Monday, August 08, 2022

Pentelhando Ziraldo

Esta crônica (ou memórias, talvez) foi publicada na página 8 da edição 7811 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 06/08/2022. Apesar do título, ressalto que Ziraldo não parecia estar nem um pouco incomodado, é bom deixar isso claro. Com certeza, ele estava acostumado com entrevistas amalucadas desde os tempos do Pasquim.  

Em 2001, formado há pouco tempo em Jornalismo e de volta a Poços de Caldas, eu tentei fazer um site com um amigo, o Elídio Júnior. Como muitos projetos em que embarquei, não foi muito pra frente. Ele nomeou o site de Bixo Grilo, fez um logotipo muito bom, mas o nome não me aprazia, nada tinha a ver comigo. O site chegou a funcionar, de qualquer forma, e encasquetei de entrevistar o Ziraldo, que viera fazer uma palestra (ou ministrar uma oficina, agora a memória me trai) na Casa da Cultura. No final do evento, eu e um jornalista local pedimos para entrevistá-lo. Recordo-me bem que o coleguinha cobria a pauta dele com a mão, parecendo incomodado com minha presença. Ora, como se eu fosse fazer as mesmas perguntas simplórias e publicá-las para ele ver. Talvez ele tenha agido assim porque eu não tinha pauta em mãos – não precisava. Batismo de fogo interiorano feito, abordei Ziraldo e disse que queria fazer uma entrevista mais longa, pois era para um site, portanto sem limitações de espaço. Ele me disse que iria fazer uma espécie de terapia alternativa com uma senhora que o aguardava, então uma moça que a acompanhava (filha dela, salvo engano) sugeriu que eu fizesse a entrevista a caminho da casa delas. Não fizemos objeções e a entrevista foi gravada no trajeto, com direito a uma parada no Mercado Municipal para Ziraldo comprar queijos. Eu me lembro que era uma senhora muito gentil essa terapeuta mística e que ela tinha um nome muito incomum: Santa Abelha. Finalizei a entrevista já na casa dela, na Cascatinha, e ela e a filha pareciam estar gostando de acompanhar o bate-papo literário. Infelizmente, perdi a gravação. Eu a transcrevi para o site, é claro, mas está em algum disquete sabe-se lá onde. Talvez já tenha desmagnetizado. E onde eu abriria um disquete? O site está fora do ar há vinte anos. No entanto, recordo-me bem de passagens marcantes da conversa. Quando falamos sobre seus livros Flicts e O Menino Maluquinho, Ziraldo citou o Dr. Seuss – se não como influência, ao menos como um autor que o marcou. Quando a conversa enveredou pela literatura contemporânea, eu disse que gostava muito do Bukowski. Ziraldo retorquiu que não era muito fã dele e dos beats, mas que uma vez foi na City Lights, a livraria do poeta Lawrence Ferlinghetti, que tinha (tem) caráter comunitário beatnik e que gostou muito de lá. E me fez uma recomendação maravilhosa: se eu era “taradão” (lembro bem dele usar esse termo) no Bukowski, que procurasse um conto chamado Viagem aos Seios de Duília, do Aníbal Machado. “É uma perfeição, sem furos”, disse-me Ziraldo. E é exatamente isso, é um dos melhores contos que li, ao lado de A Causa Secreta, do Machado de Assis, e de algumas obras-primas do Buk e dos autores de ficção científica Phillip K. Dick e Brian Aldiss. Outra passagem da conversa talvez tenha sido em off, mas é muito saborosa para eu não a relatar; além disso, prezo o registro histórico, então aí vai a suposta inconfidência: comentei que gostava de ler a coluna do João Ubaldo Ribeiro no Estadão e Ziraldo ficou indignado. Disse que o autor baiano era um “nojento”, que não suportava a empáfia dele e que ele bancava o rebelde, mas topou entrar para a Academia Brasileira de Letras, o que configurava uma hipocrisia. Escritores não têm que ser santos ou agradáveis para ser admirados, mas, de fato, anos depois vi aqui uma palestra de Ubaldo na qual ele parecia ser muito bonachão, mas deu uma resposta tão atravessada (ainda que correta) a uma pergunta ingênua que ele me pareceu ser de uma arrogância ímpar – daí me lembrei do que Ziraldo me disse. Há uns cinco anos, Ziraldo fez uma fala homofóbica numa palestra também aqui em Poços. Foi algo tipo “Fernanda Montenegro não está autorizada a divulgar lesbianismo na novela”. Justo ele, que desenhou o logo do PSOL, partido conhecido por abraçar a causa LGBTQIA+, deu uma dessas. Porém, o episódio trouxe-me à memória uma frase que ele me disse e que achei engraçada: “Uma vez disse ao Paulo Francis que escrever bem não o autorizava a escrever um romance”. O que é verdade, tentei ler livros de Francis e são intragáveis; embora ele escrevesse muito bem, o forte dele era ser polemista de esquerda e, depois, de direita. Em outubro Ziraldo fará 80 anos. Falando asneiras ou grandes verdades, espero que ele ainda fale muito. E, quem sabe, que algum dia eu recupere a íntegra dessa entrevista.

Daniel Souza Luz é jornalista, professor, revisor e escritor


Um jovem Ziraldo numa foto em que ele está bastante parecido com o Jaz Coleman, o vocalista do Killing Joke. A fotografia é de domínio público. 


Monday, July 25, 2022

Contracultura em desintegração

Este ensaio foi publicado originalmente na página sete da edição 7801 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 23 de julho de 2022. Revisei o texto no dia 26 de julho, um dia após a publicação aqui neste blog, para corrigir um erro de digitação e eliminar uma palavra repetida.  

Na segunda-feira desta semana, dia 18, Hunter S. Thompson teria completado 85 anos se não tivesse se matado em 2005. Gosto dessas efemérides, embora, geralmente, passem batido. Podem me pôr em movimento; neste caso, serviu para lembrar-me que havia abandonado a leitura de Medo e Delírio em Las Vegas no começo. Tentei lê-lo antes de assistir ao filme, lançado em 1998, mas não houve tempo hábil e acabei assistindo-o antes. Desanimei, deixei para lá e, com atraso de décadas, finalmente recomecei do zero e concluí a leitura, pois há uma edição recente da L± agora já é considerado um clássico moderno pela editora. Na verdade, já era nos anos 1990, pois é uma obra lançada em 1971, publicada originalmente em capítulos pela revista Rolling Stone. A reputação de Thompson precedia sua obra. Criador do jornalismo gonzo, li várias reportagens e artigos sobre ele antes de ler sequer uma linha do que escreveu. O “gonzo journalism” é uma variante do jornalismo literário (que não cobre necessariamente literatura, mas é sim uma forma aprofundada de se fazer jornalismo) com uma metodologia mais simples: ainda que faça descrições pormenorizadas de ambientes e analise as atitudes das pessoas que são alvos de suas reportagens, em vez de simplesmente reproduzir suas declarações, Thompson fazia isso completamente chapado de drogas psicodélicas. Era consenso nas matérias a respeito dele que não se sabia como ele ainda estava vivo. Quando finalmente li um de seus textos, na revista Trip, foi o famoso artigo sobre o Kentucky Derby, tido como a peça inicial do jornalismo gonzo. Ao contar como foi a famosa corrida de cavalos, Thompson não estava nem um pouco interessado no aspecto esportivo, mas sim em narrar o que ela realmente é: uma exibição de poder. Logo no início, ele diz que os verdadeiros animais chegaram ao recinto, ou seja, os políticos locais. Ainda se tratava de jornalismo. Medo e Delírio em Las Vegas está mais para literatura mesmo. Tudo bem, Thompson conta o que ele e seu advogado aprontaram em Las Vegas. Acontece que ele é um narrador não confiável. Não é que ele seja intelectualmente desonesto; a questão é que o livro é, de certa forma, um equivalente (sur)realista de Um Estranho no Ninho, do escritor beat Ken Kesey, cuja militância pró-drogas, aliás, é citada constantemente por Thompson. Sãos dois livros geniais e o paralelo é inevitável para mim: enquanto Kesey escreveu uma obra ficcional com um narrador fascinantemente não confiável, o indígena Chefe Vassoura, que está trancafiado num hospício e que não consegue diferenciar suas alucinações da realidade, Thompson descreveu o que realmente aconteceu sem também saber o que é alucinação ou é real. A corrida off road e o encontro de policiais e promotores sobre a “cultura das drogas” que foi cobrir em Las Vegas foram apenas desculpas para ele e seu infiel escudeiro, o advogado samoano cujo nome jamais é mencionado, drogarem-se em níveis inumanos com todos os entorpecentes conhecidos à época. A prosa alucinada é fluída, cristalina; os acontecimentos, obscuros. Há uma passagem que seu advogado foge do hotel com malas novas, levado de carro por Thompson, e nenhum funcionário percebe. Não é crível, mas ele não está preocupado com os fatos: o livro é um longo relato de como não consegue fazer a cobertura da corrida por estar muito drogado ou desinteressado e de como não quer cobrir a convenção porque odeia autoridades. Talvez por isso mesmo, é o trecho mais jornalístico, no sentido convencional, do livro: enquanto ao longo de toda a trama nomes são omitidos, o médico e o promotor que falam na abertura da convenção são citados nominalmente e têm seus discursos implacavelmente ridicularizados – não havia ainda o conceito, mas Thompson tinha lugar de fala e era realmente o especialista em drogas. Conferi numa rápida busca na internet: o médico e seu livro caricato sobre maconha são reais. E esse nem é o trecho mais hilariante, há vários que me fizeram dar gargalhadas. Conforme a história progride, no entanto, a trama fica cada vez mais sombria e desconexa. Afinal, os anos do flower power já haviam passado e Thompson ressente-se disso. Sua geração perdera para o conservadorismo de Nixon e Raoul Duke (seu pseudônimo) não se poupa: na verdade, ele e seu advogado são junkies ameaçadores e violentos. A misoginia de ambos não fica nada a dever para a de Charles Bukowski e a de Jack Kerouac, outros dois ícones literários do período; talvez seja até pior. Reflexo de uma utopia que degenerou, Thompson registra com nostalgia os ideais libertários da geração hippie dele e de Kesey, Allen Ginsberg e Timothy Leary, mas, mais lúcido do que seu histórico sugere, aponta claramente o que “uma jornada selvagem ao coração do Sonho Americano” (o subtítulo do livro) lhe revelou: a obsessão por dinheiro fácil nos EUA solapou os sonhos utópicos de seus pares e a necessidade de “iluminação” de então não era diferente das velhas religiões, levando ao surgimento de “gurus” oportunistas e, embora ele não mencione nesta passagem, ao culto homicida de Charles Manson que ele frequentemente relembra. O sonho acabou, mas redundou num livro acachapante.  

Daniel Souza Luz é escritor, jornalista, revisor e professor


Hunter S. Thompson em Las Vegas, 1971. Foto de domínio público. 


Monday, July 18, 2022

As sendas erradas pelas quais Hemingway caminhou

Este ensaio foi publicado na página 7 da edição 7796 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 16 de julho de 2022. Trata-se de uma reflexão que fiz originalmente em 2006 e que decidi atualizar, ampliando muito o texto, além de aperfeiçoá-lo.    

Uma questão que tem me interessado, ao tomar contato com obras de décadas atrás que não têm reedições acrescidas de fortunas críticas e novos posfácios (mas deveriam, até porque há efemérides que as favoreceriam), é refletir sobre como as novas gerações de leitores as recepcionariam, no caso de uma revalorização dos autores. Expressões e passagens que passavam despercebidas outrora hoje causam certo estranhamento, isso quando não se descobre que são explicitamente preconceituosas. Os cancelamentos são motivados, muitas vezes, por causas justas, tisnando a reputação de autores. Não é algo que deva ser superdimensionado, no entanto. Há escritores que fazem da má reputação sua fama, como é o caso de Charles Bukowski, que a explicitava em seus contos, muitos dos quais autobiográficos. Não há cancelamento que o atinja ou a Céline, um colaboracionista dos nazistas na Segunda Guerra que jamais li, mas que continua sendo reputado como um dos titãs da literatura francesa, apesar de seu envolvimento com os nazis não ser segredo. E, na verdade, não há novidade nesta questão do cancelamento, a não ser o termo. De tempos em tempos, mesmo depois de mortos, escritores, ao menos os que foram tidos como bússolas morais do seu tempo, têm o caráter posto à prova.  Em 2006, por exemplo, li uma reportagem interessante, assinada por Kátia Mello, na revista IstoÉ: um jornalista alemão reuniu na correspondência de Ernest Hemingway evidências de que o escritor matou 122 soldados do Eixo durante a 2ª Guerra Mundial, época em que se alistou no exército dos Estados Unidos. A reportagem abre com uma consideração de que o fato abala um mito da esquerda. Para mim, isto não deveria surpreender ninguém ou abalar coisa alguma. Ele ajudou os lendários documentaristas Joris Ivens e Roman Karmen a registrar os horrores da Guerra Civil Espanhola; o documentário foi bancado por intelectuais norte-americanos de esquerda que estavam preocupados com Franco e chegou a ser visto pelo presidente Roosevelt. No entanto, quem leu atentamente Adeus às Armas sabe perfeitamente o quanto Hemingway é frio em relação à guerra, embora o livro permita vislumbrar também uma leitura pacifista. A prosa dele é quase insensível, seca e sem grandes insights, exatamente o inverso da escrita de Henry Miller, para citar apenas outro escritor norte-americano que perambulou pela Europa naquela época de efervescência literária. Miller vagabundava em Paris enquanto Hemingway lutava contra fascistas na Espanha, e isso, claro, reflete-se na forma como escrevem. Embora o vazio das mortes sem sentido seja o momento no qual Hemingway concentre a força da sua escrita nesta obra, em que justamente a frieza produz os momentos de mais alta densidade literária, é patente que ele as considera inelutáveis em uma guerra. Adeus Às Armas também evidencia que ele possuía uma tendência belicista atávica. Quando o narrador, seu alter ego, mata um aliado, o faz sem culpa e sequer tece grandes considerações posteriores a respeito. No entanto, se for verdade os fatos levantados na correspondência, não deixa de ser lamentável que Hemingway tenha matado um soldado alemão de 17 anos que tentava escapar do confinamento. A reportagem cita a atração por combates que Hemingway demonstrou em vida. Não sei o quanto isso o angustiava ou não, se os assassinatos a sangue frio que ele teria cometido na prisão – os inimigos estavam cativos, portanto fora de combate – influenciaram seu suicídio em julho de 1961, mas creio que um passado tão violento não deixe de ser um fator determinante. Bom ou mau caráter (consta que ele também traía a esposa, a quem dedicava os livros), ele continua a ser um dos grandes autores do século passado.

Daniel Souza Luz é jornalista, escritor, revisor e professor

Ernest Hemingway em seu barco, 1950. Foto de domínio público, sem atribuição do autor.


Monday, July 11, 2022

Anacronismos, italianismos e racismos

Este ensaio foi publicado na página sete da edição 7791 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em nove de julho de 2022. Em relação ao texto publicado no jornal, apenas aperfeiçoei a redação da última frase. 

Neste ano em que se comemorou, meses atrás, o centenário da Semana Moderna de 1922, os escritores modernistas, mesmo de segunda geração, voltam à tona. É o caso de Antônio de Alcântara Machado, mais conhecido como o autor de Brás, Bexiga e Barra Funda. O que me fez querer ler este livro, no entanto, foi uma crônica do Ivan Angelo que li numa Vejinha (Veja SP) em 2018, enquanto aguardava uma consulta médica do meu pai em Sampa, e na qual Angelo elogiava muito a obra. Como já havia lido o conto Gaetaninho, que é ótimo, numa das coletâneas Para Gostar de Ler, é um livro que antes mesmo de ler já me trazia ótimas memórias. E que decepção. Não podia deixar de lê-lo neste ano, então peguei uma edição destinada para vestibulandos do final do século passado na biblioteca da Caldense. Começa mal, os primeiros contos são enfadonhos; nem as invencionices modernistas na linguagem os salvam. Depois melhora, mas ao mesmo tempo que as habilidades de narrador de Alcântara Machado se destacam, os preconceitos dele se avultam. E não é só o elitismo, mas como bem nota a professora Cely Arena nos textos complementares, há racismo. Ela ainda tem dúvidas se é do narrador ou do autor, mas para mim está bem claro que Alcântara Machado era tão racista que fazia Monteiro Lobato parecer um destacado abolicionista. Todos os personagens negros são muito mais caricaturais do que os imigrantes italianos que ele já retrata com um viés pitoresco – Parque Industrial, da Pagu, é também uma obra modernista e faz um retrato muito mais interessante do Brás e dos seus trabalhadores, até porque é marcado pela alteridade. Além disso, características negativas são pespegadas aos personagens negros sem nenhum pejo. Qual a razão para essa falta de escrúpulos a não ser racismo? E não vou nem entrar no mérito de como ele se refere aos indígenas. Não sabia que essa edição também trazia junto o livro Laranja da China (possivelmente porque desde os anos 1970 as duas obras são editadas juntas sob o título Novelas Paulistanas); é muito superior, embora muito menos famoso, e salva a leitura desse volume escolar, pois nele Alcântara Machado já era um narrador mais seguro e usava recursos estilísticos características do modernismo com mais parcimônia e criatividade. Infelizmente, os estereótipos racistas continuaram presentes. Como os seres humanos são complexos e contraditórios, há matizes que também revelam qualidades à frente do seu tempo: um conto como Carmela, que a professora Arena entende que retrata a falta de mobilidade social da mulher imigrante, também pode ser entendido como um elogio à liberdade sexual feminina. No entanto, apesar da linguagem ser moderna e fluída, muito influenciada pelo Oswald de Andrade, o livro é pra lá de anacrônico, mesmo para a época em que foi escrito, menos de três décadas após a abolição da escravatura. Isso dá uma pista de como o racismo estrutural deveria ser naturalizado na elite política a qual Alcântara Machado pertencia. Essa edição é para um vestibular de 1999; se àquela época, no posfácio, já se criticava o racismo e o elitismo do autor, hoje creio que a grita seria tão forte que a obra seria retirada da lista de leituras obrigatórias. Não seria imerecido, embora seja um autor que precise ser lido, tal como Lobato, até para se entender os mecanismos dos preconceitos que insinuam-se em narrativas.

Daniel Souza Luz é jornalista, escritor, revisor e professor

Antônio de Alcântara Machado.

  

Monday, July 04, 2022

Discos Que F... Muitas Vidas

Este ensaio pessoal foi publicado na página 7 da edição 7786 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG). Em relação à publicação no jornal, tive que fazer uma correção: troquei as bolas na questão de quem cantava uma canção numa resenha do JAL sobre o Velvet Underground. Ou seja, insisti no que era certo ao comentar um erro dele para ilustrar o meu. Total Inception. 

Fanzines foram um alicerce do underground nos anos 1980 e 1990. Numa época em que a informação era escassa, eram um meio de circulação de ideias e principalmente de divulgação de cenas musicais em publicações xerocadas, amadoras, geralmente com colagens – uma herança do dadaísmo –, mas que eventualmente tinham textos mais bem elaborados e profundos do que revistas tradicionais. Li inúmeros, fiz quatro (dos quais somente dois tiveram mais de uma edição), colaborei com vários e vi desde a valorização do meio pela mídia tradicional até a decadência com a chegada da internet. No fim dos anos 1990 eles até coexistiram com sites simples feitos por fanzineiros no finado Geocities, mas neste século toda essa fecunda cena pereceu aos poucos. Foi quando tive a ideia de fazer um fanzine literário, nos idos de 2003, com contos em vez de resenhas de shows e discos, sem imaginar que seria assim que zines renasceriam: como suporte em papel para novos escritores que não têm condições de bancar seus próprios livros em gráficas. Mas é outra era, em que são vendidos na rua e em saraus, e não há mais um intenso escambo dessas publicações pelo correio. Também não há mais ligação com o punk rock, que ressuscitou e reconfigurou o formato, inaugurado na década de 1930 por fãs de ficção científica, em 1977. Por isso mesmo, foi uma honra ter sido convidado para colaborar com a segunda edição do Discos que F.. Muitas Vidas, que tem o título assim mesmo, autocensurado, numa brincadeira do editor Renato Lauris Jr. Afinal, esse é o único meio em que realmente não há censura. Nos anos 1990, aliás, grassavam vários quebra-paus nas discussões em textos e entrevistas. A data desse número dois é de um ano atrás, quando Lauris me pediu um artigo, mas ele só foi editado em papel recentemente. Ótimo, imediatismo é coisa de redes sociais. O disco que ferrou minha mente não poderia ser outro: o Never Mind The Bollocks, Here’s The Sex Pistols. Tanto que cometi um erro imperdoável no meu artigo: afirmei que C’mon Everybody era cantada pelo guitarrista Steve Jones e na verdade foi pelo Sid Vicious. Agora entendo por que o grande jornalista José Augusto Lemos cometeu uma gafe quando escreveu que a Nico cantava uma música cujo vocal foi feito pelo Lou Reed no primeiro disco do Velvet Underground. Tudo bem, estou em boa companhia, um dia reedito esse artigo dos Pistols e o corrijo. O zine traz muitos outros discos clássicos do punk, pós punk, hardcore e grindcore; todos os textos são deliciosos de ser lidos por quem cresceu colecionando vinis, fitas e CDs (tenho quase todos os discos comentados nessa edição). Não há resenhas propriamente, todos os textos são de memórias. O título diz tudo: discos, nas eras punk, pós punk e grunge/metal, alteravam a percepção de mundo do ouvinte, o modo como agem e suas relações pessoais. Ora, não é por acaso que discutia com chefes e que apenas dois deles sejam meus amigos em redes sociais, afinal odeio autoritarismo, nem é à toa que detesto fachos. Isso, claro, não é algo restrito à minha geração, com os hippies também foi assim. Em cada memória desse zine é possível visualizar as cenas, quem é das antigas sabe: um amigo aparece com uma fitinha cassete misteriosa, um chegado está ouvindo um disco fora de série na vitrolinha da avó, lê-se sobre uma banda numa revista e se compra um CD no escuro. E nada mais é como era antes. Em particular, o artigo do anarcopsicólogo Luiz Henrique sobre uma das obras-primas do Napalm Death, um ícone do barulho extremo, traz uma lembrança importante: feminismo, direitos dos animais, luta contra homofobia, quase todas as pautas de hoje, tudo isso já era discutido à exaustão nas letras e nos fanzines. Não tinha cancelamento na época, o termo era boicote e isso, como já disse, fazia como que o pau quebrasse – às vezes, de verdade, não era virtual. Hoje o rock é, majoritariamente, um lixo conservador. Claro que ainda há bolsões de resistência e criatividade, mas voltaram para o underground. Antes, se eu via alguém com camiseta de banda da qual gosto, ia puxar papo. Hoje prefiro passar longe. As novas gerações que gostam de divas LGBTQIA+ e rap nacional são mais relevantes agora e escandalizam mais os reacionários. Foram os fãs da Anitta que ferraram os sertanojos bolsonaristas desperdiçadores de dinheiro público, não foram os ouvintes do Slayer (aliás, outra banda associada à rebeldia que terminou mais velhusca do que vovôs fascistas). Roqueiros não incomodam esses pilantras, que incorporaram as tatuagens e poses. E que fique claro que hoje aprecio música caipira de fato, inclusive este fanzine começa com uma citação do Zé Rodrix e do Tavito. De qualquer forma, é muito bom notar que minha geração venceu e que passamos o bastão. Quem quiser manter a chama viva, pode escrever para o Lauris e pedir cópias dessa edição e da anterior: revsobrevidas@gmail.com     

Daniel Souza Luz é jornalista, revisor, escritor e professor



Monday, April 25, 2022

O Menino do Dedo Verde, de Maurice Druon (resenha)

Esta resenha foi publicada na página nove da edição 7740 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 21 de abril de 2022. Eu mesmo revisei o texto; devido à falta de tempo hábil para escrever um texto inédito, apenas peguei uma resenha que havia escrito para o Good Reads em 2019 e acrescentei algumas informações, usando como gancho para a publicação o fato de Maurice Druon ter nascido e morrido em abril.  

O clipe de Tunic (Song for Karen), do Sonic Youth, tem alguns trechos que citam O Menino do Dedo Verde, comentou comigo uma ex-namorada, nos já distantes, muitos distantes, anos 1990. Nunca me esqueci disso e em julho de 2019 vi um exemplar da obra, uma maltratada edição de 1979, num brechó/sebo que estava arrecadando recursos para animais de rua. Comprei imediatamente e, concluída a leitura, o doei para uma biblioteca livre; a moça que estava responsável pela lojinha me disse, na ocasião, que é um clássico da literatura infantil. A introdução informa que Maurice Druon é um dos compositores da letra do hino antifascista Le Chant des Partisans. Outra boa referência. Druon, aliás, apesar de ter sido membro da Resistência contra os nazistas na França durante a Segunda Guerra Mundial, teve vida longeva e morreu num abril como este, poucos dias antes de fazer 91 anos, em 2009. O livro é uma fábula que quase imperceptivelmente remete ao também clássico O Pequeno Príncipe, mas é uma leitura que flui melhor e é mais encantadora. A história tem certo viés religioso, como nota o tradutor, Dom Marcos Barbosa. No entanto, não há proselitismo. Incomoda-me apenas que Druon esqueça-se que mudou o nome da cidade onde Tistu, o protagonista, mora, volte a usar o nome antigo no meio da trama e lembre-se do novo nome no final do livro, como se nada tivesse acontecido. Não é possível que esse anacronismo seja uma falha de tradução, mas seria interessante conferir isto em edições mais recentes, pois o livro ainda está em catálogo no Brasil. Há uma certa idealização da alta burguesia que também me causa certa estranheza, embora esta seja retratada até que criticamente, com o passar da história. Assim que acabei a leitura fui rever o clipe do Sonic Youth e percebi que as referências ao livro são breves, porque o tema da música na verdade é a vida de Karen Carpenter e o roteiro do vídeo foca-se na biografia dela, mas ao mesmo tempo são explícitas e bem encaixadas.

Daniel Souza Luz é professor, jornalista, escritor e revisor




Wednesday, April 20, 2022

Indesculpável

Este conto foi publicado na página nove da edição 7737 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 14 de abril de 2022. Apenas traduzi e adaptei para a realidade brasileira um conto que escrevi originalmente em inglês, tendo em mente os rednecks racistas do sul dos EUA, em 30 de outubro de 2007, embora só o tenha publicado no meu blog de textos em inglês em 24 de janeiro de 2008. Eu mesmo revisei o texto, cujo teor sarcástico foi muito influenciado por letras do Jello Biafra, do Dead Kennedys, e um pouco pelo Bukowski. 

Pouco antes da devolução de seu dinheiro, Jerry Garcia estava pensando em suicídio. Ele nunca teve nenhuma chance, ele não conseguia parar de pensar nisso. Um perfeito perdedor. Os pais eram doidivanas. Eles gastaram tudo em drogas e álcool. Mas eles também eram hippies, então o garoto cresceu em uma atmosfera de amor e foi batizado com o nome do líder do Grateful Dead. Eles apoiaram muitos de seus desejos quando ele era um pirralho. Quando a loja de bicicletas faliu, os dois fugiram e não deram a mínima para os credores. Afinal, o sonho não acabou. Ele não podia culpá-los. Eles não reagiram bem quando ele se rebelou na esteira dos hormônios adolescente, ironicamente desejando ser um cara comum e disciplinado, e negaram todas as suas acusações. A mãe comprou tudo o que ele desejava. O pai fez tudo o que Jerry queria. O resto do dinheiro foi investido em bebida, maconha e ácido, mas eles nunca se importaram com posses. Hippies, no verdadeiro sentido da palavra. Quando sumiram, tudo ficou para Jerry, que não podia ser cobrado no nome deles. Felizmente, a comarca já não tinha regras e costumes medievais naquela época, assim como uma minoria de lugares naquele interiorzão esquecido. O juiz estipulou um novo lar para o garoto abandonado. Ele foi adotado com seu Nintendo, brinquedos, bicicleta, raiva e medos. Na adolescência, ele só sabia ler e alguma coisa sobre matemática graças à mãe, mas nunca foi à escola, apenas vagueou pelo bairro e se divertiu muito. Era o final dos anos oitenta. Os anos noventa foram um pesadelo. Seus novos “pais” o colocaram na escola. Jerry nunca foi um saco de pancadas, apesar de sua falta de sociabilidade, por causa de sua condição física. Mas, em uma cidade pequena, ele teve que estudar com crianças pequenas, desde o início. Mesmo que isso fosse mais humilhante ainda, ele reabriu a bicicletaria e jurou honrar todas as dívidas. As pessoas do entorno começaram a apadrinhá-lo, por causa de seus esforços. Uma criança com senso de dever. Ou um tolo que pensa que o sistema feudal ainda é legal. Depende do ponto de vista. Quando ele acabou de se tornar independente, depois de anos de lucro zero, apenas pagando as dívidas e tendo o básico para se alimentar, o banco fez uma bagunça com sua conta. Um erro de sistema, eles alegaram. Bem, tudo bem, mas eles não corrigiram o erro, e até, sutilmente, tentaram culpar Jerry pela desistência. Ele quase desistiu e fechou as portas. Então, em uma espécie de milagre, ele viu uma carta debaixo de seus cobertores. Sua mãe – sua mãe biológica – lhe enviou uma carta. Rosa, que o adotara, não consegue disfarçar o ciúme, mas colocou a carta na cama dele escrupulosamente. Maria estava morando na estrada. Ela apenas relata banalidades que soam e cheiram como a chegada de um zéfiro açucarado em uma fábrica de suor. Essa boa sensação durou algum tempo. Logo depois, ele se tornou amargo e mais irritado do que nunca. Seu pai apenas diz um oi. Eles viajam pelo país fazendo biscates e viraram as costas por anos. Eles que se fodam. Ele voltou a trabalhar e trabalhou duro. O banco, finalmente, liberou seu dinheiro com um bônus, para evitar problemas legais. Hoje Jerry é um exemplo de cidadão de bem. Seus ray-bans e bigode tornaram-se o rosto do terror para os hippies da cidade. Como PM, ganhou todo o respeito que sempre julgou merecer.

Daniel Souza Luz é professor, escritor, jornalista e revisor


Mural em homenagem a Jerry Garcia, do Grateful Dead, pintado por Claire Bain em 1999 no The Warfield Theater, em San Francisco, Califórnia. Foto tirada por Franco Folini em 15 de agosto de 2012, postei aqui via licença Creative Commons. 





Monday, April 11, 2022

Parque Industrial, de Pagu (resenha)

Esta resenha foi publicada na página oito do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em nove de abril de 2022. Eu mesmo revisei o texto e incluí uma informação na última frase, aqui neste blog, a qual não consta na publicação do jornal, para fins de maior clareza: a de que é uma pena que Pagu não tenha escrito mais romances, pois foram poucos, mas ela escreveu muitos artigos na imprensa, contos, uma autobiografia e um livro de ensaios político-ideológicos. Também corrigi erros de concordância verbal e nominal que deixei passar na publicação no jornal. 

Patrícia Rehder Galvão, a Pagu, nasceu na vizinha São João da Boa Vista. No entanto, foi uma verdadeira cidadã do mundo: mais do que cosmopolita, teve uma vida de aventuras e uma militância política que lhe valeu torturas inomináveis na mão da polícia política do ditador Getúlio Vargas. A primeira vez que li a respeito dela não foi na escola, mas sim na revista de HQs underground Chiclete com Banana, do quadrinista Angeli, quando ainda era adolescente: ela foi também uma das pioneiras dos quadrinhos no Brasil, com os personagens Malakabeça, Fanika e Kbelluda. No artigo sobre a HQ dela também se mencionavam as viagens para o exterior, o trabalho como jornalista que a levou entrevistar Sigmund Freud e as sementes de soja que trouxe para o país, introduzindo esse cultivo no país. Essa história de vida impressionante proporcionou-lhe experiência suficiente para escrever Parque Industrial ainda muito jovem, aos 21 anos. No começo deste ano a Companhia das Letras o relançou, devido às comemorações do centenário da Semana de Arte Moderna de 1922 – Pagu foi musa dos modernistas. Agora é um momento mais apropriado para escrever a respeito, sem Ruy Castro poluindo o debate a respeito do modernismo com discussões bizantinas. Esta edição de Parque Industrial manteve o prefácio de 1994, escrito por Geraldo Galvão Ferraz. Notei que já o havia lido; com certeza foi reproduzido à época em algum caderno cultural dos grandes jornais brasileiros, que eu lia avidamente – deixando os livros de lado, desgraçadamente. Se eu os lesse, saberia que Galvão estava, em parte, equivocado: o panfletarismo da obra, um defeito comum na arte, é neste caso uma qualidade e não uma mácula. Afinal, trata-se explicitamente de um romance proletário. A trama captura a atmosfera do Brás, bairro operário de São Paulo, na virada dos anos 1920 para 1930, registrando amores, a luta por melhores condições de trabalho, as contradições decorrentes disso e incursões na vida burguesa de bairros mais aquinhoados. Pagu tece uma colha de retalhos bem urdida que entrelaça habilmente os destinos de personagens de origens muito variadas. Os defeitos do livro são muito outros: embora a linguagem seja moderna até hoje, com frases curtas e precisas, há uma profusão de personagens que exigem muito a atenção do leitor para que se lembre quem é quem, pois a profundeza psicológica deles e suas características não são bem trabalhadas – ou seja, uma característica de um romance realista do século 19, especificamente O Cortiço, de Aluísio Azevedo. Há certo esquematismo que leva a algumas falhas de lógica interna: num mundo sem celulares e com telefones inacessíveis à população explorada, uma operária que estava em casa já sabe da demissão de outra e até já lhe arrumou emprego antes que ela saísse da fábrica. O panfletarismo, às vezes até moralista, embora a autora e personagens critiquem a moral burguesa, só pesa a mão no capítulo Paredes Isolantes e ao final. Ainda assim, não é nada ingênuo, como afirma Galvão: os exploradores são também predadores sexuais, salvando-se o personagem Alfredo, inspirado em Oswald de Andrade, e há descrições cruas de estupros. Aliás, é muito difícil escrever sobre sexo sem cair na vulgaridade risível e Pagu o faz muito bem ao retratar relações consensuais. É uma pena que ela não tenha escrito muito mais romances, pois além desse, publicado com o pseudônimo de Mara Lobo, há apenas mais um, feito em parceria com Geraldo Ferraz.

Daniel Souza Luz é professor, jornalista, escritor e revisor





Tuesday, April 05, 2022

Longe das Aldeias, de Robertson Frizero (resenha)

Esta resenha foi publicada na página oito do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em dois de abril de 2022. O texto foi revisado por mim mesmo, no afogadilho, então talvez precise de correções posteriormente.  

Este livro é de 2015 e foi lançado pela editora Dublinense; no entanto, foi relançado no fim de 2021 e distribuído como brinde no clube de assinaturas TAG também no final do ano passado. Frizero é um escritor gaúcho que talvez seja apresentado a um público maior devido a isso. Tomara, a se julgar por essa obra. Longe das Aldeias é um romance, como destacado na capa, e é curtíssimo. Ou, talvez, devido a isso, uma novela. De qualquer forma, categorizações à parte, é um primor de concisão que traz uma história sufocante cuja intensidade é ressaltada no corte preciso. A trama revela-se aos poucos. Temos uma família de emigrados que vive no Brasil; isso é óbvio, mas não é dito em momento algum em que lugar estão. Apenas sabe-se que atravessaram o oceano para viver num país tropical, daí o porquê do batismo do livro, mas é fácil depreender que vivem entre brasileiros pelos nomes e rumos dos namorados de uma das personagens centrais. De onde vieram e quando também é impreciso, porém, também é possível inferir que se trata da Europa. Trata-se de algum lugar destruído por uma guerra no qual a intolerância religiosa levou a um genocídio. Seriam judeus à época da Segunda Guerra Mundial ou mulçumanos quando da fragmentação da antiga Iugoslávia seguida das cruentas guerras subsequentes? Só se sabe que seus inimigos são cristãos. De qualquer forma, os horrores, se não os mesmos, são sempre incomensuráveis e quase incompreensíveis, dado que religiões em geral pregam a congregação entre os homens, mas, obviamente, suas estruturas verticalizadas favorecem o autoritarismo e o ódio a quem é diferente. Da família, sabe-se que duas irmãs aportaram na nova terra, uma delas com o filho recém-nascido, Emanuel. O fio condutor é tecido por ele, que tenta entender quem é a figura fantasmagórica do pai, Josif, e como os demais parentes pereceram. A mãe, Marija, tem uma doença debilitante e a progressiva perda de contato com a realidade leva-a com frequência a alucinar com o passado e a guerra. Ela e irmã, Mirna, jamais contaram em detalhes o que aconteceu, embora cultuem a memória da família. Resta a Emanuel, que vai estudar História na faculdade, juntar pontas soltas dos relatos da progenitora e da tia com a leitura de livros sobre a política bélica de terra arrasada. O leitor experimentado logo adivinha quem é o pai e como Emanuel foi concebido – ele só não percebe logo por que é muito jovem e é um terror difícil de ser encarado, embora ele o intua. Isso, no entanto, em momento algum ofusca o impacto da história. A mãe é aparentemente uma figura opressiva, mas tanto o protagonista quanto o leitor vão compreendendo suas razões e as intricadas mentiras que construiu. Plasmando o rebento a seus inimigos e mesmo à religião deles, embora não abandonando a sua, ela recobra a humanidade. Há muito lirismo em meio à brutalidade, o pendor poético do autor não vem à tona apenas nos poemas que ele concebeu como se fossem de Emanuel, que os lê para a mãe adoentada. A narrativa, portanto, não é seca, mas sim adornada com passagens sutis que jamais edulcoram nada, apenas lembram-nos que certa fantasia é o que tornam o intolerável algo suportável, dando algum sentido à vida.       

Daniel Souza Luz é professor, jornalista, escritor e revisor



Monday, March 28, 2022

30 Artistas LGBTQ+ Incríveis, de Débora Thomé (resenha)

Esta resenha foi publicada na página 10 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 26 de março de 2022. O texto foi revisado pela Juliana Gandra.

Este livro é destinado para adolescentes, mas deveria ser lido por adultos. Veio como acompanhamento do romance O Parque das Irmãs Magníficas, escrito pela argentina Camila Sosa Villada, uma mulher trans, distribuído neste mês pelo clube de livros TAG. Provavelmente, por isso, vai acabar sendo mais lido por adultos mesmo, que talvez os repassem para leitores mais jovens, seu público-alvo. O ideal seria é que esses passassem para seus pais: minha geração, agora se aproximando dos cinquenta anos ou com um pouco mais do que isso, permanece agressivamente homofóbica e transfóbica – como eu também fui na juventude. Em geral, usam a desculpa clichê do “mimimi” e justificam seus preconceitos abjetos dizendo que aceitam ser alvos de piadas por serem loiras ou baixinhos como se essas características lhe trouxessem dificuldades de sobrevivência. É patético, no mínimo, e quem sabe a leitura de uma obra como essa lhes trouxesse ao menos alguma empatia e menos ignorância. É um painel limitado, como a autora reconhece, mas, mesmo assim, trouxe surpresas até mesmo para ela e o organizador, Richarlls Martins, o que dirá então para mim. Não apenas por trazer figuras menos conhecidas, como a transformista Gisberta e a rapper Katú Mirim, mas por falar sobre a sexualidade de pessoas muito conhecidas e que eu não fazia a menor ideia de que tinham saído do armário, caso do ator Marco Nanini e da jornalista Leilane Neubarth (ou seja, nem todos os perfilados são artistas). Ótimo sinal, aliás: significa que a mídia em geral não faz mais escândalos com o assunto, a exemplo das sensacionalistas e medíocres revistas de fofoca que eu folheava quando era criança e nas quais alguém era sempre acusado (não há outro termo para aquilo) de ser gay. Uma revelação impressionante que o livro traz, ao menos para mim, é que João do Rio era homossexual e negro. Já tendo devorado um livro dele, visto uma peça escrita por ele e lido inúmeros artigos a respeito do famoso autor carioca, fico impressionado como esses dois dados sempre foram omitidos. Grave sinal de como os apagamentos ainda vicejam por aí. Por essas e outras que este livro é muito bem-vindo às estantes de leitores de qualquer idade, sendo uma leitura ágil, com muita informação bem pesquisada e atraente para todos os públicos: há artigos desde divas pop como Pablo Vittar e Ludmilla, passando por intelectuais ativistas como Luiz Mott e João Silvério Trevisan, até João W. Nery, o primeiro homem trans do Brasil, também escritor. Ou seja, é uma obra que cumpre exemplarmente seus objetivos e até os ultrapassa.

Daniel Souza Luz é escritor, professor, jornalista e revisor






Wednesday, March 23, 2022

Na Natureza Selvagem, de Jon Krakauer (resenha)

Esta resenha foi publicada na página oito do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 19 de março de 2022. É uma versão atualizada da que escrevi para o Good Reads em 2019; eu mesmo revisei o texto, o que pode significar que deixei passei erros, devido ao olhar já estar viciado. 

Como a maioria das pessoas, creio, descobri a existência do livro após assistir ao filme homônimo. Há treze anos estava em casa num final de semana, doente, decidi não sair e liguei a TV. Estava passando por acaso, vi que era dirigido pelo Sean Penn, decidi assistir. A história de Chris McCandless era fascinante e desesperadora. Com o passar dos anos notei que muitos amigos adoram a história e a trilha sonora, composta por Eddie Vedder, o vocalista do Pearl Jam. Peguei o livro emprestado em 2013 e por uma série de circunstâncias desfavoráveis o devolvi após ler apenas os dois primeiros capítulos, mas ele não me saiu da cabeça. Há três anos o peguei emprestado novamente com uma amiga e finalmente pude me embrenhar nele. Li um capítulo por dia, pacientemente. Dava muita vontade de devorá-lo de uma vez, mas decidi me conter, para memorizar melhor a saga de McCandless - ou Alex Supertramp, tal qual ele decidiu chamar-se. Embora o filme seja ótimo, o livro, como é praxe, é muito superior. Além dos passos de McCandless o autor também destrincha o de outros exploradores modernos, estabelecendo comparações esclarecedores. Krakauer entende profundamente do assunto, é um jornalista especializado no tema e com experiência na área - também quase pereceu no Alasca, portanto traça paralelos com sua vivência pessoal. Por mais que ele tenha conhecimento técnico e o demonstre, em nenhum momento isso torna a leitura árdua. Em suma, um excelente livro-reportagem. O único senão para mim é a Companhia das Letras, uma ótima editora, manter o livro na ortografia anterior a que está em vigor e ainda não corrigir uns pequenos errinhos de revisão. A Cia. das Letras mantém a edição tal como era em 1998, quando teve o insight de adquirir os direitos de publicação no Brasil, e o exemplar que li é de uma reimpressão de 2015, ainda constando como primeira edição, sem qualquer correção. Em 2018 saiu uma nova edição, mas muito parecida com a anterior, ao menos visualmente; espero que a ortografia tenha sido atualizada e os erros corrigidos. Se não for o caso, este ano eles têm uma boa oportunidade para o fazê-lo, devido a uma efeméride: em agosto fará trinta anos que Christopher McCandless morreu no tristemente notório ônibus escolar perdido no remoto Alasca.

Daniel Souza Luz é escritor, professor, jornalista e revisor



Monday, March 14, 2022

A Bagagem do Viajante, de José Saramago (resenha)

Esta resenha foi publicada no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 12 de março de 2022. É uma versão reescrita da crítica que escrevi originalmente no Good Reads em 2019; vali-me dela para lembrar que neste ano será comemorado o centenário de nascimento de Saramago. Eu mesmo revisei o texto, ou seja, talvez algum dia ele precise que outra pessoa o revise para identificar erros que meu olhar já cansado não percebeu.    

Em 16 de novembro deste ano comemorar-se-ão os cem anos do grande escritor português José Saramago, o único ganhador do Prêmio Nobel de Literatura que escreveu em língua portuguesa. Ele venceu a premiação em 1998 e faleceu em 2010, autoexilado na ilha espanhola de Lanzarote. Comunista e pouco afeito a convenções, ele não se conformou com a censura política do governo português, em 1992, ao seu livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo, lançado no ano anterior. É de se imaginar que seu centenário ensejará a republicação de sua vasta obra e até mesmo de inéditos, embora até aqui não tenha visto nada neste sentido. Seria de bom alvitre, pois sua gramática própria e difícil, que engendrou um estilo personalíssimo inconfundível, com certeza afastou leitores jovens quando ele estava vivo – recordo-me até de uma reportagem da revista Trip que afirmava que a juventude portuguesa à época não o lia, preferindo António Lobo Antunes, autor de Os Cus de Judas, também tido em alta conta pela crítica especializada. Agora seria uma ótima oportunidade de redescobri-lo. Meu primeiro contato com a obra de Saramago não foi muito proveitoso, por exemplo. Conforme lia este livro de crônicas, que foi presente de uma amiga, dei-me conta de que já havia começado a lê-lo em 1996, quando o comprei numa livraria no campus da Unesp em Bauru, esperançoso de ter uma ótima leitura, dada a reputação do Saramago. Mas detestei-o e o deixei de lado. Não guardei na memória o título e como ele foi relançado com uma capa diferente, nem de longe tão bonita quanto à da edição lançada nos anos noventa, não percebi, a princípio, que se tratava do mesmo livro. Lendo-o agora, tendo mais paciência, devido à idade, notei que não é tão ruim assim. Não fiquei com nenhum ranço do Saramago; naquela década mesmo, ainda jovem, li O Conto da Ilha Desconhecida e achei ótimo. Meu problema com este livro é que a crônica brasileira é ótima, uma tradição que provavelmente é inigualável. Saramago tem a mão pesada demais para o gênero; pesadíssima, aliás. Ele diz que tem um tom "doce-amargo" nas suas crônicas; balela, são apenas amargas mesmo e, principalmente, maçantes. Há algumas lindíssimas (A minha subida ao Evereste, As terras, Os portões que dão para onde?) e lê-se o livro na expectativa que se repitam outros momentos sublimes como estes em meio a tantos queixumes chatíssimos, mas eles não vêm, simplesmente não vêm. Felizmente, valeu a pena chegar ao fim: a última, A perfeita viagem, é tão inspirada quanto aquelas que me encantaram.

Daniel Souza Luz é jornalista, escritor, professor e revisor

A capa da edição brasileira dos anos 1990 de A Bagagem do Viajante, a qual menciono no texto como sendo mais bonita do que a reedição. 




Wednesday, March 09, 2022

Cursinho comunitário Educafro prorroga inscrições para a turma de 2022

Distribuí este release para a imprensa local em quatro de março de 2022.

O cursinho pré-vestibular comunitário Educafro em Poços de Caldas prorrogou suas inscrições para a turma de 2022. Devido às dificuldades dos candidatos com o formulário online, será feita mais uma semana de inscrição, mas desta vez presencial. Portanto, os interessados podem se dirigir até a sala 22 do IFSuldeminas, das 19:00 às 22:00, de 07/03 a 11/03, ou seja, de segunda a sexta-feira da semana que vem. Os documentos necessários para efetivar a inscrição são comprovantes de renda familiar (cópias de holerites, por exemplo) e uma foto 3x4. O IFSuldeminas está localizado à Avenida Dirce Pereira Rosa, 300, bairro Jardim Esperança. Também é obrigatório que o candidato apresente comprovante de pelo menos duas doses de vacinação contra a Covid-19 e que use máscara na sala de aula.

Neste ano as aulas voltarão a ser presenciais, em uma sala cedida pelo campus local do Instituto Federal do Sul do Minas (IFSuldeminas), na Zona Sul, após terem sido feitas de forma remota durante todo o ano passado. As inscrições são gratuitas e mesmo as de forma online permanece aberta até este domingo, dia 06/03, através de formulário disponibilizado na página Educafro Poços de Caldas no Facebook.

As aulas, portanto, foram postergadas e terão início em 14/03. A aula inaugural será ministrada por Maria José de Souza, a professora Tita. O curso é destinado a estudantes de baixa renda provenientes do ensino médio da escola pública ou com bolsa integral em escolas particulares. A seleção será feita em 14/03, seguindo não só critérios socioeconômicos, mas também étnicos e de idade; ou seja, ser negro, indígena e/ou estar há mais tempo longe das salas de aula conta para ser selecionado prioritariamente, pois o curso tem caráter inclusivo. Outras minorias tradicionalmente alijadas do mercado de trabalho e com dificuldades para ingressar no mundo acadêmico, como pessoas com deficiência ou a população LGBTQIA+, também têm prioridade. Apesar de ser formalmente ligado aos franciscanos, o curso é laico, não sendo a religião, ou mesmo a ausência dela, critério para a seleção. Todos os professores e coordenadores são voluntários.

 O Educafro é um movimento social que atua em rede; foi fundado pelo Frei David Santos na Baixada Fluminense, no município carioca de São João do Meriti, em 1993. Por isso o cursinho possui, em sua grade, a disciplina Cultura e Cidadania, na qual são abordadas questões sociais como identidade de gênero, racismo, homofobia, transfobia, sexismo, capacitismo, direitos reprodutivos e outras temáticas relativas aos Direitos Humanos. O núcleo do Educafro em Poços funciona desde 2003 e chama-se Laudelina de Campos Melo, batizado em homenagem à poços-caldense que foi a fundadora do primeiro Sindicato de Domésticas do Brasil.

Caso o candidato seja aprovado na seleção, há uma colaboração anual de R$ 50,00, que pode ser paga a qualquer momento e é usada para manutenção do curso e materiais para os alunos. Não são cobradas mensalidades. Mais informações sobre o voluntariado ou as inscrições podem ser obtidas por mensagem de Whatsapp ou ligação para 98838-9741 (José Mário) ou 98803-3526 (Tiago). Além disso, o e-mail pocos.educafro@gmail.com ou a página no Facebook: Educafro – Poços de Caldas também estão disponíveis para dirimir dúvidas.

Texto: Daniel Souza Luz

Revisão: Juliana Gandra              

Foto: Diogo Lira

Arte do flyer virtual: Ricardo Senegal





Monday, March 07, 2022

Candyman, de Clive Barker (resenha)

Esta resenha foi publicada originalmente no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em cinco de março de 2022. O texto não passou por nenhum tipo de revisão; notei ao relê-lo que há muitas orações intercaladas longas e tortuosas, portanto, talvez o reescreva algum dia.  

Clive Barker é um nome muito conhecido entre os fãs de terror devido, primariamente, à série de filmes Hellraiser, baseada no seu livro Hellbound. Candyman é um conto da mesma época deste livro; ambos são de meados dos anos 1980. Foi publicado no Brasil, oportunamente, pela Darkside Books em um livro que conta com um ótimo posfácio do jornalista Carlos Primatti. Lançado em uma coletânea, a escolha deste formato, publicado individualmente, deve-se provavelmente à recente adaptação cinematográfica dirigida por Nia DaCosta, lançada no ano passado, e surpreendentemente roteirizada pelo genial Jordan Peele, conhecido por ser um humorista ácido. Uma série de três filmes já havia sido produzida nos anos 1990, tomando uma série de liberdades em relação à trama original, conforme explica Primatti. Uma delas, também utilizada na adaptação cinematográfica da HQ Hellblazer, do emblemático John Constantine, personagem criado por Alan Moore, é migrar a história da Grã-Bretanha para os Estados Unidos. Neste caso, o filme Constantine saiu terrivelmente descaracterizado. Não vi nenhum dos Candyman, mas se os diretores foram talentosos, eles tinham um ótimo material em mãos, fácil de adaptar. Barker sempre foi multimídia, desde cedo. Na Unicamp vi um curta-metragem que ele estrelou e dirigiu nos anos 1970; ele dirigiu também longas e clipes; as HQs adaptadas de Hellraiser, feitas por grandes nomes como Ted McKeever e publicadas no Brasil no início dos anos 1990, são as melhores que já vi adaptadas de uma obra cinematográfica, pois não se propõem a recontar a história dos filmes, mas sim levar seus personagens para épocas e situações distintas, pois são seres demoníacos intemporais. Aliás, este é o mesmo expediente de Candyman: embora chamado de demônio no livro, ele não é exatamente isso, assim como também os cenobitas sadomasoquistas do Hellraiser não são diabos da concepção cristã. Suas vítimas não são escolhidas a esmo para ser atormentadas, elas é que os procuram. No caso de Hellraiser, é através de um dispositivo; em Candyman, é a curiosidade mórbida da protagonista Helen Buchanan, acadêmica enfastiada com a arrogância de seus pares e com a indiferença do seu infiel marido, Trevor. Ao duvidar das histórias de massacres e crueldades de Candyman, ela acaba por invocá-lo. Barker é um narrador muito envolvente; no começo parece que estamos diante de um romance policial. Não há nenhuma invocação baseada em clichês como pentagramas; é a busca obcecada da protagonista por histórias que não fazem parte do seu objeto de pesquisa que acabam por levá-la à senda sinistra da qual seria poupada se deixasse de lado os rumores que ouviu. A imprudência de Helen, ao fazer uma pesquisa de campo sobre pichações e grafites num conjunto habitacional abandonado pelo poder público que o inaugurara com pompa três anos antes apenas para vê-lo tomado por heroinômanos e muita pobreza, desde o princípio a põe em situações de risco. A ameaça está sempre presente, mas ela não parece pressenti-la, ao menos não no seu sentido sobrenatural. Barker deve ter sido influenciado por Lovecraft, pelo pouco que li deste: faz descrições precisas e constrói um clima que se revela lentamente, no qual o inefável e o inelutável estão constantemente à espreita.

Daniel Souza Luz é jornalista, professor, escritor e revisor



Friday, March 04, 2022

Amor estranho é que faz o mundo girar

Este miniconto foi publicado na página oito do Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 26 de fevereiro de 2022. É uma versão traduzida e com mudança no foco narrativo de um miniconto que escrevi originalmente em inglês nos idos de 2007. 

Ela estava furiosa com ele. Não importava o que ele dissesse, ela fica mais irritada. Então ele foi embora de vez. Ainda tinha alguns arrependimentos, mas às vezes somos obrigados fazer más escolhas. Dois meses depois de vagar pelo campo, dormindo em bancos e implorando por comida quando suas economias se esgotaram completamente, decidiu voltar para casa. Ela desapareceu. Na cozinha, tomando um café enquanto procurava comida que ainda estava dentro do prazo de validade, ele ligou o noticiário e ouviu falar de uma pitbull que foi morta a tiros após atacar um idoso em uma cidade vizinha. Era ela; sentiu no seu coração.

Daniel Souza Luz é jornalista, escritor, professor e revisor

Foto reproduzida via licença Creative Commons. A original está aqui. 


Saturday, February 26, 2022

Curso pré-vestibular comunitário Educafro abre inscrições para a turma de 2022

 Este release foi enviado para a imprensa de Poços de Caldas a partir de 18 de fevereiro de 2022.

O cursinho pré-vestibular comunitário Educafro em Poços de Caldas abriu suas inscrições para a turma de 2022. Neste ano as aulas voltarão a ser presenciais, em uma sala cedida pelo campus local do Instituto Federal do Sul do Minas, na Zona Sul, após terem sido feitas de forma remota durante todo o ano passado. As inscrições são gratuitas e estarão abertas do dia 21/02 a 01/03, apenas de forma online, através de formulário que será disponibilizado na página Educafro Poços de Caldas no Facebook.

As aulas terão início em 07/03 e a aula inaugural será ministrada pela professora Tita, como é mais conhecida a ex-vereadora Maria José de Souza, que fez história na educação do município. O curso é destinado a estudantes de baixa renda provenientes do ensino médio da escola pública ou com bolsa integral em escolas particulares. A seleção será feita entre dois e quatro de março, seguindo não só critérios socioeconômicos, mas também étnicos e de idade; ou seja, ser negro e/ou estar há mais tempo longe das salas de aula conta para ser selecionado prioritariamente, pois o curso tem caráter inclusivo. Apesar de ser formalmente ligado aos franciscanos, o curso é laico, não sendo a religião, ou mesmo a ausência dela, critério para a seleção. Todos os professores e coordenadores são voluntários.

 O Educafro é um movimento social que atua em rede; foi fundado pelo Frei David Santos na Baixada Fluminense, no município carioca de São João do Meriti, em 1993. Por isso o cursinho possui, em sua grade, a disciplina Cultura e Cidadania, na qual são abordadas questões sociais como identidade de gênero, racismo, homofobia, transfobia, sexismo, direitos reprodutivos e outras temáticas relativas aos Direitos Humanos. O núcleo do Educafro em Poços funciona desde 2003 e chama-se Laudelina de Campos Melo, batizado em homenagem à poços-caldense que foi a fundadora do primeiro Sindicato de Domésticas do Brasil.

Caso o candidato seja aprovado na seleção, há uma colaboração anual de R$ 50,00, que é usada para manutenção do curso e materiais para os alunos. Não são cobradas mensalidades. Mais informações sobre o voluntariado ou as inscrições podem ser obtidas por mensagem ou ligação para 98838-9741 (José Mário) ou 98803-3526 (Tiago). Além disso, o e-mail pocos.educafro@gmail.com ou a página no Facebook: Educafro – Poços de Caldas também estão disponíveis para sanar dúvidas.

Texto: Daniel Souza Luz

Revisão: Juliana Gandra              

Foto: Diogo Lira

Encontro do Educafro Minas no Centro de Cultura Afro-brasileira Chico Rei, zona oeste de Poços de Caldas/MG, 2016. Foto gentilmente cedida pelo ex-aluno Diogo Lira.


Monday, February 21, 2022

O dia em que conversei com João Gilberto Noll

Este artigo foi publicado originalmente na página nove do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 19 de fevereiro de 2022. O texto foi revisado pela Juliana Gandra. 

Casa da Cultura de Poços de Caldas (ou IMS, se quiserem), meados da primeira década deste século. O escritor gaúcho João Gilberto Noll veio fazer uma palestra. Nunca havia lido nada dele, conhecia-o apenas de ler a respeito nos cadernos culturais dos grandes jornais brasileiros. Sabia que ele era muito estimado pela crítica, foi vencedor várias vezes do prêmio Jabuti. Eu trabalhava numa rádio ridícula, com uma súcia inacreditável e chefes picaretas. Pensei comigo mesmo: pelo menos vou aproveitar o espaço para falar de algo bom e vou lá entrevistá-lo. Mesmo sem ganhar hora-extra e nem nada disso; eu sequer combinava nada com a chefia. Simplesmente fazia e foda-se. Depois eu matava um pouco de serviço para compensar. Na verdade, fiz isso várias vezes, em todas as ocasiões em que algum escritor descia do Olimpo das capitais e vinha visitar o equipamento cultural da provinciana Poços. A entrevista com Noll, no entanto, marcou-me mais do que outras nessas ocasiões. Ele era um erudito e um gentleman. Mencionei na entrevista que me lembrava muito fortemente de uma reportagem sobre ele n’O Globo, na qual era relatado que ele estava vivendo em completo desalento. Isso havia sido em 1991 ou 1992, eu era adolescente e essa imagem de um escritor brasileiro vivendo à beira da miséria e do ostracismo, mesmo que premiado, me foi muito reveladora e marcante. Noll me disse que também se lembrava vivamente da matéria, mas me disse isso havia sido muito tempo atrás e que sua situação melhorara. Dava para imaginar, ele parecia muito elegante no terno em que usava. Talvez não fosse um terno bem cortado, mas como não é um assunto do qual entendo e ele se portava de modo muito cavalheiresco e afável, a imagem que retive foi a de um homem elegante. Eu perdi a fita com essa entrevista; a rádio na qual trabalhava, como já disse, era (e é) uma porcaria, portanto resta apenas minha memória deste encontro e conversa. E o que mais me causou espécie foi a palestra dele. Eu não era o único que não o havia lido ali; a maioria também não. Talvez ninguém. Alguma escola levou muitos alunos adolescentes para assistirem à palestra. É óbvio que isso redundou num desastre. Noll falava com uma voz muito fina, impressionantemente aguda, muito mais do que quando ele conversou comigo. Talvez estivesse muito nervoso por falar em público, embora parecesse muito sereno ao gravar a entrevista. Ele abria a boca para dizer qualquer coisa e o público, desinteressado e naturalmente cruel, devido à faixa etária e ao espírito de manada, mal conseguia disfarçar os risinhos de mofa. Alguns deixavam escapar uma ou outra gargalhada mais alta. E Noll ali na mesa, sério, eventualmente lançava alguns olhares evidentemente preocupados para o público, mas seguia inabalável falando sobre literatura e seu trabalho. Ele faleceu em 2017 e, quando soube da notícia, lembrei-me imediatamente da sua recusa digna a servir de bufão para o deleite de quem o escarnecia.

Daniel Souza Luz é jornalista, escritor, revisor e professor


Capa da edição gringa do romance Harmada, de João Gilberto Noll. 


Monday, February 14, 2022

Luis Fernando Verissimo e os modismos literários

Este artigo foi publicado na página nove do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 12 de fevereiro de 2022. Não passou por revisão; se necessário, depois faço correções. 

Luis Fernando Verissimo é um dos mais populares escritores brasileiros. Isso pode ser inclusive medido pelas falsas citações que são atribuídas a ele na internet, embora isso tenha sido mais comum na época das correntes de e-mail, antes das redes sociais. Ainda que o leitor apaixonado pela literatura seja imune a modismos literários (ou talvez acredite ser), é bem óbvio há modinhas na área que atraem leitores eventuais. Autores entram e saem de voga. Ainda que eu entenda que a melhor produção de Verissimo seja agora, com ele já octogenário, pois suas crônicas no Estadão são impecáveis, parece-me bastante óbvio que ele não tem mais o alcance de antes e a atual geração Z, em geral, não o conhece. No começo do ano resolvi pegar seu famoso O Analista de Bagé na biblioteca da Caldense. Adoro o Verissimo, mas este livro envelheceu mal. Jamais gostei do Analista de Bagé e nem das HQs baseadas no personagem (agora não me lembro se eram feitas pelo Miguel Paiva ou pelo Edgar Vasques), mas relendo até gostei de uma ou outra história com ele. O problema é que tinha a imagem do Verissimo como um humorista refinado, mas parte das crônicas que não são baseadas no personagem-título têm o mesmo espírito das do Analista, ou seja, parecem esquetes, sei lá, dos Trapalhões: são sem graça quando observadas com o olhar de hoje e cheias da misoginia e outros preconceitos que eram naturalizados naquela época. Fosse hoje Verissimo um jovem escritor, como o foi nos anos 1970, quando escreveu parte dos textos compilados no livro, ele já estaria canceladíssimo. Justo ele, velho nome da esquerda que pôs muito a cara para bater no cenário político nacional. Se redescoberto pelas novas gerações Z e alpha, vai levar muita porrada, mesmo que póstumas. Levar ou não em consideração o contexto e o fato que humanos são falhos é algo muito subjetivo, mas é fato que sua popularidade derreteria imediatamente caso subitamente alcançasse outro auge novamente. O livro em si tem também ótimas crônicas, como eu esperava, e algumas levaram-me às gargalhadas, como a segunda parte da Histórias de Bichos (o segmento do papagaio filósofo). Também tem uma boa história que não é uma crônica humorística: Posto 5, que está mais para um conto bastante melancólico. É curioso demais notar as ondas de popularidade do autor: o livro é de 1982 e foi um enorme sucesso, com sucessivas reedições; peguei numa biblioteca e na ficha está marcado que ele foi emprestado com alguma frequência entre 2005 e 2008, época em que o Verissimo teve outro pico de popularidade e foi até capa da Veja. Depois há um hiato de 14 anos no qual ele ficou esquecido, até eu pegá-lo no começo de 2022. Carlos Heitor Cony dizia que o Verissimo (o filho, claro; o pai, Erico, jamais deixará de ser prestigiado por literatos) tenderia a ficar esquecido, a despeito das ondas de sucesso, pois se concentrava em crônicas que tendiam a ficar datadas. Em parte, talvez ele esteja certo, mas há várias aqui que também resistiram e provavelmente resistirão ao implacável teste dos tempos. Quem também estava parcialmente errado a respeito de Verissimo é... o próprio Verissimo. Recordo-me de uma entrevista em que disse que o humor dele provoca no máximo um sorrisinho, jamais as risadas como as proporcionadas por humoristas televisivos. Ledo engano; inúmeras são hilárias.

Daniel Souza Luz é jornalista, escritor, revisor e professor

O dia no qual peguei um autógrafo do Luis Fernando Verissimo. A foto foi gentilmente tirada pela Flávia Fonseca na Feira do Livro de Poços de Caldas, em 2009.


Monday, February 07, 2022

O Estranho no Corredor, de Chico Lopes (resenha)

Esta resenha foi publicada no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em cinco de fevereiro de 2022. O texto não passou por revisão; se necessário, posteriormente faço correções.

Este romance curto – ou novela, dependendo do ponto de vista – de Chico Lopes foi lançado em 2011 e trouxe-lhe certa consagração no cenário da literatura brasileira ao conquistar o terceiro lugar como melhor romance no Prêmio Jabuti em 2012. O escritor, natural de Novo Horizonte, morava em Poços de Caldas quando o escreveu, mas à época da premiação mudou-se para Brotas. De volta a Poços há alguns anos, foi agraciado recentemente com inúmeros exemplares da primeira edição de O Estranho no Corredor pela Editora 34. Ele está aproveitando para divulgá-lo mais; sorteou dez exemplares no lançamento do meu segundo livro/plaquete Zênite, em dezembro de 2021, por exemplo. Quem é daqui e se interessa por literatura de alto nível deveria, no meu entender, aproveitar a oportunidade para contatar o autor pessoalmente e adquirir um exemplar por valor mais em conta, o que é importante nestes tempos bicudos, antes que se esgotem. E que se preparem para uma leitura desafiadora, que exige elaboração e introspecção. É um mergulho fundo na psique do protagonista, um jovem professor de inglês interiorano e literato que se muda para a capital. Sua cidadezinha é indicada apenas pela inicial (V.) e a metrópole também é indistinta. Ele sente-se inadequado em ambas; esperançoso de sair da cidade natal, onde é um órfão sufocado pela personalidade castradora da tia, e ver materializada suas veleidades literárias na cidade grande, ele toma consciência não só da sua insignificância, que até almeja, para não ser notado e ferido por olhares enviesados, como principalmente da sua pusilanimidade. Mal reage a isso e quando reage, reage mal. Pudera: é uma trama que destaca a masculinidade tóxica. A virilidade, o corpanzil e o tamanho do pênis daqueles que ele elege como rivais e que mal o notam são ressaltados com frequência ao longo da história. O protagonista sente-se tão emasculado, com exceção de uns poucos momentos de euforia no qual se esquece que é franzino, que não tem nem bem um nome: para o único amigo na capital, Russo, um vagabundo misógino de bar que conhece numa situação homoerótica que este trata como piada, ele é o Teacher; em V. ele é o Paiva para desqualificados ainda piores, sem a compaixão de Russo – isso o humilha ainda mais, pois é o sobrenome do pai alcóolatra e bufão que o estigmatiza. Neste episódio também fica patente algo que ao longo de todo o livro se pode intuir, tendo um personagem tão ensimesmado: ele também era vítima de bullying. Suas poucas relações, sejam sexuais, sejam de amizade, não permanecem – nem mesmo com Carla, a única com a qual o sexo não é repulsivo. Tudo é borrado e até mesmo o tempo em que a trama se passa é indistinto: pelas referências a academias com música alta, ao A-Ha e a cinemas fechados, bem como a falta de celulares e da internet, supõe-se que se passe entre o fim da década de 1980 e o começo dos anos 2000; no entanto, as citações constantes de estrelas da era de ouro de Hollywood, da orquestra de Billy Vaughan ou ao famoso “footing” de outrora remete aos anos 1950 e 1960. Não é à toa que o protagonista procura sua identidade e não e encontra. Não bastasse isso, é inexplicavelmente perseguido por um homem forte e fantasmagórico; é como se fosse sua sombra no conceito junguiano. Isso, sabiamente, fica em aberto para várias interpretações.

Daniel Souza Luz é jornalista, escritor, professor e revisor