Monday, March 07, 2022

Candyman, de Clive Barker (resenha)

Esta resenha foi publicada originalmente no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em cinco de março de 2022. O texto não passou por nenhum tipo de revisão; notei ao relê-lo que há muitas orações intercaladas longas e tortuosas, portanto, talvez o reescreva algum dia.  

Clive Barker é um nome muito conhecido entre os fãs de terror devido, primariamente, à série de filmes Hellraiser, baseada no seu livro Hellbound. Candyman é um conto da mesma época deste livro; ambos são de meados dos anos 1980. Foi publicado no Brasil, oportunamente, pela Darkside Books em um livro que conta com um ótimo posfácio do jornalista Carlos Primatti. Lançado em uma coletânea, a escolha deste formato, publicado individualmente, deve-se provavelmente à recente adaptação cinematográfica dirigida por Nia DaCosta, lançada no ano passado, e surpreendentemente roteirizada pelo genial Jordan Peele, conhecido por ser um humorista ácido. Uma série de três filmes já havia sido produzida nos anos 1990, tomando uma série de liberdades em relação à trama original, conforme explica Primatti. Uma delas, também utilizada na adaptação cinematográfica da HQ Hellblazer, do emblemático John Constantine, personagem criado por Alan Moore, é migrar a história da Grã-Bretanha para os Estados Unidos. Neste caso, o filme Constantine saiu terrivelmente descaracterizado. Não vi nenhum dos Candyman, mas se os diretores foram talentosos, eles tinham um ótimo material em mãos, fácil de adaptar. Barker sempre foi multimídia, desde cedo. Na Unicamp vi um curta-metragem que ele estrelou e dirigiu nos anos 1970; ele dirigiu também longas e clipes; as HQs adaptadas de Hellraiser, feitas por grandes nomes como Ted McKeever e publicadas no Brasil no início dos anos 1990, são as melhores que já vi adaptadas de uma obra cinematográfica, pois não se propõem a recontar a história dos filmes, mas sim levar seus personagens para épocas e situações distintas, pois são seres demoníacos intemporais. Aliás, este é o mesmo expediente de Candyman: embora chamado de demônio no livro, ele não é exatamente isso, assim como também os cenobitas sadomasoquistas do Hellraiser não são diabos da concepção cristã. Suas vítimas não são escolhidas a esmo para ser atormentadas, elas é que os procuram. No caso de Hellraiser, é através de um dispositivo; em Candyman, é a curiosidade mórbida da protagonista Helen Buchanan, acadêmica enfastiada com a arrogância de seus pares e com a indiferença do seu infiel marido, Trevor. Ao duvidar das histórias de massacres e crueldades de Candyman, ela acaba por invocá-lo. Barker é um narrador muito envolvente; no começo parece que estamos diante de um romance policial. Não há nenhuma invocação baseada em clichês como pentagramas; é a busca obcecada da protagonista por histórias que não fazem parte do seu objeto de pesquisa que acabam por levá-la à senda sinistra da qual seria poupada se deixasse de lado os rumores que ouviu. A imprudência de Helen, ao fazer uma pesquisa de campo sobre pichações e grafites num conjunto habitacional abandonado pelo poder público que o inaugurara com pompa três anos antes apenas para vê-lo tomado por heroinômanos e muita pobreza, desde o princípio a põe em situações de risco. A ameaça está sempre presente, mas ela não parece pressenti-la, ao menos não no seu sentido sobrenatural. Barker deve ter sido influenciado por Lovecraft, pelo pouco que li deste: faz descrições precisas e constrói um clima que se revela lentamente, no qual o inefável e o inelutável estão constantemente à espreita.

Daniel Souza Luz é jornalista, professor, escritor e revisor



Friday, March 04, 2022

Amor estranho é que faz o mundo girar

Este miniconto foi publicado na página oito do Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 26 de fevereiro de 2022. É uma versão traduzida e com mudança no foco narrativo de um miniconto que escrevi originalmente em inglês nos idos de 2007. 

Ela estava furiosa com ele. Não importava o que ele dissesse, ela fica mais irritada. Então ele foi embora de vez. Ainda tinha alguns arrependimentos, mas às vezes somos obrigados fazer más escolhas. Dois meses depois de vagar pelo campo, dormindo em bancos e implorando por comida quando suas economias se esgotaram completamente, decidiu voltar para casa. Ela desapareceu. Na cozinha, tomando um café enquanto procurava comida que ainda estava dentro do prazo de validade, ele ligou o noticiário e ouviu falar de uma pitbull que foi morta a tiros após atacar um idoso em uma cidade vizinha. Era ela; sentiu no seu coração.

Daniel Souza Luz é jornalista, escritor, professor e revisor

Foto reproduzida via licença Creative Commons. A original está aqui. 


Saturday, February 26, 2022

Curso pré-vestibular comunitário Educafro abre inscrições para a turma de 2022

 Este release foi enviado para a imprensa de Poços de Caldas a partir de 18 de fevereiro de 2022.

O cursinho pré-vestibular comunitário Educafro em Poços de Caldas abriu suas inscrições para a turma de 2022. Neste ano as aulas voltarão a ser presenciais, em uma sala cedida pelo campus local do Instituto Federal do Sul do Minas, na Zona Sul, após terem sido feitas de forma remota durante todo o ano passado. As inscrições são gratuitas e estarão abertas do dia 21/02 a 01/03, apenas de forma online, através de formulário que será disponibilizado na página Educafro Poços de Caldas no Facebook.

As aulas terão início em 07/03 e a aula inaugural será ministrada pela professora Tita, como é mais conhecida a ex-vereadora Maria José de Souza, que fez história na educação do município. O curso é destinado a estudantes de baixa renda provenientes do ensino médio da escola pública ou com bolsa integral em escolas particulares. A seleção será feita entre dois e quatro de março, seguindo não só critérios socioeconômicos, mas também étnicos e de idade; ou seja, ser negro e/ou estar há mais tempo longe das salas de aula conta para ser selecionado prioritariamente, pois o curso tem caráter inclusivo. Apesar de ser formalmente ligado aos franciscanos, o curso é laico, não sendo a religião, ou mesmo a ausência dela, critério para a seleção. Todos os professores e coordenadores são voluntários.

 O Educafro é um movimento social que atua em rede; foi fundado pelo Frei David Santos na Baixada Fluminense, no município carioca de São João do Meriti, em 1993. Por isso o cursinho possui, em sua grade, a disciplina Cultura e Cidadania, na qual são abordadas questões sociais como identidade de gênero, racismo, homofobia, transfobia, sexismo, direitos reprodutivos e outras temáticas relativas aos Direitos Humanos. O núcleo do Educafro em Poços funciona desde 2003 e chama-se Laudelina de Campos Melo, batizado em homenagem à poços-caldense que foi a fundadora do primeiro Sindicato de Domésticas do Brasil.

Caso o candidato seja aprovado na seleção, há uma colaboração anual de R$ 50,00, que é usada para manutenção do curso e materiais para os alunos. Não são cobradas mensalidades. Mais informações sobre o voluntariado ou as inscrições podem ser obtidas por mensagem ou ligação para 98838-9741 (José Mário) ou 98803-3526 (Tiago). Além disso, o e-mail pocos.educafro@gmail.com ou a página no Facebook: Educafro – Poços de Caldas também estão disponíveis para sanar dúvidas.

Texto: Daniel Souza Luz

Revisão: Juliana Gandra              

Foto: Diogo Lira

Encontro do Educafro Minas no Centro de Cultura Afro-brasileira Chico Rei, zona oeste de Poços de Caldas/MG, 2016. Foto gentilmente cedida pelo ex-aluno Diogo Lira.


Monday, February 21, 2022

O dia em que conversei com João Gilberto Noll

Este artigo foi publicado originalmente na página nove do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 19 de fevereiro de 2022. O texto foi revisado pela Juliana Gandra. 

Casa da Cultura de Poços de Caldas (ou IMS, se quiserem), meados da primeira década deste século. O escritor gaúcho João Gilberto Noll veio fazer uma palestra. Nunca havia lido nada dele, conhecia-o apenas de ler a respeito nos cadernos culturais dos grandes jornais brasileiros. Sabia que ele era muito estimado pela crítica, foi vencedor várias vezes do prêmio Jabuti. Eu trabalhava numa rádio ridícula, com uma súcia inacreditável e chefes picaretas. Pensei comigo mesmo: pelo menos vou aproveitar o espaço para falar de algo bom e vou lá entrevistá-lo. Mesmo sem ganhar hora-extra e nem nada disso; eu sequer combinava nada com a chefia. Simplesmente fazia e foda-se. Depois eu matava um pouco de serviço para compensar. Na verdade, fiz isso várias vezes, em todas as ocasiões em que algum escritor descia do Olimpo das capitais e vinha visitar o equipamento cultural da provinciana Poços. A entrevista com Noll, no entanto, marcou-me mais do que outras nessas ocasiões. Ele era um erudito e um gentleman. Mencionei na entrevista que me lembrava muito fortemente de uma reportagem sobre ele n’O Globo, na qual era relatado que ele estava vivendo em completo desalento. Isso havia sido em 1991 ou 1992, eu era adolescente e essa imagem de um escritor brasileiro vivendo à beira da miséria e do ostracismo, mesmo que premiado, me foi muito reveladora e marcante. Noll me disse que também se lembrava vivamente da matéria, mas me disse isso havia sido muito tempo atrás e que sua situação melhorara. Dava para imaginar, ele parecia muito elegante no terno em que usava. Talvez não fosse um terno bem cortado, mas como não é um assunto do qual entendo e ele se portava de modo muito cavalheiresco e afável, a imagem que retive foi a de um homem elegante. Eu perdi a fita com essa entrevista; a rádio na qual trabalhava, como já disse, era (e é) uma porcaria, portanto resta apenas minha memória deste encontro e conversa. E o que mais me causou espécie foi a palestra dele. Eu não era o único que não o havia lido ali; a maioria também não. Talvez ninguém. Alguma escola levou muitos alunos adolescentes para assistirem à palestra. É óbvio que isso redundou num desastre. Noll falava com uma voz muito fina, impressionantemente aguda, muito mais do que quando ele conversou comigo. Talvez estivesse muito nervoso por falar em público, embora parecesse muito sereno ao gravar a entrevista. Ele abria a boca para dizer qualquer coisa e o público, desinteressado e naturalmente cruel, devido à faixa etária e ao espírito de manada, mal conseguia disfarçar os risinhos de mofa. Alguns deixavam escapar uma ou outra gargalhada mais alta. E Noll ali na mesa, sério, eventualmente lançava alguns olhares evidentemente preocupados para o público, mas seguia inabalável falando sobre literatura e seu trabalho. Ele faleceu em 2017 e, quando soube da notícia, lembrei-me imediatamente da sua recusa digna a servir de bufão para o deleite de quem o escarnecia.

Daniel Souza Luz é jornalista, escritor, revisor e professor


Capa da edição gringa do romance Harmada, de João Gilberto Noll. 


Monday, February 14, 2022

Luis Fernando Verissimo e os modismos literários

Este artigo foi publicado na página nove do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 12 de fevereiro de 2022. Não passou por revisão; se necessário, depois faço correções. 

Luis Fernando Verissimo é um dos mais populares escritores brasileiros. Isso pode ser inclusive medido pelas falsas citações que são atribuídas a ele na internet, embora isso tenha sido mais comum na época das correntes de e-mail, antes das redes sociais. Ainda que o leitor apaixonado pela literatura seja imune a modismos literários (ou talvez acredite ser), é bem óbvio há modinhas na área que atraem leitores eventuais. Autores entram e saem de voga. Ainda que eu entenda que a melhor produção de Verissimo seja agora, com ele já octogenário, pois suas crônicas no Estadão são impecáveis, parece-me bastante óbvio que ele não tem mais o alcance de antes e a atual geração Z, em geral, não o conhece. No começo do ano resolvi pegar seu famoso O Analista de Bagé na biblioteca da Caldense. Adoro o Verissimo, mas este livro envelheceu mal. Jamais gostei do Analista de Bagé e nem das HQs baseadas no personagem (agora não me lembro se eram feitas pelo Miguel Paiva ou pelo Edgar Vasques), mas relendo até gostei de uma ou outra história com ele. O problema é que tinha a imagem do Verissimo como um humorista refinado, mas parte das crônicas que não são baseadas no personagem-título têm o mesmo espírito das do Analista, ou seja, parecem esquetes, sei lá, dos Trapalhões: são sem graça quando observadas com o olhar de hoje e cheias da misoginia e outros preconceitos que eram naturalizados naquela época. Fosse hoje Verissimo um jovem escritor, como o foi nos anos 1970, quando escreveu parte dos textos compilados no livro, ele já estaria canceladíssimo. Justo ele, velho nome da esquerda que pôs muito a cara para bater no cenário político nacional. Se redescoberto pelas novas gerações Z e alpha, vai levar muita porrada, mesmo que póstumas. Levar ou não em consideração o contexto e o fato que humanos são falhos é algo muito subjetivo, mas é fato que sua popularidade derreteria imediatamente caso subitamente alcançasse outro auge novamente. O livro em si tem também ótimas crônicas, como eu esperava, e algumas levaram-me às gargalhadas, como a segunda parte da Histórias de Bichos (o segmento do papagaio filósofo). Também tem uma boa história que não é uma crônica humorística: Posto 5, que está mais para um conto bastante melancólico. É curioso demais notar as ondas de popularidade do autor: o livro é de 1982 e foi um enorme sucesso, com sucessivas reedições; peguei numa biblioteca e na ficha está marcado que ele foi emprestado com alguma frequência entre 2005 e 2008, época em que o Verissimo teve outro pico de popularidade e foi até capa da Veja. Depois há um hiato de 14 anos no qual ele ficou esquecido, até eu pegá-lo no começo de 2022. Carlos Heitor Cony dizia que o Verissimo (o filho, claro; o pai, Erico, jamais deixará de ser prestigiado por literatos) tenderia a ficar esquecido, a despeito das ondas de sucesso, pois se concentrava em crônicas que tendiam a ficar datadas. Em parte, talvez ele esteja certo, mas há várias aqui que também resistiram e provavelmente resistirão ao implacável teste dos tempos. Quem também estava parcialmente errado a respeito de Verissimo é... o próprio Verissimo. Recordo-me de uma entrevista em que disse que o humor dele provoca no máximo um sorrisinho, jamais as risadas como as proporcionadas por humoristas televisivos. Ledo engano; inúmeras são hilárias.

Daniel Souza Luz é jornalista, escritor, revisor e professor

O dia no qual peguei um autógrafo do Luis Fernando Verissimo. A foto foi gentilmente tirada pela Flávia Fonseca na Feira do Livro de Poços de Caldas, em 2009.


Monday, February 07, 2022

O Estranho no Corredor, de Chico Lopes (resenha)

Esta resenha foi publicada no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em cinco de fevereiro de 2022. O texto não passou por revisão; se necessário, posteriormente faço correções.

Este romance curto – ou novela, dependendo do ponto de vista – de Chico Lopes foi lançado em 2011 e trouxe-lhe certa consagração no cenário da literatura brasileira ao conquistar o terceiro lugar como melhor romance no Prêmio Jabuti em 2012. O escritor, natural de Novo Horizonte, morava em Poços de Caldas quando o escreveu, mas à época da premiação mudou-se para Brotas. De volta a Poços há alguns anos, foi agraciado recentemente com inúmeros exemplares da primeira edição de O Estranho no Corredor pela Editora 34. Ele está aproveitando para divulgá-lo mais; sorteou dez exemplares no lançamento do meu segundo livro/plaquete Zênite, em dezembro de 2021, por exemplo. Quem é daqui e se interessa por literatura de alto nível deveria, no meu entender, aproveitar a oportunidade para contatar o autor pessoalmente e adquirir um exemplar por valor mais em conta, o que é importante nestes tempos bicudos, antes que se esgotem. E que se preparem para uma leitura desafiadora, que exige elaboração e introspecção. É um mergulho fundo na psique do protagonista, um jovem professor de inglês interiorano e literato que se muda para a capital. Sua cidadezinha é indicada apenas pela inicial (V.) e a metrópole também é indistinta. Ele sente-se inadequado em ambas; esperançoso de sair da cidade natal, onde é um órfão sufocado pela personalidade castradora da tia, e ver materializada suas veleidades literárias na cidade grande, ele toma consciência não só da sua insignificância, que até almeja, para não ser notado e ferido por olhares enviesados, como principalmente da sua pusilanimidade. Mal reage a isso e quando reage, reage mal. Pudera: é uma trama que destaca a masculinidade tóxica. A virilidade, o corpanzil e o tamanho do pênis daqueles que ele elege como rivais e que mal o notam são ressaltados com frequência ao longo da história. O protagonista sente-se tão emasculado, com exceção de uns poucos momentos de euforia no qual se esquece que é franzino, que não tem nem bem um nome: para o único amigo na capital, Russo, um vagabundo misógino de bar que conhece numa situação homoerótica que este trata como piada, ele é o Teacher; em V. ele é o Paiva para desqualificados ainda piores, sem a compaixão de Russo – isso o humilha ainda mais, pois é o sobrenome do pai alcóolatra e bufão que o estigmatiza. Neste episódio também fica patente algo que ao longo de todo o livro se pode intuir, tendo um personagem tão ensimesmado: ele também era vítima de bullying. Suas poucas relações, sejam sexuais, sejam de amizade, não permanecem – nem mesmo com Carla, a única com a qual o sexo não é repulsivo. Tudo é borrado e até mesmo o tempo em que a trama se passa é indistinto: pelas referências a academias com música alta, ao A-Ha e a cinemas fechados, bem como a falta de celulares e da internet, supõe-se que se passe entre o fim da década de 1980 e o começo dos anos 2000; no entanto, as citações constantes de estrelas da era de ouro de Hollywood, da orquestra de Billy Vaughan ou ao famoso “footing” de outrora remete aos anos 1950 e 1960. Não é à toa que o protagonista procura sua identidade e não e encontra. Não bastasse isso, é inexplicavelmente perseguido por um homem forte e fantasmagórico; é como se fosse sua sombra no conceito junguiano. Isso, sabiamente, fica em aberto para várias interpretações.

Daniel Souza Luz é jornalista, escritor, professor e revisor 





Monday, January 31, 2022

1984 em 2022

Este artigo saiu na página 8 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 29 de janeiro de 2022. Passou por uma leve revisão do editor do jornal, João Gabriel Pinheiro Chagas. 

A primeira vez que o Jornal da Cidade publicou um texto meu sobre um livro foi em 2012 e foi sobre o 1984, a clássica distopia de George Orwell. Dez anos depois, volto ao tema e, também, a parte daquele texto, pois recentemente passei por uma livraria no centro e fiquei impressionado com a quantidade de reedições do livro. Sabia que em 2021 a obra caiu em domínio público, então várias editoras fizeram a festa. O que me chamou a atenção para isso no ano passado foi quando uma delas enviou uma reedição de luxo deste clássico para uma influencer digital, na esperança dela ler ou falar a respeito, e a pessoa usou o livro de embalagem para dar um telefone para uma parente: ela fez um vídeo em que dá o livro para a criança, que fica decepcionada, mas ao abrir o luxuoso livro a garota descobre que foi feito um buraco no meio das páginas e nele se escondeu um celular novo. Isso é tão representativo dos instrumentos de controle social que Orwell criticava que é uma boa alegoria: essa editora só publica livros de autoajuda e porcarias semelhantes. Recuso-me até a escrever o nome dessa casa editorial: má publicidade é boa publicidade para esses abutres. A questão é: para o neófito ou para quem quer reler, qual dessas edições que vale a pena? Quase todas procuram se destacar através de conteúdo extra, como ilustrações e acabamento refinado. Lembro que o que interessa é o conteúdo. Para quem não conhece, uma breve contextualização: distopia é um subgênero da ficção científica com viés sombrio, no qual um estado totalitário, ou uma megacorporação capitalista, controla todos os aspectos da vida humana e elimina toda individualidade – o oposto da Utopia idealizada por Thomas Morus. O gênero tem como obras-primas 1984 e Admirável Mundo Novo, cujos autores são respectivamente Orwell e Aldous Huxley. Por muito tempo foi entendido como um estilo marcadamente anticomunista, no qual até a ultra-individualista Ayn Rand, uma filósofa de direita, se aventurou. O livro Nós, lançado pelo russo Eugene Zamiatin no calor da Revolução Russa, é tido como o marco inaugural do gênero. Zamiatin, comunista no início do século, exilado na Inglaterra devido ao regime czarista, voltou ao seu país para ajudar a revolução, mas já com uma visão mais libertária, ficou desconfiado com o autoritarismo que se insinuava e lançou o inovador Nós – no qual a palavra “eu” já não fazia sentido no mundo do ditador Benfeitor. Orwell foi influenciado por esse viés anárquico e assumidamente reelaborou a história de Nós para criar uma obra, por incrível que pareça, original e superior à intensa trama literária de Zamiatin. Inglês e, também, anarquista, Orwell lançou 1984 em 1948, justamente “brincando” com as datas. O protagonista de 1984, Winston Smith, tenta registrar em suas memórias a verdade histórica num canto onde supõe que não é filmado, pois tudo era vigiado pelas câmeras do ditador Grande Irmão – sim, o Big Brother que dá nome ao cínico reality show. Designado para reescrever a história de acordo com os caprichos momentâneos do Estado, algo bem parecido com o uso do Telegram pela atual administração federal brasileira para que as fake news se disseminem em outros meios através da infodemia, Smith rebela-se discretamente, mas atrai a atenção de Julia, que também tenta resistir à eliminação do livre arbítrio. Não é uma história de amor, embora a afeição entre os personagens seja tocante, mas sim um profundo tratado sobre a liberdade e a desconstrução do espírito humano pelo arbítrio ditatorial. É extremamente atual. Portanto, recomendo a leitura de qualquer uma dessas novas edições. Estão caras? Para dirimir esse mal, há os sebos. E-book legítimo e pirataria online eu ignoro, mas o leitor é que sabe que caminho vai tomar.

Daniel Souza Luz é jornalista, escritor, professor e revisor


George Orwell.. Foto de domínio público. 


Monday, January 24, 2022

Ópera Geológica, de Marcos Silva (resenha)

Esta resenha foi publicada na página 9 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 22 de janeiro de 2022. Não passou por revisão; depois, se necessário, faço correções. 

Depois de conhecer a prosa do professor Marcos Sturaro Silva, cuja plaquete Aqui, Ali, Todo Lugar foi lançada conjuntamente com este livro de poesias há duas semanas em Poços de Caldas (e em dezembro do ano passado em São João da Boa Vista, sua cidade natal), há de se notar que sua poética é bastante narrativa e coloquial. Isso contrasta fortemente com o que o editor Cesare Rodrigues informa na apresentação deste livro: quando lançou independentemente suas duas primeiras obras, a influência do experimentalismo concretista e a erudição eram as marcas de Silva. Não tendo lido essas duas edições independentes e fiando-me nisto, destaco que o toque erudito ainda está lá, pois há citações nominais de Charles Baudelaire, Hilda Hilst e William Blake, além de outras, implícitas, de Machado de Assis e Guimarães Rosa, entre outros. É claro que uma releitura revela camadas nas quais essas leituras formadoras estão subjacentes, mas a contemporaneidade faz-se mais presente – ou, para ser mais exato, ao menos aquela da juventude do autor, nas duas últimas décadas do século passado. Além da conterrânea Orides Fontela e Rodrigo Garcia Lopes, há uma parte final toda dedicada a Ana Cristina César, quase um livro dentro do livro. Esta é de lavra mais recente, informa o excelente posfácio de Márcio Cenzi, que também é poeta, é íntimo de Silva e estabelece muito oportunamente as chaves de leitura do livro. Os demais poemas foram produzidos num intervalo de quase três décadas, esparsamente, então é difícil para quem já não os conhecia encontrar um eixo, ao contrário dessa coda inspirada em Ana C., que, talvez, seja ainda mais lúbrica do que a produção que a precede. O editor, que é sobrinho de Silva, cultivava com carinho a pretensão de reunir os poemas inéditos presentes neste volume, conforme ele destaca no prefácio, mas não se trata, ainda que não haja uniformidade, de uma coletânea mal-ajambrada. Cenzi afirma que os poemas foram reescritos, cortados ou avolumados com novos trechos. Ou seja, o livro não é um anacronismo e insere-se vividamente no torvelinho avassalador desta década infodêmica; o tempo hipermoderno do qual o poeta Ruy Proença fala na orelha está à espreita – “Já o fim, aquele abraço: biodecompositores esperam/ por tudo que é tipo de gente.”, vaticina o poema Do Princípio Ao Fim. Mas o tempo geológico, caro ao autor (dada a sua formação acadêmica), em que ainda há o que se ossifique, também dá o tom. Confiram em Lírica Bruta, poema de cujo verso final foi tirado o título do livro.

Daniel Souza Luz é jornalista, escritor, revisor e professor




Monday, January 17, 2022

Aqui, Ali, Todo Lugar, de Marcos Silva (resenha)

Esta resenha foi publicada na página nove da edição 7676 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 15 de janeiro de 2022. O texto não passou por revisão nem na ocasião e nem agora. Se necessário, depois faço ajustes. 

Plaquetes são um modo democrático de se distribuir boa literatura de modo impresso. Tomei contato com o formato pela primeira vez na Casa das Rosas, em São Paulo, onde fiz minha pós-graduação em Jornalismo Literário: lá estavam sendo distribuídas gratuitamente duas e assim tomei contato com as obras de Susanna Busato e Micheliny Verunschk, ambas ótimas poetas. Pequenas obras, que também podem ser entendidas como opúsculos, fanzines (pela nova geração; já a minha preferia o velho, tosco e bom xerox) ou até mesmo como cordéis, como bem observou meu amigo Luiz Henrique Leocádio, quando lancei Zênite, meu segundo livro. Aliás, meus dois livros, com formato de bolso, são plaquetes, justamente devido à acessibilidade. Este formato também foi utilizado pelo professor Marcos Sturaro Silva, residente na vizinha São João da Boa Vista, para lançar um acompanhamento ao seu livro de poesias Ópera Geológica. Ambas as obras saíram no final de 2021 e tiveram lançamento em Poços de Caldas na semana passada, na Livraria Porão. Antes de mergulhar na poesia de Silva optei por conhecer a prosa. Com o formato maior do que um livro de bolso tradicional, com as mesmas 16 páginas das minhas duas obras, sua plaquete comporta um número razoável de narrativas. É belamente ilustrada pelo próprio Marcos, numa boa edição da Livros Nômades, que cuidou inclusive de obter o ISBN para Aqui, Ali, Todo Lugar, ao contrário de vários livretos editadas de forma semelhante. São narrativas, claro, curtas. Os contos (e talvez um ensaio de um ensaio, vamos dizer assim) refletem sua formação em, me parece, Geografia (o autor leciona essa disciplina e, também, Sociologia). Historiografia, que abre a obra, revela certo desencanto com a burocratização da escrita exigida pelo mundo acadêmica, afinal as ciências humanas aspiram ao status de ciência dura, claro, e têm uma metodologia rigorosa que muitas vezes sufoca a narratividade – por isso mesmo fiz a pós em Jornalismo Literário, uma das decisões mais acertadas da minha vida. Daí em diante vem uma prosa exuberante, como se fosse uma libertação. Armanhaque ou a Arte da Gula e Terra Sem Males são dois contos que demonstram fascinação pela simbologia da cornucópia, pois têm como cenário territórios de abundância e felicidade plena; especialmente o segundo é como se fosse uma Utopia de Morus tomada pela anarquia de Bakunin, ainda que paradoxal, pois há uma (falsa) rainha. A citação do explorador Richard Francis Burton no “ensaio do ensaio” e de piratas históricos ou atemporais insinua aqueles tempos nos quais ainda havia terras míticas, misteriosas, paradisíacas, a ser descobertas pelo ser humano. Mas isso se dá pela via de certo surrealismo ou realismo mágico. Essa aura aparece em povoados incrustrados no interior que podiam ser cidades-irmãs de Macondo (em Ancestralidade), Comala (em A respeito de observar mulheres em flor num campo de frutinhas vermelhas) ou, ou... Caldas da Rainha? Poços também está lá, no conto Pedra-Balão, com uma profusão de ervas que também aparecem Terra dos Dinossauros. São espaços de anacronismos, talvez, mas as narrativas também indicam que o retorno ao primitivo é a última esperança para que o planeta não colapse e a humanidade seja mais compassiva. Enfim, é grande literatura, matutando sobre as grandes questões, num diminuto volume.  

Daniel Souza Luz é jornalista, escritor, revisor e professor






Monday, January 10, 2022

Zênite (resenha/making off)

Publiquei este artigo no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em oito de janeiro de 2022. É um texto bem cabotino, misto de making off do meu segundo livro/plaquete e resenha. A Juliana Gandra, minha noiva, o revisou. 

Nos anos 1990 li uma entrevista do Paulo Ricardo, ex-vocalista do RPM, na qual ele acusava os jornalistas da revista Bizz, que também atuavam como críticos, de terem bandas e se elogiarem uns aos outros na publicação. Eles de fato tinham, mas peguei uma fase em que outros jornalistas as criticavam negativamente. Uma diatribe em particular, Ricardo dirigiu ao jornalista Alex Antunes, acusando-o de desonestidade intelectual ao inventar um pseudônimo para fazer uma crítica positiva da própria banda, o Akira S & As Garotas Que Erraram. Bem, admiro Antunes, o grupo dele também e acho que o expediente é até engraçado. É bem a cara dos Sex Pistols, “a grande trapaça do rock n’ roll”, e aquela turma parecia não compreender essas patuscadas como algo antiético. Porém, apesar de entender a subversão daquela geração, jamais faria isso. Serei cabotino mesmo: meu novo livro, Zênite, foi lançado dia 29 de dezembro. É um pequeno volume, como Milagre dos Pássaros, do Jorge Amado, mas ainda mais conciso, a exemplo do meu primeiro livro, Ontem Foi Um Sonho, de 2019. Quem resenharia uma obra dessas? Ora, ninguém, pois sou um ninguém e não um Amado. Então eu o farei, ora. E da forma mais crítica possível, embora esse texto seja mais uma reflexão sobre a concepção da obra. Trata-se de um conto escrito em meados de 2020, em total isolamento devido à pandemia e em homenagem a quem seria hoje minha noiva, Juliana Gandra, a pedido do fanzineiro bauruense Ricardo Botta, que retomaria seu fanzine Carniça. Botta é entusiasta do que se convencionou rotular de politicamente incorreto e isso, de certa forma, permeia o texto. Ou seja, não é uma característica minha. Escrito sem pejos, acaba tendo como defeito certa violência gratuita. O título original, inclusive, era Castração, Trepanação e Fellatio de Máscara Mortuária no Peep Show – frase que acabei inserindo num diálogo, ao reescrever e ampliar o texto para publicá-lo individualmente no livro, pois Botta desistiu de reeditar seu fanzine. Como o título era muito extenso, o que cabia perfeitamente num fanzine que tinha como propósito chocar, tive que reduzi-lo e o tirei de uma passagem que nuança um pouco a história e que lhe dá outro sentido, de certa forma. O uso da ultraviolência para criticar a violência do Estado, característica do livro Laranja Mecânica, de Anthony Burgess, e dos melhores filmes de Paul Verhoeven, é menos crítica e menos sutil aqui do que em Ontem Foi Um Sonho, mas continua presente. Influência benfazeja do filme Decoder, de 1984, uma distopia inaudita do cineasta Muscha, filmada na Alemanha Ocidental e estrelada por Christiane F. (sim, ela mesma), o pintor Bill Rice e o músico F.M. Einheit, do grupo industrial Einturzende Neubauten. Impactado ao terminar de assistir ao filme, indicado por uma amiga justo quando recebi o convite para fazer o texto, tive um sonho/pesadelo nada convencional que foi o ponto de partida da história. Decoder tem uma ponta do escritor beat William Burroughs e foi baseado na obra teórica dele sobre som ambiente e ruídos de fundo. Zênite indiretamente é um filhotinho de Burroughs, portanto. O filme também me reconectou com uma influência primordial que tive na adolescência e que me inspirou a escrever o primeiro livro, o quadrinhista italiano Stefano Tamburini. Burgess, Muscha, Burroughs e Tamburini operavam numa zona cinzenta da ficção científica que despreza as convenções do gênero para fazer sátiras políticas incisivas – talvez mais do que as dos autores originais de distopias, como Zamiatin, Orwell e Huxley. É a essa “tradição”, por assim dizer, que me filio, a qual também pertencem escritores como J.G. Ballard. Ou seja, dou murro em afiada ponta de faca, pois sou influenciado por autores que não estão em voga, e Zênite não foi concebido como uma leitura agradável. No final, há um aparente gancho para a história continuar, mas não é a minha intenção – é uma paródia de obras que fazem isso. Botta disse que eu deveria dar sequência à trama. Não brigaria com o público se houvesse grande demanda. Sou cético quanto a isso, no entanto.

Daniel Souza Luz é escritor, jornalista, professor e revisor




Monday, January 03, 2022

Todo Sentimento, de Wellington Rafael (resenha)

Esta resenha saiu na página oito da edição 7666 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 31 de dezembro de 2021. O texto foi revisado pela Juliana Gandra antes da publicação.   

O lançamento de Zênite, meu segundo livro/plaquete, foi em 29 de dezembro na Livraria Porão, inaugurada no segundo semestre de 2021 e já sob nova direção, atualmente gerida pelo poeta e historiador Wellington Rafael. Apelidado de Barba, já o conhecia desde 2019, quando ele deu aula no Educafro, cursinho pré-vestibular comunitário no qual eu também fui voluntário. Seu primeiro livro, no entanto, é de 2018. Não o conhecia, portanto. Presenteado com um exemplar na véspera do lançamento, finalmente pude lê-lo. Rafael é profundamente influenciado por Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade e Manoel de Barros. Todos são citados explicitamente na obra, mas se não o fossem suas marcas na escrita do poeta poços-caldense seriam facilmente reconhecíveis pelos leitores afeitos à poesia, este gênero textual que “não dá camisa a ninguém”, como bem nota o escritor e sociólogo Marcos Sturaro Silva no prefácio. Sabendo da importância de insistir nesta utopia inglória que é o fazer poético e sua publicação, Rafael não se furta de brincar com as palavras de forma bastante lúdica. Versos singelos como “Os meninos da rua brincam/ Não se dão conta do que acontece no mundo/ Não se importam com o que acontece no mundo”, as rimas simples ou as inúmeras referências a passarinhos remetem a um passado edênico tão caro a Quintana e Barros. Ou a bolsões de verde que ainda resistem, se formos esperançosos. Aliás, apesar de sua atuação política (Rafael é filiado ao PDT), sua poética não é militante. Uma exceção é o poema Chuva de Sangue, que lembra o melhor de Jarid Arraes (“– Alguém morreu? – Mais um negro, ao que me parece. – Outra mulher espancada? – Sim. A coisa tá feia, mas a economia tá boa. A cadela deu cria.../Seus filhotes têm afiados/ E como mordem”). É, de longe, o mais forte e incisivo do livro. No meu entender, o melhor. Porém, a arte não precisa ser política ou “útil”; essas discussões sobre “arte pela arte” ou “arte engajada”, uma falsa contraposição, são enfadonhas e já deveriam estar ultrapassadas. No entanto, acreditem-me, há quem insista nestes anacronismos. Por fim, é significativo que Rafael abra e feche o livro com pequenas prosas poéticas. Ele mostra uma versatilidade como narrador que espero que ainda seja mais explorada.

Daniel Souza Luz é escritor, jornalista, professor e revisor




Monday, December 20, 2021

Veja a Manchete

Raramente tenho algo que se possa chamar de pesadelo, de uma década e meia para cá. E mesmo antes não era algo muito comum. No entanto, há uns anos, apesar de não ter acordado assustado, fiquei aliviado ao acordar de um sonho que não foi particularmente bom. Então talvez tenha sido mesmo um pesadelo. Nele, estava folheando uma Veja de 1979; havia denúncias de tortura, era uma edição comemorando a Anistia, a reabertura política que levou ao fim da ditadura no Brasil. Enfim, havia uma matéria, páginas adiante, falando de tortura e execuções de opositores na Turquia. Parecia muito real, vi vários cadáveres desfigurados. Até a diagramação e a fonte das letras pareciam com as das revistas que lia quando era criancinha, em salas de espera e, em especial, em barbearias no centro de Poços, quando eu ia cortar o cabelo com meu pai e tinha que aguardar minha vez. Na vida real, essas revistas realmente eram assim, mas a Manchete, principalmente, mais parecia encarte de discos do Carcass, a pioneira banda de goregrind. Lembro-me em especial de uma, numa barbearia que ainda existe, quando havia acabado de aprender a ler: publicaram uma reportagem sobre um sequestro de avião em que os terroristas cortaram aleatoriamente a língua de uma refém. Havia várias fotos dela sangrando ao longo das páginas. Talvez só uma ou duas, mas na minha memória agora parece que eram dezenas. Em preto e branco, o que tornou aquele sangue escurecido ainda mais traumático. Ficava pensando em como ela poderia viver depois; isso perturbou vários dias da minha infância. Perto disso, o famoso jornal Notícias Populares, apelidado de “Espreme e Sai Sangue”, hoje tão morto e enterrado quanto a Manchete, não era nada.

 

Daniel Souza Luz é professor, escritor, jornalista e revisor

Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 18 de dezembro de 2021. É uma versão reescrita e ampliada da minha Micrônica 2147, de 25 de março de 2018.


Uma edição de janeiro de 1985 da revista Manchete. Reproduzida aqui via licença Creative Commons.




Monday, December 13, 2021

Procurando chifre em cabeça de cavalo

 Escrevi este conto em 2008. Resolvi tirá-lo da gaveta e foi publicado no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 11 de dezembro de 2021. Como o texto já tinha 13 anos, precisei reescrevê-lo para atualizar referências tecnológicas. De qualquer forma, o reescreveria mesmo em parte, pois eliminei elementos do texto original que denotavam forte influência do Bukowski, o que me irrita profundamente hoje. Mas não se enganem, ainda sou fã do Buk. 

A única música que me dava arrepios era The Carnival Is Over, mas hoje em dia não sinto quase nada. O prazer de ouvir a música é muito vago. Mas ao menos isso. Nenhum outro som me desperta algo. Ou despertava. O que tornou especialmente difícil escutar, de bobeira, Feel Good The Hit Of The Summer, que não diz nada com nada, e voltar a associar uma música a uma pessoa. A lembrança de Anna desabou sobre mim com o peso de uma banda que eu não ouvia há muito tempo e da qual nós tanto gostávamos. Só havia algo no mundo que eu gostava mais do que aquele CDzinho azul do Rated R: da Anna. Eu o perdi, a perdi. Se foi o interesse por ambos, mas não consegui bloquear a lembrança dela. Apenas a tirei de foco.

Chorei e não sou disso. Não chorava desde que tinha uns onze anos. Sempre detestei, fui ensinado a crer que era coisa de maricas. Foi foda, o impacto sonoro suspendeu o entrave mnemônico que havia me imposto. Malditos algoritmos do modo aleatório dos serviços de streaming. Encomendei uma edição especial do CD, já que o passado voltou tão veementemente. Bobagem, podia ter escutado online mesmo. Na minha mente, as faixas já se reordenaram e estão tocando na ordem certa. Já tinha tudo de cor, internalizado. Bem, não senti nada, de novo, quando tirei o CD do invólucro e pus para rodar. Se fosse só isso estava bom. Mas não. As recordações daquele tempo com Anna, de qualquer forma, me deixaram abalado em outros momentos nada musicais. Não sabia mais nada sobre ela, a não ser que tinha se mudado da casa dos pais.

Pois bem, resolvi procurar por ela nas redes sociais. Nada. Mas uma busca na web me revela o número e endereço do consultório dela. Agora ela trabalha com constelação familiar. Caramba, que picaretagem. Mas é tarde, estou obcecado.

Avalio por uma meia hora, andando de um lado para o outro e tomando café, se devo ligar ou aparecer na porta do consultório dela como se eu não quisesse nada. No fim, resolvi ligar. Ela atende, não consigo falar. Nunca fui dessas coisas, que idiota. Sou mais cretino ainda ao ligar novamente e pôr o telefone em frente ao som, sem falar nada, enquanto o Rated R está rolando no volume máximo. Depois de uns trinta segundos abaixo o som e resolvo falar um oi, mas ela já havia desligado. Será que ela entendeu o que estava acontecendo? Espero meia hora para ver se ela retorna a ligação. Largo mão de frescura: agora ligo direto pra ela, que atende com frieza. Ela tinha sacado sim que era eu. Avisa que ainda escuta muito o disco, pois o marido comprou a reedição em vinil de 180 gramas. Ah tá, entendi o recado. Depois de algum papo protocolar, tchau. Sheila está me esperando em casa, impaciente e ligando no meu celular a cada cinco minutos.

Daniel Souza Luz é professor, escritor, revisor e jornalista


A reedição em vinil do Rated R, disco do Queens of Stone Age lançado originalmente com a capa azul em 2000.


Monday, December 06, 2021

Queda Livre

Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 04/12/2021, depois de ser revisada pela minha noiva, Juliana Gandra. É uma versão reescrita e muito ampliada da minha crônica A Queda, de 2017. 

Há algum tempo disse que precisa reescrever minha crônica A Queda. Bem, chegou a hora, por uma série de fatores que não vêm ao caso agora. A questão é: talvez eu tenha começado a andar de skate em 1987, mas mais provavelmente apenas meu irmão começou naquele ano. Eu tinha medo; via uns moleques bem mais velhos, uns caras que na verdade eram altos que nem prédios e já deviam ter 18 anos, ou quase isso, descendo minha rua muito rápido em pé nos skates; eu pensava que no máximo desceria sentado. Parecia assustador demais, absolutamente apavorante, vê-los soltos em cima das pranchinhas com rodas. Bem, um ano depois lá estava eu descendo a rua de casa em cima de um skate, primeiro com medo, pouco depois destemidamente. Eu me recordo bem que tinha 13 anos quando comecei, pois os moleques mais novos diziam que eu era velho demais para começar a andar – imagina, pura pressão, não tinha o menor sentido. Apesar de ter alcançado esta idade nos fins de 87, é quase certeza que comecei a andar em 1988.

Tanto eu quanto meu irmão começamos com um péssimo skate, emprestado por um amigo chamado Ronan, primo de umas vizinhas. Ele sempre aparecia na rua Platina, onde residíamos, e nos emprestava o skate dele sem problemas. Meu irmão e eu convencemos meu pai a nos comprar skates bem melhores. Eles nos proporcionaram algo muito melhor do que descer rápido a rua, afinal isso os carrinhos de rolimã também proporcionavam. Aprender a dar ollie, o famoso flatland ollie inventado por Rodney Mullen, foi árduo, mas era isso que nos fazia voar. Não conheço sensação melhor na adolescência do que sair por aí superando obstáculos de ollie air.

Mais do que qualquer coisa, acho que foi isso que me deixou safo para a vida de adolescente e a ter alguma vivência de rua. Até então, eu era meio cabação das ideias. Era bem impressionável e um exemplo de pensamento mágico, sem qualquer fundamento na realidade, do qual nunca me esqueço é de quando, salvo engano, eu ainda não sabia andar de skate.

Meu irmão foi pular uma rampinha improvisada da rua Platina, que é uma leve ladeira, mas se atrapalhou e bateu a cabeça no chão. Fiquei impressionado com o baque seco da queda, pois eu estava ouvindo música bem alto no toca-fitas do carro do meu pai, pois era o único aparelho de som que tínhamos.

Acontece é que justo naquele momento eu estava ouvindo Bark At The Moon, do Ozzy Osbourne. Como eu não sabia quase nada de inglês e não anotaram o nome das músicas na fita, eu achava que o Ozzy dizia “Back, Demon!” no refrão – que, na minha cabeça, era “Volta pra cá, Demônio!”. Não fazia ideia que a tradução do título era Uivando Para a Lua. Pois bem, influenciado por discursos sensacionalistas da mídia, achei que meu irmão havia caído por minha culpa, devido à suposta influência malévola da música. Quando entramos em casa e ele era socorrido, eu me senti extremamente culpado. Mas ele se recuperou e tudo realmente acabou bem: aprendi inglês e dois anos depois já estávamos ouvindo Slayer, que é thrash metal e muito mais satânico do que o Ozzy, mas esses satanismos de araque do metal só impressionam quem é bocó.

Daniel Souza Luz é professor, revisor, escritor e jornalista


Still do videoclipe de Scrape, música de 1995 de Unsane, editado apenas com tombos de skate. O Unsane é um das bandas de noise rock da qual mais gosto. O nome desta crônica era originalmente Caindo de Novo, mas mudei para Queda Livre, pois assim que a concluí começou a tocar Free Fall, do Cornelius, artista japonês de música eletrônica, num aplicativo. Daí aproveitei a sincronicicidade. 



Wednesday, December 01, 2021

Todas as saudades

Esta crônica, em homenagem ao meu pai, saiu hoje nos jornais Mantiqueira e Jornal da Cidade, ambos de Poços de Caldas. Aqui está a versão definitiva, pois fiz algumas alterações: corrigi tempos verbais, acrescentei algumas palavras e cortei outras. Foram pequenas modificações em algumas frases para que ficassem mais compreensíveis ou deixassem de ser ambíguas. O texto não havia passado por revisão antes da publicações nos jornais, portanto o reli e revisei-o antes de publicá-lo aqui. 

Todas as saudades

Aos domingos, às sete da manhã ou até antes, um senhor, em idade muito provecta, às vezes tocava a campainha do apartamentozinho onde minha família morou durante minha infância e adolescência, nos acordando. Era um velhinho chinês, franzino, conhecido como seu Charles. No começo estranhamos, mas ele era tão simpático, com um sorriso tão largo, que ninguém se importava com as visitas inusitadas. De qualquer forma, eu e meus irmãos éramos crianças, não íamos dormir tardão no sábado à noite. Ele jamais aceitou um convite para entrar, conversava muito brevemente e sempre trazia presentes. Geralmente comida, principalmente arroz agridoce que ele mesmo preparava, salvo engano. Nunca havia comido algo assim; a princípio até que gostei, mas depois não conseguíamos comer; era muito atípico para nosso paladar infantil. Mesmo assim, recebíamos o presente de bom grado.

Por que ele gostava de nos presentear? Meu pai disse que uma vez o viu chorando na rua, pois o seu Charles não tinha mais dinheiro para comprar comida. Então meu pai lhe fez uma compra de supermercado e disse que ele não precisava pagar até ter condições financeiras novamente. Segundo meu pai, seu Charles não só o pagou posteriormente, como também fazia questão de demonstrar o quão agradecido era.

Hoje faz dois anos que Daniel da Luz morreu. Meu pai. Nunca me achei parecido com ele no jeito de ser. Fisicamente, somos parecidos, claro. Aliás, muito parecidos. Mas há outras características que foram herdadas e das quais não me dava conta. Vira e mexe ganho presentes de amigos a quem socorri financeiramente no passado. Só notei isso agora. Também não pedia para me pagarem imediatamente, não cobrava juros, nada disso. Fui movido pelo exemplo do meu pai, inconscientemente.

Convivi demais com meu pai nos últimos anos de vida dele, conversava o máximo possível sobre o passado, mas, mesmo assim, ficam lacunas. Não sei de onde ele conheceu o seu Charles, por exemplo. E ele adorava contar histórias, verdadeiras ou não. Era um pouco difícil discernir o que era verdade e o que era ficção. Tal como a vida.

Tirei centenas de fotos do meu pai, ainda assim parece que é pouco. Então recorro novamente a velhos álbuns, dos tempos analógicos, com novo olhar. Há fotos, a quais eu não dava atenção, nas quais amigos dele aparecem. Graças a minha mãe, hoje sei quem são alguns, tais como Mário Xandó de Oliveira, o avô do jogador de vôlei, e Joffre Rafael dos Santos, ex-vereador, de inesquecível voz rouquenha, com quem eu conversei dezenas de vezes ao telefone, pois ele ligava insistentemente para meu pai, mas com quem nunca me encontrei – não que me recorde. Não há fotos do seu Charles. Ele desapareceu ainda nos anos oitenta. Consta que simplesmente sumiu e a família nunca mais teve notícias dele. Mas hoje todas essas presenças evolaram. Tenho saudades dessas pessoas que sequer conheci de verdade, de toda uma sociedade que subsiste apenas na memória. Que dirá então do meu pai.

Daniel Souza Luz é professor, jornalista, escritor e revisor

Daniel da Luz (01/01/1941 - 01/12/2019). Tirei esta foto em 30/08/2006.



Monday, November 29, 2021

Escritos Negros: textos contemporâneos

Esta resenha foi publicada no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 27 de novembro de 2021.

Esta outra coletânea lançada pela TAG, a exemplo de Uma Outra História, que tem o mesmo subtítulo, tem também como objetivo comemorar o Dia Nacional da Consciência Negra, que foi no sábado passado. É, no mínimo, uma leitura tão ótima quanto sua companhia. Particularmente, achei melhor, ainda mais forte. Como no outro volume, a tônica é dada na introdução, escrita pelo editor Luiz Mauricio Azevedo. Tomo a liberdade de reproduzir parte do início do seu texto, pois é muito seminal: “No Brasil, há uma ideologia literária da cor, que incide sobre aquilo que consideramos boa ficção. [...] Nesse deplorável projeto político de branqueamento cultural, aprendemos a reduzir Machado de Assis à ironia, Cruz e Souza ao exotismo poético e Lima Barreto ao alcoolismo”. Para captar, em parte, a diversidade das letras afro-diaspóricas, o livro não se resume apenas à literatura escrita por autores do Brasil, pois, como o próprio nome explicita, os descendentes de africanos retirados à força do continente espalharam-se por todo o mundo, particularmente pelas Américas. O primeiro texto, na verdade, é terno; nele, a autora afro-cubana Teresa Cárdenas Angulo rememora seu contato com os livros, seu fascínio com a escrita, sua decepção em notar que não havia personagens negros na literatura canônica ou mesmo nas mais vanguardistas e seus passos para se tornar uma escritora. A grande pancada no estômago vem com o texto seguinte, o conto Filsan, da escritora somali Nadifa Mohamed. É o momento mais visceral das duas coletâneas. Trata-se da história da militar que dá nome ao conto, premida pela solidão, inadequação e pressão para que seja melhor do que suas e seus colegas; o sexismo do qual é vítima acabará por vitimar civis. É de se perguntar se a autora não ampliou uma narrativa tão promissora num romance de longo fôlego. Uma leitura muito oportuna que vem a seguir é o pequeno, mas revelador, ensaio que Jeferson Tenório faz da sua trajetória enquanto escritor negro e quais implicações isso traz a ele e seus leitores. Nele Tenório aborda o processo de escrita e divulgação de O Avesso da Pele, que o levou a conquistar o prêmio Jabuti de melhor romance literário anteontem. Segue-se a este ensaio outra transcrição do bate-papo entre Marcelo D´Salete e Allan da Rosa, também presente em Uma Outra História, e nota-se que, na verdade, o início da conversa está neste volume. Particularmente revelador no diálogo, ao menos para mim, é o impacto que a revolução que levou à independência do Haiti, influenciada pela religião vodu, teve na cultura negra no Brasil e em inúmeros processos políticos no continente. Por fim, há mais um ensaio sobre o processo formativo de leitora e escritora, desta feita da escritora mineira Cidinha da Silva, que é muito direta sobre suas preferências e desinteresses. É ela quem traz as referências mais diversas e neste ensaio consolida-se de vez no leitor a importância do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD Literário), responsável pela distribuição de centenas de milhares de livros em bibliotecas públicas e de escolas, citado até mesmo por Teresa Cárdenas na difusão da sua obra no Brasil.   

Daniel Souza Luz é professor, jornalista, escritor e revisor




Monday, November 22, 2021

Uma Outra História – textos contemporâneos

Esta resenha foi publicada no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 20 de novembro de 2021. 

O clube literário TAG acerta mais uma vez numa coletânea. Desta feita, essa foi lançada para comemorar o Dia Nacional da Consciência Negra, comemorado hoje, dia 20 de novembro. É um acompanhamento para o romance deste mês, e que bônus! São textos que refletem sobre a presença de autores negros não apenas na literatura, como também nas relações sociopolíticas em todo o mundo, muitas vezes de um ponto de vista que expressa o pensamento decolonial, que rejeita o supremacismo cultural eurocêntrico. A introdução, escrita pela professora Zélia Amador de Deus, é ótima e estabelece um eixo comum a muitos dos textos de coletânea: a obra literária de Toni Morrison, autora de Sula, que foi lançado pela TAG neste ano e o qual já resenhei. Zélia me deu a ideia de que seriam ensaios acadêmicos, mas ledo engano o meu. O primeiro é do incensado Itamar Vieira Júnior, escritor baiano que venceu inúmeros prêmios com o romance Torto Arado no ano passado, incluindo o Jabuti. Ele tangencia o ensaio pessoal, ao falar de sua relação com bibliotecas, uma das quais no bairro onde viveu Jorge Amado, e, também, demonstra que, antes de chegar em Morrison e outros autores negros, passou por clássicos da literatura juvenil brasileira e clássicos como Thomas Mann, Fiódor Dostoiévski, José Saramago e Jorge Luis Borges. Ou seja, não há uma repulsa à literatura de autores brancos europeus ou que dialogam com a tradição ocidental, mas sim um rompimento com o viés elitista que rejeita outras vivências e/ou produções fora dos centros culturais usuais. No entanto, após certa digressão, ele opta por produzir um ensaio mais convencional mesmo, ainda que sem viés academicista, a respeito do prazer da leitura e sua potencialidade educacional. Quem faz um ensaio pessoal a respeito do contato com os livros e o posterior mergulho na literatura produzida por negros, em especial por mulheres negras, é Djamila Ribeiro. Ainda eu que tenha reservas com relação a sua arrogância midiática (vide os ataques que ela fez à militante Letícia Parks, também negra, mas desprezada por Djamila por não ter a pele retinta), não tem como não admirar sua postura editorial, cujas razões são esmiuçadas no seu belo ensaio. O texto seguinte é o melhor da coletânea e é da lavra da haitiana Edwige Danticat. Publicado originalmente na prestigiada revista New Yorker, a bíblia do jornalismo literário, é uma mistura vigorosa de texto de memórias e ensaio pessoal. Tem a grande qualidade do texto literário, mencionada no ensaio de Itamar Vieira Júnior e perseguida obsessivamente pelo jornalismo literário (que é o jornalismo aprofundado que despreza as convenções jornalísticas do texto com lide e pirâmide invertida, não sendo necessariamente o jornalismo que cobre literatura): a capacidade de nos transportar a locais onde nunca estaremos, eventualmente num passado distante, e a experimentar vividamente histórias e sensações de outrem. Segue-se ao brilhante relato dela, um doloroso epitáfio para uma haitiana cuja existência evola junto ao seu país, um riquíssimo bate-papo entre o quadrinista Marcelo D’Salete e o dramaturgo e historiador Allan da Rosa. Mesmo quem já tem algum conhecimento das referências que eles evocam tem muito a aprender com o diálogo registrado, que relembra personagens e autores quase apagados pelo racismo estrutural. Por fim, há um complexo ensaio, ainda que curto, do congolês Alain Mabanckou. Depois de sair da África e imigrar para a França, residindo atualmente nos EUA, ele investiga as contradições que os imigrantes vivem e como as identidades transfiguram-se. Da sua vivência ele arranca conclusões instigantes sobre a condição humana. Leiam com atenção redobrada.

Daniel Souza Luz é professor, revisor, jornalista e escritor






Monday, November 15, 2021

New Model Army e Pixies

Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 13 de novembro de 2021. É uma versão retrabalhada da minha Micrônica 2126, de mesmo título, escrita em quatro de março de 2018. O texto foi revisado pela Juliana Gandra após a publicação no jornal, que manteve os erros de concordâncias verbal e nominal que deixei passar no texto original.   

Nunca me esqueço: um dia o Kid Vinil apresentou no Som Pop, programa de videoclipes da TV Cultura no qual era VJ na virada dos anos 1980 para os 1990, vários clipes do New Model Army na sequência. Tempos depois, conforme era costume à época, pedi para gravarem uma fita do Doolittle, do Pixies, numa loja de discos extinta há mais de um quarto de século. Até hoje tenho a fitinha, ainda a escuto, apesar de agora ter o Doolittle em CD. Os nomes das músicas vinham datilografados. Como sempre sobrava uns espaços após o final dos lados dos cassetes, eles gravaram umas músicas extras, mas sem indicações dos nomes. Nessa do Doolittle vieram três que eu não conhecia, mas pelo baixo, que tanto lembrava o meu amado Joy Division, quanto pela voz eu soube imediatamente qual era a banda: o New Model Army. Depois, muitos anos depois, descobri os nomes das três músicas: Spirit of the Falklands, Christian Milita e Waiting, que estava com um pedaço cortado. Ornando com o nome da música, tive que esperar anos para achar um CD para locar e gravar o primeiro disco, finalmente escutando o pedacinho que faltava. Mais anos ainda depois, por sorte, achei num sebo o EP de White Coats, a música cujo baixo mais me hipnotizava. Deixei cair e amassar a capa num canto. Virou usado, virou meu.

 

Daniel Souza Luz é professor, escritor, jornalista e revisor


A fita cassete que cito na crônica. Holy Words é o nome que eu supus ser de Christian Milita, Spirit in the Falklands é porque li em algum lugar o nome da música, associei (corretamente) àquela gravação e a grafei errado na capinha e, por fim, eu gravei essa versão do The Clash para I Fought The Law porque ela cabia toda no final do fita (ao contrário de Waiting, que estava cortada). Eu mesmo fiz o desenho do duende, em alusão ao Pixies, nos anos noventa. Tirei esta foto em 27 de outubro de 2015.  


Monday, November 08, 2021

Velha Escola

Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (de Poços de Caldas) em seis de novembro de 2021. É uma versão um pouco ampliada da minha Micrônica 1997, de 26 de outubro de 2017.

Talvez um dos aspectos dos quais mais tenho saudades dos anos noventa é fato do meio punk/hardcore ser o mais aberto para novas ideias e não se encontrar nenhum machocore de direita ignara na cena. Ao menos eu, felizmente, não conheci nenhum à época. Veganismo, sexismo, homofobia, racismo, violência policial e todos os temas hoje prementes eram discutidos o tempo todo em shows e, também, quando encontrava amigos e amigas com gosto musical semelhante. Muitos dos debates destes anos pós-Jornadas de Junho de 2013 já tinha discutido há vinte anos ou mais. O punk e o hardcore foram as melhores escolas que frequentei; as letras das músicas e os encartes foram os melhores professores. Foi tão ótimo quanto ter cursado a Unesp, a Unicamp e a pós-graduação em Jornalismo Literário. Ainda havia os fanzines para ajudar a nos iluminar ainda mais. Lembro do enorme impacto que tiveram bandas feministas como Dominatrix, Bikini Kill, Pin Ups e muitas outras. Discutia nossa relação com minha namorada de então baseado nas letras da Kathleen Hanna. Parecia que tudo evoluiria muito. Mais de duas décadas depois, evoluímos. Mas a reação é forte. Tudo bem, quem frequentava rodas de pogo está preparado.   

Daniel Souza Luz é professor, jornalista, revisor e escritor


Kathleen Hanna à frente do seu grupo The Julie Ruin, em 10/11/2013, no Fun Fun Fest em Austin, Texas/EUA.
Foto tirada por Anna Hanks e reproduzida via licença Creative Commons. 


Wednesday, November 03, 2021

Jello Biafra já tinha avisado

Esta crônica foi publicada em 30 de outubro de 2021 na página nove da edição 7626 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG). É uma versão retrabalhada da minha Micrônica 2009, que tinha o mesmo título e publicada originalmente em sete de novembro de 2017. 

No final de 2008 fui chamado para um concurso que prestara anos antes e do qual havia até me esquecido, pois abandonei a faculdade de Direito. Era para trabalhar no Tribunal de Justiça de Minas Gerais, como oficial judicial, num cargo que chamam de precário – sem estabilidade, mas com possibilidade de efetivação. Uma prévia perversa da precarização do trabalho que grassaria a partir do nefando governo de Michel Temer. Mas, enfim, àquela época trabalhava numa assessoria de imprensa em Campinas, justamente atendendo associações de magistrados de São Paulo, e estava de volta à Unicamp, como aluno especial na pós de multimeios, estudando Cinema Brasileiro. Estava bem feliz lá, mas topei voltar, afinal era uma carga de trabalho de apenas seis horas e para ganhar um pouco mais, pois voltaria a morar com meu pai por ao menos algum tempo e economizaria com aluguel. Comecei no início de 2009. Fui nomeado para uma secretaria criminal – ou vara criminal, pouco me importa o juridiquês, pois é o mais patético dos jargões. Pensei: “Tudo bem, estamos no século 21, deve ser um trabalho civilizado”. Ledo engano. Não, não estávamos – eu podia estar, mas o não arcaico judiciário brasileiro, que mal disfarça seu pendor escravocrata. As letras de punk rock/hardcore e rap sempre me avisaram, sempre soube, mas imaginei que os poderes haviam se civilizado minimamente tantos anos após a redemocratização. Foi ingenuidade demais para quem sempre ouviu punks e rappers. Caí em depressão, é deprimente demais fazer parte da aplicação do direito penal, uma máquina tão racista que chega a ser caricata. Sem falar ser obrigado a conviver com os privilégios nababescos da magistratura, uma casta inimputável; na genial mudança que fez na letra de I Fought The Law, do The Crickets (originalmente é “Eu lutei contra a lei e a lei venceu”), para os Dead Kennedys, Jello Biafra já havia flagrado o maior dos crimes: “Eu sou a lei, então eu venci”.

Daniel Souza Luz é professor, jornalista, revisor e escritor


Jello Biafra em Nova Iorque, 13 de julho de 2002. Foto tirada por Scott Beale/Laughing Squid (laughingsquid.com) e reproduzida aqui via licença não comercial Creative Commons.