Monday, February 27, 2023

Eu estava errado

Lembro quando comecei a achar carnaval algo idiota. A explosão do ônibus espacial Challenger foi em 1986 e no carnaval daquele ano meus pais me levaram em uma matinê no Palace Casino, no centro de Poços, junto com meus irmãos. Pode até ter sido o de 1987, mas como o acidente foi em janeiro provavelmente foi em 1986 mesmo. Lembro-me de andar na praça para chegar ao local, de estar um clima legal, de ver crianças soltando bolhas de sabão. Então entramos no salão: um monte de criancinhas chatas correndo de um lado pro outro, aquelas músicas de sempre (“Maria Sapatão, Sapatão, Sapatão...”). Não entendi por que se pagava para entrar lá. Afinal, na rua também tinha folia. Achei tedioso, mas não estava horrível. Talvez meus irmãos tenham se divertido, não me lembro mais. Não seria nada marcante, a não ser por um detalhe: uma das pinturas na parede retratava a explosão da Challenger. Mesmo aos 11 anos, achei o cúmulo da idiotice; o que tem a ver a morte de sete astronautas com uma festa teoricamente alegre? Eu fiquei muito incomodado, pois adorava ler sobre astronomia e exploração espacial. Comecei a ter antipatia por carnaval naquele instante e também por Poços de Caldas, que passei a ver como uma cidadezinha besta. Ainda não tinha palavras para isso, mas instintivamente notei uma mentalidade provinciana na cidade, que cultuava tudo que era arcaico. “Os tabaréus comemoram mesmo a explosão de qualquer um que possa significar conhecimento para a humanidade”, escrevi posteriormente. Para mim carnaval, na real, era isso: um bando de idiotas se divertindo às custas dos outros. Bem naquele estilo Jorge Perdigoto, a paródia de carnavalescos cafajestes feita pelo grupo humorístico Hermes e Renato. Mas eu era bem pretensioso para alguém tão jovem, hein? No fim da adolescência, capitulei e até enchi a cara em alguns carnavais. Foi bacana, mas, no geral, os que mais me diverti foram os que passei isolado, lendo livros, longe de quem eu considerava imbecil. Pois bem, hoje noto como eu estava errado. Só compreendi isso de vez no carnaval de 2010. Foi quando entendi a função libertadora da festa. Meio por acaso, curei-me de vários males. Eu me diverti à beça, como poucas vezes na vida. Cheguei até ver desfile das escolas de samba no sambódromo do Rio de Janeiro dois anos depois. Qualquer carnaval é bom, claro: seja caindo na folia ou isolado lendo, vendo filmes e ouvindo música; lembro de um ótimo inclusive, creio que em 1999, no qual não fiz muita coisa além de ouvir discos do Kraftwerk e do Wipers. Hoje penso que quem pintou aquele painel da explosão da Challenger no Palace Casino talvez quisesse apenas registrar fatos históricos recentes; salvo engano, puxando do fundo da memória, tinha até uma pintura do Tancredo Neves lá, falecido um ano antes. Isso poderia ser considerado, talvez, de mau gosto também, quem sabe? Ou entendido como simples homenagem. No caso do ônibus espacial, teria sido melhor pintar retratos dos astronautas do que que a explosão. Vai ver isso nem passou pela cabeça do(s) artista(s), pois daria mais trabalho. De qualquer forma, não me senti ofendido pela pintura do recém-falecido Tancredo. Se a Challenger não tivesse explodido, se a professora a bordo tivesse ido ao espaço, talvez a exploração espacial agora estivesse num patamar ainda mais avançado e eu teria aproveitado melhor mais carnavais.

Daniel Souza Luz é revisor, jornalista e escritor

Esta crônica foi publicada na página 9 da edição 7948 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 25 de fevereiro de 2023. Em relação à versão publicada no jornal corrigi apenas um erro de digitação e alterei um pequeno trecho para melhorar o entendimento. 

O ônibus espacial Challenger em 26 de janeiro de 1983, três anos antes do acidente. Foto de domínio público publicada pela NASA. 


Monday, February 20, 2023

Anarquia em qualquer lugar (versão editada)

Este artigo/crônica/memórias foi publicado originalmente no fanzine Discos que F... Muitas Vidas em meados de 2022. Escrevi-o em 2021 a pedido do editor do zine, Renato Lauris Jr. Esta é uma versão resumida daquele artigo (ainda pretendo republicá-lo na íntegra), mas aqui faço uma correção importante: no original atribuí erroneamente o vocal de C´Mon Everybody ao Steve Jones. Editei esta versão para que coubesse na paginação do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG), no qual foi publicada na página 9 da edição 7946 em 18 de fevereiro de 2023.   

Fui criança, pré-adolescente e adolescente na década de 1980. Como todo mundo àquela época, geralmente conhecia uma banda ao ler a respeito e só ouvia depois – eventualmente, décadas depois. Nunca me canso de contar esta história: pouco depois do lançamento de Sid and Nancy, li sobre o filme e fiquei fascinado. O que nunca falei a respeito, no entanto, foi a circunstância engraçada: foi numa revista Veja no consultório do pediatra e eu, num ato de delinquência juvenil, arranquei a página da revista. Tenho guardada até hoje! Sei que Sid Vicious era um junkie violento – na verdade a revista já dizia isso – mas isso não me interessava ou interessa. O que me deixou tão maravilhado foi: o cara não sabia tocar baixo e foi ser baixista do Sex Pistols. Deu errado, mas podia ter dado certo. O que me maravilha foi exatamente o “não sabia que era impossível e fez” – só que fez errado, pois dane-se, inclusive foda-se esse maldito ditado. Um exemplo de vida. E o grupo chamava Pistolas Sexuais, eu estava aprendendo inglês e consegui entender – mas também é fácil de deduzir. Cara, como que podiam existir coisas assim? Acho que por isso eu, que era tão tímido e estudioso, resolvi roubar aquela página. O Sex Pistols já começou comigo do jeito certo: como uma má influência.

Era uma das minhas bandas favoritas. Sempre falava a respeito com alguns amigos. Só que eu nunca tinha ouvido, nem esses amigos. Isso foi nos idos de 1988. Nessa época, conheci através de programas de skate, fitinhas cassetes de amigos e até mesmo rádio os Ramones, Toy Dolls, Replicantes e Garotos Podres (só Papai Noel Velho Batuta no caso desses, que ouvia em rádio FM – incrível, não?). Já estava escolado no punk rock, creio. Formado no jardim da infância e pré-escolar. Mas os Sex Pistols continuaram inacessíveis até que ouvi C’Mon Everybody no Grito da Rua, um extinto programa da TV Gazeta sobre skate. Foi maravilhoso, mas não sabia que era uma cover do Eddie Cochran, pioneiro do rock, e muito menos que era o Sid Vicious que a cantava – curiosamente, me lembrava do nome dele e do guitarrista Steve Jones, mas não me recordava do nome do Johnny Rotten, então foi apropriado para aquele momento. Mas o grande dia chegou: minha avó Arminda me deu dinheiro no meu aniversário de 15 anos para eu fazer o que quisesse. Dava para eu comprar um disco de vinil, o meu primeiro.

Fui numa loja, já extinta, no centro de Poços. Foi em dezembro, um mês depois do meu aniversário, pois meus avôs moravam numa cidade vizinha, Botelhos, e só quando fomos visitá-los que ela me deu o dinheiro em vez de um presente, o que foi uma grande sacada dela e do meu avô Eurico. Na lojinha de discos tinha um cara olhando uns vinis e me chamou a atenção o Paul’s Boutique, do Beastie Boys. Ele tinha uns dreadlocks, mas era branco. Achei que ele manjava de rap e o abordei: “Beastie Boys é bom, né?”. Eu tinha lido sobre eles, mas creio que ainda não os tinha escutado naquela altura da vida. Ele me ignorou, como se eu fosse um fedelho petulante. Fiquei com raiva daquele escroto e fucei mais um pouco. Lá estava: Never Mind The Bollocks, Here’s the Sex Pistols. Perfeito para a ocasião, hein? O título já dizia tudo.

Não tenho muito o que dizer do disco em si. Naquela seção Discoteca Básica, da revista Bizz, tem um texto de um gringo chamado Peter Price, um percussionista que tocou com as Mercenárias e o Arnaldo Antunes, que é primoroso e diz tudo. Pesquisem nos sebos da vida, se pá tem na internet. Mas, em suma, o que ele destaca é o artificialismo do som: são guitarras e guitarras gravadas uma em cima da outra, “puxando o ouvinte pelo pescoço”, nas palavras do Price, que aqui cito de memória, reduzindo tudo a pó. Inclusive o baixo, que só consegui escutar depois de fazer aulas do instrumento. E foi Jones que gravou quase todas as linhas de baixo, Vicious não conseguia. Da minha parte, a produção, inspirada no conceito de wall of sound, do Phil Spector, realmente me impressionou muito, mas não foi só isso: a música era raivosa, parecia me chamar para a briga, não era divertida como os Ramones, os Toy Dolls, os Replicantes, o Papai Noel do Garotos e os próprios Pistols com Vicious no vocal. E o que puxava isso era o vocal de Johnny Rotten, que eu não conhecia e que me deixou de queixo caído. Exalava ódio. Era algo inaudito para mim.

Foi a abertura da porta para o hardcore, o thrash metal, o grindcore e outras formas de música mais extremas para mim. Claro que os Pistols soam inofensivos perto de sons assim. Hoje John Lydon não passa de um conservador patético que nada lembra o jovem Johnny Rotten ou ele mesmo, com seu nome verdadeiro, no começo do PIL – que me fascinou tanto quanto os Sex Pistols, até porque dava para escutar o baixo. Eu já estava preparado para o pós punk também. Só que isso é outra história.

Daniel Souza Luz é revisor, jornalista, escritor e professor.


A icônica capa de James Reid consertada à mão. A foto é de Tony McNeill, reproduzo aqui via licença Creative Commons e recomendo que se clique no link para se ler a fascinante história do vinil, o conflito familiar do qual ele foi centro e o conserto à canetinha pelo qual a capa passou. 


Monday, February 13, 2023

Entropia

Bilhões de mortes depois de você

Todo o Mistério d’antanho

Mergulhou no olvido

O pranto ignora o vácuo

Podia ser ouvido a 10 parsecs

Afastei-me ainda mais

Orbito o buraco negro massivo de Andrômeda

No horizonte de eventos encaro

O último titã no firmamento

Horrorizado por ter uma testemunha

Do sofrimento indizível

Pelo qual se penitenciava

Sem a almejada paz

Do instante final

Antes de ser despedaçado

O nirvana é que é ilusório

 

Daniel Souza Luz é revisor, escritor, professor e jornalista 

Este poema foi publicado na página 9 da edição 7941 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 11 de fevereiro de 2023. Originalmente chamava-se Experiência 6 e publiquei apenas no stories do Instagram para meus melhores amigos em 7 de agosto de 2020. Era, de fato, um experimento, portanto o reescrevi para publicá-lo no jornal. 

Galáxia de Andrômeda (M-31). Foto tirada em 18/09/2010 por Adam Evans e compartilhada aqui via licença Creative Commons. 


Monday, February 06, 2023

O grande poeta e sua gloríola

Esta crônica foi publicada na página 8 da edição 7936 do Jornal da Cidade (de Poços de Caldas/MG) em 04/02/2023. Eu mesmo revisei o texto.   

Ontem vi o livro de um poeta ser vendido num sebo. Fiquei surpreso: quem será que o comprou? Alguém que o conheceu? Um pesquisador? Mais provavelmente trata-se do segundo caso. Se é alguém que o conheceu, foi quando ele já estava em idade provecta. Foi o meu caso: sim, eu conheci o elogiado poeta. Só que não foi a literatura que nos pôs em contato.

Declino de revelar a identidade do grande poeta. O leitor há de entender. Conheci-o quando eu tinha uns 17 anos, ele já era idoso. Parecia mais ser o avô do filho, que era (é) um pouco mais velho do que eu. O filho era muito inteligente, mas gostava de bancar o bully. Tenho a impressão de que fingia ser estúpido para não ser zoado pelos amigos idiotas dele. Ele gostava de humilhar um amigo meu que estudava em outra sala. Felizmente nunca presenciei esses episódios cruéis, mas contavam-me a respeito. Ensino médio era um inferno e eu procurava ficar esperto. Certa feita, deixei as chaves de casa debaixo da minha carteira. Um colega do filho do poeta, que ainda viria a ser meu amigo, pegou-as e escondeu-as na hora do intervalo. Vieram me sacanear, dizendo que eu dormiria fora de casa. Eu disse que não, pois chamaria a polícia e não apenas o diretor. No fim da aula, o fulano deu a volta na minha carteira, rindo, e pôs as chaves, separadas, sem o chaveiro, em cima do meu caderno. Ele deve ter considerado uma grande tirada com a minha cara, mas eu também considerei uma vitória sobre ele. E ficou por isso mesmo.

Voltando ao tema, mas tudo está relacionado: o filho do poeta também era babaca, mas um pouco diferente da sua turminha. Viu, por acaso, que desenhei o logo do PIL (Public Image Ltd) no meu caderno. Resolveu puxar papo e nos tornamos amigos. Isso deve ter me poupado de muitos aborrecimentos. Ele odiava grunge, então em ascensão, e ficava inconformado de eu gostar de Soundgarden, Nirvana, Hole. Só que ele decidiu ser gente boa comigo, acho que era porque eu era alguém com quem ele podia conversar sobre as bandas pós punk de que gostava. Também já éramos leitores do Orwell, outra afinidade. Graças a isso pude escutar álbuns do The Cure, Joy Division e New Order que eu ainda não conhecia. Já gostava das bandas, mas ainda não conhecia todos os discos; afinal, naqueles tempos era difícil ter acesso a tudo. Ele gravava fitinhas para mim desses vinis e um dia, enquanto as gravava, me convidou para ir a sua casa.

Foi quando conheci o grande poeta. Nem sabia que ele era escritor. Foi cortês comigo. Quando o filho terminou de gravar as fitinhas, enquanto batíamos papo e ouvíamos os discos, ele me ofereceu carona até ao centro. Naquele horário o pai costumava ir numa padaria. Aceitei e, no caminho, o grande poeta fez alguns comentários sobre as moças que passavam na rua. Basicamente, ninfetas um pouco mais velhas do que eu e o filho dele – se muito. “Olha só que gostosa, ó só essa bundinha”. E ria, ria a valer.

Muito depois que ele morreu descobri que o velho tarado era poeta. Quando saiu um livro póstumo reconheci o nome do filho – de quem já não era mais próximo. Não reconheci o do poeta em si; não sabia o nome dele até então, aliás. Comentei com meu vizinho, que havia sido vizinho deles do outro lado da cidade. O livro estava sendo muito elogiado, o velho poeta era tido como um grande erudito. Meu vizinho, um velho amigo, retorquiu – lembro bem da conversa:

- É que você não o conheceu de verdade. Que homem mais estúpido! Ele era fazendeiro, tinha jeito de coronel. Ele tratava muito mal os empregados, você precisava ver. Vivia gritando.

Aí me lembrei do episódio da carona e que meu grande amigo do passado, na verdade, era um bully. Ele, com certeza, nunca me sacaneou porque ele se identificou com (parte) do meu gosto musical e, consequentemente, comigo. Hoje percebo que herdou a arrogância paterna.

Decidi nunca ler o grande poeta. Isso já tem mais de vinte anos, não existia ainda o termo cancelamento. Acho que não estou perdendo grande coisa. Se estiver, foda-se. É por essas e outras que gosto do Bukowski. Pelo menos ele deixou claro para seus leitores quem ele realmente era.

Daniel Souza Luz é escritor, jornalista, professor e revisor

Foto de Bob que reproduzo aqui via licença Creative Commons.