa na apresentação deste livro: quando lançou independentemente suas duas primeiras obras, a influência do experimentalismo concretista e a erudição eram as marcas de Silva. Não tendo lido essas duas edições independentes e fiando-me nisto, destaco que o toque erudito ainda está lá, pois há citações nominais de Charles Baudelaire, Hilda Hilst e William Blake, além de outras, implícitas, de Machado de Assis e Guimarães Rosa, entre outros. É claro que uma releitura revela camadas nas quais essas leituras formadoras estão subjacentes, mas a contemporaneidade faz-se mais presente – ou, para ser mais exato, ao menos aquela da juventude do autor, nas duas últimas décadas do século passado. Além da conterrânea Orides Fontela e Rodrigo Garcia Lopes, há uma parte final toda dedicada a Ana Cristina César, quase um livro dentro do livro. Esta é de lavra mais recente, informa o excelente posfácio de Márcio Cenzi, que também é poeta, é íntimo de Silva e estabelece muito oportunamente as chaves de leitura do livro. Os demais poemas foram produzidos num intervalo de quase três décadas, esparsamente, então é difícil para quem já não os conhecia encontrar um eixo, ao contrário dessa coda inspirada em Ana C., que, talvez, seja ainda mais lúbrica do que a produção que a precede. O editor, que é sobrinho de Silva, cultivava com carinho a pretensão de reunir os poemas inéditos presentes neste volume, conforme ele destaca no prefácio, mas não se trata, ainda que não haja uniformidade, de uma coletânea mal-ajambrada. Cenzi afirma que os poemas foram reescritos, cortados ou avolumados com novos trechos. Ou seja, o livro não é um anacronismo e insere-se vividamente no torvelinho avassalador desta década infodêmica; o tempo hipermoderno do qual o poeta Ruy Proença fala na orelha está à espreita – “Já o fim, aquele abraço: biodecompositores esperam/ por tudo que é tipo de gente.”, vaticina o poema Do Princípio Ao Fim. Mas o tempo geológico, caro ao autor (dada a sua formação acadêmica), em que ainda há o que se ossifique, também dá o tom. Confiram em Lírica Bruta, poema de cujo verso final foi tirado o título do livro.

Daniel Souza Luz é jornalista, escritor, revisor e professor




Monday, January 17, 2022

Aqui, Ali, Todo Lugar, de Marcos Silva (resenha)

Esta resenha foi publicada na página nove da edição 7676 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 15 de janeiro de 2022. O texto não passou por revisão nem na ocasião e nem agora. Se necessário, depois faço ajustes. 

Plaquetes são um modo democrático de se distribuir boa literatura de modo impresso. Tomei contato com o formato pela primeira vez na Casa das Rosas, em São Paulo, onde fiz minha pós-graduação em Jornalismo Literário: lá estavam sendo distribuídas gratuitamente duas e assim tomei contato com as obras de Susanna Busato e Micheliny Verunschk, ambas ótimas poetas. Pequenas obras, que também podem ser entendidas como opúsculos, fanzines (pela nova geração; já a minha preferia o velho, tosco e bom xerox) ou até mesmo como cordéis, como bem observou meu amigo Luiz Henrique Leocádio, quando lancei Zênite, meu segundo livro. Aliás, meus dois livros, com formato de bolso, são plaquetes, justamente devido à acessibilidade. Este formato também foi utilizado pelo professor Marcos Sturaro Silva, residente na vizinha São João da Boa Vista, para lançar um acompanhamento ao seu livro de poesias Ópera Geológica. Ambas as obras saíram no final de 2021 e tiveram lançamento em Poços de Caldas na semana passada, na Livraria Porão. Antes de mergulhar na poesia de Silva optei por conhecer a prosa. Com o formato maior do que um livro de bolso tradicional, com as mesmas 16 páginas das minhas duas obras, sua plaquete comporta um número razoável de narrativas. É belamente ilustrada pelo próprio Marcos, numa boa edição da Livros Nômades, que cuidou inclusive de obter o ISBN para Aqui, Ali, Todo Lugar, ao contrário de vários livretos editadas de forma semelhante. São narrativas, claro, curtas. Os contos (e talvez um ensaio de um ensaio, vamos dizer assim) refletem sua formação em, me parece, Geografia (o autor leciona essa disciplina e, também, Sociologia). Historiografia, que abre a obra, revela certo desencanto com a burocratização da escrita exigida pelo mundo acadêmica, afinal as ciências humanas aspiram ao status de ciência dura, claro, e têm uma metodologia rigorosa que muitas vezes sufoca a narratividade – por isso mesmo fiz a pós em Jornalismo Literário, uma das decisões mais acertadas da minha vida. Daí em diante vem uma prosa exuberante, como se fosse uma libertação. Armanhaque ou a Arte da Gula e Terra Sem Males são dois contos que demonstram fascinação pela simbologia da cornucópia, pois têm como cenário territórios de abundância e felicidade plena; especialmente o segundo é como se fosse uma Utopia de Morus tomada pela anarquia de Bakunin, ainda que paradoxal, pois há uma (falsa) rainha. A citação do explorador Richard Francis Burton no “ensaio do ensaio” e de piratas históricos ou atemporais insinua aqueles tempos nos quais ainda havia terras míticas, misteriosas, paradisíacas, a ser descobertas pelo ser humano. Mas isso se dá pela via de certo surrealismo ou realismo mágico. Essa aura aparece em povoados incrustrados no interior que podiam ser cidades-irmãs de Macondo (em Ancestralidade), Comala (em A respeito de observar mulheres em flor num campo de frutinhas vermelhas) ou, ou... Caldas da Rainha? Poços também está lá, no conto Pedra-Balão, com uma profusão de ervas que também aparecem Terra dos Dinossauros. São espaços de anacronismos, talvez, mas as narrativas também indicam que o retorno ao primitivo é a última esperança para que o planeta não colapse e a humanidade seja mais compassiva. Enfim, é grande literatura, matutando sobre as grandes questões, num diminuto volume.  

Daniel Souza Luz é jornalista, escritor, revisor e professor






Monday, January 10, 2022

Zênite (resenha/making off)

Publiquei este artigo no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em oito de janeiro de 2022. É um texto bem cabotino, misto de making off do meu segundo livro/plaquete e resenha. A Juliana Gandra, minha noiva, o revisou. 

Nos anos 1990 li uma entrevista do Paulo Ricardo, ex-vocalista do RPM, na qual ele acusava os jornalistas da revista Bizz, que também atuavam como críticos, de terem bandas e se elogiarem uns aos outros na publicação. Eles de fato tinham, mas peguei uma fase em que outros jornalistas as criticavam negativamente. Uma diatribe em particular, Ricardo dirigiu ao jornalista Alex Antunes, acusando-o de desonestidade intelectual ao inventar um pseudônimo para fazer uma crítica positiva da própria banda, o Akira S & As Garotas Que Erraram. Bem, admiro Antunes, o grupo dele também e acho que o expediente é até engraçado. É bem a cara dos Sex Pistols, “a grande trapaça do rock n’ roll”, e aquela turma parecia não compreender essas patuscadas como algo antiético. Porém, apesar de entender a subversão daquela geração, jamais faria isso. Serei cabotino mesmo: meu novo livro, Zênite, foi lançado dia 29 de dezembro. É um pequeno volume, como Milagre dos Pássaros, do Jorge Amado, mas ainda mais conciso, a exemplo do meu primeiro livro, Ontem Foi Um Sonho, de 2019. Quem resenharia uma obra dessas? Ora, ninguém, pois sou um ninguém e não um Amado. Então eu o farei, ora. E da forma mais crítica possível, embora esse texto seja mais uma reflexão sobre a concepção da obra. Trata-se de um conto escrito em meados de 2020, em total isolamento devido à pandemia e em homenagem a quem seria hoje minha noiva, Juliana Gandra, a pedido do fanzineiro bauruense Ricardo Botta, que retomaria seu fanzine Carniça. Botta é entusiasta do que se convencionou rotular de politicamente incorreto e isso, de certa forma, permeia o texto. Ou seja, não é uma característica minha. Escrito sem pejos, acaba tendo como defeito certa violência gratuita. O título original, inclusive, era Castração, Trepanação e Fellatio de Máscara Mortuária no Peep Show – frase que acabei inserindo num diálogo, ao reescrever e ampliar o texto para publicá-lo individualmente no livro, pois Botta desistiu de reeditar seu fanzine. Como o título era muito extenso, o que cabia perfeitamente num fanzine que tinha como propósito chocar, tive que reduzi-lo e o tirei de uma passagem que nuança um pouco a história e que lhe dá outro sentido, de certa forma. O uso da ultraviolência para criticar a violência do Estado, característica do livro Laranja Mecânica, de Anthony Burgess, e dos melhores filmes de Paul Verhoeven, é menos crítica e menos sutil aqui do que em Ontem Foi Um Sonho, mas continua presente. Influência benfazeja do filme Decoder, de 1984, uma distopia inaudita do cineasta Muscha, filmada na Alemanha Ocidental e estrelada por Christiane F. (sim, ela mesma), o pintor Bill Rice e o músico F.M. Einheit, do grupo industrial Einturzende Neubauten. Impactado ao terminar de assistir ao filme, indicado por uma amiga justo quando recebi o convite para fazer o texto, tive um sonho/pesadelo nada convencional que foi o ponto de partida da história. Decoder tem uma ponta do escritor beat William Burroughs e foi baseado na obra teórica dele sobre som ambiente e ruídos de fundo. Zênite indiretamente é um filhotinho de Burroughs, portanto. O filme também me reconectou com uma influência primordial que tive na adolescência e que me inspirou a escrever o primeiro livro, o quadrinhista italiano Stefano Tamburini. Burgess, Muscha, Burroughs e Tamburini operavam numa zona cinzenta da ficção científica que despreza as convenções do gênero para fazer sátiras políticas incisivas – talvez mais do que as dos autores originais de distopias, como Zamiatin, Orwell e Huxley. É a essa “tradição”, por assim dizer, que me filio, a qual também pertencem escritores como J.G. Ballard. Ou seja, dou murro em afiada ponta de faca, pois sou influenciado por autores que não estão em voga, e Zênite não foi concebido como uma leitura agradável. No final, há um aparente gancho para a história continuar, mas não é a minha intenção – é uma paródia de obras que fazem isso. Botta disse que eu deveria dar sequência à trama. Não brigaria com o público se houvesse grande demanda. Sou cético quanto a isso, no entanto.

Daniel Souza Luz é escritor, jornalista, professor e revisor




Monday, January 03, 2022

Todo Sentimento, de Wellington Rafael (resenha)

Esta resenha saiu na página oito da edição 7666 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 31 de dezembro de 2021. O texto foi revisado pela Juliana Gandra antes da publicação.   

O lançamento de Zênite, meu segundo livro/plaquete, foi em 29 de dezembro na Livraria Porão, inaugurada no segundo semestre de 2021 e já sob nova direção, atualmente gerida pelo poeta e historiador Wellington Rafael. Apelidado de Barba, já o conhecia desde 2019, quando ele deu aula no Educafro, cursinho pré-vestibular comunitário no qual eu também fui voluntário. Seu primeiro livro, no entanto, é de 2018. Não o conhecia, portanto. Presenteado com um exemplar na véspera do lançamento, finalmente pude lê-lo. Rafael é profundamente influenciado por Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade e Manoel de Barros. Todos são citados explicitamente na obra, mas se não o fossem suas marcas na escrita do poeta poços-caldense seriam facilmente reconhecíveis pelos leitores afeitos à poesia, este gênero textual que “não dá camisa a ninguém”, como bem nota o escritor e sociólogo Marcos Sturaro Silva no prefácio. Sabendo da importância de insistir nesta utopia inglória que é o fazer poético e sua publicação, Rafael não se furta de brincar com as palavras de forma bastante lúdica. Versos singelos como “Os meninos da rua brincam/ Não se dão conta do que acontece no mundo/ Não se importam com o que acontece no mundo”, as rimas simples ou as inúmeras referências a passarinhos remetem a um passado edênico tão caro a Quintana e Barros. Ou a bolsões de verde que ainda resistem, se formos esperançosos. Aliás, apesar de sua atuação política (Rafael é filiado ao PDT), sua poética não é militante. Uma exceção é o poema Chuva de Sangue, que lembra o melhor de Jarid Arraes (“– Alguém morreu? – Mais um negro, ao que me parece. – Outra mulher espancada? – Sim. A coisa tá feia, mas a economia tá boa. A cadela deu cria.../Seus filhotes têm afiados/ E como mordem”). É, de longe, o mais forte e incisivo do livro. No meu entender, o melhor. Porém, a arte não precisa ser política ou “útil”; essas discussões sobre “arte pela arte” ou “arte engajada”, uma falsa contraposição, são enfadonhas e já deveriam estar ultrapassadas. No entanto, acreditem-me, há quem insista nestes anacronismos. Por fim, é significativo que Rafael abra e feche o livro com pequenas prosas poéticas. Ele mostra uma versatilidade como narrador que espero que ainda seja mais explorada.

Daniel Souza Luz é escritor, jornalista, professor e revisor




Monday, December 20, 2021

Veja a Manchete

Raramente tenho algo que se possa chamar de pesadelo, de uma década e meia para cá. E mesmo antes não era algo muito comum. No entanto, há uns anos, apesar de não ter acordado assustado, fiquei aliviado ao acordar de um sonho que não foi particularmente bom. Então talvez tenha sido mesmo um pesadelo. Nele, estava folheando uma Veja de 1979; havia denúncias de tortura, era uma edição comemorando a Anistia, a reabertura política que levou ao fim da ditadura no Brasil. Enfim, havia uma matéria, páginas adiante, falando de tortura e execuções de opositores na Turquia. Parecia muito real, vi vários cadáveres desfigurados. Até a diagramação e a fonte das letras pareciam com as das revistas que lia quando era criancinha, em salas de espera e, em especial, em barbearias no centro de Poços, quando eu ia cortar o cabelo com meu pai e tinha que aguardar minha vez. Na vida real, essas revistas realmente eram assim, mas a Manchete, principalmente, mais parecia encarte de discos do Carcass, a pioneira banda de goregrind. Lembro-me em especial de uma, numa barbearia que ainda existe, quando havia acabado de aprender a ler: publicaram uma reportagem sobre um sequestro de avião em que os terroristas cortaram aleatoriamente a língua de uma refém. Havia várias fotos dela sangrando ao longo das páginas. Talvez só uma ou duas, mas na minha memória agora parece que eram dezenas. Em preto e branco, o que tornou aquele sangue escurecido ainda mais traumático. Ficava pensando em como ela poderia viver depois; isso perturbou vários dias da minha infância. Perto disso, o famoso jornal Notícias Populares, apelidado de “Espreme e Sai Sangue”, hoje tão morto e enterrado quanto a Manchete, não era nada.

 

Daniel Souza Luz é professor, escritor, jornalista e revisor

Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 18 de dezembro de 2021. É uma versão reescrita e ampliada da minha Micrônica 2147, de 25 de março de 2018.


Uma edição de janeiro de 1985 da revista Manchete. Reproduzida aqui via licença Creative Commons.