Wednesday, February 21, 2018

Imagem Pública Limitada

Estava distraído. Parado no semáforo, conversando sobre política, um assunto deprimente nesta cidade em fevereiro de 2018, em que somos obrigados a saber que há um vereador obtuso falando abertamente que tem saudades da ditadura na mesma Câmara na qual, nos anos setenta, o então vereador oposicionista Dgeney Diniz de Melo foi perseguido por um mero pronunciamento sobre a PM, a ponto de o episódio figurar no notório livro Brasil Nunca Mais, com denúncias dos abusos cometidos pela ditadura militar. 
Enfim, enquanto ainda há liberdade de expressão, eventualmente usada cinicamente nos seus limites por essas figuras toscas que exultam regimes que a tolhem (pior ainda: um vereador filiado ao partido fundado por Miguel Arraes, cassado pelo regime militar), voltemos para o garoto, mais um, mas parecido demais com os demais: de barbicha, roupas que aludem ao circo, muito jovem, malvisto na família (provavelmente). Fazendo malabarismo com bolinhas. Ou malabares, como dizem.
Notei-o quando errou: uma bolinha escapou e foi parar embaixo do carro ao lado. Sorri – na verdade, ri da cara dele. Ele foi safo o suficiente para levar na esportiva: não se deixou abater, pegou uma das bolas que restaram, vermelha, e a pôs em frente ao nariz, emulando um palhaço que não meteria medo nem na mais traumatizada criança que teme essa figura.
Procurei desesperadamente por umas moedas, mas, como não estava prestando atenção antes, não as encontrei. Quando ele se aproximou, entreguei uma bala. A desculpa que dei é que ela poderia lhe dar energia. O semáforo, que não estava para brincadeiras, deixou de ser vermelho.
Foto de René Mayorga, intitulada Malabares. Disponível via licença Creative Commons no Flickr: https://www.flickr.com/photos/elchurro/158478618/
Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas) no dia 17 de fevereiro de 2018. É uma versão ampliada e principalmente atualizada da minha crônica Public Image Limited (uma homenagem à banda, obviamente), publicada aqui no blog em 12 de julho de 2015. Aproveitei a reflexão do texto original para fazer referência ao triste episódio que menciono, no qual um vereador da bancada da bala local elogiou a ditadura em sessão da câmara municipal, pois não me lembrava mais sobre qual episódio político estava conversando naquele semáforo, na avenida Santo Antônio, em 2015. Queria fazer uma crônica política, analisando o recente fato, e veio a calhar o texto antigo, assim como seu título, para dar um pouco mais de leveza.  
Daniel Souza Luz é jornalista e revisor

Monday, January 29, 2018

Missão cumprida: li 52 livros em 2017

Um ano tem 52 semanas; no fim de 2016 estabeleci como meta para mim mesmo ler um livro por semana em 2017. Consegui, dentro do que estipulei para mim: contei na lista não só livros tradicionais como também livros infantojuvenis e livretos que hoje são tidos como fanzines, mas que são impressos em gráfica e editados como obra literária com unidade. Não contei o que entendo como fanzines de fato, xerocados e anárquicos (foram dois) e revistas catalogadas ou tidas como livros  - uma da Superinteressante sobre a Grécia Antiga e uma antologia chamada Alcateia, editada pela Daniela Pace Devisate em formato artesanal, da qual participei com meu conto Síncope.

1- Devaneios Noturnos,  H.S. Gabell
2 - Devaneios Noturnos II, H.S. Gabell
3 – Sem Vergonha, Paula Tatelbaum
4 – A Invenção de Morel, Adolfo Bioy Casares
5 – O Sangue da Terra, José Carlos Mendes Brandão
6 – O Mundo Inteiro, Liz Garton Scanlon e Marla Frazee
7 – Sensibilidade, Osmar Nonato dos Santos
8 – Pergunte ao Pó, John Fante
9 – O Livro dos Cinco Aneis,  Miyamonto Musashi
10 – Uma História para Érica, Jô Moraes
11 – O Pequeno Príncipe, Antoine de Saint-Exupéry
12 – Sejamos Todos Feministas, Chimamanda Ngozi Adichie
13 – Da Tranquilidade da Alma e outros ensaios, Sêneca
14 – Contos, Machado de Assis
15 – A Anarquia, Errico Malatesta
16 – Coração Indomável, Daniela Pace
17 – Anticâncer, David Serban-Schreiber
18 – Partilhando a Vida, Andreia Zafariz
19 – Poetize a Liberdade, Letícia Pereira
20 – Bestiário, Julio Cortázar
21 – No País das Fadas, H.G. Wells
22 – O Fabricante de Paisagens, de Fábio Oliveira e Mary Hellen Andrade
23 – Bilhetes Poéticos 3, de Gabriel Souza
24 – Quem Manda na Selva, Dany Wambire e João Timane
25 – As Andorinhas, Paulina Chiziane
26 – O Cão na Margem, Luis Carlos Patraquim
27 – Fogo Preso, Andes Chivangue
28 – Outras Coisas, Clemente Bata
29 – Lavoura Arcaica, Raduan Nassar
30 – O Menino no Espelho, Fernando Sabino
31 – As Aventuras de Ngunga, Pepetela
32 – Cidadela Ardente, Thelma Guedes
33 – Vozes do Retrato, Dalton Trevisan
34 - O Menino do Pijama Listrado, John Boyne
35 – O Poço & Outras Histórias, Mário de Andrade
36 – Ganga Zumba, João Felício dos Santos
37 – Festa no Salão, Sérgio Biscaldi
38 – A Arte da Guerra, Sun Tzu
39 – Os Melhores Contos de Fernando Sabino
40 – O Doente Imaginário, Molière adaptado por Marília Toledo e ilustrado pela Laerte
41 – 80 Graus, Latitude Norte, Júlio Verne
42 – Escrever Sem Doer, Ronald Claver
43 – As Tranças de Bintou, de Syviane A. Diouf e Shane W. Evans
44 – Guia Prático da Nova Ortografia, de Paulo Flávio Ledur
45 – Crônicas, volume 3 do Para Gostar de Ler, com crônicas de Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Fernando Sabino e Carlos Drummond de Andrade (releitura; já havia lido quando criança).
46 – Descanse em Paz, Meu Amor, de Pedro Bandeira
47 – Sessão, Roy David Frankel
48 – Para Brisa, Ni Brisant
49 – Frankestein, Mary Shelley
50 – Legados, Naide Cazali
51 – Uma Experiência de Fé e Política, João Mauro Bernardo
52 – Os Rebeldes: Geração Beat e Anarquismo Místico, Cláudio Willer

Tuesday, January 09, 2018

A Cura

Certa feita caí doente a ponto de preocupar muito minha mãe e meu pai, já calejados com crianças enfermas, o que é bem normal. Tive uma infecção das vias aéreas superiores que os obrigou comprar um aparelho para inalação. Tomados os remédios receitados pelo pediatra, fiquei ótimo, mas houve um efeito colateral inesquecível. Tive alucinações muito vívidas.
Foi talvez a experiência mais psicodélica da minha vida e curiosamente aconteceu com drogas legais e quando eu era criança. Após a inalação, deitei-me na cama dos meus pais. Fiquei de boa por um tempinho, até que vi um clone meu emergir da minha barriga. Foi um nascimento sem sangue, simplesmente um gêmeo originou-se de mim e ergueu-se sobre meu corpo. Só que não parou aí. Outro clone saiu da barriga dele, simplesmente emergiu também. Antes que me desse conta de dizer algo, cópias exatas de mim apareceram por todo o quarto, simplesmente brotaram no ar. Estavam todos com a mesma roupa que eu estava usando, um shorts e uma camiseta cinza do Mickey. Senti que todo o oxigênio estava sendo sugado do cômodo e levantei-me desesperadamente, empurrando meus outros eus. Eles sumiram assim que me movi; enquanto recuperava o fôlego achei que tinha sonhado.
Aquietei-me e deitei-me novamente. Estava muito mole para chamar por alguém de casa. Não deu um minuto e apareceu mais um clone. Mas dessa vez era uma miniatura do tamanho de um boneco do Falcon, popular nos anos oitenta, andando por cima da cômoda. Mas era eu mesmo, com a mesma roupa, numa versão liliputiana. Este pequeno clone era agressivo. Ficou me xingando, o que estava de bom tamanho, perdoem-me o trocadilho infame, pois ao menos era um só. Mas ele foi me irritando tanto me chamando de babaca e berrando outros impropérios gratuitamente que quis dar um jeito nele. Fui pegá-lo e bati a testa na quina da móvel. Ele me encarou um pouco e sumiu. Nessa hora tive certeza que nada daquilo era sonho e que foi tudo alucinação.
Creio que se isso acontecesse hoje em dia ficaria encanado. Mas como era criança, achei tudo ultra divertido. Tirando o susto da falta de ar e a dor momentânea de ter batido a cabeça, findas as duas alucinações, não foi nada muito aterrorizante. Na verdade, visualmente foi fascinante. Virei pro lado e dormi. Nunca mais tive algo assim. Nem comentei nada para meus pais no dia seguinte, já que não me preocupei nem um pouco. Já contei essa história para alguns amigos e agora me dou conta de que deveria ter contado para os adultos o que se passou comigo, afinal há nas bulas os efeitos adversos que advém desses relatos. Mas nem me lembro o nome dos remédios mais, não faço a menor ideia. Deve ser um efeito colateral raríssimo. Tudo bem, boa viagem.
Daniel Souza Luz é jornalista e revisor
Capa do disco The Top, lançado em 1984 pelo The Cure.
Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em seis de janeiro de 2018; era inédita e esta versão é idêntica, não a reescrevi ou precisei corrigi-la ao revisá-la. Embora não mencione e não seja inspirada na banda, o título é uma homenagem ao The Cure.

Friday, December 29, 2017

Prazeres Desconhecidos

Foi num vídeo do Grito da Rua. Era um programa sobre skate, dos anos oitenta. Às vezes amigos iam para São Paulo e o gravavam da TV Gazeta. Mas também havia um home vídeo nas locadoras. Fiquei tão fascinado com as reportagens e trilha sonora que o loquei novamente e com um gravador registrei uma fitinha com o som ambiente vindo da caixa da TV. Isso foi em 1988 ou mais provavelmente em 1989 - muito mais provavelmente em 1989. Foi meu primeiro contato com Pixies, Sex Pistols, Meteors, T.S.O.L. e com o rap nacional, pois também havia MC Jack e Código 13. 
O Sex Pistols já era uma das minhas bandas favoritas, mas só conhecia de ler a respeito, não de ouvir. O legal é que a música deles, que servia de trilha para uma reportagem sobre skate numa piscina de uma casa abandonada - mas sem as paredes curvas das piscinas gringas -, era C'Mon Everybody, versão divertida de uma canção, também ótima, do Eddie Cochran. Essa cover era cantada pelo guitarrista Steve Jones e quando finalmente ouvi o Never Mind the Bollocks, pouco depois, o impacto fulminante dele estava integralmente preservado, porque a sonoridade era outra, muito mais agressiva.
A primeira música, após a abertura com Ceremony, era Disorder, do Joy Division. Minha música favorita do New Order era Ceremony, ou seja, eu já era fã do Joy Division um ano ou dois antes, sem saber. A cena era impactante: uma reportagem sobre o skate de rua no centro de Sampa. Um dos skatistas, Neguinho, subia em transições de esculturas modernas, que inclusive tinham uma parte móvel. Ao fundo, alguém passava fazendo um g-turn. Ao fim, desciam um calçadão lotado de passantes que pareciam até um pouco indiferentes àquela algazarra, como se fosse algo usual, enquanto Ian Curtis cantava solenemente: "I've got the spirit, but I´m losing the feeling". Toda a música era ficção científica, convidando para um futuro desafiador, com ruas hostis, no qual é preciso ser safo e estar preparado. E foi isso mesmo que aconteceu, nos 28 anos seguintes.
Capa feita por Peter Saville para o disco Unknown Pleasures, do Joy Division (1979).
Esta é minha última crônica do ano. É uma versão ampliada da minha Micrônica 1979, que publiquei no Instagram em oito de dezembro de 2017, cujo título alude ao ano de lançamento de Unknown Pleasures, o primeiro LP do Joy Division. Como algumas das minhas micrônicas escritas à mão são relativamente extensas, não se restringindo mais ao limite de caracteres do twitter, pensei em aproveitá-las como crônicas mesmo, expandindo-as.

Tuesday, December 26, 2017

Papai Noel, Velho Batuta

Quando criança, acreditava em Papai Noel mesmo e continuei acreditando por muito tempo, até os onze anos. Isto é uma hora extra da ingenuidade, duvido que outras crianças dos anos oitenta continuassem acreditando até uma idade tão avançada para a puerilidade, quanto mais as de agora, com mais acesso ainda à informação. Foi quando ganhamos bicicletas. Eu, meu irmão Eurico e minha irmã Fernanda não conseguíamos dormir cedo, ansiosos para ganharmos nossas magrelas. Minha mãe até que tentou nos distrair, mas não teve jeito, meu pai vacilou na hora de sair e sacamos que foi ele quem trouxe as bikes. A Nanda não sei, mas eu e o Eurico percebemos na hora. Papai Noel morto à parte, o importante é que papai é quem estava vivo e no dia seguinte já estávamos de rolê sobre duas rodas.
Aquele ano de 1985, coincidentemente, foi o ano de lançamento de Mais Podres Do Que Nunca, o primeiro disco do Garotos Podres, punks do ABC paulista. O vinil tem o clássico Papai Noel Velho Batuta, cuja letra logo me chamou a atenção, dois anos depois, ao, milagrosamente, ouvi-la no rádio: “Papai Noel/O velho batuta/Rejeita os miseráveis/Eu quero matá-lo/Aquele porco capitalista/Presenteia os ricos/Cospe nos pobres!”. Se Papai Noel não existe, então tudo é permitido. Na verdade, a original tinha um palavrão no título, mas a censura, na redemocratização ainda capengando, os obrigou a mudar o título e a letra. A real é que, por mais que goste de palavrões, prefiro versão com “batuta”, soa muito mais irônico. Virou um hino natalino, gosto de cantá-la em natais em família e na web é possível até encontrá-la numa versão com coral, com o devido palavrão no lugar. Toma essa, censores.
Talvez o melhor natal de todos tenha sido justo por aí, 1987 ou 1988. Meu pai tinha uma picape, salvo engano uma Fiorino, e como vivíamos uma era de irresponsabilidades no trânsito, não só toleradas, como incentivadas, ele levou eu, meus irmãos e nossos amigos para darmos uma volta na caçamba, no centro da cidade. Uma cena bastante comum, à época. Mas à noite, nas ruas centrais, foi inédito para nós. O encantamento das luzes e enfeites vistos com vento na cara é uma sensação de liberdade que permanece comigo. Melhor presente.
Capa e contracapa de Mais Podres do Que Nunca (1985), primeiro LP dos Garotos Podres.


Esta crônica natalina foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em 23 de dezembro de 2017. Outro texto inédito, escrito especialmente para o jornal, republico-o aqui levemente revisado - corrigi apenas um erro à luz da nova ortografia e alterei uma frase do último parágrafo apenas para que ficasse mais clara, não mudando em nada o seu sentido.

Wednesday, December 20, 2017

The Smiths

A descoberta do The Smiths foi inesquecível para mim. Como inúmeras bandas dos anos oitenta, cheguei atrasado. Tudo bem, era pré-adolescente à época. Num belo dia – ou, melhor dizendo, numa sombria tarde – liguei a TV Cultura e o Kid Vinil, que infelizmente faleceu neste ano, anunciou numa chamada, em tom lúgubre, que apresentaria um especial chamado The Smiths Are Dead. Passava um trechinho de uma música de fundo, creio que de The Boy With The Thorn In His Side, embora não me lembre com certeza. Foi o suficiente para captar minha atenção, pois me apaixonei pela harmonia. À primeira audição.
Hoje imagino, caso tenha a oportunidade de rever esse especial, que acharia a abertura datada, mas à época me impressionou fortemente: uma montagem em computador, com cores fortes, de um cemitério exibindo uma tumba com a inscrição The Smiths. Fora engano, havia a data da existência da banda gravada no túmulo: 1982-1987. No início do programa, Kid Vinil avisou que os Smiths haviam acabado de encerrar suas atividades.
Como o grupo terminou ao lançar o disco Strangeways, Here We Come, em setembro de 1987, aquele especial foi no final daquele ano, quando eu tinha doze primaveras ou já havia recém-completado treze anos. A sequência de videoclipes foi matadora, foi sorte ter contato com esse material em tenra idade. O clipe da já mencionada The Boy... era o menos interessante deles, mas servia para saber como os integrantes eram, pois não tem nada além deles tocando num pequeno cômodo. Os demais são obras-primas; por mais que essa palavra seja desgastada, não há outra para qualificar tamanhas preciosidades.
Por uma hora, assisti, hipnotizado, clipes como os de Girlfriend In a Coma, There´s a Light That Never Goes Out, Ask, How Soon Is Now e outras músicas que hoje são clássicas. Anos depois, descobri que vários destes vídeos foram dirigidos pelo cineasta Derek Jarman. Em alguns ele usa o já naquela época superado formato super-8. O efeito é arrebatador; embora ainda tivesse o inglês incipiente, percebi que How Soon Is Now evocava um amor inatingível. As imagens da belíssima modelo loira de cabelo chanel, de trechos desfocados de show, das chaminés de uma indústria muito poluente, sugeriam algo inatingível – inclusive para mim. As camadas de guitarra e a ambiência misteriosa do som arrematavam as imagens de forma mesmerizante. É muito curioso que minha relação com a música seja tão influenciada pelo audiovisual, muitos anos antes da estreia da MTV no Brasil.
As canções dos Smiths sobrevivem também sem a lembrança dos vídeos. A delicadeza das melodias, o vocal inaudito e inconfundível de Morrissey, o lirismo arrebatador das letras redundam numa banda única. Ainda bem que nunca houve uma volta, por mais que talvez gostasse de ver. Tiveram uma carreira intensa, sem nenhum disco ruim. Ao menos vi uma apresentação do guitarrista Johnny Marr em 2015, no festival Cultura Inglesa. Ele tocou várias músicas dos Smiths, o vocal dele não comprometeu e, para minha completa surpresa, conseguiu reproduzir aquela sonoridade fantástica de How Soon Is Now ao vivo. Não é pouco, há bandas indies posteriores aos Smiths, da chamada geração shoegaze, que não conseguem fazer ao vivo alguns efeitos que obtinham em estúdio; consta que é o caso do My Bloody Valentine e constatei isto pessoalmente num show do Swervedriver, no ano passado.
Aquele especial The Smiths Are Dead também me marcou por outro motivo. A TV ficava na sala, não havia outra. Bem na hora em que o especial estava passando, uma menininha que havia se mudado naquele final de semana para o prédio em que morava foi brincar com minha irmã Fernanda no nosso apartamento. Fiquei pistola com a algazarra e os gritinhos dela e as enxotei da sala. É por isso que sei e sempre digo para a minha amiga Ana Karla Rodrigues que a conheço e a sua família – era a irmã dela, Paulinha, que estava bagunçando minha experiência com os Smiths – desde 1987. Ou seja, somos amigos há exatamente três décadas.   
Daniel Souza Luz é jornalista e revisor
Minha coleção em vinil dos Smiths. Todos foram presentes da minha mãe, adquiridos num sebo de Beagá.
Esta crônica foi originalmente publicada em 16 de dezembro de 2017 no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG). Foi a minha primeira crônica inédita em meses, as anteriores foram versões retrabalhadas de crônicas que publiquei neste blog. Esta versão foi revisada e corrigida; na original grafei incorretamente Thorn (escrevi "The Boy With The Torn in His Side") e cometi um erro factual: não vi um vídeo de Panic (há versão ao vivo), mas sim o de Ask. Também substitui o verbo "acabou" por "terminou" no início do segundo parágrafo, para não deixar a leitura cansativa.

Tuesday, December 12, 2017

Talking Heads, uma crônica imersiva

Uma das lembranças mais antigas e marcantes que tenho é de quando a TV Tupi saiu do ar. Foi tão estranho... Há pouco tempo me dei conta de que foi a primeira morte que testemunhei. Pesquisando depois, já adulto, vi que isso foi em meados de 1980. Tinha cinco anos, portanto. Um dia liguei a televisão e o canal havia desaparecido – época da ditadura, agora isso me parece sinistro. Houve um aviso do fim no dia anterior, tenho uma vaga lembrança; não sei se isso é uma memória falsa que criei.
Há outro fato esquisito: li que a Tupi tinha novelas. Não me lembro bem disso. A Globo tinha e que odiei o fato dela ser a única outra estação de televisão que pegava bem, porque à noite gostava de ver faroestes e desenhos. Recordo-me até que pegava o sinal da Globo de São Paulo, mas logo apenas o noticiário de Minas passava aqui, isso antes da EPTV. Parece que me lembro do Chaparral na Tupi, mas talvez tenha sido apenas na Record, nos anos oitenta. Bonanza passava na Tupi, disso tenho certeza. Não me lembro das tramas, mas me recordo de algo muito melhor.
Há até fotos datadas de 1979. Eu andava com chapéu de cowboy e armas de brinquedo quando era criancinha. Meu irmão Eurico também. Na verdade tenho lembranças até mais antigas, de quando tinha uns quatro anos, de gostar de filmes e seriados de faroeste. E tinha um hábito mais solitário, não brincava só com meu irmão de mocinho e bandido. Eu gostava de participar dos faroestes. Fazia assim: postava-me ao lado da TV. Prestava atenção ao que os personagens diziam e participava dos diálogos. Como tinha muito plano americano, agia como se estivessem falando comigo também. Se alguém dizia “A emboscada será no desfiladeiro” eu tentava responder com algo que fizesse sentido, como “Isso mesmo amigo, vamos pelo outro caminho!”. Como ficava feliz quando o diálogo calhava com o que eu dizia! Muitas vezes dava certo.
Só havia um senão: geralmente os personagens para os lados dos quais me bandeava morriam ou se ferravam. Então começava tudo de novo, no meio do filme ou episódio, como se nada houvesse acontecido. Fazer o quê? Mas eu estava sempre presente na trama. Acho que fui um pioneiro da realidade virtual, isso sim foi imersão.
David Byrne, vocalista do Talking Heads, em foto de 2009. Não há créditos para o fotógrafo, peguei-a via licença Creative Commons página Alterna 2, no Flickr. Link para a foto original: https://www.flickr.com/photos/alterna2/3472249824/

"Talking Heads, uma crônica imersiva" foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas/MG) em nove de dezembro de 2017. É uma versão retrabalhada de uma crônica de mesmo nome publicada aqui no blog em 26 de janeiro de 2017. O nome, obviamente, é uma homenagem à clássica banda new wave.