Semanas atrás escrevi sobre a
aventura que foi a entrevista que fiz com o Ziraldo no começo do século. É um
autor fundamental para mim, tanto pela leitura d’O Menino Maluquinho, um dos
primeiros livros que li, talvez o primeiro, ainda na primeira ou segunda série
do então ensino primário (o fundamental de hoje em dia), quanto pelas leituras
em voz alta do Pasquim que meu pai fazia antes mesmo de eu saber ler, no fim
dos anos 1970. Mais do que o jornal em si, recordo-me bem dos livros de piadas
editados pelos agitadores do Pasquim. Meu pai lia para nós as menos maliciosas
e, mesmo assim, ria muito. As capas eram desenhadas pelo Jaguar e o conteúdo foi
compilado pelo Ziraldo. O ratinho Sig, obra do grande cartunista que foi e
ainda é o Jaguar, era muito mais familiar e engraçado para mim do que o Mickey.
O primeiro livro de Anedotas do Pasquim tinha ele na capa soltando peidos de
fogo e, óbvio, eu sabia do que se tratava. Ria só de olhar para a atrevida ilustração.
Infelizmente, o exemplar perdeu-se com nossas mudanças, que não foram muitas,
mas suficientes para que algum buraco negro o engolisse e o livro perder-se
para sempre. Já segundo volume das Anedotas do Pasquim foi preservado pelo meu
pai, que até o encapou. Tem as marcas do tempo, pois é de 1980, e ficou-me de
legado. Além das muitas risadas na infância, garantiu-me depois mais
gargalhadas na adolescência, quando passei a entender as piadas mais infames. Quando
fui à palestra do Ziraldo em 2001, no IMS de Poços, peguei um autógrafo dele no
livro. Claro, como a compilação teve (ótima) redação dele, ilustrado pelo
Jaguar e lançado originalmente em 1975, obviamente é cheio de gracinhas
preconceituosas e bestas. Não creio que caiba o termo politicamente incorreto,
que é idiota e seria um anacronismo, pois não existia à época. Velhinho, até
hoje aparentemente Ziraldo não dá o braço a torcer e não se emenda quanto à
homofobia, por exemplo. É o humor de outra geração, que não dava a mínima em usar
estereótipos de minorias, ainda que teoricamente fosse a favor dos direitos
delas, e, com certeza, a censura ditatorial não estava nem aí com isso. A
ditadura militar brasileira deixava passar piadas ofensivas às minorias e
barrava as políticas, era um moralismo bem seletivo. Porém, também dá para
notar que Ziraldo ironizava sutilmente os milicos em algumas piadas e os
censores, burros, não percebiam. Ainda que recentemente, na ocasião da morte do
mestre da nouvelle vague Jean-Luc Godard, o cineasta Kleber Mendonça Filho
tenha trazido à tona uma sofisticada censura do filme A Chinesa, no qual a
censora tanto derretia-se em elogios quanto apontava que o filme levaria a
questionamentos da ditadura, fica patente que os censores em geral eram bem asininos.
E naquela época era censura mesmo, feita a priori, de um regime de exceção, que
levou à cadeia jornalistas do Pasquim; não eram decisões jurídicas a posteriori
para evitar desinformação eleitoral, que, questionáveis ou não, agora são
cinicamente definidas como “censura” por risíveis oportunistas que nunca
escreveram ou falaram uma vírgula contra censura judicial de fato a biografias
e livros. Ou, para usar um exemplo local, quedaram-se inertes quando os obtusos
vereadores de Poços de Caldas, com duas exceções, fizeram uma moção de censura
ao Queermuseu em 2017. E nem vou falar nada sobre as tentativas de implantar leis
de mordaça em escolas ou intimidar educadores – opa, já falei, mas não esperem
que esses sujeitos digam algo a respeito. Desses crápulas, pode-se esperar
grita por censura assim que se depararam com alguma obra de arte que não
gostarem. De qualquer forma, voltando às (boas) infâmias do humor setentista: o
livro tem anedotas impagáveis; algumas sobrevivem mal a estes tempos, mas
sobrevivem. Eu ainda gosto de uma sacanagem.
Monday, October 24, 2022
Uns Comédias
Monday, October 17, 2022
Faca de Três Gumes
Esta crônica foi publicada na página 7 da edição 7859 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG). Em relação à publicação original no jornal, revisei o texto e corrigi dois pequenos erros de digitação.
Como disse na crônica passada,
Fernando Sabino faria 99 anos nesta semana se não tivesse morrido um dia antes
do seu aniversário de 81 anos. Como é o autor que mais li, ainda que talvez eu
conheça mais profundamente a obra de outros escritores (Raduan Nassar, por
exemplo, escreveu pouquíssimos livros), e como as inúmeras histórias dele são
legais demais, não resisto à tentação de falar sobre ele mais uma vez. E
aproveitando o ensejo, abordar a dificuldade de se estabelecer um cânone
pessoal. Afinal, semana passada afirmei
que O Encontro Marcado é possivelmente é o melhor livro de Sabino. O fato, no
entanto, é que talvez A Faca de Dois Gumes seja sua obra-prima. O livro foi
concebido por Sabino como uma trilogia de novelas de mistério. A primeira
história, O Bom Ladrão, é uma espécie de releitura de Dom Casmurro, de Machado
de Assis, que para meu gosto supera o original, pois apraz-me mais a linguagem
seca e a fina ironia de Sabino, muito melhor do que os rococós machadianos – embora
eu reconheça a inventividade do original, com certeza o mais criativo romance
da história da literatura brasileira e uma leitura que me desconcertou, como
acontece com todos que o leem com a devida atenção. Aliás, Sabino gostava tanto
desse clássico machadiano que até o reescreveu em primeira pessoa. Apenas
comecei a ler tal atrevimento umas duas semanas atrás na casa de uma amiga;
chama-se Amor de Capitu. Nem precisa dizer que estou adorando, ainda que seja
uma ousadia que tenha provocado narizes torcidos; o crítico literário Alfredo
Monte, falecido precocemente em 2018, não se furtou a detonar implacavelmente a
recriação de Sabino – que, sim, parece feita de encomenda para vestibulandos. De
qualquer forma, isso é uma digressão na qual é melhor eu não me alongar tanto.
Voltando à Faca de Dois Gumes, a segunda novela é Martini Seco, que eu já havia
lido como um livro solo no carnaval de 2015, na casa de outra amiga, em
Brasópolis. Não sabia que compunha este volume e ri mais ainda da trama
rocambolesca ao relê-la, pois traz o humor do autor com o qual estou
acostumado. A última novela é a que dá nome ao livro, aliás lançado
originalmente em 1985; lá pelos idos de 1992/93 assisti ao filme baseado nesta
história, o qual foi dirigido por Murilo Salles e estrelado por Paulo José,
José Lewgoy e Marieta Severo em atuações marcantes. De longe é a melhor parte
do livro e já sabia que era fortíssima devido à adaptação cinematográfica. A
novela (ou conto, talvez) de Sabino diverge muito do roteiro da película a
partir de certo ponto, mais ou menos no meio da trama, e é muito superior,
embora o filme seja excelente. É literatura policial na sua melhor forma, mas
mais requintada, extremamente criativa e com linguagem trabalhada para ser a
mais concisa possível, dando força à narrativa a ponto de eu não conseguir
parar de ler; fui sequestrado pela história. É aquilo: reafirmo que O Grande
Mentecapto é o meu livro do coração, mas às vezes acho que esta/e novela/conto
isolada/o é o ápice da literatura de Sabino.
Daniel Souza Luz é jornalista,
professor, escritor e revisor
![]() |
| Fernando Sabino. Foto de domínio público. |
Monday, October 10, 2022
O encontro marcado com o grande mentecapto
Esta crônica foi publicada na página 8 da edição 7855 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 08/10/2022. Eu mesmo revisei o texto antes da publicação.
Jamais contabilizei, mas creio
que o escritor cujo mais livros li foi o Fernando Sabino. Mesmo assim, como ele
era prolífico, não li nem a metade. Semana que vem ele faria 99 anos, se não
tivesse morrido um dia antes do seu aniversário de 81 anos. Eu já gostava dele
desde que, na escola, uma professora teve a feliz ideia de levar vários volumes
da série Para Gostar de Ler para nós. O bom humor dele me conquistou de vez no
fim dos anos 1980, quando meu irmão Eurico leu O Grande Mentecapto – era
leitura obrigatória para a turma dele, mas ele gostou tanto que me indicou e
foi um dos poucos livros de autores brasileiros que eu li na transição da
infância para a adolescência porque quis e não devido às obrigações escolares.
Engraçadíssimo e escatológico, foi uma leitura tão marcante que fiquei chocado
quando fui comprando em sebos a série Para Gostar de Ler para relembrar aquelas
crônicas e aqueles contos que tanto me deliciaram e, mais de três décadas
depois, descobri que o texto mais hilário era do Carlos Drummond de Andrade, a
quem associo à melancolia de sua obra poética. Eu jurava que o rocambolesco
conto humorístico O Assalto era do Fernando Sabino. Felizmente, ele era tão
versátil quanto o Drummond. Ou infelizmente. Parei de lê-lo no começo dos anos
1990. Meu pai comprou aquela biografia prematura Zélia, uma Paixão, um
best-seller de Sabino. Este livro se perdeu em mudanças e não faz a menor
falta. É muito ruim; foi uma grande decepção e a antipática biografada, a
malfadada ministra da Fazenda durante o confisco das poupanças do governo
Collor, não ajudava nem um pouco. Ainda bem que no final daquela década uma
amiga de infância, a Juliana Mariano, apareceu em casa com O Homem Nu, uma
coletânea, e o engraçado conto que dá título ao livro reconectou-me com Sabino.
Descobri como ele pode ser um autor lírico, caso do belíssimo O Menino no
Espelho. Fiquei enlevado ao terminar a leitura; o mesmo aconteceu em 2018,
quando concluí a leitura de O Encontro Marcado. Só que este é um romance duro,
com muitos assuntos que provavelmente foram tidos como tabu quando do seu
lançamento, em 1956: abuso sexual, adultério, homossexualidade, aborto. Ainda
assim, é terno na medida do possível; nenhum dos temas que citei têm abordagens
que sugiram qualquer propensão à polêmica gratuita, mas sim um tratamento literário
que os incorpora com sensibilidade à tessitura da densa narrativa. Apesar das
incongruências e torpezas do protagonista Eduardo Marciano, cuja formação,
danação e redenção acompanha-se desde a infância, é possível ter empatia pelo
personagem e sua busca por uma quimera indefinível que o aflige. Muito pouco do
Sabino que cresci lendo está presente neste primeiro romance dele, ou seja, o
humor mordaz e leve. Ainda assim, é possível notar características que
aparecerão depois, como o encontro entre personagem e escritor, algo presente
n’O Menino no Espelho, lançado 26 anos depois. É um recurso narrativo que me maravilhou
quando pela primeira vez me deparei com tal engenho na HQ Homem-Animal, escrita
pelo escocês Grant Morrison, que lançou mão de metalinguagem para criticar o
pretenso realismo dos quadrinhos de super-heróis. Só que isso é outra história,
para outro momento. Possivelmente O Encontro Marcado é o melhor livro do Sabino,
mas meu favorito sempre será O Grande Mentecapto – que eu viva o bastante para
relê-lo.
Daniel Souza Luz é jornalista,
professor, escritor e revisor
Monday, October 03, 2022
Platitudes
Esta crônica foi publicada na página 7 da edição 7850 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG).
É muito fácil fazer um artigo de
platitudes igual aos que pululam por aí aos montes em tudo que é periódico. É
só juntar os ingredientes básicos, cozinhar e servir morno em largas porções ao
leitor. Definições copiadas de velhas enciclopédias, de preferência. Fica mais
difícil rastrear. Wikipédia é muito manjado. Lembro de uma coluna literária num
extinto jornal local em que o rapazinho só pegava verbetes como o de Monteiro
Lobato e jogava lá como se fosse o autor. Já não lembro bem, mas tinha um ou
outro trecho surrupiado de sites educativos. É bom dar uma disfarçada, né? Como
se fosse um trabalho escolar copiado do coleguinha, com um ou outro trecho
alterado, para o professor não perceber. Pena que existem ferramentas de busca
na internet, que chato. Esse é o tipo mais fácil de falsário de ser
identificado. Também, de uma hora para outra começar a apresentar certa
erudição, depois de apresentar textos primários, é mancada. Sei lá, vale tudo
para deixar o próprio nome em evidência. Os manuais de autoajuda provavelmente
dizem que é imperativo aparecer a todo custo, deve ser isso. Eu gosto de uma
definição cínica, bem característica do pragmatismo norte-americano, da qual
jamais me esqueci e que li há mais de vinte anos no Mate-me Por Favor, clássico
da história oral. Salvo engano, foi dita pelo Jeff Magnum: boa publicidade é
boa publicidade, má publicidade é boa publicidade e nenhuma publicidade é má
publicidade. Só por isso não cito os nomes dos autores das infâmias. Ora, um
bom texto de platitudes é igual indireta de rede social: não se cita os nomes
de quem se critica, senão não seria platitude. Perderia a característica de bom
mocinho. Só que eu também aprecio uma definição da qual, dessa vez, me lembro
bem do autor: não vou dar palco para babaca, como dizia o jornalista Ricardo
Boechat, tragicamente falecido e que faz muita falta neste momento. Aliás, eu
conferiria se o Jeff Magnum, baixista do Dead Boys, é mesmo o autor da frase
que citei antes, mas meu exemplar do livro foi surrupiado. Tudo bem; se meu intento é emular um texto
repleto de platitudes, uma citação errônea tem seu charme. E, de qualquer
forma, o exemplo que citei antes é até ingênuo. Os piores tipos de artigos de
platitudes são os escritos por gente como a também já falecida Lya Luft. Ela
até tem um êmulo local também. Escreve bem, muito corretamente, sem plagiar
ninguém, tal como ela o fazia, e vai-se lendo aquela conversinha mole, que
parece muito civilizada e que muitas vezes tenta diferenciar-se pelo humor
capenga, feita para enganar incautos ou para coonestar pulhas que compartilham
aqueles textos aparentemente sofisticados. E, de repente, lá está: aquela
passada de pano implícita para o fascismo mais descarado, o desprezo pelas centenas
de milhares de vidas que poderiam ser poupadas e que ainda foram alvo de
deboche ao morrer de Covid-19. Fascismo ilustrado ou fascismo tosco dão no
mesmo. Foi mal, queria escrever um texto parodiando essas bobagens, mas falhei
brutalmente devido à minha fisiologia: falta-me sangue de barata.
Daniel Souza Luz é jornalista,
professor, revisor e escritor
Monday, September 26, 2022
Nada Aconteceu
Já repararam que Poços de
Caldas é, literalmente, o fim da linha? Escrevi essa crônica na Praça do Xadrez
Gigante, pisando sobre o tabuleiro sem peças, depois de observar atentamente o
movimento ao redor. À minha direita, está o final dos trilhos da ferrovia
Mogiana, com uma rotatória para virar a locomotiva e os vagões dos trens que
não vão até lá, que eu saiba, desde a minha adolescência, há 28 anos. Se um
maquinista ensandecido quisesse fazê-lo, teria que romper o muro da lanchonete
que avançou sobre os trilhos há uns bons dez anos, cerca de cem metros à minha
esquerda, oculta pelo prédio da antiga estação. O barulho incessante do tráfego
da rua Junqueiras, muito movimentada mesmo aos domingos, permite divisar o
canto de pássaros vez por outra. Na sombra, olho de soslaio o monumento aos
imigrantes italianos, banhado pelo sol que também ilumina o conjunto
arquitetônico mais ao fundo, o decrépito chalé do Conde Prates, que devia estar
presente na inauguração da estação ferroviária por Dom Pedro II, o qual talvez
tenha pisado no exato local onde estou, em 1886. Muita tradição, família e
propriedade para ensejar no mínimo algum abuso verbal por parte das autoridades
é o pensamento que me passa pela cabeça e me mantém alerta. Ao lado da cerca à
direita, um guarda municipal fala ao celular. Como escreveu Kerouac num pequeno
relato que consta no livro Cenas de Nova Iorque, não se pode vagabundear sem
ser importunado pelos homens da lei. Passa um pouco das duas horas. O guarda
que falava ao celular, um senhor alquebrado, cabelos todos brancos por baixo do
boné, ligeiramente curvado, vai-se distraído pela calçada. Não dirige o olhar
para onde estou; parece alheio a tudo, carregando três pães franceses em um
saco transparente. Do outro lado da rua, um senhor que caminha vagarosamente
olha insistentemente na sua direção, como se fossem velhos inimigos; mas o
guarda, imagino, só pensa em chegar em casa. Tem uma expressão aliviada e desinteressada
por qualquer conflito. Desvio o olhar para mais a esquerda, onde, no começo da
avenida, um moleque de boné observa o colega tentar seguidamente um backside
heelflip, uma manobra de skate que também nunca acerto e que me faz invejá-los
naquele momento. Então sou surpreendido pelo senhor que tão vagarosamente
andava do outro lado da rua: chegou perto de mim em um átimo. Ele usava óculos
de lentes grossas e de armação escura, um suéter verde, calças jeans puídas,
tinha a cara amarfanhada e a barba por fazer com mais fios brancos do que
negros, tal como o cabelo grisalho. Pergunta-me algo, não entendo. Aproximo-me.
“Você trabalha aqui?”. Diante da minha negativa, pede desculpas e afasta-se, célere.
Tem algo que parece um canivete suíço numa das mãos e um grande corte já
cicatrizado, mas com as bordas muito sujas, na outra. Transtornado, caminha em
direção à avenida. Os garotos já remavam seus skates para longe. Talvez eu
tenha escapado de várias ameaças e eles também.
Daniel
Souza Luz é jornalista, escritor, professor e revisor
Monday, September 19, 2022
Literatura em pequena escala
Esta crônica foi publicada na página seis da edição 7840 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 17 de setembro de 2022. O
Há literatura no Twitter? Há e
muito. É muito curioso quando lembro do desprezo e descrença com que José
Saramago referiu-se a respeito da famosa rede social. Na verdade, é mais uma
rede de informação do que social, para quem sabe usar e tem paciência em entendê-la.
Saramago não se conformava que as pessoas se expressassem em apenas 140
caracteres, que era o limite de toques daquela rede então (hoje é o dobro). Para
ele, depois o que viria seriam grunhidos. Eu não era tão pessimista quanto o
mal-humorado autor português, mas também fiquei incrédulo quanto ao potencial
da plataforma há doze anos. Resolvi entrar e realmente usá-la quando meu amigo
João Fernando Baldan começou a publicar nanocontos lá. Gostei tanto que fiz
isso por anos. Contos minúsculos, com uma frase ou duas, também conhecidos como
minicontos, surgiram em meados do século passado, com Ernest Hemingway e
Augusto Monterosso. Eu já gostava do formato e o Twitter é perfeito para isso. Foi
feito até um livro só com aforismos, minicontos, pensamentos e poesias escritos
no Twitter: Fabrício Carpinejar, que mencionei na crônica da semana passada,
foi esperto e já em 2009 lançou um livro com seus tuítes primevos. É uma pena
que foi justo que se tornou um escritor irregular. Concordo com o juízo dele de
que banalidades têm que ser escritas e, também são, ou podem ser, literatura,
afinal segui pelo mesmo caminho – ao menos naquela rede de microblogs. O
problema é que Carpinejar era um bom poeta que, convertido em figura midiática,
derrapa em generalizações e num pieguismo que depois se tornaria mais
constante. Feita esta observação, a qual lamento, pois ainda o admiro, o livro
também coleta sacadas impagáveis. Vale a pena segui-lo no Tuinto (quem é
tuiteiro se permite a usar a expressão), apesar de alguns pesares, como o faço
desde aquela época. E não há nada de errado em se tornar uma espécie de
celebridade literária, ressalte-se, mas também é fato que, como diz meu amigo
João Antônio Sampaio Chaves, ele é um “escritor de programa da Fátima
Bernardes”. Mesmo caso daquele Bráulio Bessa, que é um poeta popular interessante,
mas também tem o mesmo perfil de ser admirado por cultuadores de
subcelebridades, tipos que compram seus livros e sequer os abrem. Bessa também
está no Twitter, aliás. Hoje, autores em geral usam mais o Twitter para
publicar links dos seus textos do que minicontos ou haikais. É o caso de um
gênio como Alejandro Jodorowsky, o nonagenário cineasta e escritor chileno. É
uma pena. Eu mesmo joguei a toalha e não produzo mais nada inédito por lá. Por
outro lado, quem produz aforismos mesmerizantes quase diariamente naquela rede
é Penny Rimbaud, o octogenário ex-baterista do pioneiro grupo anarcopunk Crass.
Esse sim eu recomendo, sem reservas. E há muitos outros mais, mas em homenagem
ao espírito da concisão, esta crônica será mais curta do que meu habitual e
encerro por aqui.
Daniel Souza Luz é jornalista,
professor, escritor e revisor
![]() |
| Esta era a foto de fundo do meu perfil no Twitter há uns dez anos. |
Monday, September 12, 2022
Um Tolstói autografado
Esta crônica foi publicada na página oito da edição 7835 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 10 de setembro de 2022, véspera do final da edição presencial da Flipoços em 2022. Eu a escrevi no dia 9 de setembro, coincidentemente 194 anos após o nascimento de Tolstói. Em relação à publicação no jornal, eliminei alguns pronomes para evitar repetições e troquei uma palavra de lugar ao revisar o texto; não é nada que altere o sentido.
Neste final de semana ainda está rolando a Feira do Livro de
Poços de Caldas, a Flipoços, que teve início há uma semana. É um bom mote para
relembrar uma história engraçada. Posso jactar-me de ter um livro do Tolstói
autografado. O detalhe é que foi, óbvio, de um jeito bem torto. Nos idos de
2009 eu iria numa palestra na Flipoços e era daquelas cujo ingresso se dava
mediante a doação de um livro. Não me recordo mais qual era, mas a
circunstância é inesquecível. Queria muito ir, não tinha nada em mãos para
doar, então escolhi, com dor no coração, qual dos exemplares da minha
biblioteca iria sacrificar. Optei por uma edição de bolso de A Morte de Ivan Ilitch,
clássico do Leon Tolstói, o genial e contraditório escritor russo – um conde
anarquista e cristão. É, de longe, um dos melhores livros que li na vida, um
marco da história da literatura. Li no fim da década de 1990 e decidi passar
pra frente o livrinho pensando em comprar depois uma edição em formato regular,
com fortuna crítica, prefácios e posfácios. Aí aproveitaria para reler. Então
bora lá. Ao chegar no Palace Casino, onde a feira estava ocorrendo, encontrei
minha amiga Nany Dantas, que hoje mora no Paraná, e engatamos um bate-papo. Haveria,
no mesmo dia e horário da palestra da qual esqueci, outra do poeta gaúcho
Fabrício Carpinejar. Eu sabia quem ele era de nome, gostava das (poucas)
poesias dele que li, mas não fazia a menor ideia de como ele era. Nem a Nany,
que nunca tinha nem ouvido falar dele e é quem se recorda melhor do episódio.
Ela que me ajudou a recuperá-lo na memória: enquanto estávamos lá de bobeira
proseando, o Carpinejar estava passando por perto e nos abordou, convidando-nos
para assistir à palestra dele, chamada “Fabrício Carpinejar – Conselhos
Amorosos”. Tínhamos visto na programação e não nos interessamos nem um pouco
porque havíamos achado o nome muito tosco. Só que ele era muito simpático e nos
convenceu a ver. Ele escreveu umas frases no braço dela, não me recordo se deu
um autógrafo para ela (acho que sim), então olhou para o meu livro do Tolstoi e
disse: “eu te dou um autógrafo!” – o qual não havia pedido, o que foi hilário. Então
sapecou a assinatura dele no frontispício d’A Morte do Ivan Ilitch. Desisti
totalmente da palestra que assistiria e conservo esse livro até hoje. Valeu a
pena, a fala dele foi muito engraçada: falou da esposa, chorou, disse que era
um emo extemporâneo velho e careca, só faltou rolar no chão – ou rolou? É um
showman, sem dúvidas, e ele passou a brilhar na mídia. O que o torna alvo, é
claro. Três anos depois vi, na Bienal do Livro em São Paulo, o escritor Ricardo
Lísias atacá-lo pessoalmente, dizendo que o Carpinejar não tinha literatura e
por isso precisava pintar as unhas para aparecer, a ponto de o clima esquentar
tanto que tiveram que chamar a segurança para evitar uma altercação física –
habilmente contornada pelo também escritor Antonio Prata, que se sentou entre
eles. Obviamente Lísias está para lá de errado, embora a qualidade literária de
Carpinejar, infelizmente, tenha decaído mesmo ao longo dos anos. Mas isso é
para meu gosto e é outra história. Aliás, Lísias me bloqueou no Twitter quando
relembrei essa história – puta cara chato, ser literato ou bom escritor (dizem
que ele é, estou à pampa e não vou conferir) não dá a ninguém o direito a pisar
nas pessoas. Tolstói, que realmente era fodão, não o faria. E eu tenho um livro
dele autografado.
Daniel
Souza Luz é jornalista, escritor, professor e revisor
Monday, September 05, 2022
Leituras que levam à alteridade
Esta crônica foi publicada na página sete da edição 7831 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG). Em relação à publicação no jornal, só corrigi dois pequenos erros de digitação (sobrou uma palavra numa frase, em outra faltou), não fazendo uma revisão aprofundada.
Há livros que conectam os
leitores vorazes de Literatura aos leitores eventuais. Notei isso com o passar
do tempo: não são exatamente clássicos, obras que fazem parte do cânone
ocidental, nem livros de leitura obrigatória nas escolas e para vestibulares/Enem,
ou mesmo necessariamente best-sellers, mas sim livros que acabam calando fundo
no inconsciente coletivo. Podem ser tidos como subliteratura por grande parte
da crítica, mas não necessariamente o são. O Pequeno Príncipe, O Menino do Dedo
Verde, Meu Pé de Laranja Lima encaixam-se nisso: li por mera curiosidade, mas
ao escrever a respeito, notei que muita gente que parece não se interessar por
livros comenta-os comigo – e muitas vezes fazem reflexões aprofundadas. Em
comum, foram pensados para o público infanto-juvenil, ou seja, são obras de
formação. O Profeta, de Gibran Khalil Gibran, não foi pensado para um público
jovem (que eu saiba), mas talvez também seja uma obra para formar caráter,
porém, através da fé. Embora não seja meu tipo de literatura, foi uma leitura
prazerosa. Peguei para ler uma edição de 1976, traduzida por Mansour Challita,
que também fez um dos prefácios, além do Austregésilo de Athayde, escritor do
qual tenho vaga lembrança de ver na TV quando eu era criança, pois ele era
presidente da Academia Brasileira de Letras. Comecei pelo longo posfácio, na
verdade um catálogo da editora de Challita, no qual ele, meio cabotino, fala de
seus livros e de autores do Oriente Médio; depois li os prefácios, algo que não
costumo fazer antes de ler a obra. Numa noite mergulhei na trama em si e, como
Challita afirma na orelha, levou apenas duas horas de leitura. É a história de
um sábio que se despede de uma cidade, Orphalese, onde passou muitos anos,
discursando para a população. Parece-me, mal comparando, com o já citado O
Pequeno Príncipe, mas mais voltado para adultos. O Profeta, aliás, precede o
clássico de Saint-Exupéry. É mais profundo em suas reflexões sobre a vida, em
especial sobre o papel de pais e mães e numa bela alusão implícita, no meu entender,
ao sexo. Já conhecia Gibran de poemas que li no jornal do Instituto Cultural
Cia Bella de Artes, na primeira década deste século, e é impossível não notar
que ele faz prosa poética n’O Profeta. É um livro de proselitismo religioso, não
tenho dúvidas, mas a qualidade literária permite ser lido por qualquer pessoa,
inclusive ateus e agnósticos. Peca pelo esquematismo das perguntas da população
da cidade a Al-Mustafa, o profeta do título; minha impressão é que Gibran quis
de certa forma emular a Bíblia e, em especial, a vida de Jesus (o que fica
claro pela leitura do posfácio), simplificando seus ensinamentos para que mais
gente os compreenda. Parece-me, diga-se de passagem, que há paralelos entre a
desdita de Al-Mustafa não só com a de Jesus Cristo, como também com a de
Sócrates. Há uma personagem feminina, a vidente Almitra, a única do livro que
também ganha um nome, e é seu ponto de vista que dá o tom do fim, destacando o
sagrado feminino. Vejo edições recentes da obra por aí, creio que ainda é algo
que se infiltra em muitas consciências.
Daniel Souza Luz é professor,
jornalista, escritor e revisor
![]() |
| O jovem Khalil Gibran fotografado por Fred Holland Day. Foto de domínio público. |
Monday, August 29, 2022
Viver e ler
Esta crônica foi publicada na página 7 da edição 7826 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 27 de agosto de 2022.
Semana passada escrevi a
respeito da memória afetiva acrescida à leitura do Auto da Compadecida, de
Ariano Suassuna, pois li-o em voz alta para meu pai, que tinha dificuldade em
enxergar no final da vida. Foi mais do que justo, afinal ele lia gibis do
Gasparzinho, do Recruta Zero, do Brasinha, da Turma da Mônica e de alguns
personagens da Disney para mim e meu irmão quando éramos criancinhas – os de
super-heróis vieram quando já estávamos alfabetizados. O fato dele deixar para
ler algumas histórias no dia seguinte fez com que nos apressássemos a aprender
a ler, pois queríamos saber como acabavam todas as histórias de uma vez. Ele
também lia algumas histórias do Pasquim para nós; as que davam para uma criança
entender, claro. Graças a isso, tornamo-nos leitores de fato. E era um grande
prazer ler ou reler livros para ele, o clássico do Suassuna não foi o único.
Queria ter lido mais obras ainda; comprei livros do Neil Gaiman, da J.K.
Rowling, do Yuval Noah Harari e de outros autores apenas e tão somente para fazer
a leitura para ele, mas não deu tempo. Até daria, mas às vezes ele pedia para
eu parar um pouco para darmos rolê (afinal a literatura é sobre a vida e a vida
também é andar por aí à toa), outras vezes preferi deixá-lo de boa assistindo
novelas globais, as quais odeio, mas que já era um hábito de anos e uma
predileção que eu não tinha o direito de cancelar. Portanto, em outros
horários, consegui reler, desta vez em alto e bom som, pequenas obras do Jorge
Amado, do Marcos Bagno, da Cecília Meireles e vários outros autores para ele. Só
houve um livro extenso que li de ponta a ponta, e esse comprei de presente para
ele, não foi uma releitura: Sócrates e Casagrande, uma História de Amor,
biografia escrita pelo jornalista Gilvan Ribeiro em colaboração com o próprio
Casão. Foi uma leitura melhor do que esperava, pois o livro fala muito de arte
e política, além de futebol, devido à intensa vida que ambos levaram. E aborda,
claro, o mítico período da Democracia Corinthiana e a militância de ambos
contra a ditadura militar. Tem até uma cabulosa história da repressão que
desconhecia: um dos irmãos de Zico, o também jogador de futebol Nando Antunes,
foi torturado por seu trabalho como educador e teve a carreira de boleiro
profissional prejudicada. Infelizmente, enquanto livro-reportagem, a obra
carece de uma melhor edição de texto: é repetitivo a ponto de ser enfadonho em
alguns trechos. Ainda assim, as memórias de Casagrande e a apuração de Ribeiro
compõem um belo painel da amizade entre Sócrates e Casão, do rompimento
implícito e da reconciliação, dos amores e filhos, do calvário do vício em
drogas legalizadas (Sócrates) e ilegais (Casagrande) e, também, traz muitas
histórias impagáveis, dentro e fora de campo, como, por exemplo, uma do naipe
de João Gilberto – sim, o pai da bossa nova – realmente tentar mudar a
escalação da seleção de 1982, além de alugar Sócrates ao telefone. Para nós,
que somos de Poços, o livro ainda traz o prazer extra de contar algumas das
passagens de Casagrande na Caldense. Lembro bem de quando ouvi no rádio a
notícia da morte de Sócrates e que os jogadores do Coringão ergueram o punho em
homenagem ao seu gesto característico, na final contra o Palmeiras em 2011.
Estava na estrada, dirigindo para chegar em Franca, onde trabalhava num jornal,
e não fiquei emocionado como fiquei depois ao ler como tudo aconteceu. Enquanto
lia para meu pai, minha voz ficou embargada. Caso eu releia, agora sem a
presença do meu pai, ou leia os outros livros escritos por Gilvan e Casagrande,
creio que meus olhos ficarão marejados mais de uma vez.
Daniel Souza Luz é escritor,
revisor, jornalista e professor
Monday, August 22, 2022
Memória afetiva e leitura
Este texto, um misto de crônica, ensaio, resenha e memórias, foi publicado na página 7 da edição 7821 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 20 de agosto de 2022. É uma extrapolação das minhas breves impressões sobre o Auto da Compadecida, as quais escrevi para o Goodreads logo depois de ler o livro para o meu pai, pouco mais de dois meses antes da morte dele em 2019.
Chegou
a hora de reler Ariano Suassuna. Ao menos para mim. Ao menos o Auto da
Compadecida. Ao menos. Ao lê-lo, li de uma vez só. Na verdade, li-o em voz
alta, para meu pai, que enxergava com dificuldade após um AVC – ao menos ele
não teve outras sequelas e teve alguma qualidade de vida até falecer, em 2019. Voltando
à obra-prima de Suassuna, contando o tempo de leitura do prefácio, que foi lido
depois, também para meu pai, não levou mais do que três horas. Já tínhamos
assistido ao filme dirigido pelo Guel Arraes numa reprise há uns dez anos, pois
à época do lançamento passou batido para mim; acho que meus familiares já
tinham visto até antes, quando foi exibido em forma de minissérie. O texto é
muito prazeroso de ser lido em voz alta, afinal foi concebido para o teatro. O
que chamou minha atenção, em primeiro lugar, foram as referências das histórias
populares que Suassuna cita no preâmbulo; apesar de ele ser cristão e
conservador, ele não tem pejo em usar passagens escatológicas e que me parecem
que bem blasfemas, pois também abordam traição e sexo. O ótimo prefácio da
edição que li, de Henrique Oscar, traça as origens disto em textos medievais,
nas quais Nossa Senhora também tem papel fundamental na salvação de almas. Ou
seja, pode até escandalizar fundamentalistas, mas é uma obra fundada em
narrativas católicas populares que refletem a profunda religiosidade do autor.
Outro aspecto que me chamou a atenção é que no livro João Grilo é mais violento
e maquiavélico do que me lembro dele ser no filme; parece-me bem normal isto
ter sido atenuado no roteiro, pois dificultaria a identificação do público com
o personagem. De qualquer forma, é um livro divertidíssimo, rápido de ser lido
e ao mesmo tempo não é uma leitura superficial; pelo contrário, também há
reflexões assertivas e precisas sobre racismo e gênero, uma surpresa enorme
vinda de um autor assumidamente conservador. Nunca imaginaria pegar todos esses
detalhes numa leitura em voz alta: eu gosto de ler quietamente, nunca sequer
balbucio uma palavra que seja. E eu precisava esperar para reler. A saudade do
meu pai vai aflorar, com certeza. Talvez seja o primeiro livro que eu estranhe
ler da forma como sempre li. Recordo-me de um texto de um amigo, o professor e
escritor Fábio Gonçalves de Carvalho, no qual ele comentava que alguns livros
marcam tanto pelo texto quanto pelas circunstâncias em que foram lidos. No caso
dele, ele citava que leu O Exorcista de madrugada e num hospital. O meu caso é
mais terno.
Daniel Souza Luz é jornalista,
professor, revisor e escritor.

Ariano Suassuna em 1971. Foto de domínio público.
Monday, August 08, 2022
Pentelhando Ziraldo
Esta crônica (ou memórias, talvez) foi publicada na página 8 da edição 7811 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 06/08/2022. Apesar do título, ressalto que Ziraldo não parecia estar nem um pouco incomodado, é bom deixar isso claro. Com certeza, ele estava acostumado com entrevistas amalucadas desde os tempos do Pasquim.
Em 2001, formado há pouco
tempo em Jornalismo e de volta a Poços de Caldas, eu tentei fazer um site com
um amigo, o Elídio Júnior. Como muitos projetos em que embarquei, não foi muito
pra frente. Ele nomeou o site de Bixo Grilo, fez um logotipo muito bom, mas o
nome não me aprazia, nada tinha a ver comigo. O site chegou a funcionar, de
qualquer forma, e encasquetei de entrevistar o Ziraldo, que viera fazer uma
palestra (ou ministrar uma oficina, agora a memória me trai) na Casa da
Cultura. No final do evento, eu e um jornalista local pedimos para entrevistá-lo.
Recordo-me bem que o coleguinha cobria a pauta dele com a mão, parecendo
incomodado com minha presença. Ora, como se eu fosse fazer as mesmas perguntas simplórias
e publicá-las para ele ver. Talvez ele tenha agido assim porque eu não tinha
pauta em mãos – não precisava. Batismo de fogo interiorano feito, abordei
Ziraldo e disse que queria fazer uma entrevista mais longa, pois era para um
site, portanto sem limitações de espaço. Ele me disse que iria fazer uma
espécie de terapia alternativa com uma senhora que o aguardava, então uma moça
que a acompanhava (filha dela, salvo engano) sugeriu que eu fizesse a
entrevista a caminho da casa delas. Não fizemos objeções e a entrevista foi gravada
no trajeto, com direito a uma parada no Mercado Municipal para Ziraldo comprar
queijos. Eu me lembro que era uma senhora muito gentil essa terapeuta mística e
que ela tinha um nome muito incomum: Santa Abelha. Finalizei a entrevista já na
casa dela, na Cascatinha, e ela e a filha pareciam estar gostando de acompanhar
o bate-papo literário. Infelizmente, perdi a gravação. Eu a transcrevi para o
site, é claro, mas está em algum disquete sabe-se lá onde. Talvez já tenha
desmagnetizado. E onde eu abriria um disquete? O site está fora do ar há vinte
anos. No entanto, recordo-me bem de passagens marcantes da conversa. Quando
falamos sobre seus livros Flicts e O Menino Maluquinho, Ziraldo citou o Dr.
Seuss – se não como influência, ao menos como um autor que o marcou. Quando a
conversa enveredou pela literatura contemporânea, eu disse que gostava muito do
Bukowski. Ziraldo retorquiu que não era muito fã dele e dos beats, mas que uma
vez foi na City Lights, a livraria do poeta Lawrence Ferlinghetti, que tinha
(tem) caráter comunitário beatnik e que gostou muito de lá. E me fez uma
recomendação maravilhosa: se eu era “taradão” (lembro bem dele usar esse termo)
no Bukowski, que procurasse um conto chamado Viagem aos Seios de Duília, do
Aníbal Machado. “É uma perfeição, sem furos”, disse-me Ziraldo. E é exatamente
isso, é um dos melhores contos que li, ao lado de A Causa Secreta, do Machado
de Assis, e de algumas obras-primas do Buk e dos autores de ficção científica
Phillip K. Dick e Brian Aldiss. Outra passagem da conversa talvez tenha sido em
off, mas é muito saborosa para eu não a relatar; além disso, prezo o registro
histórico, então aí vai a suposta inconfidência: comentei que gostava de ler a
coluna do João Ubaldo Ribeiro no Estadão e Ziraldo ficou indignado. Disse que o
autor baiano era um “nojento”, que não suportava a empáfia dele e que ele
bancava o rebelde, mas topou entrar para a Academia Brasileira de Letras, o que
configurava uma hipocrisia. Escritores não têm que ser santos ou agradáveis
para ser admirados, mas, de fato, anos depois vi aqui uma palestra de Ubaldo na
qual ele parecia ser muito bonachão, mas deu uma resposta tão atravessada (ainda
que correta) a uma pergunta ingênua que ele me pareceu ser de uma arrogância
ímpar – daí me lembrei do que Ziraldo me disse. Há uns cinco anos, Ziraldo fez
uma fala homofóbica numa palestra também aqui em Poços. Foi algo tipo “Fernanda
Montenegro não está autorizada a divulgar lesbianismo na novela”. Justo ele,
que desenhou o logo do PSOL, partido conhecido por abraçar a causa LGBTQIA+,
deu uma dessas. Porém, o episódio trouxe-me à memória uma frase que ele me
disse e que achei engraçada: “Uma vez disse ao Paulo Francis que escrever bem
não o autorizava a escrever um romance”. O que é verdade, tentei ler livros de
Francis e são intragáveis; embora ele escrevesse muito bem, o forte dele era
ser polemista de esquerda e, depois, de direita. Em outubro Ziraldo fará 80
anos. Falando asneiras ou grandes verdades, espero que ele ainda fale muito. E,
quem sabe, que algum dia eu recupere a íntegra dessa entrevista.
Daniel Souza Luz é jornalista, professor,
revisor e escritor
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| Um jovem Ziraldo numa foto em que ele está bastante parecido com o Jaz Coleman, o vocalista do Killing Joke. A fotografia é de domínio público. |
Monday, July 25, 2022
Contracultura em desintegração
Este ensaio foi publicado originalmente na página sete da edição 7801 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 23 de julho de 2022. Revisei o texto no dia 26 de julho, um dia após a publicação aqui neste blog, para corrigir um erro de digitação e eliminar uma palavra repetida.
Na segunda-feira desta semana,
dia 18, Hunter S. Thompson teria completado 85 anos se não tivesse se matado em
2005. Gosto dessas efemérides, embora, geralmente, passem batido. Podem me pôr
em movimento; neste caso, serviu para lembrar-me que havia abandonado a leitura
de Medo e Delírio em Las Vegas no começo. Tentei lê-lo antes de assistir ao
filme, lançado em 1998, mas não houve tempo hábil e acabei assistindo-o antes. Desanimei,
deixei para lá e, com atraso de décadas, finalmente recomecei do zero e concluí
a leitura, pois há uma edição recente da L± agora já é considerado um
clássico moderno pela editora. Na verdade, já era nos anos 1990, pois é uma
obra lançada em 1971, publicada originalmente em capítulos pela revista Rolling
Stone. A reputação de Thompson precedia sua obra. Criador do jornalismo gonzo,
li várias reportagens e artigos sobre ele antes de ler sequer uma linha do que escreveu. O “gonzo journalism” é uma variante do jornalismo literário (que
não cobre necessariamente literatura, mas é sim uma forma aprofundada de se
fazer jornalismo) com uma metodologia mais simples: ainda que faça descrições
pormenorizadas de ambientes e analise as atitudes das pessoas que são alvos de
suas reportagens, em vez de simplesmente reproduzir suas declarações, Thompson
fazia isso completamente chapado de drogas psicodélicas. Era consenso nas
matérias a respeito dele que não se sabia como ele ainda estava vivo. Quando
finalmente li um de seus textos, na revista Trip, foi o famoso artigo sobre o
Kentucky Derby, tido como a peça inicial do jornalismo gonzo. Ao contar como foi
a famosa corrida de cavalos, Thompson não estava nem um pouco interessado no
aspecto esportivo, mas sim em narrar o que ela realmente é: uma exibição de
poder. Logo no início, ele diz que os verdadeiros animais chegaram ao recinto,
ou seja, os políticos locais. Ainda se tratava de jornalismo. Medo e Delírio em
Las Vegas está mais para literatura mesmo. Tudo bem, Thompson conta o que ele e
seu advogado aprontaram em Las Vegas. Acontece que ele é um narrador não
confiável. Não é que ele seja intelectualmente desonesto; a questão é que o
livro é, de certa forma, um equivalente (sur)realista de Um Estranho no Ninho,
do escritor beat Ken Kesey, cuja militância pró-drogas, aliás, é citada
constantemente por Thompson. Sãos dois livros geniais e o paralelo é inevitável
para mim: enquanto Kesey escreveu uma obra ficcional com um narrador
fascinantemente não confiável, o indígena Chefe Vassoura, que está trancafiado num
hospício e que não consegue diferenciar suas alucinações da realidade, Thompson
descreveu o que realmente aconteceu sem também saber o que é alucinação ou é
real. A corrida off road e o encontro de policiais e promotores sobre a
“cultura das drogas” que foi cobrir em Las Vegas foram apenas desculpas para
ele e seu infiel escudeiro, o advogado samoano cujo nome jamais é mencionado,
drogarem-se em níveis inumanos com todos os entorpecentes conhecidos à época. A
prosa alucinada é fluída, cristalina; os acontecimentos, obscuros. Há uma
passagem que seu advogado foge do hotel com malas novas, levado de carro por
Thompson, e nenhum funcionário percebe. Não é crível, mas ele não está
preocupado com os fatos: o livro é um longo relato de como não consegue fazer a
cobertura da corrida por estar muito drogado ou desinteressado e de como não
quer cobrir a convenção porque odeia autoridades. Talvez por isso mesmo, é o
trecho mais jornalístico, no sentido convencional, do livro: enquanto ao longo
de toda a trama nomes são omitidos, o médico e o promotor que falam na abertura
da convenção são citados nominalmente e têm seus discursos implacavelmente
ridicularizados – não havia ainda o conceito, mas Thompson tinha lugar de fala
e era realmente o especialista em drogas. Conferi numa rápida busca na
internet: o médico e seu livro caricato sobre maconha são reais. E esse nem é o
trecho mais hilariante, há vários que me fizeram dar gargalhadas. Conforme a
história progride, no entanto, a trama fica cada vez mais sombria e desconexa.
Afinal, os anos do flower power já haviam passado e Thompson ressente-se disso.
Sua geração perdera para o conservadorismo de Nixon e Raoul Duke (seu
pseudônimo) não se poupa: na verdade, ele e seu advogado são junkies ameaçadores
e violentos. A misoginia de ambos não fica nada a dever para a de Charles
Bukowski e a de Jack Kerouac, outros dois ícones literários do período; talvez
seja até pior. Reflexo de uma utopia que degenerou, Thompson registra com
nostalgia os ideais libertários da geração hippie dele e de Kesey, Allen
Ginsberg e Timothy Leary, mas, mais lúcido do que seu histórico sugere, aponta
claramente o que “uma jornada selvagem ao coração do Sonho Americano” (o
subtítulo do livro) lhe revelou: a obsessão por dinheiro fácil nos EUA solapou
os sonhos utópicos de seus pares e a necessidade de “iluminação” de então não
era diferente das velhas religiões, levando ao surgimento de “gurus”
oportunistas e, embora ele não mencione nesta passagem, ao culto homicida de
Charles Manson que ele frequentemente relembra. O sonho acabou, mas redundou
num livro acachapante.
Daniel Souza Luz é escritor,
jornalista, revisor e professor
![]() |
| Hunter S. Thompson em Las Vegas, 1971. Foto de domínio público. |
Monday, July 18, 2022
As sendas erradas pelas quais Hemingway caminhou
Este ensaio foi publicado na página 7 da edição 7796 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 16 de julho de 2022. Trata-se de uma reflexão que fiz originalmente em 2006 e que decidi atualizar, ampliando muito o texto, além de aperfeiçoá-lo.
Uma questão que tem
me interessado, ao tomar contato com obras de décadas atrás que não têm
reedições acrescidas de fortunas críticas e novos posfácios (mas deveriam, até
porque há efemérides que as favoreceriam), é refletir sobre como as novas
gerações de leitores as recepcionariam, no caso de uma revalorização dos
autores. Expressões e passagens que passavam despercebidas outrora hoje causam
certo estranhamento, isso quando não se descobre que são explicitamente
preconceituosas. Os cancelamentos são motivados, muitas vezes, por causas
justas, tisnando a reputação de autores. Não é algo que deva ser
superdimensionado, no entanto. Há escritores que fazem da má reputação sua fama,
como é o caso de Charles Bukowski, que a explicitava em seus contos, muitos dos
quais autobiográficos. Não há cancelamento que o atinja ou a Céline, um colaboracionista
dos nazistas na Segunda Guerra que jamais li, mas que continua sendo reputado como
um dos titãs da literatura francesa, apesar de seu envolvimento com os nazis
não ser segredo. E, na verdade, não há novidade nesta questão do cancelamento,
a não ser o termo. De tempos em tempos, mesmo depois de mortos, escritores, ao
menos os que foram tidos como bússolas morais do seu tempo, têm o caráter posto
à prova. Em 2006, por exemplo, li uma
reportagem interessante, assinada por Kátia Mello, na revista IstoÉ: um
jornalista alemão reuniu na correspondência de Ernest Hemingway evidências de
que o escritor matou 122 soldados do Eixo durante a 2ª Guerra Mundial, época em
que se alistou no exército dos Estados Unidos. A reportagem abre com uma
consideração de que o fato abala um mito da esquerda. Para mim, isto não
deveria surpreender ninguém ou abalar coisa alguma. Ele ajudou os lendários
documentaristas Joris Ivens e Roman Karmen a registrar os horrores da Guerra
Civil Espanhola; o documentário foi bancado por intelectuais norte-americanos
de esquerda que estavam preocupados com Franco e chegou a ser visto pelo
presidente Roosevelt. No entanto, quem leu atentamente Adeus às Armas sabe
perfeitamente o quanto Hemingway é frio em relação à guerra, embora o livro
permita vislumbrar também uma leitura pacifista. A prosa dele é quase
insensível, seca e sem grandes insights, exatamente o inverso da
escrita de Henry Miller, para citar apenas outro escritor norte-americano que
perambulou pela Europa naquela época de efervescência literária. Miller
vagabundava em Paris enquanto Hemingway lutava contra fascistas na Espanha, e
isso, claro, reflete-se na forma como escrevem. Embora o vazio das mortes sem
sentido seja o momento no qual Hemingway concentre a força da sua escrita nesta
obra, em que justamente a frieza produz os momentos de mais alta densidade
literária, é patente que ele as considera inelutáveis em uma guerra. Adeus Às
Armas também evidencia que ele possuía uma tendência belicista atávica. Quando o
narrador, seu alter ego, mata um aliado, o faz sem culpa e sequer tece grandes
considerações posteriores a respeito. No entanto, se for verdade os fatos
levantados na correspondência, não deixa de ser lamentável que Hemingway tenha
matado um soldado alemão de 17 anos que tentava escapar do confinamento. A reportagem
cita a atração por combates que Hemingway demonstrou em vida. Não sei o quanto
isso o angustiava ou não, se os assassinatos a sangue frio que ele teria
cometido na prisão – os inimigos estavam cativos, portanto fora de combate –
influenciaram seu suicídio em julho de 1961, mas creio que um passado tão
violento não deixe de ser um fator determinante. Bom ou mau caráter (consta que
ele também traía a esposa, a quem dedicava os livros), ele continua a ser um
dos grandes autores do século passado.
Daniel Souza Luz é jornalista, escritor, revisor e professor
![]() |
| Ernest Hemingway em seu barco, 1950. Foto de domínio público, sem atribuição do autor. |
Monday, July 11, 2022
Anacronismos, italianismos e racismos
Este ensaio foi publicado na página sete da edição 7791 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em nove de julho de 2022. Em relação ao texto publicado no jornal, apenas aperfeiçoei a redação da última frase.
Neste
ano em que se comemorou, meses atrás, o centenário da Semana Moderna de 1922,
os escritores modernistas, mesmo de segunda geração, voltam à tona. É o caso de
Antônio de Alcântara Machado, mais conhecido como o autor de Brás, Bexiga e
Barra Funda. O que me fez querer ler este livro, no entanto, foi uma crônica do
Ivan Angelo que li numa Vejinha (Veja SP) em 2018, enquanto aguardava uma
consulta médica do meu pai em Sampa, e na qual Angelo elogiava muito a obra. Como
já havia lido o conto Gaetaninho, que é ótimo, numa das coletâneas Para Gostar
de Ler, é um livro que antes mesmo de ler já me trazia ótimas memórias. E que
decepção. Não podia deixar de lê-lo neste ano, então peguei uma edição
destinada para vestibulandos do final do século passado na biblioteca da
Caldense. Começa mal, os primeiros contos são enfadonhos; nem as invencionices
modernistas na linguagem os salvam. Depois melhora, mas ao mesmo tempo que as
habilidades de narrador de Alcântara Machado se destacam, os preconceitos dele
se avultam. E não é só o elitismo, mas como bem nota a professora Cely Arena
nos textos complementares, há racismo. Ela ainda tem dúvidas se é do narrador
ou do autor, mas para mim está bem claro que Alcântara Machado era tão racista
que fazia Monteiro Lobato parecer um destacado abolicionista. Todos os
personagens negros são muito mais caricaturais do que os imigrantes italianos
que ele já retrata com um viés pitoresco – Parque Industrial, da Pagu, é também
uma obra modernista e faz um retrato muito mais interessante do Brás e dos seus
trabalhadores, até porque é marcado pela alteridade. Além disso,
características negativas são pespegadas aos personagens negros sem nenhum
pejo. Qual a razão para essa falta de escrúpulos a não ser racismo? E não vou
nem entrar no mérito de como ele se refere aos indígenas. Não sabia que essa
edição também trazia junto o livro Laranja da China (possivelmente porque desde
os anos 1970 as duas obras são editadas juntas sob o título Novelas
Paulistanas); é muito superior, embora muito menos famoso, e salva a leitura
desse volume escolar, pois nele Alcântara Machado já era um narrador mais
seguro e usava recursos estilísticos características do modernismo com mais
parcimônia e criatividade. Infelizmente, os estereótipos racistas continuaram
presentes. Como os seres humanos são complexos e contraditórios, há matizes que
também revelam qualidades à frente do seu tempo: um conto como Carmela, que a
professora Arena entende que retrata a falta de mobilidade social da mulher
imigrante, também pode ser entendido como um elogio à liberdade sexual
feminina. No entanto, apesar da linguagem ser moderna e fluída, muito
influenciada pelo Oswald de Andrade, o livro é pra lá de anacrônico, mesmo para
a época em que foi escrito, menos de três décadas após a abolição da
escravatura. Isso dá uma pista de como o racismo estrutural deveria ser
naturalizado na elite política a qual Alcântara Machado pertencia. Essa edição
é para um vestibular de 1999; se àquela época, no posfácio, já se criticava o
racismo e o elitismo do autor, hoje creio que a grita seria tão forte que a
obra seria retirada da lista de leituras obrigatórias. Não seria imerecido,
embora seja um autor que precise ser lido, tal como Lobato, até para se
entender os mecanismos dos preconceitos que insinuam-se em narrativas.
Daniel Souza Luz é jornalista, escritor, revisor e professor
Monday, July 04, 2022
Discos Que F... Muitas Vidas
Este ensaio pessoal foi publicado na página 7 da edição 7786 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG). Em relação à publicação no jornal, tive que fazer uma correção: troquei as bolas na questão de quem cantava uma canção numa resenha do JAL sobre o Velvet Underground. Ou seja, insisti no que era certo ao comentar um erro dele para ilustrar o meu. Total Inception.
Fanzines foram um alicerce do
underground nos anos 1980 e 1990. Numa época em que a informação era escassa, eram
um meio de circulação de ideias e principalmente de divulgação de cenas
musicais em publicações xerocadas, amadoras, geralmente com colagens – uma
herança do dadaísmo –, mas que eventualmente tinham textos mais bem elaborados
e profundos do que revistas tradicionais. Li inúmeros, fiz quatro (dos quais
somente dois tiveram mais de uma edição), colaborei com vários e vi desde a
valorização do meio pela mídia tradicional até a decadência com a chegada da
internet. No fim dos anos 1990 eles até coexistiram com sites simples feitos
por fanzineiros no finado Geocities, mas neste século toda essa fecunda cena pereceu
aos poucos. Foi quando tive a ideia de fazer um fanzine literário, nos idos de
2003, com contos em vez de resenhas de shows e discos, sem imaginar que seria
assim que zines renasceriam: como suporte em papel para novos escritores que
não têm condições de bancar seus próprios livros em gráficas. Mas é outra era,
em que são vendidos na rua e em saraus, e não há mais um intenso escambo dessas
publicações pelo correio. Também não há mais ligação com o punk rock, que
ressuscitou e reconfigurou o formato, inaugurado na década de 1930 por fãs de
ficção científica, em 1977. Por isso mesmo, foi uma honra ter sido convidado
para colaborar com a segunda edição do Discos que F.. Muitas Vidas, que tem o
título assim mesmo, autocensurado, numa brincadeira do editor Renato Lauris Jr.
Afinal, esse é o único meio em que realmente não há censura. Nos anos 1990,
aliás, grassavam vários quebra-paus nas discussões em textos e entrevistas. A
data desse número dois é de um ano atrás, quando Lauris me pediu um artigo, mas
ele só foi editado em papel recentemente. Ótimo, imediatismo é coisa de redes
sociais. O disco que ferrou minha mente não poderia ser outro: o Never Mind The
Bollocks, Here’s The Sex Pistols. Tanto que cometi um erro imperdoável no meu
artigo: afirmei que C’mon Everybody era cantada pelo guitarrista Steve Jones e
na verdade foi pelo Sid Vicious. Agora entendo por que o grande jornalista José
Augusto Lemos cometeu uma gafe quando escreveu que a Nico cantava uma
música cujo vocal foi feito pelo Lou Reed no primeiro disco do Velvet Underground. Tudo bem, estou em boa
companhia, um dia reedito esse artigo dos Pistols e o corrijo. O zine traz
muitos outros discos clássicos do punk, pós punk, hardcore e grindcore; todos
os textos são deliciosos de ser lidos por quem cresceu colecionando vinis,
fitas e CDs (tenho quase todos os discos comentados nessa edição). Não há
resenhas propriamente, todos os textos são de memórias. O título diz tudo:
discos, nas eras punk, pós punk e grunge/metal, alteravam a percepção de mundo
do ouvinte, o modo como agem e suas relações pessoais. Ora, não é por acaso que
discutia com chefes e que apenas dois deles sejam meus amigos em redes sociais,
afinal odeio autoritarismo, nem é à toa que detesto fachos. Isso, claro, não é
algo restrito à minha geração, com os hippies também foi assim. Em cada memória
desse zine é possível visualizar as cenas, quem é das antigas sabe: um amigo
aparece com uma fitinha cassete misteriosa, um chegado está ouvindo um disco
fora de série na vitrolinha da avó, lê-se sobre uma banda numa revista e se
compra um CD no escuro. E nada mais é como era antes. Em particular, o artigo
do anarcopsicólogo Luiz Henrique sobre uma das obras-primas do Napalm Death, um
ícone do barulho extremo, traz uma lembrança importante: feminismo, direitos
dos animais, luta contra homofobia, quase todas as pautas de hoje, tudo isso já
era discutido à exaustão nas letras e nos fanzines. Não tinha cancelamento na
época, o termo era boicote e isso, como já disse, fazia como que o pau
quebrasse – às vezes, de verdade, não era virtual. Hoje o rock é,
majoritariamente, um lixo conservador. Claro que ainda há bolsões de
resistência e criatividade, mas voltaram para o underground. Antes, se eu via
alguém com camiseta de banda da qual gosto, ia puxar papo. Hoje prefiro passar
longe. As novas gerações que gostam de divas LGBTQIA+ e rap nacional são mais
relevantes agora e escandalizam mais os reacionários. Foram os fãs da Anitta
que ferraram os sertanojos bolsonaristas desperdiçadores de dinheiro público,
não foram os ouvintes do Slayer (aliás, outra banda associada à rebeldia que terminou
mais velhusca do que vovôs fascistas). Roqueiros não incomodam esses pilantras,
que incorporaram as tatuagens e poses. E que fique claro que hoje aprecio
música caipira de fato, inclusive este fanzine começa com uma citação do Zé
Rodrix e do Tavito. De qualquer forma, é muito bom notar que minha geração
venceu e que passamos o bastão. Quem quiser manter a chama viva, pode escrever
para o Lauris e pedir cópias dessa edição e da anterior: revsobrevidas@gmail.com
Daniel Souza Luz é jornalista,
revisor, escritor e professor
Monday, April 25, 2022
O Menino do Dedo Verde, de Maurice Druon (resenha)
Esta resenha foi publicada na página nove da edição 7740 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 21 de abril de 2022. Eu mesmo revisei o texto; devido à falta de tempo hábil para escrever um texto inédito, apenas peguei uma resenha que havia escrito para o Good Reads em 2019 e acrescentei algumas informações, usando como gancho para a publicação o fato de Maurice Druon ter nascido e morrido em abril.
O
clipe de Tunic (Song for Karen), do Sonic Youth, tem alguns trechos que citam O
Menino do Dedo Verde, comentou comigo uma ex-namorada, nos já distantes, muitos
distantes, anos 1990. Nunca me esqueci disso e em julho de 2019 vi um exemplar
da obra, uma maltratada edição de 1979, num brechó/sebo que estava arrecadando
recursos para animais de rua. Comprei imediatamente e, concluída a leitura, o
doei para uma biblioteca livre; a moça que estava responsável pela lojinha me
disse, na ocasião, que é um clássico da literatura infantil. A introdução
informa que Maurice Druon é um dos compositores da letra do hino antifascista
Le Chant des Partisans. Outra boa referência. Druon, aliás, apesar de ter sido
membro da Resistência contra os nazistas na França durante a Segunda Guerra
Mundial, teve vida longeva e morreu num abril como este, poucos dias antes de
fazer 91 anos, em 2009. O livro é uma fábula que quase imperceptivelmente
remete ao também clássico O Pequeno Príncipe, mas é uma leitura que flui melhor
e é mais encantadora. A história tem certo viés religioso, como nota o
tradutor, Dom Marcos Barbosa. No entanto, não há proselitismo. Incomoda-me
apenas que Druon esqueça-se que mudou o nome da cidade onde Tistu, o
protagonista, mora, volte a usar o nome antigo no meio da trama e lembre-se do
novo nome no final do livro, como se nada tivesse acontecido. Não é possível
que esse anacronismo seja uma falha de tradução, mas seria interessante conferir
isto em edições mais recentes, pois o livro ainda está em catálogo no Brasil.
Há uma certa idealização da alta burguesia que também me causa certa estranheza,
embora esta seja retratada até que criticamente, com o passar da história.
Assim que acabei a leitura fui rever o clipe do Sonic Youth e percebi que as
referências ao livro são breves, porque o tema da música na verdade é a vida de
Karen Carpenter e o roteiro do vídeo foca-se na biografia dela, mas ao mesmo
tempo são explícitas e bem encaixadas.
Daniel
Souza Luz é professor, jornalista, escritor e revisor
Wednesday, April 20, 2022
Indesculpável
Este conto foi publicado na página nove da edição 7737 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 14 de abril de 2022. Apenas traduzi e adaptei para a realidade brasileira um conto que escrevi originalmente em inglês, tendo em mente os rednecks racistas do sul dos EUA, em 30 de outubro de 2007, embora só o tenha publicado no meu blog de textos em inglês em 24 de janeiro de 2008. Eu mesmo revisei o texto, cujo teor sarcástico foi muito influenciado por letras do Jello Biafra, do Dead Kennedys, e um pouco pelo Bukowski.
Pouco antes da devolução de
seu dinheiro, Jerry Garcia estava pensando em suicídio. Ele nunca teve nenhuma
chance, ele não conseguia parar de pensar nisso. Um perfeito perdedor. Os pais
eram doidivanas. Eles gastaram tudo em drogas e álcool. Mas eles também eram hippies,
então o garoto cresceu em uma atmosfera de amor e foi batizado com o nome do
líder do Grateful Dead. Eles apoiaram muitos de seus desejos quando ele era um
pirralho. Quando a loja de bicicletas faliu, os dois fugiram e não deram a
mínima para os credores. Afinal, o sonho não acabou. Ele não podia culpá-los.
Eles não reagiram bem quando ele se rebelou na esteira dos hormônios
adolescente, ironicamente desejando ser um cara comum e disciplinado, e negaram
todas as suas acusações. A mãe comprou tudo o que ele desejava. O pai fez tudo
o que Jerry queria. O resto do dinheiro foi investido em bebida, maconha e ácido,
mas eles nunca se importaram com posses. Hippies, no verdadeiro sentido da
palavra. Quando sumiram, tudo ficou para Jerry, que não podia ser cobrado no
nome deles. Felizmente, a comarca já não tinha regras e costumes medievais
naquela época, assim como uma minoria de lugares naquele interiorzão esquecido.
O juiz estipulou um novo lar para o garoto abandonado. Ele foi adotado com seu
Nintendo, brinquedos, bicicleta, raiva e medos. Na adolescência, ele só sabia
ler e alguma coisa sobre matemática graças à mãe, mas nunca foi à escola,
apenas vagueou pelo bairro e se divertiu muito. Era o final dos anos oitenta.
Os anos noventa foram um pesadelo. Seus novos “pais” o colocaram na escola.
Jerry nunca foi um saco de pancadas, apesar de sua falta de sociabilidade, por
causa de sua condição física. Mas, em uma cidade pequena, ele teve que estudar
com crianças pequenas, desde o início. Mesmo que isso fosse mais humilhante
ainda, ele reabriu a bicicletaria e jurou honrar todas as dívidas. As pessoas
do entorno começaram a apadrinhá-lo, por causa de seus esforços. Uma criança
com senso de dever. Ou um tolo que pensa que o sistema feudal ainda é legal.
Depende do ponto de vista. Quando ele acabou de se tornar independente, depois
de anos de lucro zero, apenas pagando as dívidas e tendo o básico para se
alimentar, o banco fez uma bagunça com sua conta. Um erro de sistema, eles
alegaram. Bem, tudo bem, mas eles não corrigiram o erro, e até, sutilmente,
tentaram culpar Jerry pela desistência. Ele quase desistiu e fechou as portas.
Então, em uma espécie de milagre, ele viu uma carta debaixo de seus cobertores.
Sua m
Daniel Souza Luz é professor, escritor, jornalista
e revisor
![]() |
| Mural em homenagem a Jerry Garcia, do Grateful Dead, pintado por Claire Bain em 1999 no The Warfield Theater, em San Francisco, Califórnia. Foto tirada por Franco Folini em 15 de agosto de 2012, postei aqui via licença Creative Commons. |
Monday, April 11, 2022
Parque Industrial, de Pagu (resenha)
Patrícia Rehder Galvão, a
Pagu, nasceu na vizinha São João da Boa Vista. No entanto, foi uma verdadeira
cidadã do mundo: mais do que cosmopolita, teve uma vida de aventuras e uma
militância política que lhe valeu torturas inomináveis na mão da polícia
política do ditador Getúlio Vargas. A primeira vez que li a respeito dela não
foi na escola, mas sim na revista de HQs underground Chiclete com Banana, do
quadrinista Angeli, quando ainda era adolescente: ela foi também uma das
pioneiras dos quadrinhos no Brasil, com os personagens Malakabeça, Fanika e
Kbelluda. No artigo sobre a HQ dela também se mencionavam as viagens para o
exterior, o trabalho como jornalista que a levou entrevistar Sigmund Freud e as
sementes de soja que trouxe para o país, introduzindo esse cultivo no país.
Essa história de vida impressionante proporcionou-lhe experiência suficiente
para escrever Parque Industrial ainda muito jovem, aos 21 anos. No começo deste
ano a Companhia das Letras o relançou, devido às comemorações do centenário da
Semana de Arte Moderna de 1922 – Pagu foi musa dos modernistas. Agora é um
momento mais apropriado para escrever a respeito, sem Ruy Castro poluindo o
debate a respeito do modernismo com discussões bizantinas. Esta edição de
Parque Industrial manteve o prefácio de 1994, escrito por Geraldo Galvão
Ferraz. Notei que já o havia lido; com certeza foi reproduzido à época em algum
caderno cultural dos grandes jornais brasileiros, que eu lia avidamente –
deixando os livros de lado, desgraçadamente. Se eu os lesse, saberia que Galvão
estava, em parte, equivocado: o panfletarismo da obra, um defeito comum na
arte, é neste caso uma qualidade e não uma mácula. Afinal, trata-se
explicitamente de um romance proletário. A trama captura a atmosfera do Brás,
bairro operário de São Paulo, na virada dos anos 1920 para 1930, registrando
amores, a luta por melhores condições de trabalho, as contradições decorrentes
disso e incursões na vida burguesa de bairros mais aquinhoados. Pagu tece uma
colha de retalhos bem urdida que entrelaça habilmente os destinos de
personagens de origens muito variadas. Os defeitos do livro são muito outros: embora
a linguagem seja moderna até hoje, com frases curtas e precisas, há uma
profusão de personagens que exigem muito a atenção do leitor para que se lembre
quem é quem, pois a profundeza psicológica deles e suas características não são
bem trabalhadas – ou seja, uma característica de um romance realista do século
19, especificamente O Cortiço, de Aluísio Azevedo. Há certo esquematismo que
leva a algumas falhas de lógica interna: num mundo sem celulares e com
telefones inacessíveis à população explorada, uma operária que estava em casa
já sabe da demissão de outra e até já lhe arrumou emprego antes que ela saísse
da fábrica. O panfletarismo, às vezes até moralista, embora a autora e
personagens critiquem a moral burguesa, só pesa a mão no capítulo Paredes
Isolantes e ao final. Ainda assim, não é nada ingênuo, como afirma Galvão: os
exploradores são também predadores sexuais, salvando-se o personagem Alfredo,
inspirado em Oswald de Andrade, e há descrições cruas de estupros. Aliás, é
muito difícil escrever sobre sexo sem cair na vulgaridade risível e Pagu o faz
muito bem ao retratar relações consensuais. É uma pena que ela não tenha
escrito muito mais romances, pois além desse, publicado com o pseudônimo de Mara Lobo, há apenas mais um, feito em parceria com Geraldo Ferraz.
Daniel Souza Luz é professor,
jornalista, escritor e revisor
Tuesday, April 05, 2022
Longe das Aldeias, de Robertson Frizero (resenha)
Esta resenha foi publicada na página oito do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em dois de abril de 2022. O texto foi revisado por mim mesmo, no afogadilho, então talvez precise de correções posteriormente.
Este livro é de 2015 e foi
lançado pela editora Dublinense; no entanto, foi relançado no fim de 2021 e
distribuído como brinde no clube de assinaturas TAG também no final do ano
passado. Frizero é um escritor gaúcho que talvez seja apresentado a um público
maior devido a isso. Tomara, a se julgar por essa obra. Longe das Aldeias é um
romance, como destacado na capa, e é curtíssimo. Ou, talvez, devido a isso, uma
novela. De qualquer forma, categorizações à parte, é um primor de concisão que
traz uma história sufocante cuja intensidade é ressaltada no corte preciso. A
trama revela-se aos poucos. Temos uma família de emigrados que vive no Brasil;
isso é óbvio, mas não é dito em momento algum em que lugar estão. Apenas
sabe-se que atravessaram o oceano para viver num país tropical, daí o porquê do
batismo do livro, mas é fácil depreender que vivem entre brasileiros pelos
nomes e rumos dos namorados de uma das personagens centrais. De onde vieram e
quando também é impreciso, porém, também é possível inferir que se trata da
Europa. Trata-se de algum lugar destruído por uma guerra no qual a intolerância
religiosa levou a um genocídio. Seriam judeus à época da Segunda Guerra Mundial
ou mulçumanos quando da fragmentação da antiga Iugoslávia seguida das cruentas
guerras subsequentes? Só se sabe que seus inimigos são cristãos. De qualquer
forma, os horrores, se não os mesmos, são sempre incomensuráveis e quase incompreensíveis,
dado que religiões em geral pregam a congregação entre os homens, mas,
obviamente, suas estruturas verticalizadas favorecem o autoritarismo e o ódio a
quem é diferente. Da família, sabe-se que duas irmãs aportaram na nova terra,
uma delas com o filho recém-nascido, Emanuel. O fio condutor é tecido por ele,
que tenta entender quem é a figura fantasmagórica do pai, Josif, e como os
demais parentes pereceram. A mãe, Marija, tem uma doença debilitante e a
progressiva perda de contato com a realidade leva-a com frequência a alucinar
com o passado e a guerra. Ela e irmã, Mirna, jamais contaram em detalhes o que
aconteceu, embora cultuem a memória da família. Resta a Emanuel, que vai
estudar História na faculdade, juntar pontas soltas dos relatos da progenitora
e da tia com a leitura de livros sobre a política bélica de terra arrasada. O leitor
experimentado logo adivinha quem é o pai e como Emanuel foi concebido – ele só
não percebe logo por que é muito jovem e é um terror difícil de ser encarado,
embora ele o intua. Isso, no entanto, em momento algum ofusca o impacto da
história. A mãe é aparentemente uma figura opressiva, mas tanto o protagonista
quanto o leitor vão compreendendo suas razões e as intricadas mentiras que
construiu. Plasmando o rebento a seus inimigos e mesmo à religião deles, embora
não abandonando a sua, ela recobra a humanidade. Há muito lirismo em meio à
brutalidade, o pendor poético do autor não vem à tona apenas nos poemas que ele
concebeu como se fossem de Emanuel, que os lê para a mãe adoentada. A
narrativa, portanto, não é seca, mas sim adornada com passagens sutis que
jamais edulcoram nada, apenas lembram-nos que certa fantasia é o que tornam o
intolerável algo suportável, dando algum sentido à vida.
Daniel Souza Luz é professor,
jornalista, escritor e revisor

















