Monday, April 11, 2011

Garotas têm ritmo

Uma visão embaçada: sua mão envelhece junto à de alguém em um baile de debutantes. Determinada a encontrar um único amor que a acompanhe por toda a vida, ela recorre aos conselhos de uma autodenominada cigana – uma hippie suja rodeada por cabeludos imundos. Envolvente, a mulher convence a garota, imbuída de ideais românticos, a organizar um baile de debutantes temporão – ela iria fazer 16 anos. Sem problemas; o dinheiro dos pais bancou tudo, da festa na qual deveria aparecer o predestinado à alegria da “cigana”, que também tem o dom de desaparecer sem deixar rastas.

O baile começa pontualmente no dia marcado. A banda contratada para tocar Evanescence e Paramore tem até uma vocalista que lembrava simultaneamente ambas as homenageadas e também a “debutante”. Todos os bicões são bem-vindos; a escola em peso comparece. Um deles havia de ser. Tudo corre bem, mas só o galã de novela contratado especialmente para a valsa de abertura dança com ela. Fora isso, nem sequer o pai. Ninguém chega junto. Então ela sai à caça do amor eterno.

Todos pulando, alguns se beijando, ela observa, nada. Até que ele a encara e ela vislumbra o inferno, em flashes de câmera lenta, uma alucinação bem acurada: primeira vez bruta e dolorosa, ciúmes doentios, traída mesmo no dia do casamento, espancada na frente dos filhos, entedia-se dentro de casa e agoniza sozinha. Ela se vira horrorizada e topa com uma ruiva sorridente. Dançam juntas. Não é o que esperava e não vê futuro algum. Melhor assim.

Wednesday, June 09, 2010

O monstro em cima da cama

O beijo assusta. Desejava-o, mas não tem sentido. Após todos esses anos querendo-a em silêncio sofrido tinha certeza que ela havia percebido seus olhares platônicos e os desprezado olimpicamente. O retribui por instinto.

Ela então pergunta se ele trouxe o DVD do Joy Division que ficou de gravar. Isso aconteceu em um sonho. Que ele não contou para ninguém. Nem sequer tem CDs do Joy Division. “Não, esqueci”. Sorri desconcertado. “Você está tão pálido”. Sonha com ela há três dias. Teve poluções noturnas, o que não acontecia desde a adolescência. Parecia real. É real, agora, mas não parece.

Ao longo do dia procura amigos com quem sonhou. Seus sonhos têm se passado somente à noite e neles tem a autoconfiança que sempre lhe faltou. Todos se lembram das conversas e riem de novo das piadas que contou.

À noite corre para casa. Agacha-se e olha embaixo da cama. Seu duplo o encara, arrasta-se para o meio do quarto, levanta-se e sai sorrindo com desdém. É mais alto, bronzeado, forte. Faz sentido. Ele encolhe-se debaixo da cama para de lá nunca mais sair. Agora tem a vida com a qual sempre sonhou.


Miniconto que fiz para um concurso literário do site Estronho e Esquésito. O tema era "O Monstro Debaixo da Cama". Não fiquei nem entra os trinta primeiros. Mas gostei do que escrevi. Depois pretendo reescrever e expandir esse continho.

Sunday, September 06, 2009

Adendo pós-parada forçada por D.O.R.T.

Também escrevo contos e minicontos em inglês. Por ora dá para continuar com estes últimos:
http://writinginahurry.blogspot.com/

Sunday, August 30, 2009

Diário de um condenado

Estou com uma D.O.R.T. (Doença Ocupacional Relacionada ao Trabalho) , ou seja, lesão por esforço repetitivo nos dois antebraços. Não dá para ficar escrevendo muito. Vou parar com este blog e só o retomarei quando o melhorar de vez. Poucos notarão, se é que alguém notará. Então o twitter é o ideal para mim agora, estou escrevendo nanocontos (ou microcontos) diários. Minha idéia é que estes microcontos componham um painel ou diário, um pequeno romance cujos pedacinhos vão sendo escritos diariamente. Não era minha idéia no começo, mas se alguém ler na sequência vai perceber quando começa a história. Bem, aqui está: twitter.com/danielsouzaluz


Sunday, August 23, 2009

Enfim o fim

Em uma comunidade de extrema-direita, deram conta do sumiço inexplicável do velho, que tinha até um perfil no orkut, quem diria. Mas eles especulavam se não teriam sido membros do governo que teriam dado cabo dele. Velhos gagás. Queriam sair por aí batendo nesses caras em comícios, tal qual o velho clamava em seu perfil no orkut. Mas não relacionavam seu desaparecimento ao aparecimento da ossada. Isso foi o fim de tudo. Quando mostrei isso ao meu irmão, ele perdeu todas as esperanças. As tentativas governamentais de localização das ossadas, com ajuda do exército, eram patéticas, claro. Toda a investigação, tudo que ele havia investido, em nada sossegou seu desejo de enterrar meu pai em solo apropriado, católico. Para mim, no entanto, é como se o tivesse enterrado no dia em que acabamos com o velho. Está bom assim.

Sunday, August 16, 2009

Enfim parte 20

Fizemos o que tínhamos que fazer. No entanto, sabíamos que isso traria demasiada atenção. As manchetes nos jornais a respeito da primeira ossada identificada há muitos anos ressaltavam o seu aparecimento misterioso. O velho mendaz talvez tivesse se confundido, pensando bem. Mas se quis nos sacanear, impondo-nos uma vitória além-túmulo, ao menos fez a alegria de uma família que há muito queria enterrar o seu morto. Eu compartilhava da alegria deles. Meu irmão não. Cabisbaixo, dizia-me pelos cantos que temia que alguém fizesse a conexão do desaparecimento do velho e a súbita aparição da ossada. Ao menos na imprensa escrita não foi feita nenhuma menção. Nós havíamos escolhido bem, eu lhe repetia, mas não havia necessidade de reforçar isso. Ele mesmo tinha me convencido de que seria um empreendimento seguro ao fazer a investigação dele: o velho sabia muito, estava só, isolado, ninguém se importava com ele.
Mas resolvi fazer uma busca na internet. Não achei nada. Aí procurei no sistema de busca do orkut. Alguém tinha se dado conta do sumiço dele.
Continua.

Sunday, August 09, 2009

Enfim parte 19

Meses após

Não chegariam mesmo a nós. Feito o teste de DNA, descobrimos que aquele esqueleto não era de papai. O velho canalha tinha o poder de ser traiçoeiro mesmo além-túmulo. Jogamos a ossada no quintal do presidente da comissão de desaparecidos, na capital. No bilhete, expliquei que provavelmente era de um guerrilheiro. Era mesmo. Estava estampado na manchete dos jornais, duas semanas depois. Um trotskista sem ligação com o grupo de meu pai.

Continua...