Tuesday, August 01, 2017

Cisnes

Era a nossa rua. Resolvemos que seria o nosso bairro.
As primeiras exibições de Warriors, os Selvagens da Noite na TV aberta foram um marco histórico para a minha geração. A maioria dos moleques, invocados ou não, queria provar aquele gosto de aventura fora-da-lei do filme. Sem armas, com senso de lealdade e resolvendo desavenças na porrada, tal como no filme. As eventuais reprises iam amealhando mais adeptos do “ganguismo” de araque, com o passar dos anos oitenta. Quem não tem senso de aventura não vai entender que isso nada tem a ver com violência gratuita, perda de valores da civilização ocidental e outras asneiras de missivista padrão de jornal – para citar um ser verdadeiramente pernicioso d’antanho, hoje transmutado nas fileiras de um exército virtual sem peias.
Então montamos a nossa gangue. Fajuta, claro. Nem lembro o nome, se é que tinha. Não tinha um Cisne, o líder do Warriors; nós todos éramos líderes, numa estrutura horizontalizada, por assim dizer. E fomos tocar o terror, a nossa maneira. Ou seja, não fazendo nada, só ficando sentados na esquina de baixo da Rua Platina, jogando conversa fora e tomando conta do nosso “território”, um conceito tão caro às gangues do filme. Nunca li o livro de Sol Yurick no qual foi baseado o antológico filme de Walter Hill, então não sei se é algo tão importante na trama original, mas imagino que sim. Para nosso bairrismo pueril, era importante. Nosso território era aquela rua.
Finalmente, um dia, nossas vítimas vieram ao nosso encontro. Uns molequinhos menores do que nós que moravam na avenida que margeia o bairro Marçal Santos, a João Pinheiro. Eles vieram jogar bola justo no nosso “território”. Nós os cercamos. Perguntamos se eles tinham pedido licença para jogar bola lá. Claro que não. Então os mandamos ir embora, pois explicamos que aquele era nosso território. Fomos ameaçadores o suficiente para eles vazarem mesmo.
No dia seguinte, depois da escola e do almoço, como de costume, nos sentamos sob a sombra da árvore da esquina. Então o molequinho mais falante apareceu. Sozinho. Desafiador. Com camisa de botão, penteado certinho e uma cara ingênua cheia de verdades. Alguém perguntou o que ele queria. Acho que fui eu.
- Eu conversei com meu pai e ele disse que não existe esse negócio de território!
Nós rimos e o mandamos picar a mula. Ele se foi, obediente. Afinal, era menor que nós e estava sozinho. Assim que ele se afastou, um de nós, creio que o Paulo Augusto Rodrigues, adiantou-se e precaveu-nos.
- Sujou, galera. Acho melhor não ficarmos na rua um tempo, para não dar rolo.

Abandonamos nosso “território” umas semanas e não tocamos mais no assunto quando o reocupamos, sem discutirmos com mais ninguém. O menino não voltou lá com o pai dele. Não teve problema nenhum. Nós éramos mais bundas-moles do que Os Órfãos, a pior gangue do filme.

Crônica originalmente publicada no Jornal da Cidade de 27 de maio de 2017, em Poços de Caldas. É baseado no meu texto Swans, o qual reescrevi e revisei.

Still do filme Warriors, os Selvagens da Noite (1979), dirigido por Walter Hill.

Legião

Exorcista e Poltergeist. Pô, era sacanagem. Falaram para eu não assistir, mas não me metia medo. Sexta-Feira 13 tirava de letra. Achava que teria alguns sustos e boa.
Quando Poltergeist estreou na TV foi aquele alvoroço. Muitas chamadas na programação ao longo da semana que antecedeu à exibição provocaram um frisson na moçada. Era um filme contemporâneo, ainda estávamos nos anos oitenta. Ah, pra quê? Mal vi o começo e já fiquei meio arrepiado com a expectativa que criei. Desliguei a TV e desisti. Uma meia hora depois me enchi de coragem. Quando religuei, vi a cena dos trovões. Desliguei de novo e naquela época não havia controle remoto assim fácil, ainda bem, pois não vi a tal cena da TV com chuviscos. Só fiquei sabendo anos depois. Naquela tensão, discutindo com a babá, a driblei e liguei de novo numa cena horrenda – ou ao menos me parecia terrível, afinal era criança. Assustado, desliguei DE NOVO e acabei humilhado pelos risinhos de mofa da moça. A cena que me apavorou deve ser algo risível hoje até para criancinhas; os efeitos especiais provavelmente ficaram muito datados. Mas para mim não era e fiquei dormindo mal por semanas. O pior era quando trovejava.
E o Exorcista então? Vi por menos tempo ainda. Até hoje, tenho a impressão que é um filme muito tenso. O bizarro é que vi as duas continuações pouco tempo depois e achei ambas bestas. Mas o original, o clássico de William Friedkin com a Linda Blair, nunca vi inteiro. Hoje nem tenho mais curiosidade, mas antigamente era pelo trauma que o medo infantil me incutiu. O que não tem o menor sentido: divertia-me na mesma época não só com os Sextas-Feiras 13, mas também com uma infinidade de filmes de terror gore, como O Massacre da Serra Elétrica, A Volta Dos Mortos-Vivos, Re-Animator, A Hora do Espanto e outras preciosidades que esbanjavam carnificinas, zumbis e vampiros.
Meu problema era com demônios. Tentando racionalizar sobre isso agora, creio que é porque com vampiros, zumbis e psicopatas o problema era se meter no lugar errado numa hora imprópria. Mas os capetas pegavam qualquer um em qualquer lugar e qualquer hora, era muita maldade sem razão. Não que os outros seres tivessem alguma racionalidade, mas tinha mais ou menos um por quê. Tipo, você vacilou e esbarrou num morto-vivo. Ou vai transar justo perto do lago onde o Jason morreu, maior falta de respeito. No entanto, com demônios você estava amaldiçoado porque sim. Acho que era isso com que encanava.
 Uma conversa casual na rua redimiu meu sono naquela época. Ouvi-a por puro acaso mesmo, eu nem tinha provocado o assunto e cheguei à rodinha no meio da prosa. Um moleque um pouco mais velho, o Marcão, explicou para nós que possessões demoníacas aconteciam apenas nos Estados Unidos, podíamos até ver que não tinha filme nacional sobre isso. Ah bom! Fez todo o sentido do universo para mim. Só podia ser. Deus é brasileiro e patriota, certeza. Estava a salvo. 
Tempos depois assistia tranquilamente Uma Noite Alucinante - A Morte do Demônio, Hellraiser, O Portão e outros filmaços que faziam sucesso nas locadoras. E era um hipócrita. Quando assistimos ao Evil Dead 2 – que é divertidíssimo – de galera, meu amigo Paulo tapava os olhos nas cenas mais cabulosas e eu tirava sarro, como se fosse muito macho.

Originalmente publicado no Jornal da Cidade, Poços de Caldas, 29 de julho de 2017.

O porquê do sumiço

Não tenho publicado mais neste blog porque quebrei o pulso direito andando de skate e estava reeditando algumas crônicas no Jornal da Cidade - todas com correções, alguns títulos aportuguesados e acréscimos, em especial a crônica Cabine C, que foi totalmente reescrita -, com exceção da crônica "Conta Comigo, Rullyan", que foi escrita antes do acidente e foi mandada exclusivamente para o jornal. Desde o final de semana passado, agora que a fisioterapia já fez meu quadro evoluir consideravelmente, comecei a mandar crônicas totalmente inéditas para o jornal. Todas as crônicas que foram publicadas lá, focando em especial a minha infância e adolescência (com uma única exceção, a Stiff Little Fingers), podem ser encontradas neste link: http://www.jornaldacidade1.com.br/tag/daniel-souza-luz/

Monday, March 27, 2017

The Passage, uma brevíssima crônica.

Brincávamos de esconde-esconde. Dentro de casa. Já estávamos até meio grandinhos para um espaço tão exíguo. A ideia foi dela. Fui me esconder atrás de um armário. Ela resolveu se esconder junto. Estava bem apertadinho.
Foi de caso pensado. Ela se aconchegou a mim. Meu primeiro beijo de língua. Com um sabor de algo escondido. Literalmente. Não me lembro se fomos flagrados na brincadeira. No que interessava, não fomos.

Monday, March 13, 2017

Jesus and Mary Chain, uma crônica sobre como foi se apaixonar pela banda nos anos oitenta

Muitas bandas, mas muitas mesmo, passei a gostar ao ler sobre elas, muito antes de ouvi-las. Anos antes. Isso aconteceu comigo e vários amigos meus. Anos oitenta, baby.

Não me esqueço da primeira vez em que li sobre o Jesus. Estava esperando meu pai no antigo escritório dele, eu era criança ou adolescente. O problema é que agora a lembrança não é tão exata. Mas do texto me lembro bem da frase que marcou. Não é a citação literal, mas o crítico dizia “Este disco do Jesus and Mary Chain é um tiro do Magnum 45 na cabeça de quem diz que o rock inglês está morto”. Estava em uma Folha de S. Paulo, salvo engano, que estava dando bobeira ali na sala de espera. Será que foi na época do Psychocandy, quando eu tinha 11 anos, ou do Darklands, quando eu já tinha 13? De quem será o texto? Há muito tempo tenho para mim mesmo que, pelo estilão, é o tão amado e odiado Pepe Escobar.

Guardei bem o nome da banda. Depois disso, uma amiga de infância, a Cláudia Cândida, levou uma Bizz Letras Traduzidas para casa. Ela a esqueceu lá e fiquei fascinado. Pedi para que ela deixasse comigo mais um tempo para eu ler todas as letras; ela me deu a revista, o que foi muito bacana da parte dela. E lá estava uma letra do Jesus and Mary Chain, Darklands, faixa-título do disco de 1988.

Nunca tinha visto tanto niilismo e desesperança. Ainda não conhecia as letras do Ian Curtis. Fiquei boquiaberto, em especial com o final, que me pareceu mais irônico do que amargo. Foi paixão à primeira leitura. Decorei a letra muito antes de realmente ouvir a música; na verdade, antes mesmo de ouvir o que quer que fosse da banda.

Fiquei um tiquinho decepcionado a primeira vez que consegui escutar. Amo Just Like Honey, mas pelo o que lia deles, pensava que fosse mais barulhento, e foi justo a primeira música deles que ouvi. Perto de Bauhaus, que escutava muito à época, achei muito contido. Só tinha acesso via clipes que passavam no Som Pop na TV Cultura. Mas meu irmão ganhou de uma menina que era apaixonada por ele, em 1990, uma coletânea em vinil chamada Skate Surf Music; tinha uma música deles, Surfin’ USA, versão esporrenta de um som do Beach Boys que eu já conhecia, aí sim gostei. Nem lembro mais onde e quando que ouvi Darklands pela primeira vez. Mas a música fazia jus à letra, felizmente.  

 
 

Friday, March 10, 2017

The Slits, um miniconto.

As típicas garotas com quem sonhei quando adolescente só as conheci quando era novo ou velho demais para elas. Ainda bem que houve algumas poucas exceções aos vinte e poucos anos.

Thursday, March 02, 2017

Einstürzende Neubauten, crônica com um título literal.

Eram com estéticas iguais, mas como disposições diferentes, de acordo com a topografia da rua. Ambos divididos em dois blocos, um era perpendicular à rua, o outro era paralelo.  O uso do verbo no passado não está correto. Eram não, ainda são. Edifícios Alfa e Beta. Na minha memória, no entanto, eram.
Morei, quando criança, no Beta. Na verdade, de recém-nascido até o fim da adolescência e começo da vida adulta. De 1974 a 1993. Vi várias fases nele. De quando havia árvores na rua. Quando foram arrancadas. Quando era pintado. Era branco com detalhes verdes. Mudaram completamente a cor hoje, é bege. Não gostei. Talvez melhor do que quando a pintura ia ficando descascada, antigamente. E as grades brancas enferrujadas. Mas prefiro lembrar delas assim. Primeiro baixas, depois altas. Hoje há um portão que impedindo a entrada de não moradores. Antes a entrada para a escada que dá acesso aos apartamentos era livre, apenas um portão interno deveria ser fechado à noite, por volta das 22:00 – lembro-me de meus pais fechando-o. Até pouco tempo ainda podia-se entrar livremente lá, de dia. Fui até a porta do apartamento onde passei a infância, o número 101, em 2013. Não bati nas portas (são duas) para saber quem mora lá ou como ele está por dentro. Vivo sonhando com ele, tal como era, ou surrealmente modificado. Prefiro assim, que o apê permaneça como lembrança e como um ente onírico.

Monday, February 20, 2017

Minutemen, uma crônica sobre um vendedor punk.

Morei brevemente em São Paulo em 1995 para fazer uma faculdade que logo abandonei, pois passei na segunda chamada, pouco depois, do curso de jornalismo da Unesp de Bauru. Morava na República, perto da Galeria do Rock, onde costuma ir quase todos os dias. Eu tinha dois CDs do Black Flag e queria mais. Vi o single de Nervous Breakdown numa loja. Pedi para o balconista, um garoto negro, de óculos, bastante expansivo, pegar o CD para mim, pois iria comprá-lo. Ele se recusa. Seguiu-se um diálogo mais ou menos assim.
- Não cara, você conhece Minutemen?
- Conheço de nome.
- Minutemen é muito melhor do que Black Flag. É da mesma turma, da mesma gravadora, a SST.
- A gravadora do Greg Ginn, do Black Flag.
- Sim, mas esquece Black Flag, cara! Minutemen é muito mais criativo. Compra o disco deles. Você tá marcando. É a mesma pegada, só que melhor, muito mais inteligente. Melhor banda dos anos oitenta.
- Legal, mas...
- Para de bobeira. Você vai fazer o melhor negócio da sua vida. Leva o CD do Minutemen, você vai gostar muito mais e...
Somos interrompidos antes de ele pôr o CD para tocar e tentar me convencer. Uma assistente social entra na loja e chama o balconista pelo nome, do qual não me recordo mais. Ela abre uma pasta, diz que precisa conversar com ele sobre o cumprimento da medida; imagino que de um ato infracional, embora ele não parecesse tão adolescente, mas sim alguém com uns vinte anos. Aproveitei a deixa para cair fora. Achei o tão almejado single de Nervous Breakdown em outro estabelecimento. Queria porque queria. Só fui ouvir o Minutemen uns dois anos depois. Época de recursos limitados e sem acesso à internet. É uma banda tão fascinante quanto o Black Flag mesmo, embora não pareça tanto assim. O Black Flag me marcou mais, conheci antes, mas gosto quase tanto quanto. Talvez Minutemen seja melhor mesmo e aquele garoto estivesse certo, no entanto. Mas há muito espaço no meu coração para ambas as bandas.

Wednesday, February 08, 2017

New Model Army, crônica de nossa batalha mirim.

Havia Atari e tinha brinquedos de guerra. Tanques, armas e soldados de brinquedo hoje me parecem uma bizarria, mas vá lá. Que eu gostava de brincar de guerrinha, gostava. Quase todas as crianças gostavam. Quer dizer, ao menos os meninos (mau sinal, não é?). Teve uma vez que foi fera demais. Armamos (opa) de fazer uma guerrinha diferente: em vez de ser entre a molecada com pistolas de brinquedo – ou mãos fazendo as vezes de revólveres –  com nós mesmos bancando os soldados, fizemos uma guerra entre os nossos brinquedos. Juntou um pessoalzinho na casa do Coruja, amigo nosso de Santos, que costumava passar as férias em Poços de Caldas na casa da avó dele, na rua de cima. Combinamos assim: as escaramuças aconteceriam no gramado do quintal. No corredor ficava o nosso quartel-general. Na edícula do fundo, onde era aberta a área da máquina de lavar, ficava o quartel-general do inimigo, que no caso era nosso amigo Maurício, cujos pais tinham grana, o que lhe proporcionava tantos brinquedos de guerra que era ele sozinho contra a rapa. Assim seguiu-se a batalha, cheia de estratégias e bombardeios com pedrinhas nas naves; se alguma era acertada tava fora. Os quartéis generais eram protegidos por campos de força. Mesmo invisíveis, respeitávamos completamente o ente intangível que criamos. Assim se deu por horas. O mecanismo do campo de força eram pedras que deviam ficar em cima de uma cadeira; punham-se elas no chão e se entrava com os brinquedos que não podiam mais ser atacados. Não me lembro mais quem gritou, acho que foi o Coruja.
- OLHA O CAMPO DE FORÇA DELE DESLIGADO!
O Maurício estava atacando algum flanco. Ele estava longe da casinha do fundo. Saímos correndo e entramos impetuosamente dentro do quartel-general dele. Lembro que estávamos eu, meu irmão e o Coruja, mas tinha mais moleques ainda. Eu tranquilamente bombardeei com pedrinhas os bonequinhos de soldado dele, no começo. Quando vi, no entanto, o Coruja estava dando bicudas nos jipes e tanques do Maurício. Aí todos os combatentes decidiram que não haveria prisioneiros. Não conhecíamos a Convenção de Genebra ainda, éramos muito jovens. Ele voltou para lá gritando para pararmos, mas fomos derrubando e “explodindo” tudo. Conversando com meu irmão hoje, ele lembrou que o Maurício levou para lá uma bela réplica de um F-14 Tomcat, desses que se monta pacientemente com cola em casa. Voou pelos ares, no mau sentido, durante aquela blitzkrieg bop mirim. O Maurício foi embora chorando, juntando os cacos dos brinquedos dele. Se eu fosse ele, sairia chutando nossos brinquedos, afinal ele saiu pelo corredor atravessando o nosso campo de força invisível, que deixamos cuidadosamente ligado. Mas ele não foi à forra. Depois ficamos morrendo de medo dos pais dele bater na porta de nossas casas e cobrarem-nos os brinquedos estragados. Não deu nada. Ninguém se machucou mesmo. Essas guerras são as únicas que não são tão bestas.