Tuesday, October 03, 2017

Fellini (terceira versão)

É curioso quando penso hoje a respeito porque os nomes nem se parecem muito. No fim dos anos oitenta, quando eu tinha entre 13 a 15 anos – ou seja, entre 1988 e 1990 –, comecei a gostar de dois grupos que tocavam muito de vez em quando no rádio: Fellini e Defalla. Como era o auge do chamado BRock, o rock brasileiro que finalmente caiu no gosto popular, até mesmo grupos alternativos tinham certa projeção. Eram tempos de informações escassas e nada sabia sobre as bandas, a não ser que eram brasileiras, porque cantavam em português. Mas confundia uma com a outra e na minha ingenuidade ainda meio infantil achava que quem tinha uma música chamada Teu Inglês era o Defalla.
Desfiz a confusão quando comprei o 3 Lugares Diferentes, vinil do Fellini lançado pelo legendário selo independente Baratos Afins. Só consegui encontrá-lo em 1991, ou mais provavelmente em 1992, quando comprei muitos discos num tradicional sebo de Poços de Caldas, pois muita gente se desfazia de vinis na era do CD, para a minha felicidade. Vinil era algo meio inacessível que se tornara barato... e atualmente deixou novamente de ser acessível.
Mais curioso ainda é quando reflito por que Teu Inglês é uma música que me fascinava tanto. Talvez gostasse do sentimento de saudade que a letra evocava, ainda que fosse novo demais para isto. Mais do que isso, noto que somos, em boa medida, produtos do nosso tempo. Gosto tanto da sonoridade pós punk porque vários discos do fim dos anos setenta e começo dos anos oitenta estavam saindo no Brasil naquela época, com atraso: obras do Joy Division, PIL, The Cure, The Fall, Siouxie and the Banshees, os primeiros do New Order e tantos outros. Não sabia ainda de nada disso, mas escutava no rádio e principalmente em programas de skate na TV; além disso, bandas como Legião Urbana, U2 e o próprio New Order eram muito populares, preparando meus ouvidos para as sonoridades mais experimentais do gênero.
Se não deixo de ser um produto do meu tempo porque o Fellini que mais me importa é a banda, ressaltando que também amo os filmes de Federico Fellini, devido às memórias da adolescência, não deixo de ter alguma satisfação por também não ser exatamente um produto e me encaixar nos padrões de qualquer indústria cultural, mesmo que alternativa: Teu Inglês é única, muito diferente de Rock Europeu, outra música do Fellini que fez pequenino sucesso à época e tinha forte influência pós punk – ainda que em certa medida o ironize –; no entanto, só a conheci décadas depois. Se algo que não se encaixa nem nos padrões tortos que procuravam fugir de padronizações me fascinava quando garoto, é porque estava na senda certa. Minha irmã Fernanda reparou no ano passado, quando eu ouvia o vinil, que Teu Inglês tem até alguma brasilidade escondida no ritmo. Alquimia que só me interessaria de verdade muitos e muitos anos depois. Ou seja, a música também instruiu meus ouvidos, mas para outros experimentos.
Daniel Souza Luz é jornalista e revisor

Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas) em 30 de setembro de 2017. É uma versão corrigida de uma crônica de mesmo nome que havia publicado aqui no blog em 11 de julho de 2016. No entanto, esta versão difere da do jornal em algum detalhes, portanto aquela fica exclusiva para o papel. Nesta fiz ainda mais correções de português e ampliei ainda um pouco mais, incluindo o nome da minha irmã e algumas frases. Mais importante para mim, a frase que abre o último parágrafo era acidentalmente longa e a tornei propositalmente extensa, adicionando mais uma oração - já era tortuosa e queria torná-la mais torta ainda, pois falo justamente de caminhos tortuosos. No entanto, creio ter alcançado meu intento de ainda assim ser compreensível e principalmente fixar-me menos no estilo de frases muito curtas que adotava antigamente. Cansei-me disso, passei a prezar um pouco mais de complexidade, meio como um punk que passa a gostar de rock progressivo.

Capa de 3 Lugares Diferentes, álbum do Fellini lançado em 1987.
 

Tuesday, September 26, 2017

Anjos de Satélites

Vários dos meus melhores amigos, quando eu era criancinha, eram de desenhos animados e de gibis. Eles eram tão legais quanto os melhores amigos da vida. Ninguém brigava comigo, nem os amigos de verdade e nem os dos desenhos e das histórias em quadrinhos, que também eram “de verdade” para minha imaginação infantil; os amigos dos desenhos só brigavam entre si na TV e nas revistas, mas ninguém nunca se machucava – ou não se machucava muito – ou morria. Nos gibis do Gasparzinho, os fantasmas e os diabinhos também não morriam. Ninguém morria, nem os mortos.
Lembro de uma visita à tarde de uma tia lá no apê da minha infância. Ela ficava abismada toda vez que via um amigo meu atirando no outro na TV. Achava os desenhos muito violentos.
- É normal tia, ninguém morre de verdade.
Bem nesta hora em que esta minha tia apareceu em casa sem eu saber, o Jerry matou o Tom com um tiro. Ele não foi pro céu e voltou. Ele morreu mesmo, da famosa morte matada.
- Viu, te falei! As pessoas morrem sim – ela implicou.
Lá se foi uma inocência.  

Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade (Poços de Caldas) em 23 de setembro de 2017. É uma versão levemente reescrita, com um final que julgo muito melhor, do meu miniconto autobiográfico Comsat Angels, publicado aqui no blog em 23 de novembro de 2015 e agora despojado de seus poucos elementos ficcionais. O estilo, imitando a escrita infantil, foi fortemente influenciado pela leitura do livro Brinquedo, de Aran Carriel. O título é justamente uma tradução aproximada de Comsat Angels e homenageia a banda inglesa pós punk de mesmo nome. A capa escaneada do gibi do Brasinha foi tirada de um site de HQ e creio que não infringe - ao menos espero que não infrinja - nenhum direito autoral, por ser um registro histórico de uma revista já extinta. Já a havia usado de ilustração na postagem do texto original.

                                         

Friday, September 22, 2017

Prédios Novos Já Velhos

A quarta crônica que publiquei no Jornal da Cidade (Poços de Caldas) foi Prédios Novos Já Velhos, em 18 de março de 2017. É uma versão levemente reescrita da crônica Einstürzende Neubaten, publicada aqui no blog neste ano mesmo, dias antes, em dois de março. Traduzi o título, mas mantive a homenagem à banda alemã de som industrial de mesmo nome, da qual gosto muito.
Rua Platina, com o Edifício Beta à esquerda. Tirei esta foto com celular em 2012.

Tuesday, September 19, 2017

Au Pairs, Crônica de uma Infância Feliz.

Au Pairs: crônica de uma infância feliz foi publicada no Jornal da Cidade, Poços de Caldas, no dia 16 de setembro de 2017. É uma versão retrabalhada e um pouco ampliada de uma crônica com o mesmo título e subtítulo que publiquei originalmente no blog em 27 de dezembro de 2016. O título é uma homenagem à banda pós punk feminista Au Pairs, formada na Inglaterra no final dos anos setenta do século passado.
http://www.jornaldacidade1.com.br/au-pairs-daniel-souza-luz/

Tuesday, September 12, 2017

Arame

Invasão de propriedade. Nunca vimos como maldade ou crime. Criança não conhece essas fronteiras. Sabem que elas existem, mas se não estragamos nada, qual o problema? Nos anos oitenta, com o fim da ditadura, tudo tinha cheiro de liberdade.
Uma das melhores lembranças que tenho da época é pular dentro do pátio de uma loja de pneus e artigos automotivos que ficava fechada do sábado à tarde até a segunda de manhã e ficarmos andando de skate no cimento liso daquele lugar tranquilo, que até hoje permanece o mesmo, pois, claro, nunca estragamos nada, não queríamos ser descobertos e repreendidos – ainda tenho vontade de pular lá dentro, sei que continua igual, pois sou cliente da loja. Em 2014 cheguei a andar de skate no pátio aberto na frente, que também é grande e propicia bons rolês, mas não tem tanta graça quanto pular aquele muro. Mas deixa isso pra lá, também me lembro de amigos relatarem que a Cida Caselli deu um apavoro neles quando pularam lá, há quase trinta anos. Ela ainda tem muitos fãs por aí e já não sou mais tão novinho para ser tão desajuizado.
No mesmo quarteirão dessa loja, o de baixo de onde eu morava, no bairro Marçal Santos, tinha uma fábrica de chocolates na qual ia, quando criança, com a minha mãe; lá, os funcionários sempre me davam bombons! Não bastasse essa ótima memória, há outra. Uns dez anos depois, nos idos de 1989, como esta famosa fábrica, a Milktex, faliu, eu, meu irmão e um amigo já falecido, o Maurício Rodrigues, resolvemos ver o que havia por trás dos muros. Que surpresa: tinha uma piscina vazia lá dentro! Ou um tanque azulejado, não sei por que haveria uma piscina ali. Com uma parede curva, que acompanhava a esquina, pois a piscina ficava num canto da fábrica. Não havia transição, tínhamos que andar lá dando wall rides (manobra que consiste em lançar o skate contra a parede e andar brevemente nela, na vertical). Claro que pulamos o muro. Era divertido, mas fomos pouco lá, pois não éramos tão bons nisso e havia o medo de sermos apanhados. Foi o mais perto que já cheguei de andar de skate em uma piscina como as da Califórnia – é uma pena mesmo as daqui não ter transições. Quando penso nisso, parece um sonho, de tão fantástico que foi; líamos nas revistas de skate sobre os secret spots, lugares segredos que um grupo de skatistas jamais contava para os outros, e aquele era o nosso.
Andar de bike e entrar em fazendas ou áreas de represa ou usinas de força (ou algo assim) era mato – literalmente também. Fazíamos isto constantemente à época. O problema sempre foram os arames farpados, alguns enferrujados. Um de nós às vezes se enroscava. Bons tempos, – sei que essa expressão é clichê, fazer o quê? – mas bons tempos mesmo em que as grandes enroscadas eram essas.  
Colin Newman, do Wire, ao vivo em 2011, em Chicago, Illinois, Estados Unidos. Foto de Gina Collecchia, via Flickr/Creative Commons - licença para uso sem fins lucrativos.
Esta crônica foi publicada no Jornal da Cidade, Poços de Caldas, em sete de setembro de 2017. O título é uma homenagem ao grupo britânico de art punk/pós punk Wire. Cheguei a titular a crônica como Arame Farpado, mas o editor do jornal, João Gabriel Pinheiro Chagas, preferiu o título original e ficou uma homenagem literal mesmo à banda. Trata-se de uma versão reescrita e ampliada da crônica que se chama Wire mesmo, publicada neste blog em 14 de dezembro de 2015. Para quem não é poços-caldense: Cida Caselli era uma comissária de menores, já falecida, que tocava o terror em crianças e adolescentes da cidade nos anos oitenta, portanto antes do surgimento do Estatuto da Criança e do Adolescente e do Conselho Tutelar. A foto que ilustra o texto foi originalmente publicada no Flickr e a usei devido a uma licença Creative Commons. 

Wednesday, September 06, 2017

Cabine C

A terceira crônica que publiquei no Jornal da Cidade (Poços de Caldas), em 08/03/2017, foi Cabine C, uma versão muito ampliada de uma pequena crônica quase homônima que já havia publicado aqui no blog em 29/06/2016, originalmente titulada "Cabine C, uma crônica sobre uma das maiores aventuras de infância". O título é uma homenagem à banda brasileira pós punk de mesmo nome, que lançou apenas um disco em 1986; no primeiro parágrafo fiz uma citação ao Atari Teenage Riot, grupo alemão de digital hardcore. A reescrevi porque acho que não havia conseguido passar a sensação de maravilhamento que tínhamos quando crianças na aventura que narro, mas na versão que saiu no jornal creio que consegui meu intento, devido à repercussão e ao fato de que o relato também me satisfez muito:

Tuesday, September 05, 2017

Televisão, crônica de uma infância cheia de fascínio

Esta crônica é uma versão ampliada de "Television, crônica de uma infância cheia de fascínio" que publiquei no blog em 16 de janeiro de 2017. O título original é uma homenagem à banda protopunk de mesmo nome e a primeira frase é uma citação explícita à música homônima do Titãs. A versão abaixo, com o título aportuguesado, foi publicada no Jornal da Cidade, Poços de Caldas, em dois de setembro de 2017.

A televisão me deixou inteligente, muito inteligente demais. Acordava cedinho no sábado só para ver desenho animado. Antes das oito da manhã ainda dava tempo de assistir Urso do Cabelo Duro e Bionicão. Tenho vagas recordações, pois isso foi há mais de trinta anos, mas me parece irônico e cômico que o primeiro desenho retrate um bando de hippies safos travestidos de ursos e o segundo um cão policial. Como nunca havia pensado nisso? Às vezes rolavam uns crossovers nos desenhos; ainda bem que nunca puseram o Bionicão para reprimir a turma dos ursos, afinal eles eram espertinhos, mas não malandros.
O que era legal demais nesses desenhos é que eles eram psicodélicos, pois eram dos anos sessenta e setenta, mas ainda passavam nos anos oitenta. Os Incríveis era infinitamente mais bacana do que a banda de mesmo nome. Banana Split devia ter ácido nos ingredientes. Jackson Five era tão massa quanto o grupo mirim do Michael Jackson e seus irmãos. A Corrida Espacial fazia discotecas parecerem baladas com viagens boas; apesar de já ser da era disco, o psicodelismo era muito mais mesmerizante. Dias de aventura.  Não esqueço de jeito nenhum das pouquíssimas vezes em que passou o desenho do Recruta Zero, que era um dos meus gibis favoritos. E de que tinha que explicar para os incautos que Danger Mouse não só não era a mesma coisa como também era infinitamente mais legal do que Super Mouse.
Aprendi a ler graças a meu pai, que lia quadrinhos para mim e meu irmão; por isso antes mesmo de entrar na escola conseguia ler alguns trechos, pois queria saber logo como terminavam as histórias que ele não tinha tempo de acabar de ler. Saquei os rudimentos sozinho. Quando lia os créditos nos desenhos animados, mesmo sem saber inglês, notei que havia quem escrevia aquelas histórias e dava vontade de ser um daqueles caras. Como desejar ter um emprego normal se você pode imaginar e escrever as peripécias do Johnny Quest?
Imagem de divulgação do super legal desenho do Jackson Five.