Sunday, October 26, 2008

Não foi dessa vez

Não consegui processar a informação na hora e ainda não absorvi bem o que aconteceu. Foi mais ou menos assim. Ela fumou um e saiu elétrica. O legal é que ela ficou ligadaça e não largada, naquele esquema de ficar rindo de tudo. Como ela nunca havia fumado antes encanou que a polícia a seguia e que a enquadraria – uma menininha daquele tamanho. Correu então para casa e achou melhor escrever o livro com o qual sempre sonhou antes que ela morresse. Porque ela ficou com a certeza de que morreria na viagem que a mãe a obrigou a fazer. No dia seguinte teria que visitar a avó no Paraná, afinal não aparecia por lá há dois anos. E elas iriam de fusquinha. Então ela escreveu o livro durante toda a noite e varou a madrugada. Eu o recebi por e-mail – ela estava preocupada de ter todo aquele trabalho e nunca ser lida. Infelizmente era uma porcaria e não tive coragem de dizer isso para ela. Quando ela chegou sã e salva – teve que ir dirigindo sem dormir, mas disse que ainda foi dirigindo bem – cheguei junto e mesmo assim, mais uma vez, ouvi um não.

Sunday, October 19, 2008

A nova estrela da MPB

O site não tinha nenhuma menção sequer a ele e dois dias já haviam se passado. Manuel apertava o botão de atualização do navegador insistentemente, sem conseguir estudar, ouvindo o início das músicas do seu próprio CD por alguns segundos enquanto aflitamente comia batatas fritas trazidas por “Nanata, a empregada mulata”. Assim ele a chamava de brincadeira quando ela lhe fazia algum agrado. Correu no banheiro, lavou as mãos, pegou o livro de geografia e tentou decorar como seria o relevo da Ásia, seus desertos, pradarias e as cordilheiras irrompendo à força de movimentos tectônicos ao sul e leste. Dois minutos depois atualizou mais uma vez a página e lá estava a foto na seção de notícias. Seu sobrenome estava errado. Putaço, pediu para o seu pai ligar para o dono do site. Além de corrigir o erro, que também mandasse embora o jornalista responsável, de preferência.
Trilha sonora sugerida para a leitura deste conto: Porque Não, Replicantes.

Sunday, October 12, 2008

Hoje à tarde

Escuto meu nome, como se uma velhinha que estivesse sendo estrangulada gritasse por mim desesperadamente, com o que resta de suas forças. Apesar da chuva e do vento frio que empurra as gotas contra minha cara e meu quarto, abro a janela e me deparo com ela, segurando uma bicicleta na mão e ainda insistindo em tocar o interfone quebrado, ao mesmo tempo em que me chama mais uma vez, sem notar que abri a janela logo à sua frente. Peço que espere, desço as escadas correndo e abro a porta e corro até o portão. A chuva fina incomodava relativamente pouco, mas a ventania gelada lembrou-me do sentimento irracional que nutria por aquela menina, afinal se fosse qualquer outra pessoa teria pegado uma blusa antes. É, normalmente sou egoísta, todos adoram jogar isso na minha cara. Mas ela não sabe disso.

Sunday, October 05, 2008

É...

O monitor engordurado e empoeirado lhe inspirava asco e torpor, o teclado em estado semelhante não o ajudava a se concentrar, tampouco. Foi assim que, dominado pela modorra, Jairo viu-se dispensado em favor de um garoto com menos demandas salariais e trabalhistas.

Sunday, September 28, 2008

Não foi por querer

Era deliberado. Não tinha graça, mas ele ria e tentava contaminar todos com as gargalhadas forçadas, só que ninguém o levava a sério (mesmo que isso pareça paradoxal). Ele achava que o pessoal me protegia, pois eu não participava das brincadeiras do escritório, no entanto acho que era por isso mesmo que me respeitavam: eu não zoava ninguém.
Isso só aumentava o despeito do sujeito. Ninguém tinha que ser intocável, na visão dele. Óbvio que ele estava certo, mas não dou a mínima para isso, principalmente quando eu sou o alvo em potencial. Como ele era o saco de pancadas, era como se o grande trunfo que ele poderia alcançar seria justamente deixar de ser o foco das atenções negativas empurrando-me para o picadeiro corporativo que ele ocupava.
A voz dos “ataques preventivos” era muito engraçada. Ele falava com voz de choro, sempre; um velhinho moribundo gemendo enquanto pedia compaixão. A insegurança era patente. No entanto, em situações em que procurava encaixar alguém em algum estereótipo, sua emissão vocal era forte como a de um barítono. Com o passar do tempo, notaram o que eu havia percebido há meses. Mantive-me quieto este tempo todo, mas quando o fato tornou-se notório, passaram o dia inteiro fingido que estavam zoando um aos outros com aquela voz sem noção – e às vezes até tripudiavam uns aos outros mesmo. Ele, no entanto, foi particularmente detonado. Dizem que pegou o ônibus chorando.

Sunday, September 21, 2008

Quarta-feira, cinco e meia da manhã

- Estanque o sangramento.
- Por que você não a leva ao hospital?
- A culpa é sua. Você é o doutor aqui, e eu não quero mais sujeira para o meu lado. Era só não se meter no nosso lance.
- Mas...
- Faça um curativo nela. Você já pegou nos peitos dela antes, vamos lá. Não ouse me dizer que você não tem nada a ver com isso. Anda logo, porque hoje estou a fim de socar quem me encher o saco.
É o mesmo modo ameaçador de sempre. Desde nossa adolescência é assim. O mesmo tom de voz, a mesma frase, o mesmo fedor de álcool, e ainda mais corpulento. Sua pretensão de me fazer seu eterno serviçal vem sendo minada pela minha dedicação ao muay thai, mas resolvo obedecer. Ela me importa, sempre desejei domar aquela insensatez sexual. Quando deslizo a mão em seu pescoço, pressionando a jugular, a pele macia morna, percebo que minhas chances de ser um homem realizado foram extirpadas.
- Deixe-a como está, ela está morta, pode sangrar à vontade.
É curioso notar, machões não passam de crianças mimadas. Logo se desmancham em choro convulsivo e sussurros negatórios. Não há bom senso que explique por que ela o admirava. Ligo para o 190 e saio para dar comida ao gatinho dela, Laerte, que, espero, me ficará de companhia.

28/04/2005 – 21/05/2005

Sunday, September 14, 2008

Suicídio Passional

Traído pelo inconsciente, fiz com que ela percebesse que ainda estava preso ao passado que renegava. Na noite em que finalmente começou a rolar, após muito insistir até que ela se ligasse em mim, entrei na rua errada. Mania idiota de pegar atalhos. Era a rua da Camila. Ela perguntou por que virei no rumo oposto da rua dela. Disse que me distraí, que a conversa estava tão boa e que estava tão feliz que nem estava prestando atenção no que fazia. Acho que até colou. Meia volta e três quarteirões depois, a força do hábito fode tudo de novo. Entrei na rua da Mariana, que era vizinha na rua de cima. Ela sabia sobre nós com certeza, foi mais recente. Desta vez ela não disse nada a não ser um tchau ao descer. O beijo foi na testa. Não atendeu o celular no dia seguinte. Uma semana depois me tratou com frieza, depois voltou a me tratar bem, o que foi irritante. Nunca mais falamos sobre nós ou sobre isso. Parei de olhar na cara dela e foi o fim daquilo.

Sunday, September 07, 2008

Zine

Há três anos, recebi a última carta de um fanzineiro, pedindo para trocar zines e tal. Escrevi um e-mail, falando para ela (era uma fanzineira, na verdade) mandasse um exemplar do zine dela. Recebi, esqueci onde o coloquei e acabei lendo apenas uma entrevista. Sequer lembro quem era o entrevistado. Não devia ser nada importante. Aquela cara que mandei foi a última pois não mandei um Descanse em Paz – este era o nome do meu zine – para a menina.
Eu me mudei para outra cidade e minha família comprou uma casa, conseguindo enfim zerar o aluguel. Mesmo assim, não consigo entender como essa menina descobriu meu endereço novo. Seu nome é Valéria e só me lembrei dela devido ao zine que ela mandou e que eu desprezei. Achei que ela ia me cobrar exemplares, mas o pior foi o que li depois. Era uma carta de suicídio. Na hora desacreditei. Passaram-se alguns dias e não conseguia mais pensar no trabalho, estava assombrado por aquela folha, preenchida frente e verso com mágoas, decepções e rejeições. Era sobre pessoas que não conhecia, mas não conhecia entender como elas os conhecera, se eram namorados, amigos, irmãos, sei lá. Com aquilo na cabeça, viajei até o endereço constante na carta. Verifiquei nos meus arquivos que ela era de Goiás, mas aquela carta era de Porto Velho. Pedi uma semana de folga que estavam me devendo e fui para lá. Ao chegar, a mãe me disse que ela havia morrido fazia dois anos. Foi suicídio, mas a mãe queimou a carta original. A que eu recebi era psicografada e me foi enviada por Júlia, uma amiga de Valéria, que a enviou em seu nome e com o endereço da sua mãe. Para quê isso eu não sei, mas a viagem foi legal e ao voltar acabei o zine que havia deixado parado e enviei uma cópia para a mãe dela.
06/05/2005

Sunday, August 31, 2008

Estagnação

Emprego novo e colegas das antigas. Não dá para acreditar; é 2008 e mais uma vez retrocedeu nesse esquema arcaico. O escritório é pior do que o outro, fedendo a cigarro. A empresa mudou de nome, mas o modus operandi é o mesmo. Todos são os mesmos. E o ranço é o pior possível. Até os nomes são do tempo do onça: Praxedes, Antenor e Guilhermina. Quem na faixa dos 25 anos se chama assim? Todos trabalhando juntos. Muito bizarro.
É nojento, mas antes fazer isso com alguém do que um escroto aprontar uma dessas com ele, tenta justificar-se sem convicção. Ligam para o caboclo, como eles gostam de dizer ali, e fazem um recrutamento para uma indústria da região. Detalhe: o pessoal tem que pagar adiantado pela entrevista de emprego. Ele e seus colegas ficam uns dois meses por ali e somem. Todos eles são de cidades longínquas.
O engraçado é quem trabalha nisso, com asco de si mesmo, faz de tudo para cair fora. Mas os três viajam pelo Brasil, como empregados do boçal do Antunes (outro nome embolorado) ainda por cima, só fazendo isso. Sem criar raízes. Sem família. A Guilhermina é a pior, ô mulher sem coração. Todos eles tentaram comê-la e não conseguiram, ele não sabia deste detalhe. Eles se odeiam e saem juntos sempre, porque são tão detestáveis que ninguém mais os suporta. Solteiros encaminhando-se para tornarem-se solteirões e solteirona. Talvez ele seja pior dentre todos, não consegue evitar de pensar: foi o único que voltou a se juntar a trupe. E a fila dos otários que entregam seus parcos trocos não pára, não pára.

Sunday, August 24, 2008

Ensaio Utópico

A civilização, tal como a conhecemos, deveria ser extinta. O tráfico – seja de influência, drogas, armas ou imigrantes ilegais – seria extirpado pela raiz. Toda e qualquer autoridade seria ignorada. A propriedade seria abolida e, ato contínuo, os males decorrentes desta instituição cairiam em desuso. Esta idealização da anarquia, no entanto, depende da tomada de consciência de que é necessário que não nos reproduzíssemos. Havendo menos gente, a necessidade de competição cai por terra. Porém, isso não pode ser imposto pela traição da manipulação, ou pelo fio da espada, ou pela rajada da metralhadora. A tomada de consciência deve ser voluntária. A natureza, desgastada pela estupidez humana, não é mais uma cornucópia que nos abastecerá indefinidamente, poupando-nos da labuta, mas sem o estímulo ao consumismo basta reciclar as quinquilharias supérfluas do capitalismo em bens essenciais. Se houver menos gente, elas sobrarão, de qualquer forma. Pena que o trabalho persistirá. Preciso me ocupar com modo de destruí-lo, pois, segundo a máxima do Barão de Itararé, “quem inventou o trabalho não tinha mais o que fazer”.

Outro texto que achei perdido no meio das minhas coisas. Foi feito para uma oficina literária ministrada pela escritora Ana Miranda em maio de 2004. Pelo o que me lembro ela não gostou do texto, pois o devolveu sem fazer nenhum comentário, após elogiar um conto que produzi nesta oficina: Calor Humano, que foi publicado no jornal PapoArte. Tem um link para esse conto neste blog (na verdade o reproduzi em outro blog, o Humano Obsoleto). Já este Ensaio Utópico teve como base a proposta de se produzir um texto tendo como base um ensaio clássico – só que não me lembro qual, pois não estou achando todas as minhas anotações da oficina. Segui o conselho da Ana Miranda e cortei alguns trechos do texto, de qualquer forma. Em parte o texto é nonsense bem-humorado, mas o sentimento pessoal no qual ele é alicerçado é verdadeiro.

Sunday, August 17, 2008

Estrela

A semana caiu quando ela o encontrou. Os compromissos já firmados e os pretendidos encontros ainda pendentes de detalhes a ser resolvidos em sua cabeça espatifaram-se no lodo da vergonha, estampada em um rubor que deu força à expressão maçãs do rosto. O sábado e domingo de reencontro, no entanto, transformaram seus olhos em diques para as lágrimas. Naquela segunda de manhã, pisando leve no chão acarpetado daquele corredor sem janelas, não esperava subir a escada e ainda encontrar o marido àquela hora, olhando-a de cima, afetando uma expressão de superioridade, logo desfeita quando ele passou arqueado por ela, descendo enquanto tenta conter os soluços, sem lhe dirigir o olhar.
Após o luto guardado no apartamento depenado, já no domingo seguinte, não há nada interessante na TV para fazê-la esquecer de que está sozinha. Após passar a manhã toda procurando algo, definitivamente irritada quando com um seriado de luta logo após o almoço, ela decide que a próxima segunda de manhã seria diferente. Começou com um telefonema. O produtor concordou. A Esposa do Carola faria mais um filme. Desta vez seu rosto seria revelado ao público. Mas seus fãs ficaram na dúvida. Ela filmou de roupa, pois estava se achando gorda. Ela havia raspado os pêlos pubianos. Discutia-se se sua famosa pintinha não havia sido reproduzida em outra mulher. E os gemidos não eram mais aqueles. Mas que ela era bonita, ela era. O vídeo e o DVD venderam bem.

Achei um rascunho deste miniconto enquanto fazia uma faxina. Lembro que o escrevi no segundo semestre de 2004, após uma aula particular de alemão com a falecida Ursula Beith. Acrescentei alguns detalhes e o revisei hoje. É um predecessor da premissa do meu miniconto Nilky, embora tenha me esquecido totalmente dele nestes quase quatro anos.

Sunday, August 10, 2008

Discurso de boteco

Sobe na mesa. Bêbado, mas com o discurso decorado: "Senhoras e senhores, preciso da atenção de vocês. Existe algo tão chato quanto neguinho metido a politicamente correto: os malas do politicamente incorreto. Burros, todos eles. Os primeiros não reconhecem uma das maiores qualidades de nós, seres humanos, que é a capacidade de sermos contraditórios. Vejam bem, não estou dizendo que é legal ser hipócrita, apenas estou dizendo que se não fosse assim não suportaríamos a angústia. Não rola, esse mundo é filho da puta demais. Não, peraí, eu vou falar, tô à pampa aqui, fica de boa aí também, é rapidinho. Então, os segundos são metidos a espertinhos e para disfarçar a falta de escrúpulos e seus preconceitos escrotos dão uma de rebeldes, clamando contra a opressão do politicamente correto, enquanto na verdade querem que tudo seja a mesma merda que sempre foi. Fazer o contrário para fazer o que sempre se fez. É muita cretinice. Peraí, já vou descer. São esses estereótipos ambulantes que existem. Esses são os que acham que pensam, mas tem nojo dos livres pensadores como eu. Os outros gostam de patrulhinhas mesmo, é verdade. A palavra viado, por exemplo. Viado pra mim é sinônimo de babaca, quando eu era um ninquinho de gente eu chamava os outros de viado porque era um xingamento legal, nunca ia imaginar que viado era o que é! Podem vaiar. Não é por mal nem por preconceito. Enfim, tem alguma gostosa aía fim de levar um papo legal?" Dito isso, ganha uma latinha de cerveja cheia na testa.

Fiz este miniconto para um fanzine chamado Embrulho de Banana em julho do ano passado. Na real, é uma adaptação de um velho continho meu, pois estava sem tempo naquela época e já tinha feito dois textos especialmente para o Embrulho. Infelizmente os dois outros continhos não puderam ser aproveitados porque estouraram o limite de caracteres. Este conto deveria ter saído na edição número 14, mas pelo que eu sei o projeto ficou em estado de suspensão. O site do zine é
www.embrulhodebanana.org

Sunday, August 03, 2008

Adolescência tardia

Elas confiam em mim. Não deveriam. Fico apreensivo e erro; erros que podem se tornar tragédias. Visualizo. Olhos vazados, ossos quebrados, talvez intestinos perfurados. Mesmo quando erro e o skate zune próximo a elas, no máximo levantam-se, recuam brevemente e logo voltam para perto de mim. Tranco-as dentro de casa, mas não adianta muito, a gatinha mais nova sempre dá um jeito de escapar e ficar ao meu lado. Gosto demais dela. Tanto por preguiça minha em alertá-la novamente para sair de perto de mim, quanto por preguiça dela, que adora ficar refestelada ao sol acompanhando-me, ollies particularmente altos aterrissam estalados ao lado das pernas dela, que não se assusta com o barulho – ela nem sequer se mexe. Solto as cachorras e deixo que todas me façam companhia, bem-vinda ao fim das contas. Vou afastando-as, elas voltam, e assim vai. Deixei de ficar nervoso ao ser observado e torno-me um skatista melhor. O skate, às vezes, escapa e rasga o ar a milímetros delas. As bordas desgastadas estão parecendo facas, sem muito corte, é verdade, mas é o suficiente para talharem a minha pele mesmo quando batem de leve. Nada nunca acontece com elas, na real, mas não é que não possa acontecer. É que não quero sair de perto de casa. JFA, Minor Threat, Brujeria, Poison Idea, Mzuri Sana, Parteum, Paura, Bad Brains, Jesu, Nação Zumbi, Zeni Geva, Toasters, Alice Donut, Citizen Fish, Crass, sempre alto, um atrás do outro, no fim de tarde, sol fraco e bom, tomando suco de laranja e bem acompanhado. Lendo as velhas Chicletes com Banana em um ou outro intervalo em que a respiração fica pesada, rindo do Furio Lonza falando mal de skate. Os moleques do quarteirão ao lado aparecem com skates debaixo do braço e começamos a montar uma rampinha para subirmos no muro de casa. Nenhum namoro nunca foi tão bom assim. É que elas não confiam em mim. Deveriam. Também só as conduziria a fazermos essas fitas da hora. E outras mais ainda, claro. Só que elas teriam que confiar em mim. De qualquer forma, gosto de todas elas. Principalmente das gatinhas e das cadelas. É uma pena que não dá para mantê-las em casa.

Sunday, July 27, 2008

Encanação

Ela se chama Jocasta. As amigas devem achar muito estranho, penso enquanto ela embrulha o presente para Mariana. Deve ter uns 19 ou 20 anos, embora pareça ser um pouco mais velha do que isso. Mas só pode ser, quando é que foi? Foi em 1988. A Vera Fischer e o Felipe Camargo era o Édipo – era Felipe Camargo o nome daquele cara? Fodam-se essas merdas, eu não sou o Marcelo Mirisola... pra que perder tempo pensando nisso? Mas que nome idiota para se pôr na filha. Será que a mãe leu o Édipo Rei alguma vez? Eu também não, nem acho que vá ler. Não deveria ficar pensando mal de alguém que é paga pau de novela. Jocasta passa um laço caprichosamente no alto do pacotinho com as blusinhas e me diz, sorrindo, para eu pegar o pacote no caixa com uma mina lá. Demoro o olhar nela um pouco mais do que devia até deixá-la um pouco desconcertada. Percebo a besteira, digo obrigado e saio rápido de perto daquele balcão. Dia dos namorados de 2008. Deveria compartilhar um pouco mais, mas não rola. Ela deve estar sozinha. Não é justo, mas vai ficar assim.

Sunday, July 20, 2008

Você tem cinco minutos

Você se foi atirando-me acusações, todas rebatidas, ponto por ponto, aos gritos e por e-mails que não foram respondidos. Não a reconheço ao perceber que está adulando os esquerdistas ora no poder, os mesmos que você sempre criticou e desprezou, para desespero dos seus pais sindicalistas. Os mesmos políticos nos quais sempre votei e nos quais não pretendo renovar meu legado de confiança através do meu voto, de resto inútil, pois agora não confio em mais ninguém. Graças a você. Seus pais ao menos devem estar contentes. Pronto, não precisei mais do que cinco minutos para redigir este bilhete e pensando bem não quero tomar chá de cadeira antes de entrar na sua sala. Para que ver sua cara novamente? Para enfeitiçar-me de novo, voluntariamente. Melhor não.

OBS: Este blog ficou mais de um mês sem atualização e ninguém reparou, fazendo jus ao seu nome. Legal, faz muito sentido. A quem interessar possa: a partir de agora atualizarei aos domingos. Ando sentindo-me inspirado, gostei do conto acima e ando escrevendo contos maiores que têm me satisfeito.

Monday, June 16, 2008

No future for you, já dizia John Lydon

Nada de relevante de novo. Esta é de 2006:

NUNCA MAIS

Você nada me contou. Permanecerá deitada até que um dia a alcance. Sempre que algo assim acontecia, nos detestávamos por alguns dias. No entanto, nos odiaríamos inelutavelmente se eu soubesse desta. Deveria não me importar contigo, mas sinto muita saudade e só consigo pensar coisas boas a seu respeito. Grato pela omissão.

Monday, June 09, 2008

Memento Mori

Com o tempo se aproximando, ele sentiu-se petrificado. Não conseguia se mover. Vivendo fora do tempo, isso soa natural, mas não é. Ele ganhou dez anos de existência fugaz para compensar os cinco de olvido. Dez anos existindo apenas durante as noites e madrugadas, por algumas poucas horas. Enquanto ela sonhava. Surpreso, às vezes via-se consciente sábados ou domingos durante as tardes. Uma vez ela caiu doente e ele se encontrou às onze horas de uma terça-feira, por meros 4 minutos, enquanto ela cochilava. Ele prolongava os sonhos dela, conversando, convencendo-o que era ela real. Enquanto isso seu corpo envelhecia, mas ele era o mesmo de 15 anos antes no fluir etéreo. Finalmente ele desperta do coma. Mudo e paralisado, não consegue explicar para ela que era tudo verdade. Ele espera que ela note sua ausência no sono.

Monday, June 02, 2008

Nostalgia é um veneno, já dizia Jello Biafra

Outra semana em que não escrevi nada de relevante.
Já que falei da Ops!...
Segue abaixo link para a crônica que foi publicada.
A reproduzi originalmente em meu primeiro blog:
 
http://humanoobsoleto.blogspot.com/2006_01_01_archive.html

Monday, May 26, 2008

171

Não escrevi nada decente semana passada. Foda-se. Fiquem aí com um link para um conto que escrevi em 2004 e que foi publicado em 2005 em um fanzine eletrônico legal. O conto chama-se 171, esse eu curti reler:

http://paginas.terra.com.br/arte/zinekaos/umseteum.htm

Monday, May 12, 2008

Detestável

Todos pararam de ligar para Jonathan depois que ele agarrou bestialmente a Melina diante de todos, inclusive de Nando. E ele nem estava bêbado para se justificar. Apenas andava parecendo quase moribundo naqueles dias, mas todos já haviam se acostumado com a sua mudança. Desde que se tornou taciturno tornou-se uma companhia mais agradável, pois era uma mala do caralho, só suportado porque era namorado da Guta. Ela o abandonou e passou a andar com outra galera, deixando-o como um legado maldito. Ele passou a fazer boas piadas e a ficar na dele, mas todos só se ligaram que ele era um estorvo quando, transtornado, ele se jogou sobre ela como uma hiena que não tem a menor chance de abocanhar a presa do leão.

Ela socou tão fortemente o orangotango que dispensou Nando de qualquer outra participação, mas mesmo assim todos o tiveram que o segurar, dado o seu tamanho oriundo do uso de bombas; com exceção do Fraldinha, que empurrou Jonathan para fora do bar, pois ele ainda teve a pachorra de tentar acertar uns chutes em Nando. Quando finalmente Nando se acalmou, ele ameaçou sair correndo atrás de Jonathan e só não alcançou seu intento porque Melina o segurou pela juba, fazendo um esforço sobre-humano para manter o chumaço de cabelos na mão, enquanto todos estavam sem reação, estupefatos. O Fralda conseguiu enfiar Jonathan dentro do seu carro e deixou-o em casa após levá-lo calado. Ambos em silêncio. Jonathan apenas murmurou algo sobre amá-la desde há muito. Não houve resposta.

Era mentira. Só, deprimido e sentido que era apenas tolerado por estranhos que eram como amigos postiços, ele se apaixonou repentinamente pela única mulher que realmente o tratava bem. Brutal, intenso e explícito, assim que deveria ser, na sua acepção.

Isso foi na sexta. O final de semana inteiro passou enfurnado dentro de casa, limpando as feridas psíquicas e os cortes na boca, pois Fralda também lhe deu uns tapas na cara, de mão cheia e sem qualquer consideração. Ninguém lhe perguntou suas motivações. É como se todo o desprezo que sempre sentiram por ele finalmente tivesse uma oportunidade de aflorar. Sua única amiga de verdade, ele pensava assim, como um adolescente, era Laura. Ela mudou-se e seus telefones estavam cortados, tanto o fixo como celular. Típico dela, uma duranga. Na faculdade, no sábado de manhã, disseram que ela estava viajando.

Não conseguia conversar com os pais, joguete que era nas brigas deles. Passou o domingo jogando videogame. À noite ligou para Guta. É, estou sabendo de tudo, você não passa de um filho da puta mesmo, só tendo a auto-estima lá embaixo que nem eu tinha para te namorar. Bateu na cara. De novo, pois é.

Segunda de manhã, viu chegando pela janela o ônibus com o qual ia trabalhar. Decidiu que não ia perdê-lo. Calculou bem e jogou-se em cima dele, mas acertou o moto-taxista que vinha logo atrás. Assassino ao morrer, não teve boas manchetes e foi enterrado pelos pais, alguns poucos parentes e por Guta, isso ele gostaria de saber.

Monday, May 05, 2008

Balada errada

A única sala vazia está escura o suficiente. É a menor de todas, portanto tem a grande vantagem de possuir apenas um sofá. Enorme, é verdade. Vinte minutos antes, havia entrado lá procurando um cômodo com mais privacidade, e me deparei com três sujeitos acompanhados por uma menina. Chega, não volto mais sozinho para a casa dos sofás.

Corro para a tenda. Procuro, procuro, acho. A luz negra realça seu vestido branco. Ela joga o cabelo para os lados, braços para cima; ensaia uns passinhos de samba. Drum n’bass brasileiro. Como todo mundo que havia descoberto isto ontem, tinha os quadris duros. Muito neguinho olha para aquele balançar desengonçado e ri de soslaio. O momento é este. A lábia e o requebrado desgastados pelos anos de rotina doméstica ainda hão de funcionar. Aproximo-me, deixo solto meu lado Dudu Nobre, ela sorri.

- Ninguém mais dança assim – grita no meu ouvido.

- Na minha quebrada, ninguém perdeu a manha.

Berro isto três vezes. Vale a pena. Ela começa a rir, a cara enfiada no meu ombro, as mãos apoiadas em meu peito enquanto mexe aqueles tênis brilhantes. Minha impressão de achar uma patricinha ligada no perigo estava certa. Percebi ao apontar meu rosto naquela “pista de dança”. Os bons, velhos e maldosos instintos. O poperô volta a bombar. Ela quer ficar no meio daquele barreiro. Eu não. Ainda agüento três “músicas”. Tsi, tum, tsi, tum.

Desisto, não estou com paciência pra ficar mimando madame criada por FMs e balconistas que a vestem de Cavalera. Olho para a casa, faço menção que vou pra lá com a cabeça, e saio abrindo caminho em meio ao povinho fashion. Chegando perto da janela azul, me viro e só vejo os clubbers boiolas de sempre. Começa a amanhecer. Hora de vazar. Ao encostar-me na parede para descansar um pouco, vejo uma ruiva empurrando uns agroboys. Ela me seguiu.

A porta da frente está trancada. O único jeito de entrar agora é pelo buraco do cachorro da porta de trás. Quando ela engatinha pela portinhola, eu penso na minha adolescência, no banheiro de azulejo rosa, e me pergunto por que nunca fantasiei isto antes.

Agora só havia luzes vermelhas bem fraquinhas no corredor. Os cômodos ficaram insondáveis. O solitário sofá daquele quartinho de empregada foi ocupado. Ela ri do meu desconforto, e, tropeçando nas próprias pernas, arranca uma lanterna da bolsa. Ela gargalha ao apontar o facho para a cozinha. Só dava neguinho berrando “Apaga isto, vaca”. Têm quatro, cinco pessoas por sofá. Todos homens, acho. Subindo correndo as escadas, ela gargalha ainda mais.

Tomo a lanterna de sua mão. Aí ela tem uma idéia pior. Acende a luz de um dos quartos. Ninguém acredita que existiria uma garota tão enxerida assim. Vários casais deitados, sentados, de ponta cabeça, naqueles sofás, e... Toni em cima de um magricela com a cara enfiada em almofadas. Ambos com as calças arriadas. Meu amigo que jogava bolinha de gude comigo. Pô, Toni.

- Apaga a luz agora, o que você está olhando?! – Estou olhando ele fechar o zíper, e agora me sinto duplamente otário.

- Porra Negão, justo você, me fazer este papelão - Toni arfava indignado.

E ela ri alto, mais alto ainda enquanto Toni nos puxa pelos braços através do corredor. Ele nos joga com toda força em um banheiro. Tem um sofá! E nele caímos. Ela me pergunta quem era meu amigo. “Segurança da rave”, é tudo que posso dizer. Seus risos ficam ainda mais histéricos.

Acendo a luz, e contemplo sua boca borrada de batom, maquiagem pesada escorrendo junto ao suor. Faróis acesos. Senhorita Roubada, o que vamos fazer trancados aqui?

- Quer tomar essa pílula azulzinha? Um sorriso sacana é esboçado.

- Não preciso disso.

- Nem eu.

E engole a pílula com água da torneira. Reclama que está com gosto de ferrugem. Digo que desejo experimentar o gostinho. Fazendo-se de desentendida, sugere que eu beba direto da torneira. Deito-a com jeito, e, como diria meu avô, roubo um beijo. Apago a luz. Era a deixa.

Toni e outro segurança entram e acendem a luz. Vingança. É justo. Somos arrastados pra fora da casa. Saio atrás, e não acredito no que ouço:

- Amor, onde você estava?

- Te procurando.

Mesma roupa, mesmo cabelo. É o rapazinho magrela do Toni. Com a minha mina. Abraçando-a. Dois pombinhos. Saem de mãos dadas. Nenhum deles olha pra trás. Toni, ao meu lado, parece mais resignado.

- A vida é assim. Negão... escuta, a galera do bairro, eles não precisam saber...

- Saber do quê? Não sei de nada.

Toni já havia me economizado uns dois meses de salário. Em toda festa que ele trabalhava, eu entrava na faixa. Um tapa na minha nuca, só pra não perder o hábito, e ele sai andando com o gorila camarada dele.

A casa parece tremer, não sei se por causa devido aos graves das caixas de som gigantes ou se... esquece. Não volto lá sozinho.

Tem uns malucos jogando no campinho de futebol society. O negócio é acompanhá-los. De um jeito ou outro, eu pego uma pelada aqui.

Escrevi e reescrevi este conto várias vezes no segundo semestre de 2004 para a revista Ops!, um projeto de final de curso feito por grupo de estudantes de jornalismo, do qual uma ex-namorada fazia parte. Apesar de tê-lo editado em uma versão menor, ainda estava muito extenso e fiz outro, que foi publicado com uma ilustração do escritor Chico Lopes. A versão original deste conto só foi lida pela orientadora e algumas integrantes do grupo, permanecendo inédito.

Monday, April 28, 2008

Ficção científica a curto prazo

É gente demais se espremendo. Sam estranha a expressão, “papagaio de pirata”, a qual nunca tinha ouvido, apesar de já ter adentrado na casa dos 20 anos e de já ter visto outras recepções a candidatos. Assim que o avião com Magalhães desponta por cima dos morros, alguém que estava com seu assessor direto ao celular dispara a metralhadora verbal e todos focalizam o alvo. Assim que ele, o mais bem cotado nestas eleições, desce as escadas, começa o beija-mão que notabilizou as aparições locais do seu pai. Os repórteres atropelam os petistas, novos aliados de Magalhães, que mal chegam perto, para alívio da diretoria da Associação Comercial – todos estão constrangidos com aquele disparate. A imprensa transmite ao vivo e grava declarações de vitória que não respondem a nenhuma pergunta, sejam as sobre o escândalo das contas no Saara Ocidental, sejam as totalmente inócuas.

A estratégia tramada pelo chefe de gabinete logo se revela eficaz: o forte cheiro de bioquerosene faz todos suporem que há um vazamento de combustível. Tão logo se livra dos microfones e câmeras, beneficiado pelo empurra-empurra, Magalhães se deixa levar pela onda humana, sorriso em punho, desbragado mas em guarda. Sobe na 4x4 improvisada em trio elétrico de Tio Tião, o novo-rico da ranicultura orgânica. Sam é carregada para o carro de seu tio, que pretendia partir à frente, mas sai relativamente atrás do cortejo. Os tios gritam, se esgoelam, cortando todos e entrando na contramão perto de curvas apenas para se emparelhar ao lado do carro de Magalhães, que acena irresponsavelmente para eles sem entender nada. Quando quase batem em um velho Tucson que buzina a todos pulmões, Sam definitivamente zanga-se e diz que não adiantará nada morrer antes da hora.

Ao chegarem ao teatro, têm que esperar mais puxação de saco e uma longa palestra entremeada pelos trechos do novo documentário sobre a modernização da gerência do Estado implementada por Magalhães, que permanece estóico, apesar das piadinhas de efeito que solta para deleite da platéia, que tem a frente uma claque bem treinada na arte de forçar o riso com espontaneidade. No camarim, depois de conceder uma entrevista prazerosa para o dono – que tem seu próprio programa – de uma provedora aliada de audiovisual para celulares, Magalhães enfim ouve falar de Sam, e pede para o rapaz entrar. Para sua surpresa, a cadeira de rodas traz uma garota, Samanta. Ela começa a chorar com mais essa confusão. Carismático, ele a acalma, abre a carteira, paga a primeira parcela da sua viagem de tratamento, despede-se com um abraço caloroso e desejando o melhor para ela.

Assim que Sam embarca, seu pai começa o trabalho de convencimento nos sindicatos, uma campanha efetiva e relativamente barata para Magalhães, que definitivamente mantém petistas incômodos à margem. Sam só tem que esperar quatro meses para o pleito, com morfina à vontade. Seus tios a levaram ao consulado em Amsterdã para ela votar, mas ao contrário de toda a família, ela não votou em Magalhães. O que ele pode fazer, matá-la? Finalmente, no dia seguinte, logo após ser anunciada a vitória de Magalhães, a eutanásia é feita às pressas para evitar qualquer contra-ordem e assim ela morre longe do SUS, pelo menos isso.
18/06/2007

Saturday, April 19, 2008

História para matar o tempo

Descendo a rua abaixado para melhorar o coeficiente aerodinâmico, ele não percebeu o ônibus virando a esquina da Aníbal Machado. Morreu por nada, ele não era nenhum ciclista que entraria em competição nem tinha pressa de chegar em casa, estava apenas fazendo graça; infelizmente ninguém estava olhando. Seu primo contou a história no bairro do outro lado do rio. Ser enterrado em caixão fechado é o que deixou a molecada abismada. Ninguém nunca havia imaginado que isso acontecia. A história se tornou lendária mesmo nas gerações seguintes; vinte anos depois era usada pelos pais para tentar controlar as peraltices sobre rodas da molecada. Naquele bairro, ele era alguém, mas não batizou nenhum nome de rua.

Friday, April 18, 2008

1983

Ela me deu apenas o endereço do prédio, sem o número do apartamento. Foi de propósito, com certeza, conhecendo o pendor que ela tem para dificultar tudo. Pensava que ela morava em uma casa até chegar à porta do edifício. Disse para eu passar às duas da tarde, hora em que certamente estaria acordada. Dentro do prédio, Leave me Alone tromba comigo vindo pelo corredor. Subo a escada atravessando a muralha sonora, que vai se tornando mais densa até identificar a fonte: apartamento 7, modificado a canivete para FACT 75, com as ranhuras de “FACT ...5” cheia de lasquinhas secundando o 7 de metal. Bato na porta, mas ela só atende depois que ouço a agulha se levantado e dou uns toquinhos de leve na madeira, como se estivesse fazendo figa para espantar o azar. Nunca a tinha visto de vestido e jamais a imaginaria com uma bata florida. Ela me convida para entrar com um sorriso e um aceno de cabeça, nada mais. “Desculpe-me, acabei de acordar, vou no banheiro. Instantinho”. Olho por um tempo os desenhos em sulfites colados com fitas adesivas na parede, as poesias cabecinhas assinadas por gente que desconheço totalmente e uma história em quadrinhos obscena de ruim desenhada pelo Miltão, o que me desanima de examinar os demais rabiscos que subiam até o teto, às vezes. A varanda da república, famosa, estava ali na minha frente para finalmente conhecê-la. Não tinha nada além de uma rede e umas plantinhas. Observo as pessoas abaixo, correndo pela rua de trás, e uma faxineira limpando o fundo do prédio. Todos correndo, testas enrugadas (aposto), com a exceção de uns velhinhos barrigudos e de chinelo, na porta do bar, desinteressados de tudo e por isso mesmo desinteressantes. Estes são os bons tempos da juventude aos quais me referirei como meus, contemporâneos dos tempos azafamados, acelerando para a morte, de todo mundo ali embaixo? Se este tédio será saudoso, não quero imaginar o que se avizinha com o fim da faculdade, daqui a dois meses. A universidade já é quase uma terra estrangeira, hostil com quem sonha em ficar naquela complacência estagnante e convidativa. Claro, muito neguinho engajado no movimento estudantil acha o que procura, mas eu passo por boa-praça ao dar guarida para eles quando a arara ameaça chalrar. “Voltei”. De shortinho, camiseta e All Star sem meia, cada um de uma cor, melhor assim. Os óculos não estragam nada. Ela deve ter pegado a bata de uma das meninas como pijama. “Achei o livro na biblioteca do centro, acho que salvei o nosso trabalho”. “Que bom”, ela suspira. Não escrevemos nem 15 minutos, chá gelado à mesa. Celly estava faltando no meu currículo escolar. Marijuana na rede e Chico na vitrola, mas ela não relaxou. As meninas devem chegar mais cedo hoje. Daí para o quarto que ela divide com Regina, mas no beliche a cama dela é a de cima. Com pavor de altura, não desempenhei bem até convencê-la que a fazer de pé, no chão, novidade para ambos. O último dia bom dos bons tempos ou o primeiro do resto de nossas vidas, veremos. Em dezembro prometeram uma vaga para mim no escritório do doutor Nogueira e 1984 começou como o pesadelo previsto, duplipensando juízos de valores negativos e petições favoráveis.

Thursday, April 17, 2008

É disso que o povo gosta

O capacete rachado ao meio dava idéia da violência do impacto. Quando o levantaram, a massa encefálica fugiu para o asfalto, finalmente dissipando a fissura. O pó talvez o matasse de qualquer forma. Os demais mototaxistas que meio que fizeram um piquete no local não queriam saber disso, mesmo os que sabiam. O linchamento do caminhoneiro só não foi mais cruel porque a polícia passava por perto justamente para pegar o cafezinho na boca-de-fumo. O obeso senhor foi levado às pressas ao hospital, mas não resistiu. O cinegrafista de um dos programas policiais locais, cujo apresentador garante não ter um pingo de sensacionalismo, registrou tudo isto e também os mototaxistas cercando sua moto para tomar-lhe a câmera, quando finalmente o reforço chegou. O Supermercado do Tio César e o Açougue Coliseu gostaram das inúmeras chamadas para matéria em meio aos seus reclames.

Wednesday, April 16, 2008

Maturidade

Faz tudo para não se queixar. O único modo de conter a agressão verbal é não falar. Passou a manter-se tão calado quanto no serviço ao mesmo tempo em que evita parecer taciturno. Tem funcionado bem. Agora ele passou a ser aquele bom companheiro que também ouve, aliás, que ouve muito. Nunca houve um como ele, ao menos para ela.

É um benefício que ela colheu da experiência dele. Relacionamentos, ele aprendeu, são exatamente iguais a temporadas no presídio. Resignação e bico calado são as senhas para a sobrevivência. Claro que nem tudo é fácil assim. Esses livros de auto-ajuda para casais não funcionam a contento exatamente porque também não existem manuais de auto-ajuda para presos. Às vezes o único modo de não virar mulézinha é socar a fuça de quem está por perto, mas aí as conseqüências são imprevisíveis.

De certo, apenas que o nível de agressão tem que ser zero a maior parte do tempo. Internalizado, passa batido. Boxe e musculação mantêm a harmonia até que elas passam a ter ciúmes de luvas e aparelhos e passam a demandar mais tempo, o que fode tudo. Por enquanto não tem sido assim.

Tuesday, April 15, 2008

Tudo saiu errado

Semanas de estagnação se passaram desde que ele recebeu a boa notícia pelo telefone. E nada do que estava previsto aconteceu. A firma faliu por capricho de um dos sócios, que discutiu com o chefe da Vigilância Sanitária local devido a uma banalidade, como se não houvesse nenhum podre fedendo há quilômetros de distância.

Hostilidade bate, volta e ricocheteia em quem tem uma relação apenas transversal com o fato. Desempregado, mas com mais contas a pagar, devido à precipitação de contar como certo com o que se revelou impraticável, ele teve que apelar.

Com certeza há humilhações piores do que ligar para ela. Não era o que ele sentia no momento. A voz saia abafada e chorosa, lotada de tristeza e entregando toda a insegurança há muito arraigada no que restou da sua personalidade outrora forte. Ser rejeitado por ela também nisso seria mais insuportável, dadas às circunstâncias. No entanto, ela emprestou o dinheiro, não antes sem um incômodo “Eu te avisei”. Perguntou se ela já tinha alguém novo. Não. Não podia aparecer também. O novo apartamento dela foi benzido.

Friday, March 28, 2008

Começo do fim

Ele se achava impulsionado por tudo aquilo enquanto ela achava que ele era limitado por tantos afazeres. As saudades estavam azedando e isto não estava cheirando bem para ninguém, a não ser para ele, alheio a tudo.

Na quarta-feira, antes do café da manhã, ela abriu a janela logo que ele acordou. Mandou que ele se levantasse e olhasse. “Está vendo todas estas casas nestes bairros que sobem morro acima?”. Ele fez que sim com a cabeça. “Por mais que você consiga mudar o mundo, e pode ter certeza que você vai mudá-lo muito pouco, alguém sempre estará padecendo de ignorância, dor e humilhação dentro de alguma dessas casas. Você não vai alcançar todos”.

Tomaram café calados até que ela começasse a falar sobre sua mãe e irmãs, sobre a briga que elas tiveram entre si, para desanuviar o ambiente. Olhando pela janela, ele não se vê sem ela, mas de repente não a sente junto a si no ano que vem.

Thursday, March 27, 2008

Pior sempre fica

Tentando fixar o olhar na árvore que balançava ao vento frente à janela enquanto tinha a impressão que estava vesgueando de sono, ouviu abaixo a porta se abrir, embora não tenha escutado barulho algum no portão. Surpreso, mas compreendendo que as madrugadas passadas em claro estavam saqueando sua concentração, desceu com a garrafa vazia de cerveja na mão, precavendo-se contra o pior. Não era nada demais, apenas o Pai que estava chegando mais cedo, mas um algo pior se descortinou. Bebendo à tarde, está ficando louco?, teve que ouvir. Só estou relaxando um pouco, estou muito ansioso. O Pai saiu da oficina mais cedo para aproveitar o último fim de tarde ensolarado no horário de verão. Encalorado e bem humorado, capitulou e convidou o Filho para mais uma cerveja no quintal. Pai deitou-se na rede e Filho na espreguiçadeira, ambos apenas de bermuda. A conversa preguiçosa sobre virabrequins, carburadores do tempo do onça e clientes sobre os quais nunca ouvira falar e que não o interessavam fizeram o Filho cochilar. Um último gole sozinho e o Pai ligou o rádio. Enquanto pensava se devia abaixar para não acordar o Filho, este despertou com o anúncio dos números da Megasena. Eram exatamente os que ele sempre jogava; levantou entusiasmado. Você fez o jogo para mim, né pai? A cara esbugalhada de espanto alcoólico do Pai entregou na lata que não. Puta que pariu, não jogou? Não jogou, como não? Usei o troquinho para comprar pão. Estou trabalhando demais, demais. Custava fazer a fezinha? Você tá zoando, né? Chegou perto e gritou no ouvido do Pai. Tá zoando, né? Como que fico agora? Pior não fica. A garrafa de cerveja espatifou-se na têmpora do Pai. Chutes no peito, barriga, costas e perna. Ainda buscou a outra garrafa na mesa, dentro da sala, e tacou nele. Errou. Ele mesmo chamou a polícia e entregou-se, arrependido. O Pai não quis dar queixa. Ambos continuam trabalhando como sempre, não tocam no assunto e remoem as frustrações em bares diferentes, quase sempre discutindo futebol.

Wednesday, January 30, 2008

Don Juan de araque

O aplique sugeria que era ela vaidosa. Também era vulgar, depreendia-se pelas altas botas de camurça deixadas à mostra por uma minissaia jeans e também pelo modo de mascar chicletes com a boca aberta. A blusa jeans por cima da camisa listrada que esconde os diminutos peitos fedia aos cigarros que ela fumava compulsivamente. A voz estridente e o olhar cheio de escárnio me fazem ter certeza de que ela é solteirona, mas se acha esperta o suficiente para sentir-se poderosa ao rebolar a bunda desprovida de carnes em um show da Ivete Sangalo.

A risada estrídula é pior do que a voz. Ela fazia questão de escancará-la às gargalhadas. O cabelo tingido do vermelho típico das quarentonas era a senha para a brancura que os dominava. O rosto trigueiro e magro, com os ossos protuberantes, era cheio de manchas senis. Tinha todos os dentes, mas eram amarelos e alguns decididamente estavam em bizarros ângulos, quase obtusos. Parece-me um bom desafio: fubanga, mas com auto-estima. Talvez fosse fácil, talvez fosse procurar chifre em cabeça de cavalo, como diriam meu pai e tios.

Má idéia. Ela gosta de conversar – de falar pra caralho, na verdade. Pior: tem alguns valores com que me identifico e os quais nunca encontrei nas mulheres que tive. É membro da Sociedade Protetora dos Animais. Não dá dinheiro para igreja nenhuma. Faz questão de dar esmolas. Pior ainda: na verdade, é maldosa e fala mal de várias pessoas que não conheço, mas que ela cita sem apresentação prévia, como se também fossem da minha convivência. Para cortar a conversar descarrilada, meto-lhe um beijo. Rolou, mas não rolou o que interessava. O resto da noite foi desperdiçado com mais aluguel sobre desconhecidos e uma longa viagem para uma quebrada que eu não conhecia e na qual me perdi ao voltar para casa, só encontrando o caminho quando começava a amanhecer.

Thursday, January 17, 2008

Carpe Diem

Corria bêbado, certo de que estava livre, quando tropeçou na raiz exposta de uma das árvores que margeiam o parque. Demorou a reagir ao tombo. Conseguiu jogar os dois braços à frente, para sua própria surpresa. O que não impediu de que ainda assim batesse a cabeça no chão, dado a velocidade em que estava. Ralou os braços e ainda ganhou um galo na testa, que doía ainda mais porque havia um corte no meio.

Tuesday, October 16, 2007

Microconto em inglês

The snake in the grass

A snake charmer fell in love with her. Now he’s trapped in a box.

Monday, September 10, 2007

Gatinha

Paula lambia-se como se fosse um gato. Sabia que não tinha lógica, mas é um hábito de criança do qual não consegue se livrar. Finalmente em casa, depois de um banho e do almoço, morrendo de sono em frente à TV, sol a pino e sabendo-se privilegiada por estar naquele quarto fresco, todo bege e bem-ventilado, Paula lambe-se e arrepia-se consigo mesma, sua melhor companhia, ainda que não considere dispensáveis as demais. Contorce-se na medida do possível, estendo a língua onde aprendeu que era bom pô-la, até que se aconchega no edredon e, antes de apagar, pensa brevemente como em ser contorcionista de verdade. Quando acorda, ao fim da tarde, o sol já amigável, ela espreguiça-se pacientemente e sai para caçar.

Tuesday, August 14, 2007

Judas, Caim e Abel

Um dia, percebeu que um plano simples bastava: não precisava brigar para ser o macho alfa ou se contentar em ser subalterno. Fez concurso para oficial de justiça sem contar para ninguém e ficou contente por ter conseguido uma colocação ruim. Justamente por isso, devia ser chamado para trabalhar em uma cidade distante, em alguma comarca para onde ninguém queria ir. Teve sangue frio, agüentou as provocações dos irmãos e dos pais sem anunciar para ninguém que havia garantido uma vaga e esperou o momento de ser chamado enquanto trabalhava no supermercado, em meio à remarcação de mercadorias vencidas, clamores para que fosse menos lerdo e clientes mal-educados. Chamado ao fórum, confirmou seu interesse na vaga e quietamente embalou seus poucos pertences, sacou dinheiro da poupança para passar o primeiro mês e esperou a noite da véspera chegar para comunicar a mudança a todos. Antes, ao fim da tarde, seus pais notaram que seus livros, apostilas, roupas e carrinhos de brinquedo tinham sumido. Quando chegou, foi chamado de mal-agradecido e teve sua mala jogada no regato ao lado. Sorte que foi amparada pelo bambuzal. Ambos, mala e mala, foram diretamente para rodoviária. Anos depois, em meio a muita falação antes de fazer uma citação, viu a foto de seus irmãos no jornal em cima do balcão da lanchonete. O mais velho matou o caçula em meio a uma discussão sobre quem deveria administrar o negócio. Um templo evangélico funciona no prédio onde ficava o supermercado. Poucos na vizinhança ainda se lembram do estabelecimento e daquela família ao passar com pressa pelas mulheres do bairro que fica do outro lado do córrego, com suas grandes saias e proles.

Friday, June 22, 2007

Cromo

Ela esqueceu de tomar o remédio, mas na verdade esqueceu que havia tomado-o. Dormiu dois dias seguidos, com a porta aberta. Os cachorros que sempre vagabundeavam pela redondeza entraram, comeram toda a comida sobre a mesa, rasgaram o saco com as fotos talvez por achar que também fosse comida, talvez por diversão, e destruíram recordações que iam de 1977 a 1991. A sorte que foi que o gatinho, Mimado era o nome, chegou e pôs os curiosos para fora com patadas nas fuças dos pobres bichos, todos com costelas à mostra. Muitas fotos ainda foram salvas assim, mas não foram mais vistas. Quando suas sobrinhas apareceram para visitá-la, vendo-a estendida no sofá, o gato a seus pés e toda aquela confusão na cozinha e sala, imaginaram o pior, mas não conseguiam se decidir: ou ladrões entraram lá, ou ela estava morta há dias e o gato detonou tudo. Finalmente perceberam que ela apenas dormia, e acordaram-na para o pesadelo de levá-la para o asilo, onde ela não podia cuidar de suas coisinhas. Bem de saúde até então, rapidamente adoeceu e se foi. Todos estavam contentes por ter tomado a decisão certa, não a abandonando para morrer sozinha em casa.

Monday, June 11, 2007

O que cair na mão

Lia de tudo, compulsivamente. Lima Barreto, Oscar Wilde, Dan Brown, Paulo Coelho ou auto-ajuda, tanto faz. Não fazia quase nada e quase ninguém passava por ali. Pressionada a ser funcionária pública pela família e pela falta de perspectivas, fez concurso, passou raspando e fica só quase o tempo todo. Disso ela gostava, podia ler sussa. Os turnos de 12 horas, nos quais ela passa madrugadas adentro vigiando escolas periféricas, bagunçaram seu relógio biológico. Ela quase não dorme em casa, nunca dorme em serviço porque morre de medo de ser demitida e ser ainda mais achincalhada em casa. Seus cabelos estão caindo, seu rosto de menina, apesar dos 20 anos nas costas, está se enchendo de manchas senis. Ela não sabe fazer nada a não ser atirar, porém o porte de armas foi cassado à guarda metropolitana. Em dois anos, a única ocorrência que lhe emocionou fora das leituras foi quando dois ladrões entraram em uma creche para roubar a TV e o DVD da brinquedoteca. Ao flagrá-los, surrou-os com a tranca da porta e encerrou-os no banheiro, para que não danificassem nenhum brinquedo. Esse cuidado, a valentia e a presteza garantiram-lhe respeito na corporação e na PM. O processo por cárcere privado foi rapidamente arquivado e a alegação de legítima defesa aceita de antemão na sindicância. Depois disso, a falta de adrenalina tirou graça da leitura. Disseram-lhe tanto que a TV aliena e que ler faz diferença, mas tantos livros depois, ela não se sentia uma pessoa melhor. Estava tão alheia a tudo como sempre foi. Aqueles dois ladrõezinhos fizeram mais pela auto-estima dela do que qualquer Augusto Cury da vida. Ela, que fora sempre tão travada, passou a assistir desenhos e a divertir-se na brinquedoteca toda noite, vivendo finalmente a infância que lhe foi negada na lida doméstica.

Friday, June 08, 2007

Gêmeas

Um ato muito específico para quem a conheceu. Sua mãe fazia exatamente igual. Cruzava os braços e alisava ambos simultaneamente, como estivesse desejando alguém que a acalentasse, mas mantinha-se fechada e afastava a todos. A garota faz exatamente o mesmo. Mais carrancuda, menos amigável. É como se fosse a mãe há quinze anos, mas com um piercing.

Wednesday, June 06, 2007

Bloqueio

Era um grupo de 15 donas-de-casa ajoelhadas, rezando, na escada de mármore branco. Em meio a elas, apenas um homem, desempregado e suando em bicas no sol da uma e meia da tarde. Há duas horas estavam murmurando ininterruptamente cânticos e rezas. No começo dos anos 90 não era moda aparições de imagens de Virgem Maria em vidros embaçados. Matando aula, as duas alças da mochila pesando no ombro esquerdo, o garoto segue indiferente, até que se vê interditado por uma senhora com cara bondosa, implorando para que ele fosse rezar junto. Diante da negativa, ela diz que tem muita pena dele, pois o fim está próximo e o julgamento será minucioso. O garoto observa a cena e pensa por uns dois minutos se tanta reza mudaria algo. Ele se dirige à bilheteria, tapando o ouvido para não ouvir as beatas, e compra o ingresso para o filme pornô cuja sessão está para começar. Dentro, não consegue o que queria, pensando no mau agouro lançado sobre seu desejo. Nunca mais teve uma ereção.

Monday, May 28, 2007

Trilha odorífera

Caminhando cabisbaixo, pensava na ameaça de hipoteca com o odor da bosta de cavalo invadindo-lhe as narinas e providenciando um acompanhamento ideal para o que se passava em sua cabeça.

Wednesday, May 23, 2007

Recado particular

Contra minha vontade, aprendi a atirar antes de espremer espinhas. Papai era obcecado por armas, entendia que era a única defesa confiável, ou isso ou estaríamos nas mãos de meganhas ausentes e incompetentes. Não acreditava nisso, nunca aconteceu nada, estamos nas mãos de Deus e só. Arma nenhuma pode fazer frente à surpresa, ao inconcebível. Fui obrigado a fingir entusiasmo em caçadas a pobres capivaras que nunca fizeram mal a ninguém, a atirar em troncos fingindo ódio por eles serem imaginários invasores de terra. Talvez por não gostar, talvez por querer impressionar a todos e largar logo daquilo, descobri o único dom que os céus me deram: uma mão firme nos coices e uma mira nanométrica. Uma maldição, na verdade. O que iria fazer com aquilo? Não gosto de caserna, polícia (uma boa influência paterna), de caça. Ainda entristeço-me por ter estourado a cabeça de todos aqueles bichos. Depois de, ingenuamente, na verdade ter considerada minha presença indispensável nas excursões, passei a errar de propósito. Tive minha masculinidade questionada pelos tios e compadres, mais do que minha firmeza, mas permanecia tão frio quanto na época em que acertava todas as ranhuras de madeira que afirmava que acertaria. Pedras que voavam longe, galhos partidos, folhas esburacadas, detalhes de troncos chamuscados. Sabia exatamente onde mirava e acertava, sempre.


Tuesday, May 22, 2007

Falta de gosto

Ela nada mais pode fazer que seja do seu desejo. É mimada escada acima, escada abaixo, recebe afagos, atenção e comida na boca, mas não sente nada, em nenhum sentido. Não queria nada disso. Lembra-se que pôde dormir anos e anos com um homem, o tato caloroso. O rosto e o nome dele, ela sonha que dorme abraçada com ele, não consegue chamá-lo nem virar-se para vê-lo. Às vezes uns velhos vêm visitá-la, apresentam-se como filhos. Ela fica agradecida à direção por trazer esses voluntários para fazê-la sentir-se bem. Não diz nada, para não soar mal-agradecido. Os dois filhos, cabelinhos encaracolados, eram dois anjinhos. Eles ascenderam ao céu em um monomotor. As crianças que eles trazem e dizem ser seus bisnetos (ou netos?) parecem-se um pouco com eles.

Monday, May 21, 2007

De bico

Tenho menos de cinco minutos para escrever esse bilhete, a essa altura. Espero que o encontrem no bolso do meu paletó. Te amo, te amo, te amo. As apólices do seguro estão na pasta em cima do guarda-roupa. Queria que a menina fosse médica, fala isso para ela, acho que facilita muita coisa porque ainda dá dinheiro e ainda você poderá confiar de verdade em alguém quando estiver doente, tenho certeza que você ainda vai viver muito, mas ela pode fazer o que quiser, tá? Tenho que proteger a cabeça agora. Se esse bilhete chegar na sua mão, lembrem-se que fui-me pensando o quanto amo vocês.

Friday, May 18, 2007

E eles foram felizes para sempre

Aquela assombração do capeta não merece registro. A simples menção do seu nome é um reconhecimento indevido. Esqueça, não falarei a respeito e seu recado não será passado. Sim, atualmente é inofensivo, sua mobilidade foi reduzida com o passar dos anos, ainda que a perversidade inata esteja apenas mascarada pelas pelancas e rugas de velhinho simpático. Trata-se de algo latente.

O que interessa é o seguinte: acertar uma história meia-boca para despistá-lo. Ignorar é uma benção. Não tem essa, é como se fosse uma perna de cobra: não existe e não interessa conjeturar sobre sua existência. Conte você, não dei moral para espectro nenhum. Não precisa ser nada bem tramado. Que ele perceba, quanto mais evidente que é uma evasiva, melhor.

Ninguém se deu conta que ele morreu, meses depois, a não ser os funcionários que trataram do trâmite para que seu corpo fosse doado a estudos de anatomia em uma faculdade de medicina.

Wednesday, May 16, 2007

Caçada na selva

Não se pode subestimar a capacidade de escrotização dessa fulanada medíocre, versada na ignorância do lugar-comum. Fica esperto, caralho, fica esperto. Eu fico velhaco o máximo que posso, e ainda é pouco, muito pouco. Penso antes, não falo nada, não importa, converso com quem vale a pena conversar, mesmo que você não me convença do que me dizem, ao menos posso refletir sobre o quê foi dito. Aqui não rola, é igual na prisão, aliás, isso aqui se parece muito com uma prisão, com o horário para tomar sol, para ginástica coletiva, bandejão, café com cigarro, câmeras de vigilância e muito ódio dissimulado que eventualmente transborda em pancadaria.
No presídio é assim: não fale. Escolha as palavras. Depois diga o mínimo possível. Revele muito pouco sobre você. Tudo que você diz pode e será usado contra você. Espere um pouco, aja depois. A menos que seja para arrumar um pretexto para fugir. Igual aqui. Pressa para tropeçar não servirá apenas para gargalharem da sua cara, mas para te fincarem no chão e botarem no seu rabo. Igual aqui.
Então o macaco velho de guerra trouxe uma pitaia para comer aqui. O quê? Pitaia. Um cacto comestível. Hidratante, fonte de vitaminas A e C, gostoso. Parece bom. Não interessa. Eu seria mais liso. Ou teria mais "bom humor", ou seja, absorveria as pancadas psicológicas revestidas de brincadeiras para descontá-las com o dobro da violência no momento oportuno. Mas na categoria.
"Trouxe uma frutinha cor-de-rosa para comer", bastou o primeiro carniceiro rosnar para as hienas cercarem a vítima com gargalhadas vorazes. Tentou defender-se entrando na "brincadeira", mas não entendeu nada, aquele era o momento de extravasar todas as frustrações recentes, azar. Eles de fato encarnaram as hienas encurralando o veado indefeso no recanto da cozinha. Portanto, não pode fazer nada além de exaltar-se e distribuir coices. "Exigo respeito, olhem minha idade, estou muito velho para este tipo de falta de respeito". Os sorrisos derreteram-se em carrancas, apelou perdeu, como se ele estivesse errado, tornou-se a "Bicha Ressentida", até sair do escritório, abatido.

Tuesday, May 15, 2007

Sacrifício estilhaçado.

A fila do sopão me aguarda. Esqueci tudo o que me interessava e só me lembro do que é ruim. As humilhações parecem um CD riscado tocando em um aparelho com bateria infinita. Isso é tudo que consigo formular. No mais, só repito o que me disseram. As pessoas na rua acham que estou xingando elas, tenho consciência disso, mas não posso evitar, não posso evitar, não posso evitar e sei que não posso gritar com a assistente social, que minhas roupas estão cada vez piores, o bafo está insuportável, não bebo, mas não adianta nada, não adiantou nada, tudo que fiz não adianta porque a polícia bateu no menino até ele morrer, vendi quase tudo por causa dele e o que restou a enchente levou e todo mundo me odeia, me odeia, porque não estava lá na hora que os agentes funerários apareceram com as pistolas para espalhar o sangue dele ainda mais pela grama vermelha e o que tinha que ter feito era estar lá, temos que evitar tudo de ruim que acontece com ele e eu não procedi assim, estranho que eu ainda saiba usar as palavras, porque elas não servem para nada. Não se diz dinheiro e ele aparece, não se diz filho e ele aparece, nem me lembro mais do nome dele.

Friday, May 11, 2007

Estaremos juntos quando formos velhinhos?

Assoprando no meu ouvido, de brincadeira, tal como ela gostava de fazer há anos, tenho impressão que ela sussurra algo. “O quê?”, pergunto, quase sussurrando também. Nada, nada, não disse nada. Não acho que tenha ouvido o que desejava, como se fosse uma deixa para eu me desprender. Parece real demais, o eco ainda se faz ouvir. Não te agüento mais. Ato falho de confissão involuntária, ato premeditado para me atormentar, ou auto-ilusão conveniente, daquele dia em diante ficou claro para mim que aquele sussurro ressoante encerra uma verdade que começou a se tornar cada vez mais evidente. Por aquela velha história dos filhos e tal, fiquei, mas a fidelidade se foi.

Raciocínio abandonado pelo cafezinho.

“Ódio é apenas uma curta mensagem de perigo”. Nunca imaginei deparar-me com uma frase tão boa em uma dessas correntes de motivação que caem na minha caixa eletrônica. Gostaria que fosse verdadeira. Soa plausível, ao contrário da boniteza irrealizável do mundinho pragmático e solidário dessas mensagens. Não é assim, tampouco. Se fosse, seria muito bom, algo como um imperativo biológico da espécie que reduz outras funções do corpo durante uma situação ameaçadora. Não se trata de nada disso. É um efeito colateral, eventualmente imorredouro, quase sempre com gênese neste tipo de situação. Fica latente e pode acabar com a morte, se não ocorrer nenhuma situação propícia para seu ressurgimento. Suficientemente propalado, quando em estado agudo, sobrevive a nós e perpetua-se por gerações.

Não sei se vale falar algo.

Não posso falar nada. É hipocrisia. Muitas vezes, antigamente, quando era mais honesto, brincava de flertar, só por uma questão de auto-estima. Não acho que isso afetasse minha integridade. Logo cortava a brincadeira. O Marcos Fita é merda. Não preocupa. Para fazer valer a pena um ínfimo da vida do Nathanael, resolvi brincar com ela. Ela tava precisando mesmo, devido ao clima lúgubre do serviço. Até brincadeira escrota servia. Fiquei falando para ela se consolar no ombro do Marcos, se o nariz dele deixasse-a chegar perto. Ela caiu na risada, mas não era uma gargalhada nervosa, era um riso de alívio. Tô fora, aquele cara é um nojento, acha que pode fazer graça com umas cantadas cafonas, ela disse. O que só fez aumentar a minha culpa. Ao menos o próprio Nat deu a chave para consolar uma colega de serviço

Thursday, May 10, 2007

Nathanael foi além.

Foi foda. Nem fui trabalhar segunda. Nathanel morreu sábado à noite, em um acidente estúpido – parece clichê dizer isso, mas uns acidentes são mais estúpidos do que os outros. No velório, domingo, nem parecia que tinha sido algo tão violento. Ele estava inteiro, bonito e mais frio que de costume. No dia seguinte, depois do enterro, decidi não voltar para o escritório para ruminar o quanto a vida é curta e tal. Se quiserem descontar, fodam-se. Terça também não trabalhei, apesar de ter batido cartão. Assombrado, fiquei olhando para o monitor o dia inteiro, sem fazer nada. De certa forma, conversei com um morto, mesmo não sendo kardecista. Assim que liguei o MSN, pulou uma tela de mensagem offline escrita no fim da tarde de sexta:
“Nat escreveu:
preciso te falar uma coisa
Nat escreveu:
bem quando te escrevi isso, você desconectou
Nat escreveu:
Tão tentando furar teus zóio mermão
Nat escreveu:
É aquele Marcos fita, tá muito saidinho aqui com a tua patroa
Nat escreveu:
cresce o olho e intima ela
Nat escreveu:
não que ela tenha feito algo
Nat escreveu:
mas ele tá de zoio
Nat escreveu:
desculpa falar assim, mas perdi seu celular
Nat escreveu:
acho que tenho intimidade o suficiente contigo para falar isso por aqui
Nat escreveu:
pelo menos, quando vc ver isso, terá passado pelo menos mais um findi sussa
Nat escreveu:
a ignorancia geralmente é uma benção
Nat escreveu:
mas eu precisava te falar e não dá para tel ligar em lugar nenhum, dadas as circusntancias
Nat escreveu:
cara vou viajar blz
Nat escreveu:
desculpa o susto mas tenta me ligar quando vc chegar
Nat escreveu: []s”.

Respondi offline “Obrigado, logo nos veremos”.

Wednesday, May 09, 2007

Ma huang

Você tem que usar isso, estou falando de coração. Eu e sua tia usamos como energizante, e ainda ajuda a perder peso. A gente fica mais ativo, pode confiar. Foi um mórmon que ensinou isso para sua prima. É duro ter que agüentar essa chantagem emocional. Como se estivesse destruindo uma centenária tradição familiar. Na verdade, devo estar questionando a tradição de todos pensarem que são médicos diplomados pela vida. Toma, não faz mal. Então vamos lá tomar um troço bizarro da China. Ah sim, mas que é usado pelos mórmons. Faz sentido pra caralho. Sua avó também usa. Minha mãe também está contra mim. Ela não usa, mas está ofendida por eu não querer usar, ao contrário do meu tio, que está apenas mostrando alguma contrariedade que no máximo vai virar uma magoazinha. Para ela, é uma desfeita cruel. Não diz com palavras nem os olhos, mas o gesto de apertar as mãos com força entrega tudo. É modo como ela se contém por não poder mais dar beliscões nos filhos. Tomo na frente deles, ali na hora. Para que essa pressa, filho? Ué, não é para usar? Usa de uma vez. Assim que se fala, gosto de quem tem atitude. Quando eu participava de ações do Greenpeace e organizava shows beneficentes, ninguém gostava de quem tinha atitude. Perda de tempo. Não é a primeira vez que tomo algo que não quero para agradar eles. Antes não sabia de nada. Hoje tem internet para explicar o ataque de ansiedade: essa porcaria tem efedrina. Pensava que aquela semi-síncope era por causa da pressão familiar; pensando bem, é mesmo.

Tuesday, May 08, 2007

Prelúdio

Está tudo tranqüilo, todos estão sorridentes. Isso é quase que mau agouro. O pressentimento de quem conhece a falta repentina de brincadeiras das chefias raramente falha. Será que não percebem que não há planejamento? Quem não reconhece o sinal e crê que tem moral dentro da empresa enfiou o tímpano na roleta russa e não se dá conta. O primeiro que reivindicou um pouco mais de respeito a nossos direitos pro chefão foi degolado no dia seguinte. O novato também tinha certeza que tinha desenvolvido certa intimidade. Opinou e caiu. Sem direitos, vigia o contrato de experiência. Foi tarde, contudo. Já Ariel é um aliado a menos. Avisei antes que as demissões são de veneta, mas ele queria desabafar. Se desse rolo, deu. Deu. Estava farto. Cantei a bola, não adiantou. Ele está feliz, aliviado. A duração do alívio é que me preocupa. Se não fosse apenas hedonismo de duas semanas seguido por meses de angústia com o fim das parcelas do seguro-desemprego até encontrar a próxima senzala, seria bom afetar despreocupação.

Thursday, May 03, 2007

Segunda-feira de cinzas

Os telefones tocam em vão.

Todos com quem preciso conversar não foram trabalhar. Estão metendo, cochilando, bebendo e dando baixaria, queimando as carnes brancas no mormaço, jogando frescobol, cheirando, vendo mulher pelada na televisão, vendo revista de homem pelado no banheiro, alugando filmes pornôs, brochando em suítes caras de motéis vagabundos para ganhar uma chupada, discutindo com os pais velhinhos para depois jantar com eles, ralhando com os filhos e levando-os para tomar sorvete, nadando em piscinas com 37% de mijo, pulando ondas de coliformes fecais enquanto tomam água de coco, andando de bicicleta na chuva, sendo presas por desacato à autoridade, dançando nus em frente ao espelho, lendo Stephen King, ouvindo jazz na praça, comendo pipoca na fila do cinema, socando a fuça do adversário no xadrez, jogando RPG com os primos bestas, passeando com três vira-latas em forma de Cérbero, jogando confete nos travecos, enrolando as putas com serpentina e chacoalhando-se atrás do trio elétrico. Tem quem esteja trancado no quarto, ouvindo Bauhaus. Só alegria, o bordão surgido sabe-se lá onde me incomoda pra caralho.

Não é tristeza. Estou exasperado, pensando, impotente, cumprindo tabela, esperando que amanhã não perca o dia inteiro dormindo pra compensar a insônia que não posso descontar agora. O picareta do chefão veio dar exemplo. Trabalhou duas horas e foi embora rangar e fazer a sesta.

Friday, April 27, 2007

Puxando o tapete

Imprecações à parte, ainda se pode conviver numa boa com o novato folgado. Acha que caiu, ou caiu de fato, nas graças do Mullet. Faz sentido, pois é fácil impressioná-lo com português castiço ou jogando com conceitos recém-inventados/deturpados. O garoto é um alpinista social que tenta se impor pelo volume da voz e pela inconveniência, mas já tomou tantas invertidas dos cobras véias que deu uma murchada. O meu saco ele não encheu nem alisou. Ser praticamente ignorado por um playboy ignorante em um ambiente com dezenas de pessoas é uma bênção.

Everything´s ok.

Now I´m really pissed off. “The enemy works in the corner of my eye”, the song plays again and again in my head. But I have a advantage: he doesn´t know what I´m writing. He barely read portuguese. He´s looking at me, at my monitor, right now, but he can´t do no harm anymore. So I can practice my english while I pretend to translate commercial letters. Instead, I write big e’s to friends who lives in other countries, and that´s it.

O pior inimigo

O sono, a desmotivação, o cansaço, o colega, a indisposição, o cachorro do vizinho, o chefe, a comida gordurosa, a perda de tempo, a gostosa que não dá bola, a auto-estima, a visão do dia lindo lá fora, a falta de sentido nas tarefas, a música ruim no rádio, a TV, a manutenção do carro, a tela do computador desejosa de ser preenchida com merda, a conversa fiada, o lugar-comum, o babaca do qual não seu pode fugir? Eu?

Queria falar a verdade o tempo todo

Depois de muito envelhecimento precoce devido à inércia somada ao sedentarismo que mesmo a mais frenética atividade na frente do maldito computador provocaria, é só pensar friamente para começar a melhorar. Basta mentir. Preencher o controle de horas com informações falsas. Ninguém nota que não se está fazendo nada. Impressionante. Quando não dá para ficar conversando em qualquer um dos cinco comunicadores instantâneos instalados, por ter alguém olhando, é só escrever longos e-mails no meio dos relatórios mais enfadonhos. Pode-se retomar contato com quem não se conversa há anos e fica por isso mesmo.

Punição

Imagens de culpa que nunca fizeram parte do meu imaginário, mesmo tendo uma criação cristã, andam me perseguindo. O que fiz para ativar isso? Parecem hologramas, muito tênues, é fato, se materializam de repente e evaporam mais rapidamente ainda. Deve ser sugestão subliminar da gritaria evangélica próxima de casa.

Tuesday, April 17, 2007

Banana de dinamite

O pessoal do escritório vai viajar junto. Queria tanto ir à praia, mas ela está cheia de bosta e de gente que me odeia. As velhas de classe média alta estão assistindo TV agora de manhã, reclamando da vida e anotando receitas. Depois elas vão à academia, após tomar uma vitamina reforçada, e buzinarão no ouvido dos pobres funcionários que elas não têm tempo para nada.

Friday, April 13, 2007

Introdução

Não é nada que faça sentido. Ainda que qualquer um possa compreender. Dolorosamente. Portanto, sua lógica desvanece ao romper a barreira do Id. Resta um pensamento disforme. Descarga elétrica etérea, ainda cognoscível, porém massivamente escorraçada, soterrada e finalmente obliterada. Raros são os que fazem submergir tal incômodo. Há quem tente faturar com isso, e não se pode acusá-los de deturparem a idéia, porque não se trata de algo palpável o suficiente para ser tomado como um conceito bem definido. Corrói o mais insensível dos trogloditas todos os dias, contudo. Quem faz desenhos animados diverte-se tanto quanto as crianças que os assistem e ainda sente-se realizado? Um loop dos momentos felizes, drone incidental de tudo que queremos ouvir em moto perpétuo para preencher toda morte diária fora dos instantes que valem à pena, os quais deveriam ser acrescentados à programação seletiva do autismo consciente a que aspiramos.

Thursday, April 12, 2007

Massa de Manobra

Calor na cozinha e pouca compreensão. Basta. Repentinamente contorceu-se violentamente. Tacou a panela no chão. O molho espalhado pelas paredes, chão e em tudo quanto que é eletrodoméstico evocava uma cena de assassinato em massa.

Ela pôs veneno no tempero do macarrão, para dar cabo dos seus tormentos, ou seja, marido e filhos. Contrita, flagelou-se com queimaduras de primeiro e segundo graus. Não podendo explicar-se, parentes e vizinhos enxergaram possessão no ato; possessa, ela antes se convenceu disso. Serena, do hospital seguiu direto ao culto, dando a mão aos filhos e o dízimo para reconfortar-se.

Thursday, April 05, 2007

Saquei tudo

Filhos justificam tudo. É por causa deles que fulano deixou de fazer algo, que o sujeito esqueceu do seu sonho, que a garota justifica sua submissão, que o tiozinho acomodado critica quem quer mudar qualquer mínima condição que seja alegando que o jovemzinho não tem preocupações de fato. Por que pôr uma criança neste mundo cruel? Esta velha pergunta clichê é geralmente respondida por quem a faz (seja a questão, seja a criança), mas apenas nos recônditos da inconsciência. É para não tentar nada. Para justificar toda covardia e as agressões psicológicas a quem tentar sustentar um princípio ou arriscar ficar sem o prato de comida por contrariar o chefe, anunciante, assessor, cão de guarda moral, titular do departamento financeiro/comercial, pretenso superior ou qualquer tiranete contemporâneo. E quanto aos pirralhos, pelos quais se urdiram tantos sacrifícios, que aturem as cobranças (inclusive as em espécie) depois.

Wednesday, April 04, 2007

Típico

As idéias de presunção da felicidade que sugerem a mentira de improviso e os condicionamentos que forçam uma hospitalidade constrita digladiam-se odiosamente. Um hipotético meteorologista cerebral estaria encolhido no refúgio mais fétido para não encarar o colosso de tempestades elétricas que calcina a fronteira entre os hemisférios nestas ocasiões. Uma carona e um convite feito apenas por educação resultaram na súbita aparição. É como se houvesse convidado um vampiro para entrar em casa, e com ele assim instalado não poderia reclamar, pois dei anuência ao mal. Simpático, sorridente, cobra a cerveja que prometi. O paco de garrafas escorregadias desce sobre a pequena mesa no meio da sala milagrosamente sem nenhum pouso forçado. Justo quando a bonança havia começado. Quer dar argumento para uma mulher adora sustentar que o casamento está desgastado? Esqueça a data do dito cujo. E não interessa, nem fodendo, sua defesa de que está trabalhando demais justamente para dar base ao casamento. Quase ao fim do impossível processo de reversão deste tipo de acusação que qualquer homem consegue efetuar quase todo dia, o Ogro me aparece. Fico sem reação. A mulher, um minuto antes de recuperar o pleno bom humor, já quer escorraçá-lo com o olhar, mas esse tipo de sutileza não funciona com alguém plano. O pior: ele se senta, não sei o que dizer, ele não diz nada após elogiar a arrumação da casa. Convido para conhecer o quintal, como se isso fosse interessante, mas ele está totalmente a fim. Mostro o quarto das crianças, ele se detém ainda mais por lá, perguntando detalhes, contando que gostaria de ter filhos, como se estivesse interessado. Ao voltar para a sala, pergunta sobre o sistema democrático da Grécia Clássica, geopolítica, aviões e outros assuntos sobre os quais havíamos conversado no serviço. Demora para sumir com uns livros emprestados debaixo do braço, feliz. No desespero de tentar escapar daquela situação, cheguei a convidá-lo para passear conosco no parque. Ele declinou do convite, disse que logo ia embora, mas ainda ficou uma hora lá, fazendo perguntas. Tava até legal dar uma de professor, porém sentia cada punhalada que os olhos dela desferiam nas minhas costas. Depois da hostilidade inicial, ela foi bacana com o Ogro. Esperava que ela fosse comigo depois, mas sabia que era auto-engano. Bastou ela certificar que ele já ia longe para estressar ao máximo. Até explicar que sim, tinha convidado ele para aparecer, mas não, não naquele dia especial, todo o tempo de comemorações se foi. A noite ascendeu com uma aura de mal-estar.

Tuesday, April 03, 2007

Olvido

Esquecemos. A galáxia de pensamentos que não se concretizarão a respeito de assuntos mesquinhos que não merecem nenhuma reflexão ou tempo despendido exige isso. E as lembranças que realmente importam, parte delas se esvai sem reclamar o seu devido lugar. Basta uma hora de rotina para a extinção completa de uma inspiração genial, ou sobre a qual se tem a vaga intuição de que era algo brilhante. Se a idéia não é imediatamente registrada em um suporte qualquer, um pedaço de papel higiênico que seja, a sensação que fica do mote perdido deve assemelhar-se a de um amputado que sofre coceiras intoleráveis no membro inexistente. Restrinjo-me, no entanto, ao campo das idéias. Há paralelos piores. Como, por exemplo, após meses de desgaste profissional, esquecer do aniversário de casamento.

Reminiscência materializada

De repente ele aparece na porta de casa. Um pesadelo que remete a adolescência, quando odiava que “amigos” aparecessem lá só para encher o saco. Não tinha a manha de expulsá-los de casa, ninguém faria isso, eu não sabia fazer, depois eu soube como dar um jeito nisso, sempre soube, mas esqueci. Não consigo mais. Fudeu e o tempo livre acabou.

Conversa circunstancial

Apesar de ser tosco, o Ogro é outro fita que, com a passagem do tempo, torna-se mais palatável. Apesar dos gestos e troças estúpidas, ele parece legitimamente interessado em se aproximar das suas vítimas para que elas não fiquem tão intimidadas. Foda é o tamanho, a voz de death metal mesmo ao sussurrar e a cara de poucos amigos. É como se ele quisesse dizer “Podem revidar!”, mas quase ninguém fala nada, pois o vozeirão é o avesso dessa mensagem. Como nunca dei moral e já apelei no que me pareceu a primeira ínfima tentativa de forçar um poder psicológico do tipo “cheguei antes aqui e você que é novo baixa a bola”, ele nem brinca comigo. Ficou me tratando friamente perto dos outros, mas paradoxalmente como deve ter sacado que eu não dava a mínima pra qualquer tipo de c, passou a querer puxar conversa sobre assuntos sérios. Mesmo fazendo cara que não estava entendendo, sempre prestava atenção em tudo que falava e ficava fazendo perguntas, aparentemente fascinado com assuntos batidos para qualquer estudante de ensino médio, mas que eram novidades assombrosas para ele. Depois de um tempo, apesar de não ser umas prosas excelentes, porque na verdade eram questionários, a curiosidade dele foi se aguçando e as conversas com ele permitiam falar de assuntos filosóficos e religiosos sobre os quais provavelmente nunca falaria no trampo. E tinha um bom ouvinte para isso.

Friday, March 30, 2007

Circunstâncias

Com o tempo, notei que há quem resvale na canastrice para não ser, apesar disso, um mau caráter. O Caroço é assim. Não tem muita personalidade, mas tem. Com o tempo você percebe que não é um cara que você convidaria para dar um chego em casa, por não ter tanto assim o que conversar e também não ser a pessoa mais confiável do mundo, mas ao menos possui um mínimo de decência. É o tipo de pessoa que poderia ter sido um grande sujeito, se tivesse se feito em uma atmosfera menos devassa. Quando está todo mundo rindo da cara de alguém, ele até dá aquelas risadas de mofa, exageradas, mas é o primeiro, se não é o único, a estender a mão para quem se estatela no chão ou algo assim. Depois que ri de uma piada dele, a primeira de uma longa série de tiradas infames que não era uma estultice, parece que ele passou a ser mais legal. Depois, as piadas dele ficaram ainda piores, mas é aquele lance, qualquer um é menos intolerante se vai com a cara de alguém.

Monday, March 26, 2007

Juiz e executor

Relaxei um pouco. Não no sentido que almejava. O de realmente descansar. Apenas relaxei repentinamente no sentido de ser um pouco mais tolerante com a estupidez alheia, ou com o quê parece estúpido apenas para mim. O que talvez ajude a relaxar de fato. O fato mesmo é que sou muito influenciado por uma atmosfera de negativismo. Além de ver que algumas pessoas não são os monstros idiotas que pensava que eram, notei que tinha desdém até por quem é gente boa. Sem razão. Tratava como mero colega de trabalho quem me considerava amigo, apesar de sermos companheiros sob a chibata e de termos afinidades de fato. Boris e Ariel são 100%, pequenas rusgas e mau gosto musical à parte. Basta iniciar uma conversa de saída, algo que sugira um escape do horror cotidiano, que eles se animam e conversa fica boa como era na andar na rua, dentro de fliperamas nos quais somente via pó daquele normal, que nada no ar para assentar-se no sobre o vidro malcuidado das máquinas de pinball.

Friday, March 23, 2007

Rubro-negro

Ele sempre quis ser negão. Corava por qualquer coisa. Agradecia quando alguém não lhe dizia nada. Quando era criança, nunca sabia quando estava vermelho de vergonha, a menos que lhe dissessem. Talvez, justamente por ser pirralho, não se sentisse tão constrangido por qualquer coisa. São outros tempos agora. Ele sabe quando acontece, pois sente o rosto e as orelhas queimarem. Quando alguém abre a boca para aquele típico “Até ficou vermelho!” a brasão aumentava tanto que ele suava. Não há tortura psicológica pior para um branquelo. Temos certeza que muita gente aqui já percebeu.

Dor Ocupacional

Ele marca algo rapidamente na tela, antes que o vejam gazeteando. Tão logo saem na sala, na qual por impaciente coincidência entraram apenas para olhar um mapa que também está fixado na sala da chefia administrativa, desmarca o que tinha marcado, pressiona o Alt Tab e volta ler o site sobre L.E.R. no qual estava concentrado antes. Contorce-se para a direita, range a cadeira ao fazer um giro esquisito para a esquerda, massageia as costas com sofreguidão. De soslaio, por ter a mesa oblíqua a sua, posso ver tudo. Acho melhor, claro, não dizer nada para ninguém, e nem para ele.

Monday, March 19, 2007

OKTV

Olhe para o alto e jogue-se para baixo. A imobilidade vertiginosa do trabalho, seja qual for o sistema pelo qual fundamentalistas do intelecto fazem proselitismo, rebaixa enquanto te faz mirar ilusões idílicas, mantendo-o na média, medíocre, dando-lhe ilusão de movimento. Mera teorização de quem não faz nada, fracassado. Em casa, é o eletrodoméstico que você tanto diz odiar que te acalenta.

Uma mão lava a outra em vão

Gordo, suando torrencialmente e com um desodorante fortíssimo que só piorava tudo, ofendia a intimidade olfativa de todos, menos a dele mesmo, claro. Devia ser muito eficiente, pois há anos era assim, cochicha-se pelos corredores. Por acaso, descubro não era só eu que o apelidara mentalmente de Carcaça. Era como o chamavam pelas costas há algum tempo. E ele era pútrido em todos os sentidos, contamina tudo com seu Toque de Midas inverso. Minha sorte é que minha área é distinta o suficiente da dele para manter-me muito distante, pelo menos psicologicamente, portanto não tinha que passar o fim de semana com sua imagem nauseabunda ardendo em minha mente, assim como acontece com tantos colegas que reclamam sem parar.

Thursday, March 08, 2007

Passado

Lembrei-me em tempo. Era hoje. Não era possível fazer mais nada, no entanto. Estava no meio de um relatório. Não dava para ir em casa, reunir documentação, fotos e coragem. Podia sair no meio do serviço, claro, correndo, correndo, correndo, para não ter uma vida medíocre, viajar, conhecer muita gente e incomodar quem não presta, tal qual um Joe Strummer da vida que eu sempre quis. Fico calado, com medo do futuro e imóvel.

Wednesday, March 07, 2007

Coma

Pouco mais de um mês depois, levanto-me e me dou conta que não conversei com nenhum amigo a não ser por meios virtuais e não registrei nenhuma linha no diário. Não me lembro bem dos filmes que assisti e das conversas que tive. Não estive em nenhum lugar além dos habituais e o caminho entre eles. Nada aconteceu e todo o tempo foi preenchido por sonhos, que fazem sentido até certo ponto. Trabalhe por várias horas a mais e faça cursos que não interessam para tornar o currículo mais atraente para quem não interessa, pregam dissimuladamente os manuais corporativos impregnados até nos malditos nicks de tudo quanto que é tipo de comunicador instantâneo de gente lutadora, que faz nada de bom e acontece para os basbaques notarem. Ela me manda tomar café da manhã, para que eu não ficasse mais cinco minutos sem entender nada.

Sunday, February 04, 2007

Aranhas no texto

Várias pequenas aranhas saíram de dentro daqueles furos que todo monitor velho possui na parte de trás. Ele ficou muito tempo inutilizado, todos usavam monitores de cristal líquido há uns dois anos e meio. Repentinamente, pequeninos aracnídeos começaram a fazer uma espécie de pequena dança ritual mal coreografada em cima de números e palavras sem importância. Tive tempo de admirar a cena por um minuto. Nem isso. Pensando com calma, foram uns 15, 20 segundos. Depois, as meninas que passavam por trás de mim começaram a gritar. O supervisor matou todas as aranhas que pode e me pediu desculpas por aquela situação. Um novo monitor chegou para mim na mesma tarde. Sei que na cozinha ficaram falando mal de mim, por ser muito devagar e não ter reagido quando apareceram os bichos. Ora, estava admirando-as, foram os únicos seres legais que passaram pelo meu dia e muitas morreram à toa.